Mostrar mensagens com a etiqueta Deficiência mental. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Deficiência mental. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Alunos com deficiência intelectual “precisam muito mais do que serem entretidos nos intervalos”

Continuam a faltar técnicos para acompanhar os alunos com deficiência intelectual que frequentam a escolaridade obrigatória, alerta a Humanitas - Federação Portuguesa para a Deficiência Mental, que representa 40 associações do sector.

O anúncio da contratação de assistentes operacionais para as escolas para acompanharem, neste ano letivo, os alunos com necessidades educativas especiais é uma boa medida, mas muito redutora, no entender da presidente da Humanitas, Helena Albuquerque.

“É uma medida muito boa, claro, mas, o que é de lamentar, é que esta devia ser a última medida que o Ministério tomava e não a primeira, não reduzir o apoio das crianças com Necessidades Educativas Especiais (NEE) nas escolas ao acompanhamento de Assistentes Operacionais. Isto é uma medida extramente redutora daquilo que nós precisamos”, diz.

Estão a ser esquecidos alunos que, por causa da quarentena e das escolas encerradas, perderam competências, que costumam ser trabalhadas com as equipas dos Centros de Recursos para a Inclusão (CRI), numa parceria com Instituições ligadas à deficiência.

“Volta-se ao ano letivo, há um discurso do Ministério da Educação (ME) - e muito bem - que nesta primeira parte, têm de se recuperar as aprendizagens que não se fizeram. Num período destes, não há reforço nenhum destas equipas?! Antes pelo contrário, nós vemos, e mais um ano, as equipas diminuírem e a prestarem um apoio menor do que nos anos anteriores. “, lamenta Helena Albuquerque, que é também presidente da APPACDM de Coimbra onde o apoio aos alunos NEE “chega a ser de menos 100 horas por semana” porque o financiamento para estas equipas não aumenta, desde 2015.

Questionado pela Renascença, o Ministério da Educação esclarece que irá ser feita “em conjunto com as instituições uma avaliação das necessidades e modalidades de financiamento para que se ajuste o financiamento às necessidades e aos serviços efetivamente prestados.

Além disso, o ME indica que “a opção por contratar Assistentes Operacionais não se opõe à opção de alocar mais técnicos especializados para as escolas, como se fez já este ano com a contratação de 900 técnicos no âmbito dos Planos de Desenvolvimento Pessoal, Social e Comunitário. Pelo contrário, o reforço de assistentes operacionais visa responder à principal necessidade identificada pelas escolas no âmbito da implementação da legislação sobre Educação Inclusiva”.

Helena Albuquerque lamenta que não seja outro o rumo. “Quando nós andamos há anos a lutar para que estes meninos tenham um acompanhamento técnico competente, tem sido sucessivamente recusado o aumento desse apoio técnico. Vir agora divulgar e expandir uma ideia dessas como essencial, para nós é inaceitável. Esses meninos precisam muito mais do que serem levados à casa de banho, do que serem levados ao almoço, do que serem entretidos nos intervalos”

Helena Albuquerque revela que, muitos pais de alunos com deficiência, estão a procurar outras respostas, como as antigas escolas especiais.

“Os pais estão descontentes, e nós estamos a ver subir o número de pais que pedem o encaminhamento para as escolas especiais, nós temos cada vez mais pedidos, portanto, alguma coisa se está a passar mal", remata.

A Humanitas enviou este alerta ao grupo parlamentar da educação inclusiva, coordenado pelo deputado social-democrata António Cunha.

Fonte: RR

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Psicólogos contra novas regras nas escolas. Dizem que poderá haver nova pandemia na saúde mental

De todas as medidas recomendadas pla Direção-Geral de Saúde e pelo Ministério da Educação para o retomar das aulas presenciais, há quatro que um grupo de psicólogos e profissionais de saúde infantil e juvenil mais contestam.

Primeiro o distanciamento físico entre as crianças dentro da sala. Outra medida contestada é o uso prolongado de máscara. Um terceiro ponto que levanta muitas dúvidas a alguns agentes de saúde mental é ainda a redução dos tempos de intervalo ao ar livre, onde o contágio é menor. Por fim, a proibição da entrada dos pais na escola, sobretudo pais de crianças mais pequenas.

Este grupo de psicólogos dizem mesmo que pode haver uma nova pandemia na saúde mental.

Fonte: SIC Notícias com vídeo por indicação de Livresco

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

O impacto das regras para o novo ano letivo na saúde mental das crianças

Ana Rita Dias, Laura Sanches e Zulima Maciel, psicólogas clínicas, tiveram a iniciativa de publicar, no jornal Público, um artigo sobre “As medidas para o novo ano lectivo e o seu impacto na saúde mental das crianças”. O documento, subscrito por outros profissionais de saúde, como Daniel Sampaio, médico psiquiatra, será, agora, enviado para a Ordem dos Psicólogos, em formato de carta aberta. “Infelizmente, não nos sentimos representados pela nossa Ordem, que não tem vindo a assumir nenhuma posição pública pela promoção da saúde mental das nossas crianças e jovens e que apenas demonstra aceitar, passivamente, tudo o que a Direção-Geral da Saúde (DGS) indica”, explicou Ana Rita Dias, no Facebook.
Segundo a carta dirigida à Ordem dos Psicólogos, os profissionais entendem que as medidas sanitárias a adotar nas escolas, devido à pandemia de covid-19, têm sido tomadas “sem grande consideração pelo bem-estar [das crianças] e sem evidência científica da sua real necessidade”.

O distanciamento
Num documento elaborado pela Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares, em articulação com a DGS, com orientações para as escolas, aconselha-se que as crianças e jovens sejam organizados em grupos/turmas, evitando, sempre que possível, o contacto entre pessoas dos diferentes grupos. Entre outras regras, no interior das salas de aulas, para o pré-escolar, “deve ser maximizado o distanciamento físico entre as crianças, quando estão em mesas”. No ensino básico e secundário, “deve garantir-se o distanciamento físico entre alunos de, pelo menos, um metro”.

O que acontece é que “quando afastamos as crianças e lhes transmitimos a mensagem de que elas precisam de se manter afastadas, estamos a bloquear um instinto natural delas, de procurarem o contacto físico e de se manterem próximas umas das outras”, explicam as psicólogas. “Isto cria-lhes tensão e uma pressão grande, que facilmente se torna num elemento de ansiedade, que sabemos ser tão prejudicial ao seu desenvolvimento e, consequentemente, à sua aprendizagem”, pode ler-se, também, no documento enviado à Ordem.

Os intervalos e os pais
O grupo de profissionais ligados à saúde infantil e juvenil também discorda da orientação que aconselha que os intervalos entre as aulas tenham “a menor duração possível”. “Os intervalos são momentos importantes de socialização e constituem pausas essenciais para uma boa aprendizagem e para potenciar os tempos de atenção/concentração, frisando-se a importância de estes intervalos serem fora da sala de aula”, lê-se na carta aberta.

Outra das orientações que não obtém o apoio dos psicólogos é aquela que impede a entrada dos pais na escola, quando vão deixar ou buscar os filhos. "Para os profissionais em questão, não se trata de um “capricho”. “Uma criança que entra num lugar novo fica sempre num certo estado de alerta, principalmente quando essa entrada implica a separação das suas figuras de apego. A única forma de desactivar esse alerta é o contacto com as figuras de apego. E, enquanto ele não for desativado, a criança não está disponível para novas relações seguras”, explicam, no mesmo documento. A dificuldade no processo de adaptação, frisam os psicólogos, é válida tanto para crianças mais novas como mais velhas, principalmente “depois de tudo o que aconteceu este ano, com um período de afastamento tão prolongado e carregado de tensão por vários motivos”. “Permitir a entrada dos pais na escola é fundamental, para que esta não se torne um mundo completamente estranho e separado da família, em que a criança nunca se sentirá realmente segura”.

O uso de máscaras
O uso de máscaras no interior dos espaços escolares é outra das orientações que não é bem aceite pelos psicólogos. Nomeadamente no que diz respeito à utilização da mesma, pelos adultos, nas creches e jardins-de-infância, por dificultarem o processo de adaptação das crianças, visto ocultarem as expressões faciais. “As expressões faciais são uma parte fundamental da comunicação não-verbal e daquilo que nos faz, ou não, sentir segurança na presença de outra pessoa”, defendem os especialistas. “Sem ver totalmente a cara da pessoa com quem nos relacionamos é bem mais difícil recolher pistas de segurança e, quando nem sequer conhecemos essa pessoa, como irá acontecer na adaptação à escola para muitas crianças, então isso torna-se praticamente impossível”, advertem.

Os psicólogos que redigiram a carta aberta defendem, também, que “segundo vários pediatras europeus, o uso de máscaras em creches, jardins-de-infância, 1º e 2º ciclos, por crianças sem patologia grave subjacente não é necessário, apropriado ou razoável”. E dão, ainda, o exemplo de países como a Suíça ou Dinamarca, que “optaram mesmo por não as tornar obrigatórias para os adultos nas creches e, ainda assim, a Dinamarca não registou um aumento dos casos que fosse associado às escolas, que estão a funcionar desde 15 de abril”.

“Quando nos concentramos apenas na comunicação oral, algo que é forçado pelo uso contínuo de máscaras, estamos a estimular o uso do hemisfério esquerdo, em detrimento do direito, que sabemos estar bastante mais associado a sentimentos de agitação, ansiedade e até de depressão”, alertam, ainda, os especialistas.

Por todos os factores indicados, o grupo que remeteu a carta aberta à Ordem dos Psicólogos sublinha que o stress, na infância, está ligado a uma série de complicações na vida adulta, como a obesidade, a diabetes tipo II, perturbações de ansiedade e depressão e, até, problemas cardiovasculares. Defendem, por isso, que não é necessário aplicar “medidas tão restritivas e limitadoras de um desenvolvimento integral harmonioso e saudável”. E dizem ser “urgente proporcionar às crianças um regresso à escola dentro da maior normalidade possível, reforçando as medidas de higiene das mãos e as atividades ao ar livre, acautelando que as crianças com sintomas da doença fiquem em casa, criando também condições para que os pais possam ficar com elas”.

Fonte: Educare

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Radar das emoções desenvolvido na Universidade de Aveiro

É um radar, mas não serve para monitorizar a velocidade dos automóveis nem o espaço aéreo. Monitoriza, isso sim, emoções. Desenvolvido na Universidade de Aveiro (UA) o inédito radar, qual filme de ficção científica, consegue identificar o estado emocional de um indivíduo usando apenas sinais vitais detetados à distância.

O radar das emoções funciona através do envio de uma onda rádio que é refletida pelo tórax da pessoa monitorizada. Este eco recebido de volta pelo aparelho permite monitorizar o ritmo respiratório. Através deles, e com recurso a algoritmos de classificação, o radar consegue identificar três emoções: o medo, a alegria e um estado neutro, onde nenhuma emoção em particular está a ser sentida.

“Num futuro próximo pretende-se detetar também com o radar o sinal cardíaco”, explica Carolina Gouveia, investigadora do Instituto de Telecomunicações (IT), uma das unidades de investigação da UA. Com o auxílio deste sinal vital, antevê a cientista, “para além de termos mais informação que permita classificar ainda com mais precisão as emoções mencionadas, pretendemos avaliar também a possibilidade de identificar outras emoções como o nojo e a tristeza”.

Desenvolvido em conjunto com o IT e a UA, por uma equipa multidisciplinar proveniente não só do IT, mas também do Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática, do Instituto de Engenharia Eletrónica e Telemática de Aveiro, do Departamento de Educação e Psicologia, do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, do William James Center for Research e do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL), o trabalho foi publicado este mês pela revista Biomedical Signal Processing and Control da Elsevier.

Esta investigação é assinada por Carolina Gouveia, e também por outros investigadores da UA e dos demais centros de investigação, entre eles Ana Tomé, Filipa Barros, Sandra Soares, José Vieira e Pedro Pinho.

Ajuda importante na saúde mental

O radar da UA pretende ser um instrumento privilegiado, dada a sua natureza informativa e não-invasiva, para avaliar estados emocionais associados a determinados padrões de ativação fisiológica, quer em contexto de investigação, quer em contextos mais práticos.

Em contexto clínico, exemplifica Filipa Barros, “poderá constituir um meio complementar de avaliação, diagnóstico e monitorização de algumas perturbações que têm associadas alterações fisiológicas” e “poderá ser especialmente relevante quando nos referimos a populações em que a avaliação destas alterações seria dificultada, como é o caso da hipersensibilidade ao toque ou da Perturbação do Espetro do Autismo”.

Para além disso, o radar das emoções poderá ser utilizado em muitos outros contextos, como no da investigação criminal ou no ramo automóvel (de forma a evitar acidentes derivados da automaticidade associada à condução).

A principal vantagem desta nova tecnologia é o facto de possibilitar a recolha de sinal sem ser necessário contacto direto com as pessoas, o que facilita a obtenção de medidas objetivas. Sobretudo, sublinha Filipa Barros, “nos contextos de saúde mental, onde este tipo de medida é frequentemente difícil de obter e em muito enriqueceria a avaliação, diagnóstico e controlo da eficácia da intervenção”.

Para além disso, o radar pode ser utilizado de forma discreta, permitindo a avaliação da atividade fisiológica de uma forma mais autêntica e fiel à realidade. Estas características são particularmente vantajosas em determinados cenários, nomeadamente quando a avaliação envolve crianças ou populações clínicas com dificuldades de comunicação ou comportamentais.

Saliente-se que o radar das emoções nasce de novas aplicações desenvolvidas e instaladas no Bio-Radar, um radar nascido em 2017 na UA e que, através de ondas rádio, permite registar à distância a frequência respiratória humana.

domingo, 24 de maio de 2015

As famílias e a doença mental

O jornal PÚBLICO de 16 de maio dá-nos conta de uma entrevista com Joaquina Castelão, a presidente da FamiliarMente — Federação Portuguesa das Associações das Famílias de Pessoas com Experiência de Doença Mental, que acaba de ser constituída.

Nesse relato, Joaquina Castelão fala da sua experiência pessoal de acompanhamento de um familiar e revela as vicissitudes dessa ajuda, que outros familiares por certo confirmam. Diz-nos: “Há a pessoa que tem o problema e a família que tem de o resolver.”

A FamiliarMente integra 11 associações de todo o país e pretende “a implementação plena dos cuidados continuados integrados de saúde mental” que, infelizmente, continua a faltar. É por essa razão que muitos doentes não continuam o seu tratamento, muitas vezes iniciado de forma correcta nos serviços de internamento onde, no entanto, continuam a faltar recursos humanos e a escassear as diversidades de tratamentos que se sabe serem eficazes. Joaquina Castelão defende um maior contacto entre os familiares e os técnicos e uma abordagem psicoeducativa que ligue os familiares à equipa de tratamento, o que não existe em muitos casos.

A experiência das famílias com um membro com perturbação mental grave, de natureza crónica, tem sido descrita nos últimos anos como uma sobrecarga ou um fardo (family burden). Em várias doenças mentais graves, como por exemplo na esquizofrenia e na doença bipolar, a família é um auxiliar decisivo no tratamento, porque os doentes não têm autonomia nem qualquer discernimento sobre a necessidade de terapêutica. Torna-se assim crucial reconhecer as capacidades de cada família para essa tarefa de cuidar e potenciar a sua capacidade de resposta.

O fardo familiar pode ser objetivo ou subjetivo e ambos são muito importantes. No primeiro caso, existem tarefas necessárias ao tratamento da doença mental do familiar em causa, como o acompanhamento às consultas, a ligação aos serviços de reabilitação, a procura de eventuais apoios financeiros e a gestão de cuidados no dia-a-dia do doente. Por exemplo, no caso da esquizofrenia e da doença bipolar, a paragem da medicação pode precipitar uma crise que leve ao internamento, pelo que a vigilância familiar tem de ser constante sem, todavia, levar a momentos de crítica e hostilidade, por sua vez motivo de agravamento da perturbação. O fardo subjetivo diz respeito ao conjunto de sentimentos que a família vivencia a partir do momento em que reconhece que o seu familiar sofre de uma doença mental crónica, tomando consciência de que o seu comportamento desajustado não é passageiro ou apenas resultado de uma crise existencial transitória. Em muitos casos, a tomada de consciência da família provoca sentimentos de culpa, porque os familiares do doente sentem que não fizeram tudo o que está ao seu alcance para evitar a perturbação. Noutras situações, há como que um processo de luto, porque a família compreende que muitos sonhos e expectativas face ao seu familiar podem ser interrompidos (ou mesmo cessar) pela cronicidade e gravidade da doença. Esta situação pode levar a um progressivo isolamento do agregado familiar.

É também importante que os técnicos tenham mais conhecimento da importância do trabalho com as famílias, porque muitos deles continuam a trabalhar numa óptica muito individual, esquecendo como o envolvimento e ajuda à família devem constituir um objetivo fundamental da intervenção terapêutica.

Daniel Sampaio

Fonte: Público

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Acabar com a crise na saúde mental. Porque está ao nosso alcance

O título do livro Ao nosso alcance. Acabar com a crise na saúde mental, da autoria de Rosalynn Carter e última publicação da ENCONTRAR+SE – Associação para a promoção da saúde mental, serve-me de mote para reafirmar que está nas nossas mãos a solução do problema.

É porque a saúde mental afeta uma em cada quatro pessoas, que ouso insistir que este grave problema de saúde pública é da responsabilidade de todos nós. Só em conjunto conseguiremos enfrentar os muitos desafios que cuidar da saúde mental ainda envolve e pôr fim à crise que se vive neste importante domínio da saúde e da vida humana.

No últimos meses, e para satisfação de quem luta pelos direitos na saúde mental, temos assistido a um maior interesse dos meios de comunicação social por estas temáticas. A importância deste facto reside na necessidade de aumentar a consciência pública sobre a “crise que se vive na saúde mental” e como esta afeta todos os domínios da vida e da sociedade: o pessoal, o familiar, o educativo, o trabalho, a economia, o judicial, entre outros.

As mensagens têm, de uma forma geral, permitido demonstrar que a doença mental deve ser olhada como qualquer outro problema de saúde. Como seres humanos que somos, a doença mental atinge-nos tanto como a doença física, independentemente da idade, raça, género e estatuto social. É, pois, legitimo exigir que se invista nos meios que permitam uma intervenção precoce, personalizada e com base no conhecimento científico e clínico que nos permite ter esperança na recuperação de um problema de saúde mental.

Temos leis com décadas de existência que assim o afirmam; temos milhares de artigos científicos publicados; dezenas de congressos da especialidade a acontecer anualmente em todo o mundo a mostrar o que de mais atual temos disponível; temos guias de boas práticas em todos os domínios; publicações, programas e websites diversos e de elevadíssima qualidade. Não precisamos de mais relatórios, nem grupos de trabalho, nem avaliações, que mais não fazem do que repetir continuamente o que já se sabe, adiando indefinidamente o que é preciso fazer.

No dia 10 de Outubro do ano passado, data em que se celebra o Dia Mundial da Saúde Mental, foi capa do Jornal de Notícias, a fotografia de Fernando Barbosa, que partilhou a sua história demonstrando como é possível ter uma vida para além do diagnóstico de uma esquizofrenia. A doença mental mais temida e intrigante. A mensagem era clara: é possível recuperar de um problema de saúde mental e ter uma vida normal – trabalhar, ter amigos, família, sorrir, andar de skate e o que mais tiver sentido para cada pessoa. O exemplo de Fernando Barbosa retrata o caminho da recuperação quando se tem acesso a um conjunto de serviços de proximidade, integrados, que atendem às necessidades de cada pessoa e seus familiares/cuidadores, e que estão disponíveis de forma sistemática. A realidade é que, respostas desta natureza, são escassas por todo o país. O reduzido investimento na promoção da saúde mental e prevenção da doença mental têm contribuído para uma grave “crise”, da qual resulta avultados custos emocionais, sociais e económicos.

Resta agora que cada um decida cuidar da sua saúde mental e que contribua para que a garantia do direito à saúde mental possa tornar-se uma realidade para todos. Porque está ao nosso alcance.

Filipa Palha
Docente da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, no Porto.

Fonte: Público

domingo, 14 de dezembro de 2014

As perturbações mentais são frequentes

Costumo dizer aos meus alunos da Faculdade de Medicina de Lisboa: “Podem não gostar de Psiquiatria, mas têm de saber que as perturbações psiquiátricas são importantes, pelo simples facto de serem muito frequentes.”

Lembrei-me desta minha frase habitual quando comentava em público a apresentação do Relatório “A Saúde Mental em números”, que em boa hora a Direção-Geral da Saúde e o coordenador do Programa de Saúde Mental (Álvaro de Carvalho) decidiram debater.

Em primeiro lugar, fica demonstrado que as perturbações mentais e do comportamento afetam mais de um quinto da população portuguesa. Em comparação com outros países ocidentais, Portugal apresenta um dos valores mais altos de prevalência de perturbações psiquiátricas: 22,9%, sendo de notar que as perturbações de ansiedade e as de controlo dos impulsos atingem a pontuação mais elevada entre os nove países da Região Europa da OMS que integraram o estudo.

Depois, nunca poderemos esquecer que as doenças mentais têm forte impacto na vida dos doentes, que se traduz por um número significativo de anos perdidos de vida saudável. Segundo os dados de 2010, representaram 11, 75% da carga global da doença, logo atrás das doenças cérebro-vasculares e com mais peso do que as doenças oncológicas (10,38%).

O relatório também demonstrou o atraso na criação e dinamização de equipas comunitárias de Saúde Mental, o que determina que a resposta terapêutica continue a ser predominantemente medicamentosa, apesar de, em muitos casos, diferentes alternativas poderem ser mais adequadas. Continua a verificar-se um maior consumo de ansiolíticos, sedativos e hipnóticos, em comparação com outros países europeus, sendo sobretudo preocupante o uso de ansiolíticos nas perturbações de humor, o que, à partida, poderá significar terapêuticas menos indicadas. Estimulantes do sistema nervoso central são utilizados com frequência em crianças e adolescentes, havendo entre os especialistas sérias dúvidas se o diagnóstico e intervenção terapêutica foram os mais adequados, sobretudo na perturbação de ansiedade com défice de atenção, diagnosticada agora em escolas e centros de saúde sem o necessário rigor.

Muitas dos doentes com perturbação mental tentam recorrer aos médicos de família, que continuam a escassear em muitos locais e nem sempre têm a formação adequada para poderem ter uma intervenção eficaz. Persistem dificuldades de acesso aos serviços de Psiquiatria, com os especialistas muito concentrados nas principais cidades, deixando o interior com escassez de recursos.

No meu comentário a estes dados (...), classifiquei como “dramática” a assistência psiquiátrica a crianças e adolescentes. Em muitos locais, não existe possibilidade de marcar uma consulta de Pedopsiquiatria e as situações ficam em lista de espera ou são atendidas por técnicos sem formação adequada. Quando é necessário internar um adolescente entre os 16 e os 18 anos, o jovem tem de ficar em enfermarias de adultos, onde o contexto não é favorável a uma boa evolução. Nos adolescentes mais novos e nas crianças, existem apenas dez camas de internamento para a zona Norte e dez para a zona Sul, sem que a zona Centro possua qualquer local de internamento para esta faixa etária.

É essencial que os decisores políticos estejam atentos a esta situação. No que diz respeito aos mais novos, está mesmo em questão a possibilidade de prevenirmos uma doença mental grave na idade adulta.

Daniel Sampaio

Fonte: Público

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Assistência médica a crianças e adolescentes com perturbações psiquiátricas “é dramática”

Todos concordam com o diagnóstico: a situação da assistência médica dada a crianças e adolescentes com problemas de saúde mental “é dramática”. Um dos sintomas é desde logo a falta de camas para o internamento dos mais novos, que leva a que muitas vezes tenham de ser hospitalizados no meio de adultos. O secretário de Estado da Saúde, Leal da Costa, admitiu que “o internamento é paupérrimo”. Foi durante a apresentação do relatório Portugal-Saúde Mental em Números 2014, esta quinta-feira.

O problema da psiquiatria da infância e da adolescência há muito está sinalizado. Há apenas dez camas para internamento no Porto, outras dez camas em Lisboa e os médicos especialistas escasseiam. No Algarve, por exemplo, existe apenas um pedopsiquiatra.

Convidado a comentar o relatório, foi o psiquiatra Daniel Sampaio quem classificou a situação nesta área como “dramática”, lembrando que “a maior parte das perturbações psiquiátricas no adulto iniciaram-se na adolescência”. O médico, que é diretor do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria, disse que o internamento de adolescentes junto de adultos “cria muitos problemas aos adolescentes e aos serviços, que não têm capacidade para os tratar. A situação é dramática e exige uma tomada de decisão”.

“O internamento de miúdos de 14 e 15 anos em enfermarias psiquiátricas de adultos comporta imensos riscos, todos os dias temos notícias desses riscos”, comentou também o psiquiatra Augusto Carreira, presidente da Associação Portuguesa de Psiquiatria da Infância e da Adolescência. “As famílias não se opõem [a estes internamentos] porque estão tão aflitas que qualquer situação lhes parece bem”.

Fernando Leal da Costa disse ainda que “dizer que a situação é dramática é se calhar uma expressão demasiado suave”. O governante reconheceu a necessidade de ter de "arranjar alternativas” e perguntou se não seria possível criar em alguns hospitais, de forma transitória, “enfermarias para adolescentes”. A criação de uma outra unidade de internamento em Coimbra, para dar resposta à zona Centro, está há muito em cima da mesa. O governante disse que é necessária e urgente, mas não se comprometeu com prazos.

Recorde-se que a Carta da Criança Hospitalizada dita que “as crianças não devem ser admitidas em serviços de adultos. Devem ficar reunidas por grupos etários para beneficiarem de jogos, recreios e actividades educativas adaptadas à idade, com toda a segurança”.

A região do Porto referenciou mais primeiros surtos psicóticos em crianças e adolescentes, enquanto a região de Lisboa e Vale do Tejo registou um aumento de tentativas de suicídio, oriundas sobretudo de classes sociais médias e médias/altas, disse o director do Programa Nacional para a Saúde Mental, Álvaro de Carvalho. “São sinais de alerta que temos de monitorizar”.

Fonte: Público por indicação de Livresco

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Um fórum oportuno

Em 6 e 7 de novembro decorreu, na Fundação Calouste Gulbenkian, um Fórum Internacional, destinado a promover os direitos das crianças com perturbação mental ou deficiência intelectual. Organizado em parceria com a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, o Fórum reuniu técnicos de diversos países e ativistas dos direitos humanos, com experiência do terreno na luta por esses direitos.

Foi uma reunião muito interessante e mobilizadora, a que infelizmente poucos portugueses assistiram. Trata-se de um tema difícil e, em Portugal, é costume fazer de conta que certas questões não existem. Um dos principais focos deste fórum consistiu na denúncia das situações de institucionalização de crianças. Em muitos locais do mundo, crianças e jovens são institucionalizados porque têm problemas de doença mental e não encontram o tratamento adequado. O afastamento da família e da escola ocorre, em muitos casos, porque o estigma, a discriminação e o desconhecimento das melhores formas de tratamento conduzem a essa solução.

Infelizmente e apesar do esforço dos técnicos que lá trabalham, muitas instituições acolhem demasiadas crianças, a intervenção técnica é intermitente e os cuidados limitam-se às principais rotinas do quotidiano, com a das refeições e a da higiene.

Em Portugal, cerca de oito mil crianças e jovens estão institucionalizados por ordem dos tribunais. Em muitos casos, a colocação numa determinada casa de acolhimento obedece apenas a um critério de vagas e a escolha não é direcionada para a solução dos principais problemas de quem é acolhido. Trabalha-se muito pouco com as famílias de origem e se o retorno a casa pode ser impossível em certos casos, outros haverá em que a preparação desse regresso deveria ser a prioridade desde o primeiro dia de institucionalização.

O fórum demonstrou como as crianças institucionalizadas sofrem consequências negativas pelo facto de estarem privadas de um meio familiar adequado. A ausência de cuidados de qualidade, a pouca estimulação e a interação humana com muitos problemas relacionais contribuem para o aparecimento ou agravamento de doenças físicas e perturbações mentais, bem como para o aumento de comportamentos autodestrutivos. O número de mortes de crianças e jovens em instituições é superior à dos jovens da mesma idade que vivem com as suas famílias.

O fórum pretendeu aumentar a informação e o conhecimento sobre este problema e, ao mesmo tempo, propor estratégias para prevenir a institucionalização de crianças, através de um conjunto de serviços sediados na comunidade que possam fornecer cuidados a crianças, pais e cuidadores. Como exemplos foram citados a importância de uma intervenção precoce nas crianças com dificuldades nos primeiros anos de vida, a criação de serviços e programas de apoio aos pais, a educação inclusiva que evite a marginalização de crianças com dificuldades, o apoio financeiro e social às famílias em risco, o desenvolvimento da adopção e a monitorização rigorosa dos cuidados nas instituições de acolhimento de jovens.

O fórum concluiu que a institucionalização de crianças com perturbações psicossociais constitui uma violação dos direitos humanos, baseada na crença falsa de que essas crianças não podem ser tratadas com sucesso, de modo a que a sua qualidade de vida melhore e se possam tornar membros válidos da sociedade.

Daniel Sampaio

domingo, 9 de novembro de 2014

"Labirinto de Soraia"

As perturbações de saúde mental são as doenças com mais impacto na qualidade de vida de crianças e adolescentes, mas é o problema de saúde com menor resposta no país. A Grande Reportagem SIC acompanha o percurso de uma família em busca de soluções. De Miriam Alves, José Silva e Marco Carrasqueira, com grafismo de Marta Coelho e produção de Diana Matias. Eis o "Labirinto de Soraia"



In: SIC por indicação de Livresco

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Direitos de crianças com doenças mentais discutidos em Lisboa

Direitos de crianças com doenças mentais discutidos em Lisboa

Os direitos das crianças com doença mental estão a ser discutidos esta quinta e sexta-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


In: YouTube por indicação de Livresco

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Estigma sobre a doença mental tem que deixar de existir na sociedade

"Não existem doentes mentais, existem pessoas que são, pontualmente, portadoras de uma doença e que são acompanhadas, melhoram e fazem as suas vidas como todos os demais. Isto é a prova que não faz sentido que, em pleno século XXI, exista estigma sobre o doente mental". A mensagem foi vincada por Luisa Delgado, diretora do Serviço de Psiquatria do Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT) durante a cerimónia de inauguração da "IntegrARTE", uma exposição de trabalhos artísticos de vários utentes do ambulatório da Psiquiatria do CHMT, inaugurada em Tomar, na sexta-feira, 10 de Outubro, a propósito do Dia Mundial da Saúde Mental.

"Esta exposição nasce do facto de nós, profissionais de saúde, termos verificado que várias pessoas que acompanhamos tinham uma forte ligação à expressão artística e achamos interessante juntar estes trabalhos e mostrá-los à comunidade", justificou, por seu turno, a enfermeira especialista Paula Carvalho que trabalha no ambulatório de Psiquiatria,

O convidado especial da iniciativa, que contou com a presença de vários convidados, foi o artista plástico e mediador cultural Miguel Horta, que leu uma história da sua autoria intitulada "Quando as mãos fazem, a cabeça ri...". A mostra está patente na Galeria IPT - Centro de Arte e Imagem, que funciona na Avenida Cândido Madureira, em Tomar, até ao dia 24 de Outubro, de segunda a sexta-feira, das 10h30 às 12h30 e das 14h às 16h30.
 
In: O Mirante por indicação de Livresco

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Governo quer reforçar respostas na área da pedopsiquiatria

O secretário de Estado da Saúde, Fernando Leal da Costa, afirmou nesta sexta-feira em Coimbra que quer reforçar a capacidade de intervenção e internamento em pedopsiquiatria, considerando que há "uma escassez de meios" nessa área.

O Governo tem "consciência da necessidade de intervenção em saúde mental nos mais novos", sendo uma especialidade para a qual o país "não foi capaz de criar os profissionais necessários", disse Fernando Leal da Costa, na sessão de abertura das comemorações do Dia Mundial da Saúde Mental, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra.

"É necessária uma intervenção mais forte, mais efectiva e mais competente nas crianças e adolescentes", referiu, frisando que a promoção da saúde mental e a prevenção de distúrbios também se "ganha numa intervenção precoce". Os recursos existentes "são manifestamente poucos para as necessidades identificadas", sendo a capacidade de intervenção e de internamento "limitada", observou, sublinhando a importância "de formar o maior número possível" de pedopsiquiatras.

O presidente do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), José Martins Nunes, também presente na cerimónia, prevê que "dentro de três meses" seja possível dotar o CHUC de um serviço de pedopsiquiatria com internamento e urgência, "que sirva as crianças da região Centro". "Existe uma médica a trabalhar fora da região interessada em trabalhar em Coimbra, estão a tramitar dois processos de cedência por interesse público de duas pedopsiquiatras e, em Janeiro, teremos mais uma especialista formada no nosso hospital", informou.

Em declarações aos jornalistas, José Martins Nunes explicou que o serviço com internamento e urgência estará integrado no Hospital Pediátrico de Coimbra numa área actualmente desocupada, prevendo que no início o serviço esteja equipado com dez camas. De acordo com o presidente do conselho de administração do CHUC, "nunca houve internamento em pedopsiquiatria" em Coimbra. José Alberto Garrido, director do serviço de pedopsiquiatria do CHUC, sublinhou que até agora as crianças "ou ficam nas urgências ou vão para o Porto ou para casa".

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Director do Programa de Saúde Mental critica falta de internamento em pedopsiquiatria na Região Centro

O diretor do Programa Nacional para a Saúde Mental, Álvaro de Carvalho, considerou na quarta-feira que a inexistência de internamento de Pedopsiquiatria no Hospital Pediátrico de Coimbra (HPC) é “uma situação inaudita, difícil de entender”. “Há espaço físico e há dinheiro para adaptar esse espaço. Mas primeiro faltavam enfermeiros, agora que já há enfermeiros parece que faltam pedopsiquiatras”, afirmou, frisando que, “infelizmente, não é aos serviços centrais que cabe desbloquear o problema”, mas sim à administração do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (CHUC), que “tem autonomia”.

Álvaro Carvalho reagiu assim à intervenção do diretor de serviço de pedopsiquiatria do HPC, José Garrido, que, ao intervir no seminário sobre a prevenção do suicídio juvenil, que decorreu em Coimbra, considerou “chocante” que para uma população de 300 mil pessoas com menos de 18 anos, na Região Centro, não exista “uma urgência” ou “uma cama” naquela área. “Nem sequer gastamos muito dinheiro: não fazemos exames dispendiosos, não utilizamos medicamentos caríssimos e mesmo em relação às nossas horas de trabalho… enfim, ganhamos cada vez menos, também não é por aí...”, ironizou.

A falta de camas para internamento na área da Saúde Mental da Infância e Adolescência (só existem 20, dez em Lisboa e dez no Porto) foi um dos problemas detetados no último Relatório de Primavera do Observatório Português dos Sistemas de Saúde. Isto num quadro de aumento da procura, como revelava na altura um estudo publicado na revista científica internacional The Lancet, segundo o qual entre 2008 e 2013 o número de jovens a frequentar consultas de psiquiatria nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde aumentou 23% e o número de novas consultas disparou em 30%.

No seminário sobre prevenção do suicídio, esta quarta-feira, Álvaro Carvalho frisou que a falta de pedopsiquiatras para assegurarem as urgências no Hospital D. Estefânia, em Lisboa, foi ultrapassada “há cinco ou seis meses”, com a criação de uma pool de especialistas de hospitais da região, que passaram a trabalhar algumas horas naquele serviço.

“O internamento em Coimbra seria importantíssimo também para ultrapassar a falta de especialistas – passaríamos a ter mais um centro com capacidade formativa total na área da psiquiatria da infância e da juventude”, frisou.

(...) o presidente da Administração Regional de Saúde do Centro (ARSC), José Tereso, frisou que “a decisão de criar o internamento está tomada há anos” e que “o secretário de Estado-adjunto do ministro da Saúde já expressou a sua necessidade absoluta”. “O secretário de Estado não coloca dificuldades, pelo contrário, ele pergunta é: ‘quando?’”, disse José Tereso, que concordou que a solução encontrada para as urgências do D. Estefânia “pode ser aplicada na região, desde que se assegure que não se desguarnecem outras frentes”. (...)

No seminário sobre o projecto de prevenção do suicídio + Contigo, vários especialistas referiram que a taxa de suicídio entre os adolescentes portugueses não tem vindo aumentar, mas os comportamentos autolesivos, como a intoxicação medicamentosa, sim. 

O projecto + Contigo, que resulta de uma parceria entre a Escola Superior de Enfermagem de Coimbra e a Administração Regional de Saúde (ARS) do Centro, visa, precisamente, promover a capacidade de resolução de problemas, o reforço da auto-estima e o combate ao estigma em saúde mental. Segundo dados divulgados esta quarta-feira, dos 1218 adolescentes da Região Centro que no último ano lectivo participaram no projecto, mais de um quarto (27,2%) “apresentou sintomatologia depressiva (de leve a agrave) que diminuiu no decurso das intervenções do programa”, em que participam profissionais de saúde, professores e encarregados de educação.

In: Público por indicação de Livresco

domingo, 13 de julho de 2014

Respostas na área da saúde mental são insuficientes, sobretudo para os jovens

As assimetrias entre Lisboa, Porto e Coimbra e o resto do país, a inexistência de qualquer serviço de urgência específico no Alentejo e Algarve e a falta de camas para internamento são as principais dificuldades detectadas pelo Relatório de Primavera do Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS) no que respeita à Saúde Mental da Infância e Adolescência.

Isto num quadro de aumento da procura, como revela um estudo publicado na revista científica internacional The Lancet, segundo o qual, entre 2008 e 2013, o número de jovens a frequentar consultas de psiquiatria nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde aumentou 23% e o número de novas consultas disparou em 30%.

No estudo da The Lancet, em que são citados dados não publicados do Ministério da Saúde, o investigador português do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa, Gonçalo Figueiredo Augusto, relaciona o aumento do número de consultas e de internamentos com os três anos de austeridade e, concretamente, com as “atuais dificuldades sociais e financeiras que as famílias portuguesas enfrentam e que passaram a ser um peso psicológico sobre as crianças”.

Também a psicóloga clínica Conceição Tavares de Almeida, assessora do Plano Nacional de Saúde Mental para a Infância e Adolescência, reforça (...) que com a crise tem vindo a ganhar peso uma postura de “cultura do sucesso que causa uma pressão enorme nos jovens, sendo preciso recuperar uma certa tolerância em relação ao insucesso e ao erro”. Sobretudo nas alturas a que chama “áreas cinzentas”, como é o caso da passagem do ensino secundário para a universidade.

Camas e enfermeiros em falta

Sobre as lacunas de recursos, elas estão bem identificadas, assegura o diretor do Programa Nacional para a Saúde Mental. Álvaro de Carvalho explica que só existem 20 camas no país (dez em Lisboa e dez no Porto) para internar crianças e adolescentes com problemas mentais. “Precisaríamos pelo menos de 40 para dar resposta no imediato, até porque tem havido um aumento dos casos que chegam através das urgências”, afirma o psiquiatra, dizendo que falta também uma rede de cuidados continuados. E garante que o problema não está nos espaços, que já existem, mas sim na “carência de enfermeiros que precisariam de ser contratados”, já que é um “trabalho de equipa”. Os últimos dados oficiais indicam que em 2011 se realizaram 295 internamentos por perturbações mentais da infância, sendo a média de quase nove dias de permanência.

O diretor do Serviço de Pedopsiquiatria do Hospital Psiquiátrico de Coimbra, por seu lado, destaca que as crianças e adolescentes acabam por ser “atendidos por médicos de outras especialidades que não têm experiência ou conhecimentos de Pedopsiquiatra suficientes”. Além disso, José Garrido admite que a falta de capacidade de internamento leva a que os doentes sejam “incorretamente seguidos em consultas externas”, tendo os médicos que usar, por vezes, “doses de medicação mais elevadas com o objetivo de conter eventuais comportamentos desadequados de forma puramente química”.

A própria Carta da Criança Hospitalizada reforça que “as crianças não devem ser admitidas em serviços de adultos”, sendo que a idade pediátrica foi alargada dos 16 para os 18 anos. Álvaro de Carvalho destaca precisamente a importância de dar respostas adequadas: “A adolescência é por excelência uma fase de crise do desenvolvimento e em que os doentes querem satisfações imediatas, pelo que faz sentido um internamento adaptado também em termos de ambiente.”

Já Conceição Tavares de Almeida adverte que com a perda de valências das autarquias e escolas houve muitas áreas que ficaram de fora, sublinhando que o papel dos médicos de família é agora ainda mais fundamental para evitar fases de internamento, normalmente motivados por crises de ansiedade, tentativas de suicídio e consumo excessivo de substâncias lícitas ou ilícitas.

Mas também aqui há problemas de recursos. O vice-presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, Rui Nogueira, lembra que “cerca de um milhão e meio de pessoas estão sem médico de família” e reitera a importância destes profissionais, não apenas pela acessibilidade mas também pela relação de confiança que desenvolvem com o utente e a família.

Mitos e preconceitos sobre a saúde mental infantil

Os cuidados de saúde mental infantojuvenil são frequentemente vítima de discriminação, sendo a sua necessidade desvalorizada por dirigentes e profissionais de saúde, por desconhecimento e pela existência enraizada na nossa cultura de alguns mitos associados à infância, designadamente:

Mito – a infância e a adolescência são de forma geral os períodos mais felizes na vida da maioria das pessoas, pelo que as situações de doença são raras e não devemos “psiquiatrizar” em excesso.

Facto – pelo menos 15% das crianças e adolescentes têm patologia psiquiátrica a necessitar de algum tipo de ajuda, fruto de circunstâncias individuais ou mais frequentemente do contexto em que crescem e vivem.

Mito – os problemas de comportamento ou a hiperatividade na infância são questões disciplinares, de educação, ou de famílias pobres ou problemáticas.

Facto – os problemas de saúde mental infantil são transversais a toda a sociedade, e os de ansiedade ou depressão são até bastante comuns em adolescentes de famílias diferenciadas com níveis de exigência e responsabilidade acima da média.

Mito – a capacidade de recuperação das crianças que sofrem algum tipo de problema de saúde mental é muito maior que nos adultos, pelo que apenas em casos excecionais são necessárias intervenções especializadas nesta área.

Facto – todos conhecemos e nos lembramos exemplos de adultos de sucesso que tiveram infâncias ou adolescências problemáticas, mas simultaneamente “esquecemos” de forma seletiva que a maioria dos adultos problemáticos tiveram infâncias disfuncionais e frequentemente sem qualquer oportunidade de ajuda para o seu equilíbrio, crescimento e sofrimento mental.

Mito – quem vai a consultas de Pedopsiquiatria, vai tomar medicação o resto da vida.

Facto – uma grande parte das intervenções em consulta de Pedopsiquiatria não implica a toma de medicação, dizendo respeito a ajuda em situações pontuais de crise, problemas que ocorrem ao longo do desenvolvimento, ou ainda a dúvidas sobre o normal e patológico.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Centro para deficientes mentais vai ser criado em Monforte

Um equipamento social para acolher deficientes mentais vai ser construído em Monforte, no período de três anos, permitindo a criação de 30 a 40 postos de trabalho, revelou hoje à agência Lusa o presidente do município. "A garantia que temos é que este equipamento pode criar entre 30 a 40 postos de trabalho e para Monforte é muito considerável. É mesmo vital para nós e para a economia deste concelho", disse Gonçalo Lagem. Para o avanço do projeto de construção do equipamento, a Câmara Municipal de Monforte vai assinar, na quarta-feira, um protocolo com o Centro de Educação e Reabilitação de Deficientes de Todo o País (CERCITOP), entidade promotora da iniciativa. De acordo com o autarca, o equipamento social vai ser construído numa área com um hectare, cedida pelo município, junto ao quartel dos bombeiros daquela vila do Alto Alentejo.

In: CM por indicação de Livresco

domingo, 6 de abril de 2014

Pais de deficientes mentais adultos lançam alerta

Os pais de deficientes mentais adultos confessam viver atormentados com o dia em que deixarão de poder ajudar os filhos, porque sabem que não existem lares suficientes no país para acolher todos os que precisam de cuidados especiais e permanentes.


Para responder a esta necessidade, um grupo de pais que se via a envelhecer e não encontrava respostas para os filhos uniu-se e formou, em 1994, a CEDEMA - Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Mentais Adultos com o objetivo de criar um lar.

Dez anos depois, o sonho concretizou-se e no dia 22 de abril a associação vai inaugurar um lar em Odivelas, com capacidade para 24 utentes, que já está esgotada, disse à Lusa a presidente da associação.

"Infelizmente só estamos a responder a 10% das inscrições que temos", lamentou Maria Antónia Machado, comentando que "os pedidos são muitos" e há "muito poucas respostas".

A responsável desabafou que lhe faz "muita confusão" quando aparecem na associação "pais desesperados com filhos que saíram da escolaridade obrigatória, com paralisia cerebral e outras patologias, e não têm nenhuma resposta para eles".

Com um filho adulto com trissomia 21, Maria Antónia disse que o "grande terror" destes pais é "fecharem os olhos" e não saberem como será o futuro dos filhos.

Este medo também a "aflige": "Embora tenha outros filhos e esteja convencida que não deixarão o irmão para trás, também me pesa pensar no dia em que vou desaparecer e ele não vai ter o que teve até hoje, os carinhos, os cuidados médicos, os cuidados de toda a ordem, porque os irmãos têm as suas vidas profissionais".

"As pessoas têm o seu trabalho, os filhos vão para a escola, e o que vão fazer com este familiar com 40 ou 50 anos com deficiência mental? Não o podem levar para o trabalho, não o podem levar para a escola, fica sozinho? Contrata uma pessoa a tempo inteiro? Sai caro. Fica numa instituição? Não há", elucidou.

As soluções passam muitas vezes por os colocar em lares de idosos, que não têm uma estrutura adequada para os acolher, ou por ficarem em casa fechados à chave.

Perante esta realidade, o "grande anseio" destes pais é saberem que, quando desaparecerem, os "filhos ficam bem", numa resposta adequada às suas necessidades não só em termos de alojamento, alimentação e cuidados básicos, mas também em termos de ocupação e reabilitação.

Voluntária na associação, Rosa Carreto lamentou a "falta de visibilidade" deste problema e a "falta de apoios" para esta população.

"Há uma série de atenções" viradas para as causas das crianças, dos sem-abrigo, "mas depois há outras tão nobres como esta que são completamente esquecidas porque não são visíveis", sublinhou Rosa Carreto.

Salientou ainda o facto de a maior parte das instituições ao nível da deficiência apenas apoiar crianças.

"As crianças crescem e precisam de um sítio especial e diferente do que os lares tradicionais podem oferecer, porque são pessoas com 20, 30, 40 anos e que têm necessidades diferentes dos idosos", justificou Rosa Carreto.

O dia-a-dia destes pais também é complicado, como conta Rosa Carreto: Não é fácil para pais com 50, 60 anos "lidar fisicamente" com os filhos adultos e com dificuldade de mobilidade.

"Há muitos casos em que as famílias desistem de tudo e ficam em casa com eles", acrescentou Maria Antónia Carvalho.

"Sabe o que são 20, 30, 40 anos a ter de se ocupar de uma pessoa a tempo inteiro sem poder sair", questionou, lamentando que a sociedade "faça de conta" que este problema não exista para "não ter de agir".

Na sua opinião, o Estado devia ter um papel mais interventivo: "Embora ultimamente se tenha falado muito em novos apoios e novos reforços para esta área, o facto é que as coisas não andam com a celeridade que deviam andar".

Oito a 10% da população sofre de problemas do foro mental e cerca de 2% tem perturbações de deficiência cognitiva.
In: DN por indicação de Livresco

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Promoção da saúde mental e prevenção da perturbação mental: um compromisso inadiável

É inquestionável que os problemas de saúde mental representam um grave problema de saúde pública. Os custos diretos (despesas assistenciais) e indiretos (p.ex. baixas por doença) da perturbação mental, atingem uma magnitude preocupante, estimando-se que o impacto mundial acumulado que representa em perda de produtividade económica possa ascender a 16.3 mil milhões de dólares entre 2011 e 2030.

Se pretendemos trabalhar para os objetivos propostos na Estratégia Europa 2020, por um crescimento inteligente, sustentável e inclusivo, não podemos continuar a ignorar esta realidade, tornando-se prioritário “cuidar” do potencial das competências emocionais, cognitivas e intelectuais da população europeia, e não colocá-lo em risco por falta de respostas adequadas à promoção da saúde mental e prevenção da perturbação mental.

Neste contexto, na 66.ª Assembleia Mundial de Saúde, os Estados-Membros da Organização Mundial de Saúde aprovaram um Plano de ação para 2013-2020 assente em quatro grandes objetivos: reforçar uma liderança eficaz na saúde mental; implementar respostas comunitárias de saúde mental compreensivas, abrangentes, integradas e acessíveis, incluindo serviços de apoio social; implementar estratégias de promoção e prevenção em saúde mental; e fortalecer os sistemas de informação e de investigação no domínio da saúde mental.

Segundo dados do 1.º Relatório do “Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental”, Portugal “tem, em conjunto com a Irlanda do Norte, a mais elevada prevalência de doenças psiquiátricas na Europa”; “cerca de 65% de pessoas com uma perturbação psiquiátrica não tem qualquer tratamento” e “o tempo que medeia entre o começo das perturbações psiquiátricas e o momento em que se inicia o seu tratamento varia, na maior parte dos casos, entre um e quatro anos”. Paralelamente, sabemos existir um reduzido número de profissionais não médicos integrados na rede de cuidados de saúde mental, bem como falta de formação adequada nos modelos de intervenção de eficácia comprovada para responder aos múltiplos desafios que as pessoas com experiência de uma perturbação mental e seus familiares enfrentam.

Olhando para este cenário complexo e de uma enorme exigência, é altura de agir, de fazer chegar às pessoas todo o conhecimento produzido nos últimos anos neste domínio, e substituir o desespero, o estigma e a discriminação, por uma responsável concretização dos compromissos assumidos, quer a nível nacional (e.g. Recomendações do Ministro da Saúde de 21 de Junho 2013), quer ao mais alto nível internacional (e.g. Pacto Europeu para a Saúde Mental).

É inequívoco que “é a saúde mental que abre aos cidadãos as portas da realização intelectual e emocional, bem como da integração na escola, no trabalho e na sociedade” (OMS, 2001), reclamando um compromisso conjunto.

Filipa Palha
Docente e Investigadora da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, no Porto. Coordenadora do Mestrado em Reabilitação Psicossocial.
In: Público por indicação de Livresco

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Só um terço das pessoas com perturbações mentais moderadas são tratadas

Só 16,2% das pessoas com perturbações mentais ligeiras e 33,8% das que sofrem de perturbações moderadas recebem tratamento em Portugal, revela o relatório Portugal Saúde Mental em Números 2013, que esta quinta-feira foi divulgado no Porto. “Este padrão questiona os graus de estigma sociocultural em relação às perturbações mentais e o de acessibilidade aos cuidados especializados”, sublinham os autores do documento.
Pelo contrário, a percentagem de pessoas com perturbações mentais graves tratadas (66,1%) é “confortável”, consideram.
De resto, já se sabia que Portugal apresentou a prevalência mais elevada de perturbações mentais (22,9%) dos oito países da Europa que integraram o painel do estudo integrado no World Mental Health Survey Initiative, da Organização Mundial de Saúde, cujos resultados preliminares foram divulgados em 2010. A situação é “tão mais preocupante quanto alguma evidência prévia correlacionou diretamente a taxa de prevalência de doenças mentais com índices nacionais de desigualdades sociais e de saúde”, notam, a propósito, os autores do relatório.
Outro problema destacado no relatório tem que ver com a falta de estruturas para tratamento de adolescentes, tendo sido identificados casos de jovens com 16 e 18 anos internados em serviços de psiquiatria de adultos.
Os especialistas chamam ainda a atenção para a elevada taxa de prescrição de benzodiazepinas (um grupo de fármacos eficazes como ansiolíticos e hipnóticos) em Portugal, sobretudo as duas com maior risco de indução de dependência.