quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A inclusão como fantasma e a desistência deliberada

Há um fantasma que percorre os corredores da escola pública portuguesa. É um fantasma mais subtil, mais perverso. Veste-se de linguagem técnica, de siglas novas e brilhantes, de promessas de “operacionalização efetiva”. Chama-se, ironicamente, inclusão. E assombra não os corredores desertos, mas exatamente o contrário. As salas cheias, os professores exaustos, as crianças que esperam um apoio que nunca chega a horas.

A escola pública portuguesa, essa que deveria ser o derradeiro elevador social, transformou-se num laboratório de ilusões burocráticas. Sob a capa de uma pretensa “educação inclusiva”, os vários ministros têm vindo a produzir decretos-lei que, de tão distantes da realidade do terreno, parecem redigidos numa dimensão paralela àquela em que vivem os professores, os alunos e as famílias todos os dias. Nesta última revisão, enquanto os gabinetes ministeriais se congratulam com a densificação de conceitos e com a criação de novas estruturas, o Sistema Nacional de Apoio à Inclusão (SNAI), as Equipas Locais de Apoio à Inclusão (ELAI), o Gestor de Apoio à Inclusão (GAI), o Plano de Desenvolvimento Integral (PDI), as escolas, essas, continuam a clamar por meios para colocar em prática o apoio aos alunos.

Há algo de fantástico na forma como este processo se desenrola. O Governo anuncia, em comunicado solene, que a revisão do Regime Jurídico da Educação Inclusiva pretende “melhores condições para a operacionalização efetiva” do regime, através da clarificação de conceitos e de uma “melhor articulação funcional”. Palavras bonitas, ditas com a solenidade de quem, provavelmente, acredita nelas. Mas por trás da fachada, ergue-se uma arquitetura burocrática labiríntica. Subcomissões de coordenação regional, núcleos de supervisão técnica, centros de competências para a acessibilidade e inclusão, centros de recursos para a inclusão, escolas de suporte ao SNAI, uma hierarquia de instâncias que, tudo o indica, não vai agilizar decisões, mas antes burocratizá-las ainda mais, absorvendo os já escassos recursos humanos que deveriam estar, isso sim, dentro da sala de aula em apoio direto aos alunos.

E há um detalhe que gela o sangue a quem conhece o terreno. O próprio diploma em consulta remete para pelo menos dez diplomas regulamentadores, portarias e manuais que ainda não existem, que nem sequer têm data prevista, e que, mesmo assim, o Ministério pretende ver em vigor já no início do ano letivo 2026/2027, a poucas semanas de distância. É como pedir a alguém que construa uma casa e mude-se para ela antes de as paredes estarem erguidas. As escolas correm o risco real de entrar num limbo entre o regime antigo e o novo, sem saber, ao certo, quem faz o quê, com que recursos e sob que regras.

Concordamos todos, por princípio, que todas as escolas devem acolher todos os alunos. É um imperativo ético e democrático, inegociável. Contudo, o que hoje se pratica não é inclusão. É uma forma de exclusão deliberada, disfarçada de generosidade legislativa. A “inclusão” sem meios, sem docentes de educação especial em número suficiente e sem redução do número de alunos por turma, é uma falácia. Basta ler o articulado com atenção para perceber que o papel do docente de educação especial parece estar a ser progressivamente reduzido a uma função de assessoria e de trabalho indireto, em vez de apoio direto às crianças que mais precisam dele. Fica no ar uma pergunta incómoda, que o texto legal nunca chega a responder. Será esta mais uma via disfarçada para gerar “horários-zero” e desviar estes professores para outras funções, mascarando, uma vez mais, a falta crónica de docentes?

É uma pergunta que devia arrepiar qualquer pai ou mãe de uma criança com necessidades específicas. Porque o efeito prático, se a suspeita se confirmar, não é técnico nem abstrato. É a criança que fica sozinha, no meio de uma turma de vinte e oito alunos, entregue a um professor titular sem formação especializada, sem tempo e sem apoio, para cumprir uma missão que a ciência da educação já provou, repetidamente, ser impossível sem os recursos adequados.

Um dos pontos mais inquietantes, e mais silenciados no discurso oficial, é o que acontece à Intervenção Precoce na Infância. O atual Sistema Nacional de Intervenção Precoce (SNIPI), que acompanha os bebés e crianças mais pequenas em risco de desenvolvimento, será absorvido pelo novo SNAI. Mas absorvido como? Com que equipas? Com que docentes? Não existe, até hoje, um grupo de recrutamento específico para a intervenção precoce, uma lacuna antiga que continua sem solução. Se esta resposta deixar de ser assegurada por docentes das escolas públicas e passar a depender de mobilizações pontuais feitas pelas ELAI junto de entidades privadas ou instituições sociais, estaremos perante o desmantelamento silencioso de um serviço que, hoje, ainda funciona, com poucos recursos, mas funciona. É o tipo de fantasma que não se vê a assombrar até ao dia em que a criança que precisava de ajuda aos dois anos chega à escola, aos seis, sem nunca ter sido devidamente acompanhada.

Quem escreve estes decretos, afinal? Não são, ao que tudo indica, pessoas que tenham sentido na pele o desespero de um professor de turma a tentar ensinar Matemática a vinte e oito alunos, três dos quais com medidas adicionais e sem qualquer apoio especializado disponível na sala. Vivem da métrica, do relatório, do indicador estatístico, a própria proposta prevê a criação de “indicadores destinados a avaliar a eficácia das medidas”, sem nunca esclarecer quem, com que tempo e em que componente do horário, os docentes irão preencher essas avaliações. É a burocracia a devorar-se a si mesma. Cria-se um sistema para medir o fracasso de um sistema que nunca teve meios para não fracassar.

Existem modelos internacionais, práticas bem-sucedidas, onde a inclusão se faz através de turmas efetivamente reduzidas, com co-docência real e equipas multidisciplinares que dispõem, de facto, de tempo letivo para a articulação. O que se propõe em Portugal é quase o inverso. Mantêm-se as turmas cheias, nenhuma norma na proposta garante a redução do número máximo de alunos por turma, uma exigência que devia ser óbvia e que continua ausente, e exige-se que o professor titular, sozinho, com o Desenho Universal para a Aprendizagem debaixo do braço e pouca ou nenhuma formação específica, faça o que equipas inteiras, noutros países, fazem em conjunto.

Há ainda algo de kafkiano nesta reforma. O novo Plano de Desenvolvimento Integral (PDI) promete substituir e unificar três documentos anteriores, o relatório técnico-pedagógico, o programa educativo individual e o plano individual de transição, numa lógica de simplificação. Mas a mesma proposta multiplica, na sua arquitetura, o número de instâncias que sobre ele se pronunciam, a saber: o Gestor de Apoio à Inclusão da escola, o Gestor de Apoio à Inclusão das ELAI, a Equipa Multidisciplinar de Apoio à Educação Inclusiva, os Centros de Recursos para a Inclusão, os Centros de Competências para a Acessibilidade e Inclusão. Simplifica-se o papel, mas complica-se, aparentemente, a cadeia de decisão. E paira ainda uma dúvida essencial. E se os pais discordarem do PDI proposto para o seu filho, o que acontece? Fica o plano por aprovar indefinidamente, deixando a criança sem resposta formal enquanto a discordância se arrasta? O diploma não esclarece.

A este fantasma junta-se agora um parente mais recente, o da inclusão no ensino superior. Publicada a 7 de agosto, a poucas semanas do início do ano letivo, a Lei n.º 41/2026 altera a Lei de Bases do Sistema Educativo para assegurar, também nas instituições de ensino superior, a acessibilidade dos estudantes com necessidades educativas específicas. No papel, o gesto é justo e há muito devido. Garantir o pleno acesso à formação superior, adaptar os percursos curriculares ao tipo e grau de deficiência, prever formas de avaliação ajustadas às dificuldades de cada estudante. Mas a mesma pergunta que assombra as escolas básicas e secundárias regressa agora, multiplicada, aos corredores das faculdades. Quem, numa universidade, vai elaborar e acompanhar um Programa Educativo Individual? Que serviço, com que formação e com que tempo, vai produzir um Relatório Técnico-Pedagógico para um aluno de Engenharia ou de Direito? Que docente universitário, contratado sobretudo para investigar e lecionar, foi alguma vez preparado para aplicar medidas seletivas ou adicionais a estudantes com necessidades específicas, numa instituição que nunca teve, historicamente, docentes de educação especial nos seus quadros?

A lei promete impedir os efeitos discriminatórios das desigualdades económicas e regionais e das dificuldades de comunicação, interação, cognição ou aprendizagem, mas remete tudo, mais uma vez, para o vazio regulamentador que já sufoca o ensino básico e secundário. Nenhum artigo esclarece quem financia os apoios, quem forma os docentes universitários para estas novas obrigações, nem como se concilia a autonomia científica e pedagógica das instituições de ensino superior com um regime pensado, primeiro, para as salas de aula mais novas. Corre-se o risco de repetir, agora à escala universitária, o mesmo guião que já conhecemos. Anuncia-se o direito, decreta-se a obrigação, mas adia-se, sistematicamente, a garantia dos meios. E enquanto se celebra mais um capítulo da narrativa insistente do sucesso educativo a todo o custo, ninguém explica, verdadeiramente, como um estudante com dislexia severa ou com perturbação do espectro do autismo vai encontrar, num anfiteatro com centenas de colegas, o apoio individualizado que a lei, agora, também lhe promete.

É urgente travar este atentado silencioso contra a escola pública. A revisão legislativa que o Ministério da Educação, Ciência e Inovação colocou em consulta pública, longe de resolver os problemas que o próprio Governo reconhece, heterogeneidade de práticas, excesso de procedimentos, dúvidas sobre conceitos e responsabilidades, fragilidade das estruturas de apoio, insuficiente articulação entre educação, saúde e segurança social, ameaça agravá-los com mais uma camada de complexidade administrativa que as escolas, tal como estão hoje, não têm capacidade para digerir.

Se o Governo quer, de facto, uma escola inclusiva, deve começar por ouvir quem está lá dentro. Os docentes, os técnicos, as famílias. Deve garantir, por lei e não por promessa, a redução do número máximo de alunos por turma, sobretudo nas turmas que integram alunos com medidas seletivas ou adicionais. Deve investir na contratação real, não na reorganização cosmética, de professores de educação especial e de técnicos especializados, vinculando-os às escolas e não a entidades externas de acesso incerto. Deve devolver tempo aos professores, eliminando a carga burocrática que hoje consome as horas que deviam ser de trabalho pedagógico direto com os alunos. E deve, sobretudo, ter a humildade de adiar a entrada em vigor deste regime até que todos os diplomas regulamentadores estejam publicados e conhecidos, talvez só a partir do ano letivo 2027/2028, e não à pressa, em cima do calendário, como se a educação inclusiva fosse uma obra que se inaugura antes de estar pronta.

Até lá, esta inclusão de fachada continuará a ser exatamente o que sempre foi. Um fantasma. Um fantasma que assombra o futuro das nossas crianças e que esgota, dia após dia, a paciência e a saúde mental dos que ainda tentam, contra todas as correntes, manter a escola pública de pé. O país não precisa de mais decretos mirabolantes, de mais siglas, de mais estruturas que existem apenas no papel. Precisa de seriedade, de meios, de tempo e de deixar, de uma vez por todas, de tratar a inclusão de crianças e jovens como um exercício de contabilidade administrativa.

Alberto Veronesi

Fonte: CNN Portugal por indicação de Livresco

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Educação inclusiva sem materiais adaptados deixa alunos com deficiência para trás

O Mecanismo Nacional de Monitorização dos Direitos das Pessoas com Deficiência alerta para a falta de materiais curriculares adaptados em braille e para alunos surdos. É um dos principais obstáculos à concretização da escola inclusiva prevista na legislação portuguesa actual.

Embora Portugal disponha de um enquadramento legal considerado alinhado com a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, nomeadamente através do Decreto-Lei n.º 54/2018, persistem falhas na concretização do modelo de educação inclusiva, com diferenças significativas entre escolas e regiões, conclui o relatório do Me-CDPD.

"Há uma grande distância entre o que está escrito e aquilo que é a realidade nas escolas", afirmou à Lusa a coordenadora do mecanismo, Vera Bonvalot, apontando a falta de professores, técnicos especializados, assistentes operacionais, formação, tecnologias deapoio e materiais adaptados como alguns dos principais problemas. Segundo a responsável, representantes das pessoas com deficiência ouvidos pelo mecanismo alertaram para a inexistência, ainda em 2026, de currículos adaptados produzidos estruturalmente pelo Estado para alunos cegos ou surdos, nomeadamente conteúdos curriculares em braille ou materiais adequados às necessidades dos alunos surdos.

Na prática, explicou, a adaptação dos conteúdos pode ficar dependente da iniciativa individual de professores ou do esforço das famílias, quando deveria existir uma resposta estrutural e garantida pelo sistema educativo.

O relatório considera que a simples colocação de uma criança com deficiência numa escola regular não é suficiente para cumprir o direito à educação inclusiva. É necessário assegurar que consegue aprender, participar, progredir e sentir-se parte da comunidade escolar.

Entre as falhas identificadas pelo Me-CDPD estão a escassez de recursos humanos e técnicos, a falta de formação adequada dos profissionais e a insuficiência de tecnologiasde apoio. O mecanismo aponta ainda assimetrias regionais e entre escolas na aplicaçãodo modelo inclusivo e o risco de manutenção de respostas segregadoras.

Vera Bonvalot alerta para o facto de algumas soluções poderem acabar por separar osalunos em vez de os incluir, contrariando o espírito da legislação. "O que a Convençãodefende, e portanto o mecanismo defende, é sempre, sempre, sempre, a inclusão",afi rmou.

O objectivo, explicou, não deve ser criar respostas específicas que afastem os alunos dos restantes, mas garantir que a escola pública tem capacidade para responder à diversidade. Como exemplo, apontou a possibilidade de uma escola disponibilizar o ensino de Língua Gestual Portuguesa como uma opção acessível a alunos surdos e ouvintes. "Esse é que é o futuro da inclusão", defendeu, sublinhando que a educação inclusiva deve permitir que todos os alunos convivam e aprendam juntos, com os apoios necessários.

O relatório recomenda, por isso, financiamento estável, reforço dos docentes de educação especial e das equipas multidisciplinares, formação contínua da comunidade educativa e avaliação individualizada das necessidades de cada aluno. Defende também mecanismos de monitorização que permitam medir não apenas o acesso à escola, mas a participação, a progressão, o sucesso, o bem-estar e o sentimento de pertença dos alunos com deficiência.

Para o Me-CDPD, devem igualmente existir mecanismos de reclamação acessíveis. E é preciso assegurar a participação efectiva das famílias e dos próprios alunos na definição das medidas de apoio.

A situação no ensino superior é outra das preocupações. O aumento do número de estudantes com deficiência é considerado positivo, mas, segundo o relatório, não basta garantir a entrada: é necessário assegurar condições de acessibilidade, apoios estruturados, permanência, sucesso e conclusão dos cursos em igualdade de condições.

O mecanismo alerta ainda para o risco de a falta de respostas inclusivas contribuir paraque os restantes alunos encarem os colegas com deficiência como estando "à parte", reproduzindo na escola situações de exclusão que a legislação pretende precisamente combater. Para Vera Bonvalot, a monitorização é, por isso, essencial para perceber se os direitos previstos na lei estão efectivamente a ser cumpridos.

Defendeu que "é importantíssimo" existir um sistema de queixas e de audição das pessoas que usufruem, ou não conseguem usufruir, desses direitos.

O Me-CDPD tem mantido contactos com responsáveis governamentais pela Educação e pela Inclusão para acompanhar as alterações previstas no sector, mas a coordenadora admite preocupação com a implementação gradual das novas medidas e promete manter a monitorização da evolução da escola inclusiva.

Fonte: Público em acesso livre

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Regresso às aulas: 12 ferramentas com IA que os estudantes deviam conhecer

Com o novo ano letivo a aproximar-se, há ferramentas com IA que vale a pena anotar para integrar, caso seja necessário, na rotina dos estudantes.

Não se trata de deixar a tecnologia fazer os trabalhos, mas de encontrar formas de a utilizar como apoio, poupando tempo em algumas tarefas e tornando o estudo mais interativo.

Pesquisa e trabalhos académicos

A Perplexity é uma alternativa interessante aos motores de pesquisa tradicionais. Permite colocar uma questão em linguagem natural e obter uma resposta acompanhada pelas fontes consultadas.

O modo Research consegue fazer várias pesquisas, analisar fontes e produzir um relatório mais completo, o que pode ser útil numa primeira fase de investigação.

Para um estudante, a grande vantagem está na possibilidade de passar rapidamente de uma pergunta para um conjunto de fontes que podem depois ser verificadas. Continua a ser importante consultar as fontes originais antes de utilizar qualquer informação num trabalho.


A Consensus é especialmente interessante para estudantes universitários. A ferramenta está orientada para a pesquisa de literatura científica, permitindo procurar respostas com base em estudos publicados, em vez de depender apenas de resultados gerais da Internet.

Pode ser útil quando é necessário perceber rapidamente o que a investigação diz sobre determinado tema, encontrar estudos relevantes ou começar a estruturar uma pesquisa académica.

#3 - Elicit

A Elicit segue uma abordagem semelhante, mas procura funcionar como um assistente de investigação. Pode ajudar a encontrar artigos relevantes, organizar informação e analisar literatura científica, sendo mais interessante à medida que os trabalhos escolares dão lugar a trabalhos académicos mais aprofundados.

A plataforma apresenta-se como uma ferramenta de investigação científica utilizada por centenas de milhares de investigadores, sendo útil quando o problema já não é simplesmente encontrar informação, mas perceber quais são os estudos mais relevantes e como se relacionam entre si.


A SciSpace é outra ferramenta pensada para investigação académica e permite pesquisar artigos, fazer revisões de literatura e conversar com documentos PDF. Também disponibiliza ferramentas para extrair informação, gerar citações e trabalhar sobre artigos científicos.

Pode ser uma boa ajuda quando um artigo científico parece demasiado complexo à primeira leitura. Em vez de substituir a leitura, permite explorar o documento, esclarecer conceitos e localizar mais rapidamente a informação relevante.


Estudar a partir dos próprios materiais

A StudyFetch é uma das ferramentas mais interessantes para transformar materiais de estudo em conteúdos de revisão. O estudante pode carregar PDF, apresentações, notas ou até um link para uma aula no YouTube e gerar notas, flashcards, questionários ou um plano de estudo a partir desse material.

A vantagem está em trabalhar sobre aquilo que o estudante já tem. Em vez de começar com uma página em branco, é possível pegar nos materiais de uma disciplina e transformá-los em diferentes formas de estudo.

#6 - Gizmo

A Gizmo aposta especialmente nos flashcards e nos questionários. Pode importar PDF, notas, vídeos do YouTube ou até gravações de aulas e transformá-los automaticamente em cartões de estudo. Depois, utiliza repetição espaçada para ajudar a rever a matéria ao longo do tempo.

Também inclui um tutor de IA que pode explicar os conteúdos passo a passo e gerar perguntas com base no material importado. Para quem tem de memorizar muita informação, pode ser uma alternativa interessante aos tradicionais apontamentos.


A Khanmigo é a proposta da Khan Academy para utilizar IA como tutor. Em vez de se limitar a apresentar uma resposta, a ferramenta procura orientar o estudante durante o processo de aprendizagem, ajudando-o a chegar à solução.

Esta abordagem é particularmente interessante para matemática, ciências e outras disciplinas em que perceber o raciocínio é tão importante como chegar ao resultado final.

Escrita e apresentações

A DeepL Write funciona como um assistente de escrita baseado em IA. Permite colar um texto e receber sugestões para melhorar gramática, ortografia e pontuação, além de alternativas para palavras e frases e diferentes níveis de formalidade. Também suporta português.

Para estudantes, pode ser útil na revisão final de trabalhos, especialmente quando já existe um texto escrito e o objetivo é torná-lo mais claro e correto sem alterar completamente a sua estrutura.


A Grammarly é outra ferramenta de apoio à escrita, particularmente interessante para quem produz trabalhos em inglês. Além da correção, oferece sugestões relacionadas com clareza, tom e reformulação de frases.

Pode ser útil para estudantes universitários que precisam de escrever regularmente em inglês, seja para trabalhos, relatórios, apresentações ou candidaturas.

#10 - Gamma

A Gamma permite transformar uma ideia ou conjunto de conteúdos numa apresentação. A IA pode gerar slides e organizar texto, imagens e outros elementos, que depois podem ser editados pelo utilizador.

É uma forma rápida de criar uma primeira estrutura para uma apresentação. Ainda assim, convém tratar o resultado como um ponto de partida e adaptar o conteúdo ao trabalho, em vez de apresentar diretamente aquilo que a ferramenta gerar.

#11 - Napkin AI

A Napkin AI segue uma abordagem diferente e pode ser interessante para apresentações. A partir de texto, consegue criar diagramas, fluxogramas, mapas mentais, infografias e outros elementos visuais.

Isto pode ser útil quando um trabalho tem muita informação que precisa de ser explicada visualmente. Os elementos gerados podem depois ser personalizados e exportados para formatos como PowerPoint, PDF, PNG ou SVG.

Aulas e gravações
#12 - Otter.ai

A Otter.ai é uma ferramenta de transcrição que pode transformar gravações de voz em texto pesquisável. Para um estudante universitário, pode ser interessante em entrevistas, reuniões de grupo ou outros contextos em que seja necessário consultar posteriormente aquilo que foi dito.

Pode também ajudar a transformar uma gravação numa base de apontamentos. Importa lembrar que gravar aulas ou outras pessoas exige atenção às regras da instituição e ao consentimento dos envolvidos. A tecnologia pode facilitar o processo, mas não elimina essas responsabilidades.

Ferramentas com IA não são um substituto, são um auxiliar

Estas ferramentas com IA mostram como a tecnologia pode entrar em diferentes momentos da vida académica, desde a pesquisa inicial até à preparação para um exame ou à criação de uma apresentação.

O mais importante continua a ser saber utilizá-las com espírito crítico. Uma resposta gerada por IA pode conter erros, uma síntese pode omitir informação importante e uma apresentação automática pode não refletir aquilo que o estudante realmente aprendeu.

Usada como apoio, e não como substituto do trabalho, a tecnologia pode tornar o estudo mais organizado, interativo e eficiente. Neste regresso às aulas, conhecer estas ferramentas com IA pode ser quase tão importante como escolher o portátil, o tablet ou o monitor certos.

Fonte: pplware por indicação de Livresco

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Agora é oficial: smartphones estão proibidos nas escolas até ao 9.º ano

O Presidente da República, António José Seguro, promulgou esta sexta-feira o diploma que alarga até ao 9.º ano a proibição do uso de ‘smartphones’ nas escolas.

A medida tinha sido anunciada há um mês pelo ministro da Educação que, na altura, explicou que a decisão teve por base a tendência internacional e um novo inquérito aos diretores escolares que relataram que nos espaços onde não entram telemóveis há "mais socialização" e "menos indisciplina".

No passado ano letivo, a proibição era obrigatória apenas entre os alunos do 1.º e 2.º ciclos, mas cerca de metade das escolas de 3.º ciclo decidiram também proibir os 'smartphones'.

As escolas terão o primeiro período de aulas para se adaptar e fazer a transição para as novas regras, que entrarão em vigor a 1 de janeiro de 2027.

O Presidente da República promulgou também o diploma aprovado em Conselho de Ministros a 30 de julho que altera as medidas excecionais e temporárias para responder à falta de professores, bem como a regulação dos requisitos científicos para a contratação de docentes.

No âmbito do chamado “Plano + Aulas + Sucesso”, uma das alterações diz respeito à lista de regiões consideradas carenciadas, onde é mais difícil recrutar professores.

No ano passado, estavam identificados 10 Quadros de Zona Pedagógica (QZP) carenciados, onde funcionavam 258 Unidades Orgânicas, sendo que este ano são menos dois QZP.

A partir de setembro, passam a existir oito QZP carenciados, abrangendo 235 Unidades Orgânicas das regiões da Grande Lisboa, Península de Setúbal e Algarve.

O Governo decidiu também restringir a essas escolas o acréscimo remuneratório de 750 euros atribuído aos docentes que aceitem adiar a reforma e continuar a dar aulas.

Quanto às habilitações para a docência, o diploma, que simplifica o reconhecimento das habilitações obtidas no período pós-Bolonha, prevê que o requisito para dar aulas sem habilitação profissional (formação pedagógica) passa a ser a área científica da licenciatura, e não um número mínimo de créditos na respetiva área cientifica.

Em termos práticos, um licenciado em Economia pode dar aulas de Economia, ou um licenciado em Psicologia pode dar aulas de Psicologia, o que até agora não acontecia.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Um novo estudo investiga como as desigualdades na aprendizagem se desenvolvem durante o ensino básico

O estudo questiona se as diferenças de aprendizagem precoces entre os alunos se reproduzem, se acumulam ou se são compensadas à medida que as crianças avançam na escolaridade. Com base nos resultados de testes de compreensão de leitura e de matemática de mais de 4 000 pares de gémeos do Estudo de Coorte sobre Educação dos Países Baixos, a investigação analisa as origens genéticas e ambientais subjacentes às diferenças nas trajetórias de aprendizagem.

Os resultados mostram que grande parte da desigualdade no desempenho escolar já está presente no início da escolaridade. Estas diferenças iniciais são, de certa forma, compensadas ao longo do tempo, particularmente em matemática. No entanto, surgem também novas fontes de diferença durante o ensino básico, o que significa que a desigualdade sistemática global no desempenho aumenta à medida que as crianças avançam na escolaridade.

O estudo destaca que a desigualdade na aprendizagem não se resume apenas ao ponto de partida das crianças, mas também à rapidez com que aprendem uma vez que estão na escola.

Ao comentar a investigação, Kim Stienstra afirmou: «Muitas vezes partimos do princípio de que as desigualdades aumentam porque as vantagens iniciais se acumulam. Mas os dados revelam algo diferente. As disparidades de desempenho iniciais diminuem durante o ensino básico. No entanto, ao mesmo tempo, surgem novas disparidades na velocidade a que as crianças aprendem, e estas são principalmente genéticas. A posição inicial continua a ser a principal fonte de desigualdade, mas o aumento da desigualdade é impulsionado pelas velocidades de aprendizagem divergentes.»

A investigação contribui para os debates sobre a desigualdade educativa ao combinar dados longitudinais com um desenho de estudo com gémeos, permitindo que as fontes genéticas, ambientais partilhadas e ambientais não partilhadas das diferenças de aprendizagem sejam analisadas em conjunto. Stienstra esclarece: «“Genético” não significa que o sucesso educativo de uma criança seja fixo ou predeterminado. Num contexto relativamente uniforme como o dos Países Baixos, as diferenças genéticas tornam-se mais evidentes precisamente porque a variação ambiental é minimizada. Além disso, estas estimativas genéticas também captam mecanismos mais complexos, tais como correlações e interações gene-ambiente».

O artigo, intitulado «O desenvolvimento da desigualdade durante o ensino básico: investigação das origens genéticas e ambientais subjacentes às diferenças de aprendizagem», foi publicado na revista Social Forces. Leia o artigo aqui: https://academic.oup.com/sf/advance-article/doi/10.1093/sf/soag077/8715785

Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com

Fonte: Demographic Science por indicação de Livresco

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Aldeia de Santa Isabel lança eBook com histórias de jovens que transformaram o seu futuro através da formação profissional

 


A Aldeia de Santa Isabel (ASI), equipamento da Misericórdia de Lisboa, lançou o eBook Casos de Sucesso na Formação Profissional, uma publicação que reúne os testemunhos de antigos formandos cujas vidas foram transformadas pela formação profissional e que hoje são exemplo de inclusão, autonomia e realização profissional.

Ao longo das suas páginas, o eBook apresenta dez histórias inspiradoras que demonstram que o insucesso ou o abandono escolar não determinam o futuro de um jovem. Pelo contrário, evidenciam como percursos formativos adaptados às capacidades e motivações de cada pessoa podem abrir portas ao emprego, ao empreendedorismo e ao desenvolvimento pessoal.

Entre os protagonistas encontram-se Rita Martins, que criou o seu próprio salão de cabeleireiro e recebe anualmente estagiárias da ASI; Francisco Gomes, antigo formando que regressou à instituição como formador de Carpintaria; Daniel Raposo, hoje chef executivo num resort de cinco estrelas no Algarve; Denys Lukyanets, fundador da empresa de eletricidade Luky Power; ou André Neves, que concluiu o 12.º ano através da formação profissional e iniciou uma carreira no setor automóvel. O eBook dá igualmente a conhecer os percursos de Michele Gonçalves, Micaela Santos, Carla Prazeres, Armando Lourenço e Ricardo Tavares, todos eles exemplos da diversidade de oportunidades que a formação profissional pode proporcionar.

Mais do que uma compilação de testemunhos, a publicação assume-se como um instrumento de valorização da formação profissional enquanto resposta eficaz à inclusão social e à promoção da empregabilidade. Ao sistematizar experiências, metodologias e fatores de sucesso, o eBook pretende também contribuir para a partilha de conhecimento entre entidades formadoras, escolas, equipas técnicas e organizações que trabalham com jovens em situação de vulnerabilidade.

Disponível em formato digital, este recurso poderá ser utilizado em ações de orientação vocacional, prevenção do abandono escolar, acolhimento de novos formandos e capacitação de profissionais, permitindo ainda a atualização contínua com novos casos de sucesso e evidências do impacto da intervenção da Aldeia de Santa Isabel.

Fonte: SCML por indicação de Livresco

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Faltam meios humanos para cumprir nova lei da educação inclusiva

A revisão do regime jurídico da educação inclusiva está a suscitar preocupações junto de associações e especialistas, que apesar de reconhecerem a mais-valia da lei - e até das mudanças aprovadas -, argumentam que um "decreto não muda a realidade", sendo necessário munir as escolas de mais recursos humanos, técnicos e materiais. Entre as medidas, em vigor a partir de janeiro de 2027, está a criação de um sistema nacional e de um gestor de apoio à inclusão e a possibilidade dos pais solicitarem a reapreciação das decisões propostas pelas escolas.

Luís Capucha, um dos coordenadores da avaliação externa feita pelo Instituto para as Políticas Públicas e Sociais do ISCTE ao decreto-lei n.° 54/2018, que estabelece o regime jurídico da educação inclusiva em Portugal, explica que foram detetados "desequilíbrios regionais entre agrupamentos". "Há uma minoria de escolas onde o espírito da educação inclusiva foi levado muito mais longe e onde os conceitos estão plenamente integrados", explica o docente universitário.

Continuação da notícia em JN.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

As 7 melhores apps grátis para estudar em 2026

Seja para estruturar apontamentos, memorizar conteúdos ou manter a disciplina no dia a dia, a tecnologia certa pode transformar o teu rendimento académico. Como é evidente, nenhuma aplicação faz o trabalho de fundo por ti, mas estas ferramentas funcionam como excelentes aliadas para simplificar o processo, gerir o tempo e eliminar distrações.

Para te ajudar neste ano letivo, selecionámos as 7 melhores apps para estudar em 2026 que deves experimentar. Vê abaixo as melhores opções para gestão de notas, foco, flashcards e organização da rotina.

Caso procures mais automação e um apoio mais inteligente, consulta também o nosso guia com as melhores ferramentas de IA para estudar.
1. Quizlet


O Quizlet é conhecido por transformar o estudo numa experiência mais divertida e envolvente. A ideia é simples: criar flashcards com termos, definições e conceitos para memorizar de forma rápida e prática.

Podes desenvolver os teus próprios cartões ou explorar uma biblioteca com mais de 500 milhões de listas criadas por estudantes e professores. Ainda é possível transformar os cartões em jogos interativos ou testes de sala de aula e utilizar o modo Aprender com repetição espaçada e correção inteligente.

2. Khan Academy


A Khan Academy é um projeto sem fins lucrativos que oferece milhares de vídeos, exercícios e artigos de forma totalmente gratuita. Pode ser acedida no computador, tablet ou smartphone, estando disponível em português, inglês e várias outras línguas.

A plataforma permite que estudes ao teu próprio ritmo ou que acompanhes o que estás a aprender na escola. Podes realizar exercícios e testes com respostas imediatas, além de receber dicas passo a passo sempre que precisares. A tecnologia reconhece os conhecimentos que já adquiriste e sugere conteúdos para reforçar o que ainda não está consolidado.

3. Habitica


Se cumprir tarefas parece monótono, o Habitica pode ser a solução. Com uma interface gamificada, cada utilizador cria um avatar que ganha moedas e experiência à medida que conclui atividades, e pode gastar essas recompensas em acessórios virtuais.

A aplicação divide-se em três áreas: hábitos, tarefas diárias e lista de pendentes. É possível definir prazos, mas há um desafio: se não cumprires, o teu avatar perde experiência ou até morre. O Habitica está disponível gratuitamente e tem também um plano para equipas por 9 € por mês.

4. Todoist


O Todoist é uma das apps mais conhecidas para gestão de tarefas. Com uma interface simples e intuitiva, permite criar atividades, definir prazos, prioridades e até subtarefas para projetos mais complexos.

Entre as suas funcionalidades estão notificações inteligentes, integração com Google Calendar e Dropbox, e diferentes modos de visualização como lista, calendário ou painel.

5. Notion


O Notion segue um caminho diferente: é uma plataforma versátil e totalmente personalizável que combina notas, calendários, lembretes e bases de dados. É perfeito para quem gosta de estruturar a informação à sua maneira e centralizar tudo num só espaço.

A aplicação é gratuita e conta com uma comunidade muito ativa que partilha templates para diversos usos. Entre eles, há calendários de estudo, planners de tarefas e até sistemas completos para organização de projetos académicos.

6. Forest


O Forest leva o conceito de concentração para outro nível, transformando-o num jogo. Quanto mais tempo passares focado e longe do smartphone, maior será a tua árvore virtual. Ao longo do tempo, vais construindo uma floresta que funciona como motivação visual para continuares sem distrações.

O sucesso da app fala por si: foi eleita Melhor Aplicação do Ano no Google Play em 2015 e 2016, conta com mais de 6 milhões de utilizadores pagantes e já plantou mais de 1 milhão de árvores reais graças aos utilizadores.

7. Focus@Will


Para quem precisa de um fundo musical que ajude a entrar no ritmo de estudo, o Focus@Will oferece playlists cientificamente otimizadas para aumentar a concentração.

A plataforma permite personalizar o som para o teu perfil cognitivo, escolhendo canal, imagens de fundo, som inicial e até a duração da sessão.

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Fonte: 4gnews por indicação de Livresco

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Mais ecrã, melhor raciocínio? Estudo de oito anos desafia dogma digital na adolescência

Investigadores finlandeses acompanharam, ao longo de oito anos, centenas de jovens dos 8 aos 16 anos e concluíram que o tempo passado em frente aos ecrãs está associado a um melhor processamento cognitivo, foi divulgado esta segunda-feira, 17 de agosto, no site da revista Science Daily . O segredo, garantem, não está nas horas gastas, mas naquilo que se faz com elas.

Numa altura em que o discurso público e as diretrizes de saúde tendem a encarar os dispositivos digitais como os principais vilões do desenvolvimento infantil, o estudo da Universidade de Jyväskylä e da Universidade da Finlândia Oriental, acaba de introduzir uma nuance científica de peso.

Ao acompanhar 260 crianças (124 raparigas e 136 rapazes) desde o início da escolaridade até à adolescência (cerca dos 15,8 anos), a equipa de investigadores descobriu que os jovens que acumularam maior tempo de ecrã desde a infância demonstraram, em média, um melhor processamento cognitivo na adolescência.

Os resultados, integrados no consagrado estudo longitudinal PANIC (Physical Activity and Nutrition in Children) e publicados na revista científica Pediatric Exercise Science, contrariam a ideia generalizada de que o consumo de tecnologia é inerentemente prejudicial ao cérebro em crescimento.

A qualidade da atividade supera a quantidade de horas

Para avaliar o impacto real dos hábitos digitais e motores, os investigadores cruzaram questionários detalhados com sensores combinados de frequência cardíaca e movimento, medindo o desempenho mental através da bateria de testes neuropsicológicos CogState (que avalia parâmetros como atenção, memória de trabalho e capacidade de aprendizagem).

A explicação para a vantagem cognitiva observada reside no tipo de envolvimento que os ecrãs proporcionam. Quando os dispositivos são utilizados para pesquisa, jogos estratégicos, criação de conteúdos, resolução de problemas ou comunicação ativa, o cérebro é desafiado e estimulado de forma contínua.

"Os resultados sugerem que o tempo de ecrã pode apoiar o processamento cognitivo de crianças e adolescentes. Presumivelmente, o ponto essencial prende-se com o tipo de atividades que realizam durante esse tempo. Pais e professores devem incentivar o uso de dispositivos de formas que promovam o pensamento ativo, a resolução de problemas, a criatividade e a aprendizagem", sublinha Petri Jalanko, investigador doutorando na Universidade de Jyväskylä e autor principal do estudo.

Jalanko sintetiza a mensagem central: o objetivo não deve ser a demonização ou a restrição cega, mas sim a procura de um equilíbrio saudável entre o movimento físico e o uso digital estimulante.

O enigma do exercício físico: raparigas e rapazes respondem de forma diferente

O estudo debruçou-se igualmente sobre os efeitos da atividade física e do sedentarismo, revelando padrões surpreendentes e diferenciados consoante o género. No caso das raparigas, uma maior acumulação de atividade física de intensidade ligeira desde a infância revelou-se benéfica para a memória de trabalho na adolescência. Já entre os rapazes, foi a prática regular de atividade física orientada e supervisionada – como modalidades desportivas com treinador – que demonstrou uma associação positiva com essa mesma capacidade cognitiva.

Por outro lado, a análise ao exercício físico não-supervisionado revelou um padrão inesperado: níveis mais baixos de exercício livre autorreportado surgiram associados a um melhor processamento cognitivo.

Curiosamente, as medições brutas de movimento e sedentarismo obtidas pelos sensores corporais não demonstraram correlação direta com a cognição. Este dado reforça a tese dos cientistas: o impacto neurológico depende do conteúdo da atividade – tanto mental, como física – e não apenas do gasto calórico ou da postura corporal.

Associação não é causalidade: o apelo ao bom senso

Apesar da relevância dos dados recolhidos ao longo de quase uma década de acompanhamento, os autores sublinham que se trata de um estudo observacional que identifica associações estatísticas, e não uma relação de causalidade direta.

Fatores paralelos – como o contexto socioeconómico, a curiosidade intelectual inata da criança ou o acompanhamento familiar – podem influenciar tanto a preferência por atividades digitais complexas, como o bom desempenho nos testes de raciocínio.

O estudo finlandês deixa, ainda assim, um contributo decisivo para o debate educativo contemporâneo: substituir o pânico moral em torno dos ecrãs por uma literacia digital exigente e ativa é o caminho mais eficaz para preparar os jovens para o futuro.

Fonte: Sapo por indicação de Livresco

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Educação Inclusiva: o que precisamos saber para intervir

Há muitos anos que sabemos que os diagnósticos são pouco relevantes do ponto de vista educacional e têm, frequentemente, mais efeitos adversos do que efeitos positivos.

Como é sabido, Portugal dispõe desde 2018 (Decreto-Lei n.º 54/2018) de legislação que estabelece as bases conceptuais e organizacionais para tornar as escolas em estruturas inclusivas. No preâmbulo deste diploma escreve-se “afasta-se a conceção de que é necessário categorizar para intervir.” A este afastamento da necessidade de categorização é proposta uma alternativa: “(…) Esta abordagem baseia-se em modelos curriculares flexíveis, no acompanhamento e monitorização sistemática da eficácia do contínuo das intervenções implementadas, no diálogo dos docentes com os pais ou encarregados de educação e na opção por medidas de apoio à aprendizagem, organizadas em diferentes níveis de intervenção (…)”.

Acaba de ser aprovado, em Conselho de Ministros, o texto da revisão do Decreto-Lei n.º 54/2018, que reafirma esta abordagem: “Ao afastar uma lógica centrada na categorização dos alunos e ao afirmar uma abordagem assente no Desenho Universal para a Aprendizagem, na abordagem multinível e na identificação de barreiras à aprendizagem e à participação, o diploma contribuiu para consolidar uma cultura escolar mais inclusiva”.

No entanto, uma investigação internacional publicada em 2025 (1) confirma que continuam a existir imprecisões sobre os termos inclusão, necessidades educativas especiais e deficiência, e que estas imprecisões originam tensões em torno dos conceitos de categorização e de acesso a apoio.

Apesar da (louvável, na minha opinião) consistência do pensamento legislativo português, permanecem, a nível internacional, questões sobre a necessidade e o âmbito da categorização dos alunos como critério prévio para delinear estratégias de apoio. O assunto é muito vasto, mas, mesmo assim, gostaria de contribuir para a reflexão com três pontos.

O primeiro é, obviamente, para concordar que, para existir um apoio competente aos alunos, é essencial conhecê-los bem. Acho que podemos encontrar unanimidade sobre este aspeto: a ignorância gera más práticas e precisamos de ir o mais longe possível no conhecimento do aluno — como se comporta, quais são os seus gostos e dificuldades, como aprende melhor, como se relaciona com o seu envolvimento, etc.. Obviamente, um diagnóstico sobre uma eventual deficiência ou condição pode ser um fator adicional de utilidade a considerar, mas reduzir este conhecimento do aluno a um diagnóstico psicológico ou médico constitui um enorme risco. Seria como avaliar a qualidade de um vinho lendo o rótulo.

Há muitos anos que sabemos que os diagnósticos são pouco relevantes do ponto de vista educacional e têm, frequentemente, mais efeitos adversos do que efeitos positivos. Um ponto interessante é que os diagnósticos dizem, por vezes, mais sobre quem os faz do que sobre quem os recebe: se pedirmos a três profissionais diferentes um diagnóstico sobre um mesmo caso, eles serão certamente diferentes, porque o olhar e a cultura de quem o faz estão indelevelmente presentes no veredicto.

Em segundo lugar, o que nos poderá aproximar mais e melhor de uma caracterização do aluno é uma multiplicidade de olhares prolongados no tempo. É através de uma equipa (que, na nossa legislação, se chama Equipa Multidisciplinar de Apoio à Educação Inclusiva) e de uma caracterização evolutiva que poderemos chegar mais perto de compreender as potencialidades e dificuldades de cada caso. Cabe dizer que a importância do olhar educativo (aprendizagem e participação) é central para esta caracterização. Todos os contributos devem convergir para a Educação, porque a escola não é uma clínica.

Por fim, esta caracterização do aluno deve contribuir para conhecer a sua diversidade. A inclusão não procura considerar ou tornar os alunos iguais (na verdade atua de forma oposta a esta): procura, sim, aquilo que é específico e comum em cada um de nós.

É difícil, sem dúvida: a nossa dificuldade em aceitar a diversidade manifesta-se até na forma como agrupamos (para tornar menos diferentes) pessoas que são muito diferentes entre si. Falamos dos deficientes, dos italianos, das crianças, dos ciganos, dos filósofos, dos portuenses, da turma F, como se fossem “mais ou menos” a mesma coisa.

A categorização pode constituir uma redução da diversidade e uma dificuldade acrescida para pesquisar e encontrar o que é comum e específico de cada um.

Em síntese: Portugal está no caminho certo ao valorizar uma caracterização evolutiva no tempo e diversificada na constituição da equipa, e ao recusar a categorização como base para a intervenção. Claro que temos dificuldades: muitas vezes encontramos pouca competência para avaliar, ausência de opiniões que considerávamos essenciais e até falta de recursos para nos ajudar a tornar mais complexa a recolha de informação. Mas o caminho não é reduzir a complexidade, aceitando como definitivos diagnósticos e resultados de testes; o caminho é continuar a ser exigentes, mantendo um olhar atento e multidisciplinar.

O caminho da não categorização que a Educação Inclusiva adota é, certamente, o mais indicado para recusarmos o “rolo compressor” da igualdade, para procurarmos e encontrarmos a diversidade e para tratarmos todos os seres humanos com a dignidade que lhes é devida.

(1) Beck, K., Katzelbach, D., Urban, M. (2025). Diagnosis, Assessment and Measurement in Relation to Inclusive Education. A systematic review of international research. EJIE, 4(3), 72–91.

David Rodrigues

Fonte: Público por indicação de Livresco