segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Valorizar os professores não pode ser só um gesto simbólico

A 5 de outubro de 1966, a UNESCO e a Organização Internacional do Trabalho adotaram a Recomendação relativa ao Estatuto dos Professores. Pela primeira vez, reconheceu-se que a qualidade da educação depende das condições em que os professores são formados, recrutados, apoiados e reconhecidos. É por isso que 5 de outubro é o Dia Mundial do Professor.

Entre os fatores que a escola controla, o professor é o que mais influencia a aprendizagem. Um estudo promovido pelo EDULOG em 2021 revelou o impacto dos professores nos resultados dos alunos. Mas o que faz um bom professor? Não é só o domínio da “matéria”. O conhecimento profissional docente é mais vasto: inclui saberes pedagógicos, disciplinares, curriculares e experienciais, e uma dimensão humanista e ética. E, em particular, está a capacidade de tornar o saber acessível. Para isso, é preciso criar uma relação: conhecer quem se tem à frente, abrir possibilidades quando um aluno precisa de ser mais desafiado, perceber quando um aluno se afasta e saber trazê-lo de volta. É isto, e não a simples transmissão de informação, que nenhuma tecnologia consegue replicar.

Ora, uma relação constrói-se com tempo e estabilidade. E é exatamente isso que o sistema tem vindo a retirar aos professores. Muitos passam anos em contratos precários, com a “casa às costas” sem possibilidade de se estabelecerem na mesma escola. A burocracia consome horas que deveriam ser dedicadas aos alunos. As turmas são cada vez mais heterogéneas, mas a diferenciação que exigem nem sempre vem acompanhada de recursos. A avaliação de desempenho, limitada por quotas, é vivida mais como procedimento administrativo do que como instrumento de desenvolvimento profissional. Não surpreende que, segundo um relatório de 2021 da Eurydice, quase metade dos professores europeus refira níveis elevados de stress. Pede-se cada vez mais a quem ensina e reconhece-se cada vez menos. Como consequência, a docência perde atratividade precisamente quando o envelhecimento docente torna urgente a renovação geracional.

Se queremos uma educação de qualidade, precisamos atrair e reter um corpo docente qualificado e motivado, e isso vai além de discursos de reconhecimento. Exige apoiar os professores com condições adequadas; garantir estabilidade para criar vínculos com uma escola; potenciar o trabalho colaborativo e a convivialidade entre professores; e estabelecer verdadeiros períodos de indução, com acompanhamento de colegas experientes. Exige ainda uma formação, inicial e contínua, próxima e ancorada nos problemas reais das escolas e das comunidades e que trate a relação pedagógica com o mesmo rigor que o conhecimento científico, porque também ela se aprende.

É esta relação que sustenta a dedicação de milhares de professores que não desistem de nenhum aluno: dos que aprendem com facilidade e dos que precisam de mais tempo, dos que chegam motivados e dos que chegam com dificuldades. Nesse compromisso com todos reside o sentido da profissão.

Celebrar o Dia do Professor com palavras é fácil. Mais difícil, e urgente, é garantir as condições que a recomendação da UNESCO e a Organização Internacional do Trabalho já exigia há 60 anos.

Rita Tavares de Sousa

Fonte: Visão por indicação de Livresco

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