sexta-feira, 21 de agosto de 2026

As 7 melhores apps grátis para estudar em 2026

Seja para estruturar apontamentos, memorizar conteúdos ou manter a disciplina no dia a dia, a tecnologia certa pode transformar o teu rendimento académico. Como é evidente, nenhuma aplicação faz o trabalho de fundo por ti, mas estas ferramentas funcionam como excelentes aliadas para simplificar o processo, gerir o tempo e eliminar distrações.

Para te ajudar neste ano letivo, selecionámos as 7 melhores apps para estudar em 2026 que deves experimentar. Vê abaixo as melhores opções para gestão de notas, foco, flashcards e organização da rotina.

Caso procures mais automação e um apoio mais inteligente, consulta também o nosso guia com as melhores ferramentas de IA para estudar.
1. Quizlet


O Quizlet é conhecido por transformar o estudo numa experiência mais divertida e envolvente. A ideia é simples: criar flashcards com termos, definições e conceitos para memorizar de forma rápida e prática.

Podes desenvolver os teus próprios cartões ou explorar uma biblioteca com mais de 500 milhões de listas criadas por estudantes e professores. Ainda é possível transformar os cartões em jogos interativos ou testes de sala de aula e utilizar o modo Aprender com repetição espaçada e correção inteligente.

2. Khan Academy


A Khan Academy é um projeto sem fins lucrativos que oferece milhares de vídeos, exercícios e artigos de forma totalmente gratuita. Pode ser acedida no computador, tablet ou smartphone, estando disponível em português, inglês e várias outras línguas.

A plataforma permite que estudes ao teu próprio ritmo ou que acompanhes o que estás a aprender na escola. Podes realizar exercícios e testes com respostas imediatas, além de receber dicas passo a passo sempre que precisares. A tecnologia reconhece os conhecimentos que já adquiriste e sugere conteúdos para reforçar o que ainda não está consolidado.

3. Habitica


Se cumprir tarefas parece monótono, o Habitica pode ser a solução. Com uma interface gamificada, cada utilizador cria um avatar que ganha moedas e experiência à medida que conclui atividades, e pode gastar essas recompensas em acessórios virtuais.

A aplicação divide-se em três áreas: hábitos, tarefas diárias e lista de pendentes. É possível definir prazos, mas há um desafio: se não cumprires, o teu avatar perde experiência ou até morre. O Habitica está disponível gratuitamente e tem também um plano para equipas por 9 € por mês.

4. Todoist


O Todoist é uma das apps mais conhecidas para gestão de tarefas. Com uma interface simples e intuitiva, permite criar atividades, definir prazos, prioridades e até subtarefas para projetos mais complexos.

Entre as suas funcionalidades estão notificações inteligentes, integração com Google Calendar e Dropbox, e diferentes modos de visualização como lista, calendário ou painel.

5. Notion


O Notion segue um caminho diferente: é uma plataforma versátil e totalmente personalizável que combina notas, calendários, lembretes e bases de dados. É perfeito para quem gosta de estruturar a informação à sua maneira e centralizar tudo num só espaço.

A aplicação é gratuita e conta com uma comunidade muito ativa que partilha templates para diversos usos. Entre eles, há calendários de estudo, planners de tarefas e até sistemas completos para organização de projetos académicos.

6. Forest


O Forest leva o conceito de concentração para outro nível, transformando-o num jogo. Quanto mais tempo passares focado e longe do smartphone, maior será a tua árvore virtual. Ao longo do tempo, vais construindo uma floresta que funciona como motivação visual para continuares sem distrações.

O sucesso da app fala por si: foi eleita Melhor Aplicação do Ano no Google Play em 2015 e 2016, conta com mais de 6 milhões de utilizadores pagantes e já plantou mais de 1 milhão de árvores reais graças aos utilizadores.

7. Focus@Will


Para quem precisa de um fundo musical que ajude a entrar no ritmo de estudo, o Focus@Will oferece playlists cientificamente otimizadas para aumentar a concentração.

A plataforma permite personalizar o som para o teu perfil cognitivo, escolhendo canal, imagens de fundo, som inicial e até a duração da sessão.

O catálogo é exclusivo, as faixas foram editadas para remover elementos que possam distrair, e há um teste gratuito de 7 dias para experimentar todos os recursos.

Fonte: 4gnews por indicação de Livresco

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Mais ecrã, melhor raciocínio? Estudo de oito anos desafia dogma digital na adolescência

Investigadores finlandeses acompanharam, ao longo de oito anos, centenas de jovens dos 8 aos 16 anos e concluíram que o tempo passado em frente aos ecrãs está associado a um melhor processamento cognitivo, foi divulgado esta segunda-feira, 17 de agosto, no site da revista Science Daily . O segredo, garantem, não está nas horas gastas, mas naquilo que se faz com elas.

Numa altura em que o discurso público e as diretrizes de saúde tendem a encarar os dispositivos digitais como os principais vilões do desenvolvimento infantil, o estudo da Universidade de Jyväskylä e da Universidade da Finlândia Oriental, acaba de introduzir uma nuance científica de peso.

Ao acompanhar 260 crianças (124 raparigas e 136 rapazes) desde o início da escolaridade até à adolescência (cerca dos 15,8 anos), a equipa de investigadores descobriu que os jovens que acumularam maior tempo de ecrã desde a infância demonstraram, em média, um melhor processamento cognitivo na adolescência.

Os resultados, integrados no consagrado estudo longitudinal PANIC (Physical Activity and Nutrition in Children) e publicados na revista científica Pediatric Exercise Science, contrariam a ideia generalizada de que o consumo de tecnologia é inerentemente prejudicial ao cérebro em crescimento.

A qualidade da atividade supera a quantidade de horas

Para avaliar o impacto real dos hábitos digitais e motores, os investigadores cruzaram questionários detalhados com sensores combinados de frequência cardíaca e movimento, medindo o desempenho mental através da bateria de testes neuropsicológicos CogState (que avalia parâmetros como atenção, memória de trabalho e capacidade de aprendizagem).

A explicação para a vantagem cognitiva observada reside no tipo de envolvimento que os ecrãs proporcionam. Quando os dispositivos são utilizados para pesquisa, jogos estratégicos, criação de conteúdos, resolução de problemas ou comunicação ativa, o cérebro é desafiado e estimulado de forma contínua.

"Os resultados sugerem que o tempo de ecrã pode apoiar o processamento cognitivo de crianças e adolescentes. Presumivelmente, o ponto essencial prende-se com o tipo de atividades que realizam durante esse tempo. Pais e professores devem incentivar o uso de dispositivos de formas que promovam o pensamento ativo, a resolução de problemas, a criatividade e a aprendizagem", sublinha Petri Jalanko, investigador doutorando na Universidade de Jyväskylä e autor principal do estudo.

Jalanko sintetiza a mensagem central: o objetivo não deve ser a demonização ou a restrição cega, mas sim a procura de um equilíbrio saudável entre o movimento físico e o uso digital estimulante.

O enigma do exercício físico: raparigas e rapazes respondem de forma diferente

O estudo debruçou-se igualmente sobre os efeitos da atividade física e do sedentarismo, revelando padrões surpreendentes e diferenciados consoante o género. No caso das raparigas, uma maior acumulação de atividade física de intensidade ligeira desde a infância revelou-se benéfica para a memória de trabalho na adolescência. Já entre os rapazes, foi a prática regular de atividade física orientada e supervisionada – como modalidades desportivas com treinador – que demonstrou uma associação positiva com essa mesma capacidade cognitiva.

Por outro lado, a análise ao exercício físico não-supervisionado revelou um padrão inesperado: níveis mais baixos de exercício livre autorreportado surgiram associados a um melhor processamento cognitivo.

Curiosamente, as medições brutas de movimento e sedentarismo obtidas pelos sensores corporais não demonstraram correlação direta com a cognição. Este dado reforça a tese dos cientistas: o impacto neurológico depende do conteúdo da atividade – tanto mental, como física – e não apenas do gasto calórico ou da postura corporal.

Associação não é causalidade: o apelo ao bom senso

Apesar da relevância dos dados recolhidos ao longo de quase uma década de acompanhamento, os autores sublinham que se trata de um estudo observacional que identifica associações estatísticas, e não uma relação de causalidade direta.

Fatores paralelos – como o contexto socioeconómico, a curiosidade intelectual inata da criança ou o acompanhamento familiar – podem influenciar tanto a preferência por atividades digitais complexas, como o bom desempenho nos testes de raciocínio.

O estudo finlandês deixa, ainda assim, um contributo decisivo para o debate educativo contemporâneo: substituir o pânico moral em torno dos ecrãs por uma literacia digital exigente e ativa é o caminho mais eficaz para preparar os jovens para o futuro.

Fonte: Sapo por indicação de Livresco

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Educação Inclusiva: o que precisamos saber para intervir

Há muitos anos que sabemos que os diagnósticos são pouco relevantes do ponto de vista educacional e têm, frequentemente, mais efeitos adversos do que efeitos positivos.

Como é sabido, Portugal dispõe desde 2018 (Decreto-Lei n.º 54/2018) de legislação que estabelece as bases conceptuais e organizacionais para tornar as escolas em estruturas inclusivas. No preâmbulo deste diploma escreve-se “afasta-se a conceção de que é necessário categorizar para intervir.” A este afastamento da necessidade de categorização é proposta uma alternativa: “(…) Esta abordagem baseia-se em modelos curriculares flexíveis, no acompanhamento e monitorização sistemática da eficácia do contínuo das intervenções implementadas, no diálogo dos docentes com os pais ou encarregados de educação e na opção por medidas de apoio à aprendizagem, organizadas em diferentes níveis de intervenção (…)”.

Acaba de ser aprovado, em Conselho de Ministros, o texto da revisão do Decreto-Lei n.º 54/2018, que reafirma esta abordagem: “Ao afastar uma lógica centrada na categorização dos alunos e ao afirmar uma abordagem assente no Desenho Universal para a Aprendizagem, na abordagem multinível e na identificação de barreiras à aprendizagem e à participação, o diploma contribuiu para consolidar uma cultura escolar mais inclusiva”.

No entanto, uma investigação internacional publicada em 2025 (1) confirma que continuam a existir imprecisões sobre os termos inclusão, necessidades educativas especiais e deficiência, e que estas imprecisões originam tensões em torno dos conceitos de categorização e de acesso a apoio.

Apesar da (louvável, na minha opinião) consistência do pensamento legislativo português, permanecem, a nível internacional, questões sobre a necessidade e o âmbito da categorização dos alunos como critério prévio para delinear estratégias de apoio. O assunto é muito vasto, mas, mesmo assim, gostaria de contribuir para a reflexão com três pontos.

O primeiro é, obviamente, para concordar que, para existir um apoio competente aos alunos, é essencial conhecê-los bem. Acho que podemos encontrar unanimidade sobre este aspeto: a ignorância gera más práticas e precisamos de ir o mais longe possível no conhecimento do aluno — como se comporta, quais são os seus gostos e dificuldades, como aprende melhor, como se relaciona com o seu envolvimento, etc.. Obviamente, um diagnóstico sobre uma eventual deficiência ou condição pode ser um fator adicional de utilidade a considerar, mas reduzir este conhecimento do aluno a um diagnóstico psicológico ou médico constitui um enorme risco. Seria como avaliar a qualidade de um vinho lendo o rótulo.

Há muitos anos que sabemos que os diagnósticos são pouco relevantes do ponto de vista educacional e têm, frequentemente, mais efeitos adversos do que efeitos positivos. Um ponto interessante é que os diagnósticos dizem, por vezes, mais sobre quem os faz do que sobre quem os recebe: se pedirmos a três profissionais diferentes um diagnóstico sobre um mesmo caso, eles serão certamente diferentes, porque o olhar e a cultura de quem o faz estão indelevelmente presentes no veredicto.

Em segundo lugar, o que nos poderá aproximar mais e melhor de uma caracterização do aluno é uma multiplicidade de olhares prolongados no tempo. É através de uma equipa (que, na nossa legislação, se chama Equipa Multidisciplinar de Apoio à Educação Inclusiva) e de uma caracterização evolutiva que poderemos chegar mais perto de compreender as potencialidades e dificuldades de cada caso. Cabe dizer que a importância do olhar educativo (aprendizagem e participação) é central para esta caracterização. Todos os contributos devem convergir para a Educação, porque a escola não é uma clínica.

Por fim, esta caracterização do aluno deve contribuir para conhecer a sua diversidade. A inclusão não procura considerar ou tornar os alunos iguais (na verdade atua de forma oposta a esta): procura, sim, aquilo que é específico e comum em cada um de nós.

É difícil, sem dúvida: a nossa dificuldade em aceitar a diversidade manifesta-se até na forma como agrupamos (para tornar menos diferentes) pessoas que são muito diferentes entre si. Falamos dos deficientes, dos italianos, das crianças, dos ciganos, dos filósofos, dos portuenses, da turma F, como se fossem “mais ou menos” a mesma coisa.

A categorização pode constituir uma redução da diversidade e uma dificuldade acrescida para pesquisar e encontrar o que é comum e específico de cada um.

Em síntese: Portugal está no caminho certo ao valorizar uma caracterização evolutiva no tempo e diversificada na constituição da equipa, e ao recusar a categorização como base para a intervenção. Claro que temos dificuldades: muitas vezes encontramos pouca competência para avaliar, ausência de opiniões que considerávamos essenciais e até falta de recursos para nos ajudar a tornar mais complexa a recolha de informação. Mas o caminho não é reduzir a complexidade, aceitando como definitivos diagnósticos e resultados de testes; o caminho é continuar a ser exigentes, mantendo um olhar atento e multidisciplinar.

O caminho da não categorização que a Educação Inclusiva adota é, certamente, o mais indicado para recusarmos o “rolo compressor” da igualdade, para procurarmos e encontrarmos a diversidade e para tratarmos todos os seres humanos com a dignidade que lhes é devida.

(1) Beck, K., Katzelbach, D., Urban, M. (2025). Diagnosis, Assessment and Measurement in Relation to Inclusive Education. A systematic review of international research. EJIE, 4(3), 72–91.

David Rodrigues

Fonte: Público por indicação de Livresco

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A saúde (mental) que nos falta

O que nasceu primeiro? O ovo ou a galinha? A depressão ou a vida? Desde que me conheço que sou sensível. Amo demais. Entrego demais. Vivo demais. Sinto demais. Já em pequena tinha a ilusão de que seria capaz de resolver os problemas dos adultos que me rodeavam. Estava sempre em alerta máximo. Lembro-me de acordar com uma sensação estranha de culpa sem saber porquê. Terá a depressão nascido primeiro? Se eu não fosse assim teria desenvolvido depressões? Uma atrás da outra. Ou será que sou assim porque nasci com a depressão nos genes?

De fora ninguém diria. Quem pensaria que eu vivo com esta doença desde os 19 anos? Tenho 46. Sou alegre e tenho sentido de humor. Não sou introvertida. Sou comunicadora (aliás, fiz disso profissão). No trabalho, sou competente, organizada, focada. Miúda criada num bairro de pescadores, alcancei mais do que qualquer colega da primária. Pois é, ninguém diria…

Àquela sensação estranha de quando era criança, juntou-se, na adolescência, a ansiedade. O que acontecesse novo, bom ou mau, causava-me um mal-estar profundo. Imaginem a culpa que se sente quando algo de bom acontece e apenas conseguimos pensar no nosso estômago.

“Serei capaz de comer com este nó na garganta? Já emagreci oito quilos. Os meus pais já não sabem o que fazer para que eu coma. Os meus amigos começam a notar. Por vezes, tenho de interromper uma conversa e correr para a casa de banho para vomitar, tal a ansiedade que sinto. Já aconteceu ter de engolir o vómito. Já aconteceu ter de comer o vómito. Só para que ninguém perceba que aquele prato à minha frente é uma ameaça. Simplesmente por que não o consigo ingerir. Conto a quantidade de comida necessária para que eu possa sobreviver. Meia maçã, dará?”

Houve dias em que isso foi tudo o que consegui suster no estômago. Durante um ano, acordei com vómitos sem sequer ter comido. Não queria emagrecer. Pelo contrário, sentia complexos por ser tão magra e frágil. Era, simplesmente, a reação do meu corpo à ansiedade.

A primeira depressão aconteceu no segundo ano de universidade. Em plena época de frequências. Voltou a ansiedade por razão tão pequena que nem vale a pena mencionar. E eu colapsei. Não dormia. Não comia. Nem sei como consegui passar de ano, mas passei e até com média acima de 14. O custo foi um sofrimento inexprimível. Lembro-me de me sentar no chão da cozinha com a cabeça entre as mãos e dizer à minha família que estava a enlouquecer. Primeira consulta de psiquiatria. Medicação para recuperar e voltar a ser eu.

Nunca se falou tanto de saúde mental como agora, é verdade. Mas foi por isso que o estigma deixou de existir? Não. Ele existe na nossa própria cabeça. Na cabeça de quem sofre de depressão. Serei normal? A vergonha fez-me deixar a medicação talvez cedo demais. Os meus pais não tinham meios financeiros para suportar psicoterapia. E, portanto, passado nem um ano, recaí. Com estrondo. Numa tarde, deixei a minha sobrinha bebé entregue a si mesma e fui deitar-me sem querer saber o que lhe acontecia.

Recaí muitas vezes. Desde 2009 que nem consigo completar um desmame. Reduzo a medicação e recaio. Depois do aviso de um psiquiatra de que poderia desenvolver resistência à terapia com medicamentos, desisti dos desmames, que, não obstante serem por minha vontade, foram sempre supervisionados clinicamente.

Nunca me permiti a parar, levei sempre uma vida o mais normal possível, o que confundia os médicos. Como é que alguém que tem de tomar doses em quantidade suficiente para tratar uma depressão major consegue ter uma vida relativamente normal? Eu digo-vos: por vergonha de aceitar que tenho uma doença mental.

Atenção: não tenho uma vida desgraçada. Considero-me bastante feliz até. Mas tenho episódios depressivos que acarretam uma dose de sofrimento brutal. Daquele que entorpece. Que ocupa o corpo todo e me deixa sem espaço para existir.

Ao longo dos anos, os meus sintomas foram mudando. É como se quando o organismo arranja uma maneira de sobreviver a um sintoma, apareça outro para o substituir. Desde os 41 anos, talvez pela proximidade da menopausa, que não sei o que é ser eu. Doses cada vez mais elevadas. Psicoterapia de todas as maneiras e feitios. Terapias pseudonaturais. Terapia novas, como perfuração com ketamina. Como eu costumo dizer: só não fui à bruxa. Melhorava uns tempos e voltava a recair. Sentia que os médicos desistiam. Eu já não era um desafio clínico, era uma cruz.

A minha mãe é, na minha opinião, uma doente depressiva não diagnosticada. Identifico muitas vezes nela o assoberbamento que eu também sinto quando estou sob pressão. Os filhos, por mais amados que fossem, julgo que foram, eram para ela difíceis de gerir. Sobretudo eu, que era irrequieta. Isso ficou-me marcado e nunca quis passar esse peso para uma criança. Quando chegou a hora de pensar em ter filhos, o meu marido preferia não ter. Inicialmente, foi um problema. Chegámos a separar-nos por um tempo. Mas, honestamente, foi-se tornando um alívio. Não sei que mãe seria. Sinto-me quase sempre tão sem tempo para mim. Imagine-se se tivesse alguém que dependesse da minha disponibilidade (sobretudo, mental). Clinicamente, e quando coloquei a questão de uma possível gravidez ao psiquiatra que me seguia, não seria aconselhável. Nunca vou saber o que é o amor de um filho. Por vezes, penso que não deixarei nada ao mundo quando me for. Mas não faz mal. No fundo, sou só uma poeirazinha neste universo imenso. Que interessa se deixo uma prova da minha passagem ou não?

Em junho, cheguei ao fundo do poço. Não foi a primeira vez. Talvez não seja a última. Desesperei, apelei para todos os médicos possíveis. Pedi a Deus e aos meus anjos da guarda que não me abandonassem. Cheguei a pensar que, se era para viver assim, não queria continuar. Queria ser internada. Eu faria qualquer coisa para sair de onde eu estava. Sentei-me em frente ao meu neurologista com uma crise de choro incontrolável. Foi então que ele me disse: “Marlene, se fosses minha familiar, eu não brincaria e sugeria que fizesses eletroconvulsoterapia.” “Eletroconvulsoterapia”. Só o nome do tratamento assusta. Como não ficarmos assustados com o procedimento?

Problema nº 1: seria muito difícil conseguir fazer o tratamento num hospital público. Em desespero de causa, a minha médica de família chegou a mandar-me para a urgência de psiquiatria do Hospital de São João, no Porto, na esperança de que fizessem algo por mim. Levei uma carta dela, trouxe-lhe outra de volta. Não ia acontecer.

Pesquisei – valha-me o vício profissional. Perguntei. E estou desde o início de julho a fazer ECT (a sigla é menos violenta) duas vezes por semana, num hospital privado, com um plano de pagamentos a um ano. Já fiz oito sessões. Faltam-me quatro e as manutenções.

E estou melhor. Muito melhor. Por quanto tempo? É o que me assusta. Ao mínimo sinal de ansiedade ou um dia mais triste, temo logo uma recaída. A depressão tornou-se um trauma.

Este artigo serve para alertar que não basta dizer que a saúde mental é o parente pobre do SNS. Temos de fazer alguma coisa. Eu tive o azar de ter uma depressão refratária. Mas sabem que mais? No grupo com quem faço ECT, há miúdas muito mais novas do que eu. E esta é a última esperança. Aquela a que se recorre quando tudo falha. Não basta falarmos mais de saúde mental, temos de exigir melhores cuidados médicos. Nunca, em tantos anos (não quero contabilizar quantos) pude contar com o SNS. E, como eu disse, eu venho de um bairro. Os meus pais não fizeram mais por mim porque não podiam. E, eu, como a maioria das pessoas que vive do seu salário em Portugal, também não tenho recursos inesgotáveis.

Vamos continuar a aceitar que a saúde mental nos falte? Sobretudo quando as estatísticas demonstram que ela falta cada vez mais cedo, a cada vez mais jovens?

Marlene Silva

Fonte: Observador

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O seu filho não quer voltar à escola. E agora?

Está quase na altura de o seu filho regressar à escola - mas e se ele não quiser? Se for esse o caso, pode ajudar saber que esta situação é mais comum do que imagina.

“Falo todos os dias com profissionais da educação e todos me dizem que este é um problema crescente”, afirma Jayne Demsky, fundadora e CEO da School Avoidance Alliance, uma organização sediada em Mahwah, Nova Jérsia, que ajuda famílias e escolas a lidar com este desafio. Demsky explica também que está a ver mais pais do que nunca a juntarem-se aos seus grupos de apoio online.

Também tenho ouvido falar deste problema com maior frequência nas minhas conversas com pais, educadores e alunos de todo o país sobre a forma de gerir o tempo que as crianças passam em frente aos ecrãs.

Não me surpreende que isto esteja a acontecer.

Durante o verão, as crianças passam mais tempo em frente aos ecrãs. Muitas aplicações foram concebidas para criar dependência. São extremamente estimulantes e bombardeiam as crianças com constantes descargas de dopamina sob a forma de “gostos” ou pontos em videojogos, normalmente em troca de muito pouco esforço. Não admira que seja tão difícil para os jovens acordarem cedo, vestirem-se e permanecerem atentos nas salas de aula, onde se espera que façam tarefas exigentes sem um fluxo constante de entretenimento ou recompensas.

Além disso, muitas escolas não estão a fazer o suficiente para apoiar o bem-estar dos alunos. Os pais queixam-se frequentemente de que os seus filhos passam demasiado tempo sentados na escola, apesar de os seres humanos precisarem de se movimentar ao longo do dia para serem saudáveis. Na escola, as crianças passam muitas vezes pouco tempo ao ar livre - outra necessidade essencial para a nossa saúde.

Muitas escolas também não dedicam tempo suficiente às brincadeiras, apesar de essa ser uma das principais formas de aprendizagem das crianças em idade do ensino básico. Para além disso, muitas escolas fazem com que os alunos passem muito tempo em frente aos ecrãs, embora olhar para eles durante longos períodos possa ser stressante e desgastante.

Muitas crianças percebem que esta situação não é a ideal. Na verdade, as crianças que evitam a escola são, muitas vezes, muito inteligentes, segundo Demsky.

O que deve fazer se o seu filho não quiser voltar à escola?

Gerir o tempo de ecrã em casa

Se um jovem passa grande parte do dia num dispositivo digital durante o verão, abdicar dele logo no primeiro dia de aulas será um enorme desafio. Em vez disso, comece a reduzir gradualmente o tempo de utilização dos ecrãs antes do regresso às aulas, oferecendo-lhe outras atividades divertidas e estabelecendo limites razoáveis.

Certifique-se também de que o seu filho se deita a uma hora adequada para preparar o organismo para voltar a acordar cedo para a escola e não permita que durma no mesmo quarto que o telemóvel.

As crianças que evitam a escola costumam ficar acordadas até tarde para depois dormirem durante o dia e escaparem ao sentimento de culpa por não irem à escola, explica Demsky. “A maioria das crianças não o faz de propósito”, afirma. “Acontece naturalmente.”

Eliminar a distração do telemóvel pode tornar muito mais fácil adormecer.

Ajude as crianças a criar laços fortes com os amigos e com os adultos da escola

“O envolvimento com os colegas, os professores e qualquer pessoa que trabalhe na escola é um dos fatores de proteção que ajudam as crianças a permanecer na escola”, afirma Demsky.

As crianças que não têm ligações com adultos na escola muitas vezes não são perturbadoras e, por isso, passam despercebidas, acrescenta.

Se acha que o seu filho pode estar a passar por esta situação, peça ao professor e ao psicólogo ou orientador escolar que se reúnam individualmente com ele para o conhecerem melhor.

Certifique-se também de que o seu filho participa em atividades extracurriculares e tem tempo livre não estruturado para estar com os amigos, pois ambos os aspetos fortalecem as relações com os colegas.

Como ajudá-los a manter essas ligações sem um smartphone? Experimente um telefone fixo, um smartwatch ou um chamado telemóvel básico, que permita fazer chamadas e enviar mensagens, mas não navegar na internet nem utilizar aplicações.

Não grite com o seu filho

Se o seu filho não quiser sair da cama de manhã para ir para a escola, “não grite com ele”, aconselha Demsky.

Algumas pessoas sugerem pôr música alta para o acordar. “Não”, responde Demsky. “Queremos que a criança saiba que compreendemos. Percebemos que isto é algo que ela não consegue controlar.”

Diga-lhe que está do lado dele e tente reforçar a sua confiança com frases como: “Vejo que estás ansioso neste momento. Compreendo. Sei que é difícil, mas também sei que tens capacidade para lidar com este sentimento e que vais conseguir ultrapassá-lo.”

Além disso, quando a escola começa a enviar avisos devido às faltas acumuladas, pressionar a criança apenas aumentará o seu stress. Em vez disso, marque uma reunião com os responsáveis da escola para explicar o problema e procurar soluções em conjunto.

“Como pai ou mãe, não pode deixar que o seu filho veja a sua ansiedade”, afirma Demsky. “Tem de transmitir calma.”

Procure apoio para o seu filho

Se o seu filho está a evitar a escola, procure ajuda de um profissional de saúde mental para perceber se sofre de depressão ou ansiedade, aconselha Demsky.

Outra possibilidade é que necessite de adaptações devido a uma dificuldade de aprendizagem. Se acha que pode ser esse o caso, apresente um pedido por escrito à escola para que seja avaliado, explicando as suas razões, recomenda.

Contacte também o psicólogo ou orientador escolar, que poderá prestar apoio.

Se o seu filho partilhar razões concretas para estar infeliz na escola, fale com o professor ou com o diretor para solicitar alterações. Pode também defender uma redução do tempo de utilização de ecrãs no seu agrupamento ou distrito escolar, algo que muito provavelmente melhorará a experiência das crianças na escola.

Muitas crianças não ficam entusiasmadas com o regresso às aulas. Para as fazer querer voltar, talvez seja necessário recuperar métodos mais tradicionais, como lápis, papel e brincadeiras. Entretanto, procure ouvir as suas preocupações, levá-las a sério e fazer tudo o que estiver ao seu alcance para as apoiar.

Fonte: CNN Portugal por indicação de Livresco

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O desenvolvimento desportivo do praticante de Boccia com limitações funcionais. Uma Proposta de Modelo.

Partilho o acesso ao artigo "O desenvolvimento desportivo do praticante de Boccia com limitações funcionais. Uma Proposta de Modelo.", da autorida de Ricardo Chumbinho e publicado na revista Mediações –Revista OnLine da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal.

Resumo:

O desporto é uma potente ferramenta de promoção do desenvolvimento pessoal. A afirmação ganha ainda maior relevância quando aplicada a segmentos especiais da população, como é o caso dos indivíduos com deficiência, particularmente os jovens. No sistema educativo português, em que o paradigma de inclusão passa por ter na escola, todos os jovens em idade escolar, os contextos tendem a ser muito heterogéneos e desafiantes. Contudo, limitações funcionais e prognósticos nelas baseados, não devem constituir limitação à ambição e desenvolvimento. Sublinham-se os méritos da competição, da vitória e da derrota, como valores nucleares neste processo, no qual o foco deve ser colocado muito mais nas aspirações e nas capacidades, do que nas limitações. Um modelo de desenvolvimento holístico, assente nestes pressupostos e ajustado a cada contexto específico, tende a mostrar-se de sucesso.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Faltam vagas para alunos com necessidades específicas

Alunos com necessidades específicas estão sem resposta adequada no sistema educativo português por falta de vagas, segundo o Movimento Cidadão Diferente, que escreveu ao Ministério da Educação a pedir soluções para vários casos denunciados por famílias afetadas.

A situação não é nova e já no ano passado o Movimento Cidadão Diferente (MCD) tinha denunciado a exclusão continuada de muitos alunos com necessidades educativas específicas.

A cerca de um mês do arranque do ano letivo 2026/2027, o movimento volta a alertar para as dificuldades de dezenas de famílias no acesso às escolas da sua preferência, apesar do regime de prioridades previsto no regime jurídico da educação inclusiva.

O diploma de 2018 – que em 2027 será substituído por um novo regime, aprovado no final de julho em Conselho de Ministros – prevê que “os alunos com programa educativo individual têm prioridade na matrícula na escola de preferência dos pais”.

No entanto, segundo o MCD, muitos alunos não têm colocação nas escolas indicadas pelas famílias por falta de vagas ou de condições para a sua integração.

“Nenhuma escola pode receber alunos sem dispor dos recursos humanos e materiais indispensáveis para assegurar uma resposta educativa de qualidade”, reconhece o movimento em comunicado, ressalvando que “essa limitação não pode servir de justificação para afastar sistematicamente alunos com necessidades educativas específicas das escolas escolhidas pelas suas famílias”.

Nos últimos dias chegaram ao MCD casos de famílias que se viram obrigadas a aceitar colocações longe de casa ou em escolas diferentes das frequentadas pelos irmãos, situações que comprometem a estabilidade emocional das crianças, além do transtorno que representam para a vida familiar.

Alguns desses casos foram partilhados num e-mail enviado ao secretário de Estado Adjunto e da Educação, Alexandre Homem Cristo, a que a Lusa teve acesso e em que o movimento pede soluções urgentes.

Lucas é um dos alunos que, no próximo ano letivo, não conseguirá frequentar a escola escolhida pelos pais, ao contrário das expectativas iniciais.

A transitar para o 2.º ciclo, a família escolheu a Escola Básica e Secundária da Cidadela, em Cascais, pela proximidade a casa e à escola dos irmãos, e por assegurar a continuidade das terapias.

Depois de analisar o programa educativo individual, a escola comunicou aos pais que seria ali que Lucas iria iniciar o próximo ano letivo, mas mais tarde, ao consultar o Portal das Matrículas, a família percebeu que a criança tinha sido, afinal, colocada em outro estabelecimento de ensino.

“Para uma criança com necessidades específicas, isto não pode ser tratado como uma simples alteração administrativa. A previsibilidade, a preparação da transição, a continuidade das terapias, a estabilidade emocional e a organização familiar são fatores que têm de ser considerados”, sublinha o movimento no ‘e-mail’ enviado à tutela.

Outro aluno – uma criança de sete anos com síndrome XYY e programa educativo individual – ainda não sabe onde vai estudar a partir de setembro.

Segundo relata o MCD, o encarregado de educação indicou cinco opções de escola no pedido de matrícula, mas nenhuma tinha vagas, não tendo sido apresentada, entretanto, qualquer alternativa.

Em outro caso, a escola indicada pela família como primeira opção até tinha vaga para o aluno, mas Guilherme acabou por ser prejudicado pelo seu relatório técnico-pedagógico, que prevê a medida de redução de alunos por turma, e, nesse caso, o estabelecimento de ensino não tem condições para recebê-lo.

“De que serve termos uma legislação de educação inclusiva, medidas de suporte, e prioridades no processo de matrícula se, no momento em que a criança precisa efetivamente de uma escola e de uma resposta adequada, o sistema não consegue garantir essa resposta?”, questiona o movimento.

O movimento alerta ainda para o risco de concentrar os alunos com necessidades educativas específicas em determinados estabelecimentos de ensino, enquanto outros recusam a sua integração.

Dirigindo-se ao secretário de Estado Alexandre Homem Cristo, o MCD pede respostas concretas para que nenhuma criança permaneça sem colocação e apoio aos pais nos casos de inexistência de vagas, para que “nenhuma família seja abandonada a procurar, sozinha, uma solução que compete ao Estado garantir”.

Fonte: Diário de Viseu por indicação de Livresco

Definição dos quadros de zona pedagógica considerados carenciados para o ano letivo de 2026-2027

O Despacho n.º 10024/2026, de 11 de agosto, procede à definição dos quadros de zona pedagógica considerados carenciados, para o ano letivo de 2026-2027, nos termos do Decreto-Lei n.º 51/2024, de 28 de agosto.

Quadros de zona pedagógica carenciados:


segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Regime jurídico dos estudantes com necessidades educativas específicas no ensino superior

A Lei n.º 44/2026, de 10 de agosto, aprova o regime jurídico dos estudantes com necessidades educativas específicas no ensino superior e altera o Decreto-Lei n.º 163/2006, de 8 de agosto, que aprova o regime da acessibilidade aos edifícios e estabelecimentos que recebem público, via pública e edifícios habitacionais.

O presente regime aplica-se a candidatos e a estudantes do ensino superior inscritos em qualquer modalidade de oferta educativa que, por motivo de perda ou anomalia, congénita ou adquirida, de funções ou de estruturas do corpo, incluindo funções psicológicas, apresentem dificuldades específicas suscetíveis de, em conjugação com fatores do meio, limitar ou dificultar a sua atividade e a sua participação plena em condições de equidade e igualdade com as demais pessoas.

São considerados estudantes com necessidades educativas específicas os seguintes candidatos e estudantes:
a) As pessoas com deficiência física, sensorial ou outra, com um grau de incapacidade igual ou superior a 60 %, devidamente comprovada através de atestado médico de incapacidade multiúso;
b) As pessoas que, não tendo uma incapacidade nos termos da alínea anterior, por motivo de perda ou anomalia, congénita ou adquirida, de funções ou de estruturas do corpo, incluindo as funções neurológicas e psicológicas, apresentem dificuldades específicas, devidamente comprovadas por peritos na área da educação e da saúde, suscetíveis de, em conjugação com os fatores do meio, limitar ou dificultar a sua atividade e a sua participação plena em condições de equidade e igualdade com as demais pessoas.

sábado, 8 de agosto de 2026

(H)À Educação: Quem disse que todos calçam o mesmo número?

Um estudante abre um livro e as palavras começam a dançar na página. Outro ouve a aula, mas as frases chegam-lhe como peças de um puzzle espalhadas pela mesa. Há ainda quem tenha muitas ideias, mas encontre obstáculos para comunicar. Notam-se diferenças, mas, na realidade, revelam um traço comum a todas as salas de aula: não existem dois estudantes iguais.

A diversidade é uma característica comum, no entanto ainda há contextos educativos em que se oferece um par de sapatos de tamanho único para percorrer os caminhos do conhecimento. Para quem calça esse tamanho, talvez o percurso seja confortável. Outros terão de forçar os pés ou aprender a caminhar com desconforto.

O Desenho Universal para a Aprendizagem é uma abordagem que propõe planear, desde o início, opções flexíveis que permitam a estudantes, com perfis diversos, aceder aos conteúdos, participar e demonstrar o que aprenderam, sem alterar os objetivos, nem reduzir a exigência.

Neste processo, poderão as ferramentas de Inteligência Artificial Generativa ajudar os docentes a criar opções mais flexíveis e acessíveis? A Inteligência Artificial pode apoiar na apresentação dos mesmos conteúdos em diferentes formatos (por exemplo, através do Notebook). Não se trata de facilitar a aprendizagem, mas de oferecer diferentes caminhos para alcançar os mesmos resultados.

Para um estudante com dislexia, um texto extenso pode parecer uma floresta demasiado densa para atravessar. Através de ferramentas, como o KOBI Happy Reading, essa floresta pode ganhar trilhos e é possível acompanhar a leitura em voz alta e adaptar as atividades.

O mesmo pode acontecer com estudantes que apresentam dificuldades auditivas, visuais ou de comunicação. Ferramentas como o NaturalReader ou aplicações de edição de vídeo podem converter texto em voz, gerar legendas e transcrições e apresentar a informação através de diferentes modalidades. Quando é utilizada com intencionalidade pedagógica e supervisão humana, a Inteligência Artificial pode ajudar o docente a ampliar as possibilidades de participação e aprendizagem. Todavia, os materiais gerados ou adaptados por estas ferramentas devem ser verificados quanto à exatidão, aos possíveis enviesamentos, à acessibilidade, à adequação pedagógica e à proteção dos dados dos estudantes.

As ferramentas digitais apoiadas por Inteligência Artificial podem gerar legendas e transcrições, converter texto em voz e apoiar a adaptação de materiais. A disponibilização de textos, conteúdos áudio, vídeos, infografias ou animações pode reduzir obstáculos e apoiar a compreensão em diferentes situações. Quando os estudantes podem escolher entre formatos coerentes com as suas necessidades, com o contexto e com a natureza da tarefa, ampliam-se as possibilidades de acesso, participação e aprendizagem.

Talvez a verdadeira questão seja: até onde estamos dispostos a redesenhar os ambientes de aprendizagem para permitir que todos os estudantes participem, compreendam e demonstrem o que aprenderam?

Carla Sá, Marisa Maia Machado e Sara Cruz

Fonte: Universidade de Aveiro por indicação de Livresco

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Alterando a Lei de Bases do Sistema Educativo assegurando em todos os níveis de ensino a acessibilidade dos estudantes com necessidades educativas especiais

A Lei n.º 41/2026, de 7 de agosto, assegura em todos os níveis de ensino a acessibilidade dos estudantes com necessidades educativas especiais, alterando a Lei de Bases do Sistema Educativo, aprovada pela Lei n.º 46/86, de 14 de outubro.

As alterações introduzidas consistem em:

São objetivos do ensino superior, para além dos já definidos, garantir o pleno acesso à formação superior e à consequente inserção no mercado de trabalho dos jovens com necessidades educativas específicas.

O Estado deve criar as condições que garantam aos cidadãos a possibilidade de frequentar o ensino superior, de forma a impedir os efeitos discriminatórios decorrentes das desigualdades económicas e regionais, de desvantagens sociais prévias ou de dificuldades acentuadas e persistentes ao nível da comunicação, interação, cognição ou aprendizagem derivadas de necessidades educativas específicas.

A educação especial organiza-se preferencialmente segundo modelos diversificados de integração em estabelecimentos regulares de ensino básico e secundário e nas instituições de ensino superior, tendo em conta as necessidades de atendimento específico, e com apoios de educadores especializados.

Incumbe ao Estado promover e apoiar a educação especial para pessoas com deficiência, independentemente do grau e da natureza da sua incapacidade, bem como do nível de ensino que frequentam.

Os percursos curriculares para jovens com deficiência a frequentar ciclos de estudo nas instituições de ensino superior devem ser adaptados às características de cada tipo e grau de deficiência, devendo estar previstas formas de avaliação adequadas às dificuldades específicas.

Nos estabelecimentos de ensino básico e secundário e nas instituições de ensino superior é assegurada a existência de atividades de acompanhamento e complemento pedagógicos, de modo positivamente diferenciado, a alunos com necessidades educativas específicas.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Lista das entidades com acreditação prorrogada como Centros de Recursos para a Inclusão (CRI) para o ano letivo 2026/2027


O EduQA informa que foi determinada a prorrogação da acreditação dos Centros de Recursos para a Inclusão (CRI), assegurando a continuidade da sua intervenção e a estabilidade das respostas prestadas às escolas, às crianças e aos alunos, às famílias e às comunidades educativas.

Esta decisão enquadra-se no atual processo de revisão do Decreto-Lei n.º 54/2018, de 6 de julho, que estabelece o regime jurídico da educação inclusiva. No âmbito desta revisão legislativa, está prevista a criação de um diploma próprio destinado a regular, de forma específica, o funcionamento, a organização, a acreditação e a intervenção dos Centros de Recursos para a Inclusão.

Neste contexto, considerou-se que a abertura de um novo procedimento de candidatura à acreditação dos CRI, antes da aprovação do novo enquadramento normativo, poderia conduzir à aplicação de critérios e requisitos suscetíveis de sofrer alterações num futuro próximo.

Assim, a prorrogação da acreditação permite garantir a continuidade da atividade dos CRI, assegurando simultaneamente a estabilidade do sistema durante o período de transição legislativa e evitando a realização de procedimentos administrativos que poderiam vir a revelar-se desajustados face ao novo regime jurídico.


Fonte: EduQA

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Práticas e Perspetivas Parentais no Brincar das Crianças em Portugal: Um Inquérito Transversal

Partilha-se o acesso ao estudo Práticas e Perspectivas Parentais no Brincar das Crianças em Portugal: Um Inquérito Transversal, publicado recentemente na revista Acta Médica Portuguesa.

RESUMO
Introdução: Brincar é reconhecido como um direito fundamental e um componente essencial do desenvolvimento saudável. Contudo, os estilos de vida modernos e o uso de meios digitais transformaram os padrões de brincadeira das crianças. O objetivo deste estudo foi descrever as perceções, práticas e limitações das famílias em Portugal relativamente ao brincar e ao brincar entre pais e filhos.
Métodos: Conduziu-se um estudo analítico transversal através de um questionário online distribuído a pais de crianças entre os três e os 10 anos em todo o território nacional. O inquérito abordou dados demográficos, atividades estruturadas, utilização de meios digitais, características gerais do brincar, brincar com os pais e opiniões parentais sobre o brincar. A análise estatística foi desenvolvida com recurso ao SPSS® v.28.0.Resultados: Foram obtidas 4637 respostas válidas. A idade mediana das crianças foi de seis anos, 53% do sexo masculino. Setenta e cinco por cento das crianças participavam em atividades extracurriculares, e a televisão foi o meio digital mais frequentemente utilizado (69%). A duração mais comum de brincar entre pais e filhos durante a semana foi inferior a uma hora (46%) e entre uma a três horas ao fim de semana (43%). Quase metade (46%) referiu brincar enquanto realizava tarefas domésticas. As principais barreiras ao brincar com os filhos foram as tarefas domésticas (87%) e as limitações relacionadas com o trabalho (58%). O tempo de brincar entre pais e filhos durante a semana e fins de semana foi inferior para as crianças com irmãos. Além disso, também se verificou uma duração reduzida do tempo de brincar durante a semana em crianças com atividades extracurriculares. Ser do sexo masculino, viver em ambiente rural e habilitações parentais inferiores associaram-se a mais tempo a brincar no exterior. Os pais atribuíram grande importância ao brincar: 100% concordaram que promove o desenvolvimento, 99% consideraram-no essencial para a socialização e 93% discordaram de que o brincar na escola pudesse substituir o brincar em casa.
Conclusão: Os pais em Portugal reconhecem o papel vital do brincar, mas enfrentam barreiras de tempo e ambientais que limitam as oportunidades de brincadeira livre e de qualidade. Promover momentos de brincadeira com os pais sem distrações e facilitar ambientes seguros para brincar ao ar livre devem ser prioridades nas estratégias pediátricas e de saúde pública.

Fonte inicial no Público por indicação de Livresco

terça-feira, 4 de agosto de 2026

As escolas de Connecticut apostam ainda mais na deteção precoce para melhorar os resultados em leitura

O primeiro passo para resolver um atraso na leitura é reconhecer que ele existe.

Décadas de investigação revelaram que todas as crianças aprendem a ler desenvolvendo as mesmas competências essenciais. Isto aplica-se a crianças com dislexia, a alunos que estão a aprender inglês e àqueles cujo nível de leitura está muito acima do nível da sua série. De acordo com a ciência da leitura, algumas crianças precisam apenas de um ensino mais direcionado e explícito — mais tempo a desenvolver a competência específica de leitura (e há várias) que não está a progredir tão rapidamente.

Mas, para isso, os professores precisam de identificar qual é a competência em falta. É necessário um tipo específico de formação e as ferramentas adequadas — e, até recentemente, muitas escolas de Connecticut careciam de ambas.

Isso começou a mudar com a lei «Right to Read» de 2023, que obriga os distritos a utilizarem programas de alfabetização do jardim de infância ao 3.º ano alinhados com a ciência da leitura. Alguns já estão a observar melhorias na sua capacidade de detetar e abordar os atrasos na leitura.

Ao mesmo tempo, um número crescente de pais procura, por conta própria, avaliar os seus filhos para detetar esses atrasos.

A Southport School — uma escola privada que utiliza um método de ensino baseado na ciência da leitura desde muito antes do programa «Right to Read» — tem vindo a oferecer, há anos, avaliações gratuitas de leitura aos pais de Connecticut através do seu braço de extensão, o Southport CoLAB. Nesta primavera, o CoLAB estabeleceu uma parceria com a Sacred Heart University para expandir a capacidade das avaliações, face à procura em forte crescimento.

«É o dobro do número do ano passado», afirmou Benjamin Powers, diretor executivo da Southport e fundador do CoLAB.

Powers referiu que é muito comum ver crianças com atrasos na leitura passarem despercebidas pela escola até ao 4.º ou 5.º ano. Nessa altura, explicou, é muito mais difícil para elas recuperarem o atraso em relação aos seus colegas. Para piorar a situação, o quarto ano é normalmente a altura em que as crianças começam a «ler para aprender» — o que significa que, se não conseguirem ler, as suas outras áreas de aprendizagem também serão afetadas.

«Do ponto de vista do desenvolvimento, ficamos muito melhor — exponencialmente melhor — se identificarmos estas crianças numa fase precoce», afirmou Powers.

É aí que entram os testes de avaliação da leitura.

Como detetar um atraso na leitura

Powers explicou que o teste de rastreio utilizado pela Southport tem uma duração entre 20 a 30 minutos, dependendo da idade da criança. É realizado num tablet e submete as crianças a atividades que recolhem dados sobre diferentes processos cognitivos — tais como a «nomeação rápida automatizada», que avalia a rapidez com que uma criança consegue recuperar da memória os nomes de uma variedade de objetos familiares.

No final, o programa produz um «relatório de fácil compreensão para professores e pais» que identifica se a criança em questão apresenta risco de sofrer de algo como a dislexia. Powers explicou que o teste não diagnostica a condição em si; em vez disso, «fornece-nos um indicador precoce para que possamos agir de forma proativa junto da criança, do professor e da família».

Ser proativo, explicou ele, é, em grande parte, uma questão de equilíbrio.

«Algumas crianças precisam simplesmente de muito mais contacto e prática», afirmou ele. «E temos de ser específicos… Por isso, se for uma criança que está realmente com dificuldades em relação a determinados padrões de letras ou relações entre sons e símbolos, queremos garantir que nos concentramos nesses aspetos específicos.»

«Mas», sublinhou ele, «todas as crianças precisam, na verdade, do mesmo tipo de abrangência e sequência para desenvolver a capacidade de leitura.» Algumas podem ter de se esforçar um pouco mais do que outras, mas, no geral, «a grande maioria — a grande maioria — das crianças consegue aprender a ler.»

Através do programa «Right to Read», esse mesmo princípio está agora a ser disseminado por todas as escolas públicas de Connecticut. Embora os testes de triagem que utilizam possam ser mais curtos — a popular avaliação DIBELS, empregada por muitos distritos, demora menos de 10 minutos —, a estratégia é a mesma: orientar cada criança através de uma série de instruções, utilizar os dados para identificar competências específicas que possam estar a ter dificuldade em desenvolver e, em seguida, responder com uma intervenção direcionada.

A superintendente adjunta de Stratford para o pré-escolar ao 6.º ano, Diana DiIorio, explicou como funciona o teste de triagem DIBELS.

«O professor senta-se a sós com a criança. A avaliação é feita num Chromebook. … É muito intuitivo. Basta premir um botão para iniciar, surgem instruções sobre o que perguntar à criança e esta responde no Chromebook de acordo com o que considera ser a resposta correta. Grande parte do processo é cronometrado», afirmou DiIorio.

Antes do programa «Right to Read», afirmou DiIorio, o regime de avaliação de Stratford estava muito mais centrado na compreensão.

«O que nos faltava era o ensino verdadeiramente sistemático e explícito de todas essas competências de consciência fonémica e fonética, que constituem a base e o alicerce» da leitura mais avançada, afirmou.

Consequentemente, explicou DiIorio, acabavam por deixar escapar alunos que chegavam ao jardim de infância já sabendo ler, mas que não possuíam os alicerces necessários para lidar com palavras multissilábicas — uma deficiência que só se tornava evidente quando os alunos se deparavam subitamente com um obstáculo na quarta classe.

A supervisora de Leitura e Artes da Linguagem do Ensino Básico de New Haven, Jennifer Novelli, deu um exemplo de como um professor pode avaliar as crianças mais novas quanto à «fluência na segmentação de fonemas», uma competência que desenvolvem antes de aprenderem efetivamente a ler. A segmentação fonêmica significa decompor os sons individuais dentro das palavras que as crianças ouvem.

«Portanto, se eu disser “mop”, espera-se que a criança pegue nessa palavra e a segmente» nos seus sons distintos, explicou Novelli — sendo estes o som “mm”, o “o” curto e o “p”.

Neste caso, «elas não estão a olhar para as letras. Estamos apenas a testar para garantir que compreendem e sabem como dividir as palavras», explicou Novelli.

A segmentação fonémica, explicou Novelli, insere-se no âmbito da consciência fonológica, que ela descreveu como «uma competência precursora da leitura».

Todas as escolas com as quais o CT Mirror falou afirmaram que realizam avaliações três vezes por ano, sendo que algumas recorrem a outras formas de acompanhamento do progresso entretanto. Os resultados iniciais de dois distritos muito diferentes sugerem que esta medida está a ter impacto.

Em Fairfield, um distrito relativamente abastado — predominantemente branco, com menos de um quinto dos alunos a beneficiar de refeições gratuitas ou a preço reduzido —, 74% dos alunos do jardim de infância no ano letivo de 2023-24 já demonstravam proficiência na leitura. Havia receios de que o novo currículo do distrito, alinhado com a ciência da leitura, e o regime de avaliação (realizado através do Acadience, e não do DIBELS) causassem uma quebra à medida que professores e administradores se fossem adaptando ao novo material, mas aconteceu o contrário: quando esses mesmos alunos terminaram o 1.º ano no ano seguinte, o número tinha subido ligeiramente para 78%.

«É normal esperar quebras durante a implementação. Não as observámos», afirmou Janine Goss, diretora executiva de literacia do pré-escolar ao 12.º ano em Fairfield. Isso aplicou-se a todas as turmas que receberam a nova instrução do programa «Right to Read».

A situação é muito diferente em New Haven — uma cidade predominantemente negra e latina, onde cerca de três quartos dos alunos beneficiam de refeições gratuitas ou a preço reduzido. Lá, a grande maioria dos alunos já apresenta atrasos substanciais na leitura quando começa a frequentar a escola. Em 2024, por exemplo, 61% dos alunos do 1.º ano estavam «muito abaixo» do nível da série, segundo Novelli.

Mas o programa baseado na ciência da leitura que ela ajudou a implementar teve, ainda assim, um impacto notável: no segundo ano, apenas cerca de 51% continuavam a apresentar resultados «bem abaixo» do nível da série, e a percentagem de alunos dessa coorte a ler ao nível da série ou acima aumentou.

Novelli afirmou que o temido «declínio de verão» — uma diminuição da capacidade de leitura que normalmente ocorre durante as longas férias — também diminuiu.

Há muito espaço para melhorias

Novelli afirmou que uma das razões pelas quais muitas crianças em New Haven continuam atrasadas na leitura é a falta de educação pré-escolar.

«Os nossos alunos que frequentam as nossas pré-escolas na cidade estão, sem dúvida, mais bem preparados e mais aptos no que diz respeito às competências de literacia», afirmou Novelli. «Se conseguíssemos abrir mais salas de aula e ter mais vagas… seria melhor.»

Acrescentou ainda que a diretora de educação infantil de New Haven, que se juntou ao distrito há três anos, implementou «um programa muito sólido de consciência fonémica e fonética» para crianças de 3 e 4 anos.

As crianças que não têm acesso a essa educação precoce — aquelas que começam a escola no jardim de infância e não desenvolveram competências de leitura (em inglês) em casa — têm mais probabilidades de começar em desvantagem. Em teoria, ainda podem recuperar o atraso, mas isso requer um número suficiente de professores com a formação adequada e tempo para implementar as intervenções necessárias.

É aí que reside outro problema.

Embora o Connecticut tenha adotado firmemente a ciência da leitura, pelo menos do jardim de infância ao 3.º ano, poucos professores recém-formados saem da faculdade com as competências necessárias para interpretar e agir com base nos resultados de um teste de triagem. Muitas vezes, cabe a cada distrito formar estes novos contratados — para não falar de todos os professores já em funções a quem nunca foram ensinadas estas competências quando começaram.

DiIorio, de Stratford, afirmou que é aqui que se realiza grande parte do verdadeiro trabalho de converter um distrito à ciência da leitura.

«Passámos todo o ano passado a analisar os dados [dos testes de leitura]», disse DiIorio. «Como analisar os dados e, depois, o que fazer com eles. E, depois, foi todo um outro módulo de planeamento de aulas com base nos dados que tínhamos à nossa frente.»

DiIorio referiu que Stratford fez parte de um dos primeiros grupos a frequentar a formação estadual sobre a ciência da leitura, reunindo-se cerca de uma vez por mês, «cinco ou seis vezes por ano». Desde então, o distrito estabeleceu uma parceria com a HILL for Literacy para formação online, acompanhamento presencial e análise de dados.

O desafio, afirmou DiIorio, é «levar esse conhecimento a todo o distrito».

«Existem oito escolas. Apenas um punhado [de funcionários] participou nessa primeira turma», disse DiIorio.

Goss afirmou que muitos dos seus esforços em Fairfield também se centraram na formação de professores. Sob a sua liderança, Fairfield criou equipas de literacia a nível distrital e de cada estabelecimento de ensino nas suas escolas primárias e secundárias.

Com 200 professores de sala de aula só no ensino básico, «não havia maneira de eu, sozinha, conseguir chegar a todos os professores», explicou Goss.

Ela também elogiou a sua equipa por acolher os novos membros «sob a sua proteção».

«Sentimo-nos muito bem por saber que, apesar de poderem não ter a experiência necessária ao saírem diretamente da faculdade, vão receber esse apoio quando chegarem às nossas escolas», afirmou Goss.

DiIorio afirmou que preparar os novos professores é um desafio que vai muito além da ciência da leitura.

«Eu própria passei por isso», disse DiIorio. «Tenho uma licenciatura em ensino. Ninguém nos ensina como lidar com a gestão dos alunos, com os comportamentos dos alunos, com as competências socioemocionais. A gente vai aprendendo. Aprende-se que as crianças sofrem de traumas. … Mas a formação não existe.»

Há aqui uma questão implícita de equidade. Devido à forma como o Connecticut financia as escolas públicas, as que se situam em municípios mais abastados dispõem, normalmente, de muito mais recursos do que as de cidades como New Haven ou Hartford, onde a base tributária local é muito limitada (o governador Ned Lamont criou este ano uma comissão de peritos para encontrar formas de reformar o sistema). Mais recursos podem significar uma formação mais sólida para os novos contratados.

DiIorio afirmou que também vivenciou isto em primeira mão.

«Comecei num distrito escolar muito abastado, a algumas milhas de distância. A minha formação como nova professora foi muito diferente daquela que recebi quando vim para Stratford como diretora. Foi uma verdadeira revelação… a diferença entre a formação dos novos professores e o que lhes é proporcionado», disse DiIorio.

Novelli afirmou que New Haven dispõe de formadores de literacia em cada edifício para proporcionar desenvolvimento profissional aos professores sobre a ciência da leitura, mas que beneficiaria com a presença de mais especialistas dedicados à intervenção na leitura. Um especialista em intervenção na leitura, explicou ela, passa o dia inteiro a dar aulas em pequenos grupos específicos.

«No ano passado, perdemos dois postos… e já não temos pessoal suficiente», disse Novelli. «Se pudéssemos ter um especialista certificado em intervenção na leitura em cada escola, seria extremamente útil.»

Há uma escassez destes especialistas certificados. Esta questão foi abordada numa reunião realizada em março pela Comissão BERGIN da Assembleia Geral, onde a professora de literacia da Universidade de Connecticut, Rachael Gabriel, partilhou dados que mostram que as chamadas intervenções de Nível 2 (que incluem o ensino em grupos específicos) podem, na verdade, gerar resultados piores para as crianças se forem mal executadas.

«Já havia escassez nesta área [de especialistas em literacia] quando me mudei para o Connecticut há 16 anos, e os programas [para os formar] diminuíram, em vez de crescerem», afirmou Gabriel.

Ela explicou aos membros da comissão que o programa que supervisiona na UConn tem apenas 11 alunos, o que provocou uma exclamação de espanto por parte de um dos ouvintes.

«[Este tipo de formação] é, em grande parte, inacessível. O nosso programa tem a duração de… mais de 18 meses e corresponde a 21 créditos, tal como exigido pelo estado. Por isso, é quase um mestrado», afirmou Gabriel. «É extremamente caro. Assim, pedir a um professor em exercício que diga: “Vou dedicar as minhas noites e os meus fins de semana a isto durante dois anos e pagar entre 30 000 e 40 000 dólares por isso”, é um pedido realmente significativo.»

Entretanto, Powers tem as suas próprias preocupações.

«Se me tivessem perguntado há 10 anos, teria estado otimista em relação ao movimento da ciência da leitura, porque, como sabem, é um movimento importante», afirmou Powers. Mas «quando analiso os resultados em leitura, percebo que, na verdade, não estamos a fazer a diferença».

Ele disse que agora há outra coisa que o mantém acordado à noite: um declínio acentuado na função executiva dos alunos ao longo dos últimos 10 anos, mais ou menos.

«Há dez anos, uma pessoa conseguia concentrar-se no ecrã durante cerca de dois minutos e meio antes de se distrair. Hoje, esse tempo reduziu-se para cerca de 40 segundos», afirmou Powers. «Temos crianças que prestam menos atenção, estão menos concentradas, sabe, simplesmente não conseguem assimilar da mesma forma.»

E a função executiva, disse Powers, está diretamente ligada aos resultados na leitura.

«Quando vou às escolas, especialmente agora, como as do ensino básico (K-5), o que ouço delas é alarmante», disse Powers.

Quanto à razão pela qual a função executiva das crianças está a diminuir, Powers disse que tem algumas ideias.

«Em termos qualitativos, veja bem, quando vão ao supermercado, os pais limitam-se a dar os telemóveis aos filhos para os manter ocupados. Ou mesmo no parque infantil, vê-se pais a empurrar as crianças no baloiço, enquanto olham para o telemóvel», disse Powers. «As crianças simplesmente não têm a mesma exposição à leitura que costumavam ter.»

Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com

Fonte: The74 por indicação de Livresco