A utilização de tecnologias na educação tem vindo a crescer exponencialmente nos últimos anos. A utilização de dispositivos digitais, com e sem inteligência artificial integrada, tornou-se uma constante na maioria das salas de aula e em casa, para alunos em todos os níveis de ensino. Por um lado, o uso de tecnologias educativas pode, no caso dos professores, facilitar o trabalho e, no dos alunos, aumentar a motivação, o envolvimento e o interesse; pode igualmente ajudar na implementação de técnicas de aprendizagem eficazes. Por outro lado, há tecnologias, aplicações e vídeos que podem prejudicar a aprendizagem e até o desenvolvimento dos alunos. Isso verifica-se sobretudo se não incluírem dificuldades desejáveis, se incorporarem demasiados detalhes sedutores que desviam a atenção do que é relevante e se levarem à execução simultânea de múltiplas tarefas ou contribuírem mesmo para uma ilusão de aprendizagem. Dada esta multiplicidade de possíveis efeitos, é importante tentar perceber como os diferentes usos das tecnologias digitais influenciam a aprendizagem de diferentes habilidades e conteúdos, e em diferentes níveis de escolaridade.
A literacia é uma das áreas nas quais as tecnologias educativas têm proliferado. Dada a importância da literacia como base para aprendizagens futuras, é fundamental compreender o impacto do uso destas tecnologias na aquisição e desenvolvimento da literacia no ensino básico. Os investigadores Rebecca D. Silverman, Kristin Keane e Elena Darling-Hammond, da Universidade de Stanford, e Saurabh Khanna, da Universidade de Amesterdão, examinaram os efeitos de intervenções com tecnologias educativas nos resultados de aprendizagem da leitura e escrita no ensino básico (em crianças dos 5 aos 11 anos). No estudo, publicado na revista científica Review of Educational Research, os investigadores reportaram os resultados de uma revisão sistemática da literatura e meta-análise de 119 estudos publicados entre 2010 e 2023. Os estudos incluídos avaliaram intervenções nas quais os alunos usavam tecnologias educativas tais como intervenções com e-books, jogos online, programas informáticos ou vídeos acedidos através de um computador, telemóvel, tablet, quadro interativo ou outro dispositivo eletrónico. Todas as intervenções incluídas centravam-se no desenvolvimento da literacia e não em habilidades cognitivas gerais (por exemplo, capacidade da memória de trabalho), tinham múltiplas sessões que podiam ser aplicadas em sala de aula, e o seu efeito era medido através de resultados quantitativos de literacia pré-intervenção e pós-intervenção e comparado com os resultados de um grupo que não tinha sido exposto à intervenção.
Os resultados apontam para um benefício geral das intervenções com uso de tecnologias na proficiência na escrita, descodificação (i. e., a aplicação do conhecimento da relação entre letras e sons, ou a correspondência entre grafemas e fonemas, para pronunciar corretamente palavras escritas), compreensão da linguagem e compreensão da leitura. Porém, em testes padronizados e medidas aferidas, os benefícios são mais reduzidos, sobretudo na compreensão da linguagem e da leitura, ou mesmo não significativos, na proficiência da escrita. Os investigadores verificaram também que, apesar de o uso de tecnologias educativas parecer beneficiar os resultados de literacia em alunos do ensino básico, estes efeitos são heterogéneos e dependem bastante do resultado medido, da forma como é medido, da intervenção/tecnologia e das características dos alunos. As intervenções mais longas beneficiaram mais a descodificação do que intervenções mais curtas. Além disso, os estudos que incluíram mais alunos com estatuto socioeconómico mais baixo reportaram maior benefício das intervenções em descodificação. No caso da compreensão da linguagem, as intervenções mais longas também estavam associadas a mais benefícios, e as intervenções com e-books corresponderam a efeitos mais elevados do que intervenções com ensino assistido por computador.
Esta meta-análise acaba por não nos dizer muito sobre os efeitos do uso de tecnologias educativas na aquisição e desenvolvimento de literacia. Ainda assim, alerta-nos para o facto de os resultados serem heterogéneos e ser necessária mais investigação de maneira a poder-se afirmar que estas tecnologias aumentam a aprendizagem e não têm efeitos negativos. Por exemplo, a maioria dos estudos focou-se na descodificação, enquanto poucos estudos se centraram nos efeitos do uso de tecnologias educativas na compreensão da linguagem e da leitura ou proficiência da escrita. Devemos notar esta omissão porque, apesar de a capacidade de descodificação predizer a compreensão de leitura, a compreensão de linguagem torna-se mais importante conforme os alunos avançam no seu percurso escolar. Além disso, a maioria dos estudos não incluiu avaliações no seguimento da intervenção. Por isso, não podemos avaliar a durabilidade de quaisquer efeitos positivos que estas intervenções possam ter ou o seu potencial para efeitos negativos a longo prazo.
Em resumo, não é claro o efeito de intervenções que usam tecnologias educativas na aquisição e desenvolvimento de literacia. É necessária mais investigação para perceber as condições nas quais estas intervenções podem ser benéficas, e que tecnologia pode ser mais ou menos benéfica. Assim, quando se adotam tecnologias educativas que supostamente beneficiam a literacia, deve tentar avaliar-se cada tecnologia para perceber até que ponto está alinhada com princípios de aprendizagem já estabelecidos (por exemplo, se incentiva ou não o aluno a recuperar informação da memória diversas vezes), se não contém demasiadas distrações que são irrelevantes para as tarefas que treinam e se fomenta o interesse do aluno sem causar ilusões de aprendizagem.
Ludmila Nunes
Fonte: Iniciativa Educação
