Dois estudos recentes conduzidos em Espanha pelos investigadores Gorka Ibaibarriaga, Joana Acha e Manuel Perea sugerem que escrever à mão facilita a aprendizagem inicial da leitura. As crianças que aprenderam letras e pseudopalavras (isto é, palavras inventadas que seguem as regras ortográficas da língua, mas não têm significado) pela escrita manual apresentaram melhor desempenho em várias competências fundamentais para aprender a ler, incluindo o conhecimento das letras, a descodificação e o reconhecimento das pseudopalavras aprendidas.
Mais do que uma simples forma de registar palavras no papel, a escrita manual parece ajudar as crianças a construir representações mentais mais precisas das letras e das palavras, que estão na base da aprendizagem da leitura.
Estes resultados indicam que escrever à mão pode desempenhar um papel importante nas primeiras etapas da aprendizagem da leitura. Mas porque pode a escrita manual facilitar esse processo?
Aprender a ler começa pelas letras
Aprender a ler é um processo gradual. Antes de conseguirem ler frases ou textos completos, as crianças precisam de desenvolver várias competências fundamentais. Uma das mais importantes consiste em compreender a relação entre as unidades da escrita e os sons da fala. Nos sistemas de escrita alfabéticos, os sons da fala (ou seja, os fonemas) são representados por unidades gráficas chamadas grafemas. Muitas vezes, um grafema corresponde a uma única letra e pode ser chamado de grafema simples, por exemplo, o som /n/ representado pela letra n. Noutras situações, pode ser formado por mais de uma letra: é grafema complexo, por exemplo, nh ou lh no português. Aprender estas correspondências permite às crianças transformar uma sequência de letras/grafemas numa palavra pronunciável.
Outra competência essencial é reconhecer, de forma rápida e automática, as palavras escritas. Quando um leitor experiente vê uma palavra familiar, não precisa de analisar cada letra: a palavra é identificada quase de imediato, num relance. Entre estes dois momentos existe um processo intermédio fundamental: a descodificação. Ao encontrar uma palavra nova, a criança tenta pronunciá-la, aplicando as correspondências entre grafemas e fonemas. Quando a descodificação é bem-sucedida, a sequência de letras acaba transformada numa forma fonológica plausível da palavra, processo conhecido como recodificação fonológica.
Este mecanismo desempenha um papel central na aprendizagem da leitura. Sempre que uma criança descodifica uma palavra corretamente, reforça na memória a forma escrita dessa palavra. Este processo é muitas vezes descrito como mecanismo de autoensino, pelo qual as crianças vão aprendendo a forma escrita das palavras.
Com o tempo, estas experiências permitem construir representações ortográficas mais estáveis, isto é, representações mentais da forma escrita das palavras. Quanto mais vezes uma palavra é lida ou escrita, mais precisa se torna a sua representação. Com o tempo, o reconhecimento das palavras vai sendo mais rápido e automático, libertando assim recursos cognitivos que podem ser usados na compreensão do texto.
A escrita também contribui para aprender a ler
A escrita é muitas vezes considerada uma competência que surge depois da leitura. No entanto, vários estudos mostram que a escrita pode desempenhar um papel importante na aquisição da leitura.
Quando uma criança escreve uma palavra, precisa de identificar os sons que a compõem e convertê-los nos grafemas correspondentes. Este processo envolve simultaneamente o conhecimento das letras, a consciência dos sons da fala e a capacidade de organizar essas unidades numa sequência correta. Ao escrever palavras, a criança tem de prestar atenção à ordem específica das letras, à sua forma visual e à relação entre grafemas e fonemas, o que ajuda a consolidar o conhecimento das letras e da sua forma, a relação entre grafemas e fonemas e o conhecimento ortográfico das palavras, ou seja, o conhecimento da forma escrita das palavras e das sequências de letras que as compõem. Além disso, sempre que a criança consegue descodificar ou escrever corretamente uma palavra, reforça o conhecimento da sua forma visual ou ortográfica. Com a repetição destas experiências (de autoensino), a palavra passa gradualmente a ser reconhecida de forma direta, sem necessidade de descodificação letra a letra.
Segundo Ibaibarriaga, Acha e Perea, atividades como escrever palavras ou lê-las obrigam as crianças a prestar atenção à sequência de letras e de sons que compõem essas palavras. Este processo favorece o desenvolvimento do conhecimento ortográfico, um dos principais preditores da leitura fluente nos primeiros anos de escolaridade.
Perante estes resultados, surge naturalmente uma nova questão: será que todas as formas de escrita produzem os mesmos efeitos na aprendizagem da leitura?
É melhor escrever à mão ou no teclado?
Para responder a esta pergunta, Ibaibarriaga, Acha e Perea realizaram um estudo experimental com 50 crianças pré-leitoras do último ano do jardim de infância.
As crianças aprenderam um conjunto de letras e de pseudopalavras em duas condições principais de treino ou aprendizagem: copiando as letras à mão e digitando as letras num teclado. Para garantir que não tinham conhecimento prévio das letras utilizadas, recorreu-se a símbolos dos alfabetos arménio e georgiano, que as crianças desconheciam. Foi, pois, possível observar o processo de aprendizagem das letras desde o início, sem influência de conhecimento anterior. Associou-se cada símbolo a um som específico, simulando assim o processo de aprendizagem das correspondências entre letras e sons que ocorre nas fases iniciais da leitura. Após a fase de aprendizagem, as crianças realizaram várias tarefas que avaliavam competências fundamentais para a leitura, como a nomeação de letras, a descodificação e o reconhecimento visual das pseudopalavras.
Os resultados foram claros: as crianças que aprenderam pela escrita manual apresentaram melhores resultados em todas as tarefas avaliadas.
Além disso, só no grupo que escreveu à mão se observou um padrão consistente entre as diferentes competências: o conhecimento das letras facilitou a descodificação de palavras e a descodificação facilitou o reconhecimento das pseudopalavras. Este encadeamento corresponde precisamente ao percurso típico da aprendizagem da leitura descrito pelas teorias cognitivas da aquisição da leitura.
Porque pode a escrita manual facilitar a aprendizagem?
Num segundo estudo, os investigadores procuraram compreender melhor porque pode a escrita manual facilitar a aprendizagem da leitura. Centraram-se no papel dos movimentos grafomotores, isto é, os movimentos da mão envolvidos na produção das letras.
Quando uma criança escreve uma letra à mão, executa um movimento que corresponde diretamente à sua forma gráfica. Esse movimento está associado simultaneamente à forma visual da letra, ao gesto necessário para a produzir e ao som que essa letra representa.
Este processo cria representações multimodais que integram informação visual, motora e fonológica. A importância desta integração sensório-motora na aprendizagem também tem sido destacada por outros investigadores. A propósito de um estudo feito com eletroencefalografia, Audrey van der Meer sublinha: «Escrever à mão desencadeia muito mais atividade nas áreas sensório-motoras do cérebro. Muitos sentidos são ativados quando se pressiona a caneta sobre o papel, enquanto se vão vendo as letras que se escrevem e ouvindo os sons que se provocam enquanto se escreve. Estas experiências sensoriais criam contactos entre várias partes do cérebro e propiciam a aprendizagem.»
Do ponto de vista cognitivo, estas representações multimodais que se criam podem reforçar o processamento das letras. A criança não aprende só a reconhecer visualmente uma letra: aprende também o gesto necessário para a produzir e a relação desse símbolo com um som da fala. Ao escrever num teclado, pelo contrário, a criança apenas precisa de premir uma tecla. O movimento que faz não tem relação direta com a forma da letra, o que enfraquece a ligação entre movimento, perceção visual e linguagem.
Segundo os autores, a escrita manual envolve movimentos grafomotores diretamente ligados à forma visual das letras. Esta ligação entre a ação motora e a perceção visual ajuda as crianças a formar representações mais precisas das letras e das palavras.
Escrita manual e atenção às palavras
A escrita manual pode também facilitar a aprendizagem por outras razões.
Quando a criança escreve uma palavra à mão, acompanha visualmente a sequência das letras enquanto as produz. Este processo ajuda a codificar a ordem específica das letras dentro da palavra, aspeto fundamental do conhecimento ortográfico. Pequenas alterações na ordem das letras podem transformar completamente uma palavra. Por exemplo, trocar a posição de duas letras pode gerar uma palavra diferente ou uma sequência sem significado. Aprender a reconhecer e produzir corretamente estas sequências é um passo essencial para a leitura eficiente.
Além disso, escrever exige converter os sons da palavra (fonemas) nas letras correspondentes, reforçando continuamente as correspondências entre grafemas e fonemas. Este treino pode contribuir para fortalecer os mecanismos envolvidos na decodificação.
Por fim, escrever à mão envolve uma coordenação direta entre os movimentos da mão e a perceção visual da palavra. Ao escrever num teclado, pelo contrário, a atenção divide-se frequentemente entre o teclado e o ecrã, podendo aumentar a carga cognitiva e reduzir a atenção dedicada à forma das palavras.

Que implicações têm estes resultados na educação?
Os resultados destes estudos ajudam a compreender melhor o papel da escrita manual na aprendizagem da leitura. As competências de literacia inicial, como o conhecimento das letras, a descodificação e o reconhecimento de palavras, constituem a base da aprendizagem da leitura. Se a escrita manual facilita o desenvolvimento destas competências, então o seu papel nos primeiros anos de escolaridade continua a ser essencial.
Ibaibarriaga, Acha e Perea sublinham que os teclados e outras tecnologias digitais podem ser ferramentas úteis em muitas atividades educativas. No entanto, os resultados dos seus estudos sugerem que estas ferramentas não devem substituir por completo a escrita manual nas fases iniciais da aprendizagem da leitura.
Num contexto educativo cada vez mais digital, manter atividades de escrita manual nos primeiros anos ajuda a garantir que as crianças desenvolvem representações robustas das letras e das palavras, essenciais no desenvolvimento da leitura e na aquisição de competências de literacia ao longo da escolaridade.
Que podem os pais fazer?
Os resultados destes estudos não significam que se devam abandonar as tecnologias digitais. No entanto, sugerem que a escrita manual desempenha um papel importante nas primeiras etapas da aprendizagem da leitura. Algumas atividades simples podem ajudar neste processo em casa. Estas atividades não precisam de ser longas ou formais: pequenos momentos de escrita manual no dia a dia podem contribuir para fortalecer as bases fundacionais da aprendizagem da leitura.
Sugere-se assim aos pais:
- incentivar a escrita à mão — convidar as crianças a escrever listas de compras ou pequenas mensagens ajuda a desenvolver o conhecimento das letras e das suas sequências;
- escrever enquanto se diz a palavra — pedir à criança que diga os sons da palavra enquanto a escreve ajuda a reforçar a ligação entre sons e letras;
- copiar palavras curtas — copiar palavras familiares, como nomes de objetos ou de pessoas, ajuda a consolidar a forma visual ou ortográfica das palavras;
- brincar com letras e palavras — jogos simples, como formar palavras com letras móveis ou completar palavras incompletas, podem ajudar a desenvolver a atenção às sequências de letras.
Luís Querido
Fonte: Iniciativa Educação
