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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O distúrbio do desenvolvimento da linguagem pode ter efeitos para toda a vida – e é facilmente ignorado em crianças multilingues

Antoni, de seis anos, nascido no Reino Unido de pais polacos, fala apenas algumas palavras em inglês na sala de aula e muitas vezes parece confuso quando o professor dá instruções. Ele pode simplesmente estar a adaptar-se ao inglês – ou o problema pode ser um distúrbio do desenvolvimento da linguagem (DLD), uma condição que prejudica gravemente a capacidade da criança de aprender, usar e compreender a linguagem falada.

Esses desafios são cada vez mais comuns para pais e professores. Em Inglaterra, por exemplo, cerca de 21% das crianças em idade escolar estão a crescer com uma língua materna diferente do inglês. Embora o desenvolvimento da linguagem da maioria das crianças – sejam elas monolingues ou multilíngues – seja normal, uma sala de aula média inclui duas crianças afetadas por DLD. A prevalência de DLD, cerca de 8%, é semelhante em todo o mundo, da China ao México.

Mesmo assim, o DLD continua a ser subestimado e mal atendido – especialmente em comparação com outras condições de desenvolvimento, como dislexia, autismo ou transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Identificar a DLD em crianças multilingues pode ser difícil. Cada língua que uma criança aprende desenvolve-se ao seu próprio ritmo, dependendo de fatores como a frequência com que a ouve e usa. Por exemplo, crianças multilingues podem ficar temporariamente atrás dos seus pares monolingues em vocabulário numa língua, mas isso não deve ser confundido com DLD.

Crianças com DLD apresentam problemas em todas as suas línguas e precisam de ajuda especializada. Em contrapartida, aquelas com desenvolvimento linguístico normal apenas têm dificuldades na língua à qual precisam de ter mais exposição, como o inglês na escola.

Aprender duas ou mais línguas promove pontos fortes linguísticos, sociais e cognitivos em todas as crianças. Ao contrário dos mitos de longa data de que o multilinguismo prejudica o desenvolvimento da linguagem, aprender várias línguas não causa nem agrava o DLD. O apoio ao DLD deve sustentar todas as línguas da criança, pois estas são fundamentais para o bem-estar, a identidade e as relações familiares.

O impacto da DLD é vitalício e vai muito além da linguagem. Tem consequências para a saúde mental, socialização, alfabetização, desempenho académico e qualidade de vida. Um diagnóstico preciso e oportuno e o apoio são essenciais, não apenas para as oportunidades de vida individuais, mas também para a sociedade. Adultos com DLD são mais propensos a ter dificuldade em conseguir um emprego e a ter antecedentes criminais.

Abordando a DLD

Existem sinais importantes que indicam que uma criança multilingue pode estar em risco de DLD, sugerindo a necessidade de consultar um terapeuta da fala e da linguagem. Estes incluem se a criança:
  1. demorar mais tempo a dizer as primeiras palavras ou a juntar palavras do que os irmãos
  2. ter dificuldade em compreender o que os outros dizem ou em seguir instruções
  3. ter dificuldade em expressar pensamentos ou contar histórias
  4. depender excessivamente de gestos (como apontar) para se comunicar, em vez de palavras
  5. aprender inglês na escola mais lentamente do que colegas com idade, cultura e antecedentes linguísticos semelhantes
  6. ter dificuldade em interagir com crianças que falam as mesmas línguas.
Após o encaminhamento, os terapeutas da fala e da linguagem recolhem informações dos pais, professores, testes e outras fontes, com o objetivo de compreender as capacidades da criança em todas as suas línguas.

Em países linguisticamente diversos, ainda existem obstáculos consideráveis. Os terapeutas da fala e da linguagem no Reino Unido, por exemplo, ainda não dispõem de ferramentas fiáveis ​​para avaliar igualmente o inglês e as outras línguas das crianças. Com poucos terapeutas da fala e da linguagem com proficiência multilingue e uma escassez de intérpretes devidamente formados, a Perturbação do Desenvolvimento da Linguagem (TDL) pode passar despercebida – ou o desenvolvimento multilingue típico pode ser erradamente classificado como perturbação – atrasando ou desviando o apoio necessário.

Estão a ser feitos progressos, com novas ferramentas promissoras, como a ferramenta de avaliação de crianças bilingues do Reino Unido e a bateria de testes de perturbação da linguagem em contextos multilingues (Litmus). A primeira utiliza o vocabulário de crianças de dois anos em inglês britânico e na sua outra língua, juntamente com a exposição a cada língua, para determinar se o desenvolvimento da linguagem pode estar em risco.

Da mesma forma, a bateria Litmus inclui ferramentas para avaliar as competências linguísticas de crianças multilingues de diversas idades e origens linguísticas, como a memória fonológica e a narração de histórias.

Mais recentemente, a nossa equipa está a desenvolver um recurso de avaliação dinâmico na Universidade de Newcastle que utiliza atividades lúdicas para detetar a Perturbação do Desenvolvimento da Linguagem (TDL). Explora o potencial de aprendizagem das crianças multilingues – e não apenas as suas competências existentes – em áreas da linguagem e da comunicação afetadas pela condição, como contar histórias ou reconhecer emoções na voz das pessoas.

Detetar o TDL é o primeiro passo. O apoio da família, das escolas e dos terapeutas da fala pode então transformar a vida de uma criança multilingue, ajudando-a a crescer mais saudável e feliz.

Fonte: The Conversation por indicação de Livresco

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Projeto KA LGP

O projeto KA – LGP é um projeto do Agrupamento de Escolas de Ílhavo (AgEI), no âmbito da Rede de Escolas de Referência para a Educação Bilingue, a qual visa oferecer uma resposta educativa especializada, no sentido da implementação de um modelo de educação bilingue, que garanta o crescimento linguístico, o acesso ao currículo nacional comum e à inclusão escolar e social de crianças e jovens surdos.

Com o apoio da Fundação Altice Portugal, o projeto KA – LGP tem como objetivo principal a interpretação de vídeos da plataforma de aprendizagem Khan Academy para Língua Gestual Portuguesa, sendo que, atualmente, já foram produzidos cerca de 150 vídeos de Matemática. Estes recursos têm a sua qualidade controlada por um vasto número de intervenientes (professores de LGP, intérpretes LGP, professores de Educação Especial, professores de Matemática e alunos surdos), podendo ser consultados a partir das seguintes hiperligações:



O Agrupamento de Escolas de Ílhavo irá dar continuidade à produção e publicação de vídeos, por forma a alargar este projeto a todos os anos de escolaridade.

É de salientar que a LGP é umas das três línguas oficiais de Portugal, reconhecida enquanto língua da comunidade surda portuguesa pela Constituição da República em 1997, no seu Artigo 74.º, alínea h) de 15 de novembro, data em que se assinala o Dia Nacional da Língua Gestual Portuguesa.

Fonte: DGE

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Crianças bilingues conseguem melhores resultados escolares

As crianças de famílias com baixos rendimentos conseguem melhores resultados escolares quando aprendem duas línguas, pois desta forma treinam o cérebro e a concentração, revela um estudo de uma investigadora portuguesa. 
O estudo, desenvolvido pelas Universidades do Minho, do Luxemburgo e de York (Canadá) e publicado na revista "Psychological Science", revela que as crianças bilingues em famílias de baixos rendimentos têm mais facilidade em direcionar e centrar a sua atenção, comparativamente com crianças monolingues, em resultado do treino do cérebro.
Os investigadores quiseram avaliar de que forma o domínio de duas línguas influenciava as funções mentais destes grupos, e concluíram que o bilinguismo treina o cérebro, fortalecendo funções cognitivas importantes para a aprendizagem.
A investigadora portuguesa envolvida no estudo, Anabela Cruz-Santos, explicou à Lusa que a necessidade de mudar de língua frequentemente ativa um mecanismo cerebral - sistema de controlo executivo - que ajuda a orientar a atenção e manter o foco.
O enfoque deste estudo está, no entanto, relacionado com as crianças de baixo estatuto sócio-económico, já que estudos anteriores haviam revelado que crianças bilingues provenientes de estatutos sócio-económicos elevados tinham melhores resultados de aprendizagem.
A dúvida residia em saber se esse desempenho resultava do bilinguismo ou do facto de essas crianças serem "provenientes de ambientes estimulantes e cognitivamente enriquecidos".
Esta investigação veio mostrar, "pela primeira vez", que a vantagem cognitiva está relacionada com o bilinguismo, já que se encontra também nas crianças de famílias de baixo estatuto socioeconómico.
Partindo deste pressuposto, de que a aprendizagem de várias línguas "pode ter um efeito profundo em certas funções cerebrais importantes para a aprendizagem", Anabela Cruz-Santos considera que se pode "considerar fundamental o ensino de línguas estrangeiras nas escolas em Portugal, tal como já se faz noutros países".
Para este estudo, intitulado "Bilingualism enriches the poor: Enhanced cognitive control in low-income minority children", os investigadores acompanharam 80 alunos do segundo ano de escolaridade provenientes de famílias de baixos rendimentos.
Metade deste grupo era descendente de emigrantes no Luxemburgo, originalmente do norte de Portugal, e falava português e o alemão ou o dialeto alemão do Luxemburgo, diariamente, enquanto a outra metade vivia no Norte de Portugal e só falava português.



quinta-feira, 3 de maio de 2012

Falar duas línguas melhora o desempenho cerebral

Falar uma segunda língua permite aumentar o poder do cérebro. A conclusão é de um estudo norte-americano, cujos resultados mostram que o bilinguismo funciona como uma espécie de "ginástica mental" que treina as estruturas cerebrais e apura a mente.

Segundo o estudo em questão, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Science (PNAS), testes feitos em laboratório revelaram que há evidências "biológicas" que indicam que falar duas línguas afeta profundamente o cérebro e muda a forma como o sistema nervoso reage ao som.

Os autores do estudo, da Northwestern University, monitorizaram as respostas do cérebro de 48 estudantes voluntários saudáveis, 23 dos quais bilíngues, a sons diferentes, traçando, através de elétrodos colocados no couro cabeludo, o padrão das ondas cerebrais.

Segundo os especialistas, sob condições silenciosas, os dois grupos responderam da mesma forma. Porém, durante uma conversa barulhenta, observou-se que o grupo bilíngue demonstrou uma capacidade muito maior de processar os sons.

Sistema auditivo dos bilingues é mais eficiente

Os voluntários que falavam inglês e uma outra língua tiveram muito mais facilidade do que os seus pares em sintonizar as informações importantes, nomeadamente a voz do orador, e em bloquear outros ruídos distrativos como as conversas de fundo. 

Citada pela BBC, a professora Nina Kraus, que coordenou a investigação, explicou que "a experiência do bilíngue é aprimorada, com resultados sólidos, num sistema auditivo que é altamente eficiente, flexível e focado no seu processamento automático de som, especialmente em condições complexas de escuta". 

Viorica Marian, co-autora do estudo, acrescentou que "os benefícios de ser bilíngue são particularmente poderosos e amplos e incluem a atenção, a seleção e a codificação de som". 

De salientar que estudos anteriores sugerem que falar duas línguas pode também ajudar a afastar a demência e que, ao ensaiar, os músicos parecem desenvolver competências semelhantes às desenvolvidas pelos bilíngues a nível cerebral.

Clique AQUI para aceder ao estudo publicado na PNAS (em inglês).

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O bilinguismo amplia a capacidade perceptiva e adia a demência

Foram apresentados vários estudos sobre o tema das jornadas «O que nos diz o bilinguismo sobre o nosso cérebro?», organizadas pela Associação Americana para o Avanço nas Ciências (American Association for the Advancement of Science), em Washington, que demonstram que saber duas línguas não gera confusão no cérebro. Pelo contrário, amplia a capacidade perceptiva.

Uma das investigações, realizadas por María Teresa Bajo e Pedro Macizo, da Universidade de Granada, consistiu em medir o tempo de resposta da actividade cerebral perante uma pergunta, dirigida a voluntários que dominavam o espanhol e o inglês de igual forma. Os investigadores verificaram que os bilingues são capazes de activar ambos os idiomas, ao mesmo tempo, mesmo em situações em que apenas necessitem uma língua.
Segundo um comunicado da instituição, o bilinguismo permite melhorar a atenção e a memória das pessoas, já que a treina como se de uma ginástica mental se tratasse. Segundo os avanços da investigadora Nùria Sebastián-Gallés, da Universidade Pompeu Fabra de Barcelona, por exemplo, crianças bilingues, de quatro a oito meses conseguem distinguir entre dois idiomas que não conhecem.

Perante diferentes vídeos, onde se falava francês ou inglês, idiomas desconhecidos no lar onde crescem, os investigadores conseguiram perceber se as crianças distinguiam as línguas, através das expressões faciais dos intervenientes no vídeo. Os cientistas referem que o bilinguismo amplia a capacidade perceptiva do cérebro.

Judith Kroll, da Universidade da Pensilvânia (EUA), explica que todas estas vantagens não significam que sejam pessoas mais inteligentes, apenas que são multitarefas e de processar informação mais rapidamente, de forma a dispersar aquilo que é irrelevante assim que o cérebro percebe.

Outra investigação publicada na revista «Neurology», por Elen Byalistok, da Universidade de York, refere que usar duas línguas por dia, atrasa em média, quatro nãos, o aparecimento de Alzheimer. Segundo a cientista, mesmo que apenas se pratique a uma segunda língua durante o Verão, já beneficia contra a demência.

Mudar de um idioma para outro, é um estímulo para o cérebro e fá-lo fabricar uma espécie de ‘reserva cognitiva’. Agora, só falta perceber se também provoca alterações físicas na estrutura do cérebro.