Há muitos anos que sabemos que os diagnósticos são pouco relevantes do ponto de vista educacional e têm, frequentemente, mais efeitos adversos do que efeitos positivos.
Como é sabido, Portugal dispõe desde 2018 (Decreto-Lei n.º 54/2018) de legislação que estabelece as bases conceptuais e organizacionais para tornar as escolas em estruturas inclusivas. No preâmbulo deste diploma escreve-se “afasta-se a conceção de que é necessário categorizar para intervir.” A este afastamento da necessidade de categorização é proposta uma alternativa: “(…) Esta abordagem baseia-se em modelos curriculares flexíveis, no acompanhamento e monitorização sistemática da eficácia do contínuo das intervenções implementadas, no diálogo dos docentes com os pais ou encarregados de educação e na opção por medidas de apoio à aprendizagem, organizadas em diferentes níveis de intervenção (…)”.
Acaba de ser aprovado, em Conselho de Ministros, o texto da revisão do Decreto-Lei n.º 54/2018, que reafirma esta abordagem: “Ao afastar uma lógica centrada na categorização dos alunos e ao afirmar uma abordagem assente no Desenho Universal para a Aprendizagem, na abordagem multinível e na identificação de barreiras à aprendizagem e à participação, o diploma contribuiu para consolidar uma cultura escolar mais inclusiva”.
No entanto, uma investigação internacional publicada em 2025 (1) confirma que continuam a existir imprecisões sobre os termos inclusão, necessidades educativas especiais e deficiência, e que estas imprecisões originam tensões em torno dos conceitos de categorização e de acesso a apoio.
Apesar da (louvável, na minha opinião) consistência do pensamento legislativo português, permanecem, a nível internacional, questões sobre a necessidade e o âmbito da categorização dos alunos como critério prévio para delinear estratégias de apoio. O assunto é muito vasto, mas, mesmo assim, gostaria de contribuir para a reflexão com três pontos.
O primeiro é, obviamente, para concordar que, para existir um apoio competente aos alunos, é essencial conhecê-los bem. Acho que podemos encontrar unanimidade sobre este aspeto: a ignorância gera más práticas e precisamos de ir o mais longe possível no conhecimento do aluno — como se comporta, quais são os seus gostos e dificuldades, como aprende melhor, como se relaciona com o seu envolvimento, etc.. Obviamente, um diagnóstico sobre uma eventual deficiência ou condição pode ser um fator adicional de utilidade a considerar, mas reduzir este conhecimento do aluno a um diagnóstico psicológico ou médico constitui um enorme risco. Seria como avaliar a qualidade de um vinho lendo o rótulo.
Há muitos anos que sabemos que os diagnósticos são pouco relevantes do ponto de vista educacional e têm, frequentemente, mais efeitos adversos do que efeitos positivos. Um ponto interessante é que os diagnósticos dizem, por vezes, mais sobre quem os faz do que sobre quem os recebe: se pedirmos a três profissionais diferentes um diagnóstico sobre um mesmo caso, eles serão certamente diferentes, porque o olhar e a cultura de quem o faz estão indelevelmente presentes no veredicto.
Em segundo lugar, o que nos poderá aproximar mais e melhor de uma caracterização do aluno é uma multiplicidade de olhares prolongados no tempo. É através de uma equipa (que, na nossa legislação, se chama Equipa Multidisciplinar de Apoio à Educação Inclusiva) e de uma caracterização evolutiva que poderemos chegar mais perto de compreender as potencialidades e dificuldades de cada caso. Cabe dizer que a importância do olhar educativo (aprendizagem e participação) é central para esta caracterização. Todos os contributos devem convergir para a Educação, porque a escola não é uma clínica.
Por fim, esta caracterização do aluno deve contribuir para conhecer a sua diversidade. A inclusão não procura considerar ou tornar os alunos iguais (na verdade atua de forma oposta a esta): procura, sim, aquilo que é específico e comum em cada um de nós.
É difícil, sem dúvida: a nossa dificuldade em aceitar a diversidade manifesta-se até na forma como agrupamos (para tornar menos diferentes) pessoas que são muito diferentes entre si. Falamos dos deficientes, dos italianos, das crianças, dos ciganos, dos filósofos, dos portuenses, da turma F, como se fossem “mais ou menos” a mesma coisa.
A categorização pode constituir uma redução da diversidade e uma dificuldade acrescida para pesquisar e encontrar o que é comum e específico de cada um.
Em síntese: Portugal está no caminho certo ao valorizar uma caracterização evolutiva no tempo e diversificada na constituição da equipa, e ao recusar a categorização como base para a intervenção. Claro que temos dificuldades: muitas vezes encontramos pouca competência para avaliar, ausência de opiniões que considerávamos essenciais e até falta de recursos para nos ajudar a tornar mais complexa a recolha de informação. Mas o caminho não é reduzir a complexidade, aceitando como definitivos diagnósticos e resultados de testes; o caminho é continuar a ser exigentes, mantendo um olhar atento e multidisciplinar.
O caminho da não categorização que a Educação Inclusiva adota é, certamente, o mais indicado para recusarmos o “rolo compressor” da igualdade, para procurarmos e encontrarmos a diversidade e para tratarmos todos os seres humanos com a dignidade que lhes é devida.
(1) Beck, K., Katzelbach, D., Urban, M. (2025). Diagnosis, Assessment and Measurement in Relation to Inclusive Education. A systematic review of international research. EJIE, 4(3), 72–91.
David Rodrigues
Fonte: Público por indicação de Livresco