terça-feira, 7 de abril de 2026

Fusão de ciclos. Fé cega ou debate a sério?

Há reformas que nascem tortas porque começam pelo fim. E depois há estas, que ainda nem começaram e já parecem condenadas ao velho pecado nacional de confundir decisão com pressa, estudo com propaganda e debate com encenação. A ideia de aproximar o 1.º e o 2.º ciclo pode até fazer sentido. Mas só faz sentido se for tratada como aquilo que é, uma mudança estrutural que mexe com a infância, com a organização da escola, com a formação de professores e com a vida concreta das famílias. O que não faz sentido é fingir que basta alinhar algumas teses importadas, citar meia dúzia de experiências estrangeiras e, de repente, imaginar que a realidade portuguesa se dobra por decreto.​​

É por isso que o estudo agora conhecido do Conselho Nacional de Educação merece ser lido com atenção e sem as habituais birras ideológicas. Não porque apresente uma verdade revelada, mas porque confirma o que muitos já sabiam há anos, o atual 2.º ciclo perdeu identidade, vive entre duas lógicas que nunca casaram bem e tem funcionado, demasiadas vezes, como um corpo estranho na arquitetura do ensino básico. Ora, se isto é verdade, então a pergunta séria não é se a fusão agrada ou desagrada a este ou àquele quadrante partidário. A pergunta séria é outra. O que estamos mesmo a tentar resolver.​

O estudo é útil porque não se limita a repetir lugares comuns. Vai à história, olha para a evolução do sistema, cruza recomendações anteriores, escuta professores, diretores, académicos e peritos, e mostra que a discussão não começou ontem. Há mais de quinze anos que se sabe que o salto do 4.º para o 5.º ano é uma espécie de travessia brusca, quase sempre mal-acompanhada, quase sempre mal pensada, quase sempre suportada por uma organização escolar que obriga a criança a mudar de ambiente, de regra, de relação pedagógica e de registo emocional sem qualquer preparação digna desse nome. Quem tem andado no terreno sabe-o bem. Quem vive de relatórios costuma descobrir isso tarde, quando descobre.​​

E é precisamente aqui que começa o problema político. Porque a reforma pode ser certa e ainda assim ser mal feita. Pode ser desejável e ainda assim ser prematura. Pode ter fundamento e ainda assim carecer de legitimidade se for imposta sem um debate público decente. E o debate que falta não é o debate das conferências onde se repetem fórmulas gastas sobre modernização, flexibilidade, competências e alinhamento internacional. Falta o debate a sério, aquele em que se pergunta o óbvio e se responde sem medo de parecer antiquado. Que infância queremos proteger. Que escola podemos sustentar. Que papel deve ter o Estado quando prolonga a permanência das crianças no espaço escolar até julho e, ao mesmo tempo, parece incapaz de lhes oferecer condições de verdadeiro bem-estar educativo.​

Porque é disso que estamos a falar. Não apenas de ciclos curriculares. Não apenas de uma engenharia administrativa sobre o ensino básico. Estamos a falar do modo como o Estado organiza a infância e a família. E aqui a questão é incómoda, mas inevitável. Queremos mesmo manter, todos os anos, milhares de crianças do pré-escolar, do 1.º ciclo e do 2.º ciclo dentro da escola até julho, como se isso fosse uma evidência natural e não uma escolha política pesada, com custos sociais, humanos e pedagógicos? Ou estamos apenas a empurrar para dentro da escola aquilo que o país não resolve fora dela, transformando a instituição escolar numa resposta total para problemas que pertencem também ao trabalho, ao apoio social, à habitação e à conciliação entre vida familiar e profissional ?​

Há quem prefira não fazer esta pergunta porque a pergunta estraga o conforto do discurso. Mas é precisamente a pergunta que importa. Se o calendário escolar se alonga, se a escola se torna cada vez mais o lugar onde a infância fica retida, então é preciso dizer claramente o que isso significa. Não basta chamar-lhe organização. Às vezes chama-se organização ao que é apenas incapacidade coletiva de pensar outra coisa. E o risco é este. Que a escola deixe de ser um lugar de aprendizagem equilibrada para passar a ser o último amortecedor de um Estado social cansado, fragmentado e sem imaginação.​

A fusão do 1.º e do 2.º ciclo, se avançar, não pode servir para maquilhar esse impasse. Tem de ser discutida, antes de mais, como uma resposta pedagógica e organizativa a um problema real. E esse problema está identificado. Há descontinuidade, há excesso de fragmentação, há uma transição mal resolvida, há uma organização do trabalho docente que, em muitos casos, favorece a dispersão em vez da continuidade. O estudo do CNE volta a sublinhar isso com serenidade e sem dramatismo. E ainda bem. Porque neste país, quando se fala de educação, há sempre quem prefira berrar em vez de pensar.​

Mas pensar exige mais do que repetir estudos estrangeiros. Exige saber ler o país onde se quer aplicar a reforma. E isso é precisamente o que tantos decisores fingem não perceber. Não se importam modelos como quem importa eletrodomésticos. Não se adapta um sistema educativo como se muda a decoração de uma sala. Há cultura escolar, há hábitos institucionais, há formação docente, há condições materiais, há desigualdades territoriais, há diferenças entre escolas e agrupamentos, há realidades urbanas e rurais, há estabelecimentos com equipas estáveis e outros onde a rotação é crónica. Tudo isso conta. Tudo isso muda a forma como uma reforma vive ou morre.​

Por isso, antes de celebrar a fusão ou de a condenar, o país devia fazer o que raramente faz, ouvir quem está no terreno. Ouvir professores do 1.º e do 2.º ciclo, ouvir diretores, ouvir coordenadores, ouvir quem sabe o que acontece quando uma criança deixa de ter uma referência única e entra numa estrutura mais dispersa, ouvir quem sabe como se constrói continuidade pedagógica sem slogans nem milagres. Porque a escola não se governa de gabinete. Governa-se com conhecimento situado, com experiência acumulada e com alguma humildade intelectual. Sem isso, o debate degrada-se em pose.​​

O que torna esta discussão ainda mais séria é a sua dimensão simbólica. Ao fim de tantos anos de hesitações, Portugal precisa de decidir se quer manter uma estrutura de ensino básico que vive há demasiado tempo numa espécie de meio caminho, ou se quer finalmente assumir uma organização mais coerente dos primeiros seis anos de escolaridade. Mas assumir isso não é o mesmo que correr para a fusão. Assumir isso é reconhecer que o atual modelo tem falhas e que qualquer mudança exige respostas para perguntas muito concretas. Como se articula o trabalho dos docentes. Como se garantem tempos de estabilidade. Como se evitam novas ruturas. Como se protege a ligação entre etapas. Como se regula a avaliação. Como se reorganiza a formação de professores. Como se assegura que a criança não é apenas um número numa arquitetura curricular mais bonita no papel do que na vida real.​

E a avaliação é um dos nós mais apertados. O estudo do CNE e as propostas que circulam apontam para um sistema sem notas quantitativas até ao 6.º ano, substituídas por descrições qualitativas, feedback contínuo e foco no progresso individual. Pode ser o caminho certo, alinhado com práticas internacionais que priorizam o desenvolvimento sobre a classificação mecânica. Mas é uma mudança de paradigma fraturante, que passa de um registo objetivo e familiar para um mais subjetivo e interpretativo. Por isso, deve ser bem pensada, com formação intensiva de professores, critérios unificados, pilotos testados e monitorização rigorosa para evitar que o bem-intencionado vire laxismo ou confusão. Sem preparação sólida, arriscamos uma reforma que soa progressista, mas falha no essencial, na clareza e na exigência quotidiana.​​

Há, além disso, um ponto que não convém varrer para debaixo do tapete. O país tem uma relação muito ambígua com o prolongamento do tempo escolar. Gosta de proclamar modernidade, mas continua preso a uma espécie de moral de calendário em que o tempo ocupado é sempre mais valorizado do que o tempo bem vivido. E isto vale tanto para o currículo como para o verão, para a ocupação da escola como para a pretensa necessidade de manter todos os alunos dentro de portas o máximo possível. O problema é que mais tempo não significa melhor tempo. E a escola, se quiser continuar a ser escola, não pode aceitar a lógica de que tudo se resolve com mais dias, mais horas e mais permanência.​

É por isso que esta discussão merece um nível de seriedade que, até agora, não teve. O estudo do CNE dá matéria para isso. Mas falta transformar matéria em conversa pública. E conversa pública não é um comentário apressado em roda de especialistas. É uma discussão onde se admite que há dúvidas legítimas, onde se reconhece que uma reforma desta dimensão não se impõe pela força da narrativa, onde se percebe que a escola não precisa de mais dogmas e muito menos de mais missionários do improviso.​

Em bom rigor, a questão central talvez seja esta. Não sendo contra a fusão à partida, que garantias concretas temos de que ela vai melhorar a aprendizagem, reforçar a continuidade e reduzir as ruturas? E, se não as temos, por que razão deveríamos avançar sem um debate largo, honesto e tecnicamente sólido? A política educativa portuguesa tem demasiadas reformas anunciadas como evidências e demasiado poucas decisões preparadas como devia ser. Talvez tenha chegado a hora de inverter esse vício.​

Porque uma reforma séria não se faz contra os professores, nem à margem dos diretores, nem de costas voltadas para as escolas. Faz-se com eles. E faz-se também com coragem para dizer o que tantos evitam. Se queremos mesmo mexer no desenho dos primeiros anos de escolaridade, então que se diga claramente o que se quer do sistema. Se queremos uma escola mais contínua, que se explique como. Se queremos prolongar a presença das crianças até julho, que se assuma o modelo social que isso implica. Se queremos copiar experiências de fora, que se prove que sabemos adaptá-las ao país real. Se queremos decidir bem, então primeiro temos de ouvir quem sabe e não apenas quem interpreta, de longe, estudos alheios como se isso bastasse para governar a escola.​

Sem esse debate, ficamos no mesmo de sempre. Reformas que prometem o céu e entregam nuvens. Desta vez, exijam melhor. Ouçam o terreno. Pensem a sério. As crianças não merecem menos.

Alberto Veronesi

Fonte: CNN Portugual por indicação de Livresco

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Abre concurso para vinculação aos quadros das escolas de mais de mil técnicos especializados

Em comunicado, o MECI adianta que os restantes 648 técnicos incluirão terapeutas da fala, educadores sociais ou técnicos de informática.

Segundo o ministério, a entrada nos quadros de 758 psicólogos eleva para 1.459 o número destes profissionais com um vínculo permanente aos quadros do MECI, passando todos as unidades orgânicas (agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas) a ter pelo menos um psicólogo.

“Atualmente, ainda 249 unidades orgânicas não dispunham de qualquer psicólogo vinculado aos quadros do MECI, situação que estes concursos de vinculação resolvem”, precisa o comunicado.

O ministério indica que o “rácio atual de um psicólogo nos quadros do MECI por cada 1.656 alunos passará para um psicólogo nos quadros do MECI por cada 796 alunos”, acrescentando que 62% das 807 unidades orgânicas ficam com dois ou mais psicólogos nos quadros do ministério.

Segundo o ministério, era necessário que todas as unidades orgânicas tivessem, “pelo menos, um psicólogo no seu mapa de pessoal”, tendo em conta a importância de se promover a saúde mental, assim como de “assegurar a orientação dos alunos, de prevenir o insucesso escolar, de apoiar alunos com necessidades educativas específicas e de melhorar o bem-estar de toda a comunidade educativa”.

Quantos às vagas para os outros técnicos especializados, competirá às escolas decidir, em função das necessidades do estabelecimento de ensino em causa, quais os profissionais a recrutar.

“Esta medida representa um investimento estrutural de mais de 38 milhões de euros, que responde a necessidades permanentes identificadas e que visa reforçar competências especializadas no apoio aos alunos em diversas áreas, de modo a assegurar o sucesso escolar, a igualdade de oportunidades, a equidade e a inclusão educativa e social, assim como o bem-estar físico e psicológico dos alunos”, adianta.

Fonte: 24 Notícias por indicação de Livresco

sábado, 4 de abril de 2026

"Todos nós nos sentimos sozinhos de vez em quando, mas as pessoas com síndrome de Down sentem-se sozinhas com mais frequência porque o mundo não é acessível e as pessoas tratam-nos de forma diferente"



Esther Volleberg representou a Inclusion Europe num evento realizado no Parlamento Europeu a 25 de março de 2026. O evento foi organizado para celebrar o Dia Mundial da Síndrome de Down. O tema do evento foi a solidão.

Esther Volleberg é natural dos Países Baixos. Esther é irmã de Inge Volleberg, que trabalha na Inclusion Europe como investigadora. Inge também interveio no evento.

Eis o que disse Esther Volleberg:

Chamo-me Esther Volleberg. Estou aqui em representação da Inclusion Europe. E vim falar sobre a solidão.

😢 A solidão não é agradável. Para ninguém. Nem mesmo para as pessoas com síndrome de Down. Mas as pessoas com síndrome de Down sentem-se muitas vezes sozinhas.

🎒 As pessoas com síndrome de Down têm mais probabilidades de se sentirem solitárias do que as outras pessoas. Por exemplo, as crianças com síndrome de Down têm mais dificuldade em integrar-se na escola. Eu tinha poucos amigos e era vítima de bullying na escola. Isto acontecia porque as outras crianças não me compreendiam, porque eu era diferente. Os professores zangavam-se com os agressores, mas isso não ajudava. Eu queria integrar-me, mas, em vez disso, sentia-me solitária.

🚌 As pessoas com síndrome de Down têm mais tendência a sentir-se sozinhas do que as outras pessoas. Por exemplo, nem sempre é fácil utilizar os transportes públicos, o que torna mais difícil visitar as pessoas. Tenho uma melhor amiga fantástica e vejo-a no trabalho. Mas ela mora longe e é difícil para mim aparecer para uma visita. Porque não sei que autocarro apanhar nem onde sair. Por isso, vejo-a com menos frequência do que gostaria, e isso faz-me sentir solitária.

💕 As pessoas com síndrome de Down têm mais tendência a sentir-se solitárias do que as outras pessoas. Por exemplo, porque é mais difícil encontrar um parceiro. Neste momento, não tenho namorado e não gosto disso. Há muito poucos lugares onde posso conhecer pessoas novas. Outras pessoas têm opiniões sobre com quem e quando posso namorar. E dependo da minha pessoa de apoio para marcar encontros. Como é tão difícil conhecer alguém, sinto-me sozinha.

As pessoas com síndrome de Down têm mais tendência a sentir-se sozinhas do que as outras pessoas. Por exemplo, sentes-te sozinha quando pensas no que os outros têm e que tu não podes ou não tens permissão para ter.

🪩 Sinto-me sozinha quando penso que outras pessoas da minha idade podem sair até tarde, enquanto eu não posso porque o serviço de táxi não funciona à noite.

👩🏻‍🍼 Sinto-me sozinha quando penso que outras pessoas podem escolher se querem ter filhos, enquanto essa escolha é feita por mim.

💸 Sinto-me sozinha quando penso que outras pessoas são pagas pelo seu trabalho num restaurante, enquanto o meu trabalho num restaurante é considerado como atividades de acolhimento diurno.

Todos nos sentimos sozinhos de vez em quando, mas as pessoas com síndrome de Down sentem-se sozinhas com mais frequência porque o mundo não é acessível para nós e as pessoas tratam-nos de forma diferente.

Isso tem de mudar.

Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com

Fonte: Inclusion Europe

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Como ler com as crianças? Algumas estratégias de leitura interativa para professores e famílias

É precisamente no ambiente familiar que a literacia ganha vida: são as primeiras conversas com os pais que lançam as bases do vocabulário; os livros criam e fortalecem vínculos afetivos; as histórias ajudam as crianças a descobrir o mundo.

A ciência mostra-nos que a leitura em voz alta estimula o cérebro dos mais novos das mais diversas formas. Além de desenvolver a fluência verbal e a capacidade de expressão, melhora a memória, a atenção e a compreensão, bem como a empatia e a autorregulação emocional.

Por dominarem a teoria e as práticas de leitura social, os professores podem ajudar a capacitar as famílias para a leitura, estabelecendo uma continuidade formativa entre a escola e a casa. Desta continuidade resultam contextos educativos mais ricos e pequenos leitores mais confiantes e interessados.

Estratégias de leitura interativa

1. Preparação da leitura

A leitura interativa começa muito antes de abrirmos o livro. Para que a experiência seja fluida, o adulto deve ler a história antecipadamente, garantindo que a sua voz consegue transmitir a emoção e o ritmo adequados.

A escolha do livro

Mais do que a idade cronológica das crianças, a seleção dos textos deve ter em conta o historial de cada uma. Que histórias já conhece? Que mundos já explorou? Que palavras já conhece? A seleção deve seguir um caminho progressivo que respeita os interesses e o nível de desenvolvimento linguístico individual:
  • Primeiros passos: Privilegie livros com mais imagem e menos texto, onde o conteúdo segue uma estrutura simples. Padrões rítmicos, rimas e repetições são bons auxiliares, pois facilitam a memorização e o reconhecimento. O melhor será escolher álbuns, dicionários ilustrados e livros que apresentem situações familiares e vocabulário de uso quotidiano, pois permitem que a criança associe imagens às palavras num contexto que já domina.
  • A evolução: À medida que a criança se sente confortável, é possível introduzir textos com maior densidade linguística. As imagens deixam de explicar tudo e passam a ser um complemento da história.
  • O poder da repetição: Tal como acontece com a inclusão de repetições intencionais dentro das histórias, é possível que as crianças peçam para ouvir a mesma história vezes sem conta. Esta repetição é muito importante, pois permite que a criança memorize a narrativa e consiga antecipar o que vem a seguir, adquirindo gradualmente confiança para contar a história sozinha.
  • Variedade de estilos: As leituras com os mais pequenos não têm de se cingir às histórias ditas infantis. É possível encontrar poesia e textos informativos sobre temas de eleição das crianças (animais, dinossauros, criaturas fantásticas, foguetões…) ajustados aos diferentes níveis de desenvolvimento de cada uma.
A preparação do cenário ideal

A leitura é um ato de atenção conjunta que deve estimular a participação ativa da criança. Para que crianças e adultos se concentrem na história, o ambiente deve estar livre de distrações:
  • Diga não aos ecrãs: Desligue a televisão e afaste os tablets e telemóveis.
  • Proximidade e afeto: Escolha um lugar confortável onde possa haver contacto físico. É importar proporcionar à criança a segurança emocional necessária para que se consiga entregar à história.
  • Rejeite a pressa: A leitura deve ser um momento de prazer, e não mais uma tarefa a cumprir. Leia devagar, respeitando o tempo de compreensão da criança. A qualidade da ligação entre a criança e quem lê a história é mais importante do que o número de páginas lidas.
2. Durante a leitura

Ler para uma criança é muito mais do que descodificar palavras: é uma experiência interativa que promove o afeto e a descoberta.
  • A importância da voz: Uma leitura expressiva é muito mais cativante e eficaz. Mude o tom nos momentos de diálogo e ajuste a velocidade de leitura para dar mais vida às personagens e aos diferentes momentos da ação. Uma leitura expressiva ajuda a criança a perceber as emoções e as intenções por trás de cada palavra.
  • Leia nas entrelinhas: Ajudar a criança a pensar sobre a história é tão importante como a história em si. É possível criar ligações intratextuais e extratextuais que enriquecem a experiência de leitura. Podemos questionar o que levou determinada personagem a agir de certa forma, antecipar possíveis desfechos e articular o conteúdo da narrativa com a experiência das crianças, os seus conhecimentos prévios ou as histórias que leu anteriormente. Este processo contribui para a consolidação de aprendizagens e para o desenvolvimento de competências de literacia.
  • Promova a participação ativa: A leitura deve ser um diálogo, e não um monólogo. Evite perguntas de «sim» ou «não», e prefira perguntas abertas que estimulem o pensamento crítico e a interpretação, como: «Porque achas que a personagem decidiu assim?» ou «O que farias tu nesta situação?».
  • Brinquem com as palavras: Repitam em coro palavras-chave ou expressões significativas do texto. Isto ajuda a fixar vocabulário e traz ritmo e entusiasmo à sessão de leitura.
  • Reformule e valorize: Sempre que a criança fizer um comentário ou responder a uma pergunta, aproveite para enriquecer a linguagem dela. Por exemplo, se a criança disser «O lobo é mau», pode responder: «Sim, o lobo parece assustador. Mas o Capuchinho Vermelho é corajoso!». Desta forma, está a ampliar o vocabulário da criança e a melhorar as suas competências comunicativas, introduzindo palavras novas de uma forma natural e positiva.
3. Após a leitura

A leitura de um livro pode ser apenas o início de um processo que consolida a compreensão e promove a expressão criativa das crianças. Depois da última página, há várias formas de ajudar as crianças a transformar a leitura numa aventura criativa.
  • Recriar a história: Recriar o texto exige criatividade e promove o desenvolvimento da linguagem oral. Em vez de recordar apenas o que aconteceu, incentive a criança a criar alterações, desenvolvendo o raciocínio e a imaginação. Peça à criança que altere o final, que mude o cenário ou que introduza uma nova personagem. Eis algumas perguntas que pode usar para facilitar esta nova criação: «E se o lobo tivesse conseguido entrar?» ou «E se a história acontecesse hoje, na nossa cidade, e não num castelo encantado?» ou ainda «Quem mais poderia chegar para ajudar a resolver o problema?»
  • Brinquem com as palavras: Escolha palavras marcantes do livro, como «gato» ou «balão», e desafie as crianças a encontrar rimas. Criar versos («O gato correu atrás do rato e perdeu o sapato»; «O balão fugiu da mão e foi parar ao Japão») é uma forma divertida de compreender e praticar os vários sons da língua, o que favorece a aprendizagem da leitura e da escrita.
  • Façam desenhos: O desenho ajuda a organizar as ideias e a fixar os momentos mais importantes da narrativa. Estimule a expressão visual das crianças pedindo-lhes que pintem a parte de que mais gostaram ou que desenhem a personagem principal numa situação que não surge descrita no livro.
  • Expressão dramática: O teatro é uma excelente forma de estimular o desenvolvimento de competências de comunicação e expressão oral. Além disso, encarnar uma ou outra personagem ajuda a criança a sair de si e a compreender o outro, favorecendo a empatia e a identificação das emoções.
Em suma, se partirmos da leitura de uma história para estimular o diálogo, o teatro, o desenho e a brincadeira, podemos fazer dos livros uma parte significativa da vida das crianças, contribuindo para uma aprendizagem mais ampla e para o desenvolvimento de inúmeras competências fundamentais.

Este artigo é baseado no conteúdo da ação de curta duração «Ler com as crianças: Estratégias de leitura interativa para professores e famílias», promovida pela Academia da Iniciativa Educação. Saiba mais sobre a formação, aqui.

Gabriela Velasquez e Raquel Lemos

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Dia Mundial da Consciencialização do Autismo

Hoje assinala-se o Dia Mundial da Consciencialização do Autismo. Neste âmbito, propomos um desafio, para participar, basta clicar no link

Contamos com a colaboração de todos!
O Grupo de Educação Especial

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Concurso de educadores de infância e de professores dos ensinos básico e secundário para o ano escolar de 2026/2027

Pelo Aviso n.º 7312-B/2026/2, de 31 demaroço, declar-se abertos os concursos interno e externo, destinados a educadores de infância e a professores dos ensinos básico e secundário, com vista ao suprimento de necessidades permanentes, mediante o preenchimento de vagas existentes nos quadros de agrupamento de escolas e escolas não agrupadas e nos quadros de zona pedagógica do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) e os concursos de mobilidade interna, de contratação inicial e de reserva de recrutamento, para suprimento das necessidades temporárias, estruturadas em horários completos e incompletos, regulados de acordo com o disposto no Decreto-Lei n.º 32-A/2023, de 8 de maio, na redação conferida pelo Decreto-Lei n.º 15/2025, de 17 de março, para o ano escolar de 2026/2027.

O prazo para apresentação da candidatura decorre entre 1 abril e as 23:59 horas (Portugal continental) de 13 de abril de 2026 (correspondendo a 8 dias úteis).

terça-feira, 31 de março de 2026

Estratégia para os Direitos das Pessoas com Deficiência 2026-2030

Pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 64-A/2026, de 31 de março, aprova-se a Estratégia para os Direitos das Pessoas com Deficiência 2026-2030.

No preâmbulo, destaca-se que, em Portugal, a Estratégia Nacional para a Inclusão das Pessoas com Deficiência 2021-2025, que agora termina, proporcionou avanços significativos. Contudo, a sua avaliação evidenciou fragilidades na articulação interministerial, na monitorização, na implementação das medidas e na recolha sistemática de dados desagregados. Persistem ainda desafios estruturais em áreas cruciais como a acessibilidade, o emprego, a educação, a proteção social, a saúde, a habitação e a participação cívica.

Na área-chave da Inclusão, determina-se que, em 2030, as pessoas com deficiência têm acesso a uma educação inclusiva e a oportunidades de aprendizagem contínua, que lhes permitem desenvolver competências, alcançar o seu potencial e participar ativamente na sociedade e na economia do conhecimento.

Linhas de Ação prioritárias:
1 - Acesso equitativo a uma educação inclusiva até ao final da escolaridade obrigatória
2 - Formação contínua dos profissionais da educação, com vista a ação educativa inclusiva
3 - Melhoria das condições e dos mecanismos de transição para a vida pós-escolaridade obrigatória
4 - Acesso equitativo a uma educação inclusiva no ensino superior
5 - Produção e divulgação de conhecimento que sustente políticas públicas

Neste contexto, é aprovada ainda a Resolução do Conselho de Ministros n.º 64-B/2026, de 31 de março, que aprova os Planos de Ação da Estratégia para os Direitos das Pessoas com Deficiência 2026-2030.

A educação é um dos fatores mais determinantes para o emprego, o rendimento e a participação social. Em Portugal, os jovens com deficiência continuam a apresentar uma maior taxa de abandono escolar.

A Área-Chave “Educação” reforça o compromisso com práticas pedagógicas inclusivas, com a acessibilidade universal e digital no ensino superior e com a criação de oportunidades de requalificação para quem adquire deficiência ao longo da vida. A educação é, assim, afirmada como um direito ao longo da vida, e não como um privilégio condicionado pelas circunstâncias.

A implementação de planos de acessibilidade e inclusão em todas as escolas do ensino básico e secundário garante que os alunos com deficiência tenham acesso a ambientes físicos seguros, materiais adaptados e estratégias pedagógicas ajustadas às suas necessidades. A articulação com as famílias e com os serviços sociais reforça o acompanhamento individual e cria uma rede de apoio mais consistente. Estas medidas promovem igualdade de oportunidades, maior participação nas atividades escolares e um sentimento de pertença, contribuindo para percursos educativos mais estáveis e positivos.

A redução da taxa de abandono escolar precoce entre estudantes com deficiência, de 21 % para 10 %, representa um avanço significativo na inclusão educativa. Permanecer na escola aumenta as qualificações, melhora as perspetivas de emprego e reduz o risco de exclusão social e económica. Ao mesmo tempo, o alinhamento das plataformas digitais e dos portais académicos com princípios de acessibilidade e literacia em tecnologias de apoio assegura que os alunos possam aceder a conteúdos, avaliações e recursos formativos de forma autónoma, reforçando competências digitais essenciais para a vida académica e profissional.

A inclusão de módulos obrigatórios sobre inclusão e deficiência na formação inicial e contínua de professores e de outros profissionais da educação melhora a capacidade de resposta das escolas à diversidade. Docentes mais preparados conseguem identificar necessidades específicas, aplicar metodologias inclusivas e criar ambientes de aprendizagem mais equitativos. Esta mudança cultural no sistema educativo reduz barreiras, combate preconceitos e promove expectativas mais elevadas em relação ao potencial dos alunos com deficiência.

Por fim, a implementação de planos individuais de transição antes da conclusão da escolaridade obrigatória apoia os alunos na preparação para o ensino superior, formação profissional ou mercado de trabalho, tornando a passagem para a vida adulta mais estruturada e segura.

A aplicação dos princípios de Desenho Universal da Aprendizagem e a garantia de plataformas digitais acessíveis no ensino superior asseguram que estudantes com deficiência possam participar plenamente na vida académica, desenvolver autonomia e alcançar qualificações que ampliam oportunidades de emprego, independência financeira e realização pessoal.

Vagas para os concursos interno e externo de seleção e de recrutamento de pessoal docente para o ano escolar de 2026-2027

Foi publicada a Portaria n.º 136-B/2026/1, de 31 de março, que fixa a dotação das vagas dos quadros dos agrupamentos de escolas, das escolas não agrupadas e dos quadros de zona pedagógica para os concursos interno e externo de seleção e de recrutamento de pessoal docente, para o ano escolar de 2026-2027.

Aprendizagens Essenciais em consulta pública até final de abril

Através de um documento enviado na sexta-feira às escolas, e hoje divulgado pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), o Governo deu conta de que a consulta pública se iniciou na sexta-feira e que se vai prolongar até 28 de abril.

O Governo qualificou esta iniciativa como uma "etapa de aperfeiçoamento e validação", que "pretende recolher contributos da comunidade educativa, de especialistas e da sociedade em geral, com o objetivo de reforçar a qualidade da revisão curricular", com participações de professores, escolas, universidades e politécnicos, e "outros atores com conhecimento relevante" sobre a matéria.

"Os contributos recebidos serão alvo de análise, pelo EduQA [Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação], com vista à sua integração nos documentos curriculares. Ao longo deste período, serão também auscultados peritos, de forma a reforçar a consistência técnica e científica do trabalho desenvolvido", referiu o MECI.

O ministério tutelado por Fernando Alexandre recordou que a revisão das AE se insere "numa reforma mais ampla do currículo, que inclui a atualização dos conteúdos curriculares, a revisão da matriz curricular, a inserção da dimensão digital e de Inteligência Artificial de forma transversal nas aprendizagens, e a reorganização do ensino básico".

Estes serão os aspetos a ser trabalhados em seguida e o objetivo é que as alterações entrem gradualmente em vigor a partir do ano letivo de 2027/2028.

Ainda em janeiro, o ministro Fernando Alexandre tinha anunciado que durante o primeiro trimestre entraria em consulta pública a revisão das AE.

O processo de revisão das AE estava em curso desde 2025 e, em julho, o Governo concluiu a revisão dos documentos orientadores para os 1.º, 3.º, 5.º, 7.º e 10.º anos de escolaridade.

Numa segunda fase, durante o primeiro trimestre de 2026, seriam submetidas a consulta pública as AE dos restantes, mas o executivo vai afinal levar a debate os conteúdos lecionados em todos os anos de escolaridade, após decidir alargar o processo à matriz curricular, tendo em conta temas relacionados com a digitalização e a inteligência artificial, face ao momento "de grande alteração tecnológica" que se vive, explicou o ministro em janeiro.

Fonte: RTP por indicação de Livresco

segunda-feira, 30 de março de 2026

Alunos com cegueira estão a ser deixados para trás nas escolas

As escolas falam em retrocesso e violação do direito à educação das crianças.

Os alunos cegos e com baixa visão estão a ser prejudicados pela falta de professores especializados nas escolas públicas e também atrasos nos manuais escolares e materiais adaptados.

Fonte: RTP com reportagem em vídeo, por indicação de Livresco