O regresso às aulas significa voltar às rotinas, reencontrar amigos e conhecer novos professores e colegas. Mas, para algumas crianças e famílias, o início do ano letivo também pode trazer preocupações relacionadas com a integração e as relações entre alunos.
Entre os receios mais comuns está o bullying, um fenómeno que pode assumir diferentes formas e que não termina necessariamente quando a criança sai da escola. Com o crescimento das redes sociais e das plataformas de comunicação, determinadas situações podem continuar no ambiente digital através do chamado ciberbullying.
A Direção-Geral da Educação (DGE) tem, aliás, desenvolvido recursos específicos para a prevenção e combate ao bullying e ao ciberbullying nas escolas portuguesas, reconhecendo o impacto que estes fenómenos podem ter no bem-estar e percurso educativo das crianças e jovens.
Mas o que podem fazer os pais para ajudar?
1. Fale sobre bullying com o seu filho... mesmo que não exista nenhum problema
Uma das melhores formas de perceber o que está a acontecer na vida de uma criança é criar, desde cedo, um ambiente em que esta se sinta confortável para falar.
A UNICEF recomenda que os pais mantenham uma comunicação aberta com os filhos e conversem regularmente sobre a escola, os amigos e aquilo que sentem. A organização alerta ainda que algumas crianças podem ter dificuldade em contar espontaneamente que estão a ser vítimas de bullying.
Por isso, não é necessário esperar por sinais evidentes para abordar o tema.
Em vez de perguntar apenas “Como correu a escola?”, tente fazer perguntas mais específicas:
- “Com quem estiveste hoje no intervalo?”
- “Houve alguma coisa que te deixou triste ou desconfortável?”
- “Alguém te disse ou fez alguma coisa de que não gostaste?”
- “Viste algum colega a ser tratado de forma injusta?”
- “Se alguma coisa assim acontecesse, sabias a quem pedir ajuda?”
O objetivo não é assustar a criança, mas normalizar a conversa sobre relações, conflitos e sentimentos.
Quanto mais natural for falar sobre estes assuntos, mais fácil poderá ser para a criança procurar ajuda caso alguma coisa aconteça.
2. Ensine-o a reconhecer os sinais e a pedir ajuda
Nem sempre uma criança sabe identificar determinado comportamento como bullying.
É importante explicar que existem diferentes formas de violência entre pares. Pode existir agressão física, insultos, ameaças, humilhação, exclusão deliberada ou comportamentos destinados a prejudicar a criança perante os colegas.
O fenómeno também pode acontecer online. Segundo a UNICEF, o ciberbullying pode incluir comportamentos como enviar mensagens ofensivas ou ameaçadoras, espalhar mentiras ou publicar fotografias e vídeos embaraçosos de outra pessoa.
É por isso importante que a criança saiba que pedir ajuda não é “fazer queixinhas”.
Explique-lhe quem são os adultos a quem pode recorrer: os pais, um professor, diretor de turma, psicólogo da escola ou outro adulto de confiança.
A própria DGE tem vindo a reforçar a importância da prevenção e intervenção perante situações de bullying e ciberbullying, disponibilizando materiais destinados não só às escolas, mas também a pais e encarregados de educação.
3. Esteja atento a mudanças no comportamento
Uma criança vítima de bullying pode não dizer diretamente o que está a acontecer. Por isso, os pais devem estar atentos a mudanças inexplicadas no comportamento, sobretudo quando surgem de forma repentina ou persistente.
Segundo especialistas, uma criança que esteja a sofrer bullying pode tornar-se mais reservada, ansiosa ou irritável, perder confiança ou afastar-se socialmente. Também podem surgir alterações no sono, perda de interesse por atividades de que gostava ou maior secretismo.
Entre os sinais que merecem atenção podem estar:
- resistência ou medo de ir para a escola;
- isolamento ou perda repentina de amizades;
- alterações significativas de humor;
- ansiedade ou irritabilidade;
- perda de interesse por atividades habituais;
- alterações nos padrões de sono ou alimentação;
- queda inesperada no rendimento escolar;
- queixas frequentes de dores de cabeça ou de barriga;
- maior preocupação ou secretismo relativamente ao telemóvel e à atividade online.
Nenhum destes sinais significa automaticamente que exista bullying. As crianças podem apresentar alterações comportamentais por muitas outras razões. O que deve preocupar os pais é sobretudo uma mudança persistente ou inexplicada, que justifique uma conversa e, se necessário, o contacto com a escola.
4. Se suspeitar que está a acontecer, ouça antes de agir
Descobrir que o filho pode estar a ser vítima de bullying pode provocar uma reação imediata nos pais, desde querer confrontar os outros alunos até exigir respostas à escola.
Mas o primeiro passo deve ser ouvir a criança. A UNICEF aconselha os pais a criar um espaço seguro para que o filho possa contar o que aconteceu e reforça uma mensagem essencial: a criança que sofre bullying não é culpada pelo que lhe está a acontecer.
Tente perceber:
- o que aconteceu;
- quando e onde aconteceu;
- quem esteve envolvido;
- se foi um episódio isolado ou se tem acontecido repetidamente;
- quem assistiu;
- se existem mensagens, fotografias ou outros registos.
No caso de ciberbullying, é especialmente importante guardar provas antes de apagar mensagens ou bloquear contas.
A UNICEF recomenda ainda que, perante uma situação de ciberbullying, os pais conversem com a criança e procurem ajuda de um adulto de confiança. Mais importante ainda: evite dizer simplesmente “ignora” ou “tens de ser mais forte”. A criança precisa de perceber que os adultos estão disponíveis para intervir e ajudá-la a encontrar uma solução.
5. Envolva a escola e procure uma solução em conjunto
Se existir uma situação de bullying, os pais não devem tentar resolver tudo sozinhos.
Especialistas recomendam que as famílias trabalhem em conjunto com a escola, estabelecendo uma relação de confiança com professores e outros responsáveis e comunicando as suas preocupações. A organização sugere também que os pais procurem saber quais são as políticas e mecanismos existentes na escola para prevenir e responder ao bullying.
Em Portugal, esta responsabilidade também é assumida pelas próprias escolas. A Direção-Geral da Educação desenvolve o programa “Escola Sem Bullying, Escola Sem Violência”, destinado a promover ambientes escolares seguros e a prevenir diferentes formas de violência.
Por isso, perante uma suspeita, o primeiro contacto pode ser feito com o professor ou diretor de turma e, dependendo da situação, com o psicólogo ou direção da escola.
É igualmente importante evitar confrontar diretamente a criança que alegadamente praticou bullying ou os respetivos pais. A prioridade deve ser proteger a criança e encontrar uma resposta coordenada com a escola.
E se bullying acontecer online?
O ciberbullying merece uma atenção especial porque pode acompanhar a criança para casa e acontecer a qualquer hora.
Alguns sinais podem incluir alterações no humor depois de utilizar o telemóvel ou computador, mudanças no sono ou alimentação e perda de interesse por atividades de que a criança gostava.
Em Portugal, a Direção-Geral da Educação disponibiliza ainda informação sobre segurança digital e encaminha para a Linha Internet Segura, serviço da APAV que presta apoio anónimo e confidencial relativamente a questões relacionadas com a utilização de plataformas e tecnologias online.
O mais importante? A criança saber que pode contar consigo
Não é possível garantir que uma criança nunca vai enfrentar conflitos ou comportamentos agressivos durante o percurso escolar. Mas os pais podem criar uma rede de segurança à sua volta.
Falar regularmente sobre a escola, conhecer os amigos, prestar atenção a mudanças de comportamento e mostrar que pedir ajuda é sempre uma opção são estratégias que podem facilitar a identificação precoce de um problema.
E, caso exista bullying, há uma mensagem que deve ficar clara desde o primeiro momento: a criança não tem culpa e não tem de enfrentar a situação sozinha.
A prevenção do bullying é uma responsabilidade partilhada entre família, escola e comunidade. A DGE sublinha precisamente a importância de as escolas desenvolverem estratégias de prevenção e combate a estes fenómenos.
Fonte: SIC por indicação de Livresco
