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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Perguntas frequentes sobre discalculia: a deficiência matemática que os professores devem conhecer

Discalculia é uma deficiência de aprendizagem grave e persistente em matemática que afeta cerca de 5 a 8 por cento das crianças em idade escolar. Devido ao seu impacto na capacidade dos alunos de aprender e reter fatos matemáticos básicos, ela pode ser identificada nas séries iniciais se os educadores souberem o que procurar. Nesta série de entrevistas, um educador, um pesquisador e dois alunos com discalculia compartilham seus insights, perspetivas e conhecimento para ajudar os professores a entender e ensinar melhor os alunos com a deficiência.

Como identificar discalculia em estudantes

Desde alunos que têm dificuldade com cálculos e fatos matemáticos básicos até alunos que parecem não conseguir lembrar o que aprenderam no dia a dia, aqui está o que os professores podem observar.
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Dicas para ensinar alunos com discalculia

A discalculia afeta a capacidade do aluno de aprender seus fatos e cálculos matemáticos básicos, conhecimento que continua a ser construído ao longo de seus estudos de matemática. Aqui estão alguns métodos para ensinar alunos com discalculia.
A relação entre dislexia, discalculia e ansiedade matemática

Os alunos podem ter dislexia e discalculia, discalculia e ansiedade matemática, ou alguma outra combinação completamente diferente. Um pesquisador explica como elas estão todas relacionadas.
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Diagnosticado aos 14 anos, a experiência de um aluno com discalculia

Jacquelyn Taylor foi diagnosticada com dislexia na escola primária. Mas foi só aos 14 anos, entrando no ensino médio e tendo dificuldades com matemática básica, que uma combinação de sua própria pesquisa e uma avaliação profissional forneceram um diagnóstico de discalculia. Ela conta como foi passar pelo ensino fundamental e médio com discalculia não diagnosticada e oferece dicas para educadores ajudarem alunos como ela.
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Como a intervenção precoce e a tutoria ajudaram um aluno com discalculia

Para Tessa Marshall, essas coisas que geralmente são fáceis para as crianças — números, cores, formas, amarrar sapatos — sempre foram um desafio. Na 3ª série, ela foi diagnosticada com discalculia e transferida para uma escola Montessori, onde a oportunidade de aprender individualmente com um professor e em um grupo de alunos da 1ª à 3ª séries a ajudou a se recuperar. Agora caloura no ensino médio, ela compartilha o que gostaria que os professores soubessem não apenas sobre discalculia, mas também sobre ensinar alunos como ela.
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Jaclyn Borowski

Fonte: Education Week por indicação de Livresco

quarta-feira, 26 de julho de 2023

8 coisas que eu gostaria que as pessoas soubessem sobre como criar uma criança com discalculia

 A matemática era a minha matéria menos favorita quando eu era criança. Agora sou mãe e a minha filha tem dificuldade em matemática. Uma avaliação mostrou que ele tem discalculia . Conseguimos que ela recebesse apoio em sala de aula por meio de um PEI.

Mas a discalculia também a afeta fora da sala de aula. Aqui estão oito coisas que eu gostaria que as pessoas soubessem sobre criar uma criança com discalculia.

1. A matemática básica pode ser desafiadora.
Matemática simples pode ser difícil para crianças com discalculia. Usar papel quadriculado para alinhar os números ajuda, mas minha a filha precisa de mais acomodações. Por exemplo, tempo extra nos exames. Também ajuda quando os professores adaptam os testes para incluir menos problemas em cada página.

2. Contar o tempo também pode ser difícil
A minha filha não usa relógio de pulso porque tem dificuldade em dizer que horas são. Lembro que no ensino secundário um professor perguntou-lhe as horas na frente de todos na sala. Não sendo capaz de responder rapidamente, toda a classe zombou dela. Foi um dia difícil.

3. Perder-se é uma preocupação real
A minha filha tem dificuldade em se orientar. Mesmo se usar uma bússola ou smartphone. E distinguir a esquerda da direita pode ser um desafio. (Um dos nossos truques favoritos é fazer a letra “L” com as duas mãos para verificar qual é a mão esquerda.) Mesmo agora, como adolescente, a nossa filha ainda precisa de instruções por escrito com referências e sinais quando chega à cidade. Preocupa-se em vagar ou perder-se.

4. Temos que ser criativos com os jogos
A minha filha evita qualquer jogo ou desporto que exija cálculos mentais. Jogos de tabuleiro populares como Banco Imobiliário e Risco podem ser muito difíceis para ela. Ela dá-se melhor com jogos criativos e brinquedos como Jenga e Legos.

5. A discalculia afeta outras pessoas
A minha filha tem dificuldade em medir as coisas. Este é um sinal comum de discalculia . No laboratório de ciências do ensino secundário, teve problemas para comparar medições de líquidos e sólidos. Felizmente, um professor percebeu e estava praticando com a minha filha na hora do almoço. Isso fortaleceu a sua confiança.

6. Pagar pode ser um problema até para ir à sorveteria
A minha filha teme que as crianças atrás dela na fila do refeitório da escola zombem dela se ela demorar muito para pagar. E durante uma visita recente à gelataria do bairro, teve dificuldade em calcular quanto teria de pagar. Um dos motivos é que tem dificuldade em organizar a carteira e as notas ficam todas amassadas.

7. Suas dificuldades com matemática a envergonham
A minha filha usou os dedos para contar mais do que a maioria das crianças. Ela estava envergonhada, então durante o ensino secundário, ela escondia os dedos sob a mesa enquanto contava.

8. A discalculia não “desaparece”
A discalculia não desaparece com o tempo. É uma constante na vida da minha filha (e na nossa). E haverá momentos mais difíceis na escola e em outros lugares. Mas, como família, aprendemos a nos adaptar para dar à minha filha o apoio de que ela precisa.

Danielle Ward

Fonte: understood

sábado, 28 de janeiro de 2023

Dislexia. As falhas incompreendidas

"Que horas são? Não consigo perceber este relógio.” “Isto é um ‘b’ ou um ‘p’?” “Percebi 6 e não 9.” “Tinha de virar à direita e não à esquerda.” As memórias de trocas, confusões e enganos são tão antigas quanto as lembranças conseguem recuar. Diana Silva andava ainda na Primária quando se começou a aperceber de falhas que cometia que mais ninguém na sua turma parecia ter. “A dislexia sempre existiu, embora antes do diagnóstico não tivesse esse nome, toda a gente se apercebia que havia algo de errado comigo.” Hoje, com 29 anos, e à distância que o tempo dá, percebe que não tem nada de “errado”, só precisava de compreensão e um entendimento especializado.

As trocas e confusões ganharam nome quando andava já no 6.º ano de escolaridade. A diretora de turma da altura chamou a atenção dos pais para “algo estranho”. Eram os ‘p’ que apareciam sempre na vez de ‘b’, tanto na escrita como na leitura. As contas de matemática que envolviam os números 6 e 9 vinham sempre trocadas. E, o que, segundo Diana Silva, foi “a gota de água”: a clave de sol. “Estávamos no ano de aprender música e todos os meus colegas desenhavam na perfeição aquele símbolo musical, menos eu.” Os pais decidiram então levá-la a uma psicóloga. E lá chegou o tal nome: dislexia.

Dislexia é uma disfunção neurológica, de base neurobiológica ou genética, ou seja, “não é algo que se desenvolva”, é orgânico. Está integrada na lista de perturbações de aprendizagem, sendo notada, principalmente, durante os anos de escolaridade. Escrita, cálculo, leitura e raciocínio são algumas das áreas afetadas, já que há uma disfunção na estrutura e funcionamento dos neurónios. Quem explica tudo isto é Marta Calado, psicóloga clínica e da saúde da Clínica da Mente, que avança um mito comum: “Esta perturbação pode ser associada a baixos níveis cognitivos, mas isso é totalmente falso”.

Intervenção precoce

A dislexia está presente em indivíduos com inteligência normal ou até acima da média e é diagnosticada quando existe “um desfasamento entre a capacidade cognitiva e a de aprendizagem” – quando o problema não está em reter conhecimento, mas em conseguir adquiri-lo.

Por não haver uma cura que erradique estas dificuldades, a dislexia deve ser acompanhada por um tratamento terapêutico, que irá facultar ferramentas para que se aprenda a lidar com as falhas cometidas pelo cérebro. Não são medicamentos, mas antes educação e ensino. “É um problema que se mantém ao longo da vida mas que necessita de uma intervenção precoce”, esclarece a especialista Marta Calado.

Ainda que o acompanhamento acertado só tenha chegado a Diana Silva, natural de Santo Tirso, mais tarde, enquanto criança, adolescente e jovem foi “aprendendo a lidar com esta questão”. “Sempre encontrei formas de contornar, se não sabia ver as horas num determinado relógio, procurava outro; se não conseguia dizer determinada palavra, avançava; se não conseguia seguir direções, procurava não o fazer.” Com as estratégias que foi “desenvolvendo” fez todo o percurso escolar sem reprovar.

Há um diagnóstico. E depois?

As maiores dificuldades na escola surgiram, aliás, quando houve o tal diagnóstico no 6.º ano de escolaridade. “Agora tinha um nome para a minha dificuldade, mas do que valia? Os professores não sabiam lidar com isso e os outros alunos olhavam-me como se tivesse uma doença.” O nome deu realidade ao problema, o que, para Diana Silva, significou um choque com o desconhecimento e desinformação da população. A situação melhorou já no Secundário quando, no 10.º ano, se inscreveu no ensino público.

“Até ao Ensino Secundário, andava numa escola privada e numa psicóloga paga pelos meus pais, que, percebo agora, não me ajudou em nada. Mal entrei na rede pública, a situação alterou-se radicalmente.” Tal como é indicado por lei no caso de diagnóstico de uma perturbação de aprendizagem, Diana Silva teve acesso a uma professora de Ensino Especial dedicada ao seu processo de aprendizagem e a uma psicóloga. A tal professora que lhe foi atribuída, recorda, “foi excecional”. “Foi com ela que percebi que não precisava de ter vergonha desta minha característica e que ter dislexia não é um problema.” Trata-se apenas de uma dificuldade na aprendizagem, que consegue ser trabalhada e contornada.

Investir na educação

Helena Serra, presidente da Dislex – Associação Portuguesa de Dislexia, não se mostra satisfeita com a atenção dada aos estudantes com esta perturbação de aprendizagem. Primeiro, denuncia um subdiagnóstico. “Os sinais não são notados e andam ano após ano sem ser identificados e sem ter qualquer apoio.” Os erros, prossegue a dirigente, são frequentemente (e erradamente) atribuídos a “preguiça, falta de atenção ou incapacidade intelectual”. Tudo mitos que a Dislex procura desfazer e que têm vindo a prejudicar uma comunidade que, aponta a associação, ronda 10% da população escolar.

Outra denúncia avançada por Helena Serra é a falta de investimento do Governo na educação dos jovens a quem é diagnosticada dislexia. Há testes adaptados, em tempo e conteúdo, são colocados junto do quadro e do professor, procura-se ter uma atitude de apoio. Tudo isto são medidas que acontecem atualmente na rede escolar face a um aluno com dislexia, mas a presidente da Dislex defende que é necessário “ir mais além” e não ficar por “meras medidas de envolvimento na sala de aula”.

É necessário ir à raiz do problema: a aprendizagem. E suportar a aprendizagem de forma individualizada e consoante as necessidades de cada um, indica Helena Serra. O que, diz, não acontece. “Há um professor especial que tem de ser destacado para uma determinada turma mais pequena, para que esse aluno tenha mais apoio, mas grande parte das vezes esse professor selecionado não tem qualquer formação na área e não tem como fornecer as melhores ferramentas terapêuticas ao jovem em questão.”

As comorbilidades

Mas a dislexia não deve preocupar apenas durante a idade escolar ou no início de vida. Conviver com dificuldades de aprendizagem ao longo da vida pode levar a que outras perturbações se desenvolvam, como alterações no comportamento, ansiedade, baixa autoestima, baixas expectativas, entre outras, enumera Marta Calado. Procurar ajuda profissional é sempre o mais acertado, para que, através da terapia, se garanta que há “uma reeducação e reequilíbrio emocional, redução do stresse e ansiedade e promoção da atenção e motivação”.

As comorbilidades associadas à dislexia, nota a psicóloga da Clínica da Mente, acontecem, por norma, face aos comportamentos do meio envolvente – amigos, família, colegas, professores. “Ainda há um grande desconhecimento e desinformação sobre a dislexia e isso faz com que, muitas vezes, se tenha comportamentos errados para com a pessoa que sofre desta perturbação, como culpabilizá-la pelo erro ou esperar pouco da sua carreira escolar ou profissional.” Um diagnóstico de dislexia não é sentença para o insucesso escolar ou para estar fadado a um emprego de menor esforço intelectual – o que, denuncia Marta Calado, acontece diversas vezes, já que, perante um diagnóstico de dislexia, a primeira recomendação da escola e da família é seguir um curso profissional. “Com o acompanhamento certo é possível fazer o que qualquer outra pessoa faz.”

Hoje, Diana Silva trabalha como técnica administrativa. Conseguiu superar as comorbilidades de falta de autoestima e ansiedade, derivadas do erro de falhar. O seu dia a dia envolve documentos, letras, números. Está constantemente à prova. Com o apoio terapêutico que teve (e tem, já que ainda hoje é acompanhada em psicologia) ao longo dos anos, arranjou ferramentas para lidar com as falhas que já conhece. “Se sei que dou determinado erro, a melhor técnica que tenho e que uso ainda hoje diariamente é a recapitulação. Vou atrás no documento e revejo o que escrevi.” Em vez de ler uma vez antes de sair do trabalho, lê duas ou três. E a dislexia raramente vence o seu cuidado redobrado.

Sinais a considerar em idade pré-escolar:
  • Pobreza de linguagem;
  • Não conseguir construir frases com sentido;
  • Não decorar letras de canções;
  • Mostrar dificuldade em jogos de rimas;
  • Troca de cores e direção;
  • Desorientação no espaço (perde ideia de onde está ou onde tem de ir);
  • Falta de noção temporal (não cumpre o tempo estipulado para as tarefas).

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

O aluno com discalculia e a aprendizagem diferencial

Trabalhar com crianças todos os dias rima com lidar com aprendizagem diferencial todos os dias.

Referimo-nos a aprendizagem diferencial em vez de dificuldades de aprendizagem, porque somos todos diferentes e com estilos de aprendizagem diferentes, tendo a palavra dificuldade a conotação negativa que se quer evitar quando ensinar é o nosso mester.

Neste campo, a área da aprendizagem diferencial em Matemática foi sempre de interesse. Talvez por experiência própria. Com uma mãe professora de Matemática e não sendo a Matemática o meu forte, ou assim pensava, não consigo deixar de me surpreender hoje em dia com a facilidade com que memorizo números, datas, códigos, assim como a rapidez na análise de dados e as conclusões tiradas à velocidade da luz diante de folhas de Excel sem fim.

Por via dos bons genes maternos, ou será antes por intervenção divina como recompensa de noites sem fim diante de explicações também sem fim, depois de mais um “Satisfaz” e um “Satisfaz” nunca satisfaz? A verdade é que ler números, hoje em dia, não é apenas fácil, é essencial para o desempenho de funções de coordenação na direcção de uma escola em Londres: os bons genes maternos, portanto.

Mas voltemos ao nosso assunto: por ensino diferencial entenda-se crianças com discalculia. Discalculia? Sim, discalculia ou a dificuldade na memorização de números, no cálculo e no raciocínio lógico-matemático.

Deste modo, crianças com discalculia apresentam muitas dificuldades na conversão de medidas, como são exemplo o peso ou as distâncias, dificuldades com o conceito de tempo, incluindo dias da semana e a rapidez com que se esquecem dos dias da semana ou dos meses do ano, aniversários ou mesmo da data de nascimento.

Para além disto, acrescentamos dificuldades em actividades do dia-a-dia, como a realização de compras e o cálculo mental necessário para pagar produtos e efectuar um simples troco.

A noção de tempo e a ciclópica tarefa de sair de casa a horas para chegar a horas à escola é isso mesmo, ciclópica, para não dizer impossível, para desespero próprio e desespero dos pais destas crianças.

Incapazes de desempenhar várias tarefas ao mesmo tempo num universo onde a organização e a lógica são afinal ramos da Matemática, estas são crianças que se distraem facilmente, que se esquecem facilmente e que, portanto, são bem capazes de se perder no caminho de e para casa ou não fossem os transportes públicos regulados por números, rotas e tabelas. Para estas crianças, as operações matemáticas básicas não são básicas. Porque não sabem a tabuada de cor – desde quando 7 x 8 são 56 e, ainda mais importante, porque é que 7 x 8 são 56 e porque é que ninguém nos explica? Ainda hoje, porque é que ninguém nos explica?

E o que dizer do cálculo de percentagens, num mundo onde os impostos são ainda tão certos como a morte, onde há produtos em promoção e estatísticas apresentadas nos telejornais de todos os dias?

A leitura de mapas e a orientação pelos pontos cardeais é igualmente um mistério da natureza, onde se inclui a orientação no interior e entre localidades e assim se explica porque nos perdemos nos percursos diários.

Reconhecem algumas destas características no vosso dia-a-dia? Não é por acaso, a discalculia não é exclusiva das crianças e se nas mesmas está subdiagnosticada, o que dizer dos adultos?

Do ponto de vista neurológico, crê-se estar a discalculia associada a alterações no sulco infra-parietal e no córtex pré-frontal. Sendo o diagnóstico efectuado por psicólogos educacionais e testes neuropsicológicos, fica a pergunta: o que fazer e como ajudar o aluno com discalculia?

Tendo vivido com Matemática dentro e fora de casa, para ajudar o aluno com discalculia, mas igualmente todos os alunos, nada como mexer na Matemática, pesar e medir a Matemática através de modelos, blocos, figuras geométricas, jogos, exemplos.

Nada como trazer os meses do ano e exemplos dos mesmos para a sala de aula enquanto se atribuem actividades e funções aos dias da semana e se divide o dia em horas entre relógios analógicos, digitais, em papel e em 3D.

Nada como trazer dados e dominós para a sala de aula, de modo a promover o reconhecimento de padrões entre a adição e subtração.

Nada como deixar de lado as fichas de trabalho numa aula onde os desafios e jogos matemáticos devem ter a primazia. Porque o medo da Matemática é o maior inimigo do aluno, mas também do adulto de amanhã, e cultivar o gosto pela Matemática é vital.

A planificação de aulas onde cada tarefa é dividida em pequenas etapas e cada passo é constantemente revisto reveste-se de igual importância, cabendo ao professor não só incentivar, mas celebrar com o aluno cada aprendizagem e cada objetivo atingido.

O uso de exemplos de todos os dias bem como o uso de calculadoras, de aplicações para telemóveis ou ferramentas de conversão são instrumentos igualmente relevantes e, ainda mais importante, disponíveis na era digital.

Mas, tal como referi anteriormente, para tudo isto é preciso que a criança, e com a criança o adulto, entre na sala de aula. Porque a Matemática não é, nem pode ser, um bicho-papão. Porque a ansiedade e o medo de falhar só se vão embora quando o professor, e com o professor os pais e com os pais a família, está presente, todo ele apoio e sem juízos de valor.

Porque a auto-estima, ou a falta dela, anda connosco de mão dada para a vida. Na Matemática, mas também nas restantes disciplinas, dentro, mas também, e especialmente, fora da escola.

João André Costa

Fonte: Observador

terça-feira, 17 de agosto de 2021

O aluno com discalculia e a aprendizagem diferencial

Trabalhar com crianças todos os dias rima com lidar com aprendizagem diferencial todos os dias. Referimo-nos a aprendizagem diferencial em vez de dificuldades de aprendizagem porque somos todos diferentes e com estilos de aprendizagem diferentes, tendo a palavra dificuldade a conotação negativa que se quer evitar quando ensinar é o nosso mester. Neste campo, a área da aprendizagem diferencial em Matemática foi sempre de interesse. Talvez por experiência própria. Com uma mãe professora de Matemática e não sendo a Matemática o meu forte, ou assim pensava, não consigo deixar de me surpreender hoje em dia com a facilidade com que memorizo números, datas, códigos mais a rapidez na análise de dados e as conclusões tiradas à velocidade da luz diante de folhas de Excel sem fim. Por via dos bons genes maternos, ou será antes por intervenção divina como recompensa de noites sem fim diante de explicações sem fim depois de mais um “Satisfaz” e um “Satisfaz” nunca satisfaz?

A verdade é que ler números hoje em dia não é apenas fácil, é essencial para o desempenho de funções de coordenação na direcção de uma escola em Londres: os bons genes maternos, portanto. Mas voltemos ao nosso assunto: por ensino diferencial entenda-se crianças com discalculia. Discalculia?

Sim, discalculia, ou a dificuldade na memorização de números, no cálculo e no raciocínio lógico-matemático. Deste modo, crianças com discalculia apresentam muitas dificuldades na conversão de medidas como são exemplo o peso ou as distâncias, dificuldades com o conceito de tempo, incluindo dias de semana e a rapidez com que se esquecem dos dias da semana ou dos meses do ano, aniversários ou mesmo a data de nascimento. Para além disto, acrescentamos dificuldades em actividades do dia-a-dia como a realização de compras e o cálculo mental necessário para pagar produtos e efectuar um simples troco. A noção de tempo e a ciclópica tarefa de sair de casa a horas para chegar a horas à escola é isso mesmo, ciclópica, para não dizer impossível para desespero próprio mais o desespero dos pais destas crianças. Incapazes de desempenhar várias tarefas ao mesmo tempo num universo onde a organização e a lógica são afinal ramos da matemática, estas são crianças que se distraem facilmente, que se esquecem facilmente e que portanto são bem capazes de se perder de e para casa ou não fossem os transportes públicos regulados por números, rotas e tabelas. Porque as operações matemáticas básicas não são básicas. Porque não se sabe a tabuada de cor e desde quando 7×8 são 56 e, ainda mais importante, porque é que 7×8 são 56 e porque é que ninguém nos explica?

Ainda hoje, porque é que ninguém nos explica? E o que dizer do cálculo de percentagens num mundo onde os impostos são ainda tão certos como a morte mas onde ainda há tempo para promoções sem esquecer as estatísticas tão presentes nos telejornais de todos os dias?

A leitura de mapas e a orientação pelos pontos cardeais é igualmente um mistério da natureza dentro do qual se inclui a orientação dentro e entre localidades e assim se explica o porquê de nos perdermos nos percursos diários. Reconhecem algumas destas características no vosso dia-a-dia? Não é por acaso, a discalculia não é exclusiva das crianças e se nas mesmas está subdiagnosticada, o que dizer dos adultos?

Do ponto de vista neurológico, crê-se estar a discalculia associada a alterações no sulco infra-parietal e no córtex pré-frontal. Sendo o diagnóstico efectuado por Psicólogos Educacionais e testes neuropsicológicos, fica a pergunta: o que fazer e como ajudar o aluno com discalculia? Tendo vivido com matemática dentro e fora de casa, para ajudar o aluno com discalculia, mas igualmente todos os alunos, nada como mexer na matemática, pesar e medir a matemática através de modelos, blocos, figuras geométricas, jogos, exemplos. Nada como trazer os meses do ano e exemplos dos mesmos para a sala de aula enquanto se atribuem actividades e funções aos dias da semana e se divide o dia em horas entre relógios analógicos, digitais, em papel e em 3D.

Nada como trazer dados e dominós para a sala de aula de modo a promover o reconhecimento de padrões entre a adição e subtração.

Nada como deixar de lado as fichas de trabalho numa aula onde os desafios e jogos matemáticos devem ter a primazia. Porque o medo da matemática é o maior inimigo do aluno mas também do adulto de amanhã e cultivar o gosto pela matemática é vital.

A planificação de aulas onde cada tarefa é dividida em pequenas etapas e cada passo constantemente revisto reveste-se de igual importância, cabendo ao professor não só incentivar mas celebrar com o aluno cada aprendizagem e o atingir de cada objetivo.

O uso de exemplos de todos os dias bem como o uso de calculadoras, de aplicações para telemóveis ou ferramentas de conversão são instrumentos igualmente relevantes e, ainda mais importante, disponíveis na era digital.

Mas, tal como referi anteriormente, para tudo isto é preciso que a criança, e com a criança o adulto, entre na sala de aula.

Porque a matemática não é, nem pode ser, um bicho-papão. Porque a ansiedade e o medo de falhar só se vão embora quando o professor, e com o professor os pais e com os pais a família, está presente, todo ele apoio e sem juízos de valor. Porque a auto-estima, ou a falta dela, anda connosco de mão dada para a vida. Na matemática, mas também nas restantes disciplinas, dentro, mas também, e especialmente, fora da escola.

João Costa

sábado, 20 de março de 2021

Um dia na vida de uma criança com discalculia

 


Esta é Ana, uma aluna do nono ano com discalculia. Ana é uma rapariga inteligente, mas as suas lutas com a matemática são muitas vezes mal compreendidas pelos seus professores e membros da família. Para saber como os problemas com os números afetam as crianças para além da aula de matemática, veja como é um dia típico na vida de Ana.



6 horas da manhã

Ana sabe que precisa de tomar um banho rápido e de se preparar para a escola. Ela pensa que só está na casa de banho há alguns minutos quando o seu irmãozinho bate à porta: "Vá lá, já lá estás há 20 minutos!

Desafios relacionados com a discalculia: Manter a noção do tempo, calcular.

9 horas da manhã

Ana gosta de história e tem estudado muito para o teste de hoje. Mas depois de responder à primeira pergunta, ela começa a preocupar-se com o tempo que lhe resta. A sua confiança diminui ao olhar para o relógio e pensar no tempo que levaria a tentar ler todo o teste. Sente-se pior quando diz a si própria que provavelmente leu mal o tempo de qualquer forma.

Desafios relacionados com a discalculia: Medir o tempo, a autoestima.


12 horas

Ao almoço, Ana quer comprar um muffin de $2 para ela e uma caixa de bolachas de $5 para o seu pai. Ela não tem a certeza de ter dinheiro suficiente para comprar ambos. Mas ela não quer que os seus amigos vejam que usa os dedos para contar, por isso entrega todas as notas de dólar que tem e espera que seja suficiente.

Desafios relacionados com a discalculia: Factos matemáticos básicos, fazer operações com dinheiro.

14 horas

Ana revê os trabalhos de casa de matemática para aquela tarde e começa a entrar em pânico. Embora ela saiba fazer alguns dos passos, o seu coração começa a correr. "Nunca serei boa nisto, por isso porquê incomodar-me?" pensa ela. Ela enfia a folha de trabalho no seu cacifo antes de sair da escola - ela não quer que o seu pai encontre o trabalho incompleto.

Desafios relacionados com a discalculia: Ansiedade acerca da matemática.

16 horas

No treino em pista, Ana corre a primeira volta tão depressa que tem dificuldade em terminar a segunda volta. O treinador parece frustrado porque a Ana não se lembra do ritmo a que praticaram ontem. Porque é que tem tanta dificuldade em lembrar-se de um minuto e 25 segundos?

Desafios relacionados com a discalculia: medir velocidade e distância, lembrar as sequências numéricas.


18 horas

Ana precisa de alimentar os animais de estimação antes de a família se sentar para jantar. Ela sabe alimentar Firulais com dois terços de chávena de comida para cão e Misifu com um terço de chávena de comida para o gato. Mediu corretamente? Que recipiente tem mais comida dentro? Se Ana der demasiada comida ao gato, ele vomitará. Mas quanto é demasiado?

Desafios relacionados com a discalculia: compreender as quantidades, medir.

20 horas

Ana está entusiasmada com o jogo de basquetebol na televisão, mas está a ter dificuldade em descobrir qual a equipa que está a ganhar. Se o defensor de topo receber os dois próximos lançamentos livres, será isso suficiente para ir para tempo extra? Fazer demasiadas perguntas sobre o jogo envergonha-a, por isso vai esconder-se no seu quarto.

Desafios relacionados com a discalculia: resolução de problemas de lógica matemática, interações sociais.

22 horas

Finalmente, Ana conseguiu a estante que tanto queria. Ela desempacota a caixa e retira as instruções. Após o primeiro passo, ela fica confusa porque as peças não se encaixam corretamente. Quando o seu pai está livre para a ajudar, Ana já está tão frustrada que deita fora as peças e diz-lhe que não as quer.

Desafios relacionados com a discalculia: Processamento visuoespacial.

Mais informações sobre a discalculia
A discalculia torna difícil a compreensão de números e conceitos, tais como maior do que e menor do que. Por exemplo, as pessoas podem ter dificuldade em determinar se um grupo de cinco maçãs é maior do que um grupo de três maçãs.

Isto tem a ver com um conjunto de competências conhecido como "sentido do número". Os especialistas dizem que é como a cegueira de cor. Tal como algumas pessoas nascem com dificuldade em distinguir as cores, outras nascem com dificuldade em distinguir as quantidades.

Ter discalculia não significa que as pessoas não sejam espertas. E há muitas maneiras de ajudar com a discalculia. Com o apoio certo, crianças como Ana podem melhorar a trabalhar com números na escola e na sua vida quotidiana.

Traduzido por https://www.deepl.com/

domingo, 30 de agosto de 2020

Estas duas youtubers têm dislexia. E já não têm medo de falar sobre ela

E se, na tua cabeça, um “q” virasse um “p” ou um “v” um “b”? E se as letras dançassem e tu lhes perdesses o rasto? E se, depois de uma primeira leitura, tivesses de ler uma segunda e talvez uma terceira? É um pouco assim que se sentem Alexandra Magalhães, de 23 anos, e Cláudia Dias, de 25, duas youtubers com dislexia. “No primeiro ano de escola, a minha mãe e a minha professora achavam estranho eu trocar algumas letras, porque eu até era uma criança inteligente”, conta Alexandra. Já Cláudia partilha que, “quando estava no 2.º ano”, lhe davam “coisas do 1.º”. 

Não é um problema assim tão incomum. Segundo Helena Serra, uma das fundadoras da Dislex – Associação Portuguesa da Dislexia, “10% dos alunos em sala de aula terão estas características”. E, apesar de se ter verificado uma grande evolução desde a fundação da Dislex em 2000, Helena reconhece que continua a haver “algum desconhecimento”. Não porque o tema “não seja conhecido”, mas sim porque raramente se fala “das características, das necessidades destas crianças”.

Cláudia e Alexandra são provas de que é possível lidar com a dislexia sem que esta as defina. Para Alexandra, licenciada em Teatro pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, a ideia de criar um canal de YouTube surgiu, não por causa da dislexia, mas, sim, por causa da cicatriz que tem no peito, resultado de operações que fez ao coração. “Criei o canal para falar da auto-estima”, explica a jovem, que conta com perto de 1500 subscritores.

Já Cláudia é formada na área da Dança, o que pode comprovar alguma ligação dos disléxicos “às artes”, aspecto que é referido por Helena Serra. Cláudia já fazia parte dos vídeos de YouTube da sua irmã gémea quando, no segundo ano de faculdade, decidiu criar o próprio canal. Hoje, já com 48,8 mil subscritores, faz vídeos de lifestyle (se bem que gostava de aliar “o YouTube à dança”). 

“A dislexia não é impeditiva. O importante é que haja uma intervenção precoce”, ressalva a professora Helena Serra, até porque há uma longa lista de figuras públicas disléxicas, desde Leonardo da Vinci, a Einstein ou Steven Spielberg. Mas, apesar dos percursos de sucesso destas duas jovens, quer Cláudia quer Alexandra apontam para a necessidade de consciencializar a sociedade para o problema. 

“Acho que é importante informar os pais de crianças com dislexia”, comenta Alexandra, que não teve medo de publicar um vídeo em que fala abertamente do tema: “Quando os meus pais souberam que eu tinha dislexia, senti que tinha sido uma bomba.” Cláudia corrobora; toda a sua vida sentiu uma “certa vergonha”. Era muitas vezes atacada em comentários no YouTube por cometer erros ortográficos. A publicação de um vídeo sobre o problema foi um acto de coragem: “Com o YouTube, ganhei uma voz e queria ajudar as pessoas”, revela. A recepção do público ao vídeo foi melhor do que a esperada: “Sem dúvida que o melhor desse vídeo foi receber os testemunhos”.

Alexandra estava no 2.º ano da escola primária quando que lhe foram diagnosticados os “3D”, como a jovem lhes chama: “dislexia, discalculia e disortografia”, resultado de “ter sido operada duas vezes ao coração”. No 4.º ano, ficou retida na escola primária e, durante o ensino básico, teve sempre apoio a Língua Portuguesa, não podendo ser descontada nos testes de qualquer disciplina por erros ortográficos.

Cláudia vivia no Reino Unido durante a escola primária, o que atrasou o diagnóstico de dislexia, pois pensava-se que as dificuldades se deviam às barreiras linguísticas. Ao regressar a Portugal, foi-lhe finalmente diagnosticado o problema, mas a escola onde andou “não lidou bem com a situação”. “Davam-me apoio especial em conjunto com uma menina com síndrome de Down”, explica Cláudia. Só mais tarde, ao mudar de escola, começou a sentir “uma evolução” graças à ajuda que lhe foi prestada. “Aí começou o meu caminho de descoberta.”

Helena Serra explicita: “Os disléxicos são inteligentes e criativos nos domínios que não envolvam palavras escritas. Há um distúrbio neurológico. Há graus severos, graus intermédios, graus moderados e mais ligeiros (…). É como se as palavras não fossem fixadas no cérebro.” A professora, que decidiu fundar a associação ao entrar em contacto com uma colega disléxica, observa que muitos destes alunos são subvalorizados pois as suas dificuldades não são trabalhadas. “A dificuldade permanece ao longo da vida”, elucida. “Mas, com técnicas, vamos criando a capacidade de estarem à defesa, de fazerem a prevenção.”

Depois de ter partilhado o seu testemunho enquanto disléxica, Cláudia comenta que não sente necessidade de fazer mais vídeos sobre a disfunção neurológica: “Penso que não se justifica fazer mais vídeos sobre o assunto, tenho imensa gente que me ajuda e se identifica e tento dar um apoio no dia-a-dia”. Apesar disso, viver com a dislexia será sempre “um processo” durante a sua vida. Já Alexandra planeia continuar a falar sobre o tema através da criação de um podcast para “alertar e ajudar as pessoas”.

Fonte: Público

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

O que é a dislexia dos números?

O meu filho está a ficar para trás em matemática e parece não entender conceitos matemáticos básicos. Um pai que eu conheço disse-me que poderia ser "dislexia numérica". O que é exatamente dislexia de números?

Não é o único que se sente confuso com o termo dislexia dos números. Muitas famílias fazem-me a mesma pergunta. Dislexia de números é um termo que às vezes é usado para descrever dificuldades em matemática. Também pode ouvir os termos dislexia matemática, dislexia numérica e dislexia de inversão numérica. No entanto, nesse caso, provavelmente não é correto usar a palavra dislexia.

O termo dislexia significa ter dificuldades com aspetos da linguagem que afetam a leitura e a ortografia. Às vezes, é usado incorretamente como um termo genérico para descrever outros problemas, como dificuldades com a matemática.

É verdade que a dislexia pode causar dificuldades matemáticas específicas. Por exemplo, crianças com dislexia podem ter dificuldade em resolver problemas de lógica matemática e ler nomes e números.

No entanto, a dislexia geralmente não é a causa de crianças que apresentam um padrão de dificuldade com números e matemática. Isso pode ser causado por outra diferença de aprendizagem que muitos desconhecem: discalculia, e é provavelmente que as pessoas se referem  a isso quando dizem dislexia numérica ou dislexia matemática.

A discalculia implica ter dificuldade com algo chamado sentido numérico. As crianças podem ter problemas com conceitos matemáticos como maior que e menor que. Elas podem não entender que o número 5 é igual à palavra cinco e que ambos representam cinco objetos ou cinco grupos de objetos. Elas também podem ter dificuldade em lembrar os dados matemáticos.

No entanto, pode haver muitas coincidências entre dislexia e discalculia. Muitas crianças têm as duas condições ao mesmo tempo, e termos como dislexia de números geram confusão.

Observe os sinais de discalculia e sinais de dislexia e faça anotações sobre o que observa. Também pode conversar com o professor sobre o desempenho do seu filho na sala de aula. Quanto mais informações tiver, mais bem preparado estará para obter o apoio que seu filho precisa.

Descubra o que fazer se você acha que seu filho tem discalculia. E leia sugestões sobre como ajudar seu filho com matemática em casa.


Fonte: Understood

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

6 estratégias para ajudar alunos com dificuldades de aprendizagem

Estratégias não faltam. Truques para ensinar também não. Os professores tentam de tudo para ajudar as crianças na sala de aula. E bem! Afinal, não há um só caminho para aprender! Mas, será que todos resultam, especialmente se estivermos perante um quadro de dificuldades de aprendizagem e de atenção?

A resposta parece óbvia. Não! Há que os conhecer para os saber trilhar convenientemente. Como em tudo na vida, há métodos de ensino mais eficazes do que outros. Saber identificar os mais adequados para cada caso concreto é fundamental. Conheça as 6 estratégias de ensino mais comuns para crianças com dificuldades de aprendizagem e de atenção:

1. Tempo de espera

Também conhecido por "tempo de reflexão". É uma pausa de 3 a 7 segundos que se estabelece depois do professor dizer alguma coisa. Em vez de chamar o primeiro aluno que levanta a mão para responder a uma pergunta, o docente aguarda durante um período necessariamente curto para permitir que as crianças que demoram mais tempo possam refletir melhor sobre o que acabou de ser dito e assim terem oportunidade para reagir em igualdade de circunstâncias. 

Esse tempo de espera é precioso na medida em que permitirá ao aluno com dificuldades de aprendizagem entender de forma mais eficaz a mensagem do professor e pensar melhor na resposta, em vez de dizer a primeira coisa que lhe vem à cabeça. Esta estratégia beneficia, por exemplo, os alunos com Perturbação de Hiperatividade/ Défice de Atenção (PHDA). 

2. Instrução multissensorial 

É uma forma de ensinar cada vez mais recorrente e que envolve mais do que um sentido de cada vez. Um professor pode ajudar a criança a aprender através do toque, do movimento, da visão e da audição. A instrução multissensorial é muito útil para ajudar a superar várias dificuldades:

Dislexia: os professores podem, por exemplo, incentivar os alunos a usar o estalar de dedos para assinalar cada sílaba de uma palavra, ou, por exemplo, desenhar uma palavra no ar usando o braço e os dedos.

Discalculia: a instrução multissensorial também é importante em matemática. Os professores costumam usar ferramentas práticas, como lápis e desenhos. Essas ferramentas ajudam a "ver" conceitos matemáticos, sobretudo aos alunos com maiores dificuldades de aprendizagem para os quais a adição de 2+2 é mais concreta e mais fácil quando envolve, por exemplo, 4 lápis reais. É frequente ouvir alguns professores referirem-se a estas ferramentas como manipulativas. 

Disgrafia: os professores também usam instruções multissensoriais para superar dificuldades de caligrafia. Por exemplo, os alunos usam o sentido do tato quando escrevem em papel "irregular". 

PHDA: Instruções multissensoriais também podem revelar-se importantes para crianças com diferentes sintomas de Perturbação de Hiperatividade / Défice de Atenção. E isto é especialmente verdadeiro se a estratégia envolver movimento. A obrigatoriedade de a criança ter de se mexer ajuda a gastar o excesso de energia. O movimento também ajudará a focar e a reter mais facilmente novas informações. 

3. Modelar

A maior parte das crianças não aprende simplesmente se lhes dissermos como o fazer. Precisam de mais. Os professores poderão usar uma estratégia chamada "eu faço, nós fazemos, tu fazes" para ensinar ou desenvolver uma determinada competência. Primeiro, o professor mostrará como resolver, por exemplo, um problema de matemática ("eu faço"), depois convidará os alunos a responderem em conjunto ("nós fazemos") e, logo a seguir, as crianças serão chamadas a fazer os exercícios sozinhas ("tu fazes").

Esta estratégia pode ajudar a contornar alguns problemas. Que fique claro: todas as dificuldades de aprendizagem e de atenção, quando devidamente acompanhadas na escola pelos professores, podem ser minimizadas, em benefício dos respetivos alunos. O importante é saber prestar a ajuda correta em cada momento e perceber a fase a partir da qual a criança já estará preparada para realizar o trabalho por conta própria. Como se fosse andar de bicicleta pela primeira vez sem rodinhas. 

4. Organizadores gráficos

São ferramentas visuais que mostram informações ou a relação entre conceitos. Ajudam, também, as crianças a organizar a matéria que aprenderam ou a que precisam de aprender. Os professores usam estas ferramentas para apoiar o processo de aprendizagem dos alunos com dificuldades. É como se montassem andaimes para a construção de um edifício. 

Existem muitos tipos diferentes de organizadores gráficos, como diagramas de Venn e fluxogramas. Podem ser especialmente úteis para as seguintes dificuldades: 

Discalculia - em matemática os organizadores gráficos podem ajudar as crianças a dividir os exercícios por etapas. Podem ser igualmente utilizados para aprender ou rever conceitos matemáticos. 

Disgrafia- os professores costumam usar organizadores gráficos quando ensinam os alunos a escrever na medida em que permitem organizar ideias. Alguns também oferecem linhas de escrita para ajudar os alunos a expressarem-se corretamente.

Funções Executivas- as crianças com fracas competências executivas podem usar estas ferramentas para organizar informações e planear o seu trabalho. Os organizadores gráficos permitem igualmente sintetizar pensamentos em frases curtas. Esta estratégia permitirá ao aluno identificar mais facilmente a ideia principal de uma determinada matéria na hora de estudar e fazer os apontamentos. 

5. Acompanhamento individual e em pequenos grupos

Uma estratégia recorrente entre os professores é variar o tamanho do grupo de alunos para o qual ensinam. Algumas matérias são lecionadas para toda a turma ao mesmo tempo. Outras surtem mais efeito se fornecidas para um pequeno grupo de crianças, ou até a uma só. Há alunos que precisam de apoio escolar individualizado. Caberá aos professores e à escola avaliarem o perfil dos alunos que precisam dessa ajuda extra e agirem em conformidade. Há cada vez mais escolas a adaptarem as matérias curriculares às necessidades dos alunos.

Essa estratégia pode ser fundamental para: 

Dislexia - na sala de aula os professores procuram juntar no mesmo grupo os alunos com o mesmo nível de dificuldades para que possam beneficiar do mesmo tipo de apoio. As crianças também podem juntar-se porque, por exemplo, partilham o mesmo gosto por determinado livro. 

Discalculia - os professores reúnem um ou mais alunos com discalculia para praticar as competências às quais sentem maiores dificuldades e assim beneficiarem de ajuda extra. 

Disgrafia - em muitas salas de aula, os professores realizam ateliês de escrita e costumam reunir com os alunos individualmente e conversar sobre o seu progresso. Em simultâneo poderão aproveitar a oportunidade para se focarem nas competências específicas de cada criança.

PHDA e Funções Executivas - este tipo de acompanhamento ocorre normalmente em ambientes mais recatados e menos suscetíveis de causar distrações. O professor também pode ajudar os alunos a focar na tarefa e aprender novas competências como a automonotorização. 

Velocidade de processamento reduzida - os professores podem adaptar o ritmo da instrução, para dar aos alunos o tempo necessário para receber e responder às informações. Poderão definir em simultâneo as prioridades da matéria, para que os alunos tenham tempo para entender os conceitos mais relevantes através do trabalho de grupo.

6. Estratégias de desenho universal para aprendizagem - é um método de ensino que oferece aos alunos diferentes formas de aprender mais flexíveis. Estas estratégias (EDUA) permitem que as crianças aprendam as matérias e se relacionem com elas com maior taxa de sucesso.

PHDA - Para os alunos com défice de atenção é importante que trabalhem em ambientes flexíveis e silenciosos, longe da confusão das salas de aula. 

Funções Executivas - Seguir instruções pode ser difícil para crianças com este tipo de dificuldade. Uma das estratégias aconselhadas passa por fornecer instruções em mais do que um formato. Por exemplo, um professor pode dar instruções em voz alta e escrevê-las no quadro. 

Dislexia - Quando os professores seguem os princípios do EDUA, eles apresentam informações de diferentes maneiras. Por exemplo, em vez de dizerem aos alunos que devem ler um livro, são convidados a ouvir um audiolivro o que facilitará a vida a quem se debate com dificuldades de leitura. 

Disgrafia - Uma das estratégias é oferecer opções de escolha. Crianças com disgrafia podem sentir dificuldades em mostrar o quanto sabem sobre história através de um texto. Mas se mostrarem esses conhecimentos através de uma apresentação oral ou, por exemplo, de uma peça de teatro a tarefa poderá ser mais fácil. 

Privilegie o diálogo permanente com os professores. Conheça todas as estratégias de ensino a que o seu filho é sujeito na escola. Saiba de que forma essas estratégias podem ser usadas com sucesso em casa.

Fonte: SapoLifstyle

segunda-feira, 8 de abril de 2019

As dificuldades de aprendizagem e a Discalculia

Cartilha: As dificuldades de aprendizagem e a Discalculia (Clicar na imagem para descarregar).
Fonte: FB

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

“A matemática não quer nada comigo”

Joana é uma menina com 11 anos que frequenta o 6.º ano de escolaridade. Ao falar do seu percurso escolar, desabafa que desde que se lembra a matemática “não é sua amiga”.

Joana sempre teve dificuldade em ler números, compreender, escolher estratégias e responder a um problema oral ou escrito. Para realizar cálculos básicos, a fórmula mais eficaz é a contagem dos dedos. Além disso, tem dificuldade em saber tabuadas, interpretar gráficos e tabelas, ver as horas nos ponteiros do relógio e também em lidar com o dinheiro: “Quando a minha mãe pergunta se conferi o troco, já sei que vai haver discussão...”

“As aulas de matemática são uma tortura. Não percebo a maioria das coisas que a professora explica”, confessa Joana, que manifesta sinais de ansiedade e falta de confiança mesmo quando a resposta está correcta. “Estudo para os testes e esqueço-me logo de tudo”.

Porém, nunca revelou dificuldades na aprendizagem da leitura e da escrita. E descreve-se como “boa aluna” nas disciplinas onde não tem de “lidar com números”, relatos que são confirmados pela mãe que a acompanha na entrevista. Após uma avaliação especializada concluiu-se que as dificuldades da Joana na aprendizagem da matemática se devem a uma Discalculia. “Ah! Então não sou burra!”, desabafou.

O que é a discalculia?

A discalculia apresenta-se como uma disfunção ou imaturidade neurológica que se reflete numa dificuldade do sulco intraparietal – região do cérebro envolvido no processamento da magnitude numérica – em ser ativado de modo semelhante ao que se observa em crianças sem discalculia.

As pessoas com discalculia podem revelar dificuldades em contar, estimar, fazer comparações entre quantidades ou em realizar operações básicas e cálculos simples. Os estudos mais recentes estimam que a incidência da discalculia na população escolar varia entre 5% a 9%.

Apesar de uma grande percentagem de alunos evidenciar “apenas” discalculia, esta pode ocorrer simultaneamente com outros tipos de Dificuldade de Aprendizagem Específica (dislexia e disortografia) ou com Perturbação de Défice de Atenção e Hiperatividade.

“Praticar para consolidar”: uma intervenção eficaz

Promover estratégias de aprendizagem para alunos com discalculia depende, em primeiro lugar, do tipo de dificuldade que o aluno está a experimentar. Em geral, a intervenção junto de um aluno com discalculia deve dar atenção às competências básicas, uma instrução explícita e muitas oportunidades de “praticar para consolidar”. O planeamento da intervenção deve garantir que os alunos consolidem os conceitos básicos antes de avançarem para competências mais complexas. Por outro lado, incentivar e promover competências de organização, planeamento e resolução de problemas tem um impacto muito positivo na criança com discalculia e na sua evolução.

Por Susana Mateus

Técnica Superior de Educação Especial e Reabilitação do CADIn

Fonte: Público

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

“Tenho aqui um bocadinho de dislexia.”

Disortografia, disgrafa, discalculia, mas especialmente dislexia, são palavras que inundam o vocabulário escolar. É comum ouvir: “É que eu tenho um bocadinho de dislexia”. A verbalização destas “Dis” vem dos professores, vem dos pais, vem dos psicólogos e tornou-se, diria, “viral”. O saco desta temática não tem fim, nem parece ter fundo. Ganha-se muito dinheiro e pior, induz em erro muitas pessoas.

Não me quero alongar nas particularidades desta dificuldade específica de aprendizagem. Deixo dois links onde já tive oportunidade de me debruçar detalhadamente sobre este tema.



Na altura de Estado Novo falava-se na importância de saber ler, escrever e contar. Estes sim eram os três pilares fundamentais no 1.º ciclo. Sem querer, sequer, cair num milímetro que seja na defesa do antigo regime tenho de reafirmar que existe uma urgência latente em fazer regressar um espaço dedicado a, reafirmo, duas bases fundamentais do acesso ao conhecimento e liberdade: leitura e escrita.

Reféns do tempo apertado para cumprir com o programa, responder às metas exigidas, alunos e professores boicotam-se permitindo um avanço em lacunas graves de aprendizagem, consolidação e descoberta de regularidades.

Ao longo do meu percurso em Educação Especial consigo encontrar uma linha exponencial entre os primeiros relatórios que recebi no início da minha profissão e aqueles que recebo agora. Deixou-se de falar em perturbações de linguagem, em faltas de consolidação da leitura e escrita e encravámos o carimbo nas “Dis”. Com um rótulo retirámos responsabilidades, retirámos intervenção e assinamos um atestado de incapacidade onde anulamos à partida o trabalho que pode ser desenvolvido e classificamos como “doença irrecuperável”.

As metas de aprendizagem têm sido um foco de discórdia não reunindo consensos positivos. No meu entender são exigentes e não delegam o espaço necessário à maturação destas competências – base dificultando o acesso à informação. Devido ao aumento da carga letiva, no 1ºciclo, de temas que são novamente abordados no 2ºciclo diminuiu-se o tempo e espaço que deve ser dado ao desenvolvimento destas competências fundamentais. Os resultados são as dificuldades comprovadas nestas áreas ao longo do 2º e 3 ciclo dificultando o acesso à informação de muitos jovens ao mesmo tempo que são rotulados com perturbações do âmbito da leitura e escrita que poderiam ser evitadas e trabalhadas atempadamente.

Por isso, uma das medidas educativas que continuo a reiterar é refletir e reestruturar as metas de aprendizagem para o 1ºciclo no sentido de atribuir mais espaço à aprendizagem e desenvolvimento das competências essenciais.

Respeitemos as “Dis” e deixemo-las em paz ajudando-as a encontrar o seu espaço. Unamos esforços e poder de reflexão para perceber as dificuldades reais e compreender que em educação nada é preto ou branco e é preciso ler nas entrelinhas e de preferência com tempo.


Fonte: ComRegras

quinta-feira, 19 de março de 2015

Discalculia e realização das provas de final de ciclo

Em resposta a uma questão sobre o uso de calculadora por parte de um aluno do 6.º ano de escolaridade com diagnóstico de discalculia, o Júri Nacional de Exames pretou a seguinte informação:

Quanto à realização de provas finais de ciclo, um aluno do 6.º ano, com discalculia, pode utilizar aquela com que trabalha habitualmente (gráfica ou não) desde que satisfaça as seguintes condições, de acordo com as indicações constantes da Informação-Prova Final de Ciclo de matemática, do Instituto de Avaliação Educativa: ter, pelo menos, as 4 operações aritméticas elementares; ser silenciosa; não necessitar de alimentação exterior localizada; não ter cálculo simbólico (CAS) não ter capacidade de comunicação à distância e não ter fitas, rolos de papel ou outro meio de impressão. Mais se informa que se resultante de uma problemática de dislexia, um aluno apresentar uma discalculia, as condições especiais na realização de provas e exames devem ser as previstas para alunos com problemática de dislexia.
 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Pais de crianças com dislexia preocupados

Os pais das crianças com dislexia mostram-se preocupados com um possível recuo na legislação que enquadra o apoio a estas crianças, temendo que fiquem relegadas para segundo plano.

Em declarações (...), Eduarda Cabrita, dirigente desta associação, explicou que o relatório do grupo de trabalho sobre educação especial introduz algumas alterações que estão a preocupar os pais das crianças com dificuldades de aprendizagem específicas. A Associação Portuguesa de Pessoas com Dificuldades de Aprendizagem Específicas realiza hoje em Lisboa um debate sobre a dislexia, que vai abordar as novidades previstas para a nova legislação do ensino especial.

Dislexia, disgrafia, disortografia e discalculia são as quatro dificuldades de aprendizagem específicas, sendo a dislexia a mais prevalecente.

"Tememos que os nossos filhos, que representam 48% dos alunos da educação especial, sejam relegados para segundo plano. Tememos que venha a significar menos intervenção junto destas crianças", comentou Eduarda Cabrita, adiantando que os alunos com dislexia "vêm sempre na cauda dos apoios".

Da proposta contida no relatório do grupo de trabalho sobre educação especial, os pais contestam o facto de o documento apontar para uma indefinição de conceitos relativamente à dislexia e às outras dificuldades de aprendizagem específicas.

Para a associação é ainda preocupante que o relatório proponha que a avaliação para diagnóstico destes alunos tenha de ser feita por um médico do Serviço Nacional de Saúde (SNS): "O SNS tem meios e recursos humanos para fazer o diagnóstico de todos os alunos?", questionou Eduarda Cabrita.

A associação contesta também a proposta segundo a qual os pais deixam de ser um dos elementos que podem referenciar a criança, solicitando depois um diagnóstico.

No debate que hoje se realiza em Lisboa, e que conta com a participação da ex-ministra da Saúde Ana Jorge, a associação pretende deixar um "olhar realista sobre a (in)visibilidade da dislexia no sistema educativo português".

In: Sol por indicação de Livresco

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

DSM 5 e as mudanças no diagnóstico das dificuldades específicas de aprendizagem: que implicações?

A Associação Americana de Psicologia procedeu à revisão da quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), que incluiu a mudança de muitas secções sobre dificuldades de aprendizagem específicas. Meses mais tarde, depois de inúmeras petições, inúmeras discussões, várias declarações de posição e muitas reuniões, o DSM-5 foi lançado. As mudanças foram significativas, mas talvez não tão maléficas quanto o previsto. Dr. Rosemary Tannock, membro do grupo de trabalho do DSM-5, explica exatamente o que significam essas mudanças.

P: O que são as DEA [Dificuldades Específicas de Aprendizagem] de acordo com o DSM-5?
R: O DSM-5 considera as DEA como sendo um tipo de desordem neurodesenvolvimental que compromete a capacidade para aprender habilidades académicas específicas (por exemplo, ler, escrever ou aritmética), que são a base de outras competências académicas. As dificuldades de aprendizagem são ‘inesperadas’ tendo em conta outros aspetos do desenvolvimento que parecem estar bem. Os primeiros sinais de dificuldades de aprendizagem podem surgir por altura da pré-escola (por exemplo, dificuldade em aprender os nomes das letras ou em contar objetos), mas só podem ser diagnosticados de forma confiável depois de se iniciar a educação formal. As DEA são encaradas como uma condição transcultural e crónica que geralmente persiste até à idade adulta, embora com diferenças culturais e mudanças de desenvolvimento na forma como as dificuldades de aprendizagem se manifestam. Por exemplo, nos países anglo-saxónicos, as crianças debatem-se com a aprendizagem da correspondência entre letras e sons, a fim de descodificar palavras isoladas com precisão, enquanto os adultos podem ter dominado as competências básicas de descodificação, mas leem lentamente e com esforço. Por outro lado, nos países com uma língua não-alfabética ou em que a correspondência entre os sons da fala e as letras utilizadas para representar esses sons é muito mais simples do que em Inglês, as crianças com DEA (por exemplo, dislexia) aprendem rapidamente a correspondência letra-som, mas tanto as crianças como os adultos debatem-se com a fluência da leitura. 
As DEA enquadram-se num diagnóstico clínico que não é necessariamente sinónimo de "dificuldades de aprendizagem", tal como é identificado no sistema de ensino, ou seja, nem todas as crianças com dificuldades de aprendizagem/dificuldades identificadas pelo sistema escolar terão um diagnóstico de DEA, tal como é definido no DSM-5. Por outro lado, é de esperar que aqueles que possuem um diagnóstico de DEA de acordo com a DSM-5 estejam enquadráveis na definição educacional. 

P. Que mudanças existem no DSM-5 no que respeita às DEA? 
R. Os critérios de diagnóstico do DSM-5 para as DEA refletem duas grandes mudanças, cada uma das quais exigindo outras mudanças: (i) Uma categoria abrangente de DEA com "especificadores" para caracterizar as manifestações específicas de dificuldades de aprendizagem, no momento da avaliação, em três grandes domínios académicos: leitura, escrita, matemática (por exemplo, DEA com dano na leitura) e (ii) eliminação da exigência na discrepância QI-realização e sua substituição por quatro critérios, os quais – todos – devem ser cumpridos: 

Critério A 
Refere-se às características-chave das DEA (pelo menos um dos seis sintomas de dificuldades de aprendizagem, que têm de persistir por, pelo menos, seis meses, apesar ter sido proporcionada ajuda extra ou instrução específica). 

Critério B 
Refere-se à medição dessas características (as habilidades académicas afetadas são substancialmente e quantificavelmente abaixo do esperado para a idade e causam dificuldades nas atividades escolares, profissionais ou quotidianas, aspeto confirmado por medidas de desempenho padronizadas administradas individualmente e avaliação clínica abrangente). 

Critério C 
Refere-se à idade de início dos problemas (durante a idade escolar, embora possam manifestar-se plenamente apenas na idade adulta, em alguns indivíduos) 

Critério D 
Especifica quais são os transtornos (problemas relacionados com défice Intelectual, acuidade auditiva ou visual não corrigida, outros transtornos mentais ou neurológicos) ou condições adversas (adversidade psicossocial, a falta de proficiência na língua de ensino, instrução insuficiente) que devem ser excluídos antes que um diagnóstico de DEA possa ser confirmado. 

P. Quais são as implicações do DSM-5 nas DEA? 
R. É expectável que estas mudanças tenham algum impacto na prática clínica diária, na pesquisa clínica, no sistema educativo, nas organizações profissionais e nos grupos de defesa das DA [Dificuldades de Aprendizagem], assim como nos indivíduos com DA, nas suas famílias bem como na perceção que a comunidade tem das DA. 
Uma mudança substancial na prática impõe-se em virtude de haver mudanças de subtipos de DA (Transtorno de Leitura, Transtorno de Matemática, Transtorno de Expressão Escrita) para uma categoria abrangente. Para os clínicos e investigadores, esta alteração irá implicar uma avaliação compreensiva das competências académicas e poderá reduzir os desafios associados à definição do subtipo de DA (por exemplo, quando as pontuações dos testes variarem nos vários domínios ou testes académicos, com pontuações logo abaixo do limiar clínico). Em vez disso, os especificadores podem ser usados para caracterizar mais precisamente a gama de problemas presentes no momento da avaliação. A identificação de uma única categoria abrangente de DA é compatível com vários sistemas de ensino em que as DA são delineadas como uma categoria elegível para a educação especial, outros serviços e financiamento específico. 
Esta mudança pode ajudar a reduzir a confusão dos pais e educadores quando DA "adicionais" são identificadas em anos escolares posteriores, e ajudá-los a entender melhor as mudanças no desenvolvimento na manifestação das DEA, que são, em parte, desencadeadas pela exigência crescente do processo de aprendizagem curricular (por exemplo, dificuldades, no início, na leitura de palavras isoladas são, muitas vezes, seguidas de dificuldades na aprendizagem de aspetos relacionados com matemática, problemas de ortografia e dificuldades de compreensão da leitura, incluindo problemas de vocabulário da matemática). No entanto, essa mudança também pode exigir a reciclagem de médicos, psicólogos escolares e educadores para identificar e compreender esta conceptualização de DA e como criar percursos de aprendizagem para cada aluno com DA. 
Espera-se que esta mudança possa levar a um melhor alinhamento das práticas entre as comunidades de clínicos e de educadores. 
Será que esta mudança irá ter um impacto negativo sobre os indivíduos com diagnóstico de dislexia ou de discalculia ou sobre as organizações de profissionais ou grupos de apoio (por exemplo, na Internacional Dyslexia Association)? Não deveria, uma vez que estes termos podem ser usados para especificar a natureza de cada DEA, de acordo com preferências individuais. Além disso, a exigência de utilização de especificadores para caracterizar a gama de habilidades académicas afetadas pela dislexia pode aumentar a consciência de que a 'dislexia' tipicamente abrange muito mais dificuldades do que as relacionadas com a descodificação e soletração de palavras. 
A segunda mudança prática é indicada pelo abandono do critério de discrepância QI-realização, bem como a omissão de défices de processamento cognitivo nos critérios diagnósticos. O modelo de discrepância tem servido, durante décadas, como a conceptualização fundamental de DA, apesar das fortes evidências de que, conceptualmente e estatisticamente, é falível. Assim, apesar de a avaliação intelectual ter sido, durante décadas, o cerne da avaliação psicológica para as DA, ela não será mais necessária para um diagnóstico de DEA, de acordo com o DSM-5. Da mesma forma, no DSM-5, não há nenhuma exigência para a demorada e custosa avaliação neuropsicológica das habilidades de processamento cognitivo para o diagnóstico de DEA: essa avaliação pode dar informações sobre planos de intervenção, mas não é necessária para o diagnóstico. Isto significa que os psicólogos poderão mudar de "avaliação para diagnóstico" para "avaliação para intervenção" e poderão ter mais tempo para facultar uma psicopedagogia e consultadoria a pais e professores. Para o sistema educativo, a eliminação do critério de discrepância QI-realização pode significar que será possível facultar serviços de educação especial a crianças com DEA e QI mais baixo (por exemplo, pontuação de QI acima de 70 ± 5), mas que não têm uma deficiência intelectual. Face à intervenção, essas crianças apresentam uma resposta semelhante àquela que as crianças com DEA e pontuação de QI mais altos têm. 
Uma terceira alteração está relacionada com os novos critérios (particularmente com os A e B), que exigem provas de persistência dos sintomas e o uso de uma ampla gama de dados que possam ser utilizados para confirmar e quantificar baixos desempenhos académicos. Ao contrário do que acontecia com o DSM-IV, os dados psicométricos, sozinhos, são insuficientes para o diagnóstico de DEA de acordo com o DSM-5. Será necessária uma colaboração mais próxima entre educadores, médicos e pais, para se poder ter acesso a registos formais e informais escolares, registos escolares, percurso educativo, bem como informações referentes a avaliações psicopedagógicas e clínicas. Uma colaboração mais próxima e sistemática entre médicos, educadores, pais e o indivíduo com DEA pode conduzir a uma menor confusão e frustração e a melhores resultados, quando se percorrem ambos os mundos (clínico e educacional).

Rosemary Tannock, Ph.D.
Fonte: http://www.interdys.org/dsm5update.htm
Via FB podendo ser consultado aqui na versão portuguesa.