domingo, 7 de junho de 2026

Adeus, dislexia: eles criaram uma app que é um companheiro de leitura personalizado

Estudantes de mestrado do Instituto Superior Técnico criaram plataforma interactiva que utiliza inteligência artificial para se adaptar em tempo real às necessidades de cada aluno.

Francisco Redondo cresceu a ver a irmã a lutar contra um inimigo anónimo que veio a descobrir chamar-se dislexia. Para impedir que mais estudantes passem pelas mesmas frustrações, Francisco criou uma startup e está a desenvolver uma plataforma digital, uma espécie de companheiro de leitura personalizado, que permite a pais e professores acompanhar o progresso diário dos alunos. (...)

Continuação do texto em Público

Podcast aborda o Desenho Universal para a Aprendizagem

A Universidade da Beira Interior (UBI) lançou o podcast “Transformar pela Inclusão” para convidar a comunidade académica a refletir sobre novas abordagens de ensino e a experimentá-las, com base nos princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem.

O conteúdo conta com a participação das docentes Carla Fonseca, Cristiana Madureira, Sandra Soares e Tânia Lima. Ao longo da conversa, disponível no canal de YouTube da UBI, as intervenientes partilham as suas experiências no Percurso +Plural, refletindo sobre as mudanças introduzidas nas suas práticas pedagógicas e o impacto observado nos estudantes. Há ainda espaço para discutir a capacidade do ensino superior em acolher a diversidade dos estudantes atuais, bem como para inspirar outros docentes a adotar estas abordagens nas suas práticas.

As quatro docentes participaram no Percurso de Transformação Pedagógica +Plural, ação inserida no quadro de atividades do Consórcio EPIC - Excelência Pedagógica e Inovação em Cocriação, e articulada com as iniciativas do projeto UBI Learning Hub II. Este percurso tem como objetivo promover ambientes de aprendizagem mais inclusivos, acessíveis e inovadores para todos os estudantes, através da aplicação do Desenho Universal para a Aprendizagem.

O podcast integrou a 2.ª Edição do Mês da Inovação Pedagógica, dinamizada pela Vice-Reitoria para o Ensino, Assuntos Académicos e Empregabilidade, através do Gabinete de Inovação Pedagógica. Ao longo de quatro semanas, docentes, técnicos, estudantes da UBI e participantes de outras instituições de ensino superior marcaram presença em diversas sessões em linha que procuraram divulgar os princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem e a sua aplicação em sala de aula.

A 2.ª Edição do Mês da Inovação Pedagógica, que decorreu em abril, convidou a comunidade académica a construir um ensino mais inovador, inclusivo e acessível para todos os estudantes, contribuindo para a consolidação da excelência pedagógica na UBI. Assim, o Podcast “Transformar pela Inclusão” surge como um meio de aproximar estas temáticas do público em geral, promovendo a sua compreensão e valorização.

Esta ação insere-se na Atividade 4 do projeto UBI Learning Hub II, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), no âmbito do Programa Impulso Mais Digital, promovido pela Direção-Geral do Ensino Superior (DGES).

Fonte: UBI por indicação de Livresco

sábado, 6 de junho de 2026

Plataforma que traduz em tempo real aulas em português para alunos estrangeiros

Uma plataforma que traduz, em tempo real, as aulas lecionadas em português, foi esta sexta-feira lançada em Óbidos, numa parceria entre a autarquia, o parque tecnológico e as escolas do concelho para facilitar a aprendizagem dos alunos estrangeiros.

A plataforma, denominada “Babel Classroom”, permite ao professor lecionar normalmente em português, enquanto a sua intervenção é automaticamente transcrita e traduzida em tempo real para até quatro idiomas em simultâneo, divulgou esta sexta-feira a Câmara de Óbidos, no distrito de Leiria.

A informação é disponibilizada numa segunda janela visível para os alunos, facilitando o acompanhamento das aulas e promovendo uma participação mais ativa no processo de aprendizagem.

O sistema é o resultado de uma parceria entre o município, o Agrupamento de Escolas Josefa de Óbidos, o Parque Tecnológico de Óbidos e uma das empresas ali radicadas, a ImpactWave, e foi “concebido para promover a inclusão de alunos de língua não materna e reforçar a equidade no acesso à aprendizagem”, pode ler-se numa nota da autarquia.

A plataforma “foi desenvolvida a partir de uma necessidade identificada pelos próprios professores, confrontados diariamente com os desafios da integração de alunos recém-chegados ao sistema educativo português”, num contexto de crescente diversidade cultural nas escolas da região Oeste.

De acordo com os dados divulgados pela Câmara de Óbidos, frequentam as escolas da região alunos de cerca de 50 nacionalidades, entre as quais: África do Sul, Alemanha, Angola, Argentina, Bangladesh, Bélgica, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Chéquia, Chile, China, Colômbia, Egito, Eslováquia, Espanha, Estados Unidos da América, Rússia, França, Irlanda, Itália, Luxemburgo, México, Moldávia, Nepal, Países Baixos, Paquistão, Polónia, Reino Unido, Roménia, São Tomé e Príncipe, Suécia, Suíça, Ucrânia, Venezuela, Paraguai, Índia, Noruega, Bolívia, República Dominicana, Estónia, Finlândia, Grécia, Japão e Marrocos.

Só no concelho de Óbidos “existem atualmente cerca de 200 alunos das mais diversas geografias, uma realidade que tem colocado novos desafios à integração linguística e ao sucesso educativo”, pode ler-se no mesmo texto.

A solução encontrada para responder às necessidades destes alunos integra funcionalidades de Inteligência Artificial adaptadas ao contexto educativo, permitindo corrigir transcrições, adequar linguisticamente conteúdos e apoiar uma comunicação mais eficaz em sala de aula. É ainda complementada por um equipamento discreto, incluindo microfones Bluetooth com cancelamento de ruído, concebidos para integrar naturalmente a dinâmica pedagógica.

A plataforma foi testada durante três semanas em contexto real por professores do 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, em diferentes disciplinas e turmas, permitindo validar o seu potencial como ferramenta de apoio à inclusão, ao acompanhamento pedagógico e que é, simultaneamente, “potenciadora de equidade”, como afirmou o diretor do Agrupamento de Escolas Josefa de Óbidos, José Santos, na apresentação pública deste projeto.

Desenvolvida para que pudesse ser utilizada por todos os professores em várias turmas, segundo Ricardo Cardoso, CEO da ImpactWave, esta solução tem como grande objetivo “manter o aluno estrangeiro dentro da turma e a turma dentro do programa“.

Esta solução “foi criada de raiz para escalar a nível global, podendo ser, a esta altura, utilizada no mundo inteiro por milhões de alunos”, concluiu o responsável pela empresa.

Fonte: Observador por indicação de Livresco

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Os ecrãs estão a desaparecer rapidamente das escolas, embora alguns alunos com deficiência dependam deles

CONCORD, Califórnia — Soraya Martin, aluna do 9.º ano, é uma adolescente alegre e sociável que descobriu recentemente uma nova paixão.

«Sou uma escritora muito criativa, adoro escrever histórias por diversão», afirma.

As histórias surgem naturalmente para Soraya, mas a leitura e a escrita não. Isso deve-se ao facto de ela ter dislexia. «A nível académico, a escola sempre foi um grande desafio para mim.»

Então, no último ano letivo, ela começou a usar uma tecnologia que lhe permite fazer várias coisas: ditar os seus textos em vez de os escrever, ouvir livros em vez de os ler numa página e tirar fotos das notas no quadro.

Isso mudou tudo. Em vez de se preocupar se uma palavra está escrita corretamente, Soraya descobriu que, com a função de conversão de voz em texto integrada no seu portátil escolar, pode simplesmente deixar as palavras fluírem da sua mente para a boca.

«Comecei a ter notas realmente boas», diz ela. «Fez-me sentir que… não sou burra, tenho tanto para dizer e isso fez-me pensar: “Eu consigo fazer isto, consigo ir à escola e consigo ser boa nisso.”»

Isto, diz a sua mãe, Heather Martin, é o tipo de promessa que os ecrãs representam para alunos como a sua filha — alunos que ela teme que estejam a ser esquecidos na reação nacional contra os ecrãs nas escolas. Os ecrãs são cada vez mais culpados por atrapalharem a aprendizagem dos alunos: mais de 30 estados proibiram os telemóveis nas escolas. Alguns estados foram mais longe com propostas ou políticas para remover totalmente ecrãs como computadores portáteis e tablets das salas de aula. No final de maio, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA emitiu um aviso do cirurgião-geral sobre os «malefícios do uso de ecrãs», citando os seus efeitos na saúde das crianças e nos resultados escolares.

Grande parte da tendência de afastar as crianças dos ecrãs nas escolas tem vindo dos pais, que receiam que a utilização dos ecrãs esteja a prejudicar a aprendizagem dos seus filhos — um argumento que Heather Martin ouve na sua própria comunidade em Concord, a cerca de 50 km a nordeste de São Francisco. Ela partilha algumas dessas preocupações, mas afirma: «Em nenhuma altura, durante a conversa, se falou sobre crianças com deficiência, a não ser quando eu abordei o assunto com os outros pais.»

Os defensores desta causa receiam que esses alunos também estejam a ser excluídos do debate nacional.

As propostas de políticas relativas ao tempo de ecrã são frequentemente «um instrumento pouco preciso»

Os alunos com deficiência representam uma percentagem em rápido crescimento do total de alunos neste país — são mais de 8 milhões. Muitos dependem de tecnologias de apoio para superar o dia letivo, incluindo para tomar notas, ler e escrever. Por exemplo, os alunos cegos e com baixa visão podem utilizar software de leitura de ecrã ou de ampliação para ler. Outros, como a Soraya, utilizam conversão de voz em texto e audiolivros.

Estados como o Alabama, o Tennessee e o Utah já têm leis que limitam o uso de ecrãs, com entrada em vigor já em julho.

«A minha preocupação é que esse é um prazo muito curto para que isto aconteça», afirma Lindsay Jones, diretora executiva do Center for Applied Special Technology (CAST), uma organização sem fins lucrativos de investigação em educação que se dedica a tornar os ambientes de aprendizagem acessíveis.

Jones salienta que algumas destas leis preveem exceções às restrições relativas aos ecrãs para alunos com deficiência — muitas vezes, uma linha no texto menciona a tecnologia de apoio. Mas ela afirma que isso deve ser o mínimo indispensável e receia que muitas propostas políticas sejam «um instrumento muito pouco preciso».

«A ação foi tão rápida que, neste verão, deixámos os nossos educadores e as nossas comunidades de pessoas com deficiência a tentar perceber o que se passa», afirma ela. Talvez com mais tempo e com a contribuição das pessoas com deficiência, as políticas protegessem melhor os seus direitos, acrescenta Jones.

Para além das preocupações com as proibições de telemóveis e ecrãs a nível estadual e escolar, os defensores das pessoas com deficiência salientam que o reduzido Departamento de Educação dos EUA está muito menos equipado para fazer valer os direitos civis. Esses direitos incluem o acesso a tecnologia de apoio para alunos com deficiência. A administração Trump também adiou recentemente uma regra de acessibilidade digital há muito esperada para instituições públicas, incluindo escolas.

«Para algumas crianças, o ecrã é a sua ferramenta de acessibilidade»

No liceu da Soraya, no norte da Califórnia, o último ano letivo foi o primeiro em que os telemóveis dos alunos ficaram guardados em bolsas durante todo o dia letivo — tal como acontece em muitas escolas por todo o país. Heather Martin receia que a proibição dos telemóveis possa abrir caminho para uma proibição mais abrangente dos ecrãs na escola da sua filha.

«Um ambiente completamente livre de ecrãs parece que é deitar fora o bebé com a água do banho», diz ela. «Não se trata de comparar “sem ecrãs” com “sem acessibilidade”. E, para algumas crianças, o ecrã é a sua ferramenta de acessibilidade.»

Enquanto fala sobre a mudança na sua escola, Soraya fica tensa. «Odeio-as», diz ela sobre as bolsas trancadas. Ela diz que o seu telemóvel não é apenas uma distração, é uma rede de segurança para ligar aos pais se tiver um ataque de pânico, por exemplo. E sente-se destacada quando tem de pedir para tirar o telemóvel da bolsa trancada para tomar notas.

O programa educativo individualizado (PEI) de Soraya, um documento legal que descreve as adaptações e modificações que ela deve receber na escola, diz que ela pode usar o telemóvel para tomar notas, juntamente com outras tecnologias de apoio. Mas como a proibição dos telemóveis é recente, os seus professores ainda estão a adaptar-se. Como tem várias aulas e professores diferentes ao longo do dia, ela diz que é fácil que alguns professores não estejam familiarizados com as suas adaptações.

Este é o tipo de «consequência indesejada» que preocupa Jones ao pensar num futuro próximo em que mais escolas se afastem da tecnologia que, segundo ela, tem sido revolucionária para as pessoas com deficiência. Quando a tecnologia é utilizada de forma intencional, afirma ela, pode «na verdade permitir-nos criar ambientes muito mais flexíveis, e esses são realmente necessários para as pessoas com deficiência».

A organização de Jones, a CAST, criou um quadro educativo chamado «Universal Design for Learning» (Desenho Universal para a Aprendizagem), que incentiva os educadores a conceberem as suas salas de aula de forma a ter em conta as diferentes formas como os alunos aprendem. Por exemplo, um professor pode dar uma aula de matemática utilizando blocos, um diagrama e um vídeo para ajudar a transmitir a mesma lição a alunos com diferentes necessidades. Ou talvez a leitura em sala de aula seja disponibilizada como um livro eletrónico, para que os alunos com baixa visão possam ampliar o texto, enquanto aqueles com dislexia podem ouvir.

À medida que as restrições de ecrã se espalham pelas escolas do país, Jones espera que as pessoas com deficiência não sejam esquecidas. «Precisamos de educadores, precisamos de pessoas com deficiência, precisamos de fornecedores de tecnologia de apoio», para dar a sua opinião sobre como essas políticas são implementadas na sala de aula, diz Jones. «Essa será a melhor forma de avançar para que todos alcancem os seus objetivos sem atropelar os direitos das pessoas.»

Para Soraya, o uso deste tipo de ferramentas levou-a a aceitar as suas diferenças de aprendizagem. Na verdade, acabou de concluir uma investigação e de escrever uma série de ensaios que exploram a forma como as pessoas com dislexia aprendem. Pela primeira vez na vida, tem só notas máximas, mas, mais importante ainda, diz que consegue expressar-se de uma forma mais profunda e significativa.

«Tenho muito mais para dizer… Isso fez-me sentir mais confiante em mim mesma.»

Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com

Fonte: kpbs por indicação de Livresco

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Livro ensina a educar para os afetos... sem pressa

“Devagar que Tenho Pressa de Sentir” é um livro que reúne poemas e ilustrações criados pelos alunos que frequentavam o 6.º ano da Escola Básica 2,3 de Mundão no ano letivo anterior, sob a direção e orientação da professora Isilda Monteiro.

A iniciativa teve como mentora a Escola Superior de Saúde de Viseu e enquadra-se nas orientações do Programa Nacional de Saúde Escolar da Direção-Geral da Saúde, promovendo a educação para os afetos e a sexualidade como pilares fundamentais para a construção de relações saudáveis.

Ao longo das sessões educativas realizadas no âmbito do projeto, os alunos tiveram oportunidade de refletir sobre emoções, respeito, empatia e tomada de decisões informadas, desenvolvendo competências socioemocionais essenciais para o seu crescimento pessoal e social.

O resultado é uma obra sensível e inspiradora, onde palavras e desenhos revelam a forma como os jovens percecionam os afetos, os relacionamentos e o respeito pelo outro.

A sessão de apresentação do livro contou com a presença de algumas entidades parceiras e representantes da comunidade, nomeadamente. Para os pais e encarregados de educação e para todos, o resultado final é motivo de orgulho pelo reconhecimento e valorização do trabalho desenvolvido pelos seus filhos.

Mais do que um livro, “Devagar que Tenho Pressa de Sentir” é um convite à reflexão sobre a importância dos afetos, da comunicação e do respeito nas relações humanas. Uma obra construída pelas vozes dos mais jovens, capaz de abrir corações, inspirar leitores e reforçar a importância da educação para a saúde e para a cidadania.

Fonte: Diário de Viseu por indicação de Livresco

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Autistas têm maior probabilidade detransição de género em Portugal (c) O REGIÕES. Reprodução proibida.

Os cidadãos autistas têm maior probabilidade de transição de género face aos indivíduos com desenvolvimento neurológico típico, segundo revelam recentes dados estatísticos internacionais de saúde mental. O fenómeno clínico gera novos desafios pedagógicos nas escolas públicas nacionais.

Esta convergência estatística, que aponta para uma expressão superior a 60 por cento de probabilidade em determinados perfis clínicos, mobiliza equipas médicas especializadas. Contudo, o diagnóstico requer uma triagem diferenciada para evitar confusões com outras manifestações psicológicas.

Segundo informação recolhida junto de especialistas em pedopsiquiatria, as dinâmicas de isolamento social potenciam os dilemas identitários nesta população vulnerável. Desta forma, as instituições escolares procuram adoptar directrizes que garantam o acompanhamento adequado dos alunos.

Factores de saúde mental influenciam identidade dos jovens

A ligação entre a neurodivergência e a incongruência de género exige uma análise detalhada das condições psicopatológicas paralelas dos pacientes. Estudos pioneiros demonstram que esta sobreposição de características carece de uma abordagem médica integrada (George & Stokes, 2017).

Por outro lado, pacientes com perturbação obsessivo-compulsiva e depressão crónica demonstram, com frequência, uma vulnerabilidade acrescida a crises de auto-imagem severas. Investigações europeias confirmam que o sofrimento psicológico agudo nestes grupos despoleta frequentemente dúvidas sobre a identidade (Van Der Miesen et al., 2016).

Dessa forma, a rigidez de pensamento característica do espectro do autismo pode moldar a percepção que o jovem constrói sobre o próprio corpo. Além disso, as crises graves de ansiedade social levam os menores a procurar respostas rápidas para o seu mal-estar noutras esferas existenciais.

Assim, os médicos sublinham a importância de avaliar se a manifestação é um sintoma secundário de instabilidade emocional passageira. A literatura médica internacional alerta para a necessidade de avaliações psicológicas longas e multidisciplinares nestas faixas etárias particulares (Strang et al., 2014).

Por outro lado, o historial clínico de traumas ou a ausência de laços afectivos seguros em casa complicam a distinção diagnóstica definitiva. Torna-se imperativo que as equipas clínicas avaliem o contexto psicossocial completo antes de avançar para qualquer decisão de cariz irreversível.

Família e escola cooperam no suporte psicopedagógico

Entretanto, o equilíbrio emocional dos adolescentes depende directamente da articulação concertada entre os encarregados de educação e os gabinetes de psicologia escolar. O acolhimento compreensivo sem julgamentos precipitados constitui a base para estabilizar o comportamento quotidiano dos estudantes.

De acordo com directrizes clínicas recentes, as respostas de suporte devem focar-se na redução imediata da angústia existencial do menor (Dewinter et al., 2020). Os pais devem manter um diálogo aberto e isento de pressões ideológicas ou familiares directas no ambiente doméstico.

Em paralelo, os professores necessitam de acções de formação contínua para gerir os conflitos e evitar a discriminação nas salas de aula. A partilha de informação entre a comunidade escolar e os terapeutas evita respostas extremas que prejudicam o desenvolvimento da personalidade.

Ainda assim, a intervenção nunca deve queimar etapas essenciais do amadurecimento neurológico natural do indivíduo. Dessa forma, o principal objectivo terapêutico passa por reduzir o sofrimento psicológico e assegurar que a criança cresça num ambiente seguro e protector.

Neste sentido, o papel dos psicólogos educacionais passa por criar pontes de comunicação eficazes entre a habitação familiar e a sala de aula. As escolas portuguesas enfrentam a necessidade de actualizar os seus recursos técnicos para responder a esta realidade com objectividade científica.

Desta forma, os especialistas recomendam prudência absoluta no acompanhamento de casos complexos onde a neurodivergência se cruza com questões de género. O foco principal deve permanecer na promoção da saúde mental global e na protecção activa dos direitos fundamentais da infância. 

Fonte: O Regiões por indicação de Livresco

sábado, 30 de maio de 2026

“A saúde mental tem de ser encarada como uma responsabilidade colectiva”


Sérgio Viana é presidente da Direcção Regional do Centro da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Defende mais psicólogos nas escolas, nos cuidados de saúde primários e nas empresas e fala do impacto da pandemia, da solidão digital, do envelhecimento, da violência, da importância das artes e do desafio da inteligência artificial.

Que diagnóstico faz da saúde mental? Para começar, é para mim uma honra ser presidente da Direcção Regional do Centro. A DRC representa aproximadamente cinco mil psicólogos numa área muito abrangente. E isso significa que temos problemas distintos, mas também muitos pontos em comum. E esse diagnóstico também será, no fundo, um dos objectivos do 7.º Congresso da OPP que estamos a preparar para Outubro e que será na região Centro, pela primeira vez. Em termos de saúde mental e saúde psicológica, sinto que tem havido cada vez mais sensibilização para a prevenção e promoção. Isso não acontecia com este impacto há alguns anos. Hoje fala-se mais de ansiedade, depressão, solidão, isolamento, bullying, violência e bem-estar psicológico. As pessoas estão mais disponíveis. Antigamente havia muito a ideia de que isto era coisa de fracos. A velha frase “os homens não choram” ainda existe, mas estamos a trabalhar para a desconstruir.

Essa abertura é igual no litoral e no interior? Há diferenças, naturalmente, mas também há muitos problemas comuns. Uma das coisas que mais me preocupa é a literacia digital e a velocidade com que tudo avançou. A pandemia agravou um problema que já estava instalado. Amplificou as questões da ansiedade, do isolamento e da dependência dos ecrãs. Hoje, tanto numa cidade como Lisboa como numa aldeia do interior, os gadgets estão lá. Os problemas chegam de forma semelhante. O digital trouxe muitas coisas boas, mas também acelerou processos de solidão.

Existem desigualdades no acesso ao apoio psicológico? Sim, claramente. O Serviço Nacional de Saúde é uma porta de entrada privilegiada para os cidadãos, mas ainda há um número insuficiente de psicólogos nos cuidados de saúde primários, nos hospitais e nas escolas. Tem havido investimento e evolução, mas continua a ser insuficiente face à procura. A saúde psicológica deve começar em casa, continuar na escola e ter resposta nos centros de saúde e nos hospitais. Muitas vezes, os primeiros sinais surgem nas crianças e nos jovens, e os professores conseguem detectá-los, porque acompanham os alunos no dia-a-dia. Em casa, por vezes, esses sinais passam despercebidos.

A procura é maior do que a resposta? Muito maior. Se olharmos para a relação entre disponibilidade e procura, percebemos que a necessidade está muito acima da capacidade de resposta. E isto não é apenas uma questão de tratar quem já está em sofrimento. É uma questão de prevenir. A psicologia tem um papel fundamental na identificação precoce de problemas, na promoção da saúde e na criação de respostas antes de chegarmos a situações limite.

O seu percurso passa pelos cuidados paliativos e pela intervenção com crianças e jovens. De que forma essa experiência influencia a sua forma de ver a profissão? Quando comecei a trabalhar era um “psicólogo de gabinete”. Estamos a falar de há mais de 20 anos. Entretanto, muita coisa mudou. A criação da Ordem dos Psicólogos deu identidade à profissão, trouxe reconhecimento e ajudou-nos a perceber que a psicologia é uma área ampla, com intervenção na saúde, educação, justiça, área social, organizações e até na política, entre outras. A experiência no terreno, o contacto com jovens, pais e famílias, mostrou-me a importância da literacia. A literacia digital, a sensibilização nas escolas, a prevenção do bullying, a articulação entre profissionais. Vemos o impacto que o bullying tem quando os jovens chegam aos gabinetes dos SPO, aos hospitais ou aos centros de saúde.
É importante o psicólogo estar perto das pessoas? É fundamental. A comunicação verbal e não verbal é muito importante, sobretudo com os jovens. Quando se cria uma ligação, essa ligação acompanha-os ao longo do crescimento. Tenho jovens que acompanhei quando eram muito novos e que hoje voltam só para me cumprimentar, para dizer que estão bem, com um sorriso.

O que falta para a saúde mental ser prioridade de saúde pública? Falta olhar para a saúde mental como olhamos para outras áreas da saúde: com prevenção, planeamento e responsabilidade colectiva. Muitas vezes ainda funcionamos numa lógica de remediar. As pessoas habituaram-se a ir ao médico quando precisam de um diagnóstico e de uma prescrição. Mas muitos problemas não se resolvem apenas com uma resposta imediata. Precisam de prevenção, acompanhamento e mudança cultural. Como o SNS é uma porta de entrada gratuita e universal, muitas pessoas esperam até a situação estar muito avançada. Isto tem uma dimensão cultural. Mas a mudança tem de vir também de cima, das estruturas governativas, das entidades públicas, das empresas, das escolas e da Assembleia da República. Temos de actuar a montante. Políticas que defendam trabalhadores, empresas que criem condições para conciliar trabalho e família, acesso a psicólogos, gabinetes de saúde ocupacional que incluam verdadeiramente a saúde psicológica.

“A escola é absolutamente fulcral”

As escolas estão preparadas para lidar com ansiedade, depressão, bullying e outras problemáticas? Tem um papel absolutamente fulcral. O psicólogo na escola identifica, previne, informa e forma. Desde que há mais psicólogos nas escolas, há também maior capacidade das próprias escolas criarem ambientes seguros para as crianças e jovens aprenderem. A escola deve ser um lugar de segurança e conhecimento. As equipas multidisciplinares têm tido cada vez mais impacto. O que acontece muitas vezes é que a escola vai um pouco atrás do problema, porque tudo acontece muito depressa. Urge antecipar e prevenir mais.

O que é necessário reforçar? Mais profissionais, mais comunicação e mais pontes. A escola precisa de elementos capazes de ligar a perspectiva dos alunos, dos pais e dos professores. Esse triângulo é essencial. Precisamos de perceber porque é que alguns alunos se sentem sozinhos, porque é que outros se isolam, porque é que alguns têm comportamentos de risco.
O estigma na procura de apoio psicológico continua a existir? Continua, embora menos do que antes. Venho do interior e lembro-me bem de quando comecei a trabalhar. Ainda havia muito a ideia de que ir ao psicólogo era “coisa de malucos”. Quase tinha de fazer um briefing para explicar o que fazia um psicólogo. Costumava dizer que não estava ali para lidar com malucos, mas para evitar que ficássemos todos malucos. No fundo, é isto: prevenir. Hoje há mais abertura, mas o estigma não desapareceu.

Os cuidados de saúde primários são importantes nessa mudança? São fundamentais. O médico de família conhece as famílias e pode referenciar precocemente uma situação para psicologia. Uma mãe deprimida, um pai em luto, uma criança que não compreende o que se passa em casa, tudo isto tem impacto sistémico. A intervenção precoce nos cuidados primários permite perceber a família como um todo e evitar que os problemas se agravem.

“O não é uma palavra poderosa”

Escreveu um artigo intitulado “O Poder do Não”. Porque é tão difícil dizer não? Cada caso é um caso, mas há uma tendência para muitas pessoas terem dificuldade em dizer não porque não querem desiludir os outros, não querem falhar expectativas ou têm medo das consequências. Nos jovens, isso é ainda mais evidente. Um jovem pode dizer sim a tudo porque quer integrar-se num grupo. Se não desenvolver segurança e auto-estima, pode continuar pela vida adulta a dizer sim quando, na verdade, queria dizer não. Dizer não é uma das palavras mais poderosas que temos. Mas implica consciência das consequências. O problema é que muitas pessoas têm medo das consequências do não.

Dizer não também é uma questão de auto-estima? Sim. Tem a ver com respeito por nós próprios, com definição de limites, com capacidade de afirmação pessoal. Trabalhar a auto-estima é também trabalhar a capacidade de percebermos o que queremos para a nossa vida. A psicologia ajuda muito nesse desenvolvimento pessoal. Ajuda jovens inseguros a tornarem-se adultos mais fortes, com estrutura, carácter e capacidade de definir as suas ideias.

A auto-estima deve assentar mais no respeito pelo que conseguimos cumprir? Sim, mas acrescentaria uma nuance: é preciso termos consciência daquilo que conseguimos cumprir. Uma coisa é respeitarmos o que conseguimos fazer; outra é sabermos realmente quais são as nossas capacidades e limites. Isso vem com experiência. Mas também é importante aceitar quando algo não é o nosso patamar ou a nossa área. A auto-estima não é achar que conseguimos tudo. É termos consciência do que somos, do que conseguimos e do que ainda precisamos de trabalhar.

As redes sociais distorcem essa percepção? Muito. Vivemos uma espécie de viagem do ego, muito alimentada pelas redes sociais. Cria-se uma imagem, muitas vezes com filtros, quase ficcional. Pessoas reais tornam-se personagens. E depois há uma dependência da validação, dos cliques, dos gostos, da dopamina que isso gera. Muitas vezes, por trás de uma imagem muito forte está uma pessoa muito frágil. O narcisismo também passa por aí. Atrás de um ego aparentemente superior pode estar uma grande fragilidade.

Sente que há uma normalização da agressão, do ódio e da violência? Sim. E isso preocupa-me muito, sobretudo quando vem de camadas da sociedade que deviam dar o exemplo. Quando se criam discursos de superioridade e inferioridade entre seres humanos, estamos a abrir uma porta muito perigosa. Isso já existiu e sabemos o que aconteceu. Hoje voltamos a ver discursos que alimentam a ideia de que uns são superiores a outros. A chamada “manosfera”, por exemplo, recupera ideias arcaicas de superioridade masculina e alimenta ódio contra as mulheres. Isto não é inocente.

Isso tem impacto na violência doméstica e na violência de género? Claro. Vivemos num país onde a violência doméstica mata mais de 20 mulheres por ano. Estamos a falar de discursos que tentam normalizar comportamentos racistas e machistas como se fossem apenas opiniões ou brincadeiras. Isto é grave. Temos de defender o respeito e a dignidade humana. Também me preocupa a ideia do “pôs-se a jeito”. Ainda se ouve isto em casos de violência sexual, como se uma mulher não pudesse vestir-se como quer ou ter a liberdade de sentir-se bem consigo mesma.

A identidade de cada pessoa também deve estar no centro dessa discussão? Mais do que falar apenas de identidade de género, devemos falar da identidade de cada um. Cada pessoa merece respeito e dignidade. A homofobia, o racismo, o machismo, o ciberbullying e todas as formas de ódio têm de ser desconstruídas. A psicologia tem um papel importante, mas esta é uma responsabilidade colectiva.

Trabalha também em cuidados paliativos e fim de vida. O que essa área ensina sobre saúde mental? Ensina muito. Antes de mais, acredito que temos de ter vocação para as áreas em que trabalhamos. Se não sentimos vocação, dificilmente nos sentimos confortáveis e úteis. No meu percurso, entrei na Psicologia por curiosidade pelo ser humano, pelo comportamento, pela forma como somos todos únicos e diferentes. Mais tarde, surgiu a oportunidade de trabalhar em cuidados paliativos, área para a qual já tinha feito formação por interesse.

A consciência da finitude muda a forma como se olha para a vida? Muda muito. A percepção da nossa própria finitude e da finitude do outro transforma-nos. Faz-nos valorizar aquilo que muitas vezes ignoramos no frenesim diário. Vivemos rodeados de estímulos, informação, canais, internet, notificações, redes sociais. Temos tanta coisa à nossa volta que, por vezes, perdemos o foco do mais importante: o outro.

Na região Centro, marcada também pelo envelhecimento, que desafios identifica? Há três palavras que me vêm logo à cabeça: demências, isolamento e sedentarismo. Estão interligadas. Temos uma população idosa com muito potencial, com experiência e sabedoria, mas muitas vezes muito isolada. As famílias estão dispersas, os apoios nem sempre chegam e os hábitos diários nem sempre incluem actividade física ou participação social. Também há um estigma em relação ao envelhecimento. Em muitas situações continuamos a olhar para os idosos como se fossem dispensáveis.

“Sem empatia não se consegue ser um bom psicólogo”

Que competências considera fundamentais para quem começa a exercer Psicologia? Há uma base incontornável: trabalhamos com pessoas. Trabalhamos com emoção e razão. Temos de ter consciência do impacto que a nossa intervenção tem no outro. Sem empatia não se consegue. Sem consciência do outro e consciência de si, também não. A Psicologia estuda o comportamento humano e os processos mentais. Se não nos compreendermos minimamente a nós próprios, dificilmente compreenderemos o outro.

Mas há competências transversais? Sim. Saber comunicar, ser empático, lidar com a emoção do outro, aceitar o outro como ele é, conhecer os próprios limites, ter vontade de continuar a aprender, investigar e crescer. Também é importante gostar da área onde se trabalha.

As artes e a cultura também podem ajudar na promoção da saúde mental? Muito. As artes têm um poder extraordinário. O associativismo surgiu cedo na minha vida e sempre tive uma ligação à fotografia, ao cinema, à literatura. As artes permitem-nos expressar emoções que nem sempre conseguimos pôr em palavras. Através do cinema, da música, do teatro, da dança ou das artes plásticas conseguimos abrir portas de comunicação. As artes ajudam no luto, na inclusão, no combate ao estigma e aos preconceitos. Com as artes, eu diria que somos melhores psicólogos.

É preciso também formar os adultos

O seu mandato é de quatro anos. Quando sair da presidência o que gostava de deixar feito? Quando entrei na Ordem, desde as primeiras eleições, senti isso como uma grande responsabilidade e um grande desafio. Sempre gostei de desafios. Há três palavras que definem aquilo que quero deixar: missão, determinação e proximidade. Desde o início quis mostrar a importância da nossa ciência e da nossa profissão para a saúde colectiva e para o cidadão. Senti isso no interior, quando trabalhava praticamente sozinho num pequeno hospital. O reconhecimento das pessoas mostrava-me que a Psicologia fazia a diferença nas suas vidas. E continuo a sentir isso todos os dias, cada vez mais.

A proximidade aos colegas é também uma prioridade? Sim. Antes de tudo isto, muitos de nós trabalhávamos sozinhos. Eu era o único psicólogo em diferentes contextos. Com o tempo percebemos que unidos damos melhores respostas e que, em equipa, trabalhamos melhor e temos mais impacto. A Ordem tem esse papel de unir, criar dinâmicas, aproximar colegas e reforçar a profissão. Quero que os psicólogos se sintam apoiados.

A inteligência artificial pode ser um risco na saúde mental? Pode ser risco e pode ser ferramenta. O problema surge quando as pessoas recorrem a conselheiros virtuais que estão programados para validar tudo aquilo que o utilizador diz. Isso pode resultar em consequências perigosas. Por isso, precisamos de literacia digital. Não apenas para os jovens, mas também para os pais e para a sociedade em geral.

É pai e marido. Como distingue o papel de psicólogo do papel de pai? É difícil, como é difícil para todos os pais. A literatura e a formação ajudam-nos, mas os nossos filhos não são nossos utentes. São os nossos filhos. Há emoção, há apego, há erros, há aprendizagem. E ainda bem que há emoção. Se ficássemos apenas na razão, não valia a pena. Todos os pais erram. Eu já errei muitas vezes. E é importante termos consciência disso e sabermos pedir desculpa. Já pedi desculpa aos meus filhos porque errei.

Fonte: O Mirante por indicação de Livresco

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Intervenção linguística em idade pré-escolar: Efeitos na linguagem e leitura quatro anos depois


Introdução

As intervenções linguísticas na infância apresentam um elevado potencial para melhorar a vida das crianças, gerando simultaneamente benefícios económicos e sociais para a sociedade (Heckman et al., 2013). A linguagem constitui um alvo central da intervenção precoce, uma vez que se trata de uma capacidade fundamental não só para o brincar e a interacção social, mas também, numa fase posterior, para o desenvolvimento da leitura e para o sucesso académico. As intervenções precoces na linguagem incidem geralmente sobre um conjunto alargado de habilidades, incluindo o vocabulário, a gramática e a narrativa (Rogde et al., 2019). Diversos estudos mostraram que estas habilidades podem ser significativamente melhoradas a curto prazo (e.g., Donolato et al., 2023; Rogde et al., 2019). Contudo, subsistem dúvidas quanto à manutenção desses efeitos a longo prazo e quanto às razões pelas quais as melhorias podem diminuir ou desaparecer ao longo do tempo (Bailey et al., 2017). Um dos principais argumentos a favor da possibilidade da persistência dos ganhos das intervenções linguísticas precoces prende-se com a plasticidade cerebral (e.g., Fox et al., 2010). Neste sentido, a estimulação precoce através de actividades educativas estruturadas poderá contribuir para a construção de uma base sólida para a aprendizagem da linguagem, potenciando o desenvolvimento de habilidades subsequentes.

Estudo de Hagen e colaboradores (2025)

O objectivo deste estudo foi avaliar se os efeitos de uma intervenção linguística realizada no pré-escolar se mantêm a longo prazo, especificamente até ao 4.º ano de escolaridade.

Foram colocadas as seguintes questões de investigação:
  1. Quais os efeitos a longo prazo da intervenção linguística em idade pré-escolar na linguagem expressiva, medida no 1.º e 4.º anos de escolaridade? Estes efeitos são moderados pelo sexo e/ou pelas diferenças nas habilidades linguísticas iniciais?
  2. Quais os efeitos da intervenção linguística em idade pré-escolar na compreensão da leitura no 4.º ano de escolaridade?
Participantes

Numa primeira fase, 860 crianças norueguesas, com idades entre os 4 e 5 anos, inscritas no ensino pré-escolar, foram avaliadas nas habilidades de vocabulário expressivo e de vocabulário receptivo. O vocabulário expressivo foi avaliado pelo subteste de Nomeação de Figuras da Escala de Inteligência de Wechsler — a terceira edição do Wechsler Preschool and Primary Scale of Intelligence. Já o vocabulário receptivo foi avaliado com base na Escala Britânica de Vocabulário por Imagens — a segunda edição do British Picture Vocabulary Scale. Foram seleccionadas para participar no estudo as crianças cujos resultados se encontravam abaixo do percentil 35 (N=301), por apresentarem capacidades linguísticas relativamente baixas, mas não clinicamente comprometidas. As crianças seleccionadas foram aleatoriamente distribuídas por dois grupos:
  • Grupo de intervenção: Programa de compreensão da linguagem (n=157);
  • Grupo de controlo: Ensino habitual (n=144).
Intervenção

As crianças do grupo de intervenção participaram num programa linguístico de 30 semanas (três sessões por semana, num total de 90 sessões), implementado por educadores de infância com formação específica.

A intervenção consistiu em dois componentes principais:

Avaliação dos efeitos da intervenção

Os grupos foram avaliados quanto às capacidades linguísticas e de leitura em dois momentos: sete meses após a intervenção (correspondendo ao ensino pré-escolar ou 1.º ano de escolaridade, consoante a idade de início da intervenção) e no 4.º ano de escolaridade.

Instrumentos de avaliação utilizados no pré-escolar e no 1.º ano de escolaridade:


Instrumentos utilizados no 4.º ano de escolaridade:

Resultados

Quais os efeitos a longo prazo da intervenção linguística em idade pré-escolar na linguagem expressiva, medida no 1.º e 4.º anos de escolaridade? Estes efeitos são moderados pelo sexo e/ou pelas diferenças nas competências linguísticas iniciais?

Os resultados do estudo indicam que a intervenção linguística realizada em idade pré-escolar teve efeitos positivos na linguagem expressiva no 1.º ano de escolaridade, cerca de sete meses após o término da intervenção. Esses efeitos foram particularmente evidentes nas crianças que apresentavam competências linguísticas iniciais mais baixas, sugerindo que a intervenção foi mais benéfica para os alunos em maior risco de dificuldades linguísticas. Não se observaram diferenças entre rapazes e raparigas, indicando que o sexo não moderou os efeitos da intervenção.

Já no 4.º ano de escolaridade, aproximadamente quatro anos após a intervenção, os efeitos na linguagem expressiva desapareceram completamente, não se verificando diferenças entre o grupo de intervenção e o grupo de controlo. Além disso, nessa fase, os efeitos também não foram moderados pelo sexo nem pelas capacidades linguísticas iniciais, o que indica um efeito de perda total dos ganhos ao longo do tempo.
Quais os efeitos da intervenção linguística em idade pré-escolar na compreensão da leitura no 4.º ano de escolaridade?

O estudo mostra que a intervenção linguística em idade pré-escolar não produziu efeitos significativos a longo prazo. As crianças que participaram na intervenção não apresentaram níveis de compreensão leitora superiores aos do grupo de controlo (ensino habitual no pré-escolar), mesmo quando se controlaram as capacidades linguísticas iniciais. Também não se verificou qualquer moderação dos resultados pelo sexo. Assim, apesar dos ganhos iniciais observados na linguagem expressiva, estes não se mantiveram ao longo do percurso escolar nem se traduziram em melhorias duradouras na compreensão da leitura, sugerindo a necessidade de apoio linguístico contínuo para que os efeitos sejam sustentados ao longo do tempo.

Conclusão e implicações educativas

Este estudo produziu resultados relevantes sobre a durabilidade dos efeitos de uma intervenção linguística precoce e relativamente intensiva.

A intervenção linguística no pré-escolar produziu benefícios a curto e médio prazo (até ao 1.º ano), sobretudo para crianças com maiores dificuldades iniciais, mas não produziu efeitos duradouros até ao 4.º ano de escolaridade. Apesar de a intervenção ter melhorado inicialmente a linguagem expressiva, esses ganhos não se mantiveram ao longo do tempo e não se traduziram em melhorias na compreensão da leitura no 4.º ano, sugerindo que intervenções linguísticas precoces, quando não são sustentadas ao longo da escolaridade, podem não produzir benefícios duradouros na leitura. Os resultados sublinham, assim, a necessidade de apoio linguístico contínuo, em vez de programas intensivos de curta duração, para que os efeitos sejam sustentados ao longo do tempo. Deste modo, as intervenções devem ser concebidas a partir de uma perspectiva longitudinal, incorporando mecanismos que permitam consolidar e expandir os ganhos iniciais ao longo do percurso escolar. O estudo reforça a ideia de que a intervenção precoce deve ser encarada não como uma solução única, mas como o ponto de partida para um apoio sustentado ao longo do percurso escolar.

Este texto é um resumo do artigo «Do the effects of a preschool language intervention last in the long run? A 4-year follow-up study», disponível aqui.

Célia Oliveira e Marta Pereira

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Novas regras de acesso ao superior restringem entrada de estudantes com deficiência

Regulamento passou a exigir um único critério para o contingente de estudantes com deficiência: atestado multiúsos com incapacidade superior a 60%. Famílias temem exclusão de alunos com doença grave.

As alterações ao regulamento de acesso ao ensino superior estão a preocupar as famílias de alunos com doenças graves e incapacitantes, que denunciam o facto de as novas regras do contingente prioritário para candidatos com deficiência estarem a excluir estudantes que, apesar de faltarem longos períodos às aulas devido a problemas de saúde, não conseguem obter um atestado multiúsos com incapacidade igual ou superior a 60% — e que será, segundo as novas regras, o requisito essencial para se poderem candidatar ao superior por via deste contingente.

Um desses casos é o de uma mãe, da região do Porto, cujo filho, estudante do 12.º ano do curso de Ciências e Tecnologias, sofre de uma síncope neurocardiogénica desde a infância. Os sintomas agravaram-se na adolescência e fazem com que se sinta mal com frequência e falte recorrentemente às aulas. Poderá vir a ser submetido a "uma cirurgia muito delicada" e continua à espera da decisão final sobre o pedido de atestado multiúsos. (...)

Continuação da notícia em Público

terça-feira, 26 de maio de 2026

Educação Inclusiva - Desafios na Resposta à Diversidade

Hoje, partilho o e-book "Educação Inclusiva - Desafios na Resposta à Diversidade". Os temas abordados são de interesse para reflexão sobre a política educativa, designadamente ao nível da educação inclusiva e da diversidade.