De três em três anos, o PISA — Programa Internacional de Avaliação de Alunos promovido pela OCDE — permite comparar o desempenho dos alunos de 15 anos em diferentes sistemas educativos. Mais importante ainda, a utilização de itens-âncora permite acompanhar a evolução dos resultados ao longo do tempo.
Os resultados de 2025 são particularmente importantes para Portugal. Não apenas porque permitem conhecer o desempenho dos alunos depois da perturbação provocada pela pandemia, mas porque completam uma década durante a qual ocorreram alterações profundas no sistema educativo português.
Em 2015, Portugal atingiu 492 pontos em matemática, 498 em leitura e 501 em ciências. Em 2025, os resultados foram, respetivamente, 460, 462 e 482 pontos.
Em matemática e leitura, os resultados de 2025 estão abaixo dos níveis alcançados há cerca de 20 anos.
A questão que se coloca é, portanto, não apenas saber onde está Portugal no PISA 2025, mas compreender como chegámos até aqui.
O que é o PISA?
O PISA avalia as competências dos alunos de 15 anos em ciências, leitura e matemática (a partir deste ciclo, o intervalo entre edições passará de três para quatro anos). Não é um teste de «conhecimentos» mas antes uma avaliação do que os alunos conseguem fazer com o que aprenderam nos seus nove anos de escolaridade e como conseguem utilizar esses conhecimentos e competências na resolução de problemas do dia a dia. Em 2025, participaram cerca de 760 mil alunos de 91 países e economias, representando aproximadamente 33 milhões de jovens. Em Portugal, participaram 6945 alunos de 225 escolas, representando cerca de 97 400 alunos de 15 anos, aproximadamente 94% da população total dessa idade.
O PISA não pretende avaliar diretamente os currículos nacionais, mas antes aferir em que medida os alunos conseguem utilizar conhecimentos e competências para resolver problemas, interpretar informação e aplicar o que aprenderam em situações novas.
Em 2025, matemática, leitura e ciências continuam a constituir os três domínios principais de comparação. A edição de 2025 introduziu também a avaliação de resolução de problemas computacionais, competência que procura avaliar a utilização de ferramentas computacionais num processo iterativo de construção de conhecimento e resolução de problemas.
A comparação ao longo do tempo é possível porque diferentes edições incluem itens comuns que permitem estabelecer tendências de desempenho. A figura 1 apresenta a posição dos diferentes países e economias participantes no PISA 2025.
Figura 1 — Resultados do PISA 2025 no mundo
No PISA 2025, os cinco sistemas educativos com melhor desempenho global (ciências, leitura e matemática) foram B-S-J-Z (China), Singapura, Macau (China), Taipei Chinês e Japão. Todos eles se destacam de forma consistente no topo do ranking internacional. No extremo oposto, os cinco sistemas com resultados mais baixos foram Ruanda, Zâmbia, Quénia, Guatemala e Paraguai.
Portugal encontra-se num grupo intermédio europeu, à frente de Espanha e Croácia, mas atrás de países como Irlanda e Polónia. O nosso país está próximo da média da OCDE nos três domínios tradicionais. Em matemática, obteve 460 pontos, contra 469 na média da OCDE; em leitura, 462 contra 466; e em ciências, 482 contra 486. Na nova área de Resolução de Problemas Computacionais, Portugal obteve 501 pontos, praticamente o mesmo resultado da média da OCDE, 500.
A proximidade da média da OCDE é, contudo, apenas uma parte da história.
Como tem evoluído Portugal no PISA?
Portugal teve uma evolução particularmente positiva entre 2000 e 2015: em matemática, passou de um dos desempenhos mais baixos entre os países participantes para 492 pontos em 2015, a que se somaram 498 pontos em leitura e 501 pontos em ciências. A partir de 2015, a trajetória inverteu-se.
Figura 2 — Evolução das pontuações médias de Portugal no PISA
Em matemática, Portugal perdeu 20 pontos entre 2015 e 2022 e mais 12 pontos entre 2022 e 2025. Em leitura, perdeu 21 pontos entre 2015 e 2022 e mais 15 entre 2022 e 2025. Em ciências, a evolução é diferente: depois de uma perda de 17 pontos entre 2015 e 2022, o resultado de 2025 é apenas dois pontos inferior ao de 2022.
A OCDE confirma que, em Portugal, os resultados de 2025 foram significativamente inferiores aos de 2022 em matemática e leitura e estatisticamente equivalentes em ciências. Em matemática e leitura, as perdas recentes prolongam as verificadas entre 2015 e 2022.
O resultado acumulado é particularmente expressivo. Em matemática e leitura, é necessário recuar aproximadamente 20 anos para encontrar resultados semelhantes aos de 2025. A melhoria registada entre 2000 e 2015 foi, em grande parte, anulada na década seguinte.
E como se distribuem os resultados?
A média nacional não conta toda a história. A figura 3 apresenta a distribuição dos alunos portugueses pelos diferentes níveis de desempenho e permite comparar Portugal com a média da OCDE.
Figura 3 — Níveis de desempenho em Portugal e na OCDE
Em Portugal, 65% dos alunos atingem pelo menos o nível 2 em matemática, exatamente a proporção observada na média da OCDE. Em leitura, 72% atingem pelo menos o nível 2, contra 69% na OCDE. Em ciências, são 76%, contra 74% na OCDE. A proporção de alunos que atinge o nível mínimo de proficiência é, portanto, semelhante ou ligeiramente superior à média da OCDE.
A situação é diferente quando analisamos os níveis mais elevados. Apenas 6% dos alunos portugueses atingem os níveis 5 ou 6 em matemática, contra 8% na OCDE. Em leitura, são 3%, contra 6%, e em ciências 6%, contra 7%. O país aproxima-se, assim, da OCDE na base da escala, mas fica claramente aquém no topo.
Há ainda uma evolução preocupante na dimensão inferior da distribuição. Em comparação com 2015, a proporção de alunos abaixo do nível 2 aumentou 11 pontos percentuais em matemática, 11 pontos em leitura e sete pontos em ciências.
A evolução portuguesa não corresponde, portanto, a uma simples deslocação da média: também se observa um aumento da proporção de alunos com desempenhos inferiores ao nível considerado mínimo.
Quem são os alunos que realizaram o PISA 2025?
Para interpretar os resultados de 2025 é importante olhar para o percurso educativo da população avaliada. Os alunos que realizaram o PISA 2025 nasceram aproximadamente em 2009 e iniciaram a escolaridade obrigatória numa fase em que Portugal ainda se encontrava no anterior paradigma curricular.
A coorte avaliada em 2025 iniciou o ensino básico antes da generalização das Aprendizagens Essenciais e da Autonomia e Flexibilidade Curricular. Ao longo do seu percurso escolar, estes alunos transitaram progressivamente para o novo modelo, tendo realizado todo o 2.º e 3.º ciclos no novo paradigma curricular. Assim, os alunos avaliados em 2025 constituem a primeira geração do PISA com uma exposição prolongada ao paradigma das Aprendizagens Essenciais (AE) e da Autonomia e Flexibilidade Curricular (AFC) — aproximadamente seis dos nove anos da escolaridade obrigatória.
Esta característica distingue o PISA 2025 das edições anteriores.
Os resultados de 2018 correspondiam a alunos cuja escolaridade tinha decorrido predominantemente no modelo anterior. Os resultados de 2022 foram, em parte, afetados pelo contexto extraordinário da pandemia.
Em 2025 temos, pela primeira vez, uma coorte cuja escolaridade foi maioritariamente desenvolvida num contexto posterior à mudança de paradigma curricular e avaliativo. Isto não permite, por si só, estabelecer uma relação causal com as políticas adotadas. Permite, contudo, fazer uma pergunta a que até agora era difícil responder: como evoluíram as aprendizagens de uma geração que passou uma parte substancial da escolaridade sob o novo modelo?
O que pode explicar esta evolução?
A evolução dos resultados PISA resulta sempre da interação de múltiplos fatores. O contexto socioeconómico, os recursos das escolas, os professores, as práticas pedagógicas, os currículos, os sistemas de avaliação e os fatores externos à escola podem contribuir para o desempenho dos alunos. No caso português, alguns destes fatores apresentam uma evolução que merece ser considerada.
A escolaridade da população adulta aumentou substancialmente nas últimas décadas, tal como os níveis de rendimento e de qualificação das famílias. No PISA 2025, o estatuto socioeconómico explica 13% da variância dos resultados em ciências em Portugal, praticamente o mesmo valor observado na média da OCDE, 12%.
A diferença entre os alunos pertencentes aos quartis socioeconómicos superior e inferior é de 92 pontos em ciências, contra 85 na média da OCDE. Este fosso, que equivale a cerca de quatro anos de escolaridade, manteve-se essencialmente estável em Portugal desde 2015, ao passo que diminuiu na média da OCDE. Por outro lado, 11% dos alunos portugueses socioeconomicamente desfavorecidos encontram-se entre os 25% com melhor desempenho em ciências, muito próximo dos 12% observados na OCDE.
Os dados mostram, portanto, que a origem socioeconómica continua associada ao desempenho, mas também que «a pobreza não é destino»: uma parte dos alunos consegue contrariar essa desvantagem.
Evolução do desempenho e políticas educativas
A última década foi também marcada por uma mudança significativa das políticas educativas portuguesas. Entre 2000 e 2015, Portugal registou uma melhoria consistente não só no PISA, mas também noutros estudos internacionais, como o TIMSS, dirigido a alunos de 4.º ano, num período caracterizado por currículos mais estruturados, definição de metas e objetivos de aprendizagem e expansão da avaliação externa.
A partir de 2016, o sistema educativo iniciou uma mudança de paradigma, com maior autonomia e flexibilidade curricular, Aprendizagens Essenciais e menor centralidade da avaliação externa com consequências, de acordo com recomendações reiteradas da OCDE desde 2010. Neste período de 10 anos, Portugal, como mostram o TIMSS 2023 e agora o PISA 2025, retrocedeu 20 anos nos conhecimentos e competências dos seus alunos.
A coincidência temporal entre estas alterações e a inversão da tendência dos resultados não demonstra causalidade. Mas constitui uma hipótese que merece ser investigada.
A literatura internacional, nomeadamente os estudos de Eric Hanushek, Ludger Woessmann e colaboradores, sugere que os mecanismos de avaliação externa e de responsabilização podem estar associados ao desempenho dos sistemas educativos. Isso não significa que mais exames produzam automaticamente melhores resultados, nem que exista uma relação simples entre avaliação externa e aprendizagem. Significa que a arquitetura institucional do currículo e da avaliação pode constituir um dos fatores que influenciam os incentivos dos diferentes atores do sistema educativo. Os sistemas com currículos baseados em conhecimento, bem estruturados e com metas e objetivos claros, e com prestação de contas com consequências apresentam geralmente melhores desempenhos. Ao invés, países com currículos mais dispersos, menos expositivos, sem metas e objetivos claros e sem prestação de contas com consequências apresentam geralmente piores desempenhos. Portugal passou por estes dois paradigmas: o primeiro entre 2000 e 2015, no qual os resultados melhoraram do fundo da tabela para a média da OCDE; o segundo entre 2016 e 2025, em que os resultados pioraram para níveis do início do século XXI.
Os resultados do PISA 2025 tornam particularmente importante avaliar empiricamente esta questão.
E a pandemia?
A pandemia constitui uma explicação plausível para parte da quebra observada em 2022. Mas já não pode explicar a nova redução entre 2022 e 2025, período em que Portugal perdeu 12 pontos em matemática e 15 em leitura, enquanto ciências permaneceu praticamente estável. A evolução posterior à pandemia sugere, portanto, que os fatores responsáveis pela tendência negativa não podem ser exclusivamente associados ao encerramento das escolas.
Esta conclusão é consistente com a análise da OCDE, segundo a qual as tendências negativas observadas em Portugal em matemática e leitura prolongam perdas anteriores.
A culpa é dos smartphones e da Inteligência Artificial?
O PISA 2025 permite também analisar uma transformação que adquiriu importância crescente no quotidiano escolar: a utilização de dispositivos digitais e de Inteligência Artificial (IA). Em Portugal, 48% dos alunos afirmam utilizar chatbots de IA para ajudar a aprender pelo menos uma vez por semana, proporção semelhante à média da OCDE, de 46%. A utilização da tecnologia não apresenta, contudo, uma relação simples com o desempenho. Nas aulas de ciências, apenas 31% dos alunos portugueses dizem não ser distraídos por dispositivos digitais (contra 39% na OCDE); os restantes 69% referem distração na maioria ou em todas as aulas — fator que a OCDE associa negativamente ao rendimento escolar.
Ao mesmo tempo, o PISA mostra que a utilização da IA não pode ser interpretada simplesmente em termos de «mais é melhor» (figura 5). A nível macro, a associação entre a utilização de IA para trabalhos escolares e o desempenho em ciências é fraca (R2 = 0,16), explicando apenas 16% da variação entre países. Países como a Estónia e o Japão obtêm pontuações elevadas (cerca de 540 pontos no Japão) com índices baixos de utilização de IA, ao passo que Singapura atinge resultados igualmente de topo (≈ 560 pontos) apresentando um nível de utilização substancialmente mais elevado.
Figura 5 — Uso de IA e desempenho a ciências
A associação entre utilização de IA e desempenho depende, sobretudo, da forma e do propósito dessa utilização ao nível do aluno. Entre os alunos da OCDE que utilizam IA diariamente, aqueles que nunca ou quase nunca avaliam a qualidade da informação gerada obtêm, em média, apenas 488 pontos em ciências; já os que avaliam frequentemente essa informação alcançam cerca de 502 pontos. Esta diferença de aproximadamente 14 pontos equivale a quase meio ano de aprendizagem.
Em Portugal, apenas 57% dos alunos dizem aprender na escola a avaliar a informação produzida por IA, abaixo dos 63% observados na média da OCDE. A questão central não é, portanto, saber se os alunos utilizam tecnologia ou Inteligência Artificial, mas sim para que a utilizam e que competências possuem para avaliar criticamente aquilo que a tecnologia produz.
E agora?
Os resultados do PISA 2025 deixam Portugal perante uma situação diferente daquela que conhecíamos em 2015. Durante os primeiros 15 anos de participação no PISA, o nosso país melhorou de forma consistente, partindo do fundo da tabela até atingir a média da OCDE. Tornou-se mesmo um caso de estudo: era o único país da OCDE com crescimento contínuo nos três domínios avaliados, num momento em que a generalidade dos restantes estava em claro retrocesso desde 2003-2006. Na década seguinte, a tendência inverteu-se.
Em 2025, os resultados portugueses estão próximos da média da OCDE, mas isso acontece depois de perdas acumuladas de 32 pontos em matemática, 36 em leitura e 19 em ciências desde 2015. Em matemática e leitura, os resultados regressaram a níveis próximos dos observados há cerca de 20 anos. Em leitura, os resultados de 2025 são os piores de sempre!
A pandemia explica provavelmente parte da quebra observada em 2022, mas não explica a continuação da tendência entre 2022 e 2025. Ao mesmo tempo, o contexto socioeconómico das famílias portuguesas melhorou, a escolarização da população adulta aumentou e vários recursos do sistema educativo também aumentaram.
O PISA 2025 não permite atribuir causalmente a evolução negativa a uma política educativa específica. Permite, contudo, identificar uma coincidência temporal que merece ser estudada: a deterioração persistente dos resultados ocorreu durante uma década de profunda transformação curricular e avaliativa. É por isso que o principal desafio que o PISA 2025 cria não é encontrar uma explicação única para a queda. É avaliar quais dos fatores que mudaram na última década podem ter contribuído para ela e quais podem não contribuir.
Essa avaliação deverá incluir o currículo, as práticas pedagógicas, a avaliação externa, a formação e condições de trabalho dos professores, os recursos das escolas e o impacto da utilização de tecnologias digitais e de Inteligência Artificial.
O PISA 2025 não fornece sozinho essas respostas. Fornece, porém, uma razão suficientemente forte para fazer as perguntas e, sobretudo, para encontrar as respostas.
João Marôco