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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Alunos sobredotados vão ter planos especiais nas escolas

Governo aprovou novas regras para a educação inclusiva, clarificando o papel dos professores de educação especial, aumentando a participação dos pais e explicitando os percursos curriculares diferenciados sem esquecer as crianças sobredotadas.

O anúncio foi feito esta quinta-feira pelo ministro da Educação, Fernando Alexandre, no final da reunião do Conselho de Ministros que aprovou um conjunto de diplomas e novas regras entre as quais o novo Regime Jurídico da Educação Inclusiva, que entra em vigor em janeiro do próximo ano.

O novo diploma clarifica o papel do docente de educação especial e reforça a participação de pais e encarregados de educação na definição de medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão, explicou o ministro.

No novo regime jurídico também estão agora explicitados os percursos curriculares diferenciados como medida de educação inclusiva, nomeadamente para alunos sobredotados.

Fernando Alexandre lembrou que há uns anos muitos dos estudantes com necessidades educativas, "nunca poderiam fazer um percurso escolar de sucesso", mas hoje muitos já têm um curso superior.

No entanto, o sistema tem falhas e por isso foram feitas correções para "garantir que as medidas adotadas são as mais adequadas e permitem que todos os alunos, qualquer que seja a escola onde estão, em qualquer ponto do território nacional, vão ter um tratamento similar".

Uma das novidades é a criação de um “plano individual para os alunos, que vai acompanhar o aluno desde que entra no pré-escolar”, contou o ministro, explicando que existe atualmente uma "fragmentação a partir do pré-escolar com ligação ao básico e depois ao secundário e mesmo ao superior".

Os processos serão mais simples e menos burocráticos, segundo Fernando Alexandre, que quer que as medidas cheguem "com maior previsibilidade e qualidade às crianças e jovens que delas necessitam".

O diploma aprovado em Conselho de Ministros precisa agora de ser regulamentado, algo que deverá acontecer ainda este ano.

O novo regime cria um Sistema Nacional de Apoio à Inclusão para garantir uma resposta contínua até ao fim da escolaridade obrigatória: É uma "rede regional e multidisciplinar", que integra "os vários setores da educação, da saúde, da segurança social".

Nasce também agora a figura do "Gestor de Apoio à Inclusão", ou seja, alguém que fica responsável pela coordenação do percurso da criança ou jovem.

É simplificado e melhorado o encaminhamento, distinguindo situações que podem ser resolvidas no âmbito da ação pedagógica regular, como dificuldades de aprendizagem ou de participação.

Fonte: SIC Notícias por indicação de Livresoco

sábado, 23 de maio de 2026

Como podemos ajudar as crianças superdotadas a desenvolverem-se plenamente?

Quando falamos de crianças intelectualmente dotadas, o debate tende a centrar-se numa de duas questões: como detetamos esta característica e por que razão ela nem sempre se traduz em notas mais altas na escola. Embora estas sejam questões importantes, ignoram outra igualmente importante: o que podem as escolas fazer quando sabem que um aluno tem de aprender de uma forma diferente dos outros?

Mesmo quando os alunos superdotados são identificados, os educadores tendem a dar uma resposta pouco inspiradora. Atribuem mais trabalho, ou mais exercícios do mesmo tipo, como se aprender fosse uma simples questão de fazer mais. Este é um erro muito comum. Em vez de aumentar a carga dos alunos, devemos ajustar o nível do próprio desafio.

Aprendizagem enriquecida

A reação dos educadores perante crianças superdotadas situa-se, normalmente, em dois extremos: a inércia ou a sobrecarga. No entanto, uma educação devidamente adaptada não significa dar a uma criança dez exercícios quando os outros fazem cinco. Isso apenas contribui para tornar a educação repetitiva e pouco estimulante.

Se um aluno já tiver abordado parte do conteúdo planeado, os professores podem reorganizar o seu percurso de aprendizagem e evitar repetições desnecessárias. Isto liberta tempo no dia letivo que, em vez de ser preenchido com mais tarefas do mesmo tipo, deve ser utilizado para atividades de enriquecimento e um currículo mais abrangente.

Na prática, isto significa atividades como problemas abertos, projetos de investigação, exploração de ligações entre disciplinas, trabalho em tarefas com múltiplas soluções, análise crítica de informação e criação de os seus próprios resultados.

Javier Tourón, um especialista espanhol de renome internacional nesta área, salienta que o enriquecimento pode assumir várias formas: agrupamentos flexíveis na sala de aula, intervalos temporários para atividades específicas, salas de recursos ou programas complementares. No entanto, estas medidas devem basear-se sempre nas necessidades reais dos alunos, não constituindo uma solução única para todos.

Não sobrecarregue, adapte

A questão não é se estes alunos precisam de atividades especiais, mas sim quais as decisões curriculares e metodológicas que lhes permitem aprender de forma significativa. Isto obriga-nos a considerar uma série de questões:

1. Objetivos: nem todos os alunos precisam de avançar no currículo ao mesmo ritmo. Numa aula de língua em que, por exemplo, a turma esteja a trabalhar a estrutura de um texto narrativo, pode atribuir-se a um aluno superdotado um objetivo mais desafiante. Isto poderia ser experimentar com diferentes narradores, brincar com a linha temporal da história ou analisar como o significado de um texto muda dependendo do ponto de vista.

2. Tarefas: tarefas limitadas e repetitivas podem ser úteis por vezes, mas não podem ser a única forma de ensinar. Os alunos dotados precisam de verdadeiros desafios intelectuais. Por exemplo, em vez de dez cálculos idênticos, poderia pedir-se-lhes que criassem eles próprios um problema.

3. Avaliação: é útil saber o que um aluno já sabe. Avaliações e testes iniciais podem evitar que os alunos repitam o que já aprenderam e libertar tempo para projetos mais complexos.

Em matemática, por exemplo, o resultado final pode ser apenas uma parte da avaliação. Os professores também poderiam avaliar como o aluno chega à resposta, a sua capacidade de explicar o seu método e a sua comparação de diferentes métodos.

4. Organização da aprendizagem: uma adaptação eficaz do currículo nem sempre implica retirar os alunos da sala de aula ou criar um programa totalmente distinto. Muitas vezes, isso pode ser alcançado no âmbito da sala de aula principal, desde que a escola disponha da flexibilidade necessária para agrupar os alunos, diversificar, enriquecer e personalizar a experiência de aprendizagem.

Por exemplo, em língua ou estudos sociais, enquanto a turma explora um tema comum, os alunos superdotados podem assumir um papel diferente, como identificar ligações com outros temas, formular perguntas de nível superior, comparar fontes ou preparar uma breve apresentação para o grupo.

Uma necessidade, não um privilégio

Estas medidas são frequentemente vistas como um privilégio, mas não é isso que são. São uma forma de responder às necessidades educativas específicas de um aluno.

A inclusão não se resume a ajudar aqueles que enfrentam dificuldades. Significa também reconhecer que a diversidade assume muitas formas diferentes e que uma escola não pode dar a mesma resposta a todos aqueles que aprendem de forma diferente. Ignorar as necessidades dos alunos superdotados também conduz à exclusão e, a longo prazo, pode causar tédio, desinteresse e desmotivação.

Um design universal

O quadro do Design Universal para a Aprendizagem (UDL) é particularmente relevante para os alunos superdotados, porque se baseia num princípio central da educação inclusiva: nem todos os alunos aprendem da mesma forma, nem todos precisam das mesmas condições para participar, progredir e realizar o seu potencial. Isto seria semelhante a assumir que todas as pessoas vestem o mesmo tamanho de roupa.

O UDL permite aos professores diversificar as formas de envolvimento, ou seja, as formas como os alunos se relacionam com o processo de aprendizagem. Isto pode significar, por exemplo, oferecer diferentes opções de projetos com base nos interesses do aluno, ou desafios de complexidade variável.

A UDL abrange também os meios de representação (por exemplo, apresentar o mesmo conteúdo através de texto, diagramas visuais, vídeos ou explicações orais) e os meios de ação e expressão (por exemplo, dar aos alunos a opção de demonstrar o que aprenderam através de uma apresentação oral, um texto escrito, um infográfico, um modelo ou um projeto de investigação).

Como defendem alguns autores, a educação inclusiva não é uma questão de adaptar os alunos a uma abordagem de ensino única para todos, mas sim de transformar a conceção educativa para reduzir barreiras e ampliar as oportunidades de aprendizagem para todos.

Esta abordagem beneficia não só aqueles com as dificuldades mais evidentes, mas também aqueles que necessitam de maior estímulo intelectual, flexibilidade e oportunidades de desenvolvimento pessoal para realizarem plenamente o seu potencial.

Toda a turma beneficia

A boa notícia é que transformar o ensino desta forma não beneficia apenas determinados alunos. Quando uma escola se adapta, deixa de sobrecarregar os alunos e lhes apresenta desafios mais abertos, melhora a experiência educativa de toda a turma.

Por que razão, então, continuamos a defender uma abordagem tão homogénea ao ensino em sala de aula, quando sabemos que a diversidade é a norma? A superdotação obriga-nos a confrontar esta questão incómoda.

Atender às necessidades das crianças superdotadas significa melhorar a forma como concebemos a experiência em sala de aula. Mas esta não é uma tarefa fácil. Exige um maior investimento na formação em todo o setor educativo e uma abordagem de mente aberta que aceite a diversidade como parte inerente do ser humano.

Laura Hood

Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com

terça-feira, 17 de março de 2026

Associação de crianças sobredotadas e escola da Maia ajudam alunos com altas capacidades

Um projeto especial para alunos com altas capacidades, rotulados muitas vezes de ‘nerds’, ‘cromos’ ou ‘Einsteins’, está a ser desenvolvido pela Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas numa escola da Maia (Porto), conseguindo mudar a vida a vários estudantes que sofriam de tédio crónico nas aulas, isolamento escolar, dependências ou que se automutilavam.

Sabichão, ‘nerd’, ‘cromo’, ‘geniozinho’, ‘Einsteinezinho’, ‘chico esperto’ são alguns dos rótulos aplicados a crianças e adolescentes com altas capacidades intelectuais e que acabam por ser alvo de estigma por parte dos seus colegas e até de professores, levando-os a desistir da escola, consumir drogas ou, em situações mais drásticas, a tentativas de suicídio, alerta a presidente da direção da Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas (APCS).

Se os alunos com “altas capacidades não forem ajudados atempadamente logo no primeiro ciclo” — com 6, 7, 8 anos de idade — a probabilidade de ficarem desmotivados, frustrados e com baixa autoestima no percurso escolar é tão elevada que há estudantes, principalmente na adolescência, que optam por ter baixos rendimentos para serem parecidos aos colegas, outros acabam a atentar contra a própria vida por não aguentarem a pressão, explicou a diretora da APCS, Marcela Rios.

Em entrevista à Lusa no âmbito do 40.º aniversário associação, fundada em 1986 no Porto, Marcela Rios lamenta que o ensino em Portugal ainda não tenha uma legislação específica que regulamente a resposta às necessidades especiais destes alunos com elevadas habilidades.

A ajuda que pode ser dada nas escolas aos alunos com elevadas potencialidades cognitivas está circunscrita no Decreto-Lei nº 54, que regulamenta a educação inclusiva.

“Muitas vezes são alunos de excelência até uma determinada idade, por exemplo até ao sexto ano, e de repente, porque o desânimo surgiu, chegam à negativa ou então tiram negativa para se normalizarem (…). ‘Vou ser igual ao meu colega, porque ele tira negativas, eu também quero ter amigos'”, conta Marcela Rios.

Um dos projetos que a APCS leva à Escola Básica e Secundária de Pedrouços, na Maia, distrito do Porto, é o Projeto Investir na Capacidade (PIC) e que visa trabalhar e potenciar a inteligência, ou as inteligências, que cada uma das crianças identificadas tem acima da média.

O PIC apoia estudantes ávidos de conhecimento e coloca-os a trabalhar com os seus pares para aprenderem a trabalhar em grupo.

Estes estudantes, que são bons em quase todas as disciplinas, precisam de ser orientados, sobre pena de sucumbirem a sentimentos de “vazio, medo, preocupação, stress, inquietação, tristeza, confusão, ou insegurança”, como se lê num trabalho artístico de uma criança com altas capacidades que inscreveu essas palavras nas raízes de uma árvore.

“Frustração, depressão, comportamentos aditivos, automutilação, ideação suicida, tentativas claras de suicídio. Já encontrei duas ou três situações mais dramáticas”, desabafa Marcela Rios.

Mas as raízes da árvore exposta no átrio da Escola de Pedrouços podem transformar-se em frutos de “criatividade”, “conforto”, “sabedoria”, “amigos”, “calma”, “felicidade” e “conhecimento”, se houver projetos que orientem os estudantes.

O PIC, que assenta em quatro pilares — ciência, humanidades, expressão artística, expressão física motora — traz “atividades surpresa” e “fora da caixa” e faz diferença na vida de vários alunos, conta Marcela Rios.

Luís Amorim, 16 anos, afirma que o PIC lhe mudou a vida aos 8 anos. Hoje é mentor de crianças com altas capacidades na Escola de Pedrouços e ajuda-as através da sua própria história.

“Sempre tive notas altas, menos em educação visual ou educação física. Nunca precisei de estudar até ao 9º ano e era estranho”, recorda.

Luís não compreendia porque é que os colegas necessitavam de tanta repetição nas aulas, pois “apanhava” as matérias mais cedo do que os companheiros de turma.

Desde que faz parte do PIC, Luís Amorim, fã do filósofo René Descartes e dos filósofos pré-socráticos, afirma que se sente mais incluído nas aulas com os colegas e com os professores e que consegue controlar o facto de querer estar sempre a falar.

“Consigo-me safar um bocadinho melhor”, considerou, confidenciando que quer tirar filosofia para dar aulas de filosofia numa escola secundária ou numa faculdade.

No seu trabalho de mentoria, conta que está com os estudantes mais novos, porque podem estar um bocadinho “aluados”.

“Eu também sou muito aluado e pelo menos estou lá e faço-os sentirem-se mais incluídos no grupo. Se algum estiver um bocadinho mais de lado, vou lá falar com ele para se enturmar”, explica.

Uma das crianças de quem Luís é mentor é o Mário Monteiro, que tem 8 anos, cabelo preto, uns óculos redondos e é um craque a geografia.

Questionado sobre se tinha conhecimento que havia guerras no mundo, Mário declarou que sim, entre os EUA e o Irão e acrescentou que acha isso “muito mal”. Mário até dá conselhos geopolíticos ao presidente dos EUA, Donald Trump, dizendo que devia parar de imediato a guerra.

Mário Monteiro enumera os países do continente de África e da Ásia com a mesma facilidade com que conta até 20.

Diz que aprende muitas coisas no ‘You Tube’ e a inteligência artificial também faz parte do seu dia-a-dia, através do chat GPT.

Se pudesse, por magia, mudar alguma coisa, Mário assume que adorava ser “mais forte, mais alto e mais rápido a correr” para poder ser jogador de futebol. Confessa que é o mais “lento a correr” na turma.

Marcela Rios explica que pode haver maus resultados académicos em algumas disciplinas, pois há crianças que, apesar de terem uma inteligência em termos de lógica ou matemática acima da média, podem apresentar dificuldades na motricidade fina, que implica maus resultados em disciplinas como educação física ou visual.

Esse desnivelamento de resultados leva a uma dificuldade de perceber seu verdadeiro eu.

“Podemos ter uma criança com uma inteligência acima da média em termos de liderança e de inteligência social e querer falar, e querer estar permanentemente a mostrar aquilo que sabe (…), mas isto, numa sala de aula, às vezes acarreta algum ambiente caótico, porque ela não pode estar permanentemente a falar”, exemplifica.

Nos últimos 10 anos, têm sido identificadas mais crianças com altas capacidades na APCS. A justificação é sustentada com o aparecimento das redes sociais e pelo facto de a associação ter uma página na Internet, com mais pais a pedir formação.

Sobre os rótulos de ‘nerd’, ‘cromo’, génio ou mesmo sobredotado, Marcela Rios considera-os “pesados” e envoltos em “mitos” e “estigmas”.

“A ideia de que o sobredotado tem que ser excelente em tudo, tem que ser um génio, tem que ter boas notas, faz com que, de facto, não se encontre verdadeiramente o aluno”, lamenta, concluindo que substituiu “o termo sobredotado” no seu vocabulário e agora fala em “aluno/a com altas capacidades”.

A APCS apoia uma média de 200 a 300 crianças por ano a nível nacional e tem cerca de 80 sócios.

Fonte: Observador por indicação de Livresco

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Está Portugal preparado para mentes que vão além do esperado?

Milhares de crianças sobredotadas passam despercebidas nas escolas portuguesas, muitas vezes rotuladas como “bons alunos” ou confundidas com casos de desmotivação e indisciplina. Fomos ao Colégio Paulo VI, em Gondomar, conhecer famílias e jovens acompanhados pela Associação Nacional de Estudo e Intervenção na Sobredotação.

No Colégio Paulo VI, em Gondomar, as aulas são diferentes aos sábados de manhã. Jovens de perfis distintos, distribuídos por salas consoante a idade, reúnem-se para atividades que fogem ao currículo escolar tradicional. Têm uma característica em comum: a sobredotação.

Os jovens da ANEIS, Associação Nacional de Estudo e Intervenção na Sobredotação, regressam ao ambiente escolar ao fim de semana para terem aulas diferentes, marcadas pelo estímulo intelectual e por uma forte interação entre alunos e professores.

Na sala 59, o professor André Matias conduz uma reflexão em torno do medo, a partir de poemas de Luís de Camões. Nesta manhã de sábado, a sala de aula transforma-se num espaço de partilha, onde as ideias circulam livremente e dão lugar a debates ricos e construtivos.

Sobredotação em Portugal: uma realidade invisível

Psicólogos e associações dedicadas aos sobredotados, como a APCS, Associação Portuguesa das Crianças Sobredotadas, estimam que entre 3% a 5% das crianças e jovens portugueses sejam sobredotados, o que corresponde a dezenas de milhares de alunos em idade escolar.

Um sobredotado é alguém que revela um elevado potencial numa ou em várias áreas, como a intelectual, artística, criativa, social ou motora. Para que esse potencial se desenvolva plenamente, é fundamental a existência de apoio adequado, tanto ao nível escolar como emocional.

A sobredotação está associada a um Quociente de Inteligência (QI) pelo menos dois desvios-padrão acima da média. No entanto, a maioria dos casos nunca chega a ser formalmente identificada. A falta de mecanismos sistemáticos nas escolas e de formação específica faz com que muitos destes jovens cresçam sem acompanhamento adequado, frequentemente rotulados apenas como “bons alunos” ou, noutros casos, como jovens desmotivados e desinteressados.

Desde que se lembra, Manuel, de 18 anos, percebeu que era diferente das outras crianças. Aprendia mais depressa, era mais atento e perspicaz e entediava-se facilmente com os métodos de ensino e os interesses comuns da escola primária. Na sala de aula, era “o inteligente da turma”, aquele a quem os colegas pediam ajuda e que os professores reconheciam como estando sempre um passo à frente.

Aos oito anos, essa diferença ganhou um nome. Manuel foi identificado como uma criança sobredotada por um dos membros fundadores da ANEIS.

Fundada em 1998, a iniciativa nasceu como resposta às famílias e aos jovens sobredotados que se sentiam isolados, incompreendidos e sem apoio adequado do sistema educativo português. Para Manuel, foi também o local onde, pela primeira vez, encontrou outros jovens “como ele”.

A psicóloga clínica Stephanie Silva, da ANEIS, recorda o caso de Manuel: “Quando ele entrou aqui era bastante antissocial, não falava com ninguém, não conseguia ter uma conversa normal”, diz ao JPN. Apesar das elevadas capacidades cognitivas, passava grande parte do tempo isolado, tanto na escola como nos momentos de lazer. “Era daquelas crianças que estavam sempre sozinhas, sentadas nas escadas, sempre com livros”, recorda a psicóloga.

Desde muito cedo, revelava interesses altamente especializados, sobretudo na área da história, e um planeamento do futuro pouco comum para a idade. “Ele trazia um caderno já com tudo planeado: as universidades onde queria estudar, o preço das propinas, das rendas, estava tudo escrito”, conta. A integração na ANEIS marcou um ponto de viragem. “Aqui eles fazem-no sair da zona de conforto”, sublinha, destacando a importância do contacto com pares semelhantes para o desenvolvimento social e emocional do jovem.

ANEIS, “o balão de oxigénio”

A associação acompanha crianças e jovens, em várias dimensões do desenvolvimento – desde o nível intelectual e académico à dimensão social, emocional, artística, motora e mecânica. O objetivo é oferecer respostas ajustadas às necessidades específicas destes jovens, promovendo a sua inclusão escolar e social e valorizando as suas capacidades, sempre com base no conhecimento científico e nas melhores práticas educativas.

“Nós desenvolvemos um conjunto de respostas educativas para estas crianças e jovens. No fundo, estes programas são importantes, porque a escola ainda não consegue responder às necessidades, às características individuais e singulares destas crianças e jovens e, portanto, os programas de enriquecimento revelam-se de importância maior”, explica Alberto Rocha, um dos fundadores e atual presidente da ANEIS.

A ANEIS é a única Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) de utilidade pública em Portugal especializada em sobredotação. Atualmente, apoia cerca de 600 jovens em todo o país, com idades compreendidas entre os três e os 19 anos. Destes, aproximadamente, cem são acompanhados na área do Porto.

A grande diversidade etária obriga a uma abordagem adaptada a cada fase do desenvolvimento, de forma a respeitar o ritmo e interesses de cada uma. O grupo dos “precoces” engloba as crianças mais novas, com idades entre os três e os seis anos; o grupo dos “iniciados”, crianças entre os sete e os dez anos; os “intermédios”, dos onze aos dezasseis e os “avançados”, onde estão inseridos os mais velhos.

Alberto Rocha sublinha que os jovens acompanhados podem apresentar dupla excecionalidade, combinando sobredotação com dislexia ou perturbações do espectro do autismo, por exemplo: “Eles também podem ter uma dupla excepcionalidade, que é ter uma disortografia ou autismo e ter sobredotação. Muitos autistas de alto funcionamento são muito capazes, muito inteligentes. Alguns deles estão aqui no programa.”

O diretor ressalta que, além das necessidades cognitivas, muitos destes jovens enfrentam desafios sociais e emocionais: preferem conversar com adultos ou pares mais velhos, interessam-se por temas complexos e sentem-se isolados em contextos em que não são compreendidos.

“Para muitos deles, o balão de oxigénio é o sábado de manhã aqui”, afirma.

Dificuldades no diagnóstico

Antes de chegarem à associação, muitas crianças enfrentam outro obstáculo: os diagnósticos incorretos. Segundo Alberto, algumas chegam à associação medicadas no seguimento de diagnósticos de hiperatividade e défice de atenção. “Isto quer dizer que existem falsos diagnósticos e que estamos a prejudicar as crianças ao medicá-las”, alerta.

Alberto Rocha, que também é psicólogo, revela que, em muitos casos, a mudança de contexto é decisiva. Quando passam a integrar projetos desafiantes, que exigem pensamento crítico, criatividade e envolvimento ativo, os comportamentos que motivaram a medicação prévia, desaparecem ou diminuem significativamente.

Outro ponto destacado é o desperdício de talentos quando jovens concretizam o seu potencial académico fora de Portugal, não regressam:

"Dos mais velhos, não está cá nenhum, em Portugal. Estão na Nova Zelândia, no Canadá, na Finlândia… e provavelmente já não regressam. Será que nós não precisamos deste potencial para nos ajudar a sair da cauda da Europa? Estamos a desperdiçar talento enquanto outros países aproveitam os nossos jovens”, reflete o presidente da ANEIS.

O desconhecimento em torno da sobredotação continua a ser um dos maiores entraves ao seu reconhecimento: “Continua a haver um certo desconhecimento sobre o que é sobredotação e, se calhar, até um estigma. Nós só conseguimos mudar isso na base da formação, porque se nós não esclarecermos, se as pessoas não estiverem informadas, é muito difícil elas mudarem esses estereótipos ou esses mitos”, clarifica o psicólogo.

Entre os estigmas, está a ideia de que um jovem sobredotado é sempre o melhor da turma, mas não é assim: “Não têm de ser os melhores da turma. Nós temos alunos em situação de underachievemnt (baixo rendimento) e que têm um alto potencial, mas a escola não tem currículos que os satisfaçam e eles nivelam-se e vêm por aí abaixo”.

Para o psicólogo, a solução passa por uma reflexão profunda sobre o modelo educativo português. Apesar das transformações sociais e tecnológicas das últimas décadas, o ensino mantém-se praticamente inalterado. O presidente da associação fala da escola como “transmissiva”, centrada na memorização de conteúdos e pouco orientada para o desenvolvimento de competências. Para alunos sobredotados, este modelo é particularmente limitador.

No plano legislativo, Alberto Rocha defende que Portugal dispõe já de um enquadramento suficientemente abrangente para responder a estas necessidades. O problema reside na forma como as leias são aplicadas. O decreto-lei para a inclusão permite uma grande margem de atuação, mas a falta de orientações concretas faz com que poucas escolas avancem. Esta desigualdade traduz-se em oportunidades distintas para alunos com perfis semelhantes.

Para Alberto Rocha, o início da solução passa pela formação de professores, tanto ao nível do ensino superior como ao longo da carreira. Sem esse investimento, torna-se difícil identificar, compreender e apoiar estes alunos dentro da sala de aula. A ANEIS tem procurado colmatar esta lacuna através de ações de sensibilização, formação em escolas e criação de ferramentas de apoio pedagógico.

A ANEIS assume também um papel ativo na investigação científica, desenvolvendo estudos nas áreas da sobredotação, da criatividade, da motivação e da excelência humana. O objetivo é compreender melhor estes perfis e melhorar continuamente as práticas educativas.
A técnica da “camuflagem”

Margarida tem oito anos e já sabia o abecedário completo quando tinha apenas dois. Durante a entrevista com o JPN, mostrou resistência em responder às perguntas. Consciente de que estava a ser gravada, limitou-se a acenar com a cabeça, ao invés de verbalizar as respostas. Quando a psicóloga reformulava as questões, Margarida respondia com frases curtas: “sim”, “não” ou “não sei”.

À pergunta sobre o que gostaria de fazer no futuro, Margarida respondeu “cabeleireira”. Quando questionada sobre a razão, disse “para pentear cabelos”, acompanhando a frase com um sorriso que encerrava qualquer tentativa de aprofundamento. A entrevista avançou sem grandes desenvolvimentos, marcada por silêncios e respostas calculadas.

A postura de Margarida revelou mais do que as suas respostas verbais – manteve sempre o controlo da interação e limitou a partilha. Só mais tarde, com o enquadramento da psicóloga, esta atitude ganharia sentido.

“Ela adaptou-se muito ao vosso discurso e à vossa posição”, explica a psicóloga Stephanie Silva, que acrescenta ainda que este comportamento é comum nos sobredotados: “Acontece muito em contexto de aula, é uma forma de eles se camuflarem”.

Quando finalmente surge um diagnóstico

Stephanie Silva é responsável pelo despiste e avaliação de crianças sobredotadas na associação, realizando também acompanhamento clínico, quando solicitado pelas famílias. Segundo explica, o processo de despiste decorre em cinco sessões e procura avaliar capacidades cognitivas, bem como compreender o percurso da criança, os sinais que apresenta e a forma como se posiciona perante o mundo.

A primeira sessão envolve os pais e destina-se a recolher informação sobre o desenvolvimento da criança e esclarecer dúvidas. As seguintes são realizadas apenas com a criança e incluem provas de avaliação cognitiva, num processo bastante “longo e complexo”: “Eu peço sempre que seja [realizado] entre as 09h00, até às quatro, cinco da tarde – quando a criança ainda está desperta, porque se for feito à noite, eles começam a esfregar os olhos e estão cansados”, explica a psicóloga. Numa fase posterior, são ainda avaliadas a criatividade e a motivação.

O processo termina com a entrega e explicação do relatório final aos pais. A reação das famílias ao diagnóstico é, na maioria dos casos, de aceitação e alívio. Muitos pais chegam exaustos à procura de soluções para responder às exigências intelectuais dos filhos.

"Temos crianças de quatro, cinco anos, que pedem aos pais para explicarem a teoria da relatividade. Que pais é que sabem isso?”, conta a psicóloga.

Quando se confirma a sobredotação, recomenda que o relatório seja entregue à escola e, sempre que necessário, que sejam ativadas medidas de inclusão para adaptar o contexto escolar à criança.

Apesar da existência de um processo formal de despiste, a experiência de Stephanie permite-lhe identificar sinais de sobredotação no primeiro contacto. A postura corporal, a forma de falar, o olhar e o tipo de discurso são características típicas de crianças sobredotadas, facilmente reconhecíveis por profissionais experientes. Entre os traços mais comuns destacam-se um forte sentido de justiça, um espírito crítico apurado e interesses muito específicos. Nos mais novos, surgem frequentemente temas como astronomia, paleontologia ou história; na adolescência, tendem a diversificar-se, passando pelas artes, matemática, engenharia ou línguas.

No entanto, nem todos os profissionais da psicologia estão aptos para fazer esta avaliação, resultando, muitas vezes, em falsos diagnósticos. Foi o que aconteceu com Guilherme e Sebastião, filhos de Cátia Rodrigues. Guilherme, atualmente com 13 anos, foi diagnosticado aos nove, enquanto Sebastião, de sete anos, foi aos quatro.

“O primeiro contacto que tivemos foi com o pedopsiquiatra. Ao fim de 10 minutos, veio com um pseudo diagnóstico de hiperatividade e défice de atenção, com prescrição de medicação”, conta a mãe que, enquanto profissional de saúde, recusou aceitar um diagnóstico feito sem uma avaliação adequada, baseada em critérios clínicos rigorosos. Insistiu numa análise mais profunda, que revelou a sobredotação de Guilherme.

Cátia admite que a sua ideia de sobredotação foi totalmente desconstruída: “Para mim, para ser um aluno sobredotado, tinha que ser capaz de resolver problemas de física quântica”.

Aquando da confirmação do diagnóstico, a psicóloga responsável alertou que essa informação poderia “ser muito bem ou muito mal recebida” no contexto escolar. Várias instituições demonstraram resistência em adaptar respostas educativas às necessidades de Guilherme:

"Portas fechadas atrás de portas fechadas. Várias vezes disseram que não tinham recursos para assegurar os cuidados a crianças com dificuldades, muito menos a crianças que estavam noutro espectro. Todas as ferramentas que dávamos eram sempre encaradas como obstáculos”, conta a mãe.

Essa falta de preparação refletiu-se na autoestima de Guilherme. “Estava com uma autoestima muito baixa, porque não conseguia fazer as coisas como lhe eram pedidas. Não conseguia apresentar o raciocínio de um problema, nem explicar as coisas como era suposto os outros meninos explicarem”, descreve a mãe.

Para muitas crianças sobredotadas, frustração, perfeccionismo e ansiedade são sentimentos frequentes, explica a psicóloga Stephanie Silva, podendo levar à desmotivação escolar e ao isolamento. Ela ilustra com um exemplo vivido na ANEIS:

"Tenho, por exemplo, um menino que tirou 98% num teste e começou a bater em si próprio. Eles colocam objetivos muito rígidos na cabeça: se o professor diz que é para 100, então tem de ser 100. Estudam para isso. O mais irónico é que, quando lhes fazemos perguntas mesmo muito complicadas, eles sabem responder.

Segundo Stephanie, este perfeccionismo extremo está muitas vezes acompanhado de ansiedade, porque a escola tende a valorizar o resultado em vez do processo de aprendizagem, transformando erros em experiências de falha pessoal, e não em oportunidades de desenvolvimento.

Para estes alunos, compreender regras passa também por entender a sua razão de ser. “Questionar não é afrontar”, sublinha Cátia Rodrigues. Ainda assim, este comportamento é frequentemente interpretado como desafio à autoridade: “Cheguei a ouvir que éramos pais a criar crianças confrontacionais.” Dá como exemplo o filho mais novo que, desde muito cedo, respondia a um “porque não” com a exigência de uma explicação. Para ele, não se tratava de desobediência, mas de uma necessidade genuína de compreender. Esta situação levava a elevados níveis de frustração.

O próprio Guilherme relata as dificuldades em sala de aula. “Comecei a perceber que eu terminava as tarefas muito rápido. É muito chato, porque acabo as tarefas e não tenho nada para fazer. Uma coisa que a minha professora faz é pôr-me ao pé de alguém para ajudar”, conta.

Com a escola sem conteúdos específicos para estimular crianças com sobredotação e o tempo em casa insuficiente, a família recorreu à ANEIS, que se tornou “uma tábua de salvação”. Com atividades inovadoras e acompanhamento permanente, Guilherme recuperou a autoestima e passou a sentir-se integrado: “Sente-se mais incluído e, mesmo em termos de autoestima, está bastante melhor. Tem interesse e motivação em vir para cá”, conclui.

Algum tempo depois, Cátia levou o filho mais novo, Sebastião, a atividades da ANEIS, por conveniência, já que moravam longe e não era viável deixá-lo sozinho em casa. Numa sessão de escrita criativa, ele foi colocado numa sala com outras crianças com sobredotação. Nesse contexto, pela interação com os colegas e pela adaptação ao grupo, surgiram as primeiras indicações de que Sebastião também poderia ser sobredotado, o que foi confirmado em avaliação formal.

A mãe recorda que houve alguma dúvida: “Se tem um irmão sobredotado, é normal que seja inteligente não?” Ainda assim, os sinais eram claros: “Notamos uma capacidade de retenção muito elevada e desenvolvimento linguístico avançado. Desde cedo construía frases completas e compreendia conceitos complexos”, explica Cátia. A experiência com Guilherme ajudou a família a acompanhar Sebastião com mais atenção e a evitar erros anteriores.

Apesar do seu potencial, Sebastião tem interesses típicos da sua idade, contou que gosta de jogar futebol, Roblox, Fortnite e ver televisão, especialmente o desenho Bluey. Nas atividades da ANEIS, diverte-se muito a criar bonecos e construções em plasticina, fruto da sua imaginação: “Fazemos coisas que não existem no mundo”, diz.

Na escola, enfrenta os desafios comuns à maioria das crianças. Sobre aprender mais rápido que os colegas, explicou: “Acho que é melhor, porque quando chegamos a algo que eu já sei, a professora pergunta-me e depois aprendemos juntos.” Para ele, a facilidade na aprendizagem não é só vantagem pessoal, mas sobretudo uma oportunidade de ajudar os amigos.

A forma positiva como Sebastião descreve o ambiente em sala de aula, deve-se, em grande parte, à abordagem dos professores, sendo por isso importante que estes sejam informados do que o ensino a estudantes sobredotados implica. É precisamente esta perspetiva que o professor André Matias defende e tenta aplicar no seu trabalho educativo.

Um sistema criado para o aluno médio

André Matias leciona na Escola Secundária Eça de Queirós, na Póvoa de Varzim, e é colaborador da ANEIS. O contacto com a sobredotação começou quando foi convidado a dar uma aula sobre mitologia na associação. Ali, descobriu uma área da pedagogia que até então conhecia pelos estereótipos.

“De repente, encontrei um filão que desconhecia completamente”, conta. Após uma pós-graduação em Educação Especial, regressou à ANEIS com a convicção de que podia contribuir para um campo ainda pouco valorizado, sobretudo na área das humanidades.

Na associação, desenvolve um projeto que procura contrariar a ideia de que os alunos sobredotados se destacam apenas nas ciências exatas. Através da literatura, da filosofia e da história, tenta oferecer novas ferramentas cognitivas e sociais a jovens cuja curiosidade raramente cabe nos limites da escola tradicional.

A transposição desse trabalho para o ensino público revela-se difícil. “É complexo”, admite. Na ANEIS, os alunos partilham características semelhantes; na escola pública, o espectro vai das dificuldades de aprendizagem à sobredotação: “Aquilo que conseguimos fazer na associação é muito difícil de replicar numa turma de 28 alunos”, observa. Ainda assim, tenta aplicar algumas metodologias, mesmo que com menor alcance.

Para o professor, o problema começa no modelo educativo, pensado para “trabalhar para um aluno médio que não existe”. A consequência é um sistema que falha tanto com os alunos que precisam de mais apoio como com os que necessitam de mais desafio.

A identificação da sobredotação é outro ponto onde André aponta fragilidades: as escolas concentram-se nos alunos com dificuldades e, mesmo aí, a resposta é insuficiente. “Os sobredotados sofrem de um grande handicap: como sabem muito, parte-se do princípio de que não têm problema nenhum.” Mas saber mais não significa estar melhor integrado. Pelo contrário, muitos enfrentam isolamento, incompreensão e até bullying.

Os interesses não são comuns, os pares não compreendem, e isso cria distância.”, conta o professor.

Antes de chegarem à associação, alguns jovens vivenciavam sentimentos negativos, incluindo pensamentos de automutilação ou suicídio. Stephanie Silva, psicóloga da ANEIS, recorda casos em que isso se manifestava, por exemplo, através da escrita: “Ele escrevia poemas em que descrevia os seus pensamentos – a maneira como já tinha pensado em se suicidar e como isso poderia acontecer.”

É nesse contexto que espaços como a ANEIS ganham importância. “Ali”, diz André, “os jovens encontram pares com experiências semelhantes e deixam de se sentir estranhos”. A associação acaba por desempenhar um papel que, na sua opinião, deveria caber ao próprio Ministério da Educação: dar resposta concreta às necessidades destes alunos e apoiar também as famílias, muitas vezes exaustas perante a falta de respostas institucionais.

Nas salas da ANEIS, o desafio não é dar mais exercícios, mas estimular a curiosidade. No seu projeto “Pela mão da literatura vejo o mundo”, André Matias transforma textos em pontos de partida para reflexões sociais, históricas e culturais, complementadas com visitas de estudo e trabalho de campo. Cada aula exige horas de preparação. “São alunos para quem a resposta nunca chega. Querem sempre saber porquê.”

Para o professor, a formação dos docentes é urgente: “Ainda há muito estigma. Muitos pensam que um aluno sobredotado não tem problemas.” Uma ideia que considera fruto da ignorância: “Os estigmas são sempre isso.” Pode ser controverso, mas o professor defende a criação de escolas especializadas para sobredotados, à semelhança do que acontece com o desporto de alto rendimento, embora reconheça o risco de criar bolhas sociais.

Sobredotação à luz da neurociência

O papel do professor e das escolas revela-se importante para o desenvolvimento cognitivo destes jovens e pode ser determinante para o seu percurso. O mesmo confirma o neurocientista Miguel Castelo Branco. Em declarações à SIC Notícias, o cientista aponta que nascer com determinadas capacidades não é, por si só, garantia de um percurso extraordinário. “Nós podemos nascer com um dom, mas se não o cultivarmos ele vai-se esbatendo”, afirma, chamando a atenção para o papel decisivo do ambiente que rodeia o indivíduo.

Segundo Miguel Castelo Branco, a inteligência não pode ser reduzida a um único fator nem a uma métrica isolada. “A inteligência vem de um cocktail de condições, genéticas mas também do ambiente”, explica, defendendo que testes como o do QI têm limites claros. “O QI não vai prever o desempenho, o grau de sucesso que a pessoa vai ter na sociedade.” Pessoas com elevado potencial intelectual podem nunca concretizá-lo se não tiverem acesso a estímulos adequados, apoio educativo ou condições sociais favoráveis, enquanto outras conseguem desenvolver plenamente as suas capacidades quando encontram o contexto certo.

Apesar dos avanços da neurociência nas últimas décadas, o investigador reconhece que ainda existem muitas perguntas sem resposta. Em particular, não é ainda possível identificar concretamente o que distingue, a nível físico ou cerebral, uma pessoa sobredotada. Não há um padrão anatómico, estrutural ou funcional inequívoco no cérebro que explique porque alguns indivíduos apresentam capacidades excecionais.

A perspetiva apresentada pelo neurocientista é coerente com a abordagem adotada em documentos educativos oficiais, como o Guia para Professores e Educadores – Altas Capacidades e Sobredotação, da Direção-Geral da Educação, que descreve a sobredotação como um fenómeno multifatorial e dependente do contexto e não como uma “marca” visível no cérebro.

Esta incerteza científica confirma que o desenvolvimento do talento depende da interação contínua entre predisposição individual e contexto. O neurocientista defende que compreender o funcionamento do cérebro humano implica aceitar essa complexidade e reconhecer que o potencial intelectual não se esgota nem se define exclusivamente por características físicas observáveis.

Um potencial ainda por reconhecer

A sobredotação continua a ser, em Portugal, uma realidade amplamente invisível. A identificação formal e o acompanhamento especializado permanecem limitados, dependendo frequentemente da iniciativa de famílias, associações ou de profissionais isolados, mais do que de respostas estruturadas do sistema educativo. O enquadramento legal português prevê a possibilidade de respostas diferenciadas para alunos com altas capacidades, mas a aplicação prática é desigual. Muitas escolas não dispõem de currículos ou estratégias adaptadas, e a formação específica de professores sobre sobredotação é insuficiente, o que resulta em diagnósticos tardios ou incorretos, bem como em respostas educativas inadequadas.

Espaços como a ANEIS mostram que, quando os contextos educativos se ajustam às necessidades do aluno, o potencial das crianças e jovens sobredotados pode desenvolver-se de forma equilibrada, abrangendo dimensões intelectuais, sociais e emocionais. Nessas situações, observa-se aumento da motivação, melhor integração social e maior bem-estar emocional, contrastando com experiências em escolas tradicionais, onde interesses específicos podem ser incompreendidos e o rendimento escolar não refletir o verdadeiro potencial do aluno.

Guias oficiais da DGE destacam que a sobredotação é um fenómeno multifatorial e dependente do contexto, envolvendo capacidades cognitivas, criativas e motivacionais, e que nem sempre se traduz em notas elevadas ou desempenho académico superior. A identificação e acompanhamento adequados requerem observação sistemática, avaliação especializada e estratégias pedagógicas adaptadas, de forma a oferecer oportunidades para o desenvolvimento pleno das capacidades dos alunos.

O desafio central permanece na necessidade de formação docente continuada, sensibilização das escolas e disponibilização de recursos específicos, permitindo que o sistema educativo português responda de forma consistente às necessidades destes alunos e evite que o talento se perca por falta de apoio adequado.

Fonte: JPN por indicação de Livresco

sexta-feira, 11 de abril de 2025

"Cérebros fora de série": alunos com capacidades cognitivas extraordinárias

Têm capacidades cognitivas extraordinárias, mas sentem-se incompreendidos e desmotivados na escola. Ser a exceção num sistema de ensino formatado para a média é o grande desafio que as crianças e jovens sobredotados enfrentam. Sem o devido acompanhamento, também eles se tornam crianças com dificuldades. Mas quando os esforços se alinham, é possível dar a estas crianças condições para aproveitar todo o seu potencial.

Josué começou a revelar muito cedo uma invulgar capacidade de aprendizagem e uma sede infinita de conhecimento. Com 11 anos afirma, com convicção, que quer seguir a carreira de astrofísico.

“Eu quero descobrir planetas, quero descobrir astros, quero fazer descobertas chocantes para a astronomia. Gostava de quebrar as leis da termodinâmica. E porque leis da termodinâmica? Porque não me deixam fazer o que eu quero! Eu quero meter um humano a voar sem asas, ser um jetpack, sem um avião. Voar naturalmente como um pássaro voa, só que sem asas. O que é que a termodinâmica me diz? Não, isso é contra as leis da física. Como sou um homem de ciência, eu não acredito que será que isso seja possível. Eu quero, quero quebrá-las!"

Josué tinha 8 anos quando recebeu o diagnóstico de sobredotação. A mãe recorda um dos primeiros sinais de alerta: “Ele começou a praticar futebol e parava a meio do jogo, parava literalmente, para analisar os lances e as consequências que podia ter com todos os movimentos que pudesse fazer naquele momento. Éramos nós lá fora a dizer: ‘Anda Josué!’ E ele dizia ‘Calma!’.”

Apesar de reconhecer o privilégio do filho ter altas capacidades cognitivas, Helena Pinto confessa que há não é fácil ver que Josué sofre por, muitas vezes, se sentir incompreendido e diferente.

“É como se tivesse duas pessoas: o adulto e a criança. E às vezes colidem. Ninguém sabe o que nós passamos quando ele tem uma crise de hipersensibilidade e temos aqui a chorar e ele a argumentar e nós a contra-argumentarmos. É difícil ouvimos um filho dizer que não quer ser diferente: Ele dizia muitas vezes ‘Mãe, eu não quero ser diferente, quero ser igual aos outros meninos’. E, no entanto, olham para nós: Ah, é tão inteligente, sabe sempre tanto!"

Com 2 anos, Leonor Lopes já sabia ler e fazia contas de multiplicar e dividir. Hoje, adolescente, não esquece as dificuldades que teve de enfrentar nos primeiros anos de escola. “Viam-me como se não fosse normal, como se eu fosse literalmente uma anormal e tratavam-me dessa forma mesmo. Eu pensei isso de mim durante muito tempo. Foi mesmo muito difícil”, refere Leonor.

“Ela teve uma crise de pânico na porta do colégio. Telefonei ao pai e lembro-me perfeitamente das palavras: “A nossa filha acabou de ter uma crise de pânico aos dois anos”. Como deve imaginar, como mãe, tão frustrada comigo própria que eu só queria saber o que é que se passava com ela."

O pedido de antecipação escolar que os pais de Leonor apresentaram ao Ministério da Educação foi concedido, mas a entrada da filha no 1º ano representou “um choque”, diz a mãe , porque a minha filha com quatro anos, vestia roupa de dois. Os amigos dela eram o triplo dela.” E lembra que a filha não tinha amigos “Aconteceu certa vez, numa festa de anos, ela ter convidado a turma inteira e ninguém aparecer.”

Mesmo tendo antecipado a entrada no 1º ano, Leonor atingiu rapidamente um nível de conhecimento mais avançado em comparação com o resto da turma e esse desfasamento refletiu-se na saúde. “Cada vez que me começava a sentir saturada na escola, eu ficava doente, mas doente mesmo. Eu deixava mesmo de conseguir respirar”, diz Leonor.

A psicóloga clínica Cláudia Falco explica estas reações: “É como se o corpo estivesse a mostrar ansiedade que eles não estão a conseguir verbalizar. É muito frequente o vómito, dores de cabeça, podem ser febres também. Sentem-se muito desconfortáveis com a escola, muito ansiosos e desenvolvem mesmo uma fobia.”

"Eu queria aprender, não queria aprender como a escola me ensina. Começamos por aí. A escola tem o método da repetição, que é massacrar os alunos com matéria até entrar na cabeça deles. E eu não preciso disso. A partir do momento que me começam a repetir a matéria, eu desligo completamente e pode ter a certeza que vou errar tudo. Durante muito tempo foi: ‘Leonor, olha para ficha, está cheia de erros, tu não sabes isto, vais voltar a fazer’.”

Ana Almeida, psicóloga da ANEIS, a Associação Nacional para o Estudo e Intervenção na Sobredotação, refere que “os alunos com desenvolvimento típico precisam de sete a oito repetições para acomodar a informação, enquanto que os alunos sobredotados necessitam de apenas uma a duas.”

A vontade voraz de Margarida de saber mais tem vindo a abrandar ao mesmo ritmo que cresce a preocupação da mãe.

“A Margarida ainda não tinha completado dois anos, e sabia o abecedário completo. Quando eu percebi que ela estava a estagnar e até regredir, isso alertou -me muito."

“Eles chegam ao ponto em que se anulam para se sentirem quase iguais aos colegas”, diz a psicóloga clínica Ana Almeida, e alerta: “Se os filhos procuram mais conhecimento, não deixem de dar. É diferente de não estarmos a forçar o estímulo. Nestas crianças, eles procuram o estímulo.”

O neurocientista Miguel Castelo Branco alerta: “nós podemos nascer com um dom, mas se não o cultivarmos ele vai-se esbatendo.”

“A inteligência vem de um cocktail de condições, genéticas mas também do ambiente. O QI não vai prever o desempenho, o grau de sucesso que a pessoa vai ter na sociedade. Há pessoas que têm um potencial enorme para ter grande desempenho académico, mas se não tiverem o ambiente certo, esse desempenho não vai ocorrer.”

Hugo Palma reconhece que teve muita sorte em ter sido bem acompanhado desde cedo: “Cresci numa família muito que me deu muita liberdade. Depois, pelo facto de ter frequentado escolas mais pequenas, sempre tive um acompanhamento muito próximo e muita compreensão.” Hoje, com 41 anos, dois filhos e formado em engenharia aeronáutica, divide-se pela mão cheia de empresas que fundou e gere. Ser guia de montanha, mais do que um dos muitos trabalhos que faz, é, para Hugo Palma, uma garantia de equilíbrio. “Sempre tive e sempre tive a minha mente a mil. Vivia num grande frenesim, muito ansioso. Ir para a natureza fazer coisas, fazer coisas simples, acaba por nos trazer paz”, refere o empresário.

É na música que Guilherme encontra um refúgio para a ansiedade que enfrenta na escola. “Faz-me sentir muito bem quando estou a tocar.”

Os pais lamentam a dificuldade dos professores em reconhecer casos de sobredotação e a falta de acompanhamento adequado. Recordam que foram chamados à escola porque o filho não conseguia estar concentrado e quieto. Levaram-no a uma consulta de pedopsiquiatra e diagnóstico que receberam foi o de perturbação de hiperatividade e défice de atenção. Mas a avaliação psicológica que Guilherme fez a seguir acabou por revelar sinais de altas capacidades cognitivas.

Em Portugal, não existem dados oficiais sobre o número de alunos com diagnóstico de sobredotação. Restam as estimativas europeias, que apontam para 3 a 10 % da população escolar, mas maioria não está identificada ou está mal diagnosticada. Outros não encontram a resposta que precisam, apesar da lei garantir uma educação inclusiva que visa assegurar um ensino ajustado às necessidades e potencialidades de cada aluno.

“Quando obtivemos este diagnóstico, procuramos ajuda na parte escolar, e a resposta que obtivemos foi que não tinham capacidade de resposta para situações como o caso do Gui, de sobredotação, que já às vezes os recursos eram poucos para poder dar resposta mesmo às crianças com algumas dificuldades, portanto se não conseguimos dar resposta às crianças que têm mais dificuldades, muito menos este tipo de crianças.”

As famílias exigem que a lei passe da teoria à prática e que seja mais flexível na progressão escolar, como acontece, por exemplo, na Bélgica ou nos Estados Unidos. Em Portugal, um aluno que revele uma capacidade de aprendizagem excecional e um adequado grau de maturidade pode saltar de ano duas vezes, mas a legislação impõe como limite o final do ensino básico.

Para o presidente da ANEIS, esta limitação até ao terceiro ciclo, não faz sentido. “Os alunos podem e devem fazer acelerar o percurso escolar no ensino secundário e há casos que era importantíssimo para eles fazer este avanço de ano escolar!”, refere Alberto Rocha.

Na Escola Básica Vallis Longus, em Valongo, Josué saltou do 4º para o 6º ano amparado pela família, pela psicóloga e pelos professores. É a prova do tanto que é possível alcançar quando tudo se alinha na direção certa.

“A direção da escola está a agir muito bem”, elogia Josué, “porque é a primeira vez que um aluno como eu é diagnosticado e eles estão a ser muito bons a tratar deste progresso que eu tenho.”

“Não podemos deixar, só porque é acima, deixar cair, para depois até desmotivar e ser um aluno com dificuldades. Quando se fez os horários e a alocação de salas às turmas, houve a preocupação de este 6º e este 5º ficassem no mesmo pavilhão, o que permite que ele neste momento tanto brinque nos intervalos com os de 6º como como os de 5º, portanto, permite-lhe continuar esta ligação às duas turmas em termos emocionais.”

“Ele conseguiu concluir o primeiro ciclo com sucesso e emocionalmente estabilizado, feliz e a acreditar que valia a pena ser como era. Ele nunca perdeu a essência dele!”, exclama, com satisfação, a mãe de Josué. E incentiva as famílias com crianças sobredotadas a não desistirem de procurar ajuda.

Jornalista: Catarina Marques

Fonte: SIC Notícias com vídeos

sábado, 10 de fevereiro de 2024

Zombies, cérebros e realidade aumentada. Os programas para crianças sobredotadas para quem a escola não chega

Dylan quer “sempre mais, mais de tudo, nunca nada chega”. É assim desde que entrou na escola, asseguram os pais, Rosalina Castanho e Mauro Inês. Era frequentemente o mais rápido nos treinos de futebol, acertava todos os desafios nas aulas e a energia nunca se esgotava — mesmo após um dia de brincadeiras com os amigos ou de crossfit com os pais. “Às vezes dá-nos uma abada, ainda lhe sobra energia e diz que nunca brincamos com ele”, contam ao PÚBLICO, sorridentes, com as conversas entusiasmadas de 24 crianças a eclodir na sala ao lado como barulho de fundo.

Estas são crianças como todas as outras. Aqui estão concentrados alguns dos miúdos mais brilhantes do concelho de Leiria: estão entre os 3% a 5% de crianças consideradas sobredotadas por apresentarem altas capacidades cognitivas, aliadas a uma criatividade fora do vulgar e a um grande envolvimento nas tarefas que lhes são dadas, como explica a psicóloga Ana Fernandes, também presidente da Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas (APCS).

Isto é, em cada 30 miúdos, um é sobredotado. Ou, por outras palavras, num agrupamento de escolas com mil crianças, há 30 que apresentam altas capacidades. E é importante que sejam sinalizadas e intervencionadas, que haja diferenciação pedagógica, defende Ana Fernandes. (...)

Continuação da reportagem em Público.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Como a Estónia apoia os mais dotados

O que se faz atualmente na Estónia para identificar, motivar e celebrar alunos com capacidades acima da média?

O que dizer dos alunos acima da média, os chamados sobredotados? Onde é que o sistema educativo os encaixa? Serão estes alunos campeões que se automotivam? Saberão estes jovens o que querem, sendo capazes de seguir a sua vocação de forma autónoma? Como podemos identificá-los e onde é que os encontramos?

A Estónia participou no PISA pela primeira vez em 2006. De temperamento modesto, os estónios ficaram surpreendidos com os resultados e a posição elevada que obtiveram nesta classificação internacional. Uma das conclusões que os legisladores retiraram desta estreia foi a de que a Estónia devia ter mais alunos de topo. A análise de dados indicava a existência de talento que deveríamos conseguir identificar e o nosso sistema educativo devia fazer mais para desenvolver o potencial escondido no meio da curva de distribuição. Doze anos depois, os resultados do PISA 2018 mostraram algum progresso: a percentagem de alunos com desempenho elevado aumentou em todos os parâmetros avaliados.

Porque importa valorizar e procurar os alunos sobredotados? Infelizmente, os sobredotados causam muitas vezes perturbações na aula, porque fazem perguntas incómodas, ou tendem a passar despercebidos, por se sentirem aborrecidos. Se um professor seguir os manuais e o programa regular, o aluno sobredotado conseguirá «ir na maré» aula após aula, cumprindo o seu percurso escolar sem grande esforço nem motivação. O próprio Albert Einstein teve dificuldades na escola. «É muitas vezes difícil de perceber que uma criança [destas] tem necessidades especiais. Uma criança sobredotada é como um frágil rebento de uma planta: precisamos de a cuidar e de a alimentar bem para que se torne uma bela árvore», disse uma psicóloga que é mãe de uma criança sobredotada na Estónia. O seu filho começou a ler aos três anos, mas assim que entrou para a escola, a família começou a receber queixas e o menino a adoecer e a ter dificuldades. Sentia-se desmotivado. Quando a mãe conversou com a professora e lhe disse que ele podia (devia) ter problemas mais difíceis para resolver, a professora respondeu que o menino tinha uma caligrafia muito má, e que seria preferível trabalhar nisso. Os pais mudaram o filho de escola e a situação alterou-se. Alguns anos mais tarde, era o melhor aluno da escola e participou nas Olimpíadas Internacionais de Ciências.

O tema das crianças sobredotadas chegou ao governo na Estónia. O documento que delineia a estratégia da educação até 2035 descreve os alunos sobredotados como crianças com necessidades educativas especiais e defende a necessidade de seguir uma abordagem integrada na sua educação. Importa reconhecer que os alunos de topo são as mentes brilhantes do nosso futuro. A sociedade tem muito a ganhar se os identificar e os ajudar a desenvolver o seu potencial máximo.

Se as crianças sobredotadas são vistas como crianças com necessidades educativas especiais, o que é que está a ser feito na prática para as ajudar?

Desde 2016 que uma organização sem fins lucrativos chamada Centro de Talento da Estónia promove ativamente diferentes formações, palestras e conferências sobre este assunto. Pais de crianças sobredotadas, professores e psicólogos são convidados a integrar uma rede que se preocupa com o desenvolvimento destes jovens e que compreende que o seu talento é muito valioso para a sociedade. Este centro é gerido por professores da Universidade de Tartu, umas das mais antigas e mais prestigiadas universidades do país. A própria universidade contribui para estimular estes jovens de mentes inquietas e brilhantes, oferecendo aulas sobre diferentes disciplinas a alunos que queiram aprender mais e ter contacto com outras realidades, além das que a sua escola oferece. Estas aulas são oferecidas pela Escola de Ciências de Tartu, que tem como objetivo desafiar os alunos de acordo com aquilo que eles mais precisam. Também há programas e diretrizes de aprendizagem que podem ser seguidos à escala nacional: o centro disponibiliza conteúdos online sobre diversos temas e ainda organiza academias de ciência durante as férias escolares.

Como se identificam desde cedo os alunos com maior potencial no sistema escolar?

Quando as crianças iniciam o seu percurso escolar, aos sete anos, há cerca de 24 crianças em cada sala de aula. Todas estas crianças têm conhecimentos, interesses e percursos diferentes. Pede-se à professora (na Estónia esta é por norma uma ocupação das mulheres) que tenha em conta as necessidades de cada criança. Na maioria das vezes, a professora irá dar mais atenção aos alunos com dificuldades, deixando os mais capazes trabalhar de forma autónoma.

Algumas escolas iniciam a busca pelo talento nos primeiros anos da escolaridade básica. Uma escola em Tartu lançou um programa conhecido por «programa de enriquecimento», que começou a procurar crianças com aptidão especial para a matemática no terceiro ano. No lançamento, selecionaram 17 alunos de um total de 110 e formaram um «clube de Matemática» de participação voluntária, com aulas semanais que duravam 90 minutos e seguiam um programa especial criado para estas crianças. Estes alunos dedicaram-se à resolução de problemas, à geometria, à robótica, à criação de modelos matemáticos, à programação e a outras tarefas. No fim do programa, tinham de escolher um tema para apresentar um trabalho final. Isto podia ser feito individualmente ou em grupo. O programa foi muito bem recebido: as crianças fizeram amigos com interesses semelhantes, gostaram dos desafios e sentiram-se motivadas.

Há muitas outras iniciativas, tais como clubes de diferentes disciplinas ou feiras de ciências. Algumas escolas apostam em alunos mais velhos, mas todas são unânimes: dar aos alunos oportunidade para explorar os seus interesses faz crescer a sua motivação e interesse pelo estudo.

Para conseguirmos implementar a nossa estratégia nacional de desenvolvimento de crianças sobredotadas, há vários aspetos que temos de assegurar: um programa curricular robusto que garanta flexibilidade às escolas e às suas prioridades, um orçamento adequado, professores motivados e competentes que sejam especialistas nas disciplinas que lecionam e apoio dos pais.

Outra tradição que faz parte do sistema educativo da Estónia são os concursos nacionais de escolas, ou Olimpíadas, que existem desde 1953. Os alunos que participam nestas Olimpíadas investem muito no estudo das suas disciplinas favoritas. Caso sejam apurados na sua escola, entram no campeonato regional e depois nacional, cujos vencedores participarão nas competições científicas internacionais. Elizaveta é uma estudante de Narva que participou nas Olimpíadas Internacionais de Ciência Climática em 2022 e conseguiu obter uma medalha de bronze entre 55 000 participantes. Os seus desafios foram encontrar soluções para a energia nuclear da Dinamarca e a escassez alimentar na Zâmbia e em Angola. Recebeu-os com muito entusiamo, mas afirmou que a sua parte preferida do evento foi a possibilidade de conhecer pessoas que também estão interessadas nas alterações climáticas. Em 2022, alunos oriundos da Estónia participaram em cerca de vinte Olimpíadas internacionais. Tal como no exemplo anterior, estes jovens referiram que a sua participação nestes concursos é uma forma muito motivadora de alargar o seu conhecimento e de conhecer outros participantes com os mesmos interesses.

Outros eventos de âmbito nacional para crianças com talento são os saraus e concursos de música, de dança e desportivos. Mais recentemente, tornaram-se também mais comuns e populares os concursos onde alunos de escolas profissionais mostram o seu talento nas profissões que adquiriram.

Em suma, os alunos sobredotados são um dom precioso em qualquer escola. São alunos especiais, que precisam de orientação, apoio e incentivo. «Eu não tenho nenhum talento especial. Sou apenas apaixonadamente curioso», disse uma vez Albert Einstein. O nosso papel enquanto educadores é preservar e nutrir a curiosidade do maior número de mentes curiosas possível.

Gunda Tire

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Teddy tinha 2 anos quando aprendeu a ler. Já pertence a uma sociedade de alto QI

Não é toda a gente que se pode orgulhar de saber contar até 100 em seis línguas, mas o feito torna-se ainda mais admirável quando se fala de uma criança de 4 anos.

Teddy Hobbs aprendeu a ler sozinho com 2 anos, durante a pandemia, e, recentemente, tornou-se o membro mais novo da sociedade Mensa, formada pelas pessoas com maior quociente de inteligência (QI) do mundo.

Depois do confinamento, quando Teddy Hobbs voltou à creche, a educadora ficou chocada ao perceber que o menino sabia ler. A mãe, Beth Hobbs, conta numa entrevista à Radio 4 da BBC que não sabia o quão inteligente era a criança e desconhecia se seria normal um menino daquela idade saber ler — Teddy é o seu primeiro filho com o marido Will.

“Lembro-me de o levar à escola um dia e dizer que achava que ele tinha aprendido a ler sozinho. A princípio, não acreditaram em mim”, recorda a mãe de Portishead, no Sudoeste de Inglaterra. A criança tinha então 26 meses.

Em Setembro de 2022, depois de Teddy saber contar até 100 em várias línguas e até ser capaz de ler livros como os de Harry Potter, levaram-no a fazer um teste de QI, antecipando a entrada para o pré-escolar. “Dissemos-lhe que se sentaria a fazer alguns puzzles com uma senhora durante uma hora. Ele achou que foi a melhor coisa do mundo”, recorda a mãe ao Metro.

A surpresa chegou com o resultado do teste. Com apenas 3 anos, Teddy tinha somado 139 pontos, quando a a maioria das pessoas pontua entre os 85 e os 115​. Para estabelecer comparação: o físico Isaac Newton, responsável pela teoria da gravidade, tinha um QI entre 190 e 200. Já Albert Einstein somava um quociente de 160, tal como Stephen Hawking.

Foi então que Beth e Will Hobbs souberam que o filho se podia juntar ao sector infantil da conceituada sociedade de inteligência Mensa. “Ficámos um bocadinho ‘como assim?’. Sabíamos que ele conseguia fazer coisas que os colegas não conseguiam, mas não tínhamos percebido o quão inteligente era”, recorda a mãe.

Apesar do choque inicial, os pais decidiram inscrever o menino com três e nove meses — tornando-se o membro mais jovem da sociedade internacional. No site da Mensa, explica-se que o teste de QI consiste na resolução de 35 problemas num tempo limite de 25 minutos.

Um génio em formação

Beth Hobbs confessa ainda não compreender como é que o menino atingiu este nível de inteligência em tão tenra idade, já que nem ela nem o marido são “linguistas”, nem particularmente inteligentes, conta, com humor. “Brincamos sempre a dizer que o médico que colocou o embrião deve tê-lo picado com uma agulha para ele ser assim”, elabora, lembrando que Teddy nasceu com recurso a fertilização in vitro.

Ser quase um génio aos 4 anos não é um mar de rosas, explica a mãe. Por exemplo, Teddy não tem qualquer interesse nos desenhos animados adequados à sua idade, nem na maioria dos jogos que os pais lhe instalam no tablet, oferecido recentemente, quando a irmã nasceu. Em vez de jogos, “prefere usar aplicações para tentar aprender a contar até 100 noutras línguas” — sabe fazê-lo em inglês, alemão, espanhol, francês, galês e mandarim.

A memória do menino também é de impressionar, relata Beth: “Não conseguimos esconder-lhe nada, ouve tudo. Lembra-se de conversas que tivemos com ele no Natal do ano passado.”

E não vale a pena soletrar uma palavra na esperança de o menino não a compreender: “As minhas amigas dizem ‘vamos comer b-o-l-o?’ e os filhos delas não sabem o que estamos a dizer, mas o Teddy vai responder imediatamente que também quer.”

Para entreter o menino, os pais tiveram, então, de ser criativos. “A ideia dele de diversão é sentar-se a recitar a tabuada”, exemplifica. Para prevenir que o filho desenvolva um “complexo de superioridade”, Beth diz tentar mantê-lo “humilde”. Até agora, celebra, Teddy ainda não percebeu o quão dotado é, quando comparado com os colegas de escola. “Os amigos sabem ler algumas letras do alfabeto, enquanto ele já conseguiria ler um Harry Potter.”

Tal não significa que Teddy leia as aventuras do feiticeiro criado por J.K. Rowling: “Escolhemos livros emocionalmente apropriados, mas ele está numa fase em que consegue ler qualquer coisa que lhe colocamos à frente”. Resta saber qual será o futuro do menino-prodígio.

Fonte: Público