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domingo, 19 de junho de 2022

Os dons e desafios de ser um pai tetraplégico

Josh Basile e Katie Fava tiveram um filho por fertilização in vitro, Calder. Josh é tetraplégico e também “um pai maravilhoso”, diz a parceira. É o concretizar de um sonho para “a vida inteira”, que se tornou realidade não obstante as limitações.

A rotina varia um pouco a cada noite — a vida com um recém-nascido é imprevisível — mas há sempre algo que se mantém: antes de adormecer, Josh Basile costuma demorar um bocado mais para estar fisicamente perto do seu filho, Calder. Por vezes Calder aconchega-se no braço torto de Josh para uma breve sesta. Outras noites, se o bebé estiver alerta e agitado, Josh deita-se ao lado do berço e fala com o filho; ultimamente, à medida que Calder se aproxima das 12 semanas de idade, tem a sorrir para o pai. A companheira de Josh, Katie Fava, coloca frequentemente o filho no peito do namorado e ajuda-o a segurá-lo.

“A Katie é quem faz todo o trabalho pesado”, diz Josh, e fala no sentido literal. Na fase inicial da paternidade, muitas das exigências são físicas — o bebé precisa de ser alimentado, limpo, vestido e embalado — e são tarefas que Josh está impossibilitado de fazer porque é tetraplégico e tem apenas movimentos limitados nos braços. Não pode também colocar o cinto de segurança no carro, nem lavar um biberão ou mudar uma fralda. A sua versão de paternidade é uma que deve transcender as limitações de um corpo que está imóvel do peito para baixo. (...)

Fonte: Público, com continuação da notícia

quarta-feira, 29 de março de 2017

Tetraplégico mexe mão e braço, após implante no cérebro

Tecnologia implantada no cérebro permitiu a um homem tetraplégico há oito anos mexer o braço e a mão usando apenas o pensamento

Um homem que ficou tetraplégico num acidente voltou a mover-se com a ajuda da tecnologia e apenas usando o pensamento, num projeto de investigadores dos Estados Unidos hoje divulgado na revista especializada em medicina The Lancet.

Bill Kochevar conseguiu, depois de oito anos paralisado, mover uma mão e um braço e beber água, sendo o primeiro recetor de sistemas de gravação e estimulação de músculos implantados no cérebro.

De acordo com o trabalho desenvolvido na universidade Case Western Reserve, em Cleveland, Estados Unidos, o paciente deverá ser o primeiro tetraplégico do mundo a mexer um braço e uma mão com a ajuda de duas tecnologias que lhe foram temporariamente implantadas.

Segundo o artigo publicado na revista científica britânica, Bill Kochevar conseguiu pegar numa caneca de água, puxa-la para os lábios e beber por uma palhinha, embora com movimentos lentos e tendo sido necessário algum treino.

Um interface cérebro-computador com eletrodos de gravação debaixo do crânio, e um sistema de estimulação elétrica funcional ativaram o braço e a mão, ligando o cérebro de novo aos músculos paralisados.

Com este método, Kochevar conseguiu também segurar um cabo e coçar com ele o nariz, ou pegar num garfo e comer uma batata.

"Para alguém que foi ferido e durante oito anos não se podia mexer, ser capaz de se mover ainda que só um pouco foi incrível para mim", disse Kochevar, 56 anos, acrescentando: "é melhor do que eu pensava que seria".

Segundo Bob Kirsch, presidente do departamento de Engenharia Biomédica da universidade, o paciente é um precursor da comunidade de pessoas com lesões na espinal medula e a experiência é um "passo importante para restaurar alguma independência".

As pessoas tetraplégicas estabelecem como prioridades, quando questionadas, para a recuperação dos movimentos o poderem coçar-se, alimentar-se e executar outras funções simples sem dependerem de terceiros.

"Tomando os sinais cerebrais gerados quando Bill se tenta mover, e usando-os para controlar os estímulos do seu braço e mão, foi possível que ele realizasse funções pessoais que eram importantes para ele", disse Bolu Ajiboye, professor assistente de engenharia biomédica.

Fonte: DN

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Champalimaud cria sistema para ajudar a andar

Ataxia é uma doença que se caracteriza pela descoordenação motora e dificuldade em manter o equilíbrio, provocada por danos no cerebelo, uma parte do cérebro que tem um papel fundamental na coordenação dos movimentos. E foi o combate a esta a doença que motivou o grupo do Centro Champalimaud, liderado pela investigadora norte-americana Megan Carey, a criar um sistema que permite quantificar e analisar a marcha, descobrindo como é que o cérebro gera movimentos coordenados. Os resultados foram publicados na revista científica eLife.

O locomouse está agora a avaliar ratinhos de laboratório. "Conseguimos detetar o movimento das diferentes partes do corpo do rato - patas, cauda, corpo - quando caminhava e analisámos a trajetória do movimento. Este é um sistema muito detalhado na análise. É como o que acontece quando os corredores terminam uma corrida e fazem fotos de todos os momentos finais e permite ver quem cortou primeiro a meta, aqui conseguimos ver o movimento todo do corpo do rato com detalhe", explica Ana Machado, um dos cinco elementos do grupo constituído por duas norte-americanas e três portugueses de diferentes áreas: biólogos, informáticos e engenheiros.

Com o mecanismo que construíram de raiz, a equipa analisou ratos normais e ratos com a doença da descoordenação. "Estudámos o cerebelo, uma das áreas do cérebro fundamental para a coordenação. Usando o sistema verificámos que os ratos com degeneração desta área não conseguem coordenar o movimento porque não conseguem coordenar as diferentes partes do corpo", diz.

Fonte: DN

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Novo implante no cérebro permite controlar próteses através do pensamento

Erik Sorto, 34 anos, tetraplégico desde há uma dezena de anos, depois de um ferimento na coluna vertebral, conseguiu usar um braço artificial sem esforço através da força do seu pensamento e da sua imaginação e tornou-se, assim, na primeira pessoa no mundo a ter uma prótese neurológica implantada numa região do cérebro onde se formam as intenções, o que lhe dá a capacidade de agarrar num copo e beber ou de jogar ao jogo "pedra-papel-tesoura". 

A prótese traz uma nova esperança na conquista de mobilidade por parte de pessoas amputadas ou com paralisias motoras. Até agora, as diferentes abordagens de controlo de prótese testadas envolviam, por exemplo, braços mioelétricos acionados pelo músculo ou ligados a implantes inseridos no cérebro, mas estas técnicas produzem frequentemente movimentos semelhantes a espasmos, o que não acontece com esta técnica. 

"O córtex parietal posterior situa-se a montante no processo que conduz a um movimento, o que faz com que os sinais estejam mais em linha com a intenção de agir do que com a execução do movimento", explicou Richard Andersen, professor de neurologia e que dirigiu a investigação.

No decorrer da experiência clínica, os investigadores dizem ter conseguido descodificar as intenções do sujeito ao simplesmente pedirem-lhe para imaginar o movimento, mas sem as suas múltiplas e diferentes sequências.

Os implantes ligados ao braço artificial foram colocados em 2013 no Hospital Keck de Los Angeles, nos Estados Unidos.

Com a ajuda dos investigadores e do pessoal médico, Erik Sorto conseguiu controlar o cursor do computador e o braço robótico através dos seus pensamentos, exatamente o que os cientistas esperavam. 

In: Visão

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

«Piercing» na língua é esperança para tetraplégicos

Uma equipa de cientistas do Instituto de Tecnologia da Geórgia, nos Estados Unidos, criou um «piercing» corporal magnético que permite controlar cadeiras de rodas e computadores através de um movimento com a língua. Os investigadores acreditam que a nova técnica pode transformar a maneira como as pessoas interagem com o mundo depois da paralisia, noticia a BBC.

Os tetraplégicos já possuíam diversas opções hoje em dia, inclusive a tecnologia «inspire e expire», utlizada pelo ator norte-americano Christopher Reeve antes de ter falecido em 2004, na qual a cadeira de rodas é manobrada pelo ato de se respirar dentro de um tubo. Mas Maysam Ghovanloo, professor assistente de engenharia de computadores no Instituto de Tecnologia da Geórgia, queria criar uma tecnologia que fosse mais agradável esteticamente, sem tubos a obscurecer o rosto, e mais intuitiva para os utilizadores, que proporcionasse melhor controlo e maior flexibilidade.

Depois de ter trabalhado durante mais ou menos cinco anos no sistema de controlo de cadeiras de rodas pela língua, Ghovanloo realizou os testes clínicos em conjunto com a Northwestern, o Instituto de Reabilitação de Chicago e o Centro Shepherd, em Atlanta. Os resultados aparecem agora publicados no jornal «Science Translational Medicine».

Para conduzir a cadeira de rodas, o paciente tem que usar um capacete com sensores que captam o sinal magnético do «piercing». Mover a língua para o canto superior esquerdo da boca, por exemplo, faz com que a cadeira se mova para a frente. Um toque em cada dente, outro exemplo, pode sinalizar um tipo diferente de comando, de ligar a televisão, atender o telefone ou abrir a porta.

Em declarações à BBC, Maysam Ghovanloo explica que decidiu usar a língua porque queria tirar vantagem de algumas das funções ainda existentes em pacientes severamente deficientes. 

«A língua não se cansa com facilidade e geralmente não é afetada por uma lesão na espinhal medula porque está diretamente ligada ao cérebro através de um nervo craniano», explica.

In TVI 24, com vídeo, por indicação de Livresco.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

PROJETO BIA - Sistema de Comunicação Aumentativo e Alternativo

A Câmara Municipal de Castro Daire criou o 1º Sistema de Comunicação Aumentativo e Alternativo Multiplataforma (Windows, Mac, Linux, Android, iPad, iPhone) desenvolvido em Portugal, com funcionalidades únicas no mundo e totalmente gratuito. O sistema foi batizado de “BIA”.
Este projeto surgiu com o objetivo de melhorar a vida da Beatriz, uma criança do Concelho de Castro Daire com paralisia cerebral (tetraplegia espástica com componentes atetósicos e disartria) que não consegue comunicar de forma verbal, o que constantemente se revela uma enorme limitação, pois torna-se difícil satisfazer as suas necessidades mais básicas.
Este sistema tem como base os símbolos pictográficos de comunicação coloridos, devidamente separados por categoria, que após a sua seleção, reproduz sonoramente a palavra associada ao símbolo. A BIA, permite a seleção de vários símbolos convertendo-os numa frase que poderá ser reproduzida ou alterada em qualquer momento. A navegação entre as categorias e símbolos, pode ser feita de várias formas, permitindo desse modo responder às várias limitações dos possíveis utilizadores. O sistema permite gerir os símbolos pictográficos (adicionar, editar, apagar) de modo a ser adaptado às necessidades do utilizador final.
Este projeto pretende ser uma referência internacional, motivo pelo qual, possuiu os seguintes idiomas: Português, Inglês, Chinês, Alemão, Francês e Espanhol, conseguindo dessa forma romper com as barreiras geográficas, dando visibilidade a este projeto a nível internacional.
Atualmente existem no mercado outros Sistemas de Comunicação Aumentativo e Alternativo, mas com grandes custos de aquisição, atualização e limitados aos vários sistemas operativos. Em termos de inovação o Projeto BIA tem funcionalidades únicas no mundo:
- Geo-localização – permite enviar as coordenadas GPS do utilizador(criança ou adulto), para um contato definido na aplicação (Android, iPhone e iPad), em caso de emergência ou de desorientação.
- Envio de Email – permite a comunicação via email após a construção de frases com símbolos, por parte do utilizador. O destinatário recebe a mensagem em texto após uma conversão automática. 
Esta aplicação móvel poderá ser aplicada a outros tipos de problemáticas, como o caso da estimulação da fala em crianças com Autismo, idosos que sofreram algum acidente que lhes limita a voz, entre outros. Em termos mais terapêuticos, este projeto poderá ser um excelente auxilio na área da terapia da fala.
Este sistema é totalmente gratuito e ficará disponível na página do projeto, App Store e Google Play, permitindo, desse modo, o download e instalação em qualquer parte do mundo.
Este software foi totalmente desenvolvido na Câmara Municipal de Castro Daire, sem qualquer custo extra, com o apoio da Rádio Limite na narração dos símbolos, em parceria com a Associação de Paralisia Cerebral de Viseu e com a Associação Sorriso da Rita.
Neste momento a Câmara Municipal de Castro Daire está a estabelecer parcerias com várias empresas, associações nacionais e internacionais com o objetivo deste projeto responder ao maior número de situações diferenciadas.
A apresentação oficial do projeto será dia 5 de março de 2013, contando com a presença de investigadores, técnicos, professores, encarregados de educação, ligados à paralisia cerebral, autismo, terapia da fala e acompanhamento de idosos.
O Projeto BIA é uma clara aposta da Câmara Municipal de Castro Daire na inovação e empreendedorismo social e demonstra que a autarquia tem potencialidades para criar e desenvolver projetos realmente tecnológicos com destaque mundial sem envolver custos adicionais.
Mais informações e pormenores em http://cm-castrodaire.pt/bia

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Tetraplégica domina braço robótico com pensamento


Jan conseguiu comer chocolate sozinha com o seu braço robótico. Fotos © UPMC. Clique no link abaixo para ver um vídeo da norte-americana a testar esta tecnologia.


O caso da norte-americana Jan Scheuermann não é o primeiro em que um braço robótico é controlado pelo pensamento. Porém, de acordo com os especialistas, nunca se tinha conseguido um controlo tão preciso e natural. Agora, graças a uma equipa da Universidade de Pittsburgh, nos EUA, a mulher de 53 anos, tetraplégica, conseguiu até dar chocolate a comer a si própria.

"Dar cinco" a alguém, agarrar e mover objetos de diferentes formas e tamanhos ou até comer sem necessitar de ajuda são tarefas que, para a maioria de nós, parecem banais. No entanto, há já nove anos que Scheuermann, que sofre de degeneração espinocerebelar - uma patologia que leva à destruição das células nervosas do cerebelo, do tronco cerebral e da espinal medula e à perda dos movimentos - não conseguia cumpri-las.

Ao tomar conhecimento de um sistema pioneiro que estava a ser desenvolvido em Pittsburgh, a norte-americana decidiu partilhar a sua história e acabou por integrar a experiência que, com recurso a uma tecnologia "cérebro-computador" dá aos pacientes a possibilidade de controlar, com a mente, um braço robótico. 

Para que tal fosse possível, a equipa implantou no cérebro de Scheuermann duas grelhas de eletródos com um centímetro quadrado e com 96 minúsculos pontos de contacto nas regiões cerebrais que efetuam, normalmente, o controlo do braço direito e do movimento da mão. 

"Antes da cirurgia, efetuámos testes de imagiologia ao cérebro para determinar exatamente onde colocar as duas grelhas", conta Elizabeth Tyler-Kabara, cirurgiã responsável pelo procedimento, numa nota divulgada no site da Universidade de Pittsburgh.

Os elétrodos colocados nas grelhas recebem os sinais dos neurónios dos indivíduos e, posteriormente, são utilizados algoritmos computacionais para identificar os padrões associados a determinados movimentos observados ou imaginados, como levantar e baixar o braço ou rodar o pulso. Depois, a intenção do movimento é transformada em verdadeiro movimento, materializando-se no braço robótico.
A caminho da independência

Ao fim de uma semana, a mulher conseguia já esticar o braço - ao qual deu o nome de "Hector", movê-lo para a direita e para esquerda, levantá-lo e baixá-lo, o que lhe proporcionou o chamado "controlo tridimensional". Passados três meses, Scheuermann tornou-se capaz de dobrar o pulso e rodá-lo, além de agarrar objetos - ou seja, de efetuar um "controlo a sete dimensões".

"Trata-se de um passo em frente espetacular no caminho em direção à independência das pessoas que não são capazes de mover os braços", defende Andrew B. Schwartz, um dos coordenadores da investigação, em comunicado.

Segundo Schwartz, a tecnologia em causa "interpreta os sinais do cérebro para guiar um braço robótico" e "tem enorme potencial", um potencial que continuará a ser explorado. O especialista garante que o estudo mostrou ""que é tecnicamente plausível restaurar a mobilidade" e que todos os participantes afirmaram que o sistema lhes deu "esperança para o futuro". 

Já para Schuermann, esta tem sido "a viagem de uma vida". A norte-americana vai continuar a treinar movimentos com recurso a esta tecnologia durante os próximos dois meses e, depois, os implantes serão removidos numa nova cirurgia. "É uma autêntica montanha russa. É como fazer queda livre. É maravilhoso e estou a aproveitar cada momento", conclui.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

UCoimbra cria interface que descodifica pensamentos

A Universidade de Coimbra acaba de anunciar a criação de um interface cérebro-computador que confere uma nova autonomia e mobilidade a pessoas com deficiências motoras graves. Este equipamento, que descodifica sinais do cérebro em ações, foi criado por Gabriel Pires, do Instituto de Sistemas e Robótica (ISR) da universidade.

Graças a este aparelho tarefas diárias como conduzir uma cadeira de rodas, ligar luzes, acionar alarmes, ligar a televisão e até falar no Skype serão mais fáceis de executar. O mecanismo, que já foi validado clinicamente e está a ser desenvolvido desde 2007, permitirá assim que doentes com esclerose lateral amiotrófica (ELA), pessoas tetraplégicas e com paralisia cerebral tenham mais autonomia.
O interface funciona através da recolha de ondas cerebrais, usando um método não invasivo de eletroencefalografia (EEG), que é descodificado por um conjunto de algoritmos de processamento de sinal e aprendizagem automática que seleciona letras, permitindo a construção de frases que, por sua vez, podem ser transformadas em ordens.
Em comunicado (...), o cientista português explica que o interface “é uma ferramenta de assistência muito poderosa que, quando entrar no mercado, terá um forte impacto social porque permitirá às pessoas com deficiências motoras muito graves obter mais autonomia".
Para que o interface fosse aprovado foram realizados teste clínicos em de portadores de esclerose lateral amiotrófica, acompanhados no Serviço de Neurologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (HUC-CHUC), em utentes do Centro de Paralisia Cerebral de Coimbra (APCC) num homem tetraplégico e num doente de Duchenne.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Tratamento fez ratos paraplégicos andarem por vontade própria

O sonho de Christopher Reeve (1952-2004), que depois de ter protagonizado o regresso do Super-Homem aos ecrãs de cinema ficou tetraplégico devido a uma lesão da medula espinal, na sequência de uma queda de cavalo, poderá estar mais perto da concretização, a acreditar nos espectaculares resultados a publicar nesta sexta-feira na revista Science. 

O cérebro e a medula espinal são capazes de uma certa recuperação após lesões de gravidade moderada — graças à “neuroplasticidade” do sistema nervoso, cujos circuitos são capazes de se adaptar e regenerar, restabelecendo as funções afetadas. Mas pensava-se até aqui que, em caso de lesões muito graves, em particular da medula espinal, essa recuperação era impossível. O trabalho que Grégoire Courtine e colegas, da Universidade de Zurique e do Instituto Federal de Tecnologia da Suíça, têm vindo a fazer nos últimos cinco anos está a alterar profundamente a compreensão das capacidades regenerativas do sistema nervoso central.

Os resultados agora obtidos — em ratos cuja medula espinal fora seccionada quase na totalidade, paralisando por completo as suas patas traseiras —, mostram que, em certas condições, é possível estimular a neuroplasticidade e a recuperação motora ao ponto de os animais voltarem a ser capazes de mexer voluntariamente as extremidades paralisadas. Para isso, afirmam os cientistas, é preciso “acordar” primeiro os neurónios da medula espinal, que ficaram “dormentes” ao serem desligados do cérebro devido à lesão.

Combinaram um tratamento de estimulação química e eléctrica com um treino num sistema robótico de reabilitação motora. Primeiro, injectaram nos ratos um cocktail de substâncias químicas que imitam a acção de neurotransmissores como a dopamina, a adrenalina ou a serotonina — ou seja, que imitam os efeitos dos sinais químicos que o cérebro envia normalmente à medula espinal. As substâncias excitaram os neurónios da medula que controlam os movimentos das patas, preparando-os para coordenar, nas fases seguintes da experiência, os movimentos voluntários da parte inferior do corpo.

Verdadeiros atletas

Cinco a dez minutos após a injeção, os cientistas estimulavam eletricamente a medula espinal dos animais via uma série de elétrodos implantados no espaço epidural (a camada mais exterior do canal espinal). Enviavam assim sinais eléctricos contínuos até aos neurónios previamente excitados pelo cocktail químico. “Restava agora iniciar o movimento”, explica Rubia van den Brand, co-autora, em comunicado.

Nesta terceira fase, graças a pequenos coletes, os cientistas “penduraram” os animais a um dispositivo robótico que os mantinha erguidos sobre uma plataforma, com o peso totalmente suportado pelas patas traseiras, e que só se ativava para os manter de pé se eles perdessem o equilíbrio. O sistema permitia ainda que os animais pudessem andar para frente de sua livre vontade. E de facto, quando os cientistas colocaram bocadinhos de chocolate na outra ponta da plataforma, os ratos começaram a querer andar — e a andar mesmo.

“Após umas semanas de neurorreabilitação com essa combinação de arreio robótico e estimulação electroquímica”, explica Grégoire Courtine, “os nossos ratos não só iniciavam voluntariamente a marcha, como depressa começaram a correr, a subir escadas e a evitar obstáculos”.

Quando os cientistas examinaram o que tinha acontecido ao nível microscópico no sistema nervoso dos animais, constataram “que as fibras nervosas na medula espinal e no cérebro tinham quadruplicado”, diz Janine Heutschi, outra co-autora. E mais: as novas fibras tinham contornado a lesão medular, permitindo que os sinais vindos do cérebro atingissem a zona da medula espinal onde estavam situados os neurónios previamente excitados. Para Courtine, este crescimento nervoso reproduz, de certa maneira, o que acontece na infância durante o desenvolvimento dos animais.

“Isto é um campeonato da reabilitação!”, exclama este cientista. “Os nossos ratos, que poucas semanas antes estavam completamente paralisados, tornaram-se atletas. E estou a falar em 100 % de recuperação do movimento voluntário.”

Há razões, afirmam, para acreditar que as pessoas paralisadas devido a lesões da medula espinal possam vir um dia a beneficiar destes resultados. Courtine estima que os ensaios clínicos de eficácia em seres humanos poderão começar dentro de um ou dois anos.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Tetraplégicos apanham objectos com braços robóticos movidos pelo cérebro

Dia 12 de Abril de 2011. Uma mulher de 58 anos está em casa, sentada à mesa. Pega num cantil com café, levanta-o e bebe com uma palhinha. Torna a pôr o cantil em cima da mesa. Sorri com evidente alegria perante o que acabou de fazer e toda a gente à sua volta aplaude. A celebração justifica-se plenamente: é que desde 1996, quando foi vítima de um AVC que a deixou tetraplégica, ela nunca tinha tomado um café sem ajuda. 

O que fez a S3 (nome fictício) naquele dia de tão extraordinário? Imaginou que estava a mexer o seu próprio braço e que, com a sua própria mão, segurava no cantil e o levava à boca. E, ao imaginar isso, fez com que um braço robotizado — ao qual ela estava literalmente ligada através de um chip microelectrónico implantado no seu cérebro — executasse os gestos que ela comandava. Essa sua intenção motora (ou, dito de outra maneira, os impulsos eléctricos disparados intencionalmente pelos seus neurónios) fora transmitida pelo implante a um programa de computador capaz de os transformar em movimentos adequados do braço artificial. Esta e outras façanhas de S3 — e as de um segundo doente de 66 anos, tetraplégico desde 2006 e designado T2, são descritas na edição desta quinta-feira da revista Nature.

“Ainda temos muito trabalho pela frente, mas os avanços animadores destas investigações são demonstrados não só pelo sucesso [da experiência], mas ainda mais pelo sorriso de S3 quando conseguiu tomar um café sozinha pela primeira vez em quase 15 anos”, diz Leigh Hochberg, da Universidade Brown e um dos principais autores do trabalho.

A equipa de Hochberg e de John Donoghue, também da Universidade Brown, e que integra ainda cientistas de Harvard, dos departamentos norte-americanos dos Assuntos dos Veteranos e da Defesa, da agência aeroespacial alemã DLR e da empresa norte-americana DEKA, está actualmente a realizar um ensaio-piloto em seres humanos do seu dispositivo neuronal implantável, baptizado BrainGate. Trata-se de um quadradinho de silício, do tamanho de um pequeno comprimido, com 96 finíssimos eléctrodos à superfície que são capazes de registar a actividade de pequenos grupos de neurónios.

Tarefas muito complexas

S3 e T2 são os dois primeiros participantes nesta fase do ensaio, que continua em curso e a recrutar voluntários. Ambos sofreram um AVC do tronco cerebral, ficando incapazes de mexer as extremidades ou de falar. S3 entrou no projecto nas suas fases mais preliminares e é portadora de um implante há mais de cinco anos, com os eléctrodos alojados a uns milímetros de profundidade no córtex motor, a região do cérebro que controla os gestos voluntários.

Dois braços artificiais foram testados nestas experiências. Um deles, o da DEKA, foi concebido para servir de prótese a veteranos de guerra amputados na sequência de ferimentos. Ou outro, da DLR, não é uma prótese, mas antes um “dispositivo de assistência”, e é mais pesado.

Ambos os doentes treinaram vários dias a apanhar bolas de espuma com ambos os braços artificiais — e a seguir, S3 tentou, com sucesso, a experiência do café. Estas duas tarefas são “as mais complexas jamais realizadas” com uma interface cérebro-computador, explica um comunicado dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, um dos financiadores do projecto. Até aqui, doentes tetraplégicos com implantes cerebrais já tinham conseguido deslocar um cursor num ecrã de computador e, em 2008, macacos não paralisados também tinham conseguido mexer um braço artificial com o “poder da mente”. Mas nunca um ser humano doente tinha executado deslocações em três dimensões tão próximas de gestos da vida quotidiana. Como resume num comentário na Nature Andrew Jackson, da Universidade de Newcastle, Reino Unido, os participantes conseguiram tocar nas bolas de espuma em 45 a 96 % das tentativas e apanhá-las em dois terços das vezes em que lhes conseguiram tocar. Um dos aspectos mais “notáveis”, salienta, é o BrainGate de S3 ter funcionado correctamente cinco anos após ter sido implantado.

Quanto à experiência de S3 com o café, foi bem sucedida quatro vezes num total de seis tentativas com o braço mais pesado e mais difícil de manipular com precisão. E o que é particularmente promissor para o futuro desta abordagem neurocibernética é o facto de o córtex motor de S3 ter conseguido funcionar após ter estado “desligado” durante 15 anos, como salienta Hochberg.O derradeiro objectivo do BrainGate, ainda muito longe da aplicação prática (foi preciso calibrar os sistemas durante meia hora antes de cada treino), é conseguir um dia ligar o cérebro às extremidades dos doentes via uma ligação sem fios, de forma a traduzir a sua actividade cerebral em estímulos eléctricos que façam mexer os músculos paralisados.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Paraplégico recupera controlo parcial das mãos

Um homem de 71 anos paralisado da cintura para baixo e que era incapaz de mexer as mãos, desde que teve um acidente de viação em 2008, já consegue escrever e alimentar-se sozinho. O relato da cirurgia que permitiu a este homem recuperar parcialmente o controlo das mãos foi publicado na revista Jornal of Neurosurgery. 

Um dos ferimentos sofridos foi na sétima vértebra cervical, a levou a que a medula espinal ficasse completamente seccionada. Por causa destes danos, o doente ficou paralisado da cintura para baixo e deixou de poder utilizar as mãos, incluindo a capacidade de abrir e fechar os dedos. Os músculos das mãos foram-se entretanto atrofiando. Mas o doente manteve o movimento dos braços. 

Dois anos depois do acidente, a equipa de Susan Mackinnon, da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, em Saint Louis, Estados Unidos, realizou uma cirurgia que consistiu na criação de novas ligações entre nervos, para estabelecer um bypass entre o cérebro e as mãos. 

Os cirurgiões decidiram fazer uma nova ligação utilizando um nervo que corre ao longo do braço (o nervo braquial), que tem origem na medula espinal imediatamente acima da vértebra cortada neste doente mas que tinha ficado intacto. Perto deste nervo encontra-se um outro, o nervo interósseo anterior, que vai até à mão e se liga aí aos músculos que permitem apanhar os objetos. Neste doente, os danos na vértebra tinham interrompido a ligação ao nervo interósseo anterior.

Ora a equipa ligou, na zona do braço, onde já havia movimento, o nervo braquial ao nervo interósseo anterior, estabelecendo assim um novo caminho entre o cérebro e as mãos. A operação foi feita duas vezes, com um intervalo de uma semana, em cada braço. "O procedimento é invulgar para tratar no tratamento da tetraplegia porque não tentámos ir mexer na espinal medula, onde estava a lesão. Em vez disso, fomos ao sítio onde sabíamos que as coisas estavam a funcionar - neste caso, o cotovelo - para usarmos nervos para os direcionarmos num caminho que tornasse a mão operacional", disse a cirurgiã Ida Fox.

Decorridos oito meses desde a cirurgia, e após muita fisioterapia, o doente começou a ter movimentos no polegar e nalguns dedos da mão esquerda, refere um comunicado de imprensa da revista científica. Dois meses mais tarde, aconteceu-lhe o mesmo na mão direita. Neste momento, consegue comer sem ajuda e é capaz de escrever, ainda que de forma rudimentar, com a mão esquerda. É ainda capaz de levar a mão direita até à boca.