quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Alunos estrangeiros: falta de recursos das escolas continua a deixá-los para trás

No ano lectivo de 2021/2022, quando 9,3% dos estudantes matriculados no ensino básico em Portugal continental já eram de origem estrangeira, a percentagem destas crianças e jovens a frequentar Português Língua Não Materna (PLNM), considerada uma ferramenta essencial de inclusão, era ainda muito baixa, não ultrapassando os 2% dos alunos oriundos de outros países inscritos no 1.º ciclo. Haverá factores atenuantes, mas Manuel Pereira, da Associação Nacional de Dirigentes Escolares tem poucas dúvidas sobre a principal causa para estes valores: “O grande problema é a falta de recursos humanos.”

Sem mais professores, vai ser difícil inverter este panorama, transcrito no relatório Estado da Educação 2022 (EE2022), que o Conselho Nacional de Educação agora divulgou. E vai ser também difícil inverter o outro dado ali presente que nos diz que a inclusão das crianças estrangeiras nas escolas ainda tem um caminho longo a percorrer – na última década, esbateu-se a distância entre os alunos nacionais e estrangeiros que ficam retidos num determinado ano ou que desistem da escola, mas a balança ainda continua a ser desfavorável para as crianças provenientes de outros países. (...)

Continuação da notícia em Público.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Há alunos de 246 nacionalidades nas escolas portuguesas

O número de alunos estrangeiros disparou nos últimos anos, mas a esmagadora maioria, alerta o relatório do Conselho Nacional de Educação, não frequenta a disciplina de Português Língua Não Materna (PLNM), essencial para a sua inclusão no sistema de ensino.

No ano letivo 2021-2022 estavam inscritos quase 80 mil alunos estrangeiros no Básico (9,3% do total de alunos), de 235 nacionalidades diferentes e mais de 26 mil no Secundário (7,9%), de 246 nacionalidades. Um acréscimo em relação ao ano anterior de quase 14 mil alunos no Básico e de mais 3562 alunos no Secundário. No entanto, a PLNM estavam apenas inscritos 6483 alunos de 113 nacionalidades, incluindo a portuguesa (emigrantes ou filhos de emigrantes que regressaram ao país). Dos mais de 46 mil alunos brasileiros estavam em PLNM apenas 31.

Professores migrantes

O CNE considera que “todos os alunos, cujo nível de proficiência do português dificulte as aprendizagens”, devem frequentar PLNM, pelo que o reforço de professores na disciplina é crucial. Uma das recomendações do “Estado da Educação 2022” é a contratação de professores migrantes em escolas cuja percentagem de alunos de determinada nacionalidade o legitime.
Outra sugestão é a hipótese de ensino das línguas maternas dos alunos quando existe um grande número de falantes da mesma. A iniciativa podia ser lançada como projeto -piloto. As escolas também devem traduzir os seus documentos de referência para as línguas maternas dos seus alunos migrantes. 

Fone: JN por indicação de Livresco

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Estado da Educação 2022: caracterizar, analisar e avaliar a evolução do sistema educativo e formativo português.


O Estado da Educação (EE) é uma publicação do Conselho Nacional de Educação (CNE), que agora se apresenta renovada, tendo como propósito contribuir para acompanhar e avaliar o desenvolvimento do sistema educativo e formativo português.

O EE 2022 (edição 2023) foi concebido e desenvolvido para continuar a proporcionar sínteses estatísticas que permitam caracterizar, analisar e avaliar a evolução do sistema educativo e formativo português, sobretudo no que se refere a três domínios normalmente reconhecidos como fundamentais em publicações congéneres e que têm vindo a ser tratados em anos anteriores. Assim, são apresentados dados relativos às ofertas e recursos, à população discente e à sua distribuição pelas ofertas de educação e formação, e aos resultados e qualificações.

A presente edição surge renovada, procurando proporcionar leituras mais críticas e interpretativas dos dados, sinalizando questões problemáticas que devem ser enfrentadas e resolvidas para melhorar a qualidade do sistema educativo e formativo.

Neste sentido, o EE 2022 elege cinco domínios problemáticos que, de algum modo, deverão ser considerados no âmbito do desenvolvimento das políticas públicas de educação:
  • A existência do 2º ciclo do ensino básico.
  • A inteligência artificial e as suas relações com as múltiplas dimensões do sistema educativo e formativo.
  • O imperativo do desenvolvimento do ensino artístico especializado.
  • O ensino profissional e a sua relevância para o desenvolvimento de novas e inovadoras ideias fundadoras da educação secundária.
  • As novas demografias e a necessidade de as integrar plenamente na conceção de um sistema aberto, livre, inclusivo e socialmente responsável.
Consulte a publicação aqui.

domingo, 25 de fevereiro de 2024

Formação de futuros professores com mestrado e doutoramento passa para três semestres

O Governo em gestão aprovou, esta quinta-feira, em Conselho de Ministros alterações ao decreto-lei que estabelece o regime jurídico da habilitação profissional para a docência na educação pré-escolar e nos ensinos básico e secundário. Com estas mexidas, o período de formação de candidatos a professor que já tenham mestrado ou doutoramento “passa para três semestres”, esclarece fonte oficial do Ministério da Educação.

Este diploma foi publicado em Diário da República em novembro de 2023, com o intuito de aumentar o número de candidatos à formação para a docência, dado que o número de aposentações de professores tem vindo a bater recordes e que é necessário contratar cerca de 30 mil docentes até 2023.

No entanto, algumas das novas regras foram de alvo de críticas por parte das instituições do ensino superior, nomeadamente no que diz respeito a uma eventual interferência do Ministério da Educação na seleção e distribuição de estudantes para os núcleos de estágio, noticiou o Público.

Por isso, o Conselho de Ministros aprovou esta quinta-feira alguns “ajustamentos”, com o intuito de “flexibilizar o modelo de realização da prática de ensino supervisionada de modo a reforçar a autonomia científica e pedagógica dos estabelecimentos de ensino superior”, adianta fonte oficial da tutela liderada por João Costa, em resposta ao ECO.

“A alteração aprovada alarga o prazo dado às instituições de ensino superior para as adaptações a fazer e corrige alguns aspetos dos créditos requeridos, por exemplo na duração dos cursos para quem já é detentor de mestrado e doutoramento, que passa para três semestres”, acrescenta ainda a tutela.

Este diploma define que os professores estagiários terão turmas atribuídas, em horários de 12 horas letivas, em vez de terem apenas algumas aulas assistidas. Além disso, os estágios serão remunerados de acordo com o primeiro índice de carreira e o tempo de serviço em estágio contará para concurso e futuras progressões após o ingresso na carreira. Já os professores orientadores terão uma redução da componente letiva para poderem acompanhar os estagiários.

Fonte: ECO por indicação de Livresco

sábado, 24 de fevereiro de 2024

A escola está doente

As notícias sobre a saúde mental nas escolas portuguesas aumentaram exponencialmente depois da pandemia (aqui, aqui, aqui e aqui).

Que a profissão de professor é bastante propensa a desenvolver burnout e a degradar a saúde mental já não é novidade. Mas que esse problema afete também alunos começa a ser preocupante.

A saúde mental é uma componente essencial do bem-estar individual e social. Quando as pessoas estão mentalmente saudáveis são capazes de pensar com clareza, tomar decisões acertadas, lidar com o stress e construir relações positivas.

No contexto escolar, a saúde mental é particularmente importante, pois tem um impacto significativo na aprendizagem e no ensino.

Relativamente à saúde mental dos alunos, estudos recentes têm demonstrado que um número significativo de estudantes portugueses apresenta problemas de saúde mental. Um estudo da Universidade de Évora concluiu que 45% dos alunos apresentam sintomas de ansiedade ou depressão. Estes problemas têm, naturalmente, um impacto negativo no desempenho escolar, na participação nas atividades extracurriculares e nas relações sociais.

Alguns dos fatores externos que contribuíram para os problemas de saúde mental dos alunos foram a pandemia de covid-19, a guerra na Ucrânia e no Médio Oriente, que têm gerado ansiedade e incerteza, o stress associado à escola - como a carga de trabalho excessiva -, as exigências académicas elevadas, o aumento da indisciplina em meio escolar, o bullying, os problemas familiares - como conflitos ou violência doméstica -, desemprego, problemas pessoais - como baixa autoestima -, dificuldades de aprendizagem ou discriminação.

Relativamente aos fatores internos, foram identificados os genéticos, biológicos e psicológicos, conforme indicado em alguns estudos (ex: aqui).

Mas como e quem é que pode identificar os alunos que estejam em situação periclitante?

A escassez de psicólogos nas escolas portuguesas não ajuda nem à identificação nem ao encaminhamento correto destes alunos. No entanto, se todos estivermos atentos podemos, aferindo alguns comportamentos, tentar perceber a situação de cada aluno e tentar acionar os mecanismos existentes de acompanhamento, seja nas escolas, seja na sociedade.

Estar em situação de depressão ou burnout é um fator que influencia as aprendizagens dos alunos. Se o aluno está ansioso pode ter dificuldade em concentrar-se nas aulas, se está deprimido pode ter dificuldade em motivar-se para estudar, ou se está a ser vítima de bullying pode ter dificuldade em confiar nos professores e colegas, o que pode prejudicar o seu relacionamento com eles e com a escola. Todos estes comportamentos podem levar a baixo rendimento escolar e até abandono. Por esse motivo deveriam ser identificados e encaminhados para os cuidados adequados. Mas para isso seria necessário que as escolas tivessem recursos humanos suficientes. Não os tendo, muitos destes alunos “perdem-se” e em casos extremos colocam termo à própria vida.

No entanto, como referi em cima, este problema não afeta só os alunos. Os professores também estão sujeitos a um risco elevado de problemas de saúde mental. Um estudo da Universidade de Lisboa concluiu que 61% dos professores apresentam sintomas de exaustão emocional.

Naturalmente, estes problemas têm um impacto negativo na qualidade do ensino, na relação professor-aluno e na satisfação profissional. Também neste caso é possível identificar os fatores externos e internos que têm contribuído para os problemas de saúde mental dos professores. Relativamente aos fatores externos, à cabeça temos toda a componente burocrática: a carga de trabalho burocrático excessivo, que inclui a preparação de aulas, a avaliação dos alunos em modelos que incluem a inserção de dados numa quantidade enorme de grelhas Excel e em plataformas informáticas, a participação em enumeras reuniões inúteis. Além disso, a falta de reconhecimento social da profissão, em contraponto com as exigências, a dificuldade em lidar com alunos indisciplinados, o aumento de alunos com dificuldades específicas de aprendizagem, que ficam sem o apoio necessário abandonados nas salas de aulas, ou o lidar com conflitos entre alunos-alunos, alunos-professores e entre os pais e eles próprios. No que aos fatores internos diz respeito foram identificados os genéticos, biológicos e psicológicos, como no caso dos alunos.

Não é difícil perceber que quando um professor está ansioso pode ter dificuldade em concentrar-se na aula, o que pode prejudicar a qualidade do ensino, ou um que está deprimido pode ter dificuldade em motivar os alunos, o que também pode prejudicar a qualidade do ensino. A relação entre a saúde mental e a aprendizagem está amplamente estudada e pode concluir-se que a saúde mental tem um impacto negativo nos alunos de várias formas. Dificuldades de atenção - os alunos que estão ansiosos ou deprimidos podem ter dificuldade em concentrar-se nas aulas e em aprender os conteúdos -, dificuldades de memória - a ansiedade e a depressão podem afetar a memória, dificultando o “armazenamento” e a recuperação de informações -, dificuldades de relacionamento - os alunos que estão com problemas de saúde mental podem ter dificuldade em estabelecer relações com os professores e com os colegas, o que pode prejudicar a aprendizagem.

Perante estas dificuldades, o aluno que está ansioso, deprimido, pode ter dificuldade em prestar atenção ao que o professor está a dizer, o que pode levar a que ele perca informações importantes. É inegável a relação entre a saúde mental e o ensino/aprendizagem. A falta de saúde mental tem um impacto negativo no ensino por parte dos professores e na aprendizagem por parte dos alunos. Por esse motivo, esta problemática deve ser tida em conta no desenho das políticas educativas.

Alberto Veronesi

Fonte: CNN Portugal por indicação de Livresco

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Cinco regras para criar testes que ajudam a aprender

Já sabemos que os testes ajudam a aprender mais e melhor, mas como maximizar os efeitos benéficos dos testes na aprendizagem? Um artigo muito recente revê o que a ciência cognitiva nos diz sobre o uso dos testes, de modo a tirar o máximo partido do seu valor como instrumentos de aprendizagem. Testar frequentemente, antes e depois de se apresentar a matéria, usar testes cumulativos com diversos tipos de perguntas — sem grande peso na nota final e, por isso, essencialmente formativos e não avaliativos — são algumas das estratégias para criar e aplicar testes que ajudam a aprender melhor.


Que os alunos não gostam de fazer testes não é novidade, e muitas vezes os professores também não gostam de os criar e corrigir. No entanto, os testes, se os entendermos como oportunidades de praticar a recuperação da informação a aprender, têm funções que vão muito além da avaliação. Vários estudos têm mostrado como potenciam a aprendizagem e melhoram o desempenho escolar em diversos domínios e níveis escolares. Como podem então os professores maximizar o valor dos testes como instrumentos de aprendizagem?

Num artigo recente, Dillon H. Murphy, Jeri L. Little e Elizabeth L. Bjork, investigadores da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e da Universidade do Estado da Califórnia, examinaram as características que tornam os testes as melhores ferramentas possíveis de aprendizagem. Podemos usar este artigo, publicado na Educational Psychology Review, como guia para professores, para planearem testes mais eficientes.

Testar com que frequência?

Deve-se incorporar os testes frequentemente durante as aulas, e não os utilizar como instrumentos mais raros de avaliação. Por exemplo, além de dois exames durante um trimestre, incluir um questionário no final de cada aula. Aumentar a frequência dos testes em aula ajuda a aprender melhor e diminui a ansiedade que muitos alunos sentem durante o teste. Estes testes múltiplos devem contribuir apenas uma pequena percentagem para a nota final, para que os alunos os vejam como instrumentos de aprendizagem, se sintam mais motivados a estudar e fiquem menos ansiosos quando os fizerem.

Que formato de teste utilizar?

Independentemente do tipo de teste, o professor deve garantir que cada questão exige a recuperação ativa de informação — por exemplo, são preferíveis testes sem consulta a testes com consulta. As questões de escolha múltipla podem ser uma boa alternativa, sobretudo em turmas grandes. Nesse caso, as alternativas incorretas devem ser suficientemente críveis e competitivas (i. e., baseadas em informação plausivelmente certa) para que o aluno tenha de recuperar ativamente a alternativa correta e não se limite a eliminar as restantes.

Por exemplo, se se perguntar a um aluno qual foi o primeiro imperador romano (Octaviano) não se deve dar como alternativas nomes imediatamente rejeitáveis, tais como George Washington e Dom Afonso Henriques, mas sim nomes como Nero ou Constantino. Alternativas como estas duas últimas forçam os alunos a reverem o que sabem sobre estes dois outros imperadores (ver exemplo 1).

Exemplo 1: Quem foi o primeiro imperador romano?


Ao apresentar o nome de outros imperadores romanos, a Opção A é preferível à Opção B, na medida em que exige a recuperação de conhecimentos e não conduz à resposta correta por mera exclusão de partes.

As questões que levam os alunos a utilizar processos de geração de conhecimentos para obterem respostas também aumentam o valor dos testes — por exemplo, questões de resposta curta ou completar espaços. Misturar formatos parece ser uma boa alternativa, mas, se não for possível, questões de múltipla escolha bem construídas parecem ser o melhor formato porque, apesar de demorarem tempo a ser construídas, são facilmente corrigidas e pode logo dar-se feedback, mesmo em turmas com muitos alunos.

E, por falar em turmas numerosas, uma possibilidade é também fazer testes colaborativos ou em grupo. A investigação não é clara quanto à eficácia dos testes colaborativos, mas os alunos parecem gostar deles e sentir-se menos ansiosos. Por isso, uma estratégia poderá ser aplicar um teste individual e reaplicar o mesmo teste coletivamente.

Quando testar?

Os testes ajudam a aprender melhor não só quando aplicados de maneira clássica — depois de se apresentar o material a aprender —, mas também antes de se apresentar esse material, na forma de pré-testes. Esse benefício ocorre mesmo que os alunos não consigam responder corretamente. No caso dos pré-testes, as questões de escolha múltipla parecem mesmo ser as mais eficazes.

Além de usar com frequência pré-testes e testes, é importante também espaçá-los e intervalar items semelhantes que aparecem em cada teste. Importa também referir que os testes devem ser cumulativos: a matéria não é testada apenas uma vez, logo depois de apresentada, mas várias, sendo incluída nos testes seguintes. Embora os alunos não costumem apreciar testes cumulativos, estes beneficiam a aprendizagem por facilitar a prática de recuperação e a técnica de espaçamento.

O que falta saber?

A investigação não é clara quanto à maneira ideal de corrigir os testes. Sabe-se que os testes formativos não devem contribuir uma grande percentagem da nota final, mas não qual a percentagem ideal (até pode ser 0%). Outro fator que pode interagir com as características dos testes aqui referidas e alterar a sua eficácia são certas diferenças individuais, incluindo o conhecimento prévio de um aluno, o seu estatuto socioeconómico, a sua cultura e até a forma como foi ensinado no passado. Nada parece sugerir que a repetição de testes tenha um efeito negativo na aprendizagem, mas é necessária mais investigação de maneira a avaliar, por exemplo, se o conhecimento prévio de um aluno pode alterar os benefícios dos pré-testes.



Ludmila Nunes

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Regulamento das Provas de Avaliação Externa e das Provas de Equivalência à Frequência dos Ensinos Básico e Secundário para o ano letivo 2023/2024

Despacho Normativo n.º 4/2024, de 21 de fevereiro, estabelece as regras e procedimentos gerais a que deve obedecer a realização das provas de aferição, das provas finais do ensino básico, dos exames finais nacionais, dos exames a nível de escola de línguas estrangeiras equivalentes a exames finais nacionais, das provas de equivalência à frequência, e das provas a nível de escola dos ensinos básico e secundário, no ano letivo 2023/2024.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Referencial para a Inovação Pedagógica nas Escolas


A inovação não é um fim em si mesma, mas antes um processo que visa ampliar uma educação de natureza transformadora e que pode assumir múltiplas configurações quanto ao seu objeto, às suas finalidades e formas de operacionalização, cabendo às escolas definir prioridades e processos de mudança. Os efeitos e a sustentabilidade da inovação dependem, em grande medida, da sua amplitude, mas todas as iniciativas de inovação são potencialmente meritórias, quer sejam desenvolvidas em disciplinas específicas ou numa abordagem de articulação curricular, de forma individual ou colaborativa, integradas ou não em projetos mais vastos. Todas requerem uma perspetiva contextualizada – articulando-se com as circunstâncias em decorrem, os projetos educativos das escolas e as políticas educativas (trans)nacionais–, uma orientação prospetiva, implicando um movimento de rutura maior ou menor face a conceções e práticas anteriores, e uma estratégia avaliativa que possibilite compreender os seus efeitos, limitações e implicações.

O referencial apresentado centra-se na pedagogia escolar e dirige-se às escolas enquanto organizações aprendentes, em particular aos educadores que nelas trabalham, sendo os educandos os principais beneficiários dos processos de mudança. Embora se articule com outras esferas, das políticas educativas e orientações curriculares à gestão das escolas e à formação dos educadores, esse não é o seu foco principal, tal como não é sua intenção discutir normativos legais particulares ou propor práticas de inovação específicas. O que se pretende é promover uma reflexão crítica sobre a educação e a inovação pedagógica nos contextos escolares, que sustente o desenvolvimento e a análise de iniciativas de inovação. Assim, o referencial tem duas finalidades:
  • Definir um quadro de referência para uma compreensão ampla da inovação pedagógica, tendo em consideração três dimensões: o seu sentido social, a sua orientação local e sistémica, e a sua orientação para os educandos e a aprendizagem;
  • Propor, a partir desse quadro de referência, um guião de apoio ao desenho e à análise de iniciativas de inovação pedagógica, podendo estas assumir configurações diversas.

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Há mais abandono escolar?

Há mais abandono escolar, em Portugal. De acordo com os últimos dados disponíveis, relativos ao ano de 2023, a taxa de abandono escolar precoce aumentou de 6,5% para 8%. É um valor que continua abaixo do teto máximo de 9%, definido pela União Europeia para 2030, mas que, ainda assim, merece reflexão.

Desde 2006, com uma ligeira inversão em 2016, que este indicador tem registado uma tendência constante e gradual de diminuição. Este percurso positivo chegou, aliás, a ser digno de destaque numa das últimas edições do Education at a Glance — o relatório anual da OCDE que sintetiza as principais estatísticas e dados comparativos dos sistemas educativos de todo o mundo.

Como tem evoluído este indicador?

A taxa de abandono precoce da educação e formação, também conhecida por taxa de abandono escolar precoce, olha para a população jovem que tem entre 18 e 24 anos e contabiliza quem não tem o ensino secundário e não está a estudar ou a ter formação.

Para situar a evolução deste indicador, refira-se que, em 1992, ainda nos primeiros anos da extensão da escolaridade obrigatória até ao 9.º ano (implementada em 1986), metade da população jovem portuguesa saía da escola apenas com o ensino básico, e muitas vezes incompleto. Em 2023, a diferença entre os alunos que abandonaram a escola sem terem completado o ensino secundário e os que ingressaram no sistema de ensino nacional não chega a 10%.

Gráfico 1: Taxa de abandono escolar precoce, em Portugal


Foi entre 2008 e 2015 que a taxa de abandono escolar precoce em Portugal se reduziu mais acentuadamente, diminuindo quase 20 pontos percentuais. As vias profissionalizantes foram uma das medidas que mais contribuíram para esta redução, assumindo um papel decisivo no apoio à permanência dos alunos na escola, levando a que um maior número concluísse o ensino secundário.

Como é que Portugal compara com a Europa?

Em 2022, a média da UE27 situava-se nos 9,6%. Acima desta média estavam países como a Islândia (16,5%), a Espanha (13,9%), a Noruega (13,2%) e a Itália (11,5%). A vantagem de Portugal, neste indicador, é óbvia.

Gráfico 2: Taxa de abandono escolar precoce, em Portugal e alguns países da Europa


O Gráfico 2 mostra bem como a evolução dos países europeus tem sido desigual. Em 2008, Portugal registava uma taxa de abandono escolar precoce de 34,9%, estando muito acima da média europeia de 14,4%. É interessante ver como Portugal evoluiu muito positivamente, especialmente quando comparado com a vizinha Espanha, que se situava 10 pontos percentuais abaixo de Portugal, em 1992, mas hoje em dia está cerca de 7,5 pontos percentuais acima.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

O Brincar Arriscado: um direito das crianças

O brincar é um comportamento fundamental e insubstituível na vida humana e principalmente na infância. É uma ferramenta ancestral, uma linguagem universal independentemente da cultura ou da situação geográfica. Brincar é um direito internacionalmente consagrado na Declaração Universal dos Direitos da Criança (20 de novembro de 1959) e na Adoção pela Assembleia Geral das Nações Unidas da Convenção dos Direitos das Crianças no seu artº 31 (20 de novembro de 1989). Através do brincar de forma livre e não estruturada, as crianças adquirem experiências com o imprevisto, o imprevisível e o incerto. O brincar vem de dentro, brotando imaginação e fantasia como um tempo próprio de ser criança. Por conveniência adulta, este tipo de comportamento é por vezes negligenciado, silenciado, bloqueado e maltratado, por ser considerado perda de tempo, um mero passatempo, não produtivo e secundário. As vantagens no seu desenvolvimento são muito significativas: capacidade de adaptação, cultura de sobrevivência, confronto com situações adversas, regulação emocional, autoconfiança, relação social e competências motoras, cognitivas e sociais.

De entre muitas dimensões do brincar nas primeiras idades, gostariamos de destacar as atividades lúdicas que implicam risco (Risk Play). Todos os animais, incluindo os humanos correm riscos na infância. Para adquirir a posição de pé e iniciar a marcha e a corrida, a criança necessitou de cair imensas vezes. É uma condição biológica inerente ao nosso desenvolvimento psicomotor. A vida exige confronto com o risco. Não existe risco zero. Quanto mais a criança se confronta com o risco mais adquire nível de segurança. A educação, perceção e controlo do risco só é possível através de confronto com situações arriscadas entre o corpo e o envolvimento físico construído e natural. A evidência científica tem vindo a demonstrar nos últimos anos, uma decadência enorme como as crianças se confrontam com situações de risco, principalmente físico-motor, no contexto familiar, escolar e comunitário. A superproteção adulta, por vezes patológica e a pandemia do medo que se instalou em todo o lado, referente a uma cultura social adversa a crianças em contextos de risco, tem vindo a desenvolver as taxas de sedentarismo infantil (inatividade física, níveis baixos de competências motoras, obesidade, etc.), diminuição de autonomia de mobilidade, contato com a natureza, e aumento da ansiedade, stress e imaturidade. Trata-se de um problema de saúde pública (física e mental), que implica a implementação de políticas públicas sobre o planeamento dos espaços escolares (naturalizados e humanizados) e espaços públicos urbanos (espaços e equipamentos com valor lúdico e de risco) que valorizem a sedução para uma mobilidade ativa mais verde e promotora da convivência social para todas as idades. É urgente libertar as crianças do aprisionamento a que estão sujeitas nas últimas décadas, para viverem a sua infância de forma plena. A infância só se vive uma vez e não é repetível. As crianças nas primeiras idades, deveriam confrontar-se com o brincar arriscado (com supervisão adequada), através de desafios de grandes alturas (saltar, trepar, escalada, etc.), grandes velocidades (escorregar, corridas, bicicleta, skate, etc.), ferramentas perigosas (machados, facas, canivetes, serras, martelos, pregos, cordas, etc.), elementos perigosos (fogo, água, etc.) desaparecer e esconder (escondidas, locais secretos, etc.), e luta e perseguição (apanhada, toca e foge, luta a brincar, etc.). Não é aceitável que se proíbam as crianças nos espaços escolares e na comunidade, de poderem subir às árvores, jogar à bola, fazer brincadeiras e jogos típicos da sua idade, fazer rodas, pinos à parede, etc. O corpo não deve ser formatado e policiado para estar sentado, quieto, em silêncio e obediente a aprender sem entusiasmo e curiosidade saberes numa escola tradicional, replicativa e conservadora. As crianças necessitam de expandir as suas energias naturais em situações de superação, aventura, risco e socialização. Recentemente a Sociedade de Pediatria do Canadá, recomendou aos seus pediatras, novas diretrizes a favor da implementação do jogo arriscado, sem supervisão adulta ou de modo muito limitado, considerando as vantagens para a saúde física e mental. As brincadeiras arriscadas permitem que as crianças tenham mais controle das suas atividades e sejam convidadas a ultrapassar os seus limites, com muitos benefícios na gestão de situações de incerteza. Estas formas de ação, não resultam em lesões muito graves ou fatais: joelhos esfolados ou, na pior das hipóteses, um braço quebrado não é assim tão catastrófico na vida de uma criança. Em outubro de 2021, foi publicado um artigo muito interessante no Jornal "The Guardien ", sobre os Espaços de Jogo Exteriores Públicos (parques infantis) na Alemanha e a posição dos "Designers" sobre a conceção novos modelos de espaços e equipamentos, mais ousados e como uma nova política para aumentar o risco nas brincadeiras das crianças, propondo uma retificação nas Normas Europeias existentes.

Os adultos cuidadores deveriam compreender melhor o significado e benefícios do brincar arriscado no desenvolvimento das crianças dos nossos dias, considerando a complexidade da nossa existência ancestral e a evolução dos modos de vida atuais. O mundo mudou rapidamente e a incerteza quanto ao nosso tempo também. Não há tempo para pensar o tempo das coisas do nosso corpo, da relação com os outros, do mundo que nos rodeia. A pressa em vivenciar tudo e a frustração de não conquistar nada. Perdemos o rumo da ética, da democracia, da consciência crítica da essência de ser, em oposição a uma valorização de uma aparência superficial e não na profundidade. Perdidos e vadios na velocidade de querer um domínio ditatorial de nós próprios num regime formatado de aparente democracia que se impõe sem ter a perceção do aprisionamento a que somos sujeitos por interesses alheios à conquista da nossa autonomia e liberdade. Talvez possamos regularmente subir às árvores, como deviam fazer as crianças, para reabilitar a nossa capacidade de contemplar o corpo lá do alto, perante a complexidade da nossa história evolutiva e a tragédia ecológica que está a danificar todos os dias o nosso planeta. Talvez o milagre (remédio/receita) para curar todos os males da humanidade, passe por voltar a ter a vontade de brincar para buscar o prazer da descoberta de existir, porque são essas energias que nos conduzem ao risco, aos limites, para se aprender a viver melhor, através da motivação intrínseca, controlo interno e suspensão da realidade. Subir às árvores como um sonho, inspiração divina, proximidade da morte (simbólica), e ter a iluminação de reabilitar o mundo (familiar, escolar, de saúde, do trabalho, do afeto, da empatia e da comunidade) para um paradigma revolucionário de convivência com o nosso corpo, os outros e o mundo que nos rodeia. Subamos todos às árvores por vários momentos para entender o que deveríamos ser, fazer e sentir na educação das nossas crianças.

Calos Neto

Fonte: Sábado

Estes professores não aprenderam a dar aulas

Hugo Fernandes, de 38 anos, entrou entusiasmado na Escola Básica e Secundária Michel Giacometti, na Quinta do Conde (Sesimbra). Mas já pensa em não regressar no próximo ano letivo. “Ia ser o professor que gostava de ter tido e nunca tive”, conta à SÁBADO. Nas primeiras duas semanas que deu aulas de matemática a turmas de 7º e 10º ano tudo correu muito bem. “Foi a fase de lua de mel”, conta Hugo Fernandes. Depois vieram as dificuldades. “Como é que alunos do 10º ano não sabem que é preciso estar em silêncio para a aula funcionar?”, pergunta-se. Pior é o desafio à autoridade: “Quando são chamados à atenção, não aceitam e questionam a atitude do professor.” (...)

Fonte: Sábado por indicação de Livresco
TI

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

INE contraria Ministério da Educação e confirma aumento do abandono escolar

O Ministério da Educação refuta o agravamento do abandono escolar precoce em Portugal para 8% em 2023, calculado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), alegando que “2021 e 2022 foram anos atípicos tanto no abandono escolar como nas taxas de sucesso” devido à pandemia, e assim os dados desses anos não devem ser usados para comparar com os mais recentes, avança esta quarta-feira o Público (acesso condicionado).

No entanto, em resposta ao Público, o órgão de estatística contradisse o Ministério, referindo que “a série de dados disponibilizada sobre o indicador em apreço é comparável no período de 2011 a 2023”, incluindo “a recente revisão efetuada pelo INE, na sequência dos resultados da análise do impacto da suspensão do modo de recolha durante o período pandémico Covid-19”. Importa salientar que o indicador apresentava uma tendência de gradual diminuição de abandono escolar precoce em Portugal desde 2017, tendência quebrada pelos últimos dados divulgados.

À Lusa, o gabinete do ministro João Costa indicou ser mais justo comparar os dados sobre o abandono escolar de 2023 com os de 2020. Dessa maneira, “a tendência portuguesa mantém-se”, registando-se “uma redução anual da taxa de abandono escolar precoce de cerca de 1% a 1,5% por ano, superior à média europeia”. O Ministério da Educação indicou ainda que o INE devia de rever os números referentes aos anos de pandemia pois o método de recolha utilizado – por telefone – “terá levado a uma subestimação do valor”. No entanto, segundo o Público, o instituto já efetuou uma revisão das estimativas, após notar “diminuição da taxa de resposta nos trimestres em que a recolha presencial esteve suspensa”.

Fonte: ECO

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

IA pode diagnosticar autismo infantil a partir de fotos oculares com ‘100% de precisão’

A nova tecnologia de inteligência artificial (IA) agora pode diagnosticar o autismo infantil a partir de fotos dos olhos das crianças com 100% de precisão.

De acordo com um estudo publicado no JAMA Network Open este mês, os pesquisadores tiraram fotos das retinas das crianças e as examinaram usando um algoritmo de IA de aprendizagem profunda para diagnosticar o autismo.

Para testar o algoritmo, os pesquisadores recrutaram 958 participantes, todos com idade média de 7,8 anos. Eles então fotografaram suas retinas para um total de 1.890 imagens.

O estudo diz que metade dos participantes já havia sido diagnosticada com transtorno do espectro do autismo (ADS) e que metade eram participantes controle de mesma idade e sexo.

O sistema de IA foi então treinado em 85% das imagens da retina, juntamente com pontuações de gravidade dos sintomas, para ajudá-lo a construir modelos nos quais basear o seu diagnóstico. Os outros 15% das fotografias de olhos foram guardadas para testes dos pesquisadores.

A triagem depende de um novo método desenvolvido pelos cientistas, que lhes permite acessar informações sobre o cérebro olhando para a parte posterior do olho, onde a retina e o nervo óptico se conectam ao disco óptico. Este método permitiu aos cientistas desenvolver um meio não invasivo de diagnosticar rapidamente concussões, iluminando a retina com lasers seguros para os olhos.

Durante esta fase de teste do estudo, o algoritmo de IA foi capaz de diagnosticar participantes com autismo infantil com precisão de 100.

Neste caso, os investigadores limitaram os dados de treino a crianças e adolescentes com idades entre os 4 e os 18 anos, mas pensam que também poderão funcionar em crianças ainda mais jovens em estudos futuros.

As descobertas apoiam o uso da tecnologia de IA como uma ferramenta objetiva de triagem para o diagnóstico precoce do autismo, especialmente quando o acesso a um psiquiatra infantil especializado é limitado.

O Science Alert relata que se acredita que cerca de uma em cada 36 pessoas seja autista, com base na prevalência entre crianças de oito anos. Portanto, ter conhecimento desse diagnóstico o mais cedo possível pode fazer uma enorme diferença para que os jovens se compreendam e percorram o mundo.

“As descobertas deste estudo sugerem que as fotografias da retina podem servir como um candidato viável para um método objetivo de triagem do autismo e possivelmente da gravidade dos sintomas”, escrevem os pesquisadores.

Fonte: petapixel por indicação de Livresco

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

SOLUÇÕES PEDAGÓGICAS PARA A DISLEXIA – C-PEN EXAMREADER

 A C-Pen ExamReader é uma ferramenta importantíssima para a inclusão de alunos com Perturbações da Aprendizagem Específicas (PAE), nomeadamente com Dislexia (denominada de PAE com défice na leitura, no DSM-5), ou com outras dificuldades na leitura. Também o demonstra ser para crianças, adolescentes e adultos que estejam a aprender outra língua, ou que tenham dificuldades visuais, como também para crianças que estejam a aprender a ler. É uma ferramenta inovadora, de alta tecnologia, criada com o objetivo de proporcionar condições de igualdade de oportunidades.

Uma ferramenta que revoluciona a vida de crianças, adolescentes e adultos com dislexia, um produto de Apoio

Considera-se Produto de Apoio qualquer produto, instrumento, equipamento ou sistema técnico usado por uma pessoa com deficiência, especialmente produzido ou disponível que previne, compensa, atenua ou neutraliza a limitação funcional ou de participação.

Produtos de Apoio – Decreto-Lei no 93/2009, de 16 de abril

Os CRTIC - Centros de Recursos TIC para a Educação Especial no apoio à inclusão

Os CRTIC são serviços especializados que têm como missão apoiar as escolas na promoção do sucesso educativo dos alunos sempre que sejam necessários produtos de apoio, procedendo à prescrição, ao aconselhamento, seleção e adaptação dos mesmos.
O acesso aos produtos de apoio constitui um direito garantido pela rede nacional de CRTIC.

Considera-se produto de apoio qualquer dispositivo ou sistema que permita aos alunos realizar uma atividade escolar, que de outra forma não conseguiriam, permitindo o pleno acesso ao currículo e elevados níveis de participação nos diversos contextos de aprendizagem.

Os CRTIC, na qualidade de entidades prescritoras, têm, entre outras, as seguintes atribuições:

Promoção de sessões públicas para a clarificação da utilização de produtos de apoio de acordo com as características dos alunos tendo como destinatários docentes, técnicos e encarregados de educação;

Nesse sentido, a utilização de produtos de apoio em contexto escolar constitui-se como um fator determinante para a inclusão e o sucesso educativo, permitindo minimizar ou eliminar barreiras no que respeita ao acesso ao currículo e à participação na vida escolar. Para muitos alunos, os produtos de apoio são essenciais para ler (…)

Aspetos a reter

A C-Pen ExamReader:
– Lê várias linhas do texto;
– Digitaliza e reproduz palavras, frases e textos em voz alta;
– Digitaliza e reproduz em vários idiomas, incluindo o português;
– É uma alternativa económica aos leitores humanos;
– O carregamento USB é rápido e eficiente;
– É leve e portátil;
– Permite que os alunos leiam por si mesmos, tornando-se assim mais autónomos, mais motivados, facilitando a sua aprendizagem e melhorando a sua autoestima;
Autonomia
– O aluno deixa de precisar do Professor para a leitura das provas;
– Não incomoda os colegas, caso a leitura seja feita na sala de aula;
– O aluno lê e relê as vezes que entender, até compreender; – A leitura é feita com o volume e com a velocidade que o aluno preferir;
– A leitura é feita corretamente;
Motivação
– O aluno torna-se mais motivado para ler, com ou sem o auxílio da “caneta”;
Aprendizagem
– Facilita a aprendizagem do aluno, o que se traduz em sucesso escolar;
Autoestima
– O aluno passa a ter o mesmo tratamento que os colegas;
– Deixa de precisar de sair da sala, para a leitura das provas, ou de ter algum Professor junto dele;
– Aumenta a confiança em si mesmo.

sábado, 10 de fevereiro de 2024

Zombies, cérebros e realidade aumentada. Os programas para crianças sobredotadas para quem a escola não chega

Dylan quer “sempre mais, mais de tudo, nunca nada chega”. É assim desde que entrou na escola, asseguram os pais, Rosalina Castanho e Mauro Inês. Era frequentemente o mais rápido nos treinos de futebol, acertava todos os desafios nas aulas e a energia nunca se esgotava — mesmo após um dia de brincadeiras com os amigos ou de crossfit com os pais. “Às vezes dá-nos uma abada, ainda lhe sobra energia e diz que nunca brincamos com ele”, contam ao PÚBLICO, sorridentes, com as conversas entusiasmadas de 24 crianças a eclodir na sala ao lado como barulho de fundo.

Estas são crianças como todas as outras. Aqui estão concentrados alguns dos miúdos mais brilhantes do concelho de Leiria: estão entre os 3% a 5% de crianças consideradas sobredotadas por apresentarem altas capacidades cognitivas, aliadas a uma criatividade fora do vulgar e a um grande envolvimento nas tarefas que lhes são dadas, como explica a psicóloga Ana Fernandes, também presidente da Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas (APCS).

Isto é, em cada 30 miúdos, um é sobredotado. Ou, por outras palavras, num agrupamento de escolas com mil crianças, há 30 que apresentam altas capacidades. E é importante que sejam sinalizadas e intervencionadas, que haja diferenciação pedagógica, defende Ana Fernandes. (...)

Continuação da reportagem em Público.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

PISA 2022: o retrocesso anunciado

O que é o PISA?

O PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) é um teste, realizado por cerca de 690 mil alunos em 2022, que representa assim cerca de 29 milhões de jovens de 15 anos nas escolas dos 82 países/economias participantes. O PISA avalia em que medida os alunos de 15 anos, perto do final da escolaridade obrigatória, adquiriram os conhecimentos e capacidades essenciais para a plena participação nas sociedades modernas.

O teste PISA concentra-se nos domínios nucleares de Leitura, Matemática e Ciências presentes em todos os sistemas de ensino modernos. Contudo, não verifica apenas se os alunos conseguem reproduzir conhecimentos: também examina até que ponto conseguem extrapolar o que aprenderam e aplicar esse conhecimento em cenários desconhecidos, dentro e fora da escola. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), esta abordagem avaliativa reflete o facto de as economias modernas recompensarem os indivíduos não pelo que sabem, mas pelo que podem fazer com o que aprenderam.

O PISA recruta os alunos de forma aleatória em várias etapas, assegurando a representação válida e fidedigna da população-alvo (alunos de 15 anos a frequentar qualquer modalidade de ensino e formação em qualquer subsistema de ensino, público ou privado). O teste computorizado (em 2022, apenas 4 países o fizeram em papel) recorre a uma composição complexa de itens dos diferentes domínios e em diferentes proporções.ISA avalia em que medida os alunos de 15 anos, perto do final da escolaridade obrigatória, adquiriram os conhecimentos e capacidades essenciais para a plena participação nas sociedades modernas.

Em cada edição há um domínio principal, que ocupa cerca de metade do teste; os domínios secundários ocupam os restantes 50%. Os países podem ainda optar por um quarto domínio inovador e pela literacia financeira, que repartem com os domínios secundários a metade disponível do teste.

Assim, o PISA apresenta maior fiabilidade dos resultados do domínio principal, que alterna em cada edição, e informação menos fiável nos domínios secundários. Em 2022 (como já tinha sido em 2012 e 2003), o domínio principal foi a Matemática; em 2018 (bem como em 2009 e 2000), a literacia de Leitura; e em 2015 (e 2006), a literacia de Ciências. O domínio inovador de 2022 é o Pensamento Criativo. Em todas as edições do teste, realizadas de três em três anos (excetua-se 2022, devido ao encerramento global das escolas), mantém-se inalterado um conjunto de questões — itens-âncora — de forma a estabelecer tendências, permitindo comparações válidas sobre a evolução do desempenho dos alunos ao longo do tempo.

Em 2022, como se referiu, o domínio principal do PISA foi a literacia matemática: em suma, a capacidade de raciocinar matematicamente e de formular, empregar e interpretar a matemática para resolver problemas num leque de cenários reais, ajudando os indivíduos a tomar decisões e fazer julgamentos fundamentados necessários aos cidadãos empenhados e reflexivos do século XXI. A Figura 1 ilustra os resultados mundiais do PISA a Matemática.

Figura 1: Pontuação a Matemática



Como tem evoluído Portugal no PISA?

Em Portugal, uma amostra de 6793 alunos — selecionados aleatoriamente em 224 escolas, por sua vez selecionadas aleatoriamente de todas as regiões administrativas de Portugal continental e regiões autónomas — realizaram a avaliação em Matemática, Leitura e/ou Ciências. Esta amostra representa cerca de 96 600 alunos de 15 anos (estimando-se que corresponda a 93% da população total de alunos desta idade).

Até 2018 inclusive, Portugal foi o único país da OCDE a demonstrar uma evolução positiva na literacia matemática. Partindo da antepenúltima posição na primeira edição do PISA, Portugal superou em 2015 a média dos seus congéneres da OCDE, mantendo esta superioridade em 2018, com 492 pontos a Matemática, mas com já declínios de 9 e 6 pontos a Ciências e Leitura, respetivamente.

Porém, a evolução positiva registada até 2015 também nas literacias de Leitura e Ciências inverteu-se nestas duas áreas, sofrendo quebras relevantes em 2018, agora confirmadas em 2022: menos 20 pontos na literacia de Matemática, menos 15 na de Leitura e menos 8 na de Ciências. Isto é relevante se consideramos que, em 2018, contrariamente a todas as edições anteriores, Portugal não alcançou o mínimo de amostragem, facto que — como anotado no relatório oficial da OCDE —inflacionou os resultados de 2018 (os alunos de baixos desempenhos foram os que faltaram mais ao teste de 2018).

Como ilustra a Figura 2, é preciso recuar cerca de 15 anos para observar desempenhos semelhantes dos alunos portugueses na história do PISA.

Figura 2: Evolução das Pontuações Médias




Em simultâneo, e em média, o PISA 2022 registou uma queda inédita no desempenho em toda a OCDE: comparativamente a 2018, quase 15 pontos na Matemática, o que equivale a cerca de três quartos de um ano de aprendizagem. Em Portugal, o desempenho médio a Matemática piorou 20 pontos, equivalente a um ano inteiro de escolaridade. Isso quer dizer que, por comparação com os colegas de 2018, os alunos de 2022 perderam conhecimentos e competências correspondentes a um ano de escolaridade. A diminuição no desempenho em Matemática é, na OCDE, três vezes maior do que qualquer mudança consecutiva anterior.

Em Portugal, registou-se, pela primeira vez na história do PISA, um retrocesso altamente significativo dos conhecimentos dos alunos portugueses nesta literacia.

É preciso recuar cerca de 15 anos para observar desempenhos semelhantes dos alunos portugueses na história do PISA.

Também em Portugal, 1 em cada 3 alunos tem dificuldades em realizar tarefas como usar algoritmos matemáticos básicos. A distância entre os melhores alunos (acima do percentil 90 nos resultados de Matemática) e os alunos mais fracos (abaixo do percentil 10) baixou significativamente, o que se explica pela redução não do número de alunos mais fracos, mas de melhores alunos: em Leitura e Ciências, a variação entre os dois tipos de alunos não foi significativa no mesmo período.

Como ilustra a Figura 3, o panorama médio da OCDE é ainda menos animador: 1 em cada 4 jovens de 15 anos é agora considerado aluno de baixo desempenho em Matemática, Leitura e Ciências. Isso significa que podem ter dificuldades em tarefas como usar algoritmos básicos ou interpretar textos simples. Em Matemática, Portugal está igual à OCDE: 1 em cada 3 alunos não atinge o nível de competências mínimas para o exercício da cidadania plena.

Figura 3: % de Alunos em cada Nível de Desempenho a Matemática



O encerramento das escolas explica a quebra de desempenho dos alunos?

O efeito do encerramento das escolas nos conhecimentos e competências dos alunos era esperado. Tem sido assim em todo o mundo, apesar de, em Portugal, oficialmente, ainda se ter tentado defender o contrário.

As estatísticas oficiais da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) revelaram que, no período da pandemia, as classificações internas das escolas subiram a todas as disciplinas nucleares, com algum paralelismo nos três domínios do PISA (Matemática, Português, Biologia e Geologia, e Física e Química), ainda que o relatório de diagnóstico de aprendizagens do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), apenas publicado em fins de outubro de 2023, aponte apenas uma redução considerável da literacia de Ciências entre 2021 — durante a pandemia — e 2023 — após a pandemia. Contudo, uma análise dos dados disponíveis mostrou perdas de aprendizagens consideráveis no 9.º ano a Leitura e a Matemática, especialmente nos níveis de literacia mais elementares.

Outros estudos internacionais realizados em Portugal, nomeadamente o TIMSS 2019 (antes da pandemia) e o PIRLS 2021 (no final da pandemia), já tinham registado piores resultados quando comparados com os resultados de edições anteriores (2015 e 2016, respetivamente). No TIMSS, que avalia a literacia em Matemática e Ciências em alunos do 4.º ano, a queda foi de 16 pontos. No PIRLS, que avalia a literacia de leitura em alunos do 4.º ano, a queda foi de 21 pontos. Estas quedas alinham-se com as que se observam agora no PISA 2022 em Matemática (20 pontos) e em Leitura (15 pontos).

Considerando todos os países da OCDE, o relatório oficial destaca que a queda só pode ser parcialmente atribuída à pandemia de covid-19. Tal como em Portugal, os desempenhos em Leitura e Ciências já estavam a diminuir antes da pandemia. Por exemplo, as tendências negativas no desempenho em Matemática já eram aparentes antes de 2018 na Bélgica, no Canadá, na República Checa, na Finlândia, em França, na Hungria, na Islândia, nos Países Baixos, na Nova Zelândia e na República Eslovaca. Em Portugal, observaram-se quebras relevantes pela primeira vez entre 2015 e 2018 em Leitura e Ciências, mas não em Matemática.

Como ilustra a Figura 4, a relação entre o encerramento das escolas induzido pela pandemia, frequentemente citado como a principal causa da queda do desempenho, não é tão direta. Em toda a OCDE, as escolas estiveram fechadas mais de três meses para cerca de metade dos alunos.

No entanto, os resultados do PISA não mostram uma diferença clara nas tendências de desempenho entre os países com encerramentos escolares limitados, como a Islândia, a Suécia e Taiwan, e os sistemas com encerramentos escolares mais longos, como o Brasil, a Irlanda e a Jamaica.

Esta conclusão é bem evidente para Portugal: aqui as escolas estiveram encerradas, em média, 49 dias, tal como na Estónia, Irlanda e Hungria. Contudo, enquanto em Portugal a queda a Matemática foi de 20 pontos, na Irlanda e na Hungria foi de 8 pontos, e na Estónia foi de 13 pontos: cerca de metade de Portugal. Mesmo na OCDE, a queda em literacia de Matemática foi inferior a 5 pontos à registada em Portugal (15 pontos na OCDE, por comparação a 20 em Portugal, entre 2018 e 2022).

Figura 4: Perdas Educativas - Diferença entre os scores PISA 2022 e de 2018

Perdas Educativas

(Diferença entre os scores PISA de 2022 e de 2018)



As diferenças nos sistemas educativos e nos fatores socioeconómicos — o acesso das famílias a recursos digitais, a capacitação digital dos docentes e dos alunos para usufruir do ensino a distância, as alterações de políticas educativas, etc. — explicarão certamente as diferenças de desempenho entre países. Em média, em todos os países da OCDE, cerca de três quartos dos alunos relataram sentir-se confiantes no uso das tecnologias de informação e comunicação, incluindo as plataformas de gestão de aprendizagem (por exemplo, o Moodle ou o Blackboard) e nos programas de comunicação por vídeo (WhatsApp, Messenger, etc.).

Como tem sido profusamente demonstrado em estudos publicados em revistas com revisão por pares— em livros e em documentos de trabalho —, é possível prever os efeitos de curto e de longo prazo de algumas políticas educativas. A introdução de mecanismos de prestação de contas (caso de exames com consequências para alunos e/ou escolas) leva de modo geral a melhorar o desempenho dos alunos a curto prazo. As alterações aos currículos, os objetivos de aprendizagem, as metas e políticas promotoras de sucesso têm habitualmente efeitos mais demorados: a evolução positiva ou negativa depende obviamente do sentido da mudança. A Figura 5 ilustra a associação entre algumas medidas políticas e os resultados médios do PISA nos três domínios referidos.

E a tecnologia na sala de aula?

Os alunos que passaram até uma hora por dia em dispositivos digitais para atividades de aprendizagem na escola obtiveram uma avaliação 14 pontos mais alta em Matemática do que os alunos que não passaram tempo nenhum, mesmo depois de se considerar o perfil socioeconómico dos alunos e das escolas. Além disso, observa-se esta relação positiva em mais de metade de todos os sistemas com dados disponíveis (45 países e economias).

No entanto, a tecnologia usada para lazer em vez de instrução, como os telemóveis, parece muitas vezes associar-se a resultados mais fracos. Os alunos que relataram ser distraídos por outros alunos que usam dispositivos digitais em pelo menos algumas aulas de Matemática obtiveram uma avaliação 15 pontos mais baixa do que os alunos que disseram que isso nunca ou quase nunca aconteceu. Em Portugal, 59% dos alunos reportaram distrair-se: 34% com o uso dos equipamentos digitais (smartphone, tablets, etc.) e 25% por colegas que usam o smartphone na sala de aula.

É necessário colmatar as disparidades regionais e socioeconómicas: a diferença do desempenho dos alunos dos estratos mais baixos por comparação com os dos mais elevados é de 100 pontos — o equivalente a quatro anos de escolaridade.
E agora?

Esta regressão significativa no desempenho dos alunos levanta questões importantes sobre os fatores subjacentes a esta tendência preocupante, que se observa desde 2015. É crucial examinar ao pormenor as variáveis que contribuem para a queda acentuada, a fim de desenvolver estratégias eficazes que a revertam.

O ponto de partida, certamente não o único, desta análise é explorar as condições específicas que acompanharam o encerramento das escolas em Portugal e as atividades de recuperação das aprendizagens. No entanto, é essencial compreender as evidências que nos chegam, de diversas fontes independentes, sobre o efeito das alterações recentes da política educativa.

Esta política encontra-se contaminada por um discurso traiçoeiro, que favorece a desvalorização e a eliminação da avaliação externa, diminuindo o peso dos exames na avaliação final. A isso aliou-se a substituição de metas de aprendizagem objetivas e mensuráveis por «aprendizagens essenciais» vagas e mínimas. Além disso, é necessário colmatar as disparidades regionais e socioeconómicas: a diferença do desempenho dos alunos dos estratos mais baixos por comparação com os dos mais elevados é de 100 pontos — o equivalente a quatro anos de escolaridade.

É ainda fundamental investigar as políticas educativas implementadas durante o período em questão e analisar como podem ter influenciado a aprendizagem dos alunos nos últimos oito anos. Tem ainda de se atentar na formação de professores, nos recursos educativos disponíveis e nos métodos de ensino. É imperativo alterar a organização das escolas, centradas na transição dos alunos, independentemente da aprendizagem que alcançaram.

Em suma, urge compreender os motivos e reverter os que explicam a queda significativa no desempenho de Portugal no PISA. Esta análise é essencial para aprimorar o sistema educativo e assegurar um futuro mais promissor para as gerações vindouras.

João Marôco