segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Professores de Educação Especial "não chegam"

No agrupamento de escolas de Águas Santas - na Maia o ano letivo arrancou com todos os professores colocados de educação especial. Mas o número nunca é suficiente.

Há 14 professores de educação especial para acompanhar 174 alunos com necessidades especificas de aprendizagem.

Apesar da aposta que o país tem feito na integração dos alunos com necessidades educativas especiais - nas escolas regulares, a realidade no terreno ainda é muito marcada pela falta de recursos para estas crianças e jovens, professores, assistentes operacionais, psicólogos, terapeutas.

E à falta de profissionais junta-se também a formação. Para muitos professores a formação nesta área não é uma prioridade.
O presidente da associação nacional de docentes da educação especial apela ao governo que não deite a perder tudo o que o país já fez pela educação inclusiva. Apesar de ser um dos mais avançados da Europa no que diz respeito à inclusão nas escolas regulares, a educação especial tem ainda muitas lacunas.

A começar pelos 98 centros de recursos para a inclusão - que a cada ano - fornecem às escolas o apoio necessário à integração dos alunos com necessidades especificas de educação. E que começaram o ano letivo sem saber com que financiamento contavam para trabalhar. David Rodrigues - aponta a falta de planeamento e de atenção ao problema.

O presidente da associação nacional de docentes da educação especial chama também à atenção para a reforma da educação inclusiva que o governo aprovou recentemente e que está prometida para entrar em vigor em Janeiro.

David Rodrigues fala de uma reforma que fica aquém das necessidades. Ela devia conter a regulação dos centros de recursos para a inclusão e a forma como eles se devem articular com as escolas.

Nota do editor do blog: David Rodrigues já não é o presidente da Pró-Inclusão - Associação Nacional de Docentes de Educação Especial. De facto, foi fundador e presidente da direção durante vários anos.

Fonte: RTP com áudio

Da universalidade da escola

A universalidade da escola está consagrada na Constituição (art.º 73.º a 75.º). Para ser de todos para todos, há outros diplomas legais (DL n.º 54/2018 — princípios e normas para a inclusão; Despacho Normativo n.º 10-A/2018 — regime de constituição de grupos e turmas). Colocar 30 ou mais alunos dentro de uma só turma não vai cumprir requisitos básicos para uma educação universal e inclusiva.

E grave é normalizar, de novo, após 30 anos de alterações educativas para promoção do sucesso de todos — incluindo alunos com necessidades específicas variadas —, turmas demasiado grandes, sem condições para os receber, sem espaço para trabalhar com qualidade, sem se considerarem todos os envolvidos numa aula.

Os novíssimos centros educativos e escolas recentemente intervencionadas não têm espaço físico numa sala de aula para tantos alunos — lembrando que cada um traz consigo mochila, lancheira, saco para Educação Física, que também terão de ficar, muitas vezes, na sala de aula, ocupando alas e cabides.

Numa sala de aula, para além do professor e dos (30) alunos, frequentemente também lá poderão estar outros docentes a avaliar professores, assistentes operacionais a acompanhar alunos, técnicos de recursos para a inclusão, professores coadjuvantes, tutores. E a lista pode continuar. Ao contrário do que acontecia há 30 ou 40 anos, a sala de aula atual quer-se dinâmica, aberta, inclusiva, segura, com lugar para todos os intervenientes.

Um professor tem à sua frente 30 alunos, cada um com uma história e bagagem próprias, necessidades diversas, dificuldades variadas, a quem tenta dar uma resposta, encontrar uma solução, perceber, auxiliar, estar presente, diferenciando métodos de ensino e recursos, gerindo situações de indisciplina e sem esquecer que, como diz o poeta, “é um fingidor”, porque também tem a sua vida, a(s) sua(s) realidade(s) que oculta dos alunos.

Por vezes encontram-se nas redes sociais comentários como “eu também estive numa turma com 35 alunos e não morri”. Mas o resultado/objetivo da escola não é esse! Falar assim desvaloriza todo um caminho evolutivo que se pretende ser melhor, denigre a escola pública e as suas políticas de universalidade e de inclusão e normaliza um retrocesso no acesso à educação, marcando firmemente o famigerado rótulo da escola-depósito.

Mas esta questão não se esgota no número de alunos por turma, nem nas condições físicas das salas de aula. Há algo mais profundo que importa discutir: a forma como (ainda) se olha para a diferença e como se entende a própria educação. Desdizendo a comunidade científica e médica, com anos de experiência e de estudo, há, portanto, aqueles que se insurgem contra uma suposta educação tradicional a favor de uma educação para o século XXI, negando ou troçando da neurodiversidade, da deficiência, da diferença. Hoje PHDA, amanhã autismo, depois de amanhã depressão e, no futuro mais próximo, qualquer tipo de perturbação neurológica ou mental ou até mesmo física – enfiada num bloco dentro da escola, mas lá longe. Não se percebe porque ainda se utiliza a velha e fracassada estratégia de insultar aquilo que se crê errado para defender aquilo que crê certo.

Não se pode não deixar de entrar na educação para e do século XXI a negar a neurodiversidade ou a deficiência. E é precisamente aqui que a discussão sobre a dimensão das turmas e as condições de aprendizagem se cruza com a inclusão. Como se pode defender uma escola para todos se, ao mesmo tempo, se ignoram as características, as necessidades e as realidades de tantos dos que a frequentam – enquanto alunos e professores? Como se pode falar de uma educação do século XXI se se continua a normalizar condições que dificultam a participação, a aprendizagem e o sucesso de todos?

A escola recebe todos (legislação lá atrás que assim o preconiza). A escola tenta dar respostas. Mas não esqueçamos nunca que quem faz a escola são as pessoas. As pessoas certas, com o coração e o cérebro nos locais certos, fazem a diferença e são a diferença. Assuma-se que há a diferença, que há a deficiência e que nenhuma vida é inferior a qualquer outra. Assuma-se que todos podem contribuir para a evolução e, assim sim, conseguir caminhar e entrar na tal educação do século XXI, na tal escola universal e inclusiva.

Porque, o sentimento que grassa é que, algures, ao longo do caminho, perdeu-se a noção do que é a escola. Universalizar a escola não é aumentar o número de alunos por turma; é garantir condições para que todos possam aprender.

Maria Tomé

Fonte: Visão

sábado, 17 de outubro de 2026

Uma escola para todos não pode deixar ninguém para trás

A equidade não significa dar a todos exatamente o mesmo. Significa proporcionar a cada aluno as condições de que necessita para ter oportunidades reais de aprender e progredir. Uma criança que precisa de mais tempo para realizar uma tarefa não está a receber um privilégio. Um aluno que necessita de tecnologia de apoio não está a beneficiar de uma vantagem injusta. Um jovem que precisa de acompanhamento especializado não está a ser favorecido.

Portugal gosta de falar de inclusão. Está presente nos discursos políticos, nos projetos educativos, nos documentos das escolas e na legislação. Mas devemos ter a coragem de questionar: estamos realmente a construir uma escola inclusiva ou estamos apenas a aprender a usar a palavra “inclusão”?

A resposta não é simples e não pode ser encontrada apenas na legislação.

O Decreto-Lei n.º 54/2018 representou uma mudança importante na forma como Portugal encara a educação inclusiva. O princípio é claro – todos os alunos têm direito a uma educação de qualidade, independentemente das suas características, capacidades ou dificuldades. Cabe à escola identificar e eliminar as barreiras à aprendizagem e à participação, criando condições para que cada aluno possa desenvolver o seu potencial.

É um princípio que ninguém deveria contestar, mas o verdadeiro desafio está em transformá-lo numa realidade quotidiana.

O problema começa quando percebemos que, muitas vezes, existe uma distância significativa entre aquilo que a lei determina e aquilo que as escolas conseguem concretizar.

Incluir não é apenas colocar um aluno numa sala de aula e considerar que o trabalho está feito. Não é garantir a sua presença física na escola e, simultaneamente, deixá-lo à margem das aprendizagens, das atividades ou da vida da turma.

Estar presente não significa, necessariamente, participar. E participar não significa, por si só, aprender.

Uma escola verdadeiramente inclusiva tem de ser capaz de responder à diversidade dos seus alunos, mas, para isso, são necessários recursos, tempo, profissionais qualificados e condições de trabalho adequadas.

São necessários professores preparados para responder a diferentes ritmos e formas de aprendizagem. São necessários docentes de Educação Especial valorizados e com condições para desempenhar plenamente as suas funções. São necessários psicólogos, terapeutas e outros técnicos especializados, bem como assistentes operacionais em número adequado. São necessários materiais pedagógicos, tecnologias de apoio e uma articulação efetiva entre a escola e as famílias.

É precisamente aqui que continuamos a falhar.

Exigimos cada vez mais às escolas, aos professores e aos restantes profissionais, mas nem sempre lhes disponibilizamos os meios indispensáveis para responder a essa exigência. Esperamos que individualizem o ensino, adaptem estratégias, acompanhem diferentes necessidades, promovam a participação e garantam aprendizagens significativas, enquanto enfrentam turmas numerosas, escassez de recursos e uma crescente carga burocrática.

Não podemos exigir uma escola inclusiva de excelência e, ao mesmo tempo, aceitar respostas insuficientes.

A equidade não significa dar a todos exatamente o mesmo. Significa proporcionar a cada aluno as condições de que necessita para ter oportunidades reais de aprender e progredir. Uma criança que precisa de mais tempo para realizar uma tarefa não está a receber um privilégio. Um aluno que necessita de tecnologia de apoio não está a beneficiar de uma vantagem injusta. Um jovem que precisa de acompanhamento especializado não está a ser favorecido.

Está a ser-lhe garantido o direito de aprender em condições adequadas às suas necessidades.

Esta é uma mudança cultural que ainda precisamos de consolidar. Temos de deixar de olhar para os apoios à inclusão como uma concessão e passar a entendê-los como um direito e um investimento na igualdade de oportunidades.

A inclusão começa na sala de aula, mas não se esgota nela. É uma responsabilidade de toda a comunidade educativa. Direções, professores, técnicos, assistentes operacionais, famílias e alunos têm um papel a desempenhar. Uma escola inclusiva constrói-se através da cooperação, da partilha de responsabilidades e de uma visão comum sobre o direito de todos à educação.

Por isso, é igualmente urgente valorizar os profissionais que trabalham nesta área. Não podemos exigir competências cada vez mais especializadas e, simultaneamente, desvalorizar as condições em que estes profissionais exercem a sua missão. A sua intervenção não deve ser vista como um complemento dispensável, mas como parte integrante de uma resposta educativa que se pretende eficaz e verdadeiramente inclusiva.

Investir na Educação Especial e na educação inclusiva é investir na escola pública. Mas é também investir no futuro da sociedade.

Uma criança que aprende, desde cedo, a conviver com a diferença tem mais oportunidades de se tornar um adulto capaz de respeitar os outros, reconhecer a diversidade e participar numa sociedade mais justa. Uma escola onde existem diferentes formas de aprender é também uma escola que prepara melhor os alunos para a realidade de um mundo plural, democrático e solidário.

Por isso, a discussão sobre a Educação Especial e a inclusão não deve ficar confinada aos especialistas, às reuniões escolares ou aos documentos oficiais. Deve envolver toda a sociedade, porque o modo como tratamos aqueles que enfrentam maiores barreiras à aprendizagem e à participação diz muito sobre o país que somos e sobre aquele que queremos construir.

Não precisamos de uma escola onde todos sejam iguais. Precisamos de uma escola onde todos tenham a mesma dignidade, sejam respeitados nas suas diferenças e encontrem oportunidades reais para aprender, participar e desenvolver as suas capacidades.

A legislação é indispensável, os princípios são fundamentais e os discursos podem ajudar a mobilizar vontades. Mas nada disso é suficiente quando faltam os recursos, o acompanhamento e as condições necessárias para transformar as intenções em resultados concretos.

A inclusão não pode ser apenas uma palavra bonita inscrita numa lei ou num projeto educativo. Tem de ser um compromisso traduzido em decisões, recursos e práticas concretas, todos os dias.

Porque uma escola verdadeiramente inclusiva não é apenas aquela que abre as portas a todos. É aquela que cria condições para que ninguém fique para trás.

Fernando Camelo de Almeida

Fonte: Visão por indicação de Livresco

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Governo afasta regras vinculativas para uso de inteligência artificial nas escolas

O ministro da Educação, Ciência e Inovação afirmou hoje que as novas orientações sobre a utilização da inteligência artificial (IA) nas escolas não terão caráter vinculativo, privilegiando uma abordagem pedagógica que permita acompanhar a rápida evolução da tecnologia.

“São orientações”, afirmou Fernando Alexandre à agência Lusa, à margem da Conferência Mundial sobre o Desenvolvimento do Ensino Profissional e Técnico, que decorre na cidade chinesa de Tianjin.

O governante explicou que a IA oferece oportunidades para o desenvolvimento das competências dos alunos e para a melhoria das práticas pedagógicas, mas também apresenta riscos que evoluem à medida que surgem novas aplicações.

“Uma das mensagens nas orientações é precisamente a capacidade de adaptação àquilo que são as novas aplicações que vão surgindo, as novas possibilidades”, afirmou.

Segundo Fernando Alexandre, o objetivo é ajudar as escolas e os professores a utilizar a tecnologia de forma eficaz, tendo como prioridade a melhoria das aprendizagens.

O ministro sublinhou que o desenvolvimento das competências digitais é central na estratégia do Governo, mas advertiu que a introdução de novas ferramentas nas escolas deve ser acompanhada de regras e de uma avaliação dos seus benefícios.

Como exemplo, apontou a regulamentação da utilização dos telemóveis nas escolas e a redução do recurso aos manuais digitais nos últimos dois anos.

“Aquilo que aconteceu nos últimos dois anos foi uma redução até significativa do uso dos manuais digitais, precisamente porque a evidência do seu benefício não era óbvia”, afirmou.

Fernando Alexandre explicou que as orientações sobre inteligência artificial resultam de um trabalho desenvolvido ao longo do último ano, que envolveu a auscultação de várias entidades e a recolha de centenas de contributos.

O documento, colocado em consulta pública na quinta-feira, pretende agora recolher novas contribuições das escolas e da comunidade educativa.

O ministro revelou ainda que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que está a acompanhar a reforma do sistema educativo português, deverá também contribuir para o documento, nomeadamente na vertente da transformação digital.

Questionado sobre a possibilidade de reforçar o peso das provas orais e presenciais para avaliar os conhecimentos dos alunos, numa altura em que muitos trabalhos são realizados com recurso à inteligência artificial, Fernando Alexandre considerou que essa preocupação é particularmente relevante no ensino superior.

“No básico e no secundário, isso não tem uma grande relevância”, afirmou, referindo-se ao peso dos trabalhos realizados fora da sala de aula na avaliação dos estudantes.

O governante reconheceu, contudo, que a utilização da inteligência artificial tem implicações tanto no ensino como na avaliação.

“Estas orientações afetam não apenas o ensino, como também a avaliação”, sublinhou.

Fernando Alexandre recordou que, enquanto professor universitário, alterou já em 2022 o modelo de avaliação de uma disciplina, devido à utilização de ferramentas de inteligência artificial.

“Em 2022, mudei no próprio semestre a avaliação, porque tinha um ensaio e ele foi alterado para apresentações orais”, afirmou.

Fonte: Executive Digest por indicação de Livresco

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

PSP registou 177 ocorrências ligadas a bullying nas escolas num ano

A Polícia de Segurança Pública iniciou esta segunda-feira a operação nacional “Bullying é Para Fracos”, que vai decorrer até 23 de outubro em estabelecimentos de ensino de todo o país.

A iniciativa será desenvolvida pelas Equipas do Programa Escola Segura e destina-se a alunos de todos os anos de escolaridade, professores, assistentes operacionais, pais e encarregados de educação.

O objetivo é reforçar a prevenção do bullying e do cyberbullying, ajudar a comunidade escolar a reconhecer sinais de alerta e incentivar a denúncia precoce das situações.
177 ocorrências relacionadas com bullying e cyberbullying

No ano letivo 2025/2026, as equipas da Escola Segura registaram 2.898 ocorrências criminais.

Destas, 155 estavam relacionadas com situações de bullying e 22 com cyberbullying, num total de 177 ocorrências, correspondentes a 6,1% dos registos criminais daquele ano letivo.

Segundo a PSP, estes números representam um aumento relativamente a 2024/2025.

A polícia realizou ainda 6.332 ações de sensibilização dedicadas aos dois fenómenos, envolvendo mais de 142 mil alunos.

A PSP esclarece que bullying e cyberbullying não constituem, por si só, crimes autónomos. São comportamentos violentos que, dependendo dos atos praticados, podem estar associados a ilícitos criminais.

Testemunhas no centro da campanha

Uma das principais mensagens desta edição da operação dirige-se aos chamados bystanders, ou seja, às pessoas que testemunham situações de intimidação ou violência.

A PSP alerta que permanecer em silêncio, incentivar o agressor ou, no caso do cyberbullying, comentar, divulgar ou partilhar vídeos e imagens humilhantes pode contribuir para agravar o sofrimento da vítima.

Em sentido contrário, denunciar a situação, não partilhar conteúdos e procurar ajuda de adultos ou autoridades pode interromper o ciclo de violência e permitir uma intervenção mais rápida.

A polícia chama também a atenção para as características particulares do cyberbullying, que pode acompanhar a vítima permanentemente através das redes sociais e outras plataformas digitais.

Desequilíbrio de poder e repetição no tempo

Segundo a definição utilizada pela PSP, para uma situação ser enquadrada como bullying devem estar presentes três elementos: desequilíbrio de poder entre agressor e vítima, intenção de provocar sofrimento e repetição dos comportamentos ao longo do tempo.

A operação vai igualmente trabalhar junto das escolas a nova abordagem da UNESCO, que encara o bullying como um processo social que pode afetar diferentes elementos da comunidade escolar e não apenas relações entre alunos.

As situações podem ser denunciadas diretamente às Equipas do Programa Escola Segura, em qualquer esquadra da PSP ou através do contacto disponibilizado pela polícia para o programa.

Fonte: Sapo por indicação de Livresco

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Os carris da avaliação

Há gente com muita sorte. Lotarias, Totolotos, Euromilhões, heranças de parentes desconhecidos, concursos; enfim, existe um mundo interminável de fortunas por levantar que subitamente mudam a vida às pessoas.

Infelizmente, a maior fatalidade destes tesouros escondidos é que só acontecem a alguns. E não podemos estar à espera de que a sorte nos bata à porta para sermos realmente felizes. Temos, pois, de construir a nossa felicidade material. Mas também não há-de ser isso que nos vai impedir de sermos felizes. Já que temos de trabalhar e não apenas de criar como prescrevia Agostinho da Silva, ao menos tenhamos essoutra fortuna de conseguir encontrar um emprego onde façamos exactamente aquilo que gostamos e que, ainda por cima, alguém nos pague por isso.

Este deve ser o objectivo de todos.

Sabemos, porém, que o mercado de trabalho no nosso país é inclemente e nem sempre nos deixa decidir o emprego que procuramos. Se desde cedo soubéssemos o que queríamos vir a ser, profissionalmente, não é certo, mas não é também improvável que, com uma dose de sorte e bastante entusiasmo, não o viéssemos a ser.

Na realidade, aquilo que interessa é, justamente, fazer com que os nossos filhos possam ter uma noção clara daquilo que querem, para promovermos neles o desejo de lutarem por aquilo que desejem ser. E a escola tem um decisivo papel a desempenhar nesta luta.

Se a escola, juntamente com os pais, puder transmitir ao adolescente uma definição clara das suas competências e, naturalmente, das suas incompetências, então estaremos a contribuir para a criação de um cidadão feliz; mesmo que este não tenha ganho o euromilhões. Para isso é preciso saber como vamos desenhar essa imagem do estudante. Numa palavra, como o vamos «avaliar».

Subjectividade não é defeito

Nunca como nos últimos anos se tem debatido tanto o problema da avaliação. O mundo mudou. A percepção é real. O mundo mudou e com ele a relação dos miúdos com a escola e com o acto de aprender. Esta preocupação tem mesmo levado pais e professores a algum descontentamento quanto à forma como a escola anda a fazer o juízo dos seus alunos e filhos.

É uma apreensão legítima e, aliás, bastante saudável. De quando em quando é frutuoso contestar os sistemas de avaliação, uma vez que estes devem mudar sempre que o mundo e os valores dominantes se alteram. Ora, a avaliação é sempre um juízo; uma imagem que, quer se queira quer não, há-de amarrar-se ao aluno durante boa parte da sua vida.

Uma recorrente e fundamentada conclusão que se repete e reverbera em todos os milhares de encontros de educação é que a avaliação deve ser personalizada. Há um consenso quase integral sobre este antigo desafio educacional. Mas é um consenso que impõe consequências logísticas e responsabilidades conceptuais de elevado alcance que todos temem assumir.

Nenhum de nós é, todos o sabemos empírica e filosoficamente, igual. E é aqui que tudo se complica: na amarga consciência de que a avaliação é, por essência do seu objecto, subjectiva.

Se uma avaliação é individual, é inevitável que os critérios também o sejam. Por que razão a criatividade tem de ter o mesmo valor em dois indivíduos diferentes?

Por que razão achamos que o comportamento de um aluno é bom ou mau, sem avaliarmos todo o seu enquadramento familiar, se é este que normalmente define a sua conduta? Ou pior ainda, como vimos recentemente numa ficha actualizada de avaliação, o que significa ser «suficiente» o comportamento ou a criatividade de um aluno? Suficiente em quê?

Suficiente para quê? Por que razão as questões de um teste escrito são colocadas de igual forma para todos os alunos? A cada aluno, cada avaliação. Não tem cabimento falar-se de igualdade quando fazemos a avaliação de uma pessoa.

A subjectividade é uma inerência da avaliação e não um embaraço. Ser subjectivo é um risco mas é também uma exigência intrínseca do processo docimológico que se pretenda rigoroso.

Uma Reforma Educativa feita de pânicos

De maneira nenhuma são estas ideias revolucionárias ou, sequer, novas. Todo o professor se apercebeu delas desde que iniciou a sua carreira. Acontece é que é inconcebível que se imponha qualquer novo sistema de avaliação sem mudar as condições essenciais para que ele possa ser implantado, ao menos modestamente.

Todo o professor vive com o dilema de saber que a avaliação deve ser individualizada mas continua a ter à sua frente cerca de 140 ou 160 alunos, a quem tem de proporcionar uma atenção empenhadamente personalizada.

A avaliação é, nos nossos dias, um acto de coragem destemida. Um professor tem de esquecer que não conhece igualmente todos os seus alunos e ignorar a avaliação personalizada para poder ser funcional. Para todos os alunos ele impõe um determinado conjunto de metas ou outros eufemismos que mudam consoante as modas, itens esses que todo e qualquer aluno tem de atingir, dê lá por onde der.

O que resta da avaliação individualizada? Pouco ou nada. E o pouco que passa, passa na clandestinidade. Uma clandestinidade que todo o professor é obrigado a passar. A monte, como um contrabandista que carrega às costas, por veredas nocturnas, a responsabilidade premente e embaraçada de ter de pôr pão na sua mesa.

O filão do medo

Uma avaliação profissional passa, pois, por várias premissas: é imperativo que o professor tenha tempo para proceder à análise de cada turma. Territórios socio-económicos difíceis reclamam ainda maior atenção aos detalhes que definem o percurso de um aluno. Em todo o caso, poesias à parte, cada jovem é um território que importa povoar com empatia, precisão e profissionalismo. Não vai lá com amadorismos bem intencionados.

Os conselhos de turma, reunião de todos os professores de uma turma, deviam ser muito mais frequentes do que a regularidade das chamadas «Reuniões intercalares» que uma boa percentagem de escolas não chega a convocar. E é primordial que se termine de uma vez por todas com as turmas de mais de 20 alunos. Só assim será possível ajuizar correctamente as suas potencialidades.

Pensar que uma sala de aula com mais de 20 alunos pode ser, nos dias de hoje, algo que faz sentido porque estatisticamente os resultados não mudam nem dependem do número de alunos por turma, é não perceber nada de coisa alguma. Quem diga esta enormidade, proíbe-se a si mesmo de arengar que o mundo mudou e que os miúdos hoje não são os mesmos de há dez anos.

Reformar é preciso. Indiscutivelmente. Mas isso custa. Dinheiro ainda se vai arranjando. Coragem é que é mais difícil. Continuar a reformar os edifícios escolares, reformar os recursos pedagógicos, reformar as práticas didácticas, remunerar solidamente uma

carreira docente ao longo da vida, reformar o sistema de colocação dos professores e, então, reformar curricula e a docimologia.

Há muito por fazer antes de disparar em todas as direcções. Preparar os carris da reforma. Porque assim não vale. Esta reforma continua a arengar a individualização da aprendizagem mas teme as suas consequências. Na educação, como no euromilhões, os números têm de bater certo.

Rui Correia

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Universidade de Leiria e Oeste lança projeto de Leitura Inclusiva Acessível

A Universidade de Leiria e Oeste (ULO) lança esta quinta-feira o projeto Leitura Inclusiva Acessível, iniciativa que visa facilitar o acesso à literatura por pessoas com diferentes necessidades, através da disponibilização de obras em formatos acessíveis.

O projeto, disponível no sítio na internet, é do Centro de Recursos para a Inclusão Digital (CRID), sediado na Escola de Educação e Ciências Sociais da ULO.

À agência Lusa, a coordenadora do CRID, Célia Sousa, afirmou que o LIA surge do ADN deste centro, que se tem dedicado a construir “um livro acessível para todas as pessoas”.

“Esse é um projeto que nos levou à conceção do conceito de livro multiformato”, disse Célia Sousa, referindo que o CRID já editou cerca de uma vintena de livros para o país e fora dele.

Segundo a coordenadora, ao longo de duas décadas, que o centro assinala este ano, o CRID é “também um laboratório onde os alunos” de diferentes cursos e escolas da ULO “têm muitas vezes aulas e workshops”, sendo que “muitos dos alunos dos mestrados foram construindo eles próprios materiais, ou seja, adaptando livros”.

A investigadora adiantou que o CRID tinha “armários cheios de livros, que são material adaptado no âmbito do design universal”, mas sem utilidade, pois as escolas e as famílias não tinham acesso.

Assim nasceu o LIA, para permitir às famílias e escolas requisitarem material.

Por outro lado, o projeto levou também à criação, no próprio CRID, de “um espaço em que é permitida a leitura” por famílias ou escolas, possibilitando, por exemplo, a interação com máquinas de braille e perceber “como é que se constrói um livro acessível”, destacou Célia Sousa.

Desta forma, o LIA permite a partilha do conhecimento, que o CRID tem vindo a desenvolver “acerca da literatura acessível e que está reconhecido a nível internacional em vários países”, com a comunidade e o país.

No site, as pessoas podem conhecer os títulos dos livros disponíveis e fazer a sua requisição, funcionando “basicamente como uma biblioteca”, sendo que “também aí podem fazer as marcações” para se deslocarem até ao CRID.

A esmagadora maioria dos títulos – são mais de 200 mas nem todos estão ainda digitalizados – destina-se ao público infantil, havendo livros com origem noutros países de expressão de língua portuguesa.

“O nosso grande foco são as crianças e estamos a falar em livros que estão em diferentes formatos (…), impressos em braille, em áudio que depois podem aceder através do ‘QR Code’, em pictogramas, em escrita fácil”, exemplificou, acrescentando que são livros pensados para crianças cegas, surdas, com problemas intelectuais, “no espetro do autismo, na dislexia, na hiperatividade”.

A iniciativa foi também idealizada para o público migrante.

“Ao termos os livros em pictogramas, mesmo que não dominem a língua portuguesa, [as crianças] vão conseguir aceder e conseguir entender uma história”, observou a coordenadora do CRID.

De acordo com Célia Sousa, este projeto também é “uma homenagem aos alunos” que passaram pela ULO.

“São livros construídos por eles, que deixam neste repositório, que vai sempre engrandecendo”, acrescentou Célia Sousa, assegurando que o objetivo do LIA é ter cada vez mais livros.

Numa informação enviada à Lusa, a Universidade de Leiria e Oeste salientou que a iniciativa Leitura Inclusiva Acessível tem na sua génese a ideia de que “o acesso à leitura e à literatura deve ser o mais abrangente possível”, pretendendo “contribuir para a redução de barreiras no acesso à leitura, promovendo maior autonomia, participação e acesso à cultura e ao conhecimento”.

O projeto recusa uma perspetiva centrada na deficiência, assumindo, antes, que “a existência de diferentes formas de acesso aos conteúdos pode também beneficiar pessoas com diferentes níveis de literacia, crianças, profissionais de educação, famílias, instituições e outros públicos que procurem recursos adaptados”.

Fonte: Observador por indicação de Livresco

sábado, 10 de outubro de 2026

Literacia digital, inteligência artificial e aprendizagem no PISA 2025

O que mede o PISA no mundo digital?

O PISA procura avaliar o que os alunos de 15 anos conseguem fazer com o que aprenderam durante o seu percurso escolar, e não apenas o que conseguem memorizar. Na edição de 2025, a avaliação, além dos três domínios clássicos (leitura, matemática e ciências), integrou um novo domínio, Learning in the Digital World (LDW), centrado na construção de conhecimento e na resolução de problemas com ferramentas computacionais. A figura 1 ilustra os três domínios clássicos e o quarto domínio inovador (LDW), bem como o que cada um avalia:
Figura 1 — Os três domínios clássicos de avaliação do PISA e o domínio inovador da edição de 2025


O domínio LDW põe os alunos perante ambientes digitais abertos, simulações e tarefas em que têm de explorar, testar soluções, interpretar dados e corrigir erros. O desempenho depende, por isso, tanto do raciocínio como da capacidade de planear, acompanhar o próprio progresso e ajustar a estratégia quando algo não resulta. A tecnologia é o contexto da tarefa; a aprendizagem continua a exigir trabalho intelectual. A escala avalia a resolução computacional de problemas (RCP), centrada numa média de 500 pontos e um desvio-padrão de 100 pontos. A figura 2 apresenta a distribuição das pontuações nos países participantes em 2025.

Figura 2 — Distribuição das pontuações em RCP nos países participantes no PISA 2025


Um resultado promissor, com uma ressalva

Nos dados do PISA 2025 para Portugal, a pontuação média em RCP é de 501 pontos, próxima dos 500 pontos da OCDE. Cerca de 24% dos alunos portugueses alcançam os níveis mais elevados, contra 26% na média da OCDE; 21% ficam abaixo do nível de proficiência mínima (nível 2), face a 23% no conjunto da OCDE.

A diferença entre os alunos do quartil socioeconómico mais elevado (Q4) e os do quartil mais baixo (Q1) na resolução de problemas computacionais é de 59 pontos, bem abaixo dos 99 pontos em matemática, e 92 pontos em ciências. A menor distância em RCP é compatível com um gradiente socioeconómico mais fraco, mas não permite concluir que a literacia digital elimine desigualdades.

À primeira vista, este retrato é favorável. Os valores do PISA 2025 indicam que o estatuto socioeconómico explica 6% da variação dos resultados portugueses em RCP e 17% em matemática. Em ciências, explica 13%. Para leitura, a OCDE reportou 13,5% em Portugal no PISA 2018. Como este último valor pertence a outro ciclo, não deve ser comparado diretamente com os dados de 2025. Estes dados apontam para uma oportunidade: certas competências digitais e computacionais podem ser aprendidas na escola e não dependem exclusivamente dos recursos disponíveis em casa.

Esta leitura deve, contudo, ser prudente. Uma associação mais fraca com o estatuto socioeconómico não significa que a desigualdade tenha desaparecido, nem demonstra que o domínio digital seja por si só responsável por uma redução da mesma. O PISA permite comparar desempenhos e identificar associações; por ser um estudo transversal, não permite estabelecer causalidade.

A inteligência artificial já chegou ao estudo

Quase metade dos alunos portugueses (48%) afirma utilizar chatbots de inteligência artificial (IA) em tarefas escolares pelo menos uma vez por semana, valor ligeiramente acima da média da OCDE (46%). A utilização difundiu-se antes de muitas escolas terem definido orientações curriculares e pedagógicas claras. Proibir ou ignorar a ferramenta não responde à pergunta essencial: o que fazem os alunos com as respostas que recebem da IA?

A frequência de utilização, isoladamente, diz pouco sobre a qualidade da aprendizagem. Nos dados do PISA 2025, os alunos que recorrem todos os dias à IA e avaliam frequentemente a informação obtêm, em ciências, mais 13 pontos do que aqueles que não verificam ou quase nunca verificam as respostas (figura 3). A diferença é equivalente a cerca de meio ano de escolaridade, segundo a métrica usada no PISA 2025. Esta associação é coerente com a evidência analisada pela Comissão Europeia: quando os alunos usam a IA para ampliar o próprio conhecimento e se envolvem ativamente com as respostas, os resultados de aprendizagem tendem a ser melhores; quando aceitam mecanicamente a informação gerada, sem a relacionar com o que sabem, podem aprender menos. Nenhum destes resultados demonstra, por si só, que verificar as respostas da IA cause melhores resultados.

Figura 3 — Pontuações médias em ciências por tipo e frequência de uso da IA

A verificação transforma a ferramenta num ponto de partida para o raciocínio: comparar fontes, procurar erros, pedir justificação e rever conclusões. Sem esse trabalho, a resposta automática pode criar uma ilusão de competência. O aluno pode concluir a tarefa sem consolidar o conhecimento nem aprender a resolver um problema semelhante sem ajuda. Ferramentas genéricas de IA podem ajudar a completar tarefas escolares sem garantir a aquisição e a transferência de conhecimento; em certos casos, o recurso mecânico às respostas pode até estar associado a piores resultados.

O custo do atalho cognitivo

Quando uma ferramenta passa a fazer sistematicamente aquilo que o aluno precisa de praticar — recordar, formular um argumento, interpretar dados ou detetar uma inconsistência —, há risco de delegação cognitiva excessiva, ou offloading. O problema não está em usar apoio digital, mas em substituir por ele o esforço necessário para aprender. A evidência sobre esta dependência cognitiva ainda não é conclusiva, mas identifica sinais de que alguns alunos podem apoiar-se nas respostas da IA em vez de aprenderem com elas. A IA pode ser recomendável como apoio ao esforço intelectual do aluno, mas não como seu substituto.

A distração digital também merece atenção. Nas aulas de ciências, 31% dos alunos em Portugal dizem que os colegas se distraem com dispositivos digitais em muitas ou em todas as aulas, contra 28% na média da OCDE. Por outro lado, os alunos que dizem distrair-se com dispositivos digitais nas aulas de ciências obtêm, em média, menos 12 pontos do que aqueles que dizem não se distrair; a diferença na OCDE é de 11 pontos. Esta comparação tem em conta o perfil socioeconómico dos alunos e das escolas. Trata-se de indicadores autorreportados e de uma mera associação: não demonstram que os dispositivos, por si só, causem resultados inferiores. A percentagem de alunos que dizem distrair-se com dispositivos digitais explica apenas 5% da variação das pontuações em ciências entre países (R2=0,05, figura 4). Já o uso de IA para trabalhos escolares explica apenas 16% da variação entre países (R2=0,16, figura 4). O painel dois, da figura 4, mostra o índice de utilização da IA para trabalhos escolares. O contraste é óbvio: o Japão tem dos menores índices de utilização e o segundo melhor resultado a ciências, só atrás de Singapura, onde os alunos reportam um dos maiores índices de utilização de IA.

É possível que a passagem da leitura aprofundada para a consulta rápida de conteúdos, associada aos dispositivos digitais, também dificulte a interpretação de textos complexos, quer no domínio da leitura quer no das ciências. Mas esta hipótese carece de verificação empírica que o PISA não permite fazer.

Figura 4 — Percentagem de alunos que dizem distrair-se com recursos digitais


A autorregulação e a ajuda dos outros contam

Os alunos portugueses reportam níveis de planeamento do estudo e de monitorização da compreensão superiores à média da OCDE: 40% dizem planear o estudo, face a 37% na OCDE, e 54% afirmam acompanhar a própria compreensão, contra 49% na OCDE. Também dizem pedir ajuda a professores e colegas mais habitualmente: 82% recorrem ao professor (77% na OCDE) e 85% aos colegas (82% na OCDE). Reconhecer que não se percebeu uma ideia, procurar uma explicação e voltar a tentar são parte do processo de aprendizagem, não sinais de fracasso.

No PISA 2025, pedir ajuda está associado a um ganho de 11 pontos em ciências em Portugal, face a seis pontos, em média, na OCDE. A análise da OCDE aponta também para uma relação entre autorregulação e desempenho: em Portugal, cada unidade adicional no índice de definição de objetivos corresponde a mais cinco pontos em ciências, enquanto no índice de procura de ajuda corresponde a mais 11 pontos. Na OCDE, os ganhos associados são de três e seis pontos, respetivamente. Estas associações não provam causalidade, mas sublinham a importância de escolas onde os alunos possam colocar dúvidas, receber feedback e aprender a usar a tecnologia sem perder a relação pedagógica.

Estes resultados ganham particular relevo por dizerem respeito a alunos que, durante os anos anteriores a 2025, vivenciaram um clima de contestação entre os professores e o Ministério da Educação, marcado por greves e protestos em torno da recuperação dos 6 anos, 6 meses e 23 dias de serviço congelado durante o período de intervenção da Troika. Ainda assim, os dados do PISA evidenciam o valor do apoio dos professores: auxiliar os alunos a definir objetivos, a procurar ajuda e a aprender num contexto desafiante.

Uma tarefa para as escolas

A inteligência artificial pode abrir novas possibilidades na escola: oferecer feedback rápido, adaptar explicações e apoiar a criação de materiais e tarefas. Ferramentas concebidas com objetivos pedagógicos podem também apoiar uma aprendizagem mais personalizada. Mas o seu potencial vem acompanhado de riscos: dependência, informação errada, enviesamentos e desigualdades no acesso e nos benefícios. Além disso, verificar os conteúdos gerados e acompanhar o uso da IA pode criar trabalho adicional para os professores. Para aproveitar os benefícios e reduzir esses perigos, a literacia digital tem de ir além de saber utilizar dispositivos.

Os alunos precisam de aprender a fazer boas perguntas, avaliar a fiabilidade da informação, reconhecer erros e limitações, preservar a própria autonomia e explicar o raciocínio por detrás das suas respostas. Cabe aos professores propor tarefas que tornem esse raciocínio visível: por exemplo, justificar decisões, comparar soluções, rever um texto ou defender uma interpretação. Assim, a IA pode enriquecer o trabalho e apoiar a aprendizagem sem substituir o pensamento dos alunos.

O desafio gerado pelo PISA não é apenas decidir se a tecnologia deve estar presente na escola, mas definir que conhecimentos, competências e valores os alunos precisam de desenvolver num mundo cada vez mais marcado pela tecnologia e pela IA. Para isso, será necessário compreender melhor as práticas digitais, distinguir os usos que promovem a aprendizagem da utilização passiva e estudar os seus efeitos em diferentes alunos e contextos. A Comissão Europeia salienta, aliás, que a evidência disponível continua fragmentada e que os efeitos a longo prazo sobre a aprendizagem e as competências básicas são ainda incertos. Recomenda, por isso, investigação longitudinal e mais dados representativos no contexto europeu. Os resultados do PISA ajudam a formular estas perguntas, mas não bastam para responder a todas elas.

João Marôco

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Ioga chega a todas as turmas do 1.º ano das escolas públicas

O projeto é ainda piloto, mas chegou a todas as turmas do 1.º ano da rede pública de São João da Madeira. Com um investimento de cerca de três mil euros, o município aposta no ioga para trabalhar a concentração, a gestão emocional e a autorregulação das crianças.

Dificuldades de concentração, de gestão das emoções e de relação com os outros fazem parte dos desafios identificados por docentes, psicólogos e outros profissionais que acompanham diariamente os alunos. O contacto com as crianças e as famílias levou o município a avançar com uma resposta dirigida ao 1.º ano de escolaridade, procurando trabalhar estas competências desde os primeiros anos numa lógica preventiva.
A adesão superou as expectativas. “Todas as escolas e todas as turmas do 1.º ano de escolaridade da rede pública aderiram ao projeto”, revela o vereador da Educação, para quem “este facto demonstra a necessidade que era sentida”. As sessões decorrem uma vez por semana, ao longo de um semestre, são adaptadas à idade dos alunos e orientadas por uma profissional com formação adequada à intervenção em meio escolar. O investimento ronda os três mil euros. Através de exercícios de respiração, relaxamento e consciência corporal, a iniciativa procura ajudar os alunos a conhecerem melhor o corpo e as emoções e a encontrarem estratégias para lidar com situações de maior tensão. Pedro Gual explica que o projeto nasceu da “sensibilidade diária dos docentes e dos técnicos do SJM EDUCA + 2.0” e pretende dar às crianças “ferramentas de autorregulação emocional” que as ajudem a gerir o stress.

Testar para avaliar

O “Ioga na Escola – Crescer em Equilíbrio” complementa o trabalho desenvolvido através do SJM EDUCA + 2.0, Programa Municipal de Promoção do Sucesso Educativo, financiado pelo Portugal 2030. O programa inclui uma componente psicossocial dirigida a crianças e famílias sinalizadas pelos agrupamentos de escolas, com avaliação e diagnóstico, acompanhamento psicopedagógico individualizado, apoio sociofamiliar e encaminhamento para respostas especializadas, quando necessário. O ioga assume um carácter preventivo e universal e não pretende substituir respostas de natureza psicológica ou psicossocial. “Não estamos apenas a reagir aos problemas; estamos a prevenir”, sublinha o vereador.
A opção desta prática em meio escolar é também sustentada, segundo Pedro Gual, por investigação realizada em Portugal. O vereador aponta trabalhos académicos sobre a utilização de mindfulness e ioga com crianças em idade pré-escolar e no 1.º Ciclo, entre os quais o estudo “Mindfulness na educação pré-escolar e no 1.º ciclo do ensino básico: um estudo exploratório”, de Sara Cabral, Isabel Piscalho e Sónia Seixas, publicado em 2022. Segundo a informação avançada pelo autarca a O Regional, a investigação incluiu atividades de mindfulness em jardim de infância e no 1.º Ciclo e entrevistas a especialistas, apontando para o potencial destas práticas na promoção do autoconhecimento e da autorregulação emocional.
Pedro Gual destaca ainda o “CuidaDaMente: exploração do mindfulness e do ioga na educação pré-escolar e no 1.º CEB”, de Lara Doutel Ribeiro, desenvolvido em 2024. O trabalho analisou a aplicação destas práticas em meio educativo, incluindo com alunos do 4.º ano. De acordo com o vereador, foram identificados, no universo observado, contributos ao nível do bem-estar, da calma e do relaxamento, além de uma perceção “muito positiva” das crianças relativamente às experiências realizadas. Pedro Gual ressalva, contudo, que o município não parte destes trabalhos para afirmar que estas sessões são uma solução para problemas de saúde mental ou que produzem, por si só, determinados resultados. “É precisamente por essa razão que optámos por um projeto-piloto. Queremos experimentar, acompanhar e avaliar, em contexto real, o impacto desta iniciativa nas crianças e na comunidade escolar, em vez de partir de conclusões prévias”, explica.

Fonte: O Regional por indicação de Livresco

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Joan Cruz, da dislexia ao doutoramento em Neurociências

Joan Cruz descobriu, aos 7 anos, que tinha mais dificuldade em ler e escrever do que os seus colegas. Não se tratava de falta de interesse, mas sim de dislexia. Com o diagnóstico e o apoio adequado, iniciou um percurso que o levou a obter o doutoramento em Neurociências. O seu percurso foi marcado pela investigadora Luz Rello e pela sua ferramenta Dytective, que a Fundação «la Caixa» já disponibilizou a 5 795 escolas em toda a Espanha. Hoje, Joan é professor em Huesca e uma referência para jovens com dislexia, como Izan, um dos seus alunos.

«Sou disléxico e sinto-me orgulhoso de o ser. Tenho dificuldade em ler e escrever, mas faço outras coisas espetacularmente bem.» Joan Cruz demorou algum tempo a aprender a direcionar o seu olhar para todas as capacidades que possuía, devido, certamente também, a esse distúrbio de aprendizagem que lhe causou mais do que um problema nas salas de aula antes dos 7 anos.

Agora, aos 29 anos, Joan explica: «Gosto da espontaneidade, da parte criativa do cérebro, relaciono conceitos e sou bastante intuitivo. Consigo perceber muito bem como chegar aos alunos. No meu trabalho atual, isto é uma grande vantagem».

A história deste professor de Ciências da Escola San Viator, em Huesca, marca o fim de um ciclo perfeito: na sua infância, aprender exigia-lhe um esforço extra. «E tive sorte porque o meu diagnóstico foi feito cedo, aos 7 anos. No início, saber o que se tem assusta, porque pensamos: “O que é que isso significa? O que se passa comigo? Sou diferente dos outros”. Depois, sentimos alívio ao perceber que não é culpa nossa, que isso não significa que não nos esforcemos o suficiente.»

Joan Cruz: «Ter um diagnóstico de dislexia é um alívio para todos, tanto para o aluno como para a família».

Ao mesmo tempo, acontece algo crucial: os pais compreendem o que se passa com o seu filho e, a partir desse momento, mudam a sua mentalidade e a sua forma de agir. «Compreendem que o seu filho não é preguiçoso e que, sim, se esforça. Ter um diagnóstico de dislexia é um alívio para todos, tanto para o aluno como para a família», afirma Joan.

A vida deste professor ficou marcada por um antes e um depois no dia em que conheceu Luz Rello, linguista, doutorada em Ciências da Computação pela Universitat Pompeu Fabra de Barcelona, a quem foi diagnosticada dislexia aos 10 anos. Joan destaca que Luz encara a dislexia «com muito carinho» e um profundo respeito. A sua admiração pela investigadora vai além: «A Luz foi a minha luz, literalmente. Foi a primeira pessoa fora da minha família que acreditou que eu era capaz de alcançar o que quisesse».

Rello é a fundadora da Change Dyslexia e co-criadora do Dytective, a ferramenta digital cientificamente validada em espanhol e destinada a promover a inclusão educativa através do estímulo à leitura e à escrita em alunos com e sem dificuldades nesta área, incluindo a dislexia. A ferramenta já está presente em mais de 5 700 estabelecimentos de ensino em toda a Espanha, graças ao apoio da Fundação «la Caixa».

Joan participou como voluntário no Dytective na sua versão em espanhol. Além disso, colaborou também na elaboração dos testes para a versão em catalão. Joan viu a ferramenta e a sua metodologia crescerem. Ao entrar em contacto com a Change Dyslexia, Joan começou a trabalhar no que, na sua opinião, é o ponto de partida «básico»: «Aceitar que há coisas que não me saem tão bem e normalizar isso». Para Joan, isto tem uma importância transcendental: «Quando te amas tal como és, isso dá-te autenticidade».

Após as palestras e jornadas para as quais Luz o convidou, o jovem constatou que havia outras pessoas como ele, que tinham de se esforçar o dobro ou o triplo para chegar onde outros chegam com maior facilidade, mas que, mesmo assim, também conseguiam alcançar os seus objetivos. «Nunca teria imaginado estar onde estou agora», reconhece Joan, após um processo que foi «longo», como ele próprio admite, mas que o levou a obter o doutoramento em Neurociências na Universidade do País Basco (EHU) e a tornar-se professor nas salas de aula do San Viator. A experiência de ingressar em 2025 como tutor do Programa de Aprendizagem Inclusiva (PAI) neste centro proporcionou-lhe uma «satisfação» imensa.

Uma ferramenta que promove a igualdade na educação

Estima-se que a dislexia afete cerca de 10 % dos alunos e que, sem uma abordagem adequada, possa reduzir o seu desempenho académico e aumentar o risco de abandono escolar.

Para reduzir as barreiras socioeconómicas que dificultam o acesso à reeducação, o apoio da Fundação «la Caixa» permite que as escolas do ensino básico e secundário de toda a Espanha tenham acesso gratuito ao Dytective.

Desde o início da colaboração, a ferramenta já foi implementada em 5 795 estabelecimentos de ensino em Espanha, ou seja, 1 em cada 4, e chegou a mais de 73 100 alunos. Desde o ano letivo passado e durante os próximos 4 anos, a entidade destinará até 2,2 milhões de euros para disponibilizar gratuitamente o Dytective a todas as escolas de Espanha, com potencial para chegar a 2,7 milhões de alunos. Entre os muitos exemplos de estabelecimentos de ensino que apostam no Dytective, destacam-se a escola rural de Alpartir (Saragoça) e a escola de San Viator.

A trajetória de Izan com o Dytective

Izan Bonilla foi aluno do Joan no ano letivo passado. Este aluno de 14 anos sabe, desde os 5 anos, que tem dislexia e esforça-se para não desistir dos estudos, embora reconheça que houve um momento em que se sentiu tão sem forças que duvidou de conseguir. «Tinha dificuldade em compreender as palavras que lia, misturava-as e confundia-as. E, no final, o exame saía-me desastrosamente mal. Pensei que estudar não era para mim».

Por experiência própria, aconselha as crianças que estão agora a descobrir que têm dificuldades em ler e escrever a não se deixarem levar pela impressão inicial. «No início pode parecer assustador e é claro que vais ter dificuldades, mas quando conseguires melhorar na tua área de dislexia, vais conseguir tudo o que te propores».

O adolescente mostra como funciona a ferramenta, que é muito intuitiva, e como regista cada um dos seus progressos. O método de aprendizagem com o Dytective é simples, utilizando um tablet. Contém mais de 42 000 exercícios em espanhol e mais de 28 000 em catalão, que se adaptam ao perfil de cada aluno. O progresso é gradual; o próprio aluno pode verificar os resultados em primeira mão, uma vez que avança de forma autónoma. Izan ordena sintagmas, grafias, números…

O seu exemplo, a sua «Luz Rello» neste caso, é Joan Cruz. «Se ele conseguiu, porque não eu?», pergunta-se e repete hoje em voz alta. «Nunca fui de ler. Tal como com as outras crianças, os meus pais também me pressionavam para que o fizesse.» Era-lhe muito difícil, admite Izan. «Então, o Joan emprestou-me uns livros, uma banda desenhada com um boneco que vive várias aventuras… e li a série em cinco dias. Ele não me pressionou, fui ao meu ritmo.»

Quando me deram a ferramenta Dytective, pensei o mesmo: «Mais uma coisa com que me vão pressionar». O jovem com dislexia temia a frustração até que observou os resultados por si próprio. «Da primeira vez custa imenso, mas depois ganhas ritmo e já não paras.»

Antes disso, o Izan também percorreu o seu próprio caminho. Foi na escola primária que passou por momentos mais difíceis. No ano passado, o Joan apresentou-se aos alunos com um conjunto de diapositivos. Foi mostrando-os um a um, revelando os seus gostos pessoais e passatempos, como o desporto, até chegar ao último: «Sou disléxico», admitiu o professor, revelando a sua grande vulnerabilidade. Foi então que Izan pensou: «E eu também», pelo que começou a perguntar ao professor aquilo que não se tinha atrevido a expressar até aquele dia, para não ficar mal visto pelo grupo ou por causa do «medo» de que o rotulassem de preguiçoso ou de pouco aplicado.

Diz isto enquanto utiliza o Dytective com total desenvoltura e segurança. «Também canta muito bem», lança o seu professor de Música, observando os progressos sociais que o Izan tem vindo a fazer. Ao descobrirem o que lhes acontece, a máscara da vergonha perante os outros também cai. Se a fragilidade já não é tal, então, por que não ser quem se é?

Tratar a dislexia desde as primeiras fases é fundamental para melhorar tanto o desempenho escolar como o bem-estar social dos alunos. De facto, a utilização do Dytective na sua versão em espanhol demonstrou cientificamente melhorias nos resultados dos exames externos da LOMCE em Língua e Inglês, tanto no 3.º como no 6.º ano do ensino básico, de acordo com uma investigação liderada por Almudena Sevilla e Ismael Sanz Labrador. Além disso, um estudo observou avanços significativos em aspetos não cognitivos, como a autoestima, a perseverança e o autocontrolo.

A transformação após o diagnóstico

Joan mostra-se orgulhoso do seu aluno, em quem, por razões mais do que evidentes, se vê refletido. «Essa espontaneidade que o Izan tem, a sua naturalidade, a sua vontade… lembram-me que uma das grandes forças que a dislexia nos dá é a de não desistir. Eu não tinha medo de não vir a ser um bom cientista, mas sim de não vir a ser um bom professor. Quero retribuir o que estes anos me deram e dar esperança aos meus alunos disléxicos, mesmo que estejam a passar por momentos difíceis».

O Izan é a prova viva de que isso é possível. «O Joan ajudou-me a mudar a minha forma de pensar e a lidar melhor com os problemas relacionados com a dislexia. Ele aproxima-se de mim, explica-me as coisas, compreende que tenho dificuldades e ajuda-me.» Agora «tenho grandes ambições», acrescenta o rapaz.

Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com