terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Afinal, o autismo pode afetar meninos e meninas de forma igual



Historicamente, o autismo tem sido visto como uma condição que afeta homens e meninos com mais frequência do que mulheres e meninas. Mas um novo estudo em grande escala, baseado em dados de milhões de pessoas, sugere que esse não é realmente o caso, pelo menos na Suécia.

Embora os rapazes sejam diagnosticados com a condição em taxas mais elevadas durante a infância, na idade adulta, a proporção é de aproximadamente 1:1, o que sugere que não se trata de um caso de menos mulheres terem autismo: apenas não são diagnosticadas até mais tarde na vida.

As taxas de diagnóstico de perturbações do espetro do autismo (PEA) têm vindo a aumentar desde a década de 1990, mas os diagnósticos não são iguais entre homens e mulheres.

O DSM-5, que define condições de saúde mental e tratamentos recomendados, afirma que, para cada quatro homens diagnosticados com autismo, apenas uma mulher recebe o diagnóstico.

Mas o estudo recente, publicado na revista The BMJ, liderado pela epidemiologista Caroline Fyfe, do Instituto Karolinska, na Suécia, mostra um quadro muito diferente, somando-se a um crescente conjunto de pesquisas que sugerem que mulheres e meninas autistas estão a ser prejudicadas pelos atuais sistemas de diagnóstico e tratamento.

O autismo é um distúrbio do desenvolvimento neurológico caracterizado por dificuldades nas interações sociais e na comunicação, interesses intensos e específicos em determinados tópicos ou atividades, comportamentos repetitivos e uma forte preferência pela rotina.

O tratamento do autismo envolve o controlo dos sintomas. É um distúrbio do espectro, o que significa que algumas pessoas precisam de apoio extra — por exemplo, se não conseguem falar, ganhar dinheiro ou viver de forma independente —, enquanto outras podem viver de forma independente e talvez consigam controlar os seus sintomas com terapia, adaptações no local de trabalho e tratando sintomas específicos e outros problemas de saúde que muitas vezes ocorrem em conjunto.

O diagnóstico na infância geralmente baseia-se nas opiniões dos cuidadores e profissionais de saúde sobre se os comportamentos da criança se enquadram na descrição do DSM-5.

“Pesquisas mais recentes, bem como experiências comuns relatadas por mulheres autistas, sugerem que a proporção real é menos distorcida e que as práticas atuais não estão a reconhecer o autismo em muitas mulheres até mais tarde na vida, se é que o reconhecem”, explica a paciente e defensora do autismo Anne Cary.

Estas evidências parecem apoiar o argumento de que preconceitos sistémicos no diagnóstico, em vez de uma verdadeira lacuna na incidência, estão na base do comum.

A equipa de Fyfe analisou os registos médicos de mais de 2,7 milhões de suecos nascidos entre 1985 e 2020 para acompanhar como a prevalência e as proporções do diagnóstico clínico de TEA mudaram desde o nascimento até aos 37 anos de idade.

Embora os homens fossem normalmente diagnosticados com autismo em taxas muito mais elevadas do que as mulheres durante a infância, essa proporção entre os sexos estabilizou-se em quase igual por volta dos 20 anos de idade.

Esta descoberta sugere que o autismo não é, na verdade, uma condição predominantemente masculina: apenas leva mais tempo para que meninas e mulheres sejam diagnosticadas. A razão para isso ainda não está clara.

“Essa proporção entre homens e mulheres pode, portanto, ser substancialmente menor do que se pensava anteriormente, a ponto de, na Suécia, talvez não ser mais distinguível na idade adulta”, relatam Fyfe e a sua equipa.

“Essas observações destacam a necessidade de investigar por que é que os grupos femininos recebem diagnósticos mais tarde do que os indivíduos do sexo masculino.»

Como Cary aponta, é possível que os dados possam ser explicados por um atraso no aparecimento de traços autistas nas mulheres. “Se for esse o caso, pode não ser razoável supor que o autismo esteja a ser ignorado nas meninas”, diz.

Mas ela também cita algumas boas razões pelas quais a omissão no diagnóstico é uma possibilidade séria.

“Em primeiro lugar, é provável que existam diferenças entre os sexos na apresentação dos traços autistas, especialmente na infância. Em segundo lugar, os informantes (por exemplo, pais, professores) e os diagnosticadores podem esperar que as mulheres sejam menos propensas a ser autistas e desenvolver um preconceito contra o reconhecimento de traços autistas nas meninas», explica ela.

Porém, de acordo com o Science Alert, os muitos anos de dados do estudo, provenientes de uma amostra tão grande, tornam as conclusões bastante robustas, mas algumas limitações precisam ser levadas em consideração.

Por um lado, os dados são de uma grupo inteiramente nascido na Suécia, portanto, podem não representar o que está a acontecer no resto do mundo. Não foram considerados os efeitos de condições que normalmente ocorrem juntamente com o transtorno do espectro autista, como TDAH, deficiência intelectual, depressão e ansiedade. Também não aprofundou outros fatores demográficos, como raça ou estatuto socioeconómico.

Houve também uma falta de dados anteriores a 2001, o que significou que a idade do diagnóstico de TEA foi geralmente mais tardia para os grupos mais antigos do estudo, o que pode significar que a diferença na idade do diagnóstico entre homens e mulheres pode, na verdade, estar subestimada.

“Pesquisas futuras devem se concentrar nas diferenças fenotípicas na manifestação do TEA por sexo e nas implicações para as práticas de triagem e diagnóstico», concluem Fyfe e a sua equipa.

Fonte: ZAP por indicação de Livresco

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A saga de Rúben não acabou: tem autismo, o Estado paga-lhe a escola, mas transporte para lá não

Primeiro não podia ir à escola, depois foi autorizado a ir, mas perdeu o direito ao transporte. Na maior parte dos dias, resta aos pais pagar a um TVDE. Caso ilustra desigualdades do ensino especial.Havia muito que o ano lectivo tinha começado, mas Rúben Silvestre, 16 anos, continuava em casa. Tinha uma vaga num estabelecimento de ensino especial à sua espera, um parecer a atestar que aquela era a resposta mais adequada para ele, mas a autorização do Ministério da Educação tardava. Acabou por chegar, com boas notícias: o Estado continuaria a financiar a escolarização de Rúben, já não numa escola regular, mas numa instituição particular de solidariedade social (IPSS) especializada. Em Novembro começou finalmente a ir à escola. Dias depois, contudo, iniciava-se uma saga que dura até hoje: a família do rapaz percebeu que ao ir para uma IPSS perdia o direito a ter transporte escolar. Não é assim em todos os municípios, calha ser assim naquele onde vive.

Rúben tem uma perturbação do espectro do autismo. Apresenta dificuldades de comunicação funcional e limitações na compreensão e aplicação de aprendizagens. Tem frequentado as aulas, mas são os pais que estão a pagar quase todos os dias a um “motorista de confiança” que o leva de Vialonga, concelho de Vila Franca de Xira, onde vive, até Lisboa, onde fica o estabelecimento de educação especial da Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo – APPDA, no qual foi colocado.

São cerca de 30 km de distância para lá, e outros tantos para regressar a casa, o que nas contas da mãe, Helena Ferreira, pode chegar aos 400 euros por mês. Diz que não sabe até quando conseguirá pagar essa despesa. Tanto ela como o marido trabalham, boa parte dos dias em teletrabalho, e não conseguem ser eles a transportar o filho regularmente. Bruno Silvestre, o pai, é técnico analista, a mãe de Rúben trabalha numa linha de apoio ao cliente com horários muito rígidos.

Nos últimos meses, Helena foi sendo confrontada com respostas contraditórias que mostram que, na verdade, não há uma única regra sobre a quem compete transportar crianças com necessidades especiais que estão a fazer a escolaridade obrigatória numa IPSS. Há situações muito díspares.

Crianças de outros concelhos que frequentam a APPDA em Lisboa têm acesso a transporte escolar garantido, diz Inês Neto, directora pedagógica da APPDA, que neste ano tem três alunos, um de Oeiras e dois de Loures, com transporte assegurado pelas respectivas autarquias. “No caso de Lisboa, as famílias articulam directamente com a Carris para aceder ao transporte.”

Já a Câmara Municipal de Vila Franca (CMVX) diz que não assume o transporte no caso de Rúben porque a APPDA não é uma escola pública, é uma IPSS.

Continuação da notícia em Público






domingo, 8 de fevereiro de 2026

Práticas de ensino baseadas na ciência melhoram a leitura, diz o Banco Mundial

Cerca de 70% das crianças de 10 anos que vivem em países de baixo e médio rendimento não conseguem ler e compreender um texto simples, adequado à sua idade. Esta é uma das principais conclusões do relatório «Effective Reading Instruction in Low- and Middle-Income Countries: What the Evidence Shows», desenvolvido no âmbito de uma iniciativa conjunta do Banco Mundial e da UNICEF.

Segundo os autores, uma das principais causas desta crise de literacia é a persistência de métodos de ensino da leitura não sustentados pela evidência científica. A isto, somam-se fatores estruturais como a escassez de livros, a formação insuficiente de professores, o tempo letivo limitado, o ensino em línguas que as crianças não dominam e práticas pedagógicas pouco ajustadas aos níveis reais de aprendizagem. Em muitos destes países, após vários anos de escolaridade, as crianças encontram-se tão abaixo dos níveis de proficiência esperados que é improvável tornarem-se leitoras competentes.

O relatório sublinha, no entanto, a existência de evidência robusta de que os níveis de leitura podem melhorar de forma significativa quando se adotam práticas de ensino eficazes e baseadas na ciência.

Esta investigação, que analisou mais de 151 estudos realizados em países de África, Ásia, América Latina, Caraíbas e Médio Oriente, mostra que a compreensão da leitura assenta em duas capacidades interligadas: a descodificação e a compreensão da linguagem. Ambas são indispensáveis para que as crianças compreendam o que leem, e devem ser desenvolvidas, em simultâneo, desde os primeiros anos.

Leia o relatório, aqui.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Como a exposição à matemática na primeira infância contribui para o sucesso académico

É tão natural para as crianças pequenas pensar matematicamente sobre o seu mundo quanto usar a linguagem.

Elas desenvolvem conhecimentos matemáticos à medida que manipulam objetos e raciocinam e representam quantidades usando palavras numéricas, objetos e, eventualmente, algarismos escritos. Por exemplo, podem aprender a usar palavras numéricas para contar objetos, comparar tamanhos de conjuntos, usar itens do dia a dia, como clipes de papel, para medir objetos, manipular formas para criar novas formas (por exemplo, tangrams) e combinar objetos para resolver problemas simples de adição.

Décadas de investigação demonstraram como o conhecimento matemático das crianças quando entram no jardim de infância prevê o seu sucesso académico a longo prazo em todas as disciplinas.

No entanto, muitas crianças ainda não têm a oportunidade de desenvolver esse conhecimento básico antes de entrarem no jardim de infância. Mas há medidas que os líderes educacionais da Califórnia podem tomar para melhorar o acesso das crianças a oportunidades de aprendizagem matemática de alta qualidade na primeira infância.

As respostas encontram-se em quatro áreas:
  1. Melhor preparação no ensino da matemática para educadores da primeira infância
  2. Mais tempo dedicado ao ensino da matemática em programas para a primeira infância, incluindo pré-escola, pré-jardim de infância (PK) e jardim de infância de transição (TK)
  3. Conteúdo matemático mais rigoroso nos currículos da primeira infância
  4. Maiores parcerias com as famílias para apoiar a aprendizagem da matemática pelas crianças
Embora os educadores da primeira infância sejam obrigados a ensinar todas as disciplinas, eles frequentemente relatam não se sentirem preparados ou confiantes para ensinar matemática. A razão é clara: uma pesquisa com faculdades que oferecem formação para professores de pré-escola revelou que apenas 21% delas ofereciam cursos sobre o ensino de matemática.

Essa preparação inadequada aumenta a necessidade de aprendizagem profissional contínua para os educadores da primeira infância. Infelizmente, os educadores da primeira infância têm menos probabilidades do que os professores do ensino básico de receber oportunidades de aprendizagem profissional. Além da aprendizagem profissional baseada no currículo, os educadores da primeira infância precisam de formação específica em desenvolvimento e ensino de matemática, bem como acesso a avaliações formativas. Isso inclui ter oportunidades de participar de experiências práticas de matemática para desenvolver crenças positivas e habilidades para o ensino da matemática. Também inclui oportunidades para aprofundar a sua compreensão de como e quando as crianças desenvolvem habilidades matemáticas e como apoiar a aprendizagem matemática das crianças de maneiras que estejam intimamente alinhadas com os seus níveis de habilidade atuais e os promovam. Eles também precisam de acesso a avaliações formativas fáceis de usar para que possam usar rotineiramente os dados sobre as habilidades matemáticas dos seus jovens alunos para orientar o seu ensino.

Dado o seu sentimento de despreparo, não é surpreendente que os educadores da primeira infância geralmente dediquem muito pouco tempo ao apoio à aprendizagem matemática das crianças pequenas. Pesquisas revelaram que as crianças em idade pré-escolar dedicam apenas dois minutos por dia a atividades matemáticas nos seus programas de educação infantil. Mas quando os educadores da primeira infância têm conhecimentos sobre o desenvolvimento matemático precoce, ensinam matemática com mais frequência.

Surpreendentemente, mesmo os currículos abrangentes usados em programas como o Head Start e os programas estaduais para a primeira infância não preparam adequadamente as crianças para os padrões matemáticos do jardim de infância. Na verdade, a matemática compreende apenas 14% do total de atividades desses currículos. Para enfrentar esse desafio, os programas podem implementar currículos complementares com eficácia comprovada, como o “Pre-K Mathematics”. Currículos rigorosos de matemática na primeira infância desafiam e envolvem as crianças em atividades matemáticas adequadas ao seu desenvolvimento. Essas opções complementares devem fornecer uma base sólida em conceitos matemáticos informais alinhados com cada vertente da California’s Preschool/Transitional Kindergarten Learning Foundation (PTKLF), que descreve os conhecimentos e habilidades essenciais que a maioria das crianças de 3 a 5 anos e meio pode alcançar.


Idealmente, essas atividades são facilitadas pelos professores por meio de aulas regulares em pequenos grupos, nas quais eles podem oferecer apoio com base no progresso dos alunos. Os professores também devem integrar intencionalmente esses conceitos matemáticos nas rotinas diárias (por exemplo, contar os amigos que estão vestindo rosa) e na aprendizagem baseada em brincadeiras (por exemplo, explorar o volume na mesa de areia).

Por fim, as diferenças nas práticas domésticas relacionadas à matemática das famílias estão relacionadas às diferenças no conhecimento matemático inicial das crianças. Muitas vezes, as famílias não sabem como apoiar o desenvolvimento matemático dos seus filhos, mas querem recursos para ajudar. As famílias aumentam as suas práticas relacionadas com a matemática em casa quando recebem informações contínuas, claras e úteis sobre o desenvolvimento matemático precoce, incluindo ideias para apoiar a aprendizagem matemática dos seus filhos durante as rotinas diárias. As famílias podem ajudar os seus filhos a construir vocabulário matemático e a praticar competências matemáticas durante as refeições, rotinas antes de dormir, limpeza, viagens, brincadeiras (tanto dentro como fora de casa) e em inúmeros outros contextos.

Eles podem praticar a contagem e a cardinalidade enquanto partilham as refeições (por exemplo, um cuidador pode dizer que uma criança receberá seis mirtilos no almoço e ajudá-la a contar os mirtilos e confirmar que ela tem seis mirtilos no prato). Também podem praticar a comparação de quantidades usando palavras numéricas durante as refeições (por exemplo, pedir a uma criança que diga quem na mesa tem mais mirtilos e, em seguida, enfatizar que eles têm mais, pois têm 10 mirtilos e a criança tem seis mirtilos). Também podem praticar aritmética simples durante as refeições (por exemplo, podem trabalhar em conjunto para descobrir quantos mirtilos a criança terá se comer dois dos seus seis mirtilos).

É importante ressaltar que há evidências científicas de que o reforço dos esforços das famílias para apoiar a aprendizagem matemática das crianças em suas casas e comunidades, bem como o ensino de matemática pelos educadores da primeira infância, leva a melhorias maiores nas habilidades matemáticas das crianças do que apenas o reforço do ensino de matemática pelos educadores. Assim, os educadores da primeira infância devem ter a intenção de ampliar o ensino de matemática em sala de aula, apoiando as famílias a envolverem as crianças em oportunidades de conversar e praticar matemática em casa e em suas comunidades.

Ao abordar esses fatores inter-relacionados, podemos transformar o ensino da matemática na primeira infância e apoiar todos os alunos na construção de uma base sólida para o seu sucesso académico futuro.

Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com

Fonte: Ed Source por indicação de Livresco

Violência em contexto escolar cresce quase 60% em seis anos

A violência em contexto escolar continua a marcar de forma preocupante a vida de milhares de estudantes e profissionais da educação em Portugal. Entre 2020 e 2025, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) apoiou 1.249 vítimas deste tipo de crime, registando um aumento de 58,9% ao longo do período analisado, segundo as Estatísticas APAV divulgadas no âmbito do Dia Internacional da Não Violência e da Paz nas Escolas.

Os dados traçam um retrato claro da vulnerabilidade de crianças e jovens no espaço educativo. A maioria das vítimas era do sexo feminino (64,7%) e a faixa etária mais representativa situava-se entre os 11 e os 14 anos, etapa frequentemente associada a maior exposição a fenómenos de intimidação, exclusão social e agressão entre pares.

A grande maioria das vítimas apoiadas tinha nacionalidade portuguesa (81,2%), embora se registe também um número significativo de estudantes estrangeiros. Em termos geográficos, Lisboa lidera o número de casos reportados, com 289 situações acompanhadas pela APAV, seguida do Porto (170) e de Faro (130), evidenciando uma dispersão nacional do fenómeno.

A violência escolar, conforme definida pela UNESCO, abrange todas as formas de agressão que ocorrem dentro e nas imediações dos estabelecimentos de ensino, incluindo no percurso de e para a escola e em ambientes digitais ligados à vida escolar. Entre os comportamentos identificados contam-se agressões físicas, ameaças, humilhações, assédio, perseguição, exclusão social e violência sexual, bem como práticas de violência online.

No que respeita às pessoas agressoras, foram identificados 1.349 autores de violência, número superior ao de vítimas por se verificar, em vários casos, a actuação de mais do que um agressor sobre a mesma pessoa. A maioria era do sexo masculino (55,6%). A relação entre vítima e agressor revela uma forte incidência de violência entre pares, com 39,4% dos casos a envolver colegas de escola ou de trabalho, confirmando a centralidade do bullying e de outras dinâmicas abusivas no quotidiano escolar.

Apesar da gravidade das situações, apenas cerca de metade das vítimas (50,1%) apresentou queixa ou denúncia junto das autoridades judiciais ou policiais. Em 40,4% dos casos, não houve formalização do processo, um dado que continua a levantar preocupações quanto ao medo de represálias, à normalização da violência ou à falta de confiança nos mecanismos de proteção.

Perante este cenário, a APAV sublinha a importância da prevenção, da sensibilização e do reforço das respostas institucionais. A associação disponibiliza apoio jurídico, psicológico e social gratuito e confidencial, através da Linha de Apoio à Vítima 116 006, em funcionamento nos dias úteis, das 8h00 às 23h00, bem como através da sua rede nacional de serviços de proximidade.

Os números agora divulgados confirmam que a violência em contexto escolar permanece um desafio estrutural para o sistema educativo português, exigindo uma resposta articulada entre escolas, famílias, autoridades e organizações da sociedade civil, de modo a garantir ambientes de aprendizagem seguros, inclusivos e livres de medo.

Fonte: Campeão das Províncias por indicação de Livresco

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

“InclusiveFuture: a whole school approach”: Novo MOOC do Técnico para professores e educadores com inscrições abertas

Como parte do projeto InclusiveFuture e alinhado com as prioridades do Erasmus+, o Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, apresenta o “InclusiveFuture: a whole school approach”, um novo MOOC (Massive Open Online Courses), especificamente concebido para professores(as) e educadores(as) da Europa.

Este curso online gratuito assume-se como uma ferramenta fundamental para transformar a prática educativa no sentido de uma maior inclusão e sustentabilidade. É o 30.º MOOC produzido pelo Técnico, alguns dos quais com várias reedições.

Durante este curso, cada participante terá oportunidade para:
  • Promover a educação inclusiva, aprendendo a conceber práticas que abracem a diversidade e garantam oportunidades de aprendizagem iguais para cada estudante;
  • Integrar a sustentabilidade, desenvolvendo competências que liguem o bem-estar ambiental, social e económico ao ensino diário e à cultura escolar.
Através da reflexão, do intercâmbio e da aplicação prática, cada participante poderá reforçar a sua capacidade de criar experiências de aprendizagem significativas que contribuam para um futuro mais inclusivo e sustentável.

Todos os conteúdos do MOOC estão em inglês, português, espanhol e romeno, havendo mais duas versões MOOC, uma com os conteúdos em inglês, búlgaro, grego e turco, e uma outra com os conteúdos em inglês, finlandês e húngaro.


Fonte: Instituto Superior Técnico por indicação de Livresco

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Pessoas com deficiência: reforço de direitos com nova estratégia e bilhete gratuito para acompanhante

O Conselho de Ministros aprovou no dia 29 de janeiro a criação do bilhete gratuito para acompanhante de pessoa com deficiência e uma Resolução que aprova a nova Estratégia para os Direitos das Pessoas com Deficiência para o período 2026-2030, medidas que afirmam o compromisso com o reforço da inclusão, da autonomia e da participação plena na vida cultural e social.

O Governo aprovou a versão final do decreto-lei que cria o bilhete gratuito para acompanhante de pessoa com deficiência em recintos de espetáculos e equipamentos culturais públicos ou geridos por entidades públicas, promovendo a acessibilidade cultural.

A Estratégia para os Direitos das Pessoas com Deficiência para o período 2026-2030 tem como missão acelerar a mudança e a eliminação das barreiras que persistem no quotidiano das pessoas com deficiência, garantindo o exercício efetivo de direitos em todo o território nacional, incluindo viver de forma autónoma e participar ativamente na vida social, económica, política e cultural, com igualdade de oportunidades e respeito pela diversidade.

Fonte: Conselho de Ministros por indicação de Livresco

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Está Portugal preparado para mentes que vão além do esperado?

Milhares de crianças sobredotadas passam despercebidas nas escolas portuguesas, muitas vezes rotuladas como “bons alunos” ou confundidas com casos de desmotivação e indisciplina. Fomos ao Colégio Paulo VI, em Gondomar, conhecer famílias e jovens acompanhados pela Associação Nacional de Estudo e Intervenção na Sobredotação.

No Colégio Paulo VI, em Gondomar, as aulas são diferentes aos sábados de manhã. Jovens de perfis distintos, distribuídos por salas consoante a idade, reúnem-se para atividades que fogem ao currículo escolar tradicional. Têm uma característica em comum: a sobredotação.

Os jovens da ANEIS, Associação Nacional de Estudo e Intervenção na Sobredotação, regressam ao ambiente escolar ao fim de semana para terem aulas diferentes, marcadas pelo estímulo intelectual e por uma forte interação entre alunos e professores.

Na sala 59, o professor André Matias conduz uma reflexão em torno do medo, a partir de poemas de Luís de Camões. Nesta manhã de sábado, a sala de aula transforma-se num espaço de partilha, onde as ideias circulam livremente e dão lugar a debates ricos e construtivos.

Sobredotação em Portugal: uma realidade invisível

Psicólogos e associações dedicadas aos sobredotados, como a APCS, Associação Portuguesa das Crianças Sobredotadas, estimam que entre 3% a 5% das crianças e jovens portugueses sejam sobredotados, o que corresponde a dezenas de milhares de alunos em idade escolar.

Um sobredotado é alguém que revela um elevado potencial numa ou em várias áreas, como a intelectual, artística, criativa, social ou motora. Para que esse potencial se desenvolva plenamente, é fundamental a existência de apoio adequado, tanto ao nível escolar como emocional.

A sobredotação está associada a um Quociente de Inteligência (QI) pelo menos dois desvios-padrão acima da média. No entanto, a maioria dos casos nunca chega a ser formalmente identificada. A falta de mecanismos sistemáticos nas escolas e de formação específica faz com que muitos destes jovens cresçam sem acompanhamento adequado, frequentemente rotulados apenas como “bons alunos” ou, noutros casos, como jovens desmotivados e desinteressados.

Desde que se lembra, Manuel, de 18 anos, percebeu que era diferente das outras crianças. Aprendia mais depressa, era mais atento e perspicaz e entediava-se facilmente com os métodos de ensino e os interesses comuns da escola primária. Na sala de aula, era “o inteligente da turma”, aquele a quem os colegas pediam ajuda e que os professores reconheciam como estando sempre um passo à frente.

Aos oito anos, essa diferença ganhou um nome. Manuel foi identificado como uma criança sobredotada por um dos membros fundadores da ANEIS.

Fundada em 1998, a iniciativa nasceu como resposta às famílias e aos jovens sobredotados que se sentiam isolados, incompreendidos e sem apoio adequado do sistema educativo português. Para Manuel, foi também o local onde, pela primeira vez, encontrou outros jovens “como ele”.

A psicóloga clínica Stephanie Silva, da ANEIS, recorda o caso de Manuel: “Quando ele entrou aqui era bastante antissocial, não falava com ninguém, não conseguia ter uma conversa normal”, diz ao JPN. Apesar das elevadas capacidades cognitivas, passava grande parte do tempo isolado, tanto na escola como nos momentos de lazer. “Era daquelas crianças que estavam sempre sozinhas, sentadas nas escadas, sempre com livros”, recorda a psicóloga.

Desde muito cedo, revelava interesses altamente especializados, sobretudo na área da história, e um planeamento do futuro pouco comum para a idade. “Ele trazia um caderno já com tudo planeado: as universidades onde queria estudar, o preço das propinas, das rendas, estava tudo escrito”, conta. A integração na ANEIS marcou um ponto de viragem. “Aqui eles fazem-no sair da zona de conforto”, sublinha, destacando a importância do contacto com pares semelhantes para o desenvolvimento social e emocional do jovem.

ANEIS, “o balão de oxigénio”

A associação acompanha crianças e jovens, em várias dimensões do desenvolvimento – desde o nível intelectual e académico à dimensão social, emocional, artística, motora e mecânica. O objetivo é oferecer respostas ajustadas às necessidades específicas destes jovens, promovendo a sua inclusão escolar e social e valorizando as suas capacidades, sempre com base no conhecimento científico e nas melhores práticas educativas.

“Nós desenvolvemos um conjunto de respostas educativas para estas crianças e jovens. No fundo, estes programas são importantes, porque a escola ainda não consegue responder às necessidades, às características individuais e singulares destas crianças e jovens e, portanto, os programas de enriquecimento revelam-se de importância maior”, explica Alberto Rocha, um dos fundadores e atual presidente da ANEIS.

A ANEIS é a única Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) de utilidade pública em Portugal especializada em sobredotação. Atualmente, apoia cerca de 600 jovens em todo o país, com idades compreendidas entre os três e os 19 anos. Destes, aproximadamente, cem são acompanhados na área do Porto.

A grande diversidade etária obriga a uma abordagem adaptada a cada fase do desenvolvimento, de forma a respeitar o ritmo e interesses de cada uma. O grupo dos “precoces” engloba as crianças mais novas, com idades entre os três e os seis anos; o grupo dos “iniciados”, crianças entre os sete e os dez anos; os “intermédios”, dos onze aos dezasseis e os “avançados”, onde estão inseridos os mais velhos.

Alberto Rocha sublinha que os jovens acompanhados podem apresentar dupla excecionalidade, combinando sobredotação com dislexia ou perturbações do espectro do autismo, por exemplo: “Eles também podem ter uma dupla excepcionalidade, que é ter uma disortografia ou autismo e ter sobredotação. Muitos autistas de alto funcionamento são muito capazes, muito inteligentes. Alguns deles estão aqui no programa.”

O diretor ressalta que, além das necessidades cognitivas, muitos destes jovens enfrentam desafios sociais e emocionais: preferem conversar com adultos ou pares mais velhos, interessam-se por temas complexos e sentem-se isolados em contextos em que não são compreendidos.

“Para muitos deles, o balão de oxigénio é o sábado de manhã aqui”, afirma.

Dificuldades no diagnóstico

Antes de chegarem à associação, muitas crianças enfrentam outro obstáculo: os diagnósticos incorretos. Segundo Alberto, algumas chegam à associação medicadas no seguimento de diagnósticos de hiperatividade e défice de atenção. “Isto quer dizer que existem falsos diagnósticos e que estamos a prejudicar as crianças ao medicá-las”, alerta.

Alberto Rocha, que também é psicólogo, revela que, em muitos casos, a mudança de contexto é decisiva. Quando passam a integrar projetos desafiantes, que exigem pensamento crítico, criatividade e envolvimento ativo, os comportamentos que motivaram a medicação prévia, desaparecem ou diminuem significativamente.

Outro ponto destacado é o desperdício de talentos quando jovens concretizam o seu potencial académico fora de Portugal, não regressam:

"Dos mais velhos, não está cá nenhum, em Portugal. Estão na Nova Zelândia, no Canadá, na Finlândia… e provavelmente já não regressam. Será que nós não precisamos deste potencial para nos ajudar a sair da cauda da Europa? Estamos a desperdiçar talento enquanto outros países aproveitam os nossos jovens”, reflete o presidente da ANEIS.

O desconhecimento em torno da sobredotação continua a ser um dos maiores entraves ao seu reconhecimento: “Continua a haver um certo desconhecimento sobre o que é sobredotação e, se calhar, até um estigma. Nós só conseguimos mudar isso na base da formação, porque se nós não esclarecermos, se as pessoas não estiverem informadas, é muito difícil elas mudarem esses estereótipos ou esses mitos”, clarifica o psicólogo.

Entre os estigmas, está a ideia de que um jovem sobredotado é sempre o melhor da turma, mas não é assim: “Não têm de ser os melhores da turma. Nós temos alunos em situação de underachievemnt (baixo rendimento) e que têm um alto potencial, mas a escola não tem currículos que os satisfaçam e eles nivelam-se e vêm por aí abaixo”.

Para o psicólogo, a solução passa por uma reflexão profunda sobre o modelo educativo português. Apesar das transformações sociais e tecnológicas das últimas décadas, o ensino mantém-se praticamente inalterado. O presidente da associação fala da escola como “transmissiva”, centrada na memorização de conteúdos e pouco orientada para o desenvolvimento de competências. Para alunos sobredotados, este modelo é particularmente limitador.

No plano legislativo, Alberto Rocha defende que Portugal dispõe já de um enquadramento suficientemente abrangente para responder a estas necessidades. O problema reside na forma como as leias são aplicadas. O decreto-lei para a inclusão permite uma grande margem de atuação, mas a falta de orientações concretas faz com que poucas escolas avancem. Esta desigualdade traduz-se em oportunidades distintas para alunos com perfis semelhantes.

Para Alberto Rocha, o início da solução passa pela formação de professores, tanto ao nível do ensino superior como ao longo da carreira. Sem esse investimento, torna-se difícil identificar, compreender e apoiar estes alunos dentro da sala de aula. A ANEIS tem procurado colmatar esta lacuna através de ações de sensibilização, formação em escolas e criação de ferramentas de apoio pedagógico.

A ANEIS assume também um papel ativo na investigação científica, desenvolvendo estudos nas áreas da sobredotação, da criatividade, da motivação e da excelência humana. O objetivo é compreender melhor estes perfis e melhorar continuamente as práticas educativas.
A técnica da “camuflagem”

Margarida tem oito anos e já sabia o abecedário completo quando tinha apenas dois. Durante a entrevista com o JPN, mostrou resistência em responder às perguntas. Consciente de que estava a ser gravada, limitou-se a acenar com a cabeça, ao invés de verbalizar as respostas. Quando a psicóloga reformulava as questões, Margarida respondia com frases curtas: “sim”, “não” ou “não sei”.

À pergunta sobre o que gostaria de fazer no futuro, Margarida respondeu “cabeleireira”. Quando questionada sobre a razão, disse “para pentear cabelos”, acompanhando a frase com um sorriso que encerrava qualquer tentativa de aprofundamento. A entrevista avançou sem grandes desenvolvimentos, marcada por silêncios e respostas calculadas.

A postura de Margarida revelou mais do que as suas respostas verbais – manteve sempre o controlo da interação e limitou a partilha. Só mais tarde, com o enquadramento da psicóloga, esta atitude ganharia sentido.

“Ela adaptou-se muito ao vosso discurso e à vossa posição”, explica a psicóloga Stephanie Silva, que acrescenta ainda que este comportamento é comum nos sobredotados: “Acontece muito em contexto de aula, é uma forma de eles se camuflarem”.

Quando finalmente surge um diagnóstico

Stephanie Silva é responsável pelo despiste e avaliação de crianças sobredotadas na associação, realizando também acompanhamento clínico, quando solicitado pelas famílias. Segundo explica, o processo de despiste decorre em cinco sessões e procura avaliar capacidades cognitivas, bem como compreender o percurso da criança, os sinais que apresenta e a forma como se posiciona perante o mundo.

A primeira sessão envolve os pais e destina-se a recolher informação sobre o desenvolvimento da criança e esclarecer dúvidas. As seguintes são realizadas apenas com a criança e incluem provas de avaliação cognitiva, num processo bastante “longo e complexo”: “Eu peço sempre que seja [realizado] entre as 09h00, até às quatro, cinco da tarde – quando a criança ainda está desperta, porque se for feito à noite, eles começam a esfregar os olhos e estão cansados”, explica a psicóloga. Numa fase posterior, são ainda avaliadas a criatividade e a motivação.

O processo termina com a entrega e explicação do relatório final aos pais. A reação das famílias ao diagnóstico é, na maioria dos casos, de aceitação e alívio. Muitos pais chegam exaustos à procura de soluções para responder às exigências intelectuais dos filhos.

"Temos crianças de quatro, cinco anos, que pedem aos pais para explicarem a teoria da relatividade. Que pais é que sabem isso?”, conta a psicóloga.

Quando se confirma a sobredotação, recomenda que o relatório seja entregue à escola e, sempre que necessário, que sejam ativadas medidas de inclusão para adaptar o contexto escolar à criança.

Apesar da existência de um processo formal de despiste, a experiência de Stephanie permite-lhe identificar sinais de sobredotação no primeiro contacto. A postura corporal, a forma de falar, o olhar e o tipo de discurso são características típicas de crianças sobredotadas, facilmente reconhecíveis por profissionais experientes. Entre os traços mais comuns destacam-se um forte sentido de justiça, um espírito crítico apurado e interesses muito específicos. Nos mais novos, surgem frequentemente temas como astronomia, paleontologia ou história; na adolescência, tendem a diversificar-se, passando pelas artes, matemática, engenharia ou línguas.

No entanto, nem todos os profissionais da psicologia estão aptos para fazer esta avaliação, resultando, muitas vezes, em falsos diagnósticos. Foi o que aconteceu com Guilherme e Sebastião, filhos de Cátia Rodrigues. Guilherme, atualmente com 13 anos, foi diagnosticado aos nove, enquanto Sebastião, de sete anos, foi aos quatro.

“O primeiro contacto que tivemos foi com o pedopsiquiatra. Ao fim de 10 minutos, veio com um pseudo diagnóstico de hiperatividade e défice de atenção, com prescrição de medicação”, conta a mãe que, enquanto profissional de saúde, recusou aceitar um diagnóstico feito sem uma avaliação adequada, baseada em critérios clínicos rigorosos. Insistiu numa análise mais profunda, que revelou a sobredotação de Guilherme.

Cátia admite que a sua ideia de sobredotação foi totalmente desconstruída: “Para mim, para ser um aluno sobredotado, tinha que ser capaz de resolver problemas de física quântica”.

Aquando da confirmação do diagnóstico, a psicóloga responsável alertou que essa informação poderia “ser muito bem ou muito mal recebida” no contexto escolar. Várias instituições demonstraram resistência em adaptar respostas educativas às necessidades de Guilherme:

"Portas fechadas atrás de portas fechadas. Várias vezes disseram que não tinham recursos para assegurar os cuidados a crianças com dificuldades, muito menos a crianças que estavam noutro espectro. Todas as ferramentas que dávamos eram sempre encaradas como obstáculos”, conta a mãe.

Essa falta de preparação refletiu-se na autoestima de Guilherme. “Estava com uma autoestima muito baixa, porque não conseguia fazer as coisas como lhe eram pedidas. Não conseguia apresentar o raciocínio de um problema, nem explicar as coisas como era suposto os outros meninos explicarem”, descreve a mãe.

Para muitas crianças sobredotadas, frustração, perfeccionismo e ansiedade são sentimentos frequentes, explica a psicóloga Stephanie Silva, podendo levar à desmotivação escolar e ao isolamento. Ela ilustra com um exemplo vivido na ANEIS:

"Tenho, por exemplo, um menino que tirou 98% num teste e começou a bater em si próprio. Eles colocam objetivos muito rígidos na cabeça: se o professor diz que é para 100, então tem de ser 100. Estudam para isso. O mais irónico é que, quando lhes fazemos perguntas mesmo muito complicadas, eles sabem responder.

Segundo Stephanie, este perfeccionismo extremo está muitas vezes acompanhado de ansiedade, porque a escola tende a valorizar o resultado em vez do processo de aprendizagem, transformando erros em experiências de falha pessoal, e não em oportunidades de desenvolvimento.

Para estes alunos, compreender regras passa também por entender a sua razão de ser. “Questionar não é afrontar”, sublinha Cátia Rodrigues. Ainda assim, este comportamento é frequentemente interpretado como desafio à autoridade: “Cheguei a ouvir que éramos pais a criar crianças confrontacionais.” Dá como exemplo o filho mais novo que, desde muito cedo, respondia a um “porque não” com a exigência de uma explicação. Para ele, não se tratava de desobediência, mas de uma necessidade genuína de compreender. Esta situação levava a elevados níveis de frustração.

O próprio Guilherme relata as dificuldades em sala de aula. “Comecei a perceber que eu terminava as tarefas muito rápido. É muito chato, porque acabo as tarefas e não tenho nada para fazer. Uma coisa que a minha professora faz é pôr-me ao pé de alguém para ajudar”, conta.

Com a escola sem conteúdos específicos para estimular crianças com sobredotação e o tempo em casa insuficiente, a família recorreu à ANEIS, que se tornou “uma tábua de salvação”. Com atividades inovadoras e acompanhamento permanente, Guilherme recuperou a autoestima e passou a sentir-se integrado: “Sente-se mais incluído e, mesmo em termos de autoestima, está bastante melhor. Tem interesse e motivação em vir para cá”, conclui.

Algum tempo depois, Cátia levou o filho mais novo, Sebastião, a atividades da ANEIS, por conveniência, já que moravam longe e não era viável deixá-lo sozinho em casa. Numa sessão de escrita criativa, ele foi colocado numa sala com outras crianças com sobredotação. Nesse contexto, pela interação com os colegas e pela adaptação ao grupo, surgiram as primeiras indicações de que Sebastião também poderia ser sobredotado, o que foi confirmado em avaliação formal.

A mãe recorda que houve alguma dúvida: “Se tem um irmão sobredotado, é normal que seja inteligente não?” Ainda assim, os sinais eram claros: “Notamos uma capacidade de retenção muito elevada e desenvolvimento linguístico avançado. Desde cedo construía frases completas e compreendia conceitos complexos”, explica Cátia. A experiência com Guilherme ajudou a família a acompanhar Sebastião com mais atenção e a evitar erros anteriores.

Apesar do seu potencial, Sebastião tem interesses típicos da sua idade, contou que gosta de jogar futebol, Roblox, Fortnite e ver televisão, especialmente o desenho Bluey. Nas atividades da ANEIS, diverte-se muito a criar bonecos e construções em plasticina, fruto da sua imaginação: “Fazemos coisas que não existem no mundo”, diz.

Na escola, enfrenta os desafios comuns à maioria das crianças. Sobre aprender mais rápido que os colegas, explicou: “Acho que é melhor, porque quando chegamos a algo que eu já sei, a professora pergunta-me e depois aprendemos juntos.” Para ele, a facilidade na aprendizagem não é só vantagem pessoal, mas sobretudo uma oportunidade de ajudar os amigos.

A forma positiva como Sebastião descreve o ambiente em sala de aula, deve-se, em grande parte, à abordagem dos professores, sendo por isso importante que estes sejam informados do que o ensino a estudantes sobredotados implica. É precisamente esta perspetiva que o professor André Matias defende e tenta aplicar no seu trabalho educativo.

Um sistema criado para o aluno médio

André Matias leciona na Escola Secundária Eça de Queirós, na Póvoa de Varzim, e é colaborador da ANEIS. O contacto com a sobredotação começou quando foi convidado a dar uma aula sobre mitologia na associação. Ali, descobriu uma área da pedagogia que até então conhecia pelos estereótipos.

“De repente, encontrei um filão que desconhecia completamente”, conta. Após uma pós-graduação em Educação Especial, regressou à ANEIS com a convicção de que podia contribuir para um campo ainda pouco valorizado, sobretudo na área das humanidades.

Na associação, desenvolve um projeto que procura contrariar a ideia de que os alunos sobredotados se destacam apenas nas ciências exatas. Através da literatura, da filosofia e da história, tenta oferecer novas ferramentas cognitivas e sociais a jovens cuja curiosidade raramente cabe nos limites da escola tradicional.

A transposição desse trabalho para o ensino público revela-se difícil. “É complexo”, admite. Na ANEIS, os alunos partilham características semelhantes; na escola pública, o espectro vai das dificuldades de aprendizagem à sobredotação: “Aquilo que conseguimos fazer na associação é muito difícil de replicar numa turma de 28 alunos”, observa. Ainda assim, tenta aplicar algumas metodologias, mesmo que com menor alcance.

Para o professor, o problema começa no modelo educativo, pensado para “trabalhar para um aluno médio que não existe”. A consequência é um sistema que falha tanto com os alunos que precisam de mais apoio como com os que necessitam de mais desafio.

A identificação da sobredotação é outro ponto onde André aponta fragilidades: as escolas concentram-se nos alunos com dificuldades e, mesmo aí, a resposta é insuficiente. “Os sobredotados sofrem de um grande handicap: como sabem muito, parte-se do princípio de que não têm problema nenhum.” Mas saber mais não significa estar melhor integrado. Pelo contrário, muitos enfrentam isolamento, incompreensão e até bullying.

Os interesses não são comuns, os pares não compreendem, e isso cria distância.”, conta o professor.

Antes de chegarem à associação, alguns jovens vivenciavam sentimentos negativos, incluindo pensamentos de automutilação ou suicídio. Stephanie Silva, psicóloga da ANEIS, recorda casos em que isso se manifestava, por exemplo, através da escrita: “Ele escrevia poemas em que descrevia os seus pensamentos – a maneira como já tinha pensado em se suicidar e como isso poderia acontecer.”

É nesse contexto que espaços como a ANEIS ganham importância. “Ali”, diz André, “os jovens encontram pares com experiências semelhantes e deixam de se sentir estranhos”. A associação acaba por desempenhar um papel que, na sua opinião, deveria caber ao próprio Ministério da Educação: dar resposta concreta às necessidades destes alunos e apoiar também as famílias, muitas vezes exaustas perante a falta de respostas institucionais.

Nas salas da ANEIS, o desafio não é dar mais exercícios, mas estimular a curiosidade. No seu projeto “Pela mão da literatura vejo o mundo”, André Matias transforma textos em pontos de partida para reflexões sociais, históricas e culturais, complementadas com visitas de estudo e trabalho de campo. Cada aula exige horas de preparação. “São alunos para quem a resposta nunca chega. Querem sempre saber porquê.”

Para o professor, a formação dos docentes é urgente: “Ainda há muito estigma. Muitos pensam que um aluno sobredotado não tem problemas.” Uma ideia que considera fruto da ignorância: “Os estigmas são sempre isso.” Pode ser controverso, mas o professor defende a criação de escolas especializadas para sobredotados, à semelhança do que acontece com o desporto de alto rendimento, embora reconheça o risco de criar bolhas sociais.

Sobredotação à luz da neurociência

O papel do professor e das escolas revela-se importante para o desenvolvimento cognitivo destes jovens e pode ser determinante para o seu percurso. O mesmo confirma o neurocientista Miguel Castelo Branco. Em declarações à SIC Notícias, o cientista aponta que nascer com determinadas capacidades não é, por si só, garantia de um percurso extraordinário. “Nós podemos nascer com um dom, mas se não o cultivarmos ele vai-se esbatendo”, afirma, chamando a atenção para o papel decisivo do ambiente que rodeia o indivíduo.

Segundo Miguel Castelo Branco, a inteligência não pode ser reduzida a um único fator nem a uma métrica isolada. “A inteligência vem de um cocktail de condições, genéticas mas também do ambiente”, explica, defendendo que testes como o do QI têm limites claros. “O QI não vai prever o desempenho, o grau de sucesso que a pessoa vai ter na sociedade.” Pessoas com elevado potencial intelectual podem nunca concretizá-lo se não tiverem acesso a estímulos adequados, apoio educativo ou condições sociais favoráveis, enquanto outras conseguem desenvolver plenamente as suas capacidades quando encontram o contexto certo.

Apesar dos avanços da neurociência nas últimas décadas, o investigador reconhece que ainda existem muitas perguntas sem resposta. Em particular, não é ainda possível identificar concretamente o que distingue, a nível físico ou cerebral, uma pessoa sobredotada. Não há um padrão anatómico, estrutural ou funcional inequívoco no cérebro que explique porque alguns indivíduos apresentam capacidades excecionais.

A perspetiva apresentada pelo neurocientista é coerente com a abordagem adotada em documentos educativos oficiais, como o Guia para Professores e Educadores – Altas Capacidades e Sobredotação, da Direção-Geral da Educação, que descreve a sobredotação como um fenómeno multifatorial e dependente do contexto e não como uma “marca” visível no cérebro.

Esta incerteza científica confirma que o desenvolvimento do talento depende da interação contínua entre predisposição individual e contexto. O neurocientista defende que compreender o funcionamento do cérebro humano implica aceitar essa complexidade e reconhecer que o potencial intelectual não se esgota nem se define exclusivamente por características físicas observáveis.

Um potencial ainda por reconhecer

A sobredotação continua a ser, em Portugal, uma realidade amplamente invisível. A identificação formal e o acompanhamento especializado permanecem limitados, dependendo frequentemente da iniciativa de famílias, associações ou de profissionais isolados, mais do que de respostas estruturadas do sistema educativo. O enquadramento legal português prevê a possibilidade de respostas diferenciadas para alunos com altas capacidades, mas a aplicação prática é desigual. Muitas escolas não dispõem de currículos ou estratégias adaptadas, e a formação específica de professores sobre sobredotação é insuficiente, o que resulta em diagnósticos tardios ou incorretos, bem como em respostas educativas inadequadas.

Espaços como a ANEIS mostram que, quando os contextos educativos se ajustam às necessidades do aluno, o potencial das crianças e jovens sobredotados pode desenvolver-se de forma equilibrada, abrangendo dimensões intelectuais, sociais e emocionais. Nessas situações, observa-se aumento da motivação, melhor integração social e maior bem-estar emocional, contrastando com experiências em escolas tradicionais, onde interesses específicos podem ser incompreendidos e o rendimento escolar não refletir o verdadeiro potencial do aluno.

Guias oficiais da DGE destacam que a sobredotação é um fenómeno multifatorial e dependente do contexto, envolvendo capacidades cognitivas, criativas e motivacionais, e que nem sempre se traduz em notas elevadas ou desempenho académico superior. A identificação e acompanhamento adequados requerem observação sistemática, avaliação especializada e estratégias pedagógicas adaptadas, de forma a oferecer oportunidades para o desenvolvimento pleno das capacidades dos alunos.

O desafio central permanece na necessidade de formação docente continuada, sensibilização das escolas e disponibilização de recursos específicos, permitindo que o sistema educativo português responda de forma consistente às necessidades destes alunos e evite que o talento se perca por falta de apoio adequado.

Fonte: JPN por indicação de Livresco

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Afinal, como se reconhece a dislexia? Especialista esclarece o tema


Num artigo educativo do pediatra Caldas Afonso, ficamos a compreender melhor a dislexia. Os sinais e a idade são fatores cruciais.

Estima-se que uma em cada dez pessoas no mundo tenha dislexia, uma perturbação da aprendizagem que, com a ajuda de terapia especializada, é ultrapassável.

Quando uma criança é diagnosticada com dislexia, a maior preocupação das famílias é que essa perturbação da aprendizagem não seja superada. No entanto, ao contrário do que os pais possam recear, ter dislexia está longe de ser um obstáculo para a realização pessoal e profissional dos filhos no futuro. A terapia especializada e o apoio dos pais são dois suportes essenciais para a criança com dislexia ultrapassar as dificuldades de aprendizagem e tornar a condição numa barreira transponível, em especial se a intervenção for precoce. Por isso, comece por identificar os sintomas de uma condição que se estima afetar 10% da população mundial.

O que é a dislexia?

É uma condição com origem genética que interfere na maneira como o cérebro processa a linguagem escrita e, muitas vezes, a oralidade. O problema está geralmente associado à leitura e às dificuldades que o cérebro tem de diferenciar fonemas de sílabas, uma vez que região cerebral responsável pela análise e identificação de palavras permanece inativa. Em consequência, a criança disléxica não reconhece palavras que já tenha lido ou estudado.

Para ultrapassar esta dificuldade, um aluno disléxico pode apenas precisar de mais tempo para processar a informação e recorrer a estratégias acertadas para lidar com a diferença no processamento cerebral. Ao contrário do que se possa pensar, a dislexia não é sinal de falta de inteligência ou preguiça porque é independente do quociente de inteligência.

Procurar ajuda especializada

A maioria das crianças está apta a aprender a ler em idade pré-escolar ou a partir do primeiro ano do 1.º ciclo do ensino básico. No entanto, os alunos com dislexia ainda não podem compreender os conceitos básicos de leitura nessa idade. Assim, se o nível de leitura do seu filho está abaixo do que é esperado para a faixa etária a que pertence ou se detetar outros sinais ou sintomas de dislexia, consulte o seu médico.

Identificar a condição em função da idade

No início da vida escolar, o professor facilmente identifica a dislexia quando o aluno tem uma qualidade de leitura inferior ao nível esperado para a idade e revela outros problemas, tais como:

─ Dificuldades de processamento e compreensão do que ouve;

─ Dificuldade em perceber instruções rápidas;

─ Dificuldade em lembrar-se da sequência de coisas;

─ Dificuldade em identificar e, ocasionalmente, ouvir semelhanças e diferenças entre letras e palavras ou entre outros sinais;

─ Sente dificuldade em aprender uma língua estrangeira.

Na adolescência, as manifestações de dislexia são semelhantes e, à falta de terapia, os dilemas emocionais, como a falta de confiança e autoestima da criança disléxica, tendem a agravar-se.

Primeiras manifestações da dislexia

Apesar de estes sinais poderem estar presentes no percurso académico, é possível identificar a condição em crianças bastante pequenas e iniciar uma intervenção terapêutica precoce, caso manifeste as seguintes situações:

─ Aprendeu a falar tardiamente;

─ Tem dificuldade em pronunciar algumas palavras;

─ Tem dificuldade em entender o que ouve;

─ Tem dificuldade em memorizar;

─ Tem dificuldade em identificar as cores e os números;

─ Tem dificuldade em copiar o próprio nome;

─ Tem dificuldade em aprender formas geométricas, em dar laços e desenhar;

─ Tem um ritmo de aprendizagem de novas palavras lento;

─ Tem distúrbios do sono.

Estratégias para superar

Para que a escola não se torne motivo de stresse e frustração para a criança, o mais importante é encontrar e adotar estratégicas eficazes que lhe permitam ultrapassar as dificuldades na leitura e compreensão, evitando que uma palavra ou uma frase escrita se tornem dificuldades intransponíveis. Alguns testes utilizados pelos professores, no início do primeiro ciclo, ajudam a avaliar a capacidade de compreensão do aluno. Os exercícios de leitura de pequenos excertos de texto e perguntas de compreensão são metodologias pedagógicas essenciais para a construção de uma base sólida para o sucesso na escola.

Perante os problemas de compreensão de leitura da criança com dislexia, será necessário recorrer a materiais didáticos adequados, como os audiolivros e desenvolver previamente algumas capacidades de fonética, como ligar as letras aos sons. Depois de poder estabelecer essas conexões, o aluno vai ser capaz de identificar o significado da palavra individualmente sem que pareça nova ou desconhecida e, em seguida, descodificar o sentido de frases completas.

Fonte: Versa por indicação de Livresco

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Avaliação da Educação Inclusiva

O relatório final “Avaliação da Educação Inclusiva”, para o Programa Temático Demografia, Qualificações e Inclusão (PESSOAS 2030), analisa a implementação e o impacto do Regime Jurídico da Educação Inclusiva (Decreto-Lei n.º 54/2018, de 6 de julho, na sua redação atual), como resposta à diversidade das necessidades e potencialidades de crianças e jovens.