quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Psicólogos contra novas regras nas escolas. Dizem que poderá haver nova pandemia na saúde mental

De todas as medidas recomendadas pla Direção-Geral de Saúde e pelo Ministério da Educação para o retomar das aulas presenciais, há quatro que um grupo de psicólogos e profissionais de saúde infantil e juvenil mais contestam.

Primeiro o distanciamento físico entre as crianças dentro da sala. Outra medida contestada é o uso prolongado de máscara. Um terceiro ponto que levanta muitas dúvidas a alguns agentes de saúde mental é ainda a redução dos tempos de intervalo ao ar livre, onde o contágio é menor. Por fim, a proibição da entrada dos pais na escola, sobretudo pais de crianças mais pequenas.

Este grupo de psicólogos dizem mesmo que pode haver uma nova pandemia na saúde mental.

Fonte: SIC Notícias com vídeo por indicação de Livresco

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Educação inclusiva: no reino dos esquecidos

Gostava de começar esta crónica de uma forma diferente do habitual e, por isso, perdoem-me a audácia de vos sugerir um pequeno exercício de imaginação.

Ora suponham os(as) caros(as) leitores(as) que são pais/mães de uma criança que vai ingressar no 1.º ciclo do ensino básico em tempos de pandemia. Por muito que vos custe, e mesmo que discordem, para cumprir as normas instituídas pela Direcção-Geral de Saúde (DGS) é sabido que não vão poder acompanhar o vosso filho além dos portões da escola. Talvez essa perspectiva, a juntar às recomendações de distanciamento físico e de utilização de máscara por parte de professores e assistentes operacionais, vos deixe apreensivos e ligeiramente ansiosos. Agora imaginem que o vosso filho, esse que entra sozinho na escola pela primeira vez, é autista não verbal. Sentiram o vosso receio triplicar? Bem-vindos ao mundo dos pais dos meninos “diferentes”.

Autistas, surdos, hiperactivos, crianças com síndromes genéticas raras… Podia continuar a enumerar deficiências e condições, mas, na verdade, seria irrelevante para o caso, porque o que importa aqui é que se perceba que estas crianças e famílias, que em anos lectivos “normais” já travam lutas hercúleas, estão muito mais frágeis e desprotegidas este ano.

Sou mãe de um menino surdo profundo, com implante coclear, a frequentar o ensino pré-escolar. Um menino de três anos que utiliza a leitura labial como complemento da audição que o implante lhe proporciona e que precisa muito dela na maioria das situações. Quando o som não é suficiente para o meu filho perceber o que lhe é dito, é na leitura labial que encontra a sua maior bengala. Mas este ano, graças à covid-19, a educadora e a auxiliar da sala do meu filho estarão de máscara e a possibilidade de leitura labial simplesmente desapareceu. Como se não bastasse, a terapia da fala que realizava na instituição que frequenta está aparentemente suspensa de forma presencial (excepto em casos de elevado risco social) pelo que teremos de nos resignar a sessões de teleterapia que são infinitamente menos produtivas.

E reparem que a nossa situação não é sequer das mais complexas. Antes de escrever esta crónica pedi a alguns pais de meninos com necessidades educativas especiais que me falassem nos seus maiores medos. O que ouvi deixou-me angustiada até agora – especialmente se tiver em consideração que, para algumas crianças, a única alternativa proposta foi a de ficar em casa, como se nestas condições a socialização e a frequência da escola não fossem ainda mais importantes do que para a população infantil em geral.

É verdade que existem algumas luzes ao fundo do túnel, como o Decreto-lei n.º 10-A/2020 que, no número 6 do artigo 13.º-B, dispensa a obrigatoriedade de máscara, mediante atestado médico, a pessoas com deficiência cognitiva, do desenvolvimento e perturbações psíquicas. Se é o suficiente? Não. Mas já acalma o coração da mãe que me dizia hoje que o filho de dez anos, portador de uma trissomia, baba-se numa quantidade tão abundante que nenhuma máscara resiste.

Suponho que num ano atípico como este não haja um único pai/mãe que não esteja preocupado com a morte da escola como a conhecemos. A preocupação, contudo, pode ter motivos diferentes: se, de um lado, uns pais se afligem com o risco de os filhos contraírem a infecção por coronavírus, por outro, há pais que se angustiam com a dureza de algumas das medidas apresentadas e o medo de que o fundamentalismo prevaleça sobre o bom senso. E ambas as preocupações são válidas. Mas juntem a isto uma condição preexistente, uma deficiência mais ou menos profunda, e verão o cocktail explosivo de ansiedade que se forma.

É assim que muitos pais estão – com o coração nas mãos à espera de ver o que vai acontecer. Mas, pior do que tudo, a sentirem que, mais uma vez, os seus filhos ficaram para último. A perceberem que mais uma vez pertencem a terra de ninguém, reis e rainhas do reino dos esquecidos. É que, apesar de nos últimos tempos se repetir a palavra inclusão até à náusea, ela continua a ser pouco mais do que uma miragem. E quando se pergunta “E como faço com o meu filho surdo?” ou “E o meu filho autista, como é que as medidas vão ser adaptadas para ele?”, a resposta é quase sempre um encolher de ombros, um “Ainda não sabemos” ou um “Estamos a aguardar respostas e indicações”.

O problema? É que até essas respostas chegarem (se chegarem) há meninos e meninas perdidos e pais e mães que sentem aumentar o peso que carregam pelos dias. Sem respostas concretas nem uns nem outros terão paz.

Carmen Garcia

Fonte: Público

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Os pais podem impedir os filhos de ir à escola alegando risco de contágio?

As aulas do ensino obrigatório iniciam-se já para a semana e muitos pais não sabem ainda se irão (ou não) permitir que os filhos regressem à escola. A pandemia está longe de estar debelada e muitos especialistas preveem uma segunda vaga para o Outono, o que alimenta o receio.

Será fastidioso lembrar que zelar pela educação dos filhos é uma incumbência primeira dos progenitores, constituindo, aliás, uma obrigação legal. O art. 36º da Constituição prevê expressamente que “os pais têm o direito e o dever de educação e manutenção dos filhos”. Por seu turno, uma série de outros preceitos constitucionais asseguram o direito das crianças e jovens ao ensino e formação. Mais que um dever dos pais, o ensino é encarado, no texto constitucional, como um direito fundamental das crianças e jovens e condição indispensável à formação dos cidadãos de amanhã.

Assim, e neste cenário de enorme incerteza relativamente aos riscos envolvidos no regresso à escola, poderão os pais impedir as crianças de frequentarem os estabelecimentos de ensino?

O jornal PÚBLICO noticiou recentemente a publicação de um despacho do Ministério da Educação que prevê um regime excecional para crianças que integrem grupos de risco. Os pais deverão requerer ao estabelecimento escolar a aplicação deste regime, juntando declaração médica comprovativa. Inexplicavelmente, na data em que escrevo, a uma semana do início das aulas, não se sabe ainda quais os critérios que definem os grupos de risco para crianças e jovens (ou se lhes são aplicáveis os critérios já definidos para a generalidade da população). Desconhece-se também se este regime poderá ser aplicado aos casos em que a criança não padece de qualquer patologia mas reside com familiares que integram um grupo de risco. É, pois, de esperar que muitas famílias encontrem dificuldades na obtenção da declaração médica, desde logo em face da indefinição de critérios. À beira do início das aulas, não se compreende que as famílias se encontrem ainda nesta incerteza.

Mas, para além das crianças e jovens especialmente vulneráveis, a questão poderá suscitar-se também relativamente àqueles que não padecem de qualquer doença ou vulnerabilidade mas cujos pais receiam, não obstante, enviá-las para a escola, atendendo à probabilidade de poderem ser infetadas por covid-19.

Ora, nos casos em que as crianças não integram grupos de risco – quaisquer que eles sejam – e não residem com familiares que integram grupos de risco, aos pais não restará alternativa senão garantir o seu regresso à escola. A frequência do ensino obrigatório não está, como referimos, na disponibilidade dos progenitores. Por outro lado, as crianças e jovens parecem ser bastante resistentes ao vírus e a taxa de mortalidade antes da idade adulta é muito diminuta. O risco associado ao contágio nestas faixas etárias não parece, assim, suficientemente relevante para legitimar uma decisão dos progenitores que passe por privar as crianças dos ensinamentos e experiências que apenas a escola está em condições de proporcionar.

As crianças que não compareçam às aulas e não justifiquem devidamente as faltas sofrerão, naturalmente, as consequências académicas da ausência e, em última instância, a reprovação no final do ano. Por outro lado, a não frequência do sistema de ensino configura uma situação de perigo à luz da Lei de Proteção das Crianças e Jovens em Perigo que será sinalizada pelas escolas às CPCJ (Comissões de Proteção de Crianças e Jovens). Se a intervenção da CPCJ não propiciar o regresso da criança ao sistema escolar, o processo será remetido ao Ministério Público, que tratará de desencadear o processo judicial respetivo.

Assim, e se muitos pais poderão ter receio de enviar os seus filhos (saudáveis) para os estabelecimentos escolares em virtude da incerteza que se vive relativamente à disseminação da covid-19, a verdade é que o quadro legal não admite outra solução. Os riscos envolvidos não parecem ser suficientemente sérios para que se equacione uma decisão tão radical como é privar as crianças e jovens de escola.

Nuno Cardoso Ribeiro

Fonte: Público

domingo, 6 de setembro de 2020

Referencial Escolas - Controlo da Transmissão de COVID-19 em Contexto Escolar

Este documento pretende apresentar, de uma forma simplificada, informação sobre a COVID-19, bem como as medidas a implementar por diferentes atores da comunidade educativa. O objetivo é servir como referencial de atuação para a prevenção e controlo da transmissão de SARS-CoV-2 no que respeita à gestão de casos, contactos e surtos de COVID-19 em contexto escolar.

As medidas apresentadas têm como base os princípios de evidência e conhecimento científico, bem como a evolução da situação epidemiológica, não dispensando, contudo, a consulta e cumprimento da legislação em vigor ou outras orientações específicas para os estabelecimentos de educação ou ensino.




Fonte: DGS

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Medidas de apoio educativas aos alunos que devam ser considerados doentes de risco

Foi publicado o Despacho n.º 8553-A/2020 que prevê a possibilidade de aplicação de medidas de apoio educativas aos alunos que, de acordo com as orientações da autoridade de saúde, devam ser considerados doentes de risco e que se encontrem impossibilitados de assistir às atividades letivas e formativas presenciais em contexto de grupo ou turma.

Neste contexto, são aplicáveis a estes alunos, as seguintes medidas educativas:
a) Condições especiais de avaliação e de frequência escolar;
b) Apoio educativo individual em contexto escolar ou no domicílio, presencial ou à distância, através da utilização de meios informáticos de comunicação.

Compete aos pais e encarregados de educação, ou aos alunos, quando maiores, requerer junto do agrupamento de escolas ou escola não agrupada (doravante escola) onde o aluno se encontra matriculado, a opção pela mobilização das medidas nos termos previstos no número anterior. Os pais ou encarregados de educação devem ser ouvidos na determinação das medidas a adotar e ter acesso a toda a informação sobre a aprendizagem do seu educando.

Compete às escolas a determinação das medidas de apoio educativo aplicáveis a cada aluno, as quais integram o plano de desenvolvimento das aprendizagens do aluno. O plano referido é elaborado pela escola e contém uma planificação das aprendizagens, a qual tem em consideração as medidas previstas no relatório técnico-pedagógico, quando exista, que podem ser objeto de reformulação em função do novo contexto.

No âmbito das ofertas de cursos profissionalizantes, cursos artísticos especializados e científico-tecnológicos, a formação prática das componentes de formação tecnológica ou técnica artística, bem como da componente de formação em contexto de trabalho, estágio ou formação prática em contexto de trabalho, podem, sempre que seja possível, ser realizadas através de prática simulada, sem prejuízo de cada escola organizar outros procedimentos que entenda mais adequados para o efeito.

A escola onde o aluno se encontra matriculado assegura a manutenção do seu lugar na respetiva turma até ao regresso do aluno à frequência presencial.

Alunos com doenças oncológicas vão ter acompanhamento não presencial

Os alunos que tenham doenças oncológicas ou outras patologias que os coloquem em grupo de risco face à covid-19 vão ter acesso a um acompanhamento à distância. Em comunicado, o Ministério da Educação informa que emitiu um despacho com orientações e procedimentos para o apoio educativo para alunos em situação de vulnerabilidade face à epidemia.

O despacho, que ainda aguarda publicação, faculta a estes alunos "acompanhamento não presencial, recorrendo a apoio que permita manter o contacto com a turma de origem, mediante acordo com a família, podendo ser mobilizados recursos em caso de manifesta necessidade".

Segundo o diploma, (...) estes alunos terão "condições especiais de avaliação e de frequência escolar", designadamente "apoio educativo individual em contexto escolar ou no domicílio, presencial ou à distância, através da utilização de meios informáticos de comunicação".

Determina ainda o Governo que "compete às escolas a determinação das medidas de apoio educativo aplicáveis a cada aluno, as quais integram o plano de desenvolvimento das aprendizagens" do estudante. 

O mesmo despacho indica também os procedimentos necessários para que o aluno fique dispensado das "atividades letivas e formativas presenciais, em contexto de grupo ou turma". O ministério adianta que "deve atestar-se a condição clínica do aluno, prevendo-se que estejam abrangidos os alunos em declarado risco acrescido e cujo afastamento da escola não seja prejudicial por outros fatores". As crianças nestas situações não são obrigadas a recorrer a este regime. (...)

Fonte: Jornal de Negócios por indicação de Livresco

Nova plataforma ajuda as crianças a treinar a leitura. Mesmo a tempo do regresso às aulas

A Beefluent é a nova plataforma de apoio à leitura, lançada pela Teckies, start-up que promove a aproximação das escolas à tecnologia, com o objetivo de apoiar professores e tutores na formação de estudantes de todas as idades.

Esta aplicação móvel permite que crianças e jovens aprendam de forma individualizada, simples e divertida, numa constante relação com o professor, mesmo à distância.

Além de ajudar na leitura da língua materna, permite aprender outras línguas. Disponível para alunos de todos os ciclos de estudos e com diferentes necessidades, esta ferramenta pode ser utilizada em qualquer dispositivo com acesso a um browser.

Como funciona?

A Beefluent permite que os alunos melhorem as suas capacidades de leitura em casa, a partir de um processo intuitivo e interativo.

De forma simples, o estudante treina a leitura e dicção com base numa gravação de uma leitura de um texto criado e enviado pelo professor.

Para que o formando possa ter feedback do seu desempenho e evolução, basta gravar a sua leitura do mesmo texto e enviar através da plataforma. Assim, todas as interações são realizadas num só sítio e a avaliação é individual.

Plataforma inclusiva

Com um sistema adaptável e desenhada para ser o mais inclusiva possível, a plataforma pretende também apoiar estudantes com necessidades educativas especiais.

Desta forma, o professor pode criar exercícios adequados ao nível de cada aluno e, ao permitir uma avaliação e feedbacks igualmente individualizados, o tutor consegue dar maior atenção a cada pessoa.

Sendo a aprendizagem apenas mediada por professores ou explicadores acreditados, é ainda possível aprender idiomas estrangeiros, podendo ser também utilizada por adultos que tenham como objetivo aprender de forma mais autónoma.

Também para professores, escolas e municípios

Para quem queira adquirir as licenças de utilização da BeeFluent, basta contactar a Teckies através do email contacto.geral@beefluent.eu, estando disponíveis para escolas, municípios, mas também para professores particulares.

Os municípios podem obter a licença e disponibilizá-la a todos os alunos das suas escolas. Já as escolas que adiram ao sistema, terão acesso para todos os seus alunos, independentemente do ciclo de estudos que frequentem.

Também os professores individualmente podem registar-se e utilizar a plataforma com um limite máximo de cinco alunos.

Fonte: lifestyle por indicação de Livresco

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Obedecer não é sinónimo de responsabilidade

«Agora que o mundo está a ser reconstruído, as mudanças sociais e económicas por si só não são suficientes -embora essas sejam condições indispensáveis para a existência da democracia no futuro. Ao mesmo tempo, devemos também criar o Homem que possa garantir uma sociedade democrática, que esperamos que cresça -para protegê-lo contra a reincidência das barbaridades dos últimos anos. Mesmo em estados democráticos, há um perigo latente de que as pessoas desperdicem a sua liberdade por uma segurança imaginária, que deixem um “führer” tirar delas o pesado fardo de serem elas mesmas a serem responsáveis pelos seus atos. Ou em outras palavras: através de uma educação opressora, as pessoas nunca realmente amadurecem e/ou ficam espiritualmente “crescidas”, mas buscam constantemente uma autoridade paterna. 

Por isso, devemos educar os nossos filhos para que eles se tornem imunes a todo o tipo de crença autoritária. Em vez de obediência incondicional e supressão das reações emocionais naturais, que são as razões mais profundas para as pessoas aceitarem teorias autoritárias, devemos colocar uma educação sensível, que desenvolve uma personalidade crítica e independente, que cria indivíduos ativos e livres, para os quais o respeito pelos direitos dos outros parece evidente, quando eles próprios são felizes e harmoniosos.»

Palavras fortes, não são? Quando achas que foram escritas? Parecem bastante atuais. Podiam ter sido retiradas de um livro atual sobre parentalidade consciente e fariam total sentido.

Estas palavras são de um dos meus livros preferidos sobre parentalidade. Encontram-se no final do livro sueco: Det finns inga elaka barn (Não existem crianças más), do casal Mirjam Valentin-Israel e Joachim Israel, ela psicóloga e ele sociólogo.

O mais incrível deste livro talvez seja o facto de ter sido publicado em 1949. Sim, 1949. Começou a ser escrito durante a Segunda Guerra Mundial. É uma consequência de uma série de encontros de um grupo de psicólogos e sociólogos em Estocolmo durante o conflito. Encontros em que se discutia os acontecimentos durante a guerra e, principalmente, como era possível bons jovens alemães, bem-educados e exemplares, tratarem outros seres humanos como trataram, sem protestarem.

A resposta, resumidamente, foi esta: obedecer não é sinónimo de responsabilidade.

Apeteceu-me, tantas vezes, que os meus filhos simplesmente me obedecessem… Mas eu não quero filhos que obedeçam incondicionalmente. Quero contribuir para que eles se responsabilizem por todos os seus atos. Que façam cada uma das suas escolhas em consciência. Que questionem aquilo que sentem estar errado. Que protestem quando alguém desrespeita a sua integridade ou a dos outros.

Muitos acham que parentalidade consciente é uma modernice, mas não é! As ideias da parentalidade consciente existem há muito.

Não existem crianças más fala sobre valores, educação emocional, comunicação consciente, o perigo dos castigos e das palmadas e muito mais. Precisamente aquilo que abordo no meu livro Educar com Mindfulness, com quase 70 anos de diferença.

A busca de total obediência não desenvolve uma personalidade crítica, independente e responsável. É pena que ainda se procure defender as mesmas coisas.

MIKAELA ÖVÉN

Fonte: Educare

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Cidadania e Desenvolvimento: onde os alunos aprendem a “não roubar, não estragar, não andar à pancada”

A disciplina de Cidadania e Desenvolvimento cuja frequência obrigatória surge contestada no manifesto subscrito por quase 100 personalidades portuguesas não é bem uma disciplina, é antes “um complexo disciplinar”, para usar a expressão do presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), Manuel Pereira. No seu núcleo, alberga temáticas que vão dos direitos humanos, à igualdade de género, passando pela educação sexual, ambiental e rodoviária, literacia financeira e bem-estar animal, entre outras. Independentemente das alterações introduzidas por cada escola ou agrupamento, no quadro da respectiva autonomia e flexibilidade curricular, o derradeiro objectivo é ajudar a preparar os alunos “para as múltiplas exigências da sociedade contemporânea”, como se lê no documento enquadrador do Ministério da Educação (ME).

Incutir nos alunos o “respeito pelos valores democráticos e básicos e pelos direitos humanos, tanto a nível individual como social” surge, no referido documento, como um dos objectivos que estiveram na base da criação desta disciplina, para cuja definição o Governo criou, em 2016, um grupo de trabalho. Integrando representantes da Direcção-Geral de Saúde, do Alto-Comissariado para as Migrações e da Secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade, para citar apenas três exemplos, este grupo desenhou uma estratégia adaptada para os diferentes ciclos de ensino, mas sempre em torno da promoção de valores como os da cidadania, igualdade de género, não discriminação e interculturalidade, inclusão das pessoas com deficiência, além da educação para a saúde e para os direitos sexuais e reprodutivos.

“Esta ideia de haver um espaço curricular na escola onde as crianças falam da vida, das suas relações interpessoais, da igualdade de género, do seu bem-estar ou do bem-estar do planeta, vem dos anos 90 e já teve variadíssimos formatos. E parece-me uma óptima ideia, porque a escola não existe só para ensinar Português e Matemática”, contextualiza a psicóloga Margarida Gaspar de Matos, professora da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Nova de Lisboa e coordenadora em Portugal dos estudos Health Behaviour in School-aged Children, que a Organização Mundial de Saúde repete a cada quatro anos. Num momento em que os alunos regressam à escola, depois de seis meses metidos em casa, a psicóloga defende, aliás, que esta disciplina devia funcionar como “um espaço onde os miúdos pudessem falar com adultos de referência sobre os medos instalados por causa da pandemia, até para baixar a ansiedade geral da população”.

E, porque se trata de garantir que a escola pública ajude crianças e jovens a tornarem-se “cidadãos democráticos, participativos e humanistas”, promovendo “a tolerância” e suprimindo “radicalismos violentos”, como se lê no documento da Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania referente a esta disciplina, é que nos documentos de referência da mesma se incluem documentos tão basilares como a Constituição da República, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Convenção Sobre os Direitos da Criança ou os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável, das Nações Unidas. E por isto também é que Margarida Gaspar de Matos não vê razões para que a sua frequência seja facultativa. “Tudo isto tem que ver com a regulação da vida na sociedade, ensinando os miúdos a não roubar, a não estragar a não andarem à pancada…”, descomplica a especialista, para quem o debate agora desencadeado é “estéril e manipulado”.

Um problema que “não existe"

Sendo conteúdos transversais e da responsabilidade do professor titular nos quatro primeiros anos de escolaridade, a Cidadania e Desenvolvimento ganha direito a ser uma disciplina com um professor específico a partir dos 2.º e 3.º ciclo do básico e do secundário. E desde que, no ano lectivo de 2018/19, começou a ser ministrada em todas as escolas, a disciplina é sujeita a avaliação, tal como todas as restantes. No caso dos cursos de educação e formação de jovens de nível básico e secundário, a avaliação é tida em conta no cálculo da média final.

Do mesmo modo, havendo temas que são obrigatórios para todos os níveis de ensino, como a saúde, a interculturalidade, os direitos humanos ou a educação ambiental, outros, como os media, a literacia financeira e a segurança rodoviária, integram apenas dois ciclos do ensino básico. Quanto à educação sexual (prevista já na lei desde 2009 mas que só pontualmente saiu do papel, e quase sempre nas disciplinas de Ciências Naturais e de Biologia), Margarida Gaspar de Matos lembra que “o professor formado para esses conteúdos não vai tomar posição nem dar a sua opinião sobre quando e como é que o aluno vai iniciar a sua vida sexual”.

Sobre este aspecto, e ainda a propósito da polémica desencadeada a partir do caso dos dois irmãos de Vila Nova de Famalicão que faltaram a todas as aulas da disciplina por opção dos pais, o representante dos directores das escolas diz admitir que “haja áreas que alguns pais tenham objecções a que sejam trabalhadas nas escolas”. Nestes casos, defende, “os encarregados de educação devem poder negociar com os professores a possibilidade de os alunos trabalharem umas áreas em vez de outras, desenvolvendo trabalhos autónomos e igualmente sujeitos a avaliação”. “É sempre possível trabalhar junto dos professores e da escola, no sentido de os alunos não estarem presentes quando determinados conteúdos estão a ser desenvolvidos e serem postos a trabalhar conteúdos alternativos, autonomamente”, preconiza Manuel Pereira, para concluir que não vê razão para se estar “a criar um problema que não existe”.

Fonte: Público

terça-feira, 1 de setembro de 2020

“Muitas crianças vão chegar à escola psicologicamente doentes”

Decidir com base em cada caso, só aplicar orientações como a da distância social que sejam adequadas à realidade de cada aluno, fazerem uso da sua autonomia para darem prioridade aos alunos que vão chegar mais frágeis ao próximo ano lectivo. Estas são algumas das prioridades apontadas pela psicóloga Vanessa Neves, que também adverte contra os perigos de se adoptarem medidas que já estão a ser anunciadas por algumas escolas, como os intervalos de cinco minutos. E aconselha as autoridades competentes a tomarem decisões que possam evitar este tipo de soluções como por exemplo, avançarem para uma revisão dos currículos.

Com 37 anos e 11 de profissão, sempre na área das necessidades educativas especiais, tem trabalhado com vários agrupamentos das áreas de Sintra, Loures e Odivelas. Muitos dos alunos que foi apoiando estão entre os que mais ficaram para trás nestes tempos de pandemia, seja devido a problemas cognitivos ou por falta de recursos económicos que os privaram do acesso às tecnologias. Estes alunos, e não só, vão chegar às aulas psicologicamente doentes e as escolas têm de intervir logo desde o início, alerta.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), e não só, tem alertado que muitas crianças e jovens vão regressar às aulas, depois desta experiência de confinamento, em situações similares à do stress pós-traumático e que por isso é preciso que as escolas estejam muito atentas aos sintomas….
E intervir logo desde o início em vez de ficar à espera que aconteça. E isto não é estar a fazer futurologia, é basearmo-nos naquilo que a investigação nos tem mostrado, que esta situação terá consequências a médio e longo prazo para as crianças e jovens. Vai haver imensos comportamentos disruptivos seja por parte de crianças com alguma necessidade específica, como da parte de outras. Estaria por isso menos preocupada com a recuperação do currículo e mais com a estabilização do estado emocional dos alunos.

É certo que em primeiro lugar estancamos o sangue, tratamos da ferida, mas depois temos de perceber que marca deixou essa ferida. E é isso que a investigação já feita nos tem mostrado. Há pessoas que estão muito preocupadas, que consideram que as escolas não deveriam abrir. Mas eu diria que em termos da saúde psicológica, porque não existe só saúde física, é essencial que os alunos regressem à escola. Há mesmo uma necessidade extrema de que regressem.

Mas as escolas não podem ficar paradas à espera de que surjam mais orientações ou recomendações, têm de trabalhar com a massa de que dispõem neste momento para se prepararem para diferentes possibilidades e têm excelentes profissionais para o fazerem. O desafio será muito mais do que recuperar aprendizagens. Os alunos que aprendem de forma regular, que estão dentro da norma, não vão ter grandes dificuldades em fazê-lo e aprenderem as novas regras das escolas. Em relação aos outros é que vamos precisar de ter grande atenção. Há crianças que vão voltar à escola com a preocupação extrema de poderem ficar doentes fisicamente, mas desconfio que muitas delas vão chegar à escola psicologicamente doentes.

Normas como o distanciamento social ou o uso permanente de máscaras são adequadas para estas crianças?
Penso que estas normas, quando estão em causa crianças com mais dificuldades ou com patologias mais pesadas, têm mesmo de ser avaliadas escola a escola e caso a caso. Para mim, enquanto profissional, não fazem sentido. Temos de saber pesar, pôr nos pratos da balança, e medir o risco. Pode ser muito arriscado, mas também o é o malefício que traz a estas crianças a falta de um contacto mais próximo, de um toque.

Em relação a estes alunos vão acontecer coisas muito distintas. Vai ser preciso muito cuidado a analisar caso a caso. Terá de ser sempre um acompanhamento individual. Porque há alunos que vão-se ressentir imenso com este afastamento. Estamos a falar de crianças que estiveram seis meses afastadas do ambiente escolar. E seis meses é muito tempo em termos de desenvolvimento destes alunos.

É com estes alunos que temos efectivamente de nos preocupar. E não me refiro só aos que tenham algum problema cognitivo ou de desenvolvimento, mas também aos que não têm o mesmo acesso à Internet, ao computador, do que alunos de famílias mais estruturadas e com mais capacidades. Pela minha experiência e pelo que me foi relatado por colegas meus, sei que muitos alunos ficaram à parte porque não tinham esses meios e, portanto, ficaram mais para trás ainda. Neste regresso à escola o nosso mote tem de ser o de individualizar o trabalho, através da análise caso a caso, e não o de criar uma bolsa de estratégias universais.

E as escolas têm autonomia para seguir esse caminho?
Todas as orientações que têm saído, seja da Direcção-Geral da Saúde, seja do Ministério da Educação, mesmo o recente manual para recuperação das aprendizagens, são isso mesmo: orientações. Percebo que causem alguma ansiedade, ainda há muitos ‘se for possível’ mas considero que tem mesmo de ser assim: ‘se for possível’. E termos a consciência de que as escolas têm uma enorme autonomia para tomar decisões e fazer as suas próprias regras em função da realidade escolar que vivem, dos alunos que têm, do número de estudantes que têm e da cultura escolar que têm.

É importante que as escolas se rodeiem de profissionais de diferentes áreas para ir tomando decisões concertadas. Já existe uma grande articulação com os centros de saúde, com a saúde escolar, e é essencial que esta seja agora reforçada.

As escolas têm estado a apresentar medidas, como por exemplo a de os alunos terem apenas intervalos de cinco minutos ou só terem um intervalo ao longo do tempo lectivo, para evitar que se cruzem. É possível aguentar o trabalho escolar com intervalos de cinco minutos?
Não, de todo. Os níveis de concentração e de atenção vão baixar brutalmente. Mas é bom que se deixe claro que não há nenhuma orientação nesse sentido neste momento, e mesmo que houvesse seria apenas isso, uma orientação. Ou seja, a menos que esteja legislado que as escolas têm de ter intervalos de cinco minutos ou que as escolas têm de ter os alunos todos separados, não há necessidade de isso acontecer.

Percebo que há escolas que se vejam muito atrapalhadas com o número de alunos e que esta seja vista como uma solução. Mas eu não a recomendaria enquanto profissional porque acredito que os níveis de atenção e de concentração vão baixar bastante. E se nós não tivermos alunos predispostos a aprender, depois também não vamos ter o currículo atingido.

Há mais fazer na escola do que aprender. Existe por exemplo essa recomendação para os alunos se cruzarem o menos possível, só que é essencial para o seu desenvolvimento que eles se cruzem, façam amizades. Mais uma vez, é preciso ponderar.

E aulas com 100 minutos são uma solução? Depende das idades?
Sim, depende muito das idades. Mas em qualquer idade 100 minutos são muitos minutos para o tempo de concentração dos alunos a menos que nesse tempo o professor tenha capacidade para fazer pequenas pausas para poderem descansar a mente. Literalmente, descansar a mente. E não estou a ver que tal seja muito possível tendo em conta que os alunos não podem circular, nem sair da mesma sala ou até da mesma cadeira.

Não creio que as aulas com esta duração sejam benéficas para os alunos, como também não creio que o seja o aumento dos horários com uns alunos a iniciarem aulas às oito horas e outros a terminarem às sete da tarde. Os adolescentes deveriam começar um bocadinho mais tarde e não é porque gostem de fazer noitadas, é mesmo porque o cérebro deles necessita, é neurológico. No caso dos alunos mais novos não é tão preocupante iniciar ligeiramente mais cedo, mas será muito preocupante terminar mais tarde.

Não me parece uma solução válida porque os alunos não vão conseguir manter os níveis de concentração e de energia necessários. Por uma questão de cansaço. Porque mesmo que iniciem as aulas às 13h39 muitos deles já estão levantados desde as sete horas para ir para centros de estudo ou ATL uma vez que os pais continuam a ter os seus horários de trabalho. E por isso já estarão extremamente cansados ao final do dia. Mais uma vez precisamos de pôr em cima dos pratos da balança o que queremos priorizar e o que para nós, comunidade escolar, é importante.

Então o que será possível fazer?
Não sei se alguém conseguirá apresentar a fórmula perfeita. Cada escola tem de ter capacidade para parar e reflectir sobre a sua própria realidade. Deixaria uma recomendação que aliviaria o trabalho das escolas: rever os conteúdos curriculares, que são extensíssimos. Mas a revisão curricular é uma decisão para entidades superiores. Mas as aprendizagens que ganhámos no último período do ano lectivo passado ajudam a que esteja optimista quanto a este novo ano.

Tem filhos em idade escolar? 
Sim, dois gémeos com sete anos. Iniciaram o 1.º ano no ano passado. Estão muito ansiosos, com muitas saudades e com muita vontade de aprender. Enquanto encarregada de educação não estou preocupada como regresso, acho que a escola vai dar uma boa reposta. Mas o meu conselho enquanto encarregada de educação para outros encarregados de educação é que vão às escolas e vejam como se estão a organizar e que não deixem de estar em cima do que for sendo feito.

Faltam duas semanas para o início das aulas, as escolas estão preparadas? É essa a imagem que tem?
Quero acreditar que sim. Conheço diferentes realidades: escolas que estão à espera de mais orientações, mas também escolas em que as coisas estão minimamente organizadas. O resto será um desafio. Já temos alguma noção de como as coisas foram correndo com o regresso do secundário, a abertura dos jardins de infância, dos ATL, embora todos com poucos alunos. E felizmente na maioria dos casos correram bem. Eu sou uma optimista em relação ao próximo ano lectivo. É um desafio, mas tirámos muitas aprendizagens deste último período do ano lectivo que passou. O professor não é substituível.

Fonte: Público