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domingo, 24 de setembro de 2023

Para além do visível: desmistificar os sintomas da esclerose múltipla

À medida que o mundo evolui, as doenças neurodegenerativas tornaram-se uma preocupação constante e a necessidade de as compreender é cada vez mais imprescindível. A esclerose múltipla (EM) é uma dessas doenças, desafiando os médicos e investigadores a descobrir os seus mistérios e sintomas imprevisíveis.

Ao falarmos sobre esclerose múltipla (https://www.publico.pt/2022/04/04/ciencia/noticia/estudo-realizado-coimbra-permite-avanco-diagnostico-esclerose-multipla-2001294) a maioria das pessoas associa-a a sintomas físicos, como a dificuldade de locomoção. Contudo, há um aspeto muitas vezes invisível aos nossos olhos – o défice cognitivo.

Para aqueles que vivem este sintoma, as suas consequências são deveras impactantes. A capacidade de processar informação, a concentração e a memória ficam comprometidas, levando à perda precoce de emprego e afetando a qualidade de vida das pessoas com esclerose múltipla (https://www.publico.pt/2023/05/30/sociedade/noticia/atleta-estudante-enfermagem-diagnosticada-esclerose-multipla-doenca-fezme-vontade-2051382). É aqui que o trabalho liderado pela professora Adelaide Fernandes (https://www.publico.pt/2012/01/25/ciencia/noticia/premiados-projectos-sobre-cancro-da-mama-esclerose-multipla-e-colapso-pulmonar--1530565), da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, onde se insere o meu projeto de doutoramento, ganha relevância e se torna crucial para todos nós. O nosso principal objetivo é desvendar os mecanismos subjacentes a este sintoma impercetível, mas presente em mais de 50% dos doentes com esclerose múltipla.

Sabemos que o aparecimento de défices cognitivos está associado às componentes imunitária e inflamatória que ocorrem no sistema nervoso central. Estudos mostraram que doentes com esclerose múltipla têm redes neuronais danificadas, e que a presença de células imunitárias e da glia contribuem para o agravamento do dano neurológico. Daí a nossa curiosidade em perceber os possíveis mecanismos moleculares da interação entre estas células e a sua relevância na remoção excessiva de sinapses, cruciais para a cognição, num contexto de desmielinização.

Para atingir este objetivo, tivemos acesso a amostras post mortem da região do hipocampo de doentes com esclerose múltipla, com ou sem défice cognitivo, através do biobanco dos Países Baixos. Estes estudos iniciais confirmaram a presença das células da microglia e linfócitos T CD8 em áreas de desmielinização, nomeadamente em doentes que apresentam défice cognitivo.

Em paralelo com estes estudos, e em colaboração com outro instituto, estamos a implementar um modelo tridimensional de mini-esferas cerebrais. Este modelo será criado a partir de células pluripotentes induzidas provenientes de doentes com esclerose múltipla (https://www.publico.pt/2023/08/09/ciencia/noticia/nova-vacina-epsteinbarr-virus-quase-eficaz-ratinhos-2059633) para aproximar à biologia e tipologia de cada doente. Acreditamos que este modelo possa ser uma plataforma inovadora no sentido de uma medicina personalizada, abrindo portas para tratamentos mais direcionados.

Para além da investigação, este trabalho permitiu-me conhecer pessoas que vivem, diariamente, com a realidade da esclerose múltipla. Estas experiências motivaram-me a fazer mais e melhor, enquanto cientista, trabalhando para compreender a patologia da doença, bem como as reais necessidades destes doentes e, assim, transformar a vida das pessoas com esclerose múltipla. É essencial que a sociedade apoie e promova a investigação nesta área, pois só assim poderemos avançar na luta contra as doenças neurodegenerativas. Juntos, podemos fazer a diferença na vida de milhões de pessoas.

Catarina Barros

Fonte: Público

sábado, 20 de janeiro de 2018

O VALOR DE UMA HISTÓRIA

Desta vez entrou na consulta acordado e a falar. O Gabriel tem seis anos. Conheci-o com três, metido num carrinho e muito ensonado. Vinha de Viseu sem diagnóstico. Tinha tido, desde os três meses de idade, crises epilépticas de vários tipos, muitas delas muito prolongadas e desencadeadas por febre. Quase não falava e os pais, gente inteligente, insatisfeitos com a abordagem clínica que o filho estava a ter num outro centro, decidiram partir em busca de novo parecer. Para mim o diagnóstico era óbvio e na consulta seguinte tinha a confirmação genética do síndrome de que suspeitara. Nesse Natal recebi por correio, num envelope almofadado, um lindo anjinho branco, enviado pela mãe do Gabriel. Ainda hoje o tenho pendurado no teto do meu gabinete.

Entretanto a epilepsia do Gabriel tem estado razoavelmente controlada e, apesar do atraso no desenvolvimento da linguagem, é uma criança com uma vida normal. Decidimos adiar um ano a entrada para o ensino básico, dando-lhe mais algum tempo de preparação na pré-primária. Hoje a consulta era rotina. Ajustar doses de fármacos, escrever informação para a escola....

Quando ele entrou no consultório, reparei que trazia na mão um saquinho cheio de M&Ms e pedi-lhe para me dar um. Fingiu não ouvir, foi direto à carteira da mãe onde meteu cuidadosamente a saqueta das guloseimas e em seguida correu o fecho.

Comecei a conversar com os pais e ele, entretanto, foi direto à mesinha das crianças onde se encontram jogos e livros.

- O Ruca! - exclamou entusiasmado.

- Pegou no livro e pôs-se de pé ao meu lado.

- Conta a história!

Aproveitei o momento para avaliar as suas capacidades intelectuais e linguísticas e comecei-lhe a contar a história. O Ruca levantava-se da cama entusiasmado, lavava-se e vestia-se sozinho rapidamente, pois estava convencido que naquele dia ia ao circo. Ao chegar à cozinha o pai disse-lhe que não era naquele dia mas sim no seguinte, sábado, que iriam ao circo. De repente reparei na cara do Gabriel. Estava quase a chorar. Eu estava muito preocupada a ler o texto e não tinha reparado no desenho que o acompanhava. Na imagem colorida, via-se o Ruca na cozinha em frente ao pai, com uma expressão tristíssima. Mudei rapidamente de página e continuei a ler, desta vez atenta à imagem que acompanhava o texto. O pai consolava o Ruca dizendo-lhe que nesse mesmo dia, depois da escola, iam lanchar a casa dos avós e comer bolo de chocolate. Olhei para a cara do Gabriel. A expressão de tristeza tinha desaparecido, tal como na cara do Ruca. Ia a virar a página mas o Gabriel prendeu-me a mão e ordenou:

- Espera!

Dirigiu-se à carteira da mãe e correu o fecho. Tirou de lá o saquinho de M&Ms e pediu à mãe para o abrir. Em seguida colocou-o na mesa à minha frente e disse-me:

- Come!

Não me fiz rogada, meti três dedos no pacote e comi um molhinho de bolinhas de chocolate. Era hora de almoço e eu tinha fome. Mais a mais eu senti que, segundo o Gabriel, eu merecia aqueles chocolates. Continuei a leitura com o Gabriel encostado às minhas pernas. Quando terminei a história, pegou no livro e arrumou-o em cima da mesinha. Os pais não fizeram mais perguntas sobre as capacidades cognitivas do filho. A história do Ruca tinha sido um instrumento valioso na avaliação cognitiva e emocional daquela criança.

Marquei a próxima consulta e despedi-me. O Gabriel beijou-me espontaneamente pela primeira vez.

Teresa Temudo
Fonte: Visão

segunda-feira, 16 de março de 2015

Estaremos a ficar mais espertos? QI médio aumentou 20 pontos desde 1950

Será que somos mesmo mais inteligentes que os nossos avós ou que, como dizem alguns cientistas, temos só mais jeito para fazer os testes?

A inteligência parece estar a aumentar no mundo inteiro, se acreditarmos nos testes que a medem. Um estudo da King's College, universidade londrina, mostra que o quociente de inteligência (QI) médio mundial subiu 20 pontos desde 1950, com aumentos mais marcados nos países em desenvolvimento, como é o caso da China e da Índia.

Mas a razão por detrás dos melhores resultados nos testes de QI pode não ser que as pessoas estejam mais inteligentes. O mais provável, dizem os cientistas, é que as pessoas tenham mais prática a fazer testes.

O psicólogo James Flynn, que dá nome ao Efeito Flynn, o fenómeno do aumento progressivo das pontuações de QI, acha que não estamos a ficar mais inteligentes. "Não acho que ser mais esperto tenha alguma coisa a ver com isso", disse Flynn à BBC. "Hoje temos uma maior amplitude de problemas cognitivos que conseguimos resolver do que as pessoas de 1900. Isso é porque a sociedade nos pede para resolver uma maior amplitude de problemas cognitivos", explicou.

As pessoas que viviam há um século, explica Flynn, enfrentavam desafios diferentes e, por isso, estavam preparadas para pensar de maneira diferente. A sociedade tem-se desenvolvido no sentido de valorizar mais o tipo de inteligência que é avaliada pelos testes de QI: a resolução crítica de problemas cognitivos complexos.

Arthur Jensen, também ele psicólogo e investigador dos fenómenos cognitivos, lembra que as escolas também preparam os alunos para os testes de QI porque os deixam mais habituados a fazer testes. Quando os estudantes estão habituados à pressão dos testes, sentem-se mais à vontade para responder sem certezas e para pensar mais calmamente acerca das suas respostas, o que melhora os resultados, disse à BBC.

Um dos coautores do estudo, Peera Wongupparaj, explicou à Quartz que as melhorias nas pontuações nos testes de QI aconteceram principalmente junto daqueles que tinham pontuações piores, enquanto as melhores pontuações não se alteraram muito ao longo do tempo. Isso dá a entender que as capacidades de resolver problemas e de pensar criticamente serão inatas, e são mais desenvolvidas com o acesso à educação.

Peera Wongupparaj sublinhou ainda a importância do melhor acesso à educação, à saúde e à Internet nos países em desenvolvimento, o que ajuda a explicar a melhoria significativa nos resultados dos testes de QI nesses países.

Já Robin Morris, outro dos co-autores do estudo, não exclui a ideia de que as pessoas possam realmente estar a ficar mais inteligentes. "Parece-me razoável acreditar que o funcionamento intelectual pudesse aumentar ao longo do tempo nas sociedades mais desenvolvidas", disse à BBC. "Mas como poderia aumentar tanto sem que houvesse imensas pessoas muito inteligentes por aí?" questionou-se.

Morris propôs que existem mais pessoas muito inteligentes do que antes, mas que essas fiquem mais escondidas porque são mais especializadas. "Estão a trabalhar no seu campo particular de especialização e a fazer coisas extraordinárias - estão a comportar-se como génios - mas não são necessariamente identificados como tal", sugeriu Morris.

Os investigadores compararam e analisaram 405 estudos anteriores, e usaram dados de mais de 200 mil participantes em testes de QI ao longo de 64 anos em 48 países diferentes. O estudo que resultou dessa análise foi publicado na revista científica Intelligence.

Fonte: DN

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Preocupante uso de estimulantes inespecíficos do sistema nervoso central em casos de pseudo-hiperatividade

(...) 

Álvaro de Carvalho chamou ainda a atenção para o "preocupante uso de estimulantes inespecíficos do sistema nervoso central em casos de pseudo-hiperatividade".

O psiquiatra explicou, citando Allen Frances, responsável pela coordenação do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), que as taxas de prevalência anual de síndromes de hiperatividade infantil (entidade formal distinta de comportamentos ocasionalmente instáveis) andam em valores médios mundiais de 2% a 3%.

No entanto, há estudos publicados na Holanda que apontam para taxas de 32% e outros, nos EUA, que entre os 11% e os 15%.

"Para além de pôr em causa a idoneidade destes valores, [Allen Frances] interroga-se sobre as consequências no funcionamento mental das crianças medicadas, precoce e continuadamente, com psicofármacos, quando chegarem a adultas", refere Álvaro de Carvalho.

Álvaro Carvalho critica a existência de "crianças e adolescentes medicadas com metanfetaminas para supostas hiperatividades", obtidas em "diagnósticos rápidos feitos por educadores, professores e pais" - quando "é natural que as crianças se mostrem instáveis em ambiente onde não se sentem bem" - contribuindo, muito provavelmente, para o significativo aumento de consumo do metilfenidato.

Sobre esta matéria, o relatório deixa no ar a questão: "será que esta fúria farmacoterapêutica está isenta de consequências no funcionamento mental futuro de quem é alvo passivo de decisões tão pouco prudentes?".

Álvaro Carvalho considera que estas crianças e adolescentes têm um risco acrescido de desenvolver défices cognitivos ou doenças que possam aumentar a morbilidade e a mortalidade.

Fonte: RTP Notícias por indicação de Livresco

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O sonho comanda a vida. Não é só poesia, é um facto científico

Na infância é a fantasia que dita as regras. Acordar um dia com vontade de ser médico, mudar para professor horas depois e chegar ao final da semana com a certeza de que se vai ser bombeiro. A imaginação de uma criança não tem limites, diz o senso-comum. Mas quantos cresceram a ouvir não ser possível andar com a cabeça nas nuvens o resto da vida? Os que acreditaram nessa lengalenga dos adultos podem chegar à conclusão que, se calhar, tudo não passou de uma história da carochinha. A ciência tem vindo a demonstrar que essa mentalidade pode no futuro ser mais prejudicial do que benéfica.

Usar os aspetos positivos da imaginação poderá superar o lado negativo. Há vários estudos a apontar nesse sentido e, por isso, da próxima vez que alguém o recriminar por viver na lua, rebata as críticas com provas científicas. Investigações na área da psicologia cognitiva já mostraram que sonhar durante o dia é um forte indicador de um cérebro ativo e bem apetrechado para lidar com os desafios do quotidiano.

Mentes que vagueiam sem rumo e a qualquer hora são as que melhor lidam com uma rotina acelerada e cheia de imprevistos. É aquilo que os cientistas chamam de memória de trabalho e que se caracteriza pela capacidade de manter e recordar a informação perante condições adversas. É isso pelo menos que conclui o estudo da Universidade de Wisconsin publicado na revista Psychological Science.

Nada como um caso prático para se perceber o que estes cientistas estão a tentar provar. Imagine que deixou a casa de um amigo a altas horas da noite e prometeu ligar-lhe assim que chegasse ao seu apartamento. Pelo caminho pára num posto de gasolina, enche o depósito e continua o seu percurso até se deparar com um acidente na estrada. Sai para ver se precisam da sua ajuda, chama o 112 e espera pela ambulância. Chega a casa quase ao amanhecer e, ainda assim, lembra-se de ligar ao seu amigo para dizer que chegou são e salvo. Essa é uma capacidade que os psicólogos atribuem à memória de trabalho e que permite manter ou recuperar a informação enquanto ela nos for útil.

Neste estudo, os investigadores americanos procuram perceber a relação entre a capacidade de memória de trabalho e a tendência para sonhar acordado. E concluíram que quem sonha acordado tem maior habilidade para se concentrar em ambientes que exigem estar atento a múltiplos impulsos. São aqueles por exemplo que estão no duche, no autocarro, a tomar a bica e já estão a resolver uma série de problemas associados à rotina do trabalho. Já antes se tinha constatado que a memória de trabalho está ligada aos mais altos QI, mas este estudo demonstra que esta habilidade está interligada à capacidade de pensar ou reagir além das nossas imediações.

Durante décadas, a imaginação foi encarada como o escape das crianças que se esfuma assim que crescem e são obrigadas de lidar com o mundo real. Mas cada vez mais os investigadores reconhecem a importância do papel da fantasia na inteligência emocional e até no raciocínio lógico. O Children's Research Laboratory, da Universidade do Texas em Austin fez uma série de estudos que envolveram o Pai Natal, a fada dos dentes e 91 crianças encafuadas num laboratório. O objetivo passou por analisar a partir de que idade as crianças são capazes de distinguir entre figuras reais e fictícias.

O desafio passou por perceber porque é que as crianças de três anos, que até sabem distinguir o real da fantasia, continuam aos 8 anos ainda a acreditar no Pai Natal. Os investigadores descobriram que enquanto os miúdos de 3 anos percebem o conceito do que é real e não é, quando chegam aos 7 são facilmente persuadidos pelos argumentos dos adultos. Do ponto de vista da lógica, fará todo o sentido acreditar no Pai Natal. Nunca o viram em carne e osso, mas o certo é que as prendas aparecem debaixo da árvore de Natal. Uma criança de 5 anos tem a capacidade cognitiva de juntar estes factos e só retiram conclusões erradas porque foram deliberadamente enganadas pelos pais. Essa capacidade de relacionar diferentes aspectos que dão consistência à fantasia é o que vai permitir perceber melhor o mundo real dos adultos.

Embora seja importante não é obrigatório que os pais encorajem a fantasia nos seus filhos, avisam os investigadores. Se a criança já tem um amigo imaginário ou se já está predisposta a acreditar no pai natal, deve ser estimulada, aconselha a coordenadora do estudo, Jacqueline Woolley. Quando as crianças começam a questionar a veracidade destas personagens, o principal é perceber até onde vai seu cepticismo. Se as dúvidas forem sólidas, o melhor é abrir o jogo e aceitar que chegou o momento da verdade.

A relação entre a memória, a imaginação e a empatia (capacidade de se colocar no lugar do outro) é uma outra tese científica actualmente defendida pelos psicólogos e neurocientistas. Ao longo de décadas, os estudos sobre estes três campos evoluíram de forma isolada. Daí que a tendência que uma pessoa tem para se preocupar com os outros raramente está relacionada com a memória ou a capacidade de imaginar episódios ou acontecimentos nunca vividos. Os investigadores do departamento de psicologia da Universidade de Harvard sugerem que essas habilidades cognitivas podem estar ligadas.

A habilidade que se tem em imaginar experiências nunca vividas torna mais fácil a tarefa de entender o outro. Ou seja, desenvolve a empatia, facilita a capacidade para partilhar experiências e melhora as relações sociais. Conclusões que os investigadores querem continuar a estudar, mas que para já até nem são assim tão surpreendentes. Quem é capaz de imaginar algo pelo qual nunca passou também será capaz de perceber melhor o que os outros estão a passar.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Suicídio é multifactorial

Um suicídio não se explica com uma palavra. O suicídio é multifactorial, diz José Carlos Santos, presidente da Associação Portuguesa de Suicidologia. O que existe é um fator precipitante – algo que se desenvolve num contexto adverso. E isso, entre adolescentes, amiúde tem a ver com quebra de afeto.

O bullying foi a causa apontada (...) ao noticiar a morte do rapaz de 15 anos, aluno da EB 2,3 de Palmeira, em Braga. Não seria descabido. Segundo Ana Tomás de Almada, investigadora da Universidade do Minho, esta forma de violência – continuada, exercida por colegas – tende a ser desvalorizada. “Considera-se que faz parte da infância e da adolescência, que forma o caráter, endurece. Como não há condenação, não há prevenção.”

Importa incentivar as crianças e jovens a falar sobre a vida escolar, para lá das notas, achega Beatriz Pereira, investigadora na mesma universidade. E importa valorizar o que dizem. 

Com o decorrer do dia percebeu-se que o rapaz não enfrenava apenas um contexto escolar hostil. Tinha um défice cognitivo. E isso, segundo Fernando Fontes, investigador da Universidade de Coimbra, baixa as probabilidades de integração. “As pessoas tendem a discriminar o que é diferente”. E, no caso das pessoas com necessidades especiais, os agressores mais frequentes são os pares e os familiares.

Havia ainda um contexto familiar do rapaz era adverso. E o modo como o tratava a rapariga de quem gostava.

“Há sempre fatores de nível pessoal, familiar e social”, diz José Carlos Santos. Entre adolescentes – de 14 ou 15 anos – as ruturas afetivas têm uma importância desmedida. São um dos fatores mais frequentes de comportamentos autolesivos , enfatiza, lembrando que o suicídio de adolescentes é raro em Portugal, o que é mais comum é a ameaça de suicídio.

As escolas, explica ainda o especialista, podem desempenhar um papel chave na prevenção. Não se refere apenas aos professores, mas também aos assistentes operacionais, que vigiam os recreios. Acha que é tempo de inserir a saúde mental no plano de saúde escolar e de apostar nos processos educativos, na cidadania, em vez de pensar apenas nos resultados. Beatriz Pereira aponta no mesmo sentido: parece-lhe que a escola tem de incentivar mais o respeito, a cooperação e menos a competição.

Números de ajuda em: http://www.spsuicidologia.pt/

Nota: Destacado a negrito pelo editor do blog.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Incapacidade de eliminar estruturas dos neurónios pode explicar atraso mental

Um grupo de investigadores do Programa Champalimaud de Neurociências descobriu que os graves problemas de memória ou de aprendizagem podem estar relacionados com a incapacidade de eliminar espinhas dendítricas, umas estruturas existentes nas ramificações dos neurónios. (...)
Neste trabalho, o grupo liderado por Inbal Israely, investigadora principal do Programa Champalimaud de Neurociências, revela quais as alterações físicas que acontecem no cérebro quando as ligações entre os neurónios se tornam mais fracas.
Como explicam os investigadores, as memórias são armazenadas no cérebro numas estruturas microscópicas, localizadas ao longo das ramificações dos neurónios, chamadas espinhas dendríticas.
A investigação agora publicada aponta para que a redução ou eliminação das espinhas dendríticas seja um processo ativo necessário não só para o esquecimento, mas também para a aprendizagem e armazenamento de novas memórias.
Assim, a incapacidade de eliminar espinhas dendríticas irrelevantes poderá resultar em graves problemas de aprendizagem e memória.
Os investigadores acreditam que o estudo de alterações na estrutura e na quantidade destas estruturas pode ajudar a compreender doenças que envolvem graves problemas de aprendizagem e memória.
Segundo Inbal Israely, “há evidência da ocorrência de alterações na estrutura e na quantidade das espinhas dendríticas em pacientes com atraso mental e, por isso, é fundamental perceber quais os mecanismos que controlam o aparecimento e desaparecimento destas estruturas”.
Para a cientista, “quanto melhor percebermos como a estrutura das espinhas dendríticas muda quando aprendemos, mais saberemos sobre a base fisiológica deste tipo de doenças.”
O ponto de partida para o estudo foram questões como “o que acontece no nosso cérebro quando nos esquecemos de algo?” ou “se a memória tem uma forma física, então qual será a forma de um esquecimento?”, a que os investigadores quiseram dar resposta.
Sendo as espinhas dendríticas os locais de contacto entre diferentes neurónios e onde as memórias se formam ou desaparecem, e sabendo-se já que a construção de novas memórias é acompanhada por alterações na forma das espinhas dendríticas (aumento e diminuição do seu tamanho), o que faltava conhecer era quais os mecanismos na base dessas alterações.
Partindo desta curiosidade, a investigadora sénior do grupo, Yazmin Cortes, explorou a base fisiológica para a redução do tamanho das espinhas dendríticas.
“O que observámos foi algo surpreendente. Pode parecer contraintuitivo, mas o que descobrimos é que é necessária a produção de novas proteínas para as espinhas dendríticas desaparecerem”, explica a investigadora.
Recorrendo a uma combinação de técnicas - óticas, moleculares e de eletrofisiologia – as investigadoras conseguiram perceber ainda que, para além da produção de proteínas, também a atividade neural é responsável pela redução e desaparecimento das espinhas dendríticas.
“Uma vez mais encontramos algo contraintuitivo pois, normalmente, a atividade neural leva ao aumento do número de espinhas dendríticas. No entanto, o que pensamos poder estar a acontecer é que a atividade neural funciona como um mecanismo de controlo do balanço de toda a rede neural”, diz Inbal Israeli.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Teste de QI é “altamente enganador”

Investigadores da Universidade Western do Canadá e do Museu de Ciências de Londres realizaram um estudo em que demonstram que medir a inteligência humana baseando-se apenas num teste standard de Quociente Intelectual (QI) é “altamente enganador”.
Mais de 100 mil participantes de todo o mundo foram submetidos – on line – a testes de memória, raciocínio, atenção e capacidade de planeamento. Responderam também a questões acerca dos seus estilos de vida. Os resultados estão publicados na revista «Neuron».
“O objetivo era analisar se realmente se podem medir capacidades cognitivas de uma pessoa com apenas um fator”, explica Adam Hampshire, investigador do Instituto de Cérebro e Mente da Universidade Western.
Os investigadores não acreditam que apenas o número de QI possa representar a capacidade que um indivíduo tem para recordar, raciocinar e pensar. Os resultados sugerem que os testes de QI que são utilizados há várias décadas têm “falhas básicas”, pois não têm em consideração a natureza complexa do intelecto humano.
A equipa desenhou uma série de testes com base em dados de estudos prévios realizados com scanners cerebrais. Assim, os investigadores criaram tarefas para medirem uma ampla variedade de capacidades cognitivas.
“Quando se analisa esta ampla variedade de capacidades cognitivas, as variações na execução dos participantes podem explicar-se em três componentes distintas: memória a curto prazo, raciocínio e habilidade verbal”, explicam os investigadores.
Para confirmarem os resultados, 16 participantes foram submetidos a ressonâncias magnéticas funcionais. Pôde, assim, observar-se as diferenças nas capacidades cognitivas e traçar-se um mapa das conexões neuronais envolvidas na atividade cerebral.
Os três componentes da capacidade cognitiva que se tinham achado previamente correspondiam a três padrões distintos de atividade neuronal. “Os resultados desmentem de uma vez por todas a ideia de que uma só medida como o QI não é suficiente para captar todas as diferentes capacidades cognitivas que existem entre as pessoas”, diz Roger Highfield, um dos autores do estudo.


sexta-feira, 20 de maio de 2011

Dissociação entre Deficiência Mental e Défices Cognitivos

Ontem estive presente numa formação subordinada ao tema da "DISSOCIAÇÃO ENTRE DÉFICE COGNITIVO, DEFICIÊNCIA MENTAL E DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM GERAIS E ESPECÍFICAS". Apesar de frequentemente se utilizarem as designações para o mesmo conceito, ficou clara a distinção entre deficiência mental e défice cognitivo.
Assim, resumidamente, segundo Miguel Palha, o défice cognitivo é basicamente definido por um quociente de inteligência (QI) significativamente inferior à média (mais precisamente, ao segundo desvio padrão negativo do teste utilizado que se situa, na maioria dos casos, entre os 70 e os 75), isto é, situa-se exclusivamente no nível da designada inteligência conceptual.
A deficiência mental corresponde à associação de um défice cognitivo a limitações no comportamento adaptativo (maneira como o indivíduo resolve problemas quotidianos pessoais e sociais) em, pelo menos, duas das seguintes áreas: comunicação, autonomia pessoal, autonomia doméstica, competências sociais, uso de recursos comunitários, auto-controlo, competências académicas, competências no trabalho, tempos livres, saúde e segurança.
Para aprofundar estes conceitos, consultar o artigo "Deficiência Mental e Défices Cognitivos".