sábado, 3 de outubro de 2026

Descobertas surpreendentes sobre a compreensão da leitur

Por norma, vemos a compreensão da leitura como um conceito teórico e, ao mesmo tempo, um objetivo. É algo que medimos, sobre o qual intervimos e que orienta a criação de medidas educativas. Existem vários programas que prometem melhorá-la. E se o problema não estiver na nossa incapacidade de melhorar a compreensão da leitura, mas sim na falta de clareza sobre o que ela é? Será que sabemos mesmo o que é a compreensão da leitura?

Defendo há bastante tempo que é mais sensato considerar a compreensão da leitura como entendimento da linguagem no contexto escrito. Assim que os alunos se tornam capazes de descodificar texto com segurança e a um ritmo fluente, a tarefa de compreender um texto é, em larga medida, idêntica à de compreender a fala. Quando as dificuldades de compreensão persistem, isso deve-se muitas vezes a um vocabulário limitado ou à existência de lacunas no conhecimento prévio das crianças, que dificultam a interpretação das frases.

Adquirir fluência é o mais importante. Se as crianças lerem demasiado devagar, a compreensão sofre, mesmo que a sua linguagem oral seja vasta. Uma descodificação lenta e esforçada esgota a memória de trabalho. Os recursos cognitivos que deveriam estar disponíveis para conseguir ler nas entrelinhas, compreender referências e assimilar conhecimento ficam retidos no reconhecimento de palavras. A frase até pode ser compreendida isoladamente, mas no momento em que o leitor chega ao fim de um parágrafo, já se esqueceu do início. A fluência atua como um elemento de triagem. Até que o reconhecimento de palavras se torne automático, a compreensão da leitura ficará atrás da compreensão oral. Isto acontece não por existir um défice misterioso na «capacidade de compreensão» dos alunos, mas porque a concentração de esforço num processo de descodificação lento sobrecarrega a capacidade do sistema.

Experimente ler o texto que surge neste vídeo.

Tente agora responder às seguintes perguntas:
  1. Que distância subiram?
  2. Onde chegaram as personagens?
  3. Em que momento vislumbraram Pemberley House pela primeira vez?
  4. Onde estavam no exato momento em que viram a casa?
  5. Como é descrita a estrada?
É mais difícil do que parece. Provavelmente acertou facilmente na resposta à primeira pergunta, mas depois é possível que tenha respondido à sorte. É certo que estas limitações foram criadas artificialmente, mas ler assim permite-nos compreender melhor a experiência real de cerca de 20% dos alunos que frequentam o ensino secundário no Reino Unido. Se ler exige este nível de esforço, a leitura nunca vai ser um prazer.

Quando lemos a mesma passagem sem limitações, a compreensão torna-se muito mais direta:

Foram subindo suavemente durante meia milha, até que chegaram ao cume de uma alta colina, onde terminava o bosque, e os seus olhares foram de imediato conquistados por Pemberley House, situada no lado oposto do vale, para o qual a estrada curvava bruscamente.

As dificuldades são agora causadas pela possibilidade de algumas palavras neste excerto não serem conhecidas (milha, Pemberley House) ou de a sintaxe da frase ser pouco comum e difícil de seguir. Atente agora na seguinte questão: O que sugere o texto acerca de Pemberley House? A expressão «os seus olhares foram de imediato conquistados» sugere que Pemberley House tem uma aparência fascinante, mas não temos qualquer pista sobre o que poderá ser. No entanto, se o leitor reconhecer que Pemberley é o solar da família de Mr. Darcy no romance Orgulho e Preconceito de Jane Austen, saberá que se trata de uma mansão senhorial, de tamanho e beleza impressionantes. Mesmo desconhecendo este facto, bastaria conhecer o significado de house em inglês para assumir que uma casa com um nome próprio, em vez de um número de porta, isolada numa zona rural arborizada, seria algo luxuosa. O acesso a este tipo de informação não está relacionado com o ato de leitura em si.

Se acredita que a compreensão da leitura é algo distinto da compreensão da linguagem, poderá facilmente ser levado a crer que vale a pena gastar tempo do currículo a ensinar modelos de interpretação de texto. Escrevi sobre o impacto que isto tem nas aulas de inglês aqui e aqui. Também já me debrucei sobre as vantagens de seguir uma abordagem que abdica de tentar ensinar a compreender os textos e se foca, em vez disso, apenas na leitura. No fundo, a lógica é que as crianças têm mais probabilidades de melhorar a sua compreensão da leitura ao lerem mais do que a receberem instrução sobre como inferir sentidos e analisar conteúdos. É o contacto com a leitura que as fará encontrar uma variedade mais ampla de vocabulário, pertencente a contextos que vão além da sua experiência direta.

Isto não quer dizer que não valha a pena ensinar às crianças estratégias que as possam ajudar a compreender melhor os textos escritos. Por exemplo, devemos ajudá-las a perceber que a ficção e a não-ficção têm características diferentes. Contudo, continua a ser verdade que os alunos têm mais probabilidades de compreender ambas se lerem variados exemplos de cada uma, em vez de investirem muito tempo a praticar estratégias genéricas de interpretação. A leitura autónoma de não-ficção requer o conhecimento das convenções deste formato, a identificação de nomes principais nas frases-tema, a localização sequencial de informação relevante e a coordenação da atenção — aspetos que têm por base a familiaridade com a linguagem e o conhecimento de como estes textos estão estruturados.

Será que os dados do terreno confirmam esta visão?

A ideia de que o conhecimento prévio é o catalisador da compreensão tem sido reforçada por argumentos de peso que defendem que aquilo que os leitores já sabem determina o que conseguem compreender. Ainda assim, a realidade pode ser mais complexa do que aquilo que os slogans fazem crer.

Escrevi recentemente que as conclusões nulas e de grande destaque sobre o impacto do conhecimento prévio partiam de uma premissa errada. No estudo de Buchin e Mulligan, os alunos foram expostos a conteúdos adicionais sobre o assunto em causa, mas foram avaliados em tarefas que não dependiam desses conteúdos. O conhecimento que lhes foi transmitido era acessório, e não um requisito essencial.

Em Reading Comprehension: A Meta-Analysis Comparing Standardized and Non-Standardized Assessment Results, uma meta-análise publicada recentemente sobre 71 estudos e 115 tamanhos do efeito, Nathaniel Hansford e os seus colegas apresentam uma conclusão que nos dá que pensar. Quando se comparam intervenções como o ensino de vocabulário, a instrução rica em conteúdos, as estratégias cognitivas, as estratégias metacognitivas e o ensino recíproco, não é a abordagem pedagógica que é estatisticamente mais relevante no tamanho do efeito, mas sim o tipo de avaliação utilizado.

Quando os investigadores submeteram as crianças a avaliações que espelhavam o que tinha acabado de ser ensinado, os resultados pareceram promissores, com uma dimensão média do efeito de cerca de 0,45. No entanto, quando os estudos recorreram a testes de leitura independentes e padronizados, os ganhos foram muito menores (com uma dimensão média mais próxima dos 0,21). Dito de outra forma, as intervenções na área da compreensão tendem a parecer muito mais eficazes quando o teste avalia o que foi ensinado do que quando este avalia a capacidade geral de leitura.

Se acrescentarmos a dimensão da amostra a esta equação, o contraste aumenta ainda mais. Os estudos com vastas amostras que utilizam testes padronizados reportam muitas vezes efeitos mínimos. Por outro lado, estudos menores com avaliações feitas à medida registam muitas vezes efeitos significativos. Se a compreensão fosse uma capacidade estável e independente do contexto, os benefícios gerais da instrução deveriam manifestar-se sempre, e não sofrer uma redução quando confrontados com bitolas mais abrangentes.

A disparidade de resultados evidencia também as limitações dos modelos mais redutores. A Perspetiva Simples da Leitura, que defende que a compreensão resulta da descodificação e do entendimento da linguagem, continua a ser um modelo útil, mas mostra-se incapaz de captar por inteiro a variação que observamos no terreno. As abordagens ricas em conteúdos, fundamentadas no conhecimento prévio, falham por vezes na obtenção de efeitos consistentes em testes padronizados, e os ganhos tendem a desaparecer fora de tarefas alinhadas com a avaliação. O ensino de estratégias de compreensão, por mais promissor que possa parecer, revela-se útil sobretudo em contextos específicos e em alunos mais velhos.

Tudo isto é preocupante por três razões:
  1. Se ensinarmos aos alunos um conjunto de palavras, e em seguida os testarmos sobre uma passagem que contém essas mesmas palavras, estaremos, em grande medida, a avaliar a memorização e a transferência a curto prazo. A estrutura do exercício determina à partida um bom resultado. Um teste padronizado, por sua vez, avalia conteúdos desconhecidos. O que este tipo de teste questiona é se a aprendizagem tem um alcance mais vasto e se estende a outras aplicações. E essa é uma exigência muito maior.
  2. A compreensão da leitura não é uma competência isolada, dissociável das restantes. É o resultado visível da interação de múltiplos fatores: a fluência na descodificação, o vocabulário, o conhecimento prévio, a capacidade de ler nas entrelinhas e a memória de trabalho. Um teste feito à medida consegue isolar e amplificar a vertente que se acabou de trabalhar. Já uma avaliação mais abrangente expõe as fragilidades noutras áreas. Assim, a aparente descida no tamanho do efeito reflete a complexidade desta competência, e não apenas uma falha no ensino.
  3. A transferência da aprendizagem é, por natureza, difícil. O facto de se aprender alguma coisa num contexto específico não garante a sua aplicação automática noutro cenário. Quanto maior for a distância entre a nova tarefa e o momento de instrução, mais vulnerável se torna o desempenho. É precisamente essa distância que as avaliações padronizadas pretendem introduzir.
Não é que as intervenções na compreensão «deixem de funcionar» quando há testes mais rigorosos. A questão é que transpor a aprendizagem para novos textos, temas e cenários é muito mais difícil do que conseguir uma boa nota em tarefas feitas à imagem do que se acabou de aprender.

Esta publicação é uma tradução e adaptação do artigo «Surprising new findings on reading comprehension», disponível aqui.


David Didau

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

WEBINARS «INCLUSION TALKS»

No âmbito do programa do 30.º aniversário da EASNIE, a série de webinars «Inclusion Talks» retomou, após uma pausa de verão, com uma sessão sobre a participação familiar, realizada a 24 de setembro. O diretor da EASNIE, João Costa, contou com a participação de Elizabeth Gosme, da COFACE Families Europe, e de Arja Krauchenberg, da Associação Europeia de Pais, para debater práticas eficazes de envolvimento dos pais e de construção de parcerias sólidas entre a família e a escola, com vista a apoiar os alunos. Saiba mais e veja o vídeo do webinar.

O próximo webinar da série «Inclusion Talks», dedicado à Educação Inclusiva e à Colaboração Intersetorial, terá lugar a 29 de outubro.

Todos os webinars realizados até ao momento estão disponíveis para visualização no canal do YouTube da EASNIE. Os temas abordados incluíram o papel da inteligência artificial na educação, as opiniões dos alunos, o financiamento e a preparação dos professores para a educação inclusiva.


Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com


Fonte: October 2026 update from EASNIE European Agency for Special Needs and Inclusive Education

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

MECI envia ao Parlamento e ao CNE relatórios sobre processo de avaliação externa de alunos de 2026

O Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) enviou hoje à Comissão de Educação e Ciência da Assembleia da República e ao Conselho Nacional de Educação (CNE) – tal como se havia comprometido publicamente – os relatórios produzidos pelo Júri Nacional de Exames (JNE) e pela consultora Deloitte, que prestou apoio técnico ao Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (EduQA), no âmbito do processo de avaliação externa das aprendizagens do ano letivo 2025/2026.

Os dois documentos identificam os constrangimentos registados, as intervenções e os procedimentos corretivos realizados, e apontam áreas de possível melhoria, constituindo se como importantes ferramentas para a consolidação, em 2027, do processo de digitalização das Provas Finais do Ensino Básico e do processo de classificação eletrónica dos Exames Finais Nacionais do Ensino Secundário.

Sendo a avaliação externa das aprendizagens uma matéria particularmente importante para todos os alunos, famílias, professores e profissionais da educação, é reforçada a necessidade de toda a sociedade portuguesa conhecer a informação sobre o processo e, com essa transparência, saber que pode confiar no rigor e na fiabilidade da avaliação externa. Da mesma forma que a transparência tem sido compromisso permanente do MECI, foi igualmente reconhecido que, devido às dificuldades sentidas no processo de classificação eletrónica dos exames nacionais da 1.ª fase do ano letivo 2025/2026, esse dever de transparência exige uma abertura ainda mais vincada, razão pela qual o MECI prontamente decidiu que tornaria públicos e acessíveis estes relatórios.

No mesmo sentido, o MECI solicitou ao CNE, em agosto, uma apreciação independente, abrangente e participada do modelo de avaliação externa das aprendizagens do sistema educativo português, com especial incidência nas provas finais, nos exames nacionais, no processo de digitalização e classificação eletrónica e na organização institucional, operacional e tecnológica que suporta a avaliação externa.

O relatório do CNE, que deverá ser remetido ao Governo e à Assembleia da República até 31
de dezembro de 2026, tem como finalidade:

• Identificar as vantagens, fragilidades, riscos e oportunidades de melhoria do modelo vigente;
• Avaliar a adequação das soluções digitais, em suporte papel ou híbridas, às diferentes finalidades e disciplinas da avaliação externa;
• Formular recomendações destinadas ao aperfeiçoamento do sistema;
• Identificar medidas suscetíveis de ser aplicadas no ciclo de avaliação externa de 2027 e reformas de natureza estrutural a concretizar a médio prazo.

Por uma questão de total transparência, uma vez remetidos à Assembleia da República e ao Conselho Nacional de Educação, os dois relatórios, em anexo, são igualmente disponibilizados aos órgãos de comunicação social.



Fonte: Portugal Gov por indicação de Livresco

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Tem receio que o seu filho sofra de bullying na escola? 5 conselhos de especialistas

O regresso às aulas significa voltar às rotinas, reencontrar amigos e conhecer novos professores e colegas. Mas, para algumas crianças e famílias, o início do ano letivo também pode trazer preocupações relacionadas com a integração e as relações entre alunos.

Entre os receios mais comuns está o bullying, um fenómeno que pode assumir diferentes formas e que não termina necessariamente quando a criança sai da escola. Com o crescimento das redes sociais e das plataformas de comunicação, determinadas situações podem continuar no ambiente digital através do chamado ciberbullying.

A Direção-Geral da Educação (DGE) tem, aliás, desenvolvido recursos específicos para a prevenção e combate ao bullying e ao ciberbullying nas escolas portuguesas, reconhecendo o impacto que estes fenómenos podem ter no bem-estar e percurso educativo das crianças e jovens.

Mas o que podem fazer os pais para ajudar?

1. Fale sobre bullying com o seu filho... mesmo que não exista nenhum problema

Uma das melhores formas de perceber o que está a acontecer na vida de uma criança é criar, desde cedo, um ambiente em que esta se sinta confortável para falar.

A UNICEF recomenda que os pais mantenham uma comunicação aberta com os filhos e conversem regularmente sobre a escola, os amigos e aquilo que sentem. A organização alerta ainda que algumas crianças podem ter dificuldade em contar espontaneamente que estão a ser vítimas de bullying.

Por isso, não é necessário esperar por sinais evidentes para abordar o tema.

Em vez de perguntar apenas “Como correu a escola?”, tente fazer perguntas mais específicas:
  • “Com quem estiveste hoje no intervalo?”
  • “Houve alguma coisa que te deixou triste ou desconfortável?”
  • “Alguém te disse ou fez alguma coisa de que não gostaste?”
  • “Viste algum colega a ser tratado de forma injusta?”
  • “Se alguma coisa assim acontecesse, sabias a quem pedir ajuda?”
O objetivo não é assustar a criança, mas normalizar a conversa sobre relações, conflitos e sentimentos.

Quanto mais natural for falar sobre estes assuntos, mais fácil poderá ser para a criança procurar ajuda caso alguma coisa aconteça.

2. Ensine-o a reconhecer os sinais e a pedir ajuda

Nem sempre uma criança sabe identificar determinado comportamento como bullying.

É importante explicar que existem diferentes formas de violência entre pares. Pode existir agressão física, insultos, ameaças, humilhação, exclusão deliberada ou comportamentos destinados a prejudicar a criança perante os colegas.

O fenómeno também pode acontecer online. Segundo a UNICEF, o ciberbullying pode incluir comportamentos como enviar mensagens ofensivas ou ameaçadoras, espalhar mentiras ou publicar fotografias e vídeos embaraçosos de outra pessoa.

É por isso importante que a criança saiba que pedir ajuda não é “fazer queixinhas”.

Explique-lhe quem são os adultos a quem pode recorrer: os pais, um professor, diretor de turma, psicólogo da escola ou outro adulto de confiança.

A própria DGE tem vindo a reforçar a importância da prevenção e intervenção perante situações de bullying e ciberbullying, disponibilizando materiais destinados não só às escolas, mas também a pais e encarregados de educação.

3. Esteja atento a mudanças no comportamento

Uma criança vítima de bullying pode não dizer diretamente o que está a acontecer. Por isso, os pais devem estar atentos a mudanças inexplicadas no comportamento, sobretudo quando surgem de forma repentina ou persistente.

Segundo especialistas, uma criança que esteja a sofrer bullying pode tornar-se mais reservada, ansiosa ou irritável, perder confiança ou afastar-se socialmente. Também podem surgir alterações no sono, perda de interesse por atividades de que gostava ou maior secretismo.

Entre os sinais que merecem atenção podem estar:
  • resistência ou medo de ir para a escola;
  • isolamento ou perda repentina de amizades;
  • alterações significativas de humor;
  • ansiedade ou irritabilidade;
  • perda de interesse por atividades habituais;
  • alterações nos padrões de sono ou alimentação;
  • queda inesperada no rendimento escolar;
  • queixas frequentes de dores de cabeça ou de barriga;
  • maior preocupação ou secretismo relativamente ao telemóvel e à atividade online.
Nenhum destes sinais significa automaticamente que exista bullying. As crianças podem apresentar alterações comportamentais por muitas outras razões. O que deve preocupar os pais é sobretudo uma mudança persistente ou inexplicada, que justifique uma conversa e, se necessário, o contacto com a escola.

4. Se suspeitar que está a acontecer, ouça antes de agir

Descobrir que o filho pode estar a ser vítima de bullying pode provocar uma reação imediata nos pais, desde querer confrontar os outros alunos até exigir respostas à escola.

Mas o primeiro passo deve ser ouvir a criança. A UNICEF aconselha os pais a criar um espaço seguro para que o filho possa contar o que aconteceu e reforça uma mensagem essencial: a criança que sofre bullying não é culpada pelo que lhe está a acontecer.

Tente perceber:
  • o que aconteceu;
  • quando e onde aconteceu;
  • quem esteve envolvido;
  • se foi um episódio isolado ou se tem acontecido repetidamente;
  • quem assistiu;
  • se existem mensagens, fotografias ou outros registos.
No caso de ciberbullying, é especialmente importante guardar provas antes de apagar mensagens ou bloquear contas.

A UNICEF recomenda ainda que, perante uma situação de ciberbullying, os pais conversem com a criança e procurem ajuda de um adulto de confiança. Mais importante ainda: evite dizer simplesmente “ignora” ou “tens de ser mais forte”. A criança precisa de perceber que os adultos estão disponíveis para intervir e ajudá-la a encontrar uma solução.

5. Envolva a escola e procure uma solução em conjunto

Se existir uma situação de bullying, os pais não devem tentar resolver tudo sozinhos.

Especialistas recomendam que as famílias trabalhem em conjunto com a escola, estabelecendo uma relação de confiança com professores e outros responsáveis e comunicando as suas preocupações. A organização sugere também que os pais procurem saber quais são as políticas e mecanismos existentes na escola para prevenir e responder ao bullying.

Em Portugal, esta responsabilidade também é assumida pelas próprias escolas. A Direção-Geral da Educação desenvolve o programa “Escola Sem Bullying, Escola Sem Violência”, destinado a promover ambientes escolares seguros e a prevenir diferentes formas de violência.

Por isso, perante uma suspeita, o primeiro contacto pode ser feito com o professor ou diretor de turma e, dependendo da situação, com o psicólogo ou direção da escola.

É igualmente importante evitar confrontar diretamente a criança que alegadamente praticou bullying ou os respetivos pais. A prioridade deve ser proteger a criança e encontrar uma resposta coordenada com a escola.

E se  bullying acontecer online?

O ciberbullying merece uma atenção especial porque pode acompanhar a criança para casa e acontecer a qualquer hora.

Alguns sinais podem incluir alterações no humor depois de utilizar o telemóvel ou computador, mudanças no sono ou alimentação e perda de interesse por atividades de que a criança gostava.

Em Portugal, a Direção-Geral da Educação disponibiliza ainda informação sobre segurança digital e encaminha para a Linha Internet Segura, serviço da APAV que presta apoio anónimo e confidencial relativamente a questões relacionadas com a utilização de plataformas e tecnologias online.

O mais importante? A criança saber que pode contar consigo

Não é possível garantir que uma criança nunca vai enfrentar conflitos ou comportamentos agressivos durante o percurso escolar. Mas os pais podem criar uma rede de segurança à sua volta.

Falar regularmente sobre a escola, conhecer os amigos, prestar atenção a mudanças de comportamento e mostrar que pedir ajuda é sempre uma opção são estratégias que podem facilitar a identificação precoce de um problema.

E, caso exista bullying, há uma mensagem que deve ficar clara desde o primeiro momento: a criança não tem culpa e não tem de enfrentar a situação sozinha.

A prevenção do bullying é uma responsabilidade partilhada entre família, escola e comunidade. A DGE sublinha precisamente a importância de as escolas desenvolverem estratégias de prevenção e combate a estes fenómenos.

Fonte: SIC por indicação de Livresco

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Do TEACCH ao CAA – o paradoxo de mudar a placa sem mudar mentalidades

O Decreto-Lei n.º 54/2018 não elimina o ensino estruturado: exige que deixe de funcionar como território exclusivo e passe a servir a inclusão.

O modelo TEACCH trouxe às antigas unidades de ensino estruturado organização, previsibilidade, comunicação e autonomia. Esse património mantém valor. O paradoxo surge quando o modelo e metodologia se confundem com uma sala exclusiva e o diagnóstico decide onde a criança aprende e participa.

O Decreto-Lei n.º 54/2018 integrou as anteriores valências no Centro de Apoio à Aprendizagem. Nos artigos 13.º e 36.º, o CAA é uma estrutura que agrega recursos e competências, complementa a turma e apoia alunos e professores. A especialização permanece, mas perde sentido a sala reservada “àqueles alunos”.

Ensino estruturado é uma metodologia, não o nome jurídico obrigatório de uma sala. A escola pode escolher a designação, mas o recurso deve responder a necessidades concretas, com objetivos e avaliação e nunca tornar-se destino imposto por um diagnóstico. Como defendo em Sem Réguas nem Amarras, estrutura não significa separação.

Esta abertura exige regras. O espaço não pode transformar-se no lugar para onde se enviam os alunos que incomodam, choram, gritam, se movimentam ou não correspondem ao comportamento esperado. Uma área de relaxamento não é estacionamento, castigo ou fuga permanente à exigência. Deve ensinar estratégias de regulação e preparar o regresso à turma. O trabalho individual não substitui indefinidamente a aprendizagem com os pares. A intervenção tem de aumentar participação, não tornar a separação mais confortável para os adultos.

O mesmo rigor se aplica ao dito professor de referência, função que o Decreto-Lei n.º 54/2018 não cria. Isso não significa que a ideia seja inútil. Uma figura adulta estável pode conhecer os sinais de sobrecarga, as formas de comunicação, os interesses, os apoios eficazes e as transições mais difíceis. Pode articular informação entre a família, a turma, a Educação Especial, os técnicos e os assistentes operacionais. Para alguns alunos, uma relação previsível e segura reduz ansiedade e facilita a entrada em atividades e contextos novos.

Mas a ciência aconselha prudência. A investigação disponível incide sobretudo no apoio individual permanente prestado por assistentes ou outros adultos, não exatamente numa função de professor de referência. Ainda assim, identifica riscos relevantes: proximidade excessiva do adulto, menor iniciativa do aluno, dependência, redução das interações espontâneas com colegas, estigma e transferência indevida da responsabilidade do professor da turma para o profissional de apoio. Estudos sobre apoio um-para-um a alunos autistas mostram também que a mera presença do adulto não garante envolvimento pedagógico nem social de qualidade (Azad et al., 2015; Giangreco, 2010).

O adulto pode tornar-se ponte ou parede. Torna-se parede, quando responde sempre pelo aluno, ocupa fisicamente o espaço entre ele e os colegas, antecipa todas as necessidades, conduz cada interação ou o retira repetidamente do grupo. Torna-se ponte, quando ensina estratégias, prepara o contexto, cria oportunidades de escolha, facilita o contacto com pares e se afasta gradualmente, quando a sua presença deixa de ser necessária. A investigação sobre intervenções mediadas por pares e formação de profissionais mostra que o apoio produz melhores oportunidades de socialização, quando promove diretamente a interação entre alunos, em vez de a substituir (Koegel et al., 2014; McCarty & Light, 2022).

Não existe, portanto, fundamento para afirmar que um professor de referência é sempre benéfico ou sempre prejudicial. O efeito depende do desenho da função. Deve haver objetivos definidos, tempo de atuação, partilha sistemática de estratégias, oportunidades planeadas de interação com colegas e revisão periódica do nível de proximidade necessário. O indicador de sucesso não é o aluno procurar sempre o mesmo adulto. É conseguir, progressivamente, comunicar e participar com mais pessoas e em mais contextos, mantendo uma relação segura a que possa recorrer quando precisa.

O problema começa quando referência passa a significar propriedade. O professor de referência não é o professor exclusivo daquele aluno, nem o profissional para quem todos os problemas são encaminhados. Se apenas uma pessoa sabe comunicar, antecipar uma mudança ou intervir perante uma sobrecarga, a escola criou dependência em vez de capacidade coletiva. A função deve assentar em coordenação, continuidade e transferência de conhecimento, com retaguarda e substituição possíveis.

Mais do que mudar a placa, urge mudar a prática. Aplicar o Decreto-Lei n.º 54/2018 integra a responsabilidade de quem educa e dirige. A formação e os recursos são essenciais, mas não podem perpetuar hábitos ultrapassados. As leis precisam de profissionais esclarecidos, determinados, abertos e flexíveis: caminhos de progresso, nunca obstáculos à inclusão, ao bem-estar e à aprendizagem. O TEACCH mantém ferramentas valiosas. O que não pode manter é a fronteira entre “os alunos da sala” e os restantes. Mudar o nome sem mudar a dinâmica é cumprir o papel e falhar a lei.

Maria Manuela Almeida

Fonte: Visão

sábado, 26 de setembro de 2026

Profissão sem regras põe em causa a inclusão de centenas de alunos surdos

Quase três décadas depois de ter sido criada, a profissão de intérprete de Língua Gestual Portuguesa (LGP) permanece sem regulamentação específica, embora continue a ser reconhecida por lei. A ausência de um enquadramento nacional uniforme está a criar desigualdades entre escolas, precariedade laboral e um crescente desgaste físico e psicológico entre os profissionais que garantem diariamente o acesso de quase mil alunos surdos à educação.

O alerta parte da Comissão de Intérpretes de Língua Gestual Portuguesa em Contexto Educativo, recentemente ouvida na Assembleia da República no âmbito de uma petição que reclama a regulamentação da profissão. O objetivo é definir regras nacionais para o exercício da atividade, protegendo profissionais sujeitos a elevado desgaste físico e cognitivo e garantindo uma resposta mais estável aos alunos surdos.

Fonte: JN

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Falta de recursos humanos nas escolas dificulta vida de alunos com necessidades educativas especiais

A carência de recursos humanos está a criar obstáculos principais na resposta que as escolas dão às crianças e jovens com necessidades educativas especiais. Uma questão que preocupa cada vez mais país e professores.

Professores e famílias deixam o alerta no arranque do ano lectivo - o acesso aos apoios previstos é difícil, assim como a articulação dos serviços dentro das escolas.

Um cenário que deixa sem o apoio necessário parte dos alunos com necessidades especiais.

Fonte: RTP com vídeo, por indicação de Livresco

domingo, 20 de setembro de 2026

Falta de professores especializados "põe em causa direito" dos alunos com necessidades educativas especiais

O arranque do ano letivo tem levantado uma série de problemas. Só esta quarta-feira à noite é que 100 alunos com necessidades educativas especiais foram colocados em colégios adequados.

Notícia TVI, por indicação de Livresco, com vídeo

sábado, 19 de setembro de 2026

Ministério da Educação condenado a colocar criança em escola com os apoios de que precisa

O Ministério da Educação foi condenado a colocar uma criança com necessidades educativas especiais numa escola do concelho de Almada, onde reside, com os apoios pedagógicos de que necessita, indicou o Movimento para a Inclusão Efetiva.

O coordenador do movimento, Lourenço Santos, disse à Lusa que a decisão do Tribunal Administrativo e Fiscal de Almada, hoje conhecida, decorreu de uma ação interposta pelos pais da criança, que pretendiam que o filho fosse colocado numa escola da sua área de residência com os devidos recursos pedagógicos.

Segundo Lourenço Santos, o tribunal deu três dias úteis para o Ministério da Educação colocar a criança numa escola do concelho onde reside, devendo-lhe ser assegurado "100 por cento dos recursos necessários" e identificados no relatório técnico-pedagógico, documento que fundamenta e define medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão de um aluno, tais como um professor especializado.

A fonte adiantou que o Ministério da Educação não compareceu na terça-feira à audiência em tribunal.

Já este sábado, a Agência para a Gestão do Sistema Educativo (AGSE) informou que o aluno “já se encontra colocado na Escola Básica das Lagoas”.

Segundo a AGSE, “o aluno em questão já se encontra colocado na Escola Básica das Lagoas, tendo sido igualmente mobilizados os recursos humanos necessários para assegurar o respetivo acompanhamento e apoio educativo”. “O Tribunal Administrativo e Fiscal de Almada foi, entretanto, informado das diligências realizadas”, acrescentou.

Fonte: Expresso

Os “invisíveis” na turma: o que dizem os especialistas sobre classes de 30 alunos

O debate sobre o limite de estudantes por turma eclodiu no centro de uma crise de colocações que marcou o arranque do ano letivo. O problema estendeu-se de forma crítica para lá de Sintra – concelho que concentrou atenções no início desta semana quando se soube ter um pico de 744 alunos sem colocação segundo dados da Fenprof –, alastrando-se a várias regiões devido à centralização de processos na nova Agência para a Gestão do Sistema Educativo (AGSE) e a uma forte pressão demográfica.

Na Área Metropolitana de Lisboa, o concelho capital registava 613 alunos sem vaga, um cenário atenuado apenas após uma reunião maratona de sete horas, esta segunda-feira, 14 de setembro, com os serviços ministeriais que culminou na diretiva de alargar os grupos já existentes – isto é, as turmas de 27 ou 28 alunos passaram a ter 30. A estas dificuldades somaram-se as zonas de forte crescimento populacional na Margem Sul (Seixal, Almada e Loures) e a escassez de infraestruturas e professores no Algarve, estranguladas por matrículas tardias e por um fluxo crescente de alunos do ensino privado para o público, impulsionado pela carestia de vida.

Portanto, ou eram turmas mais numerosas ou deixar alunos fora da escola, como o ministro salientou esta terça-feira. E, em alguns casos, foi mesmo preciso o Ministério da Educação fazer finca pé e ordenar inquéritos por parte da Inspeção-Geral da Educação e Ciência a escolas com vagas que recusavam alunos, forçando os diretores – que alegavam falta de professores – a ceder sob pressão a aceitar o alargamento excecional das turmas.

Perante a imposição de gerir turmas mais numerosas para absorver os excedentes, a perspetiva de quem lidera as escolas no terreno traz para a discussão contornos bem mais complexos do que a mera aritmética ministerial. Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), avisa que a gestão de grupos numerosos mudou drasticamente face às décadas anteriores. “Ter numa sala de aula 30 alunos, nos dias de hoje, não é nos meus dias, que sou do século passado, é nos dias de hoje, nós temos turmas muito heterogéneas, cada aluno é diferente do outro, e, portanto, são alunos muito desafiantes”, sublinha.

A este desafio acresce a vetustez do parque escolar, uma dimensão estrutural frequentemente esquecida nos gabinetes: “Há muitas escolas que são de facto passadas, do tipo, 30, 40 anos, nunca sofreram uma intervenção, e, portanto, eu acho que algumas não estão preparadas para esta lógica de 30 alunos numa sala de aula.” Embora admita que no Ensino Secundário ou no 2.º ciclo a medida possa ser gerível, Filinto Lima traça uma linha vermelha intransponível no início da escolaridade: “Para uma escola de um 1.º ciclo com 30 alunos, eu acho que é muito complicado, os alunos estão ali a aprender, estão ainda na vulnerabilidade... ir para uma pré-escola, parece-me que 30 alunos numa sala de aula seria, de facto, muito complicado e as aprendizagens iriam, na verdade, sofrer as devidas consequências.”

Do ponto de vista psicológico e pedagógico, a premissa de que os resultados se mantêm inalterados até ao limiar dos 30 alunos merece uma desconstrução profunda por parte de Rute Agulhas. A psicóloga e terapeuta familiar esclarece que, embora “a investigação internacional nem sempre encontre diferenças significativas nos resultados académicos quando se compara, por exemplo, uma turma de 26 com uma de 29 ou 30 alunos, a qualidade do ensino não se mede apenas pelos resultados dos testes.”

Na prática quotidiana da sala de aula, o rácio elevado cobra uma fatura pesada ao nível da atenção individual. Rute Agulhas alerta que “turmas mais numerosas tendem a reduzir o tempo de atenção individual que cada aluno recebe do professor”, traduzindo-se em “menos oportunidades para feedback personalizado, para identificar precocemente dificuldades emocionais ou de aprendizagem, para promover a participação de alunos mais tímidos e para diferenciar estratégias pedagógicas.”

O reverso desta realidade recai diretamente sobre os alunos mais vulneráveis. “Para os alunos, sobretudo os que apresentam dificuldades de aprendizagem, necessidades educativas específicas, problemas comportamentais ou vulnerabilidades emocionais, o risco é o de se tornarem mais ‘invisíveis’ no grupo”, aponta a psicóloga. Embora ressalve que existem professores extraordinariamente competentes capazes de gerir turmas coesas com este número, Rute Agulhas sublinha que o erro reside em “acreditar que o número é irrelevante”, uma vez que o aumento da dimensão “eleva a exigência colocada ao professor e reduz drasticamente a margem para uma intervenção individualizada”, num momento em que a escola pública enfrenta, simultaneamente, o desafio de integrar os excedentes e de devolver estabilidade a milhares de crianças e jovens.

O braço-de-ferro neste arranque: desgaste docente vs. reforma

Ausências clínicas em massa e alertas de dirigentes revelam o profundo desgaste laboral que desafia a tutela ministerial.

Ainda o ano letivo não começou e já o seu arranque ficou marcado por um sinal de alerta invulgar: cerca de 2000 professores recorreram a baixas médicas logo nos primeiros dias de aulas, ficou a saber-se no passado domingo. Mais do que uma mera coincidência cronológica, este pico de ausências veio catalisar o debate sobre o profundo desgaste na profissão docente, transformando-se num barómetro das tensões acumuladas num setor sob forte pressão reformista.

Entre a urgência administrativa do Ministério da Educação em reorganizar o sistema – colocando alunos, gerindo vagas e apertando o cerco a escolas reticentes – e a capacidade de resposta no terreno, sobressai um mal-estar estrutural que divide opiniões, mas expõe fraturas antigas.

Sobre a coincidência destas ausências com o arranque das aulas, Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, recusa leituras simplistas de contestação artificiais e sublinha a legitimidade da resposta da classe. “O professor quando mete baixa médica, há aqui uma responsabilidade do professor e do médico que passa a baixa”, sustenta, apontando o dedo a uma realidade muitas vezes ignorada nos gabinetes ministeriais: o custo de vida e a barreira da habitação na capital.

Para o dirigente associativo, a deslocação de docentes do Norte para sul esbarra na crueza económica. “Ninguém vai do Norte do país, que é onde estão a maior parte das pessoas, para Lisboa, caso concreto, pagar uma renda; o nosso ordenado de, se calhar, da maior parte das pessoas que trabalham no nosso país, não dá para o fazer”, argumenta, frisando que o esgotamento é o reflexo inevitável de turmas hiperheterogéneas e altamente desafiantes.

Do ponto de vista clínico e psicológico, Rute Agulhas adverte que a análise a este fenómeno exige rigor e afasta a ideia de um esgotamento instantâneo. “O burnout ou esgotamento profissional é uma condição clínica associada a exposição prolongada a fatores de stress laboral”, esclarece a psicóloga, sublinhando que “uma pessoa com burnout não fica exausta apenas no primeiro dia de aulas; habitualmente existe uma história de sofrimento acumulado ao longo de meses ou anos”.

Contudo, Rute Agulhas reconhece que a concentração de profissionais a recorrer a baixas num mesmo contexto transcende a esfera puramente individual. Na sua perspetiva, a questão central não deve incidir apenas sobre a legalidade ou a intenção por trás dos atestados, mas sim sobre “o que esse fenómeno revela acerca do nível de desgaste, desmotivação e sentimento de falta de reconhecimento existente na profissão docente”.

Enquanto o Governo procura impor uma dinâmica de rigor e flexibilidade para escoar os excedentes de alunos, o mal-estar nas escolas recorda que qualquer tentativa de reforma profunda esbarra inevitavelmente nas condições humanas e relacionais do terreno. Num sistema em que os professores se sentem no limite e as lideranças escolares gerem o dia a dia a contrarrelógio, o braço-de-ferro institucional revela que as dores de parto da mudança continuam a cobrar um preço elevado à estabilidade da escola pública.

Fonte: Sapo por indicação de Livresco