domingo, 24 de maio de 2026

Fusão do 1.º e 2.º ciclos: entrada em vigor em 2027 é “impossível”

A fusão do 1.º e 2.º ciclos do ensino básico está a dar os primeiros passos. O Governo já criou uma “Equipa Multidisciplinar para a Reorganização da Matriz Curricular do Ensino Básico e Secundário”, foi publicada recentemente em Diário da República (DRE) a sua constituição, arrancando assim os trabalhos para equiparar o modelo dos primeiros anos de escolaridade em Portugal ao que se passa em quase…
Esta alteração já tinha sido aflorada em janeiro pelo ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, e estava prevista no programa do governo. Tinha, até uma data para a entrada em vigor: o ano letivo de 2027-2028.

Ao avançar com a alteração, o Executivo aceita uma ideia defendida há vários anos pelo Conselho Nacional da Educação que pretende um novo formato - com o 1.º ciclo com seis anos - para evitar uma mudança drástica de ambiente escolar (com a perda do professor titular de turma) logo no 5.º ano. Este formato aproxima Portugal aos modelos adotados noutros países, mas leva a uma mudança estrutural para a qual, segundo especialistas, docentes e diretores escolares, o nosso país ainda não está preparado.

Rui Cardoso, docente de 1.º ciclo, diretor do Agrupamento de Escolas de Viso (Viseu) e especialista em Administração e Políticas Educativas também defende as mudanças. “Não temos crianças como tínhamos há 30 anos e estas alterações vão ao encontro das necessidades delas. Somos o único país da Europa que não tem este modelo”, sublinha. Contudo, levanta muitas preocupações com a implementação do novo modelo. Isto porque, salienta, “as escolas, com exceção das grandes cidades, não estão preparadas para a fusão”.

“A entrada em vigor em 2027 é impossível. Temos um parque escolar que não está preparado para isto. Dou-lhe um exemplo, a minha escola dista da escola sede em 20 quilómetros. O meu agrupamento começa no centro de Viseu e acaba na fronteira de Mangualde. Há escolas com percurso de meia hora entre elas e vai ser muito difícil para esses agrupamentos organizar horários e professores. Esse é o maior problema que vamos ter”, explica. Para ser possível avançar em 2027, acrescenta, a única possibilidade seria uma implementação por fases, “primeiros nas grandes e em dois ou três anos nas restantes zonas do país”.

O especialista faz uma análise de todos os cenários e dos constrangimentos do sistema, destacando duas matérias que podem alterar profundamente a organização da escola pública portuguesa: “A redução da componente letiva dos docentes do 1.º ciclo para 22 horas semanais (são os únicos professores com 25 horas letivas) e a possibilidade de uma maior articulação pedagógica, entre o 1.º e o 2.º ciclos. “As duas questões estão intimamente ligadas. “Na prática, discutir a equiparação dos horários do 1.º ciclo aos restantes ciclos implica discutir o próprio modelo de monodocência que estrutura hoje o ensino básico inicial”, afirma.

Redução horária

Outro dos problemas reside no facto de estes docentes não estarem abrangidos pelas mesmas regras dos outros em relação à redução horária pelo fator idade (artigo 79.º do Estatuto da Carreira Docente). Com a fusão, adianta, se ficarem equiparados neste ponto, levaria a uma necessidade maior de docentes.

“Se a componente letiva passasse de 25 para 22 horas, o sistema passaria a necessitar de aproximadamente 28 400 docentes, mais cerca de 3400 professores” e se “os docentes do 1.º ciclo beneficiassem plenamente das reduções da componente letiva aplicadas aos restantes ciclos, o efeito seria muito maior”. “Numa estimativa prudente, a média efetiva de componente letiva poderia descer para cerca de 20,2 horas”, com a necessidade de “mais cinco a seis mil professores do que atualmente”, afirma.

Para Rui Cardoso, poderia emergir um modelo intermédio, mais flexível, organizado em equipas pedagógicas formado por professores dos dois ciclos e com distribuição diferenciada de cargas letivas. “Nesse contexto, o aumento do número de docentes poderia ser parcialmente compensado pela reorganização interna das escolas”, refere.

O diretor escolar entende que esta fusão organizacional entre ciclos “poderá tornar financeiramente mais viável aquilo que seria muito difícil sustentar mantendo intacta a monodocência clássica”. “Manter o atual modelo e reduzir horários torna-se extremamente dispendioso, reorganizar pedagogicamente os ciclos pode permitir absorver parte do impacto”, conclui.

“Há uma ausência de um debate sério”

Embora defenda que a reforma, em teoria, é positiva, Alberto Veronesi, professor de 1.º ciclo e diretor do Agrupamento de Escolas de Santa Maria dos Olivais, Lisboa, alerta para a falta de debate sobre um tema tão fraturante para o sistema de ensino. Afirma mesmo não ter sido explicado, por parte do MECI, “quais são as reais intenções”.

“Há uma vontade muito apressada, que não sei se é para mitigar a falta de professores ou se é uma ideologia política para seguir o que se fez noutros países. Pode até fazer sentido, mas é uma mudança estrutural tão profunda que não deve ser tratada assim. Em que vai ser baseada a decisão para começar em 2027?”, questiona.

A criação do grupo de trabalho, sustenta, é positiva, mas “há questões que devem ser levantadas e os professores e diretores devem também ser ouvidos para se fazerem mudanças com consistência”. “Neste momento está tudo muito turvo do ponto de vista do que se pretende fazer. Ainda não se percebe o que vai ser feito em relação às estruturas físicas das escolas, se a monodocência vai acabar e em que anos, entre outros aspetos. Há muito ainda para perceber”, sublinha. Se a reforma dos 1.º e 2.º ciclos for mal executada, adverte, “é um risco político para o Governo”.

Alberto Veronesi aponta vantagens do prolongamento do 1.º ciclo, pois “tem em conta a imaturidade das crianças”, mas manifesta-se contra avançar com a medida “sem perceber as consequências reais para o sistema educativo”. “Não pode ser uma decisão ideológica. Tem de ser técnica e pedagógica e a verdade é que há um debate pouco sério sobre o assunto. A primeira pergunta que se deve fazer é qual é a intenção real da fusão?”, questiona. O diretor escolar quer ver esclarecidos vários pontos fundamentais, como o financiamento para adequar as escolas e também não prevê que seja possível avançar com a reforma em 2027.

Esta solução já passou o seu prazo de validade

Já Paulo Guinote, professor de 2.º ciclo e doutorado em História da Educação não encontra justificação para avançar com uma reforma fora de tempo. “A maior vantagem é fazer a vontade a um nicho académico-ideológico, com forte implantação no CNE, que defende esta medida há décadas, estando atualmente muitas das suas premissas desatualizadas”, sublinha. O docente acrescenta a falta de sustentação de alguns argumentos.

“Alinhar os nossos ciclos de escolaridade pelos de outros países, em especial da OCDE, sendo apenas de destacar que na maioria dos casos os seus resultados nos testes comparativos internacionais (como o PISA) estão em declínio. O que significa que esta solução já terá passado o seu prazo de validade”, explica. Paulo Guinote também não entende a premissa defendida pelo CNE de que a transição do 1.º para o 2.º ciclo é “abrupta” e encara a vontade em alongar o 1.º ciclo como “prolongar uma infantilização do percurso escolar.”.

“As desvantagens são, desde logo a questão de a transição mais problemática, em termos de resultados, ser a do 2.º para o 3.º ciclo, como é fácil constatar há muito. Ao contrário do que afirmam algumas pessoas tidas como especialistas na matéria, só quem não observa de perto a chegada dos alunos do 4.º ano à ‘escola grande’ é que não percebe a sua alegria e sensação de liberdade. O maior ‘trauma’ é parental, não dos próprios alunos”, afirma.

Para o docente, “em tempos que se dizem de aceleração do quotidiano, de multiplicação de informação e de diversificação do conhecimento, esta é uma medida em sentido contrário ao desejável”. Assim, sustenta outra solução, a “extensão universal do pré-escolar”. O professor afirma não haver condições para avançar, tendo em conta “a rede escolar que, excetuando as Escolas Básicas Integradas, não estão adaptadas a este novo modelo”. “Mas em Portugal há uma inegável pulsão para o desenrascanço experimental”, lamenta.

No ponto de vista de Paulo Guinote, a decisão de avançar em 2027 é “impensada, determinada por preconceitos teóricos incrustados em alguns grupos de pressão junto do MECI, talvez porque pode vir a implicar uma redução do pessoal docente envolvido num ciclo único de seis anos”.

Idade de ingresso no 1.º ciclo tem de ser repensada

Com mudanças estruturais em curso no ensino básico, seria, segundo Rui Cardoso, a altura certa para rever a idade de entrada para o 1.º ano. Este responsável manifesta-se contra a possibilidade de entrada com cinco anos (alunos condicionais) e defende que se deve pensar em aumentar a idade para os sete anos - à semelhança de outros países da Europa -, ajustando-se assim à maturidade das crianças.

“Os miúdos cada vez mais têm conhecimentos, mas são mais imaturos. Entrar com cinco anos, por exemplo, só poderia ser contando como ano zero. O que eu vejo nas escolas são crianças menos propensas a estarem dentro de uma sala de aula a aprender, por falta de maturidade e porque têm, hoje em dia, muitas outras distrações”, explica. Rui Cardoso não entende a falta de abertura do Governo para discutir este tema, ainda mais numa altura em que “faltam tantas vagas no 1.º ciclo”. Alberto Veronesi também considera importante falar-se da idade de entrada no 1.º ciclo e, “não menos importante”, no calendário escolar deste ciclo, o único que termina a 30 de junho.

Fonte: Sapo por indicação de Livresco

sábado, 23 de maio de 2026

Como podemos ajudar as crianças superdotadas a desenvolverem-se plenamente?

Quando falamos de crianças intelectualmente dotadas, o debate tende a centrar-se numa de duas questões: como detetamos esta característica e por que razão ela nem sempre se traduz em notas mais altas na escola. Embora estas sejam questões importantes, ignoram outra igualmente importante: o que podem as escolas fazer quando sabem que um aluno tem de aprender de uma forma diferente dos outros?

Mesmo quando os alunos superdotados são identificados, os educadores tendem a dar uma resposta pouco inspiradora. Atribuem mais trabalho, ou mais exercícios do mesmo tipo, como se aprender fosse uma simples questão de fazer mais. Este é um erro muito comum. Em vez de aumentar a carga dos alunos, devemos ajustar o nível do próprio desafio.

Aprendizagem enriquecida

A reação dos educadores perante crianças superdotadas situa-se, normalmente, em dois extremos: a inércia ou a sobrecarga. No entanto, uma educação devidamente adaptada não significa dar a uma criança dez exercícios quando os outros fazem cinco. Isso apenas contribui para tornar a educação repetitiva e pouco estimulante.

Se um aluno já tiver abordado parte do conteúdo planeado, os professores podem reorganizar o seu percurso de aprendizagem e evitar repetições desnecessárias. Isto liberta tempo no dia letivo que, em vez de ser preenchido com mais tarefas do mesmo tipo, deve ser utilizado para atividades de enriquecimento e um currículo mais abrangente.

Na prática, isto significa atividades como problemas abertos, projetos de investigação, exploração de ligações entre disciplinas, trabalho em tarefas com múltiplas soluções, análise crítica de informação e criação de os seus próprios resultados.

Javier Tourón, um especialista espanhol de renome internacional nesta área, salienta que o enriquecimento pode assumir várias formas: agrupamentos flexíveis na sala de aula, intervalos temporários para atividades específicas, salas de recursos ou programas complementares. No entanto, estas medidas devem basear-se sempre nas necessidades reais dos alunos, não constituindo uma solução única para todos.

Não sobrecarregue, adapte

A questão não é se estes alunos precisam de atividades especiais, mas sim quais as decisões curriculares e metodológicas que lhes permitem aprender de forma significativa. Isto obriga-nos a considerar uma série de questões:

1. Objetivos: nem todos os alunos precisam de avançar no currículo ao mesmo ritmo. Numa aula de língua em que, por exemplo, a turma esteja a trabalhar a estrutura de um texto narrativo, pode atribuir-se a um aluno superdotado um objetivo mais desafiante. Isto poderia ser experimentar com diferentes narradores, brincar com a linha temporal da história ou analisar como o significado de um texto muda dependendo do ponto de vista.

2. Tarefas: tarefas limitadas e repetitivas podem ser úteis por vezes, mas não podem ser a única forma de ensinar. Os alunos dotados precisam de verdadeiros desafios intelectuais. Por exemplo, em vez de dez cálculos idênticos, poderia pedir-se-lhes que criassem eles próprios um problema.

3. Avaliação: é útil saber o que um aluno já sabe. Avaliações e testes iniciais podem evitar que os alunos repitam o que já aprenderam e libertar tempo para projetos mais complexos.

Em matemática, por exemplo, o resultado final pode ser apenas uma parte da avaliação. Os professores também poderiam avaliar como o aluno chega à resposta, a sua capacidade de explicar o seu método e a sua comparação de diferentes métodos.

4. Organização da aprendizagem: uma adaptação eficaz do currículo nem sempre implica retirar os alunos da sala de aula ou criar um programa totalmente distinto. Muitas vezes, isso pode ser alcançado no âmbito da sala de aula principal, desde que a escola disponha da flexibilidade necessária para agrupar os alunos, diversificar, enriquecer e personalizar a experiência de aprendizagem.

Por exemplo, em língua ou estudos sociais, enquanto a turma explora um tema comum, os alunos superdotados podem assumir um papel diferente, como identificar ligações com outros temas, formular perguntas de nível superior, comparar fontes ou preparar uma breve apresentação para o grupo.

Uma necessidade, não um privilégio

Estas medidas são frequentemente vistas como um privilégio, mas não é isso que são. São uma forma de responder às necessidades educativas específicas de um aluno.

A inclusão não se resume a ajudar aqueles que enfrentam dificuldades. Significa também reconhecer que a diversidade assume muitas formas diferentes e que uma escola não pode dar a mesma resposta a todos aqueles que aprendem de forma diferente. Ignorar as necessidades dos alunos superdotados também conduz à exclusão e, a longo prazo, pode causar tédio, desinteresse e desmotivação.

Um design universal

O quadro do Design Universal para a Aprendizagem (UDL) é particularmente relevante para os alunos superdotados, porque se baseia num princípio central da educação inclusiva: nem todos os alunos aprendem da mesma forma, nem todos precisam das mesmas condições para participar, progredir e realizar o seu potencial. Isto seria semelhante a assumir que todas as pessoas vestem o mesmo tamanho de roupa.

O UDL permite aos professores diversificar as formas de envolvimento, ou seja, as formas como os alunos se relacionam com o processo de aprendizagem. Isto pode significar, por exemplo, oferecer diferentes opções de projetos com base nos interesses do aluno, ou desafios de complexidade variável.

A UDL abrange também os meios de representação (por exemplo, apresentar o mesmo conteúdo através de texto, diagramas visuais, vídeos ou explicações orais) e os meios de ação e expressão (por exemplo, dar aos alunos a opção de demonstrar o que aprenderam através de uma apresentação oral, um texto escrito, um infográfico, um modelo ou um projeto de investigação).

Como defendem alguns autores, a educação inclusiva não é uma questão de adaptar os alunos a uma abordagem de ensino única para todos, mas sim de transformar a conceção educativa para reduzir barreiras e ampliar as oportunidades de aprendizagem para todos.

Esta abordagem beneficia não só aqueles com as dificuldades mais evidentes, mas também aqueles que necessitam de maior estímulo intelectual, flexibilidade e oportunidades de desenvolvimento pessoal para realizarem plenamente o seu potencial.

Toda a turma beneficia

A boa notícia é que transformar o ensino desta forma não beneficia apenas determinados alunos. Quando uma escola se adapta, deixa de sobrecarregar os alunos e lhes apresenta desafios mais abertos, melhora a experiência educativa de toda a turma.

Por que razão, então, continuamos a defender uma abordagem tão homogénea ao ensino em sala de aula, quando sabemos que a diversidade é a norma? A superdotação obriga-nos a confrontar esta questão incómoda.

Atender às necessidades das crianças superdotadas significa melhorar a forma como concebemos a experiência em sala de aula. Mas esta não é uma tarefa fácil. Exige um maior investimento na formação em todo o setor educativo e uma abordagem de mente aberta que aceite a diversidade como parte inerente do ser humano.

Laura Hood

Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Devemos obrigar as crianças a ler?

Aprender a ler é um dos marcos mais importantes na vida de uma criança. Mais do que uma competência académica, a leitura é uma porta de entrada para o mundo da imaginação, do conhecimento e, acima de tudo, da autonomia.

No entanto, nem todas as crianças vivem este processo com entusiasmo. Para algumas, a aprendizagem da leitura pode tornar-se uma fonte de frustração. A boa notícia é que os pais têm um papel fundamental e podem transformar esta fase numa experiência positiva e prazerosa.

As experiências vividas em família potenciam o desenvolvimento da linguagem oral e contribuem, a longo prazo, para a aquisição da leitura. É no seio familiar que devem surgir as primeiras oportunidades de contacto com livros, histórias e palavras.

As crianças que ouvem histórias, participam em atividades de literacia e exploram a linguagem oral tendem a ter mais facilidade na aprendizagem da leitura e da escrita. Mas antes de dominar regras ortográficas ou alcançar fluência, é essencial que associem a leitura a momentos agradáveis.

O gosto pelos livros nasce muito antes de a criança saber ler. Folhear páginas, ouvir histórias e conversar sobre personagens criam uma ligação emocional com a leitura. Quando a leitura é vista, apenas, como uma obrigação escolar, perde-se uma parte essencial do processo: o prazer e a curiosidade.

É importante lembrar que os pais são modelos. Uma criança que vê adultos a ler, seja um livro, um jornal ou até uma receita compreende que a leitura faz parte da vida quotidiana. Os pequenos gestos fazem diferença, como por exemplo ler em voz alta regularmente, criar um momento diário de leitura (mesmo que breve) e permitir que a criança escolha os seus próprios livros.

Nem todas as crianças aprendem ao mesmo ritmo, por essa razão as comparações com irmãos ou colegas podem gerar ansiedade e desmotivação. A leitura é um processo gradual, que envolve várias competências, desde a identificação das letras e respetivos sons até à compreensão de textos. Se surgirem dificuldades persistentes, o apoio de professores ou especialistas pode ser importante. Em casa, o essencial é manter um ambiente tranquilo, paciente e encorajador.

Após a entrada no 1.o ano, quando a criança começa a ler, é natural que queira experimentar ler palavras ou pequenas frases. Esse interesse deve ser incentivado, mas sem pressão. Sempre que surgirem dificuldades, os pais devem apoiar, respeitando o tempo da criança. A fluência constrói-se com prática, persistência e confiança, não com pressa.

Não nos podemos esquecer que aprender a ler não acontece de um dia para o outro. É um caminho feito de pequenas conquistas, tentativas e descobertas. Quando este percurso é acompanhado com paciência, incentivo e afeto, a leitura deixa de ser apenas uma competência e transforma-se num verdadeiro prazer.

Em resposta à questão colocada, não devemos obrigar as crianças a ler, mas devemos motivá-las. A imposição pode gerar resistência e associar a leitura a algo negativo. Em vez disso, o mais eficaz é despertar o interesse e o prazer pelos livros, criando experiências positivas e significativas. Quando a leitura é apresentada de forma leve, ligada ao afeto e ao dia a dia, a criança tende a aproximar-se naturalmente. O objetivo não é forçar, mas sim cultivar o gosto pela leitura.

Porque são as crianças que descobrem prazer na leitura que têm mais probabilidade de a transformar num hábito para a vida.

Inês Ferraz

Fonte: Público por indicação de Livresco

Inteligência Artificial em Contexto Educativo

O Conselho Nacional de Educação publicou a Recomendação n.º 4/2026, de 21 de maio, sobre a integração da Inteligência Artificial no sistema educativo português.
A recomendação pode ser acedida aqui ou aqui.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

A inclusão que a escola promete e a realidade que os professores vivem

A sala de aula contemporânea é, talvez, o reflexo mais fiel e visível da transformação demográfica e social que o país atravessou nas últimas décadas. Onde outrora víamos rostos e sotaques relativamente uniformes, hoje encontramos uma tapeçaria riquíssima de origens, línguas, etnias e capacidades. No entanto, esta promessa de uma “escola para todos”, consagrada na lei e nos discursos políticos, enfrenta um obstáculo severo e cada vez mais incontornável: a gritante falta de meios humanos e materiais para tornar a inclusão uma realidade vivida, e não apenas um conceito burocrático.A pluralidade das nossas turmas é, em teoria, uma das maiores riquezas do sistema educativo. O contacto entre crianças de diferentes origens e com diferentes capacidades – sejam elas motoras, cognitivas ou sensoriais – é um catalisador fundamental para formar cidadãos tolerantes e preparados para um mundo globalizado. Contudo, a inclusão não se faz por decreto. Exige tempo, dedicação e, acima de tudo, profissionais qualificados e em número suficiente.

O que assistimos, presentemente, é a convergência alarmante de dois fenómenos: o aumento da complexidade das exigências pedagógicas e a diminuição significativa do corpo docente e técnico. Com milhares de professores à beira da reforma ou exaustos, a capacidade de dar uma resposta individualizada a cada aluno torna-se quase impossível. Quando um professor tem de gerir, sozinho, uma turma de 24 ou 25 alunos, na qual coexistem crianças que não falam português, algumas com necessidades educativas que exigem medidas adicionais de suporte à aprendizagem, e outras crianças provenientes de contextos socioeconómicos vulneráveis, o resultado é, inevitavelmente, o esgotamento. Entre o discurso político e a realidade da sala de aula existe, muitas vezes, um abismo silencioso.

Também a carência de recursos tem consequências diretas no clima escolar. Sem a supervisão e o acompanhamento adequados, os espaços de recreio – e até as salas de aula – podem tornar-se terreno fértil para a exclusão. O bullying e a discriminação alimentam-se, muitas vezes, do refúgio de quem não compreende a diferença ou de quem se sente negligenciado pelo sistema. A verdadeira luta contra o preconceito não se faz apenas com cartazes coloridos nas paredes, mas também com a presença constante de mediadores, psicólogos e professores que tenham disponibilidade emocional e física para intervir e educar.
Não podemos continuar a exigir que os professores sejam heróis solitários numa batalha que é de toda a sociedade. Se acreditamos que a escola pública é o grande motor da igualdade de oportunidades, não podemos permitir que se transforme num depósito de boas intenções sem suporte prático. Investir na carreira docente, reforçar as equipas multidisciplinares e reduzir o número de crianças por turma não são gastos: são investimentos urgentes para evitar a segmentação social e o desperdício de talentos.

A escola que queremos é aquela onde cada criança, independentemente da sua cor, origem ou limitação, se sinta segura e valorizada. Mas, para que essa escola exista fora do papel, é necessário que o Estado assuma a responsabilidade de dotar as instituições dos meios necessários. Caso contrário, continuaremos a falar de inclusão enquanto praticamos, por omissão, a mais triste das exclusões.

Talvez por isso faça tanto sentido recordar Helen Keller: “Sozinhos podemos fazer tão pouco; juntos podemos fazer muito”.

Ana Pereira

Fonte: Mensageiro de Bragança por indicação de Livresco

Socra funciona como um professor para transformar conversas com IA em sessões de estudo

A IA pode ajudar nos estudos e hoje, além de chatbots como o ChatGPT, Gemini ou Claude, que já têm opções criadas especificamente para estudantes, existem várias ferramentas e plataformas concebidas para orientar o processo de aprendizagem. A Socra faz parte deste universo e propõe uma abordagem baseada no método socrático.
Não perca nenhuma notícia importante da atualidade de tecnologia e acompanhe tudo em tek.sapo.pt

Em vez de ser um “motor de respostas”, a plataforma foi concebida para funcionar como uma espécie de companheiro de pensamento, ajudando os utilizadores a raciocinar, explicar e a desenvolverem novos conhecimentos por si próprios.

Na prática, ao introduzir um tema, dúvida ou problema, a plataforma começa por definir um objetivo claro para a conversa e passa a fazer perguntas que exigem explicações com palavras próprias.

A plataforma organiza-se em torno de duas ferramentas: a Socra AI Tutor, que se foca na aprendizagem, estudo e compreensão de temas complexos; e a SocraDraft, mais orientada para a escrita e organização de ideias.

Na primeira, o objetivo é funcionar como uma sessão de estudo orientada. No final, a conversa é transformada em materiais de estudo estruturados a partir do raciocínio do utilizador durante a sessão. Já na segunda, o método é aplicado à escrita para ajudar a clarificar, organizar e estruturar ideias.

Além de estudantes em preparação para exames ou a estudar temas complexos, a plataforma também pode ser útil para professores, investigadores, escritores ou criadores de conteúdo, afirmam os criadores da plataforma.

A Socra conta com um modo gratuito, bem como modalidades pagas que dão acesso a mais funcionalidades, com preços que começam nos 6 dólares por mês. A plataforma também está disponível como app para Android, a partir da Play Store, e para iOS, através da App Store.

Fonte: Tek Sapo por indicação de Livresco

terça-feira, 19 de maio de 2026

Perturbações do desenvolvimento: Neuropediatra diz que professores devem estar alerta para os sinais

O neuropediatra Nuno Lobo Antunes diz que há muito trabalho a fazer nos Açores, na diversificação de respostas quanto às perturbações do desenvolvimento, como o espetro do autismo.

Na palestra ‘Perturbações do Neurodesenvolvimento’, o médico falou sobre sinais de alerta.

Notícia da RTP Açores com reportagemem vídeo.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Na leitura, não há milagres

Há histórias que ganham estatuto de milagre porque simplificam demasiado a realidade. O chamado «milagre da leitura» no Mississípi é uma delas. Tornou-se uma narrativa sedutora: um dos Estados mais pobres dos Estados Unidos melhora drasticamente os seus resultados, e a explicação parece caber numa frase: ensinar a ler com base na ciência, com mais fonética, mais ensino explícito e menos romantismo pedagógico.

É uma boa história. Mas está errada. Ou, pelo menos, perigosamente incompleta.

O que aconteceu no Mississípi não foi a vitória de uma técnica pedagógica empiricamente demonstrada. Foi a consequência de uma transformação muito mais exigente e, por isso mesmo, muito menos exportável. O Estado não mudou apenas a forma como se ensina a ler: mudou a forma como o sistema educativo se responsabiliza pelos resultados.

Durante décadas, o Mississípi viveu, tal como Portugal, prisioneiro de uma espécie de fatalismo social: sendo pobre, não podia esperar muito dos seus alunos. As expectativas eram baixas, os padrões eram baixos, e os resultados, naturalmente, também. A primeira rutura, antes de ser pedagógica, foi cultural: decidir que os alunos, independentemente do contexto socioeconómico, tinham de atingir níveis exigentes de aprendizagem.

Mas expectativas, por si só, são apenas retórica. O passo seguinte foi o mais difícil: criar mecanismos reais de responsabilização. As escolas passaram a ser classificadas publicamente; as que falhavam de forma persistente podiam ser objeto de intervenção, e os diretores, nomeados pelo município, substituídos por técnicos do Estado quando os resultados não apareciam; os alunos que no final do 3.º ano não sabiam ler eram retidos, com poucas exceções. Sim, retidos: sem conhecimento não há progresso — e os pais eram informados regularmente do progresso dos filhos. Subitamente, o sistema deixou de tolerar o insucesso escolar como inevitável.

Este ponto é decisivo. E é também aquele que muitos preferem ignorar.

Só depois surge o que mais facilmente se defende em conferências e relatórios: a adoção de práticas de ensino da leitura baseadas na evidência científica. Como demonstra a investigação empírica, a instrução fonémica explícita foi importante. No entanto, funcionou por estar inserida num sistema que exigia resultados e monitorizava a sua concretização. Fora desse contexto, corria o risco de ser só mais uma «moda pedagógica».

Aliás, é isso que já começa a acontecer noutros Estados americanos, como a Califórnia: adotam-se currículos alinhados com a «ciência da leitura», financiam-se formações, produzem-se documentos orientadores, mas evita-se o essencial — a responsabilização. Compreende-se: a responsabilização de alunos, das famílias, dos professores e diretores é politicamente incómoda. Exige enfrentar resistências, mobilizar recursos, assumir custos, avaliar o mérito — de famílias, alunos, professores e diretores — com rigor e aceitar conflitos. É muito mais fácil mudar o discurso do que mudar o sistema.

O paralelo com Portugal não é difícil de traçar:


A história dos últimos 25 anos está publicada em acesso livre. Entre 2000 e 2015, o sistema educativo português conheceu um período de estruturação: currículos sustentados e exigentes, metas curriculares claras, avaliação externa com peso efetivo, preocupação com resultados comparáveis e créditos às escolas que melhoravam o desempenho dos seus alunos. Não foi um modelo perfeito, mas gerou progressos visíveis, nomeadamente nos estudos internacionais. Do fundo da tabela, na primeira edição do PISA (em 2000), Portugal cresceu consistentemente, e de forma única no seio da organização, para a média internacional.

A partir de 2016, a prioridade deslocou-se. A flexibilidade curricular, as aprendizagens essenciais, a valorização de abordagens pedagógicas diversificadas e as práticas antirretenção passaram para o centro da agenda. São princípios defensáveis. Ninguém pretende uma escola rígida e uniformizada, centrada em debates pouco produtivos sobre leituras e autores, obrigatórios ou opcionais, com professores desmotivados e desautorizados, nem com turmas de retenção generalizada. O problema põe-se quando a flexibilização do sistema não é acompanhada por mecanismos consistentes de exigência e de responsabilização. Em 2016, os exames nacionais do 4.º e 6.º anos, anteriormente com peso relativo na progressão entre ciclos, foram substituídos por provas de aferição realizadas a meio dos ciclos, sem consequências nem valorização diretas no percurso dos alunos. Mais recentemente, estas provas foram reposicionadas no final dos ciclos, mantendo, contudo, o mesmo estatuto de avaliação sem valor formal na progressão escolar.

Porque, como o caso do Mississípi demonstra, não basta saber «o que funciona». É preciso garantir que funciona, com crédito e responsabilização, em todas as salas de aula, de forma consistente e sustentada ao longo do tempo.

Talvez por isso, no próprio Mississípi, começa a abandonar-se a palavra «milagre». Preferem falar de uma maratona. A metáfora é mais honesta: não há atalhos, não há soluções rápidas. Cada passo exige esforço e apoio continuado de todos: decisores, famílias, diretores, professores e alunos. Afinal, são 42,195 km, 12 anos de escolaridade.

É uma imagem menos inspiradora: a educação de uma criança é uma maratona? Mas é, provavelmente, muito mais verdadeira.

João Marôco

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Pode o teclado substituir a velhinha caneta?

O recurso a provas digitais traz diversas vantagens, tais como maior eficiência na correção, redução do consumo de papel, o potencial para criar perguntas que utilizem vídeos ou animações, ou mesmo proporcionar aos alunos uma maior familiaridade com ferramentas tecnológicas de que necessitarão nas suas vidas profissionais. Por outro lado, a transição para este formato pode enfrentar vários obstáculos, como as infraestruturas digitais nas escolas e o grau de familiaridade de alunos e professores com estas ferramentas.

Já vários estudos analisaram o impacto nos resultados dos alunos da transição de provas em papel e caneta para provas digitais. Contudo, é particularmente relevante compreender quais os efeitos da mudança quando esta ocorre em larga escala, ou seja, ao mesmo tempo em várias escolas do sistema de ensino.

Neste contexto, conjuntamente com os meus colegas Luís Catela Nunes, Ana Reis e João Pereira dos Santos, investigámos o programa-piloto de adoção de provas digitais realizado em 2022 em Portugal, que abrangeu as diferentes provas de aferição do 2.º ao 8.º ano nesse ano letivo. Este texto baseia-se no artigo resultante dessa investigação. O programa-piloto não chegou a todas as escolas nem a todos os alunos: do total de cerca de 437 mil provas realizadas nesse ano, apenas cerca de 6182 foram feitas em formato digital, em aproximadamente 70 escolas.

As escolas que participaram neste programa-piloto não foram selecionadas com base numa regra clara nem através de uma experiência aleatória. Tal é relevante porque, à partida, não podemos saber se existiu algum fator que determinou a participação de certas escolas, e não de outras. Por essa razão, seguimos diferentes estratégias para garantir a comparabilidade entre escolas onde se realizaram e não se realizaram provas digitais.

Em primeiro lugar, verificamos que, em várias características observáveis, tais como a escolaridade dos pais, o acesso ao apoio social escolar ou a nacionalidade dos alunos, é semelhante a composição das escolas que participaram e das que não participaram no piloto. Em segundo lugar, estudámos escolas onde coexistiram provas em papel e digitais, o que significa que, dentro da mesma escola, alguns alunos realizaram provas em ambos os formatos. Em terceiro lugar, analisámos estudantes que realizaram uma prova em formato digital e outra em formato tradicional — por exemplo, alunos que fizeram a prova de Português do 8.º ano em papel e a prova de História do 8.º ano em ambiente digital —, o que nos permitiu comparar desempenhos controlando as características individuais dos alunos.

Em todas estas diferentes estimativas obtivemos um resultado semelhante: realizar a prova em formato digital penalizou o desempenho dos alunos, em média, em cerca de 5 pontos percentuais (numa escala de 0-100). Este efeito é ligeiramente mais acentuado entre os rapazes.

Procurámos também explorar possíveis explicações para este resultado. Em primeiro lugar, testámos se o efeito estaria relacionado com a qualidade da ligação à internet nas escolas. Recorrendo a dados sobre a capacidade das redes, concluímos que este não parece ser o principal fator por detrás dos resultados observados. Em seguida, quisemos perceber se determinados tipos de perguntas eram particularmente afetados pela introdução das provas digitais. Considerámos diferentes formatos: serem de resposta aberta, exigirem leitura ou interação com figuras, ou obrigarem o aluno a localizar informação numa parte anterior da prova. Os resultados indicam que as provas digitais tiveram um impacto negativo sobretudo no desempenho em questões de escolha múltipla ou em perguntas que envolviam interação com figuras. Os mecanismos cognitivos e não cognitivos que podem explicar este resultado merecem, por isso, investigação adicional.

Noutros contextos, chegou-se a conclusões semelhantes sobre os efeitos de curto prazo da digitalização, como em dois estudos — de Ben Backes e James Cowan, em 2019, e de John Gordanier, Orgul Ozturk e Crystal Zhan, em 2022 — que avaliaram a transição para provas digitais nos Estados do Massachusetts e da Carolina do Sul nos EUA.

Os resultados que obtivemos não implicam que as provas digitais devam ser descartadas. No entanto, sugerem que, no imediato e no curto prazo, a transição entre formatos de avaliação implica períodos de adaptação. Além disso, indicam também que a transição para o digital deve ser acompanhada por provas preparatórias ou testes-piloto (como já tem acontecido em Portugal) de forma a garantir uma familiarização progressiva com o formato digital. Assim, quando chegar o momento de realizar provas com impacto na avaliação final, essa transição estará consolidada.

Pedro Freitas

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A escola portuguesa: entre a promessa e o fracasso

Desde o 25 de Abril, a escola portuguesa vive uma promessa contraditória. Ser simultaneamente mais igual, mais democrática e mais exigente. Meio século depois, essa promessa continua por cumprir. O sistema educativo entre o 1.º e o 12.º ano evoluiu para um modelo que certifica mais do que qualifica, que diploma sem verdadeiramente formar, e que, em nome de uma certa ideia de inclusão, foi gradualmente esvaziando o sentido de responsabilidade de alunos, famílias e da própria escola.

Esta não é uma falha imputável apenas à esquerda ou à direita. É o resultado de décadas de opções políticas convergentes que, sob diferentes retóricas, produziram o mesmo efeito. Uma escola de mínimos.

Desde 1976, a educação portuguesa foi administrada por governos minoritários, coligações instáveis e pactos de legislatura curta. O PS liderou o executivo por mais de duas décadas, o PSD por cerca de oito a nove anos, muitas vezes em coligação. Nenhum dos dois campos construiu uma visão de longo prazo para a escola. Ambos a trataram como área de serviços a cumprir e não como projeto de nação.

A esquerda apostou na massificação, nomeadamente, o alargamento da escolaridade obrigatória, expansão do secundário, universalização do acesso ao ensino superior. Foram conquistas reais, mas realizadas sem revisão profunda dos currículos, sem reforço das competências de base e sem investimento estrutural nas condições de ensino. O resultado foi uma escola a que todos acedem, mas em que muitos a “atravessam” sem aprender verdadeiramente.

A direita, por seu lado, ensaiou ciclos de maior ênfase na avaliação e na autonomia das escolas, mas sem continuidade. A contenção orçamental e a burocratização crescente corroeram os avanços. Nenhuma das duas orientações conseguiu criar uma cultura sustentada de exigência.

Uma das consequências mais visíveis deste percurso foi a progressiva dissolução do dever do aluno. A escola foi sendo moldada à imagem de um serviço, com o aluno no papel de consumidor com direitos e opções, e cada vez menos como um sujeito com obrigações. Estudar, respeitar regras, cumprir prazos, aceitar avaliações. Tudo isso foi sendo relativizado em nome de uma ideia de inclusão que, na prática, se confundiu com ausência de critérios.

Essa lógica manifesta-se nos regulamentos, nas práticas pedagógicas e na retórica política. A contenção das retenções, os planos de recuperação intermináveis, as avaliações carregadas de "contexto atenuante". O fracasso passou a ter consequências mínimas, o que gerou um ambiente de desresponsabilização que afeta professores, alunos e famílias.

Os encarregados de educação foram colocados numa posição ambígua. Por um lado, pressionados a exigir resultados académicos, por outro, frequentemente, desencorajados de exigir comportamento, sob pena de parecerem autoritários. A escola, que deveria ter nas famílias um aliado natural, passou a conviver com uma relação de suspeição mútua, onde regras e consequências são sistematicamente questionadas em nome de direitos individuais.

Paralelamente, instalou-se o mito de que todos deveriam ir para a universidade. O ensino superior deixou de ser um percurso para quem escolhe e se prepara para ele, e tornou-se numa espécie de direito universal, com consequências sérias para a qualidade da experiência académica e para o prestígio dos percursos profissionais.

Portugal precisa de operários qualificados, técnicos de manutenção, programadores, enfermeiros, cozinheiros, artesãos. A escola pública não forma esses profissionais com a dignidade e a competência que seria necessária. Os cursos técnicos e profissionais, introduzidos tardiamente, continuam a ser vistos como "plano B”, destino de quem não foi suficientemente bom. Esta hierarquia implícita desvirtua os percursos profissionais e deixa o mercado de trabalho com carências que o excesso de licenciados não consegue suprir.

A comparação com outros sistemas europeus é reveladora, não como modelo a copiar acriticamente, mas como espelho de escolhas possíveis.

A Alemanha mantém um sistema de vias escolares diferenciadas após o ensino básico, com forte articulação entre formação profissional e mercado de trabalho. Os percursos técnicos têm reconhecimento social e profissional genuínos, e os jovens que os escolhem não perdem a possibilidade de regressar ao ensino superior mais tarde. Em Portugal, tentou-se algo semelhante, mas sem resolver a cultura que subalterniza o que não é académico.

A Finlândia construiu aquilo que em Portugal parece uma contradição. Uma escola inclusiva e exigente ao mesmo tempo. Aposta na igualdade de oportunidades, na autonomia das escolas e na profissionalização dos professores, mas sem abrir mão de padrões de responsabilidade individuais. A escola finlandesa não protege os alunos do fracasso, aceita que ele existe, trabalha para o prevenir, mas não o certifica como sucesso. É uma escola que confia nos alunos e espera que eles correspondam a essa confiança, uma dinâmica que em Portugal tem sido frequentemente substituída por desconfiança e baixas expectativas mútuas.

Há uma hipocrisia que torna tudo mais difícil. Muitos dos políticos que mais defendem a escola pública e a retórica da inclusão matriculam os seus filhos em colégios privados ou internacionais. O desfasamento entre discurso e prática é corrosivo, passa a mensagem implícita de que a escola pública não é suficientemente boa para quem decide a sua política.

Esta contradição não é exclusiva de nenhum quadrante político, mas é especialmente grave quando o argumento central é precisamente o da igualdade. Se a escola é apresentada como espaço de oportunidade comum, e os seus defensores mais eloquentes optam por algo diferente para os seus próprios filhos, o sistema perde legitimidade.

A escola portuguesa não precisa de ser destruída, precisa de ser reimaginada. Isso implica, em primeiro lugar, clareza sobre o que ela serve. Não apenas certificar, mas, essencialmente, formar. Formar leitores, pensadores, cidadãos responsáveis, profissionais competentes.

Em segundo lugar, reequilibrar a relação entre direitos e deveres, sem autoritarismo, mas com consequências reais para quem não cumpre. A inclusão genuína não significa baixar o nível, significa investir mais em quem precisa de mais apoio, sem deixar de exigir de todos.

Em terceiro lugar, revalorizar os percursos profissionais e técnicos como opções de primeira linha, com estágios de qualidade, reconhecimento profissional e articulação real com o mercado de trabalho. Para isso, é preciso mudar não apenas os regulamentos, mas a cultura que hierarquiza os saberes.

Por fim, estabilizar as políticas educativas. A escola não aguenta mais ciclos de reforma de legislatura. Precisa de um projeto partilhado, de professores reconhecidos e de famílias envolvidas, não como adversárias do sistema, mas como parceiras no mesmo propósito.

A lição que o pós-25 de Abril não conseguiu integrar plenamente é simples. Liberdade sem responsabilidade não é liberdade. E a escola, como qualquer instituição que forma pessoas, precisa de clareza, de exigência e da coragem de dizer que aprender é, antes de tudo, um dever.

Alberto Veronesi

Fonte: CNN Portugal por indicação de Livresco