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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Incapacidade de eliminar estruturas dos neurónios pode explicar atraso mental

Um grupo de investigadores do Programa Champalimaud de Neurociências descobriu que os graves problemas de memória ou de aprendizagem podem estar relacionados com a incapacidade de eliminar espinhas dendítricas, umas estruturas existentes nas ramificações dos neurónios. (...)
Neste trabalho, o grupo liderado por Inbal Israely, investigadora principal do Programa Champalimaud de Neurociências, revela quais as alterações físicas que acontecem no cérebro quando as ligações entre os neurónios se tornam mais fracas.
Como explicam os investigadores, as memórias são armazenadas no cérebro numas estruturas microscópicas, localizadas ao longo das ramificações dos neurónios, chamadas espinhas dendríticas.
A investigação agora publicada aponta para que a redução ou eliminação das espinhas dendríticas seja um processo ativo necessário não só para o esquecimento, mas também para a aprendizagem e armazenamento de novas memórias.
Assim, a incapacidade de eliminar espinhas dendríticas irrelevantes poderá resultar em graves problemas de aprendizagem e memória.
Os investigadores acreditam que o estudo de alterações na estrutura e na quantidade destas estruturas pode ajudar a compreender doenças que envolvem graves problemas de aprendizagem e memória.
Segundo Inbal Israely, “há evidência da ocorrência de alterações na estrutura e na quantidade das espinhas dendríticas em pacientes com atraso mental e, por isso, é fundamental perceber quais os mecanismos que controlam o aparecimento e desaparecimento destas estruturas”.
Para a cientista, “quanto melhor percebermos como a estrutura das espinhas dendríticas muda quando aprendemos, mais saberemos sobre a base fisiológica deste tipo de doenças.”
O ponto de partida para o estudo foram questões como “o que acontece no nosso cérebro quando nos esquecemos de algo?” ou “se a memória tem uma forma física, então qual será a forma de um esquecimento?”, a que os investigadores quiseram dar resposta.
Sendo as espinhas dendríticas os locais de contacto entre diferentes neurónios e onde as memórias se formam ou desaparecem, e sabendo-se já que a construção de novas memórias é acompanhada por alterações na forma das espinhas dendríticas (aumento e diminuição do seu tamanho), o que faltava conhecer era quais os mecanismos na base dessas alterações.
Partindo desta curiosidade, a investigadora sénior do grupo, Yazmin Cortes, explorou a base fisiológica para a redução do tamanho das espinhas dendríticas.
“O que observámos foi algo surpreendente. Pode parecer contraintuitivo, mas o que descobrimos é que é necessária a produção de novas proteínas para as espinhas dendríticas desaparecerem”, explica a investigadora.
Recorrendo a uma combinação de técnicas - óticas, moleculares e de eletrofisiologia – as investigadoras conseguiram perceber ainda que, para além da produção de proteínas, também a atividade neural é responsável pela redução e desaparecimento das espinhas dendríticas.
“Uma vez mais encontramos algo contraintuitivo pois, normalmente, a atividade neural leva ao aumento do número de espinhas dendríticas. No entanto, o que pensamos poder estar a acontecer é que a atividade neural funciona como um mecanismo de controlo do balanço de toda a rede neural”, diz Inbal Israeli.

sábado, 5 de novembro de 2011

Separação conflituosa dos pais gera atrasos no desenvolvimento cerebral dos filhos


As crianças passam por angústias que podem ter um efeito catastrófico



Todos os dias, 72 casais divorciam-se em Portugal. Muitos têm filhos e não são raros os casos em que as crianças são envolvidas no conflito. As sequelas podem ser graves.

A falta de um clima de segurança e de serenidade na infância deixa marcas na criança, cicatrizes na "anatomia e na fisiologia do seu sistema nervoso central, difíceis de fazer desaparecer", assegurou o psiquiatra e psicanalista Emílio Salgueiro na conferência sobre o Superior Interesse da Criança que decorreu na quinta e na sexta-feira, em Lisboa. 

A neurociência moderna demonstra que os bebés criados por pais que não lhes proporcionaram um clima de segurança e de serenidade "mostram um atraso na maturação cerebral", contribuindo para que neles se instale "uma situação de stress permanente, lesando o cérebro e impregnando as vivências da criança de insegurança, aflição e desorganização", alertou Emílio Salgueiro, a propósito da discussão acerca do interesse da criança nos processos de separação dos pais.

SAP. Desde a década de 80 que esta sigla passou a ser usada nos tribunais e em relatórios médicos no âmbito dos processos de regulação das responsabilidades parentais. Introduzida pelo pedopsiquiatra americano Richard Gardner, SAP corresponde à "síndrome de alienação parental" e aplica-se a situações em que as crianças, filhas de pais separados, se recusam a estar com um dos pais, do qual por vezes têm uma imagem distorcida, devido à manipulação do outro. Habitualmente, o termo é utilizado para designar a manipulação da criança pela mãe para a afastar do pai. 

A opinião acerca da existência desta síndrome não é unânime e tem sido particularmente contestada por grupos ligados à defesa dos direitos das mulheres e contra a violência doméstica, que consideram que, em muitos casos, as crianças não podem conviver com os pais por suspeitas de que eles são os agressores das crianças, nomeadamente em situações de abuso sexual.

Este entendimento é rejeitado pelos defensores da igualdade de direitos quanto à tutela dos filhos, entre os quais se contam muitos homens que se dizem discriminados pelos tribunais, que os impedem de exercer o direito da guarda dos filhos.

O assunto esteve nos últimos dois dias em debate, em Lisboa, na conferência internacional intitulada O Superior Interesse da Criança e o Mito da Síndrome de Alienação Parental organizada pela Associação Portuguesa de Mulheres Juristas, pelo Instituto de Apoio à Criança, pela Universidade Católica Portuguesa e pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 

Os dados mais recentes do INE revelam que há quase 26.500 divórcios por ano, em Portugal, uma média de 72 por dia. Em grande parte dos casos, as separações são acompanhadas de conflitos cujos efeitos afectam, sobretudo, os filhos. 

E foi esta questão que o psiquiatra Emílio Salgueiro aprofundou na sua comunicação. "O superior interesse das crianças seria o de que não tivesse que haver regulação das responsabilidades parentais", começou por dizer. Notou que um dos direitos naturais da criança é o de "terem um pai e uma mãe que as desejem e que as amem (...)", um amor a que chama de "encantamento fundador". 

Quando se chega a um processo de regulação das responsabilidades parentais, "já houve muita coisa que correu mal ou mesmo muito mal, entre os pais, um com o outro, entre os pais e a criança, entre este trio fundamental e a sociedade", salienta. Esse direito nuclear de toda a criança "foi ficando pelo caminho, mais ou menos maltratado, mais ou menos danificado".
Comentário:
Infelizmente, nestas situações, muitos pais jogam com os filhos, quando, na minha perspetiva, os deveriam salvaguardar dos possíveis efeitos colaterais da separação.


quarta-feira, 15 de junho de 2011

Reveladas primeiras imagens do cérebro quando uma pessoa fica inconsciente

Pela primeira vez, investigadores britânicos conseguiram captar em vídeo o que se passa no cérebro quando uma pessoa perde a consciência. O novo método, dizem, pode ajudar à recuperação de doentes com danos cerebrais.
O novo aparelho – chamado tomografia funcional de impedância eléctrica de resposta provocada – foi aplicado pela equipa de Brian Pollard, da Universidade de Manchester, no Reino Unido. Os investigadores gravaram a actividade cerebral de 20 pessoas, depois de lhes ter sido administrada uma anestesia geral, explica a revista “New Scientist”.
Esta técnica mede a resistência a uma pequena corrente gerada por eléctrodos aplicados na cabeça, para avaliar a actividade eléctrica do cérebro. Ao realizar cem leituras por segundo, a equipa conseguiu produzir um vídeo da actividade de todo o cérebro.
À medida que a pessoa perde a consciência, diferentes partes do cérebro parecem começar a “falar” umas com as outras, explicou a equipa responsável pelo projecto, na semana passada, no Congresso Europeu de Anestesiologia, em Amesterdão.
A consciência e os processos cerebrais nela envolvidos são motivo de algum debate. Uma teoria propõe que as pessoas têm uma região no cérebro que activa ou desactiva a consciência, como se fosse um botão que se pudesse premir, explicou Pollard, citado pela revista. Outra ideia sugere que a consciência é gerada por interacções entre grupos de células cerebrais; basta inibir essa interacção e a pessoa fica inconsciente.
Segundo a “New Scientist”, o vídeo da equipa da Universidade de Manchester mostra que, à medida que a anestesia começa a fazer efeito, a actividade do cérebro aumenta significativamente em algumas zonas. Pollard acredita que se trata de uma sinalização entre células para indicar que o cérebro se prepara para se “desligar”.
Geraint Rees, da University College, em Londres, comentou à “New Scientist” que este trabalho é muito importante porque pode ser utilizado para gravar um sinal de uma pessoa com danos cerebrais que não consiga comunicar, para ver como responde a estímulos externos.
Ainda assim, Pollard diz que é preciso trabalhar e analisar mais leituras da actividade cerebral para dizer, de forma conclusiva, o que está a acontecer.
In: Público online