Há gente com muita sorte. Lotarias, Totolotos, Euromilhões, heranças de parentes desconhecidos, concursos; enfim, existe um mundo interminável de fortunas por levantar que subitamente mudam a vida às pessoas.
Infelizmente, a maior fatalidade destes tesouros escondidos é que só acontecem a alguns. E não podemos estar à espera de que a sorte nos bata à porta para sermos realmente felizes. Temos, pois, de construir a nossa felicidade material. Mas também não há-de ser isso que nos vai impedir de sermos felizes. Já que temos de trabalhar e não apenas de criar como prescrevia Agostinho da Silva, ao menos tenhamos essoutra fortuna de conseguir encontrar um emprego onde façamos exactamente aquilo que gostamos e que, ainda por cima, alguém nos pague por isso.
Este deve ser o objectivo de todos.
Sabemos, porém, que o mercado de trabalho no nosso país é inclemente e nem sempre nos deixa decidir o emprego que procuramos. Se desde cedo soubéssemos o que queríamos vir a ser, profissionalmente, não é certo, mas não é também improvável que, com uma dose de sorte e bastante entusiasmo, não o viéssemos a ser.
Na realidade, aquilo que interessa é, justamente, fazer com que os nossos filhos possam ter uma noção clara daquilo que querem, para promovermos neles o desejo de lutarem por aquilo que desejem ser. E a escola tem um decisivo papel a desempenhar nesta luta.
Se a escola, juntamente com os pais, puder transmitir ao adolescente uma definição clara das suas competências e, naturalmente, das suas incompetências, então estaremos a contribuir para a criação de um cidadão feliz; mesmo que este não tenha ganho o euromilhões. Para isso é preciso saber como vamos desenhar essa imagem do estudante. Numa palavra, como o vamos «avaliar».
Subjectividade não é defeito
Nunca como nos últimos anos se tem debatido tanto o problema da avaliação. O mundo mudou. A percepção é real. O mundo mudou e com ele a relação dos miúdos com a escola e com o acto de aprender. Esta preocupação tem mesmo levado pais e professores a algum descontentamento quanto à forma como a escola anda a fazer o juízo dos seus alunos e filhos.
É uma apreensão legítima e, aliás, bastante saudável. De quando em quando é frutuoso contestar os sistemas de avaliação, uma vez que estes devem mudar sempre que o mundo e os valores dominantes se alteram. Ora, a avaliação é sempre um juízo; uma imagem que, quer se queira quer não, há-de amarrar-se ao aluno durante boa parte da sua vida.
Uma recorrente e fundamentada conclusão que se repete e reverbera em todos os milhares de encontros de educação é que a avaliação deve ser personalizada. Há um consenso quase integral sobre este antigo desafio educacional. Mas é um consenso que impõe consequências logísticas e responsabilidades conceptuais de elevado alcance que todos temem assumir.
Nenhum de nós é, todos o sabemos empírica e filosoficamente, igual. E é aqui que tudo se complica: na amarga consciência de que a avaliação é, por essência do seu objecto, subjectiva.
Se uma avaliação é individual, é inevitável que os critérios também o sejam. Por que razão a criatividade tem de ter o mesmo valor em dois indivíduos diferentes?
Por que razão achamos que o comportamento de um aluno é bom ou mau, sem avaliarmos todo o seu enquadramento familiar, se é este que normalmente define a sua conduta? Ou pior ainda, como vimos recentemente numa ficha actualizada de avaliação, o que significa ser «suficiente» o comportamento ou a criatividade de um aluno? Suficiente em quê?
Suficiente para quê? Por que razão as questões de um teste escrito são colocadas de igual forma para todos os alunos? A cada aluno, cada avaliação. Não tem cabimento falar-se de igualdade quando fazemos a avaliação de uma pessoa.
A subjectividade é uma inerência da avaliação e não um embaraço. Ser subjectivo é um risco mas é também uma exigência intrínseca do processo docimológico que se pretenda rigoroso.
Uma Reforma Educativa feita de pânicos
De maneira nenhuma são estas ideias revolucionárias ou, sequer, novas. Todo o professor se apercebeu delas desde que iniciou a sua carreira. Acontece é que é inconcebível que se imponha qualquer novo sistema de avaliação sem mudar as condições essenciais para que ele possa ser implantado, ao menos modestamente.
Todo o professor vive com o dilema de saber que a avaliação deve ser individualizada mas continua a ter à sua frente cerca de 140 ou 160 alunos, a quem tem de proporcionar uma atenção empenhadamente personalizada.
A avaliação é, nos nossos dias, um acto de coragem destemida. Um professor tem de esquecer que não conhece igualmente todos os seus alunos e ignorar a avaliação personalizada para poder ser funcional. Para todos os alunos ele impõe um determinado conjunto de metas ou outros eufemismos que mudam consoante as modas, itens esses que todo e qualquer aluno tem de atingir, dê lá por onde der.
O que resta da avaliação individualizada? Pouco ou nada. E o pouco que passa, passa na clandestinidade. Uma clandestinidade que todo o professor é obrigado a passar. A monte, como um contrabandista que carrega às costas, por veredas nocturnas, a responsabilidade premente e embaraçada de ter de pôr pão na sua mesa.
O filão do medo
Uma avaliação profissional passa, pois, por várias premissas: é imperativo que o professor tenha tempo para proceder à análise de cada turma. Territórios socio-económicos difíceis reclamam ainda maior atenção aos detalhes que definem o percurso de um aluno. Em todo o caso, poesias à parte, cada jovem é um território que importa povoar com empatia, precisão e profissionalismo. Não vai lá com amadorismos bem intencionados.
Os conselhos de turma, reunião de todos os professores de uma turma, deviam ser muito mais frequentes do que a regularidade das chamadas «Reuniões intercalares» que uma boa percentagem de escolas não chega a convocar. E é primordial que se termine de uma vez por todas com as turmas de mais de 20 alunos. Só assim será possível ajuizar correctamente as suas potencialidades.
Pensar que uma sala de aula com mais de 20 alunos pode ser, nos dias de hoje, algo que faz sentido porque estatisticamente os resultados não mudam nem dependem do número de alunos por turma, é não perceber nada de coisa alguma. Quem diga esta enormidade, proíbe-se a si mesmo de arengar que o mundo mudou e que os miúdos hoje não são os mesmos de há dez anos.
Reformar é preciso. Indiscutivelmente. Mas isso custa. Dinheiro ainda se vai arranjando. Coragem é que é mais difícil. Continuar a reformar os edifícios escolares, reformar os recursos pedagógicos, reformar as práticas didácticas, remunerar solidamente uma
carreira docente ao longo da vida, reformar o sistema de colocação dos professores e, então, reformar curricula e a docimologia.
Há muito por fazer antes de disparar em todas as direcções. Preparar os carris da reforma. Porque assim não vale. Esta reforma continua a arengar a individualização da aprendizagem mas teme as suas consequências. Na educação, como no euromilhões, os números têm de bater certo.
Rui Correia
Fonte: SIC Notícias




