Há professores que chegam ao fim da carreira com um conhecimento admirável da matéria que ensinam e uma experiência feita de milhares de rostos, histórias e acontecimentos. Conhecem os silêncios de uma turma, reconhecem o aluno inquieto antes dele abrir a boca, distinguem a indiferença da tristeza e sabem que, muitas vezes, uma criança ou um jovem que parece desinteressado está apenas a pedir ajuda numa linguagem que a escola ainda não aprendeu a decifrar.
Imaginemos uma professora de Português, já muito perto do fim da sua longa carreira, diante de uma turma de 30 alunos que conhece há meses. Há um aluno que chega sistematicamente atrasado. Não são cinco minutos ocasionais de um dia de chuva ou de um autocarro que se atrasou. É quase todos os dias. Entra quando a aula já começou, interrompe o fio da explicação, ocupa o lugar com uma lentidão ostensiva, troca comentários ofensivos com os colegas, contesta as orientações, perturba a concentração dos outros. A professora corrige, adverte, regista ocorrências, contacta o diretor de turma, a família, procura ajuda junto da direção de turma. No dia seguinte, a história recomeça.
Nada de extraordinário acontece num único desses dias. E é precisamente esse o problema. A violência escolar nem sempre começa com um murro, uma ameaça ou uma cadeira atirada ao chão. Há uma violência mais subtil, subterrânea, feita de pequenas afrontas repetidas, de desrespeitos normalizados, de desafios constantes à autoridade, de humilhações discretas, de interrupções que se acumulam até transformarem uma sala de aula num território de desgaste. O que isoladamente parece pouco, quando repetido durante meses, pode destruir a confiança necessária para ensinar e aprender.
A professora vai ficando exausta. O aluno vai ficando cada vez mais distante da regra. A turma percebe que a autoridade está a ser testada. E a escola vai registando acontecimentos, como quem tenta transformar uma relação deteriorada numa sequência de números e formulários. Entretanto, é preciso dar a aula.
É esta uma das contradições mais difíceis da escola contemporânea: ao professor é pedido que ensine, eduque, avalie, motive, inclua, acompanhe, comunique com as famílias e responda à diversidade crescente das salas de aula, ao mesmo tempo que se espera que seja capaz de intervir eficazmente perante conflitos para os quais são necessárias competências específicas de natureza relacional e socioeducativa.
Não se trata de diminuir a responsabilidade dos professores. Trata-se de reconhecer os limites de qualquer profissão quando lhe são atribuídas funções que ultrapassam a sua especialização.
Os dados mais recentes do Programa Escola Segura dão espessura a esta realidade. No ano letivo de 2025/2026, a PSP registou 4.075 ocorrências, mais 4,6% do que no ano anterior. Destas, 2.898 tiveram natureza criminal e 1.177 natureza não criminal. As ofensas à integridade física atingiram 1.426 ocorrências, mais 10,5% do que em 2024/2025 e o valor mais elevado dos últimos cinco anos. As injúrias e ameaças chegaram às 920. A PSP registou ainda 155 situações relacionadas com bullying e 25 com cyberbullying.
Estes números devem ser lidos com rigor: não representam toda a indisciplina existente nas escolas, mas apenas as ocorrências registadas no âmbito do Programa Escola Segura. Revelam, contudo, que a conflitualidade escolar possui uma dimensão que ultrapassa claramente a capacidade de resposta de uma sala de aula e que não pode ser reduzida a episódios ocasionais de mau comportamento. A maioria dos crimes registados ocorreu, aliás, no interior dos recintos escolares, precisamente onde ensinamos, convivemos e educamos.
A polícia é necessária. A autoridade é necessária. As consequências previstas pelas regras e pela lei são necessárias. Mas, convenhamos, uma sociedade que responde ao conflito apenas quando ele já se transformou em ocorrência chega sempre depois do momento mais importante: aquele em que ainda era possível preveni-lo.
É neste intervalo que a mediação ganha sentido. Um mediador de conflitos não é um polícia sem farda, nem um funcionário destinado a controlar os chamados alunos problemáticos. Não substitui o professor, o diretor, o psicólogo, o assistente social ou qualquer outra figura profissional. O seu lugar é outro: entre as pessoas, entre as versões de cada acontecimento, entre aquilo que foi feito e aquilo que ficou por dizer.
Mediar é escutar quando já ninguém quer ou consegue ouvir. É ajudar a separar o facto da interpretação, a necessidade da acusação, a responsabilização da humilhação. É criar condições para que o conflito seja compreendido antes de ser transformado em identidade: o aluno difícil, a professora injusta, a família problemática, a turma impossível. Quando um conflito se cristaliza nessas etiquetas, já não estamos apenas perante um problema de comportamento; estamos perante uma relação que deixou de reconhecer a humanidade no outro.
A mediação é uma função eminentemente educativa e preventiva. O seu trabalho começa, muitas vezes, antes da agressão: numa provocação repetida, numa exclusão persistente, numa tensão entre grupos, numa dificuldade de comunicação entre a escola e uma família, num conflito que cresce nas redes sociais e reaparece na manhã seguinte dentro do recinto escolar.
Há experiências portuguesas que demonstram que esta abordagem não pertence ao domínio das boas intenções. No Porto, por exemplo, o Instituto de Mediação da Universidade Lusófona do Porto (IMULP) dinamizou, com o patrocínio da Câmara Municipal do Porto, Divisão Municipal de Educação, o projeto Mediação de conflitos em contexto escolar: Por uma convivência cidadã, no Agrupamento de Escolas Fontes Pereira de Melo. Foram criados dois Gabinetes de Mediação de Conflitos, na Escola Básica e Secundária Maria Lamas e na Escola Básica e Secundária Fontes Pereira de Melo, envolvendo professores e alunos mediadores e prevendo formação para alunos, docentes, pessoal não docente e encarregados de educação, bem como a colaboração regular de uma mediadora certificada.
A experiência do Porto é particularmente significativa, porque trata a mediação como parte da vida da escola e não apenas como resposta à emergência. O próprio município, através de um projeto de mediação socioeducativa desenvolvido em parceria com a Universidade Lusófona, refere ter envolvido mais de 3.200 elementos das comunidades educativas de três agrupamentos, entre alunos, profissionais de educação e encarregados de educação, tendo realizado 330 mediações formais e informais, com taxas de resolução superiores a 80%, segundo os resultados divulgados. O projeto procurou ainda criar estruturas de mediação capazes de assegurar a consolidação e sustentabilidade da intervenção.
É um exemplo que merece ser observado com atenção, não porque resolva todos os problemas da escola, mas porque mostra que existe reconhecimento de uma necessidade, uma metodologia, existe formação e existem profissionais capazes de trabalhar aquilo que a disciplina, sozinha, não consegue reparar.
A questão seguinte é mais incómoda: o que acontece quando um projeto termina?
Uma relação humana não respeita calendários administrativos. Um conflito não desaparece porque terminou o financiamento de uma iniciativa. A confiança não se constrói entre setembro e dezembro para depois ser devolvida ao Estado antes do verão. Quem trabalha numa escola sabe que os conflitos têm memória. Há histórias que passam de ano para ano, famílias que acumulam desconfiança, turmas que carregam reputações, alunos que chegam ao presente trazendo consigo problemas que começaram muito antes de uma determinada ocorrência.
A mediação precisa, por isso, de continuidade e persistência.
E esta questão encontra hoje um enquadramento institucional particularmente relevante. Na Recomendação n.º 6/2026, o Conselho Nacional de Educação (CNE) chama a atenção para a diversidade e crescente complexidade dos outros profissionais da educação, reconhece problemas de estabilidade e de enquadramento dos técnicos especializados e recomenda o recrutamento de técnicos superiores a tempo indeterminado, bem como a sua integração efetiva nas estruturas multidisciplinares das escolas. O documento inclui expressamente a mediação de conflitos entre os domínios que exigem articulação interprofissional.
Este dado merece ser valorizado, porque permite deslocar a discussão de uma questão puramente disciplinar para uma questão de organização da escola. A própria recomendação reconhece que muitos destes profissionais respondem a necessidades permanentes e que a precariedade, a indefinição dos perfis e a descontinuidade podem comprometer a qualidade e a sustentabilidade da intervenção.
A escola contemporânea está a tornar-se demasiado complexa para continuar a trabalhar com uma arquitetura profissional desenhada para problemas de outra época. Ao lado de quem ensina, precisamos de quem acompanhe, de quem faça mediação, de quem trabalhe a relação com as famílias, de quem intervenha nas dimensões sociais e culturais, de quem compreenda as novas formas de conflito e ajude a comunidade educativa a reconstruir os vínculos quando eles se rompem.
Não se trata de multiplicar cargos. Trata-se de não pedir a uma única profissão que responda sozinha a tudo.
Voltemos à professora de Português. No seu rosto, depois de tantos anos de escola, não está apenas o cansaço de um aluno que chega atrasado. Está o desgaste de sentir que cada aula pode transformar-se numa disputa pela autoridade, enquanto o essencial, ensinar, vai ficando para segundo plano. E no aluno não está apenas o comportamento que incomoda. Está uma história que o professor conhece apenas parcialmente e que um mediador pode ajudar a tornar legível.
É aqui que reside a diferença fundamental entre punir um comportamento e transformar uma relação. A mediação não significa absolver. Não significa relativizar a indisciplina. Não significa retirar consequência a quem agride, ameaça ou desrespeita. Significa acrescentar à resposta disciplinar uma outra dimensão: compreender, responsabilizar, reparar e prevenir.
Precisamos de deixar de pensar que prevenir é fazer aquilo que acontece antes do problema e começar a perceber que prevenir é trabalhar aquilo que, durante muito tempo, chamámos apenas de pequenos problemas.
Vivemos numa época de respostas instantâneas. Um comentário gera outro, uma imagem gera indignação, uma provocação gera uma contra-provocação, uma frase é retirada do seu contexto e imediatamente transformada em julgamento. A escola não pode reproduzir integralmente esta lógica. Precisa de ser um dos poucos espaços onde a palavra ainda tenha tempo para chegar antes da sentença.
O conflito não é uma anomalia da vida humana. O conflito pertence à vida. Onde há pessoas, há diferenças de expectativas, de valores, de temperamentos, de histórias e de necessidades. Educar não consiste em construir uma sociedade sem conflito; consiste em ensinar a atravessá-lo sem que a dignidade do outro tenha de ser destruída.
É por isso que a mediação escolar não é apenas uma ferramenta disciplinar. É uma forma de olhar para a escola. Uma escola suficientemente adulta para compreender que a autoridade não se fortalece quando grita mais alto, mas quando consegue estabelecer limites sem humilhar. Uma escola suficientemente humana para reconhecer que responsabilizar alguém não exige desumanizá-lo. Uma escola suficientemente inteligente para perceber que a segurança não começa na ocorrência registada, mas na relação que foi capaz de construir antes dela.
Então, uma das perguntas mais importantes que devemos fazer perante a crescente conflitualidade escolar será: queremos continuar a formar professores para responderem cada vez melhor a conflitos que não escolheram ter como função principal ou queremos finalmente construir equipas educativas onde cada profissional possa fazer aquilo para que está preparado?
Entre o aluno que chega atrasado todos os dias e a professora que já não encontra energia nem tempo suficientes para travar a mesma batalha, existe um espaço invisível. É aí que a mediação pode entrar, não para decidir quem ganhou, mas para que a escola não tenha de perder ninguém.
José Paulo Santos
Fonte: Visão por indicação de Livresco
