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sexta-feira, 31 de julho de 2026

OFICINA DE ESCRITA BRAILLE “LER COM OS DEDOS”, por Daniel Lança

1 de agosto | 20h00

Local: Feira do Livro de Lagos – Praça do Infante (Espaço de Leitura Inclusiva)
Org.: CM Lagos (Balcão da Inclusão)
Duração: 90 min
Entrada gratuita

No âmbito do Espaço de Leitura Inclusiva da Feira do Livro de Lagos, o Balcão da Inclusão promove a oficina "Ler com os Dedos", uma atividade concebida para proporcionar uma experiência dinâmica, participativa e acessível a pessoas de todas as idades.
Através do contacto direto com o sistema Braille, os participantes terão oportunidade de descobrir como as pessoas com deficiência visual leem e escrevem, promovendo uma maior sensibilização para a inclusão, a acessibilidade e o direito de todos ao acesso à leitura e à informação. Ação dinamizada por Daniel Lança, professor de apoio a crianças e jovens com deficiência visual.

Objetivos
• Dar a conhecer o sistema de leitura e escrita Braille;
• Sensibilizar para a realidade das pessoas com deficiência visual;
• Promover a igualdade de oportunidades no acesso à leitura e à informação;
• Valorizar o Braille como instrumento de comunicação, aprendizagem e autonomia;
• Incentivar o contacto com diferentes formas de leitura acessível.

Fonte: CM de Lagos por indicação de Livresco

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Plataforma criada por mães apoia crianças com dificuldades de comunicação

Duas mães portuguesas transformaram a sua experiência pessoal num projeto inovador que pretende facilitar a comunicação de crianças e adultos com dificuldades comunicativas. Sophia Bernardo e Ana Leitão, ambas mães de crianças neurodivergentes, são as criadoras do Noé, uma plataforma digital desenvolvida para apoiar famílias, professores e terapeutas na criação de recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA).

O projeto nasceu da necessidade de encontrar soluções mais rápidas e eficazes para produzir materiais adaptados às necessidades específicas de cada utilizador. Ao longo dos anos, as fundadoras depararam-se com os desafios enfrentados por milhares de famílias e profissionais na preparação de tabelas de comunicação, rotinas visuais, histórias sociais e outros recursos essenciais para promover a comunicação e a autonomia.

A plataforma Noé permite criar estes materiais de forma personalizada e intuitiva, destacando-se pela integração de um assistente baseado em Inteligência Artificial. Esta funcionalidade ajuda a desenvolver conteúdos adaptados a diferentes contextos e perfis de utilizadores, reduzindo significativamente o tempo necessário para a sua elaboração.

Atualmente em fase inicial de implementação, o Noé disponibiliza gratuitamente as suas funcionalidades, permitindo a sua utilização em escolas, instituições, consultórios de terapia e ambientes familiares. O objetivo passa por validar a ferramenta em contextos reais e torná-la acessível ao maior número possível de utilizadores.

Para Sophia Bernardo e Ana Leitão, o Noé representa mais do que uma solução tecnológica. Trata-se de uma resposta concreta a desafios que conhecem de perto e de uma ferramenta criada para promover a inclusão, a participação e a qualidade de vida de pessoas com diferentes perfis de comunicação.

As fundadoras acreditam que a tecnologia, quando colocada ao serviço das necessidades humanas, pode desempenhar um papel decisivo na construção de uma sociedade mais inclusiva e acessível para todos.

Para mais informações, consulte a página aqui.

Fonte: BragaTV por indicação de Livresco

domingo, 7 de junho de 2026

Adeus, dislexia: eles criaram uma app que é um companheiro de leitura personalizado

Estudantes de mestrado do Instituto Superior Técnico criaram plataforma interactiva que utiliza inteligência artificial para se adaptar em tempo real às necessidades de cada aluno.

Francisco Redondo cresceu a ver a irmã a lutar contra um inimigo anónimo que veio a descobrir chamar-se dislexia. Para impedir que mais estudantes passem pelas mesmas frustrações, Francisco criou uma startup e está a desenvolver uma plataforma digital, uma espécie de companheiro de leitura personalizado, que permite a pais e professores acompanhar o progresso diário dos alunos. (...)

Continuação do texto em Público

sábado, 6 de junho de 2026

Plataforma que traduz em tempo real aulas em português para alunos estrangeiros

Uma plataforma que traduz, em tempo real, as aulas lecionadas em português, foi esta sexta-feira lançada em Óbidos, numa parceria entre a autarquia, o parque tecnológico e as escolas do concelho para facilitar a aprendizagem dos alunos estrangeiros.

A plataforma, denominada “Babel Classroom”, permite ao professor lecionar normalmente em português, enquanto a sua intervenção é automaticamente transcrita e traduzida em tempo real para até quatro idiomas em simultâneo, divulgou esta sexta-feira a Câmara de Óbidos, no distrito de Leiria.

A informação é disponibilizada numa segunda janela visível para os alunos, facilitando o acompanhamento das aulas e promovendo uma participação mais ativa no processo de aprendizagem.

O sistema é o resultado de uma parceria entre o município, o Agrupamento de Escolas Josefa de Óbidos, o Parque Tecnológico de Óbidos e uma das empresas ali radicadas, a ImpactWave, e foi “concebido para promover a inclusão de alunos de língua não materna e reforçar a equidade no acesso à aprendizagem”, pode ler-se numa nota da autarquia.

A plataforma “foi desenvolvida a partir de uma necessidade identificada pelos próprios professores, confrontados diariamente com os desafios da integração de alunos recém-chegados ao sistema educativo português”, num contexto de crescente diversidade cultural nas escolas da região Oeste.

De acordo com os dados divulgados pela Câmara de Óbidos, frequentam as escolas da região alunos de cerca de 50 nacionalidades, entre as quais: África do Sul, Alemanha, Angola, Argentina, Bangladesh, Bélgica, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Chéquia, Chile, China, Colômbia, Egito, Eslováquia, Espanha, Estados Unidos da América, Rússia, França, Irlanda, Itália, Luxemburgo, México, Moldávia, Nepal, Países Baixos, Paquistão, Polónia, Reino Unido, Roménia, São Tomé e Príncipe, Suécia, Suíça, Ucrânia, Venezuela, Paraguai, Índia, Noruega, Bolívia, República Dominicana, Estónia, Finlândia, Grécia, Japão e Marrocos.

Só no concelho de Óbidos “existem atualmente cerca de 200 alunos das mais diversas geografias, uma realidade que tem colocado novos desafios à integração linguística e ao sucesso educativo”, pode ler-se no mesmo texto.

A solução encontrada para responder às necessidades destes alunos integra funcionalidades de Inteligência Artificial adaptadas ao contexto educativo, permitindo corrigir transcrições, adequar linguisticamente conteúdos e apoiar uma comunicação mais eficaz em sala de aula. É ainda complementada por um equipamento discreto, incluindo microfones Bluetooth com cancelamento de ruído, concebidos para integrar naturalmente a dinâmica pedagógica.

A plataforma foi testada durante três semanas em contexto real por professores do 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, em diferentes disciplinas e turmas, permitindo validar o seu potencial como ferramenta de apoio à inclusão, ao acompanhamento pedagógico e que é, simultaneamente, “potenciadora de equidade”, como afirmou o diretor do Agrupamento de Escolas Josefa de Óbidos, José Santos, na apresentação pública deste projeto.

Desenvolvida para que pudesse ser utilizada por todos os professores em várias turmas, segundo Ricardo Cardoso, CEO da ImpactWave, esta solução tem como grande objetivo “manter o aluno estrangeiro dentro da turma e a turma dentro do programa“.

Esta solução “foi criada de raiz para escalar a nível global, podendo ser, a esta altura, utilizada no mundo inteiro por milhões de alunos”, concluiu o responsável pela empresa.

Fonte: Observador por indicação de Livresco

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Os ecrãs estão a desaparecer rapidamente das escolas, embora alguns alunos com deficiência dependam deles

CONCORD, Califórnia — Soraya Martin, aluna do 9.º ano, é uma adolescente alegre e sociável que descobriu recentemente uma nova paixão.

«Sou uma escritora muito criativa, adoro escrever histórias por diversão», afirma.

As histórias surgem naturalmente para Soraya, mas a leitura e a escrita não. Isso deve-se ao facto de ela ter dislexia. «A nível académico, a escola sempre foi um grande desafio para mim.»

Então, no último ano letivo, ela começou a usar uma tecnologia que lhe permite fazer várias coisas: ditar os seus textos em vez de os escrever, ouvir livros em vez de os ler numa página e tirar fotos das notas no quadro.

Isso mudou tudo. Em vez de se preocupar se uma palavra está escrita corretamente, Soraya descobriu que, com a função de conversão de voz em texto integrada no seu portátil escolar, pode simplesmente deixar as palavras fluírem da sua mente para a boca.

«Comecei a ter notas realmente boas», diz ela. «Fez-me sentir que… não sou burra, tenho tanto para dizer e isso fez-me pensar: “Eu consigo fazer isto, consigo ir à escola e consigo ser boa nisso.”»

Isto, diz a sua mãe, Heather Martin, é o tipo de promessa que os ecrãs representam para alunos como a sua filha — alunos que ela teme que estejam a ser esquecidos na reação nacional contra os ecrãs nas escolas. Os ecrãs são cada vez mais culpados por atrapalharem a aprendizagem dos alunos: mais de 30 estados proibiram os telemóveis nas escolas. Alguns estados foram mais longe com propostas ou políticas para remover totalmente ecrãs como computadores portáteis e tablets das salas de aula. No final de maio, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA emitiu um aviso do cirurgião-geral sobre os «malefícios do uso de ecrãs», citando os seus efeitos na saúde das crianças e nos resultados escolares.

Grande parte da tendência de afastar as crianças dos ecrãs nas escolas tem vindo dos pais, que receiam que a utilização dos ecrãs esteja a prejudicar a aprendizagem dos seus filhos — um argumento que Heather Martin ouve na sua própria comunidade em Concord, a cerca de 50 km a nordeste de São Francisco. Ela partilha algumas dessas preocupações, mas afirma: «Em nenhuma altura, durante a conversa, se falou sobre crianças com deficiência, a não ser quando eu abordei o assunto com os outros pais.»

Os defensores desta causa receiam que esses alunos também estejam a ser excluídos do debate nacional.

As propostas de políticas relativas ao tempo de ecrã são frequentemente «um instrumento pouco preciso»

Os alunos com deficiência representam uma percentagem em rápido crescimento do total de alunos neste país — são mais de 8 milhões. Muitos dependem de tecnologias de apoio para superar o dia letivo, incluindo para tomar notas, ler e escrever. Por exemplo, os alunos cegos e com baixa visão podem utilizar software de leitura de ecrã ou de ampliação para ler. Outros, como a Soraya, utilizam conversão de voz em texto e audiolivros.

Estados como o Alabama, o Tennessee e o Utah já têm leis que limitam o uso de ecrãs, com entrada em vigor já em julho.

«A minha preocupação é que esse é um prazo muito curto para que isto aconteça», afirma Lindsay Jones, diretora executiva do Center for Applied Special Technology (CAST), uma organização sem fins lucrativos de investigação em educação que se dedica a tornar os ambientes de aprendizagem acessíveis.

Jones salienta que algumas destas leis preveem exceções às restrições relativas aos ecrãs para alunos com deficiência — muitas vezes, uma linha no texto menciona a tecnologia de apoio. Mas ela afirma que isso deve ser o mínimo indispensável e receia que muitas propostas políticas sejam «um instrumento muito pouco preciso».

«A ação foi tão rápida que, neste verão, deixámos os nossos educadores e as nossas comunidades de pessoas com deficiência a tentar perceber o que se passa», afirma ela. Talvez com mais tempo e com a contribuição das pessoas com deficiência, as políticas protegessem melhor os seus direitos, acrescenta Jones.

Para além das preocupações com as proibições de telemóveis e ecrãs a nível estadual e escolar, os defensores das pessoas com deficiência salientam que o reduzido Departamento de Educação dos EUA está muito menos equipado para fazer valer os direitos civis. Esses direitos incluem o acesso a tecnologia de apoio para alunos com deficiência. A administração Trump também adiou recentemente uma regra de acessibilidade digital há muito esperada para instituições públicas, incluindo escolas.

«Para algumas crianças, o ecrã é a sua ferramenta de acessibilidade»

No liceu da Soraya, no norte da Califórnia, o último ano letivo foi o primeiro em que os telemóveis dos alunos ficaram guardados em bolsas durante todo o dia letivo — tal como acontece em muitas escolas por todo o país. Heather Martin receia que a proibição dos telemóveis possa abrir caminho para uma proibição mais abrangente dos ecrãs na escola da sua filha.

«Um ambiente completamente livre de ecrãs parece que é deitar fora o bebé com a água do banho», diz ela. «Não se trata de comparar “sem ecrãs” com “sem acessibilidade”. E, para algumas crianças, o ecrã é a sua ferramenta de acessibilidade.»

Enquanto fala sobre a mudança na sua escola, Soraya fica tensa. «Odeio-as», diz ela sobre as bolsas trancadas. Ela diz que o seu telemóvel não é apenas uma distração, é uma rede de segurança para ligar aos pais se tiver um ataque de pânico, por exemplo. E sente-se destacada quando tem de pedir para tirar o telemóvel da bolsa trancada para tomar notas.

O programa educativo individualizado (PEI) de Soraya, um documento legal que descreve as adaptações e modificações que ela deve receber na escola, diz que ela pode usar o telemóvel para tomar notas, juntamente com outras tecnologias de apoio. Mas como a proibição dos telemóveis é recente, os seus professores ainda estão a adaptar-se. Como tem várias aulas e professores diferentes ao longo do dia, ela diz que é fácil que alguns professores não estejam familiarizados com as suas adaptações.

Este é o tipo de «consequência indesejada» que preocupa Jones ao pensar num futuro próximo em que mais escolas se afastem da tecnologia que, segundo ela, tem sido revolucionária para as pessoas com deficiência. Quando a tecnologia é utilizada de forma intencional, afirma ela, pode «na verdade permitir-nos criar ambientes muito mais flexíveis, e esses são realmente necessários para as pessoas com deficiência».

A organização de Jones, a CAST, criou um quadro educativo chamado «Universal Design for Learning» (Desenho Universal para a Aprendizagem), que incentiva os educadores a conceberem as suas salas de aula de forma a ter em conta as diferentes formas como os alunos aprendem. Por exemplo, um professor pode dar uma aula de matemática utilizando blocos, um diagrama e um vídeo para ajudar a transmitir a mesma lição a alunos com diferentes necessidades. Ou talvez a leitura em sala de aula seja disponibilizada como um livro eletrónico, para que os alunos com baixa visão possam ampliar o texto, enquanto aqueles com dislexia podem ouvir.

À medida que as restrições de ecrã se espalham pelas escolas do país, Jones espera que as pessoas com deficiência não sejam esquecidas. «Precisamos de educadores, precisamos de pessoas com deficiência, precisamos de fornecedores de tecnologia de apoio», para dar a sua opinião sobre como essas políticas são implementadas na sala de aula, diz Jones. «Essa será a melhor forma de avançar para que todos alcancem os seus objetivos sem atropelar os direitos das pessoas.»

Para Soraya, o uso deste tipo de ferramentas levou-a a aceitar as suas diferenças de aprendizagem. Na verdade, acabou de concluir uma investigação e de escrever uma série de ensaios que exploram a forma como as pessoas com dislexia aprendem. Pela primeira vez na vida, tem só notas máximas, mas, mais importante ainda, diz que consegue expressar-se de uma forma mais profunda e significativa.

«Tenho muito mais para dizer… Isso fez-me sentir mais confiante em mim mesma.»

Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com

Fonte: kpbs por indicação de Livresco

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Apesar das barreiras, número de alunos com necessidades especiais no ensino superior aumenta 20% num ano

É ainda um número reduzido, mas a tendência é clara: há cada vez mais alunos com necessidades especiais que frequentam o ensino superior. Num só ano, o aumento foi de 20%. Isto apesar de a maioria das escolas e faculdades continuarem a não ter espaços essenciais, como salas de aula e casas de banho, acessíveis a quem tem mobilidade reduzida. São dados da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC).

No ano lectivo em curso, encontram-se inscritos 6376 estudantes com necessidades especiais de educação (NEE) em instituições públicas e privadas. Há um ano, eram 5309. E no ano anterior, 4063.

O Inquérito às Necessidades Especiais de Educação no Ensino Superior é feito anualmente com o objectivo de "traçar um retrato detalhado dos inscritos, dos diplomados e das condições de acessibilidade e integração oferecidas pelas instituições de ensino superior em Portugal a esta população escolar".

Continuação da notícia em Público

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Recomendação que garanta às pessoas surdas uma comunicação dedicada à segurança em contextos de emergência

A Assembleia da República, pela Resolução n.º 84/2026, de 20 de abril, resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição, recomendar ao Governo que:

1 - Reative a aplicação MAI 112, repondo o serviço de videochamada com intérprete de Língua Gestual Portuguesa para o número de emergência 112, do Centro de Orientação de Doentes Urgentes, a disponibilizar todos os dias, durante as 24 horas, em todo o território nacional, e dotando-a de funcionalidades de receção de alertas de emergência georreferenciadas, compatibilidade universal com as principais plataformas móveis e integração com o sistema de aviso por SMS da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil.

2 - Melhore a clareza e o conteúdo informativo das mensagens SMS de emergência emitidas no âmbito do Sistema Nacional de Monitorização e Comunicação de Risco, de forma a incluir:

a) A natureza e o nível de gravidade do fenómeno;

b) As zonas geográficas afetadas;

c) As medidas concretas de autoproteção recomendadas;

d) A localização de abrigos ou pontos de concentração de emergência na área;

e) Contactos de emergência adicionais relevantes.

3 - Estabeleça a obrigatoriedade de interpretação em Língua Gestual Portuguesa, certificada, em todos os briefings e comunicações públicas de proteção civil em situação de alerta especial, estado de calamidade ou outro, realizados pelo Governo, pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, pelas autarquias ou pelos serviços municipais de proteção civil.

4 - Promova formação obrigatória para profissionais com responsabilidades na área da proteção civil, a nível nacional e local, em comunicação de risco inclusiva e acessível, garantindo sensibilização sobre necessidades de pessoas surdas, pessoas cegas e com baixa visão e pessoas com reduzida literacia digital.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Alunos com cegueira estão a ser deixados para trás nas escolas

As escolas falam em retrocesso e violação do direito à educação das crianças.

Os alunos cegos e com baixa visão estão a ser prejudicados pela falta de professores especializados nas escolas públicas e também atrasos nos manuais escolares e materiais adaptados.

Fonte: RTP com reportagem em vídeo, por indicação de Livresco

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O engenheiro cego ex-Google que criou uma app gratuita para devolver a autonomia a milhares de pessoas


Existem histórias que nos fazem acreditar no poder transformador da tecnologia, e a de Jonathan Santos é, sem dúvida, uma delas. Engenheiro de software com um currículo invejável, que inclui passagens por gigantes como a Google e a Samsung, Jonathan carrega consigo uma particularidade que moldou a sua visão de mundo: é cego. Mas longe de permitir que a deficiência visual fosse uma barreira intransponível, utilizou o seu conhecimento em Inteligência Artificial para criar a Visionauta, uma aplicação gratuita que está a devolver a independência a milhares de pessoas.

O percurso de Jonathan é marcado por uma excelência académica e profissional que desafia preconceitos. Doutorado em Engenharia da Computação pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, no Brasil, o investigador sempre focou a sua carreira no desenvolvimento de tecnologias de acessibilidade. No seu interior, a motivação para criar a Visionauta não foi apenas académica; foi uma necessidade vital de quem conhece, na primeira pessoa, os desafios de atravessar uma rua, ler uma ementa num restaurante ou identificar uma nota de dinheiro num balcão de pagamento. 

Visionauta: Mais do que uma app, um assistente visual portátil

Lançada recentemente na Google Play Store, a Visionauta funciona como uma espécie de “extensão visual” para quem não pode ver ou tem baixa visão. A aplicação utiliza modelos avançados de IA para interpretar o mundo em tempo real através da câmara do smartphone. Ao contrário de outras soluções mais complexas ou pagas, Jonathan desenhou a Visionauta para ser simples, rápida e, acima de tudo, gratuita. O engenheiro descreve-a frequentemente como “a aplicação que eu próprio gostaria de ter tido”, focando-se na resolução de problemas práticos do quotidiano.

Entre as funcionalidades principais, destaca-se o leitor de textos em voz alta, capaz de interpretar desde documentos oficiais a rótulos de embalagens. A app consegue também identificar moedas como o Real, o Dólar e o Euro e possui uma lupa eletrónica com modos de alto contraste para quem ainda possui visão residual. Mas o verdadeiro “cérebro” da operação é o assistente de IA integrado, que permite ao utilizador fazer perguntas sobre o ambiente ao seu redor, recebendo descrições detalhadas de cenas, objetos e cores.


O nascimento da ideia no mundo académico

A génese da Visionauta ocorreu durante o mestrado de Jonathan em Engenharia da Computação. Sob a orientação dos professores Ismar Frango e Nizam Omar, especialistas em Pensamento Computacional e IA, o projeto ganhou corpo como uma ferramenta de inclusão. Jonathan explica que, no seu interior, a arquitetura da app foi pensada para ser leve, permitindo que corra em smartphones menos potentes, garantindo que a acessibilidade não seja um luxo, mas um direito acessível a todos.

A experiência adquirida na Google e na Samsung foi fundamental para que Jonathan conseguisse implementar algoritmos de reconhecimento de imagem de alta precisão. No entanto, o seu diferencial não é apenas o código, mas a empatia técnica. Como pessoa cega, ele entende que a latência de um segundo na resposta da IA pode ser a diferença entre a segurança e o perigo ao caminhar numa cidade movimentada. Por isso, a Visionauta foca-se na velocidade de processamento e na clareza do feedback sonoro, adaptado às necessidades reais da comunidade.

Independência e o futuro da acessibilidade digital

O impacto da Visionauta já se faz sentir a nível global. Ao oferecer uma ferramenta que identifica objetos por comando de voz e descreve cenas em tempo real, Jonathan Santos está a fornecer as chaves da autonomia a pessoas que, muitas vezes, dependiam de terceiros para as tarefas mais básicas. Para o engenheiro, o trabalho não termina com o lançamento da app; a investigação contínua em IA é o que permitirá, num futuro próximo, uma integração ainda mais profunda com dispositivos vestíveis e óculos inteligentes.

A história de Jonathan é um lembrete poderoso de que a inclusão digital não deve ser uma funcionalidade secundária no desenvolvimento de software. Pelo contrário, quando o design é feito por quem vive a exclusão, o resultado é uma inovação que beneficia toda a sociedade. A Visionauta é a prova de que a Inteligência Artificial, quando orientada por propósitos humanos e éticos, tem o potencial de ser um dos maiores niveladores sociais da história da humanidade.

Conclusão

Jonathan Santos não é apenas um engenheiro de software brilhante; é um visionário que viu na escuridão a oportunidade de iluminar o caminho de outros. Através da Visionauta, ele transformou o seu conhecimento em liberdade. Disponível na Play Store para Android, a aplicação é hoje um símbolo de resistência e de esperança para a comunidade de deficientes visuais. Em 2026, num mundo cada vez mais dominado por ecrãs, Jonathan recorda-nos que o mais importante é garantir que ninguém fique para trás, independentemente da forma como perceciona o mundo ao seu redor.

Fonte: Android Geek por indicação de Livresco

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Por que tantos alunos têm TDAH?

Tenho lecionado em universidades britânicas há cerca de 15 anos e, ao longo desse tempo, observei algumas tendências a surgirem. Como quando começaram a precisar de espaços seguros e a negar fatos básicos sobre a biologia humana. (Isso basicamente acabou agora, aliás.) Ou usar calçados horríveis e roupas andróginas em preto e branco. Tudo em tamanhos errados. (Não sou eu que estou enganado, são os jovens.) Mas provavelmente o mais notável é o aumento dramático no número de estudantes com direito a acomodações especiais por causa de deficiências.

Todos os anos, mais ensaios chegam após os prazos, porque mais estudantes obtêm prorrogações que duram semanas, até meses. Às segundas-feiras, recebo e-mails automáticos a lembrar-me de ter muito cuidado ao fazer perguntas a certos estudantes em seminários ou ao esperar que eles contribuam de alguma forma (aparentemente, eles podem não ser capazes de lidar com isso se eu o fizer). Apesar de eu ensinar filosofia política — uma disciplina impossível de ser ministrada sem um uso preciso da linguagem —, a burocracia universitária diz que a qualidade da linguagem escrita precisa ser desconsiderada ao avaliar os trabalhos de alguns candidatos. Tudo isso, e muito mais, se deve às acomodações feitas sob a rubrica de deficiência.

No mês passado, foram publicadas estatísticas reveladoras a este respeito. De 2008 a 2023, a proporção de alunos em universidades do Reino Unido que afirmam ter uma deficiência duplicou de 8% para 16%. Ainda mais impressionante é que, em Oxford e Cambridge, passou de 5% para 20%. E o Reino Unido não está sozinho. Conforme observado recentemente na revista The Atlantic, 38% dos estudantes de graduação em Stanford estão agora registados como portadores de deficiência. Atrás deles está Harvard, com “apenas” 21%. (Ambas as instituições tinham 5% em 2009.) A situação é a mesma em todas as democracias ocidentais desenvolvidas.

Essa explosão não foi causada pelo facto de os campi terem se tornado repentinamente acessíveis a cadeiras de rodas. (Por acaso, eu mesmo sou usuário de cadeira de rodas e, portanto, garanto que levo a deficiência muito a sério.) Em vez disso, os estudantes estão a ser diagnosticados com distúrbios relacionados à sua capacidade de aprendizagem. E, desses, quatro constituem a maior parte: transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), ansiedade, depressão e transtorno do espectro autista (TEA) não profundo.

Então, o que está a acontecer? A verdade é que é complicado. E, como resultado, duas das respostas mais comuns simplesmente não servem.

A primeira resposta (para a qual a reportagem da The Atlantic se inclina) é que basicamente tudo isso é uma farsa. A questão é a seguinte: estudantes com deficiências registadas têm direito a prorrogações de prazos, tempo extra durante os exames e toda uma série de direitos relacionados à frequência e participação em seminários. Ao perceberem que os alunos com diagnósticos de deficiência recebem essa consideração especial, os pais da classe média mais ambiciosos consideram que essa é uma maneira infalível de garantir uma vantagem competitiva para os seus filhos. Em busca de diagnósticos úteis de médicos complacentes, as classes mais ambiciosas respondem aos incentivos predominantes. Daí o aumento no número de casos apresentados.

Para ser justo, a avaliação da The Atlantic não está completamente errada. Às vezes, os esforços que pais privilegiados fazem pelos seus filhos são realmente surpreendentes, especialmente nos Estados Unidos. (Basta pesquisar no Google «Varsity Blues College Admissions Scandal»). Talvez, então, não devêssemos ficar totalmente surpreendidos ao saber que a proporção de alunos com direito a tempo extra nas provas aumentou significativamente nas escolas privadas do Reino Unido em comparação com o setor público.

Receio, porém, que haja mais em jogo aqui do que famílias cínicas a manipular o sistema — o que certamente algumas estarão a fazer. Mas não nos esqueçamos de que os seres humanos são complicados, falíveis e têm uma predileção peculiar por procurar evidências que confirmem as suas conclusões pré-supostas. Não é que os pais da classe média estejam a fingir que os seus filhos e filhas têm esses distúrbios. Se os seus filhos apresentam ansiedade, depressão e complicações sociais, então eles realmente acreditam que os seus filhos e filhas têm TDAH e ansiedade — afinal, essas condições foram confirmadas por profissionais. Em parte, a razão pela qual eles estão mais dispostos a acreditar nisso é porque essas condições não carregam mais o forte estigma que tinham no passado, quando as crianças eram internadas em instituições em vez de serem enviadas para a universidade. Em vez de ser uma deficiência direta e limitante, o diagnóstico agora representa uma oportunidade: não apenas para ganhar tempo extra nas provas, mas também para obter uma legitimação útil e uma desculpa se o filho não atingir o desempenho esperado (sem falar no direito de se gabar se ele sair na frente). Portanto, embora seja verdade que a classe média tem respondido a incentivos, esses incentivos são mais subtis e complexos do que simplesmente tentar burlar o sistema.

Precisamente por esses motivos, a outra explicação popular (e amplamente contestada) para o aumento dos casos também é simplista demais: que as taxas de diagnóstico aumentaram significativamente porque os profissionais médicos agora são mais hábeis em identificar condições subjacentes que antes passavam despercebidas. Embora isso certamente seja verdade em alguns casos, não é possível explicar aumentos tão significativos.

Para ser claro, estudos que utilizam critérios consistentes de sintomas não encontraram nenhum aumento na incidência desses sintomas, mesmo com o aumento dramático dos diagnósticos de TDAH e autismo. Em suma, pessoas que não teriam sido diagnosticadas com essas condições há 20 anos são muito mais propensas a serem diagnosticadas com elas hoje, mesmo que apresentem exatamente os mesmos sintomas. O limiar mudou. No passado, o nível de sintomas necessário para desencadear um diagnóstico de algo como TDAH ou autismo era mais alto do que hoje.

Então, os médicos, psiquiatras e outros profissionais tornaram-se negligentes? Estão a falhar na aplicação adequada dos critérios de diagnóstico corretos? Trata-se de um caso de síndrome de desequilíbrio descontrolado (para aqueles que possuem martelos, etc.)? As forças da ambição da classe média e do excesso de intervenção médica combinaram-se manifestamente para se alimentarem mutuamente? Mas, novamente, isso é muito simplista.

Para compreender a complexidade da questão, é útil considerar o trabalho do filósofo da ciência Ian Hacking, que passou grande parte da sua vida a tentar desvendar este tipo de questões. Uma das lições mais importantes que Hacking nos ensinou é que, quando se trata de diagnósticos médicos com aspetos comportamentais, os seres humanos são «alvos móveis». Isso deve-se ao que ele chamou de «efeitos de looping»: quando as pessoas recebem um rótulo, elas respondem a ele mudando o seu comportamento de acordo. Mas, como o seu comportamento mudou, o rótulo em si deve evoluir para capturar exatamente o que supostamente está sendo rotulado. Isso, então, desencadeia novos tipos de comportamento naqueles que recebem o rótulo — e assim o looping continua.

O trabalho de Hacking sobre o autismo ajuda a ilustrar esse ponto. Quando o autismo foi estabelecido pela primeira vez como critério de diagnóstico na década de 1940, ele aplicava-se apenas a pessoas com deficiência mental grave — normalmente aquelas que não falavam e eram altamente disfuncionais socialmente (elas eram incapazes de viver sem o apoio extensivo dos pais e cuidadores profissionais; muitas foram institucionalizadas). Com o tempo, porém, os critérios foram flexibilizados, em particular com a introdução (controversa) da síndrome de Asperger na década de 1980, que se aplicava especialmente a pessoas autistas de “alto funcionamento”: aquelas que não apenas eram totalmente verbais e muitas vezes viviam de forma independente, mas, fundamentalmente, foram diagnosticadas na idade adulta (anteriormente, o autismo era algo identificado quase exclusivamente durante a infância, justamente por ser tão grave).

No entanto, essa expansão dos critérios autistas e o surgimento da ideia de que o autismo é um espectro, em vez de uma única categoria de deficiência psicológica, inevitavelmente desencadearam efeitos em cadeia. O diagnóstico de Asperger, por exemplo, mudou não apenas a forma como certos tipos de adultos (ou seja, aqueles que receberam o diagnóstico) se viam, mas também a forma como se comportavam. Em vez de serem envergonhados e rejeitados por serem «estranhos» (o destino das gerações anteriores), agora podiam (com razão) protestar que eram simplesmente diferentes, conforme validado pela ciência, e mereciam acomodações relevantes. De facto, muitos defenderam precisamente essa distinção, recusando-se a suprimir os seus comportamentos atípicos simplesmente para acomodar as pessoas «normais». (Esta é uma origem importante da distinção moderna entre «neurotípico» e «neurodivergente».) Tal desenvolvimento beneficiou claramente, de maneiras reais e importantes, muitas pessoas, permitindo-lhes aceder a melhores recursos num mundo com menos estigma.

No entanto, à medida que os critérios foram sendo flexibilizados, cada vez mais adultos começaram a considerar-se portadores de características abrangidas pelo cada vez mais amplo «espectro autista». Cada vez mais amplo, porque os diagnósticos do espectro continuaram a mudar para incorporar e acomodar a crescente variedade de sintomas correlacionados. O que levou a que mais pessoas atendessem aos critérios, e assim por diante.

Isso em si é uma simplificação excessiva. Mas é uma grande parte da razão pela qual agora temos um «transtorno do espectro autista» tão amplo que posso ter alunos diagnosticados clinicamente como autistas, mas que têm uma vida social rica, parceiros românticos e nenhum problema em compreender (e às vezes até rir) das minhas piadas terríveis nas aulas. O autismo hoje significa algo radicalmente diferente do que significava nos anos 40 ou mesmo nos anos 80. O efeito de looping mudou os alvos.

Mas a história não termina aí. Existe também um fenómeno interligado, que Hacking chamou de «inventar pessoas». O seu argumento é que existem certas maneiras de ser uma pessoa que exigem que uma infraestrutura social pré-existente esteja primeiro em vigor.

Posso ilustrar isso com o exemplo de um skatista. O leitor casual pode pensar que se trata simplesmente de alguém que anda de skate. Mas há muito mais do que isso. Ser skatista é identificar-se com — e ser moldado por — uma determinada subcultura. Quando eu era adolescente, andar de skate era quase uma característica secundária de ser skatista. Provavelmente, mais importantes eram coisas como ouvir música punk, usar calças de ganga largas, fumar erva e rejeitar a autoridade. Éramos outsiders e gostávamos disso. Éramos conscientemente anti-cool. Mas, então, tudo mudou. Os X Games foram transmitidos na televisão e Tony Hawk tornou-se um nome familiar com o seu jogo para PlayStation (que todos tinham, incluindo os miúdos da escola que não eram skaters e que costumavam intimidar-nos). Como resultado, o que significava ser skatista evoluiu: tornou-se mainstream e socialmente aceitável, o que mudou radicalmente o que era. O efeito looping entrou em ação. Agora, quando vou ao parque local, vejo homens na casa dos trinta a fazer grinds felizes nos corrimões ao lado de crianças em idade escolar. Não se vê um único moicano. Ninguém fuma erva. Ser skatista não é mais o que costumava ser.

A questão é que ser «skater» só foi possível não apenas após a invenção das pranchas, mas depois que o skate se tornou associado a um tipo de contracultura juvenil, que evoluiu ao longo das décadas.

Segundo Hacking, o mesmo se aplica ao «autismo de alto funcionamento». Embora seja verdade que sempre houve pessoas com uma mentalidade literal, uma fixação por interesses específicos, dificuldade em relacionar-se emocionalmente com outras pessoas, dificuldade em interpretar sinais sociais e assim por diante, foi apenas há cerca de 40 anos — quando foi diagnosticado como uma condição reconhecida clinicamente — que se passou a poder identificar-se como «autista de alto funcionamento». Tornou-se um papel social que as pessoas podiam assumir. E que elas podiam eventualmente esperar que os outros reconhecessem e aceitassem.

A explosão moderna nos diagnósticos de TDAH, então, pode ser entendida praticamente da mesma maneira. Quando eu era estudante universitário em meados dos anos 2000, o TDAH era algo que todas as crianças travessas que fracassavam na escola tinham. Como consequência, naquela época era quase impossível imaginar um estudante de PPE (Política, Filosofia e Economia) de Oxford com TDAH. A infraestrutura social necessária para conceber um aluno com alto desempenho académico com tais sintomas ainda não existia. Agora existe. Isso explica em parte as mudanças marcantes dos últimos anos: temos “inventado” novos tipos de pessoas.

Não acho que tenhamos acertado na década de 2000 e que, desde então, tudo tenha ido por água abaixo. Algumas coisas estão definitivamente melhores do que antes. Como alguém que lutou contra a depressão clínica durante toda a sua vida adulta, prefiro muito mais a aceitação aberta da saúde mental que é uma característica das universidades hoje em dia, em comparação com o mundo em que cresci. Mas ainda podemos perguntar: estamos a fazer o uso mais eficaz dos nossos recursos?

Tenho dúvidas. Para começar, o aumento nos diagnósticos não se traduziu em ajuda eficaz para aqueles que mais precisam. Há alguns anos, tive uma aluna diagnosticada com uma forma de autismo que prejudicava a sua vida de maneiras graves e muito evidentes. Ela estava plenamente consciente das coisas que precisava de fazer para mitigar as desvantagens muito reais que a sua condição gerava. Mas ela teve de lutar por cada pedacinho de apoio que conseguia obter, porque estava a competir com dezenas e dezenas de outros alunos que, no papel, tinham direito aos mesmos níveis de apoio à deficiência, mas que nenhuma pessoa sensata colocaria na mesma categoria.

De forma mais geral, há a questão de saber se as adaptações especiais generalizadas estão a prejudicar, em vez de ajudar, os nossos alunos. Os administradores universitários adoram insistir na transmissão de «competências transferíveis» aos estudantes universitários. O que eles normalmente querem dizer é algo nebuloso como «comunicação», «liderança» ou «resolução de problemas». Em contrapartida, eis algumas competências transferíveis reais: chegar a horas, cumprir prazos, ter de gerir várias tarefas ao mesmo tempo, lidar com o desconforto intelectual, insistir e concluir algo mesmo que seja aborrecido, difícil ou desagradável. Em suma: aprender quando é preciso aguentar e continuar, porque às vezes é assim que a vida é.

No entanto, diagnósticos como TDAH, ansiedade, depressão e TEA — e as adaptações que os acompanham — permitem que os alunos evitem ter de aprender essas habilidades difíceis para a vida. Nós, professores, também não podemos esperar transmitir a importância do esforço a curto prazo para obter recompensas a longo prazo: amor severo e tudo mais. Afinal, quem somos nós para contradizer diagnósticos médicos, especialmente quando as vastas burocracias universitárias agora estão estruturadas para defender e deferir a tais coisas?

Há uma grande ironia em tudo isto. Medidas originalmente tomadas com a boa intenção de ajudar os alunos podem estar a ter o efeito contrário. O caminho para o inferno, e tudo isso. É hora de criar efeitos diferentes, inventar novos tipos de pessoas.

Paul Sagar

Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com

Fonte: UnHerd por indicação de Livresco

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Óculos com IA funcionam como cão-guia tecnológico para pessoas cegas

Uns óculos desenvolvidos pela empresa romena .lumen, liderada pelo engenheiro Cornel Amariei, recorrem à inteligência artificial para orientar pessoas cegas e foram distinguidos com um Prémio de Inovação na CES 2026.

O engenheiro Cornel Amariei, presidente e CEO da empresa .lumen, apresentou na feira tecnológica CES 2026 uns óculos concebidos para ajudar pessoas cegas a deslocarem-se de forma autónoma.

O dispositivo é colocado na cabeça e desempenha funções semelhantes às de um cão-guia. Em vez de puxar fisicamente a pessoa para evitar obstáculos, utiliza tecnologia para orientar os movimentos.

“Construímos um carro autónomo, mas não um que anda na estrada. É um que usamos na cabeça para nos guiar. Chamamos-lhe óculos para cegos e eles reproduzem, de forma eficaz, aquilo que um cão-guia faz. Se um cão-guia puxa a mão da pessoa para evitar obstáculos, nós fazemos o mesmo, mas estamos na cabeça e puxamos a cabeça através da tecnologia", explicou Amariei à Reuters.

Inteligência artificial sem Internet

Os óculos recorrem a inteligência artificial para interpretar o ambiente em tempo real. A tecnologia permite identificar superfícies seguras, reconhecer objetos à volta do utilizador, perceber se a pessoa está num espaço interior ou exterior e orientar a navegação.

“Tem uma grande quantidade de IA. Usamo-la para compreender o que é uma superfície segura, os objetos que nos rodeiam e como podemos interagir com eles. Tudo isso é feito no próprio dispositivo, sem necessidade de ligação à Internet”, sublinha o responsável.

Segundo a empresa, esta tecnologia já permitiu que pessoas cegas realizassem atividades que nunca tinham feito sozinhas, como fazer compras num supermercado ou caminhar de forma autónoma em percursos desconhecidos.

“A primeira vez que vi uma pessoa cega a navegar num dos nossos sistemas e a fazer algo que nunca tinha feito antes foi espantoso. Houve algumas lágrimas”, recordou Amariei.

Prémio de Inovação na CES 2026

A empresa .lumen foi distinguida com o Prémio de Inovação CES 2026 por este produto, que procura colmatar uma lacuna sentida por muitas pessoas cegas, sobretudo em contextos onde o acesso a cães-guia é limitado.

Para Amariei, trata-se de uma missão pessoal. É a única pessoa da família sem deficiência e diz ter percebido, desde cedo, a escassez de recursos disponíveis, o que o levou a procurar soluções tecnológicas.

A .lumen está atualmente a trabalhar em encomendas no Leste da Europa e ambiciona entrar no mercado norte-americano.

Fonte: SIC Notícias, com vídeo

sábado, 3 de janeiro de 2026

Cientistas portugueses tornam boxe acessível a pessoas cegas, com realidade virtual

Em Portugal, cerca de 3,5% da população é afectada pela incapacidade de ver, de acordo com os Censos de 2021. Apesar de já existir alguma acessibilidade nos transportes públicos e serviços, ainda há contextos em que estas pessoas se vêem excluídas. Um exemplo disso são as tecnologias de realidade virtual, nas quais a visão é o principal sentido que permite ao utilizador aceder ao mundo digital. Para contrariar este paradigma, uma equipa de investigadores portugueses desenvolveu uma experiência de boxe em realidade virtual adaptada para pessoas cegas. No projecto, participou o ex-campeão nacional de boxe Jorge Pina, que perdeu a visão em 2004 e actualmente é treinador na academia que fundou.“A realidade virtual está a ganhar espaço em múltiplos contextos, mas continua a ser muito centrada na visão”, afirma João Guerreiro, professor do Departamento de Informática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). O facto de estar muito dependente da visão deve-se à natureza dos headsets, óculos que projectam imagens do ambiente digital, em que o utilizador se move, dando indicações visuais sobre o que ele deve fazer e onde se encontra. “Este papel central da visão acaba por excluir as pessoas cegas de participarem em muitas destas experiências”, realça o investigador. (...)

O protótipo do jogo, concluído este ano, inclui três modos: treino com saco; treino com um treinador; combate com um adversário. O protótipo foi ainda testado por outras 15 pessoas com deficiência visual, além do pugilista, e a reacção foi positiva. Os resultados da investigação estão documentados num artigo científico que foi apresentado na conferência Factores Humanos em Sistemas Computacionais, promovida pela Associação de Computação e Maquinaria (ACM, na sigla em inglês), entre Abril e Maio de 2025, em Yokohama, no Japão. “Embora trabalhos anteriores tenham investigado aspectos específicos da acessibilidade da realidade virtual, há pouco conhecimento sobre como conceber experiências de realidade virtual completas, ricas em funcionalidades e acessíveis a pessoas cegas”, lê-se no artigo, publicado na biblioteca digital da ACM.

Fonte: Artigo completo em Público com acesso exclusivo


sábado, 13 de dezembro de 2025

Inclusão e desporto de mãos dadas para mostrar que não há limites

Imagine rematar numa bola de futebol de olhos fechados? Pode ser difícil e, à primeira, pode nem acertar na bola, mas há jogadores que, por serem cegos ou terem baixa visão, praticam futebol de forma profissional, por exemplo no Sport Club Conimbricense. Para muitos alunos da Escola Básica Eugénio de Castro esta era uma realidade difícil de acreditar, até serem desafiados a fazê-lo durante a Semana Paralímpica que decorreu no pavilhão desportivo para dar a conhecer modalidades como andebol em cadeira de rodas, futebol para cegos, paraciclismo, boccia ou capoeira.

«O nosso objetivo era sensibilizar toda a comunidade da escola para o desporto adaptado, trouxemos vários atletas de alto nível de várias modalidades para que os alunos conhecessem o percurso deles e, no fundo, sensibilizar os alunos para a necessidade da inclusão também no desporto», explicou Diogo Ribeiro, um dos quatro professores estagiários da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra. Em conjunto com Tânia Domingues, Bárbara Ferreira e Pedro Oliveira e com a colaboração do professor Edgar Ventura, os professores estagiários tornaram real este desafio de levar até à escola as modalidades adaptadas. Em conversa com o Diário de Coimbra, Tânia Domingues confessou que a experiência foi «bastante gratificante». «Ver o sorriso na cara dos miúdos com as várias experiências que têm tido aqui ao longo da semana tem sido muito bom».

As atividades prolongaram-se ao longo de uma semana e envolveram centenas de alunos dos vários anos de escolaridade e o entusiasmo foi sentido por todos. «Esta semana foi incrível, porque aprendemos muito com estas pessoas que mostraram ser capazes de tudo», dizia Gustavo Antunes, aluno do 9.º ano e que participou em várias atividades. A mais difícil e mais desafiante foi «sem dúvida jogar futebol às cegas», confessou. Diogo Cancela e Matilde Gaspar, da natação adaptada; Telmo Pinão, atleta de paraciclismo, a equipa de andebol em cadeira de rodas da Associação Rovisco Pais, a equipa de boccia da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra estiveram presentes e mostraram que apesar das adversidades muitos atletas se tornaram verdadeiros profissionais e medalhados.

«O que trazemos até aqui é uma pequena demonstração do que podemos fazer, até porque está muito barulho no pavilhão e estes desportos requerem quase silêncio absoluto», adiantou Eunice Santos, pessoa com deficiência visual e que participou na iniciativa. «Foi muito interessante ver o entusiasmo dos alunos a experimentar as várias modalidades», acrescentou. Com cadeiras de rodas adaptadas, os próprios alunos tiveram a oportunidade de experimentar andebol adaptado e jogar ao lado dos atletas do Rovisco Pais. Com os olhos vendados alguns deles conseguiram marcar um golo na baliza e outros ainda experimentaram goalball e colocaram à prova o sentido auditivo e sensitivo.

«É com muito orgulho que recebemos, mais uma vez, a Semana Paralímpica e os vários atletas que vieram até à escola para dar o seu testemunho, a sua vivência, quais são as suas dificuldades e mostrar a tamanha superação face a todos os desafios», referiu Adosinda Rodrigues, diretora do Agrupamento de Escolas. A experiência correu tão bem, tanto para os atletas, como para os alunos, que a diretora do agrupamento espera ver a iniciativa replicada nas várias escolas, como forma de sensibilização para a inclusão de todos.

Fonte: Diário de Coimbra por indicação de Livresco

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Como Louis Braille revolucionou um sistema de escrita – apesar dos esforços para o deterem

Onde estaríamos sem a escrita? Desde as suas origens há mais de 5.000 anos na antiga Mesopotâmia, a história da escrita ecoa a história da humanidade. Os gregos e os romanos criaram alfabetos únicos, os chineses desenvolveram caracteres complexos e actualmente lemos romances, jornais e publicações nas redes sociais. Um alicerce da civilização humana, a escrita é fundamental para o estado de direito e acumulação de conhecimento e cultura. No entanto, as pessoas cegas só tiveram acesso à escrita no século XIX.

Entre 1824 e 1825, Louis Braille criou um sistema composto por pontos em relevo que poderiam ser lidos com as mãos. Inicialmente ignorada, esta invenção viria a ser adoptada universalmente no século XX, abrindo um novo mundo de aprendizagem para as pessoas com deficiência visual. Num discurso proferido na Sorbonne no centenário da morte de Braille, Helen Keller disse: “Nós, os cegos, temos uma dívida tão grande para com Louis Braille como a humanidade para com Gutenberg.”

Mas houve precedentes. A mudança de atitude anterior ao nascimento de Braille contribuiu para abrir o caminho para a tolerância. A Carta sobre os Cegos, do filósofo Denis Diderot, de 1749, defendeu que as pessoas cegas tinham a mesma capacidade intelectual que as pessoas com visão. As primeiras escolas para cegos abriram em França e Inglaterra no final do século XVIII, mas o sistema de escrita de Braille proporcionou-lhes um meio para interagirem com textos e partituras.

Um acidente transformador

O mais novo de quatro filhos, Braille nasceu em 1809 na aldeia de Coupvray, 35 quilómetros a leste de Paris. O seu pai, Simon-René, era correeiro, uma profissão com elevada procura. A família vivia confortavelmente e também cultivava vinhas para produção de vinho. Luxos como um forno de pão podem ser actualmente vistos na casa da família, transformada no Museu Louis Braille na década de 1950. O ponto central do museu é a reprodução da oficina do pai de Braille, onde ele sofreu o acidente que viria a causar a sua perda de visão, mudando o seu destino – e o rumo da história.

Braille era uma criança curiosa de três anos e esgueirou-se às escondidas para a oficina, para brincar com as ferramentas que via o pai usar. Quando tentou fazer um furo no cabedal com um furador, a ferramenta escorregou e furou-lhe o olho. Este ferimento horrível causou uma infecção que se espalhou para ambos os olhos, deixando-o cego aos cinco anos, uma vez que os antibióticos ainda não tinham sido descobertos.

Um museu desde a década de 1950, a casa de família de Braille foi construída no século XVIII. A oficina, reproduzida no museu (na imagem), conta com a mesa de trabalho original, freios de cavalo e um furador do mesmo tipo que cegou Braille no terrível acidente de infância. Uma placa de mármore afixada no exterior da casa homenageia o inventor com as seguintes palavras: “Ele abriu as portas do conhecimento para todos os que não conseguem ver”.

Um acidente trágico

Os seus pais, consternados, não queriam que o destino do filho ficasse traçado numa época em que as pessoas com deficiência visual eram tratadas como sub-humanas e frequentemente ridicularizadas pela sua deficiência. Nas ruas de França, os cegos desfilavam com trajes ridículos ou resignavam-se a pedir esmola. O ensino público ainda não era obrigatório em França, mas os pais de Braille estavam cientes da importância da alfabetização. Para ajudar o filho, Simon-René pregou pregos para desenhar as formas das letras do alfabeto em painéis e pediu ao abade Jacques Palluy que desse aulas a Braille.

Aos sete anos, Braille já frequentava a escola local, onde era o único aluno cego. O seu professor ficou espantado com sua inteligência e comportamento alegre – características que foram admiradas pelos seus amigos de ao longo de toda a sua vida. Alguns anos mais tarde, Braille obteve uma bolsa de estudo para prosseguir os seus estudos no Instituto Real para os Jovens Cegos, a primeira escola do género e que ainda hoje funciona, sob a designação de Instituto Nacional para os Jovens Cegos, ou INJA. Aos 10 anos, foi o aluno mais novo do instituto.

O mais espantoso de tudo foi que a sua família, que era tão unida, o deixou sair de casa. “A mãe e o pai poderiam facilmente tê-lo mantido na aldeia”, explica Farida Saïdi-Hamid, curadora do Museu Louis Braille. “Iriam escrever o seu destino sem saber.” O apoio da família seria uma constante para Braille e ele regressaria a Coupvray para descansar e recarregar baterias ao longo de toda a sua vida.

Uma oportunidade de aprendizagem

Fundado pelo educador pioneiro Valentin Haüy, o instituto foi inovador na sua metodologia e abordagem. Os alunos aprendiam uma variedade de temas académicos e um ofício manual. Haüy criara uma forma de estampar livros com letras em relevo, que as crianças conseguiam ler com as pontas dos dedos, embora com grande dificuldade. A escola seria a salvação e o fim de Braille, depois foi provavelmente ali que ele contraiu a tuberculose que acabou por matá-lo.

O edifício, situado no pólo estudantil de longa data de Paris, o Bairro Latino, era sujo, húmido e desgastado. Até fora utilizado como prisão durante a revolução francesa. No entanto, apesar das más condições e dos castigos, por vezes, severos aplicados às crianças que quebravam as regras, Braille prosperou, fazendo amigos e alcançando a excelência nos estudos. Os professores repararam na sua notável inteligência e qualidade espiritual. O seu amigo Hippolyte Coltat escreveu mais tarde: “a amizade com ele era um dever escrupuloso, bem como um sentimento de ternura. Ele teria sacrificado tudo por ela, o seu tempo, a sua saúde, as suas posses.”

A paixão de Braille pela música nasceu no instituto, onde músicos profissionais davam aulas e os alunos, mostrados a tocar nesta ilustração de 1903, se juntavam à orquestra. Ele ganhou o prémio de violoncelo no seu quinto ano, desenvolveu talento para o piano e inventou um método táctil para ler e escrever música. Enquanto organista, tocou em igrejas de várias paróquias, complementando o seu parco rendimento de professor.

Momento eureka

O catalisador da invenção de Braille deu-se em 1821. O capitão Charles Barbier, oficial de artilharia, criaria um meio de “escrita nocturna” para o exército francês transmitir e executar ordens sob o manto da escuridão. Convencido do seu mérito para as pessoas cegas, Barbier transformou este código de pontos e traços num sistema de base fonética que apresentou aos alunos. Havia falhas linguísticas – a sonografia reduzia a linguagem a sons, por isso a ortografia não era exacta e não havia pontuação –, mas Braille teve uma epifania. Um sistema de pontos seria um método fácil e eficiente para as pessoas com deficiência visual lerem e escreverem.

Ele passou os quatro anos seguintes a trabalhar nesse código. No instituto, fazia directas depois de as aulas terminarem. Mesmo quando estava de férias em Coupvray, os aldeões diziam que viam o rapaz sentado numa colina com um estilete e um papel na mão. Aos 15 anos, conseguiu criar aquela que viria a tornar-se conhecida como a escrita braille. A base do sistema eram células de seis pontos dispostos ao longo de duas colunas e três filas. Cada combinação de pontos em relevo representa uma letra do alfabeto. Era elegante na sua simplicidade e lógica.

Os alunos da escola adoptaram rapidamente o seu uso – permitido oficiosamente pelo director François-René Pignier. Braille reconheceu humildemente a sua dívida para com Barbier no seu livro Processo para Escrever as Palavras, a Música e o Cantochão por meio de Pontos, para Uso dos Cegos e disposto para Eles, publicado em 1829: “Se sublinhámos as vantagens do nosso método em relação ao dele, temos de dizer, em sua homenagem, que foi o seu método que nos deu a nossa ideia.”

A Batalha pelo Braille

Apesar de Pignier ter promovido o braille e endereçado cartas ao governo, o sistema não foi imediatamente aceite. A ordem estabelecida, ditada pelas pessoas com visão, era resistente à mudança e favorecia o uso uniforme de um sistema de escrita.

Braille tornou-se professor no instituto aos 19 anos. Aos 26 anos, foi diagnosticado com tuberculose, tendo passado longas temporadas de convalescença na sua casa em Coupvray. Entretanto, intrigas políticas na escola levaram à saída de Pignier. O seu substituto, Pierre-Armand Dufau, recusou peremptoriamente o uso do braille, chegando a queimar livros e a castigar alunos apanhados a usá-lo.

Braille também desenvolveu o sistema do decaponto, no qual pontos em relevo formam letras do alfabeto latino. O seu amigo Pierre-François-Victor Foucault desenvolveu o rafígrafo, na imagem, para escrever em decaponto. O sistema era complicado, mas Braille utilizou a máquina para escrever cartas, incluindo para a sua “querida mãe”.

Graciosamente, Braille persistiu na sua luta pela aceitação do seu novo sistema de escrita. Uma carta que escreveu a Johann Wilhelm Klein, fundador de uma escola para pessoas cegas em Viena, em 1840, mostra os seus humildes esforços de persuasão ao descrever mais uma invenção, o decaponto, um meio para as pessoas cegas e com visão comunicarem entre si: “Ficaria muito feliz se os meus pequenos métodos pudessem ser úteis para os seus alunos e se este espécimen for, a seus olhos, a prova da elevada consideração que tenho por ser, meu senhor, o seu respeitoso e muito humilde servo, Braille.”

O reconhecimento chegou finalmente em 1844, na inauguração das novas instalações da escola na Boulevard des Invalides. Por esta altura, Dufau já mudara de ideias em relação ao braille, devido à insistência do director adjunto, Joseph Guadet. Após um discurso sobre o sistema de pontos em relevo, os alunos demonstraram o seu uso, transcrevendo e lendo versos. Guadet escreveu mais tarde: “Braille era modesto, demasiado modesto... as pessoas à sua volta não o valorizavam… Talvez tínhamos sido os primeiros a atribuir-lhe o seu merecido lugar aos olhos do público, quer por termos utilizado o seu sistema de forma mais generalizada na nossa instrução musical ou por darmos a conhecer todo o significado da sua invenção.”

Ligando os pontos

Louis Braille não viveu tempo suficiente para assistir àadopção universal do braille. Morreu a 6 de Janeiro de 1852, na companhia do seu irmão e amigos. Nenhum jornal publicou a notícia da morte do homem a quem Jean Roblin, o primeiro curador do Museu Louis Braille, chamou “o apóstolo da luz”. Alunos angariaram dinheiro para o escultor parisiense François Jouffroy fazer um busto em mármore baseado na máscara funerária de Braille.

Em 1878, em Paris, o congresso global para pessoas surdas e cegas propôs uma norma internacional de braille. O braille foi oficialmente adoptado pelas pessoas de expressão inglesa em 1932 e os esforços pós-guerra da UNESCO unificaram adaptações na Índia, em África e no Médio Oriente. É impossível sobrestimar o legado profundo de Braille.

No centenário da sua morte, os feitos de Braille foram finalmente celebrados numa homenagem nacional. O seu corpo foi exumado do cemitério de Coupvray e transferido para o Panteão de Paris, o local de repouso dos grandes cidadãos de França. (As suas mãos permaneceram numa urna decorada com flores de cerâmica na sua sepultura em Coupvray.) O desfile pelas ruas de Paris incluiu centenas de pessoas cegas, de braço dado, algumas com óculos escuros, batendo com bengalas brancas nas pedras da calçada.

Contudo, a luta continua 200 anos após a invenção da escrita braille. É uma luta para preservar não só a memória de Louis Braille, tema de surpreendentemente poucas biografias, como o uso do seu sistema na era digital. As crianças com deficiência visual estão, cada vez mais, a aprender com ecrãs e programas de áudio, mas os neurocientistas dizem que a escrita é fundamental para o raciocínio, as ligações cerebrais e a aprendizagem. Os benefícios cognitivos da escrita têm uma importância fundamental. Estudos mostraram que quando uma pessoa cega lê braille através do tato, o córtex visual fica iluminado.

Perante a escassez de professores de braille em todo o mundo, a alfabetização em braille desceu a pique e o seu próprio futuro está em perigo. Saïdi-Hamid, curadora do Museu Louis Braille há quase 17 anos, compara a sua luta para defender o braille com um “combate para defender a própria inteligência”. Sublinhando a “personalidade extraordinária” de Braille, disse Saïdi-Hamid, “ele sempre encarou a sua deficiência como uma força e não como uma limitação”. Tal como Braille lutou durante a sua vida, a luta tem de continuar.

Seis milhões de pessoas usam o braille atualmente. O seu futuro está assegurado num mundo de alta tecnologia. A escrita pode ser facilmente convertida para formatos digitais e pode ser lida e escrita nos ecrãs tácteis de computadores ou tablets. Um utilizador de braille experiente consegue ler 200 palavras por minuto (a maioria das pessoas com visão consegue ler 250). Embora a alfabetização em braille esteja a diminuir, será necessária para um futuro no qual o envelhecimento da população fará aumentar o número de pessoas cegas e com deficiência visual. O seu poder como sistema universal que pode ser utilizado por qualquer pessoa independentemente do seu background linguístico, fez com que o seu criador francês alcançasse o estatuto de herói internacional.

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.

Fonte: National Geographic por indicação de Livresco

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Jovens com deficiência visual exploram tecnologias na Universidade de Aveiro

A Universidade de Aveiro acolhe na terça-feira o “International Camp on Communication and Computers” (ICC), em que jovens com deficiência visual vão explorar tecnologias e desenvolver competências.

Realizado pela primeira vez em Portugal, o Campo Internacional de Comunicação decorre até ao dia 14, no Campus da Universidade de Aveiro, com 80 participantes, oriundos de 12 países da Europa e do Japão.

Organizado pelo Lions Clube Santa Joana Princesa, o campo internacional conta com o apoio de 25 técnicos especialistas e coordenadores, e de dezenas de voluntários.

“O ICC consciencializa jovens com deficiência visual sobre a tecnologia e suas vantagens, as habilidades necessárias em informática, os esforços necessários para aprimorar as suas habilidades técnicas e o nível de flexibilidade e mobilidade, bem como as suas habilidades sociais”, explica a organização em nota sobre o encontro.

O campo de comunicação apoia também os participantes na tomada de decisões sobre o seu futuro educacional e profissional, procurando motivá-los “para uma preparação precoce e aprofundada antes de iniciar a carreira no ensino superior ou no mercado de trabalho”.

“O ICC foi criado para a educação inclusiva e para a aprendizagem ao longo da vida, e um conhecimento profundo na utilização da tecnologia moderna é o pré-requisito fundamental para a inclusão igualitária nos processos educacionais”, salienta a nota.

Destinado a jovens cegos e com deficiência visual, o ICC começou há 30 anos com centros de apoio na Universidade de Linz, na Áustria, e na Universidade de Karlsruhe (TH), na Alemanha.

Ensinar a lidar com situações da vida real com Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) e desenvolver as habilidades necessárias são propósitos dos vários workshops ministrados por especialistas.

Os conteúdos “são parcialmente baseados em resultados avaliados com base nas necessidades de ex-participantes e, outra parte, na “vanguarda” da pesquisa e da prática”, explica a nota de imprensa.

Fonte: Observador por indicação de Livresco

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Marta ficou paraplégica mas voltou a andar e sente-se "um filme de ficção científica"

Marta Dombi nunca aceitou o destino que os médicos lhe traçaram. Seis anos após ouvi-los dizer que nunca voltaria a andar, conseguiu caminhar graças a implantes ligados a inteligência artificial e sente-se “um filme de ficção científica em pessoa”.

Em 2018, durante uma prova de Ironman, Marta Dombi sofreu um acidente de bicicleta que a deixou paraplégica. Ninguém assistiu ao desastre, mas o resultado foi uma lesão medular completa, a forma mais grave da doença: Marta perdeu completamente a mobilidade e a sensibilidade da cintura para baixo.

Os médicos disseram-lhe que nunca voltaria a andar, mas Marta não quis ouvir: “Os médicos (…) não nos dão esperança. Tiram-na desde o começo. Mas, para mim, foi como se não quisesse mesmo acreditar naquela versão da história”, contou, em entrevista à Lusa, à margem de uma conferência sobre medicina e inteligência artificial que decorreu esta semana na Fundação Champalimaud, em Lisboa.

“Acho que fiz a possibilidade acontecer. (…) Sempre fui otimista e sempre fui focada. Pesquisei tudo o que estava a acontecer no mundo em termos de lesão da espinal medula”, disse.

Logo após o acidente, Marta inscreveu-se como participante nos ensaios clínicos do NeuroRestore, um centro de investigação e tratamento que desenvolve e aplica estratégias de bioengenharia envolvendo intervenções neurocirúrgicas e que envolve a Universidade de Lausana, na Suíça.

Apesar de não haver então ensaios clínicos para pacientes com lesão completa da medula espinal, Marta insistiu e acabou por ser chamada em junho do ano passado e operada em setembro.

Na cirurgia, que durou sete horas, foram-lhe colocados três implantes: um no crânio, junto à zona do cérebro que controla o movimento das pernas, e dois na medula espinal, logo abaixo da lesão.

Com recurso a inteligência artificial, os elétrodos do crânio ligam-se aos da coluna e permitem a Marta ativar e controlar os músculos das pernas, numa espécie de “ponte digital” sobre a lesão, explicou à Lusa a neurocientista Valeria Spagnolo, membro da NeuroRestore, que apresentou o caso de Marta na conferência Medica AI da Champalimaud.

O dispositivo colocado no crânio tem pequenos elétrodos que registam a eletricidade provocada pela comunicação dos neurónios quando Marta pensa num movimento de uma das pernas.

Esses sinais são registados, codificados em algoritmos que permitem identificar qual o movimento exato que a paciente pretende fazer, e convertidos em pulsos elétricos que são transmitidos aos elétrodos colocados na medula espinal, que por sua vez estimulam os músculos.

Além destes elétrodos, são necessários vários dispositivos externos para o sistema funcionar: um boné para recolher os sinais do implante no crânio, um aparelho para enviar sinais para os elétrodos na coluna e um computador portátil que tem de ser ligado e que comunica com os restantes dispositivos por bluetooth ou wireless, sendo transportado no andarilho que apoia Marta nos seus passos controlados.

“Sou um filme de ficção científica e algumas pessoas brincam que funciono no Windows, mas é verdade, porque preciso da tecnologia e do ‘hardware’ para o ‘software’ funcionar”, gracejou.

Pôr tudo isto a funcionar requereu meses de trabalho e terapia para Marta recuperar os músculos que estavam inativos há seis anos e para a equipa afinar a codificação dos sinais e os estímulos.

“Há pequenas peças que precisam sempre de ser melhoradas. (…) O corpo humano não é como a tecnologia, que funciona logo quando se carrega no enter”, brincou.

Para Valeria Spagnolo, o caso de Marta é “o princípio de algo muito grande, mas é preciso calibrar as expectativas”.

“Não é como se a Marta fosse ao supermercado a andar. Ainda é algo muito experimental, que fazemos no laboratório ou que ela faz duas vezes por semana em casa”, disse.

A neurocientista admite que ainda há muito espaço para melhorar, nomeadamente nos algoritmos ou no volume e portabilidade do ‘hardware’ externo, para que seja mais fácil de usar pelo paciente.

“Não é uma mudança de vida, mas sim, é muito excitante como prova de que é possível”.

Marta, que segundo a cientista foi a primeira pessoa com lesão medular completa e a primeira mulher a andar, lamenta sobretudo não se sentir a andar: “É duro”.

Por enquanto, usa o espelho enquanto treina, na esperança de aprender a sentir o movimento.

Apesar de otimista, Marta, que continua a usar a cadeira de rodas para a sua vida quotidiana, sabe que não há cura para o seu caso e que nunca voltará a ter a vida que tinha antes do acidente.

Mas foca-se naquilo que pode fazer: “Tornar o treino parte da vida quotidiana de uma forma que esteja mais perfeitamente integrado na minha vida”.

E espera também que a tecnologia evolua para que andar exija menos ‘hardware’, menos ‘software’ e menos dificuldades técnicas.

Na sua intervenção na conferência, Marta agradeceu aos médicos e cientistas “que continuam a empurrar as fronteiras da ciência” e deixou palavras de incentivo a quem receba um diagnóstico como o seu: “Tenho de lhes dizer que eu voltei a andar e que mais está para vir”.

Fonte: JN