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sábado, 26 de setembro de 2026

Profissão sem regras põe em causa a inclusão de centenas de alunos surdos

Quase três décadas depois de ter sido criada, a profissão de intérprete de Língua Gestual Portuguesa (LGP) permanece sem regulamentação específica, embora continue a ser reconhecida por lei. A ausência de um enquadramento nacional uniforme está a criar desigualdades entre escolas, precariedade laboral e um crescente desgaste físico e psicológico entre os profissionais que garantem diariamente o acesso de quase mil alunos surdos à educação.

O alerta parte da Comissão de Intérpretes de Língua Gestual Portuguesa em Contexto Educativo, recentemente ouvida na Assembleia da República no âmbito de uma petição que reclama a regulamentação da profissão. O objetivo é definir regras nacionais para o exercício da atividade, protegendo profissionais sujeitos a elevado desgaste físico e cognitivo e garantindo uma resposta mais estável aos alunos surdos.

Fonte: JN

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Quase 40% das crianças têm excesso de peso e 44,7% consomem 'fast food'


A prevalência conjunta de excesso de peso e obesidade é mais elevada na Região Autónoma dos Açores, seguindo-se o Norte e a Madeira Os valores mais baixos registam-se na Península de Setúbal e na Grande Lisboa.

Quase quatro em cada 10 crianças entre os cinco e os 14 anos têm excesso de peso ou obesidade em Portugal e 44,7% consomem regularmente refeições rápidas, alimentos ultraprocessados ou refrigerantes, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE).

O INE divulga esta segubda-feira, 27 de julho, os resultados do módulo das crianças realizado no 4.º trimestre de 2025, no âmbito do Inquérito Nacional de Saúde, e destaca que quase metade (44,7%) das crianças dos 6 aos 14 anos consomem regularmente refeições ‘fast food’ ou alimentos ultraprocessados.

De acordo com o INE, há 81 mil crianças que consomem refrigerantes açucarados e 49 mil que consomem refeições rápidas ou alimentos ultraprocessados diariamente.

“O consumo deste tipo de alimentos é um hábito diário para 5,3% das crianças dos 6 aos 14 anos, enquanto 7,1% fazem-no entre quatro e seis vezes por semana e 32,3% entre uma e três vezes por semana”, lê-se na nota.

Por outro lado, mais de metade destas crianças (51,1%) só consome estes produtos uma vez por semana e 3,6% não os consomem de todo.

No que diz respeito aos refrigerantes e outras bebidas açucaradas, o INE adianta que se trata de “uma prática diária para 8,9% das crianças dos 6 aos 14 anos e muito frequente (4 e 6 vezes por semana) para 6,2%”.

“A maior parte das crianças, contudo, consome estas bebidas menos de uma vez por semana (33,6%) ou não consome de todo (19,4%)”, ressalva.

Ainda assim, os resultados mostram que o consumo diário de fruta é um hábito para 68,6% das crianças dos 6 aos 14 anos, sobretudo para as crianças dos 6 aos 9 anos (73,3%) e que o consumo regular de proteína animal ou vegetal é uma prática comum para a maioria das crianças destas idades (68,0%).

No entanto, quase quatro em cada 10 crianças dos 5 aos 14 anos tinham excesso de peso ou obesidade, registando-se quase 132 mil crianças obesas (12,9%) e outras 230 mil (22,6%) com excesso de peso.

“Enquanto na categoria de excesso de peso, a prevalência era bastante equilibrada na repartição por sexo e por grupo etário (com proporções entre 22% e 23%), a obesidade registava proporções significativamente mais elevadas no sexo masculino (15,0%) do que no sexo feminino (10,7%) e, especialmente, nas crianças dos 5 aos 9 anos (18,3%)”, refere o INE.

A análise por regiões mostra que a prevalência conjunta de excesso de peso e obesidade é mais elevada na Região Autónoma dos Açores (42,3%), seguindo-se o Norte (40,5%) e a Madeira (40,3%). Os valores mais baixos registam-se na Península de Setúbal (31,2%) e na Grande Lisboa (31,3%).

Globalmente, “92,3% das crianças com menos de 15 anos têm um estado de saúde referido como bom ou muito bom”, e as alergias são a doença que mais afeta as crianças com menos de 15 anos (14,9%), enquanto as perturbações de défice de atenção ou hiperatividade afetam 6,8% e os distúrbios da fala e da comunicação atingem 5,9% das crianças.

Quase duas em cada dez crianças (18,9%) tiveram as suas capacidades para realizar tarefas consideradas habituais para a idade afetadas por doenças ou problemas de saúde e quase metade (44,7%) das crianças entre os 6 e os 14 anos faltaram à escola por motivo de doença.

Há 58 mil crianças cegas e 13 mil com perda de audição.

O módulo das crianças integra pela primeira vez o Inquérito Nacional de Saúde e baseia-se em informação recolhida junto dos responsáveis parentais de menores de 15 anos.

O estudo incidiu sobre uma amostra representativa de 3.907 crianças residentes em Portugal, com dados recolhidos entre setembro e dezembro de 2025 através de entrevistas presenciais, telefónicas e pela Internet.

Fonte: Sapo por indicação de Livresco

sábado, 25 de abril de 2026

"Educação de surdos: inclusão que começa na língua"


Assinalado a 23 de abril, o Dia Nacional da Educação de Surdos traz para o centro do debate o modo como o sistema educativo responde à diversidade linguística desta população. Num artigo de Mara Moita, coordenadora do Mestrado em Língua Gestual Portuguesa e Educação de Surdos da Faculdade de Ciências da Saúde e Enfermagem da Universidade Católica Portuguesa, defende-se que a inclusão começa na língua e exige uma aplicação efetiva do modelo bilingue, ainda longe de estar plenamente concretizado.

Assinalar o Dia Nacional da Educação de Surdos é um convite a repensar, com compromisso, como o sistema educativo responde à diversidade linguística das pessoas surdas. Em Portugal, a educação de surdos está enquadrada num modelo bilingue que reconhece a Língua Gestual Portuguesa (LGP) como primeira língua e o português escrito como segunda (Decreto-Lei n.º 3/2008). No entanto, entre o princípio e a prática persistem desafios que importa tornar visíveis.

Uma educação verdadeiramente inclusiva começa pelo reconhecimento das necessidades comunicativas de cada aluno surdo. Não existe um perfil único. Existem níveis variados de proficiência em LGP e em português, diferentes experiências educativas e distintos graus de surdez. A população surda é, por isso, profundamente heterogénea. Inclui também crianças com implantes cocleares que, apesar de poderem beneficiar de acesso auditivo, continuam a apresentar necessidades específicas e dificuldades próprias no desenvolvimento linguístico oral e académico. Ignorar esta diversidade é comprometer o acesso ao currículo e, em última análise, o direito à aprendizagem.

Sabemos que quando a língua do aluno é integrada no processo de ensino-aprendizagem, cria-se um ambiente mais equitativo, onde o conhecimento pode ser construído com significado. Daqui decorre a necessidade urgente de desenvolver materiais didáticos bilingues, pensados de raiz para os nossos alunos surdos, e não meras adaptações tardias de conteúdos concebidos para ouvintes.

A LGP deve assumir-se plenamente como língua de trabalho em todas as disciplinas, e não apenas como recurso pontual. São vários os estudos científicos que nos demonstram que um bom conhecimento em língua gestual promove melhores resultados de literacia, através da transferência de vocabulário, compreensão de estruturas e capacidade narrativa. É, por isso, crucial a criação de manuais específicos para o ensino do português escrito como segunda língua, adequados às características sensoriais, linguísticas e cognitivas da população surda, cuja relação com a língua escrita se constrói a partir da perceção visual.

O avanço do conhecimento nas áreas da LGP e da educação de surdos é indispensável para criar e inovar metodologias, melhorar práticas e fundamentar políticas. A investigação assume, assim, um papel central. Neste domínio, destaca-se a importância dos ciclos de estudos avançados e da formação contínua que articulem competências linguísticas em LGP com estratégias didáticas inclusivas, qualificando os profissionais para uma atuação informada e sensível às especificidades dos alunos surdos e respondendo às exigências do ensino bilingue.

Celebrar a educação de surdos implica, assim, um compromisso coletivo: reconhecer a língua, respeitar a diversidade, formar profissionais e investir em conhecimento. Só assim a inclusão deixará de ser um ideal e passará a ser uma realidade vivida, dentro das nossas escolas.

Fonte: Sapo por indicação de Livresco

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Recomendação que garanta às pessoas surdas uma comunicação dedicada à segurança em contextos de emergência

A Assembleia da República, pela Resolução n.º 84/2026, de 20 de abril, resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição, recomendar ao Governo que:

1 - Reative a aplicação MAI 112, repondo o serviço de videochamada com intérprete de Língua Gestual Portuguesa para o número de emergência 112, do Centro de Orientação de Doentes Urgentes, a disponibilizar todos os dias, durante as 24 horas, em todo o território nacional, e dotando-a de funcionalidades de receção de alertas de emergência georreferenciadas, compatibilidade universal com as principais plataformas móveis e integração com o sistema de aviso por SMS da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil.

2 - Melhore a clareza e o conteúdo informativo das mensagens SMS de emergência emitidas no âmbito do Sistema Nacional de Monitorização e Comunicação de Risco, de forma a incluir:

a) A natureza e o nível de gravidade do fenómeno;

b) As zonas geográficas afetadas;

c) As medidas concretas de autoproteção recomendadas;

d) A localização de abrigos ou pontos de concentração de emergência na área;

e) Contactos de emergência adicionais relevantes.

3 - Estabeleça a obrigatoriedade de interpretação em Língua Gestual Portuguesa, certificada, em todos os briefings e comunicações públicas de proteção civil em situação de alerta especial, estado de calamidade ou outro, realizados pelo Governo, pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, pelas autarquias ou pelos serviços municipais de proteção civil.

4 - Promova formação obrigatória para profissionais com responsabilidades na área da proteção civil, a nível nacional e local, em comunicação de risco inclusiva e acessível, garantindo sensibilização sobre necessidades de pessoas surdas, pessoas cegas e com baixa visão e pessoas com reduzida literacia digital.

sábado, 15 de novembro de 2025

Mariana é médica, surda e a primeira nativa de língua gestual no SNS

Mariana Couto Bártolo nunca ouviu um som na vida. A surdez passou despercebida quase até aos dois anos, mas o diagnóstico foi contundente: “Surdez neurossensorial profunda.” Aos 29 anos, é médica interna no ano comum de formação – é médica com surdez profunda desde que nasceu e a primeira falante nativa de língua gestual portuguesa no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Diz que ser surda lhe dá “uma sensibilidade e uma maneira diferente de observar os doentes”.

A médica, nascida em Setúbal e criada em Lisboa, conseguiu “mascarar” a surdez até aos dois anos – “vivia numa casa antiga com soalho de madeira e, quando sentia as vibrações, do chão virava-me” —, mas foi denunciada pelo ladrar de um cão: “Na creche havia um cão que ladrava sempre que os pais iam buscar as crianças”, recorda. Todas as crianças reagiam quando ouviam o cão, excepto Mariana, que continuava absorta nas suas brincadeiras.

Ironicamente (ou não), o seu primeiro sonho foi ser médica veterinária. Só no 9.º ano é que mudou de ideias, depois de uma professora de Matemática lhe ter “plantado a semente” da Medicina. “Esta professora perguntou-me por que é que eu não considerava ser médica e ajudar outras pessoas surdas”, lembra. E assim foi.

O percurso até lá chegar foi “desafiante”. Em conversa com o P3, lembra que as barreiras tiveram de ser ultrapassadas com “criatividade”, mesmo no curso de Medicina da Universidade Nova de Lisboa. As aulas tinham de ser “gravadas e transcritas” em conjunto com os colegas, que também reviam “o conteúdo cientificamente”.

O exame oral da “temível cadeira de Anatomia” foi outro dos momentos que lhe ficaram na memória: o professor não acedeu ao pedido de uma avaliação por escrito. “Não por discriminação”, ressalva, mas porque achou que reunia condições para a prova oral.“No dia do exame estava muito assustada, sobretudo porque não me ia expressar de uma forma que é natural para mim — tenho voz de surda”, confessa.

“Deaf gain”

Foi com esforço (e uma boa dose de criatividade) que chegou ao consultório. Hoje, admite, a comunicação com os doentes pode tornar-se desafiante, mas isso não a assusta: “Ao longo de toda a minha vida sempre me adaptei aos outros, tentando várias formas de comunicar até me entenderem”.

“Começo pela via oral, esclarecendo que sou surda e que faço leitura labial. Se me compreenderem e eu a eles, o que acontece na maioria dos casos, o atendimento prossegue assim”, exemplifica. Quando a comunicação não é clara, escrever num papel ou no computador as perguntas que precisa de ver esclarecidas é a estratégia que usa.

No contacto com os doentes, acredita que a surdez a dotou de uma “sensibilidade” e forma de observar as pessoas e a sua expressão facial que se revela muito útil. Explica que na comunidade surda existe o conceito de “deaf gain”, que alude à surdez não como uma deficiência, mas como algo positivo e vital para a diversidade humana, o “reconhecimento e valorização das experiências e habilidades únicas das pessoas surdas”, esclarece Mariana.

Ainda há quem acredite que Mariana não pode “exercer qualquer especialidade, especialmente as que envolvem muita comunicação”, mas a médica rejeita essa opinião: são “barreiras impostas pela sociedade e pelo que é considerado a norma” e que podem ser facilmente ultrapassadas, especialmente com o recurso à tecnologia.

“Tenho as mesmas responsabilidades do que qualquer outro colega no mesmo patamar e cumpro as minhas funções com rigor.”

A língua gestual como primeira língua

A principal diferença surge quando, à sua frente, encontra alguém que também é surdo. É a primeira médica falante nativa de língua gestual portuguesa e, na comunicação com doentes surdos (especialmente nos casos mais complexos de doentes oncológicos ou internamentos psiquiátricos), já teve um papel essencial.

“A informação, transmitida com clareza, pode ser um factor determinante para a forma como os doentes surdos controlam e encaram o seu estado de saúde”, acredita. “Ainda há um longo trabalho por fazer” no SNS para que as pessoas surdas “possam ter acesso universal à saúde”, admite.

Essa diferença sente-se não apenas no acesso à saúde, mas também no acesso à educação. Depois de ter passado os primeiros anos de formação no Instituto Jacob Rodrigues Pereira (com ensino especializado para crianças surdas), a médica escolheu o ensino regular e chegou a ter “algumas horas de aulas por semana com recurso a intérpretes de língua gestual portuguesa”. Contudo, Mariana descobriu que “não gostava desse tipo de comunicação”, por ver o intérprete como um “intermediário”.

Preferindo sempre uma comunicação directa com as pessoas, optou, a partir do 9.º ano, por não ter intérprete nas aulas e esclarecer as suas dúvidas directamente com os professores.

Para ela, um ensino verdadeiramente eficaz para crianças surdas, que se equipare ao de crianças ouvintes, “tem de incluir o bilinguismo o mais precocemente possível”. É através da exposição constante, “tanto na escola como em casa”, com o português escrito e com a língua gestual portuguesa enquanto língua materna que as crianças surdas conseguem “ter um bom contacto com o mundo que as rodeia” e atingir o mesmo nível de aproveitamento escolar “que as demais crianças”, refere Mariana Bártolo. (...)

Continuação da notícia em Público com acesso livre

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

29% das crianças apresentam problemas audiológicos em idade pré-escolar, revela estudo da ESTeSC-IPC


Um estudo realizado pela Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Politécnico de Coimbra (ESTeSC-IPC) revelou que 29% das crianças apresentam problemas audiológicos à entrada para o 1º Ciclo do Ensino Básico. Os dados reforçam a importância da realização de rastreios em idade pré-escolar, uma vez que as dificuldades auditivas podem ter impacto significativo na aprendizagem da leitura e da escrita.

O estudo “Preschool Hearing Screening: Nineteen Years of the Coração Delta Project in Campo Maior, Portugal”, publicado na revista Audiology Research, analisa os resultados de dezanove anos de rastreios audiológicos realizados por docentes e estudantes da ESTeSC-IPC em Campo Maior, ao abrigo de um protocolo com a associação Coração Delta. Durante este período, foram realizados rastreios a 1068 crianças, com idades entre os cinco e os seis anos. Dessas, 310 (29 por cento) apresentaram algum tipo de problema audiológico. As ocorrências mais frequentemente registadas foram alterações no timpanograma, manifestadas unilateralmente em 104 crianças (9,7%) e bilateralmente em 81 crianças (7,6%).

“Embora os rastreios auditivos neonatais estejam largamente implementados em Portugal, a prevalência de alterações auditivas quase duplica em idade pré-escolar”, explica Margarida Serrano, docente da ESTeSC-IPC e coordenadora do estudo (que conta também com a participação da docente da ESTeSC-IPC, Cláudia Reis, e dos estudantes de licenciatura em Audiologia, Joana Pereira, Joana Teixeira, João Mendes e Mariana Pereira). A investigadora explica que estas alterações podem manifestar-se através de perda de audição (que se revela tardiamente) ou de uma sensação de “som abafado” e longínquo, provocada pela presença de secreções no ouvido médio.

Estas disfunções dificilmente são detetadas por pais e professores, mas podem ter um impacto negativo na aprendizagem escolar. “No processo de aprendizagem da leitura, é essencial ter uma audição clara”, frisa Margarida Serrano, acrescentando que “a deteção precoce destes problemas é essencial para um desempenho académico de sucesso”.

Cerca de 91% das crianças observadas pelo otorrinolaringologista no local do rastreio foram encaminhadas para uma avaliação hospitalar formal, uma vez que foram confirmadas patologias ou necessidades de saúde que exigiam intervenção médica.

“Estes dados demonstram, uma vez mais, a importância da realização de rastreios audiológicos em cuidados de proximidade”, frisa Margarida Serrano, lembrando o impacto que as dificuldades audiológicas não detetadas podem representar a longo prazo. “Um estudo recentemente publicado na revista Lancet mostra que a baixa literacia é o principal fator de risco de declínio cognitivo em idade jovem”, aponta. “O papel do audiologista é fundamental para despistar eventuais problemas audiológicos, que comprometem a aprendizagem à entrada no ensino básico e, consequentemente, a capacidade cognitiva no futuro”, defende.

Desde 2007 que, anualmente, a ESTeSC-IPC colabora com a associação Coração Delta, realizando rastreios audiológicos a todas as crianças que ingressam no 1º ano de escolaridade no concelho de Campo Maior. O protocolo prevê a realização de três avaliações: otoscopia (para analisar a presença de cerúmen), timpanograma (para avaliar a membrana timpânica e o ouvido médio) e rastreio de audição. Todas as crianças que apresentam algum tipo de desvio são, imediatamente, observadas por um otorrinolaringologista, presente no local.

Fonte: Beira Digital TV por indicação de Livresco

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Escola de Lisboa tem Língua Gestual Portuguesa como disciplina obrigatória

Susete Ornelas, docente surda, conseguiu introduzir a disciplina de LGP no currículo do Agrupamento de Escolas da Quinta de Marrocos. Uma medida que sonha ver aplicada em todas as escolas. (...)

Fonte: DN por indicação de Livresco

sábado, 14 de junho de 2025

Ouvir pela primeira vez: a operação que muda a vida de quem nasceu (ou ficou) surdo

Quem recebe os implantes nunca deixa de ser surdo. Se os retirar, volta a mergulhar num profundo silêncio. Esta tecnologia permite apenas resolver uma avaria na cóclea, dentro do ouvido interno. É realizada uma operação para colocar um recetor debaixo da pele, com um cabo, com vários elétrodos, ligado à cóclea. O processador é a parte externa. Transforma o som em sinais elétricos que chegam depois ao cérebro.

Depois dos rastreios neonatais e de outros exames mais rigorosos, confirmada a surdez, a Direção-Geral de Saúde recomenda, no caso das crianças, que os implantes sejam feitos antes dos dois anos. É o caso de Carlota, agora com 9 anos. Recebeu os dois implantes ainda bebé. Teve de passar por várias sessões de terapia da fala e de ajustes do processador. Aos dois anos e meio já cantava o hino nacional. Hoje em dia frequenta uma escola regular e pratica patinagem artística e natação.

Quanto aos adultos, em Portugal não existe uma idade para se colocar um implante. Depois de perderem a audição, e num período de cerca de 10 anos, podem ser implantados, desde que o nervo auditivo, que liga o ouvido ao cérebro, ainda esteja a funcionar.

Sebastião Palha, com surdez profunda, depois das próteses que usa deste pequeno, decidiu colocar, aos 23 anos, um implante. Só nessa altura ouviu, pela primeira vez, o som de um espirro, da respiração ou do próprio vento. Tem como língua materna a língua gestual portuguesa, ainda que reconheça a importância do implante, que o coloca também no mundo dos ouvintes.

"Não me tenho que encaixar só naquele mundo. Posso estar nos dois mundos. Eu sou o Sebastião, acima de tudo, e que por acaso fala, e que por acaso também fala língua gestual", diz Sebastião Palha, que é atualmente um dos poucos psicólogos clínicos surdos do país.

Em Portugal, o primeiro implante coclear foi feito há precisamente 40 anos, em Coimbra. Terão já sido realizadas cerca de quatro mil, entre hospitais públicos, que comparticipam todos os custos, e os privados, onde uma operação em simultâneo aos dois ouvidos pode chegar aos 80 mil euros. Portugal tem sido também um dos países pioneiros, na Europa, no acompanhamento destes casos. Quatro décadas depois, são vários os casos de sucesso, entre crianças e adultos.

Fonte: SIC Notícias com reportagem em vídeo

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Seleção de conteúdos educativos digitais com Intérprete de Língua Gestual Portuguesa

 



RED com Interpretação em Língua Gestual Portuguesa

A plataforma estudoautonomo.dge.mec.pt é de livre acesso e disponibiliza várias tipologias de conteúdos educativos digitais do 1.º ao 12.º ano de escolaridade.

A pensar em todos, a maioria dos nossos conteúdos incluem Interpretação em Língua Gestual Portuguesa. E agora, basta um click para poderem ser selecionados.

Fonte: DGE por indicação de Livresco

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

César Casa Nova: um percurso pela inclusão

Em 2014, César Casa Nova ingressou na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), trazendo consigo um sonho e uma determinação inabalável. Surdo e com baixa visão, superou os desafios que encontrou pelo caminho e transformou-os em oportunidades para crescer e inspirar todos ao seu redor.

Tudo começou com a paixão pela Matemática. Encontrou desde logo dificuldades de comunicação que foram barreiras à aprendizagem. “Passei a fazer pedidos de ajudas técnicas para melhorar: de tradução adaptada das intérpretes através da tradução em língua gestual tátil; dos materiais de apoio, tal como um monitor maior para ver bem os programas computacionais nas aulas práticas de Geometria e de outras UCs; de quadros brancos e ampliação de letras/imagens e de mudança de tipos de letras/gráficos nos slides dados pelos professores”, lembra.

No ano letivo em que concluiu o curso, 2020/2021, surgiram novos desafios devido à pandemia Covid-19 e à implementação do Ensino a Distância. Com a ajuda de colegas, técnicos e professores, conseguiu um segundo ecrã para poder acompanhar a intérprete durante as aulas, o que tornou a comunicação mais fácil.


De forma proativa, durante a licenciatura, César ensinou ainda os estudantes e funcionários à sua volta a comunicarem através da Língua Gestual Portuguesa (LGP). O seu trabalho valeu-lhe a o Prémio Cidadania da U.Porto na vertente Humanitária e/ou Solidária, atribuído em 2020.

O jovem natural da Póvoa de Varzim criou também códigos gestuais para serem usados pelas intérpretes de LGP em Matemática e mais tarde os poderem usar para traduzir para outros surdos e surdocegos.

A paixão por aprender levou César Casa Nova a querer saber mais para poder ensinar Matemática aos surdos e surdocegos mais jovens. Por essa razão, entrou no Mestrado em Ensino e Divulgação das Ciências, concluído recentemente com a defesa de dissertação: “Ensino de Matemática e Inclusão: adaptações curriculares para alunos com necessidades educativas especiais”.


(Foto: DR)

Durante o seu percurso académico, participou em atividades dentro e fora de Portugal sobre a surdocegueira, tendo, por exemplo, participado, no âmbito do Programa Erasmus +, num workshop realizado na Bélgica.

César Casa Nova tem tido um papel ativo em investigações sobre a surdez e a comunidade surda e lutado por uma causa que lhe diz muito: “o reconhecimento da existência de Surdocegos em Portugal e a possível/futura entrada deles nas escolas Secundárias e Universidades”, bem como “a necessidade de criar condições para a sua Vida Ativa”.

Para o futuro, sonha com acessibilidade laboral e mais inclusão e promete não baixar os braços. (...)

Fonte: Notícias UP por indicação de Livresco

terça-feira, 25 de junho de 2024

Todos os viram nos ecrãs do Rock in Rio: intérpretes de língua gestual (também) deram espetáculo

Inclusão é um conceito cada vez mais presente no Rock in Rio. Os pormenores que passam despercebidos a alguns festivaleiros, são fundamentais para quem não consegue ver ou ouvir um concerto.

Certo é que, entre o público, ouvem-se com frequência comentários à prestação dos intérpretes de língua gestual portuguesa que aparecem nos ecrãs gigantes, aos olhos de todos, no Parque Tejo. “Olha, olha”, diz um festivaleiro, enquanto aponta para a tela onde dança a intérprete. Apesar de este ser o trabalho mais visível, há também quem esteja numa pequena mesa na bancada das acessibilidades a transmitir via áudio, a quem não consegue ver o espetáculo, os pormenores do que se passa em cima do palco.

“Está linda a lua”, relata Patrícia Saiago, responsável pela acessibilidade e audiodescrição, aos invisuais que se juntam na lateral da bancada.

No sábado, dia 22 de junho, bateu-se um recorde: 12 pessoas invisuais estiveram, em simultâneo, a ouvir a audiodescrição. Por média, nos quatro dias de festival, sete a oito pessoas recorreram ao serviço disponibilizado pelo Rock in Rio.

“Ontem tivemos várias pessoas aqui com deficiência visual e foi lindo ver os casais a dançar, ver as expressões…”, conta à SIC Notícias Patrícia Saiago. “Tudo isso completa a imersão”, acrescenta.

De edição para edição, o Rock in Rio tem apresentado melhorias na acessibilidade ao festival, recorrendo a meios que poucos festivais utilizam. “O Rock in Rio traz uma maior imersão a esse público [pessoas com deficiências] para tentar que eles sintam tudo da forma mais próxima possível”, diz a responsável pela acessibilidade.

O serviço de audiodescrição, utilizado pela primeira vez nesta edição da Cidade do Rock, é exclusivo ao Palco Mundo. Já a tradução dos concertos por intérpretes de língua gestual acontece em dois palcos, de forma diferente: no principal, através dos ecrãs gigantes, e no Palco Galp (o secundário) com a presença do próprio intérprete na frente de palco, em contacto direto com o público.

As palavras e emoções dos artistas nacionais e internacionais que pisam estes dois palcos passam pelas mãos dos sete intérpretes de língua gestual portuguesa que compõem o grupo. É deles o corpo que exalta a alegria ou a tristeza do momento, são deles as ancas que vão marcando o ritmo da canção.

A preparação é meticulosa. Para além do número exigente de concertos, é preciso tempo para ler as letras, ouvir as músicas, antes de o espetáculo arrancar. Nos intervalos, e se houver acesso prévio à setlist dos artistas, é tempo de ensaiar. Por concerto, na pequena sala de onde são lançados para o Palco Mundo estão três intérpretes.

“Nem sempre é fácil. Gostávamos de ter acesso à setlist com um bocadinho mais de antecedência para podermos preparar melhor o nosso trabalho, mas tentamos sempre fazer o melhor”, conta a intérprete Ângela Ricardo.

Na sala, estavam também Ana Rita Amaral e Márcio Antunes. Preparavam-se para o concerto de Ne-Yo, depois do espetáculo da espanhola Aitana.

“Tentamos passar ao máximo o que se está a viver em cima do palco. Quando o cantor é mais emotivo, mais expressivo”, acrescenta a intérprete em entrevista à SIC Notícias.

O trabalho desta equipa de sete intérpretes não tem passado despercebido e o feedback não tem partido apenas de pessoas surdas que têm assistido ao festival.

“Há pessoas que não percebem nada de língua gestual mas que gostavam de ver o nosso entusiasmo a trabalhar”, conta.

O ciclo está-se a quebrar, diz a responsável pela acessibilidade. Há cada vez mais pessoas que participam no Rock in Rio por saberem que, à espera, têm uma experiência inclusiva.

Fonte: SIC Notícias, com vídeo, por indicação de Livresco

quinta-feira, 9 de maio de 2024

“Nova era no tratamento da surdez” : criança começa a ouvir depois de terapia genética

A neuropatia auditiva é uma condição que decorre de uma falha na condução dos impulsos nervosos que transportam as informações sonoras do ouvido interno para o cérebro. Esta perturbação na audição de Opal Sandy, de 18 meses, fez com que a criança fosse surda de nascença. Graças a uma inovadora terapia genética, a menina de Oxfordshire, em Inglaterra, já consegue ouvir.

Bastaram seis meses para que Opal, para além de conseguir ouvir sons suaves, como sussurros, já conseguisse dizer palavras como “mamã” e “papá”. Como conta o The Guardian, os pais da menina “nem conseguiam acreditar”. “Foi uma loucura”, afirmou Jo Sandy, mãe da criança.

O tratamento desenvolveu-se no Hospital de Addenbrooke, unidade hospitalar universitária e centro de pesquisa de Cambridge, que está a executar o ensaio clínico Chord (https://www.senselab.neurosciences.medschl.cam.ac.uk/our-research/chord-gene-therapy-clinical-trial). O estudo analisa o uso da terapia genética DB-OTO em crianças com mutações no gene OTOF (otoferlina). Através da terapia genética é fornecido ao ouvido interno dos pacientes uma versão funcional deste gene.

Opal Sandy realizou a cirurgia, que durou apenas 16 minutos, no ouvido direito. Foi-lhe também aplicado um implante coclear no ouvido esquerdo. Algumas semanas depois, a criança já conseguia ouvir sons altos, como palmas. 

Em declarações ao The Guardian, o professor Manohar Bance, cirurgião e principal responsável pelo ensaio, disse que este é apenas o início das terapias genéticas. “Isto marca uma nova era no tratamento da surdez”, sublinha o especialista. 

O ensaio clínico Chord consiste no teste de três crianças, Opal incluída, com a inserção do gene nas células através de um vírus, apenas num ouvido. Será aplicada a outras três crianças uma dose mais alta. Se for considerado seguro, mais crianças poderão receber a terapia em ambos os ouvidos, e ao mesmo tempo.

Uma segunda criança terá realizado recentemente o tratamento de terapia genética num hospital universitário de Cambridge, tendo obtido resultados positivos. No total, serão 18 crianças de vários países a serem recrutadas para o ensaio. Incluem-se os Estados Unidos, Reino Unido e Espanha. 

O professor Bance espera que a terapia possa ser aplicada a outros tipos mais comuns de perda auditiva: “Espero que possamos começar a usar terapia genética em crianças pequenas onde realmente restauramos a audição e elas não precisam de ter implantes cocleares e outras tecnologias que precisam de ser substituídas". 

Fonte: Público

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

A história do árbitro a quem a surdez não impede de apitar

A carreira de David Santos é uma demanda por igualdade, ética, inclusão e quebra de preconceitos no desporto. Ser árbitro surdo é espinhoso, mas nem tudo é mau – pelo menos, não ouve os insultos.

A poucos minutos do início de um jogo de futsal, o árbitro David Santos está na zona de acesso à quadra. Encontra-se com os jogadores e informa-os de que é surdo. Nessa medida, solicita que, quando quiserem falar com ele, o façam de frente e de forma pausada – David precisa da leitura labial para entender.

Depois, trata-se de correr de um lado ao outro da quadra de futsal, de apito na mão. Usá-lo para apitos diversos: umas vezes fortes, outras nem tanto – no caso de David, a gestão do jogo e a comunicação dependem ainda mais do uso claro e diferenciado do apito.

Trata-se ainda de ser insultado, mas não ouvir. Comunicar, mas sem verbalizar frases facilmente perceptíveis. Acalmar a ira dos jogadores, mas sem diálogos complexos. Um “tenha calma, senhor jogador. Concentre-se no seu jogo, que eu trato da arbitragem” não faz parte dos predicados de David Santos na gestão de um jogo.

“Eu consigo comunicar verbalmente. Há quem me entenda e há quem não me entenda, devido ao meu sotaque de surdo. Eu sou surdo de nascença, a minha língua materna é a língua gestual portuguesa. Com as mãos também consigo falar, mas há quem me perceba e há quem não me perceba”, explica ao PÚBLICO este técnico de backoffice de farmácia, numa conversa mantida em registo escrito. (...)

Fonte: Continuação da notícia em Público

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Não é preciso ser surdo para aprender língua gestual portuguesa na escola

Há 17 estabelecimentos de ensino de referência para a educação bilingue de estudantes surdos, alguns têm disciplina como opção. Em maio, existiam 70 docentes de LGP.

Pedro Pires sabe de cor o alfabeto em Língua Gestual Portuguesa (LGP). Sabe, também, comunicar com as mãos o nome de objetos e das cores. Atualmente, está a aprender os verbos e, com entusiasmo, diz querer descobrir mais. Pedro tem nove anos, não é surdo e, à semelhança dos colegas do Agrupamento de Escolas Eugénio de Andrade, no Porto, está a aprender LGP. O agrupamento integra a lista de 17 estabelecimentos de ensino que compõem a rede de referência para a educação bilingue de alunos surdos e decidiu alargar a aprendizagem da LGP a todos os estudantes. Com ou sem surdez. (...)

Fonte: Continuação da notícia em JN, por indicação de Livresco

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Mariana é médica, surda e a primeira nativa de língua gestual no SNS

Mariana Couto Bártolo nunca ouviu um som na vida. A surdez passou despercebida quase até aos dois anos, mas o diagnóstico foi contundente: “Surdez neurossensorial profunda.” Aos 29 anos, é médica interna no ano comum de formação – a única médica com surdez profunda desde que nasceu no país. É também a primeira falante nativa de língua gestual portuguesa no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Diz que ser surda lhe dá “uma sensibilidade e uma maneira diferente de observar os doentes”.

A médica, nascida em Setúbal e criada em Lisboa, conseguiu “mascarar” a surdez até aos dois anos – “vivia numa casa antiga com soalho de madeira e, quando sentia as vibrações, do chão virava-me” —, mas foi denunciada pelo ladrar de um cão: “Na creche havia um cão que ladrava sempre que os pais iam buscar as crianças”, recorda. Todas as crianças reagiam quando ouviam o cão, excepto Mariana, que continuava absorta nas suas brincadeiras.

Ironicamente (ou não), o seu primeiro sonho foi ser médica veterinária. Só no 9.º ano é que mudou de ideias, depois de uma professora de Matemática lhe ter “plantado a semente” da Medicina. “Esta professora perguntou-me por que é que eu não considerava ser médica e ajudar outras pessoas surdas”, lembra. E assim foi.

O percurso até lá chegar foi “desafiante”. Em conversa com o P3, lembra que as barreiras tiveram de ser ultrapassadas com “criatividade”, mesmo no curso de Medicina da Universidade Nova de Lisboa. As aulas tinham de ser “gravadas e transcritas” em conjunto com os colegas, que também reviam “o conteúdo cientificamente”.

O exame oral da “temível cadeira de Anatomia” foi outro dos momentos que lhe ficaram na memória: o professor não acedeu ao pedido de uma avaliação por escrito. “Não por discriminação”, ressalva, mas porque achou que reunia condições para a prova oral. “No dia do exame estava muito assustada, sobretudo porque não me ia expressar de uma forma que é natural para mim — tenho voz de surda”, confessa.

“Deaf gain”

Foi com esforço (e uma boa dose de criatividade) que chegou ao consultório. Hoje, admite, a comunicação com os doentes pode tornar-se desafiante, mas isso não a assusta: “Ao longo de toda a minha vida sempre me adaptei aos outros, tentando várias formas de comunicar até me entenderem”.

“Começo pela via oral, esclarecendo que sou surda e que faço leitura labial. Se me compreenderem e eu a eles, o que acontece na maioria dos casos, o atendimento prossegue assim”, exemplifica. Quando a comunicação não é clara, escrever num papel ou no computador as perguntas que precisa de ver esclarecidas é a estratégia que usa.

No contacto com os doentes, acredita que a surdez a dotou de uma “sensibilidade” e forma de observar as pessoas e a sua expressão facial que se revela muito útil. Explica que na comunidade surda existe o conceito de “deaf gain”, que alude à surdez não como uma deficiência, mas como algo positivo e vital para a diversidade humana, o “reconhecimento e valorização das experiências e habilidades únicas das pessoas surdas”, esclarece Mariana.

Ainda há quem acredite que Mariana não pode “exercer qualquer especialidade, especialmente as que envolvem muita comunicação”, mas a médica rejeita essa opinião: são “barreiras impostas pela sociedade e pelo que é considerado a norma” e que podem ser facilmente ultrapassadas, especialmente com o recurso à tecnologia.

“Tenho as mesmas responsabilidades do que qualquer outro colega no mesmo patamar e cumpro as minhas funções com rigor.”

A língua gestual como primeira língua

A principal diferença surge quando, à sua frente, encontra alguém que também é surdo. É a primeira médica falante nativa de língua gestual portuguesa (https://www.publico.pt/2018/11/14/p3/noticia/ja-esta-online-o-primeiro-dicionario-de-lingua-gestual-portuguesa-1851060) e, na comunicação com doentes surdos (especialmente nos casos mais complexos de doentes oncológicos ou internamentos psiquiátricos), já teve um papel essencial.

“A informação, transmitida com clareza, pode ser um factor determinante para a forma como os doentes surdos controlam e encaram o seu estado de saúde”, acredita. “Ainda há um longo trabalho por fazer” no SNS para que as pessoas surdas “possam ter acesso universal à saúde”, admite.

Essa diferença sente-se não apenas no acesso à saúde, mas também no acesso à educação. Depois de ter passado os primeiros anos de formação no Instituto Jacob Rodrigues Pereira (com ensino especializado para crianças surdas), a médica escolheu o ensino regular e chegou a ter “algumas horas de aulas por semana com recurso a intérpretes de língua gestual portuguesa”. Contudo, Mariana descobriu que “não gostava desse tipo de comunicação”, por ver o intérprete como um “intermediário”.

Preferindo sempre uma comunicação directa com as pessoas, optou, a partir do 9.º ano, por não ter intérprete nas aulas e esclarecer as suas dúvidas directamente com os professores.

Para ela, um ensino verdadeiramente eficaz para crianças surdas, que se equipare ao de crianças ouvintes, “tem de incluir o bilinguismo o mais precocemente possível”. É através da exposição constante, “tanto na escola como em casa”, com o português escrito e com a língua gestual portuguesa enquanto língua materna que as crianças surdas conseguem “ter um bom contacto com o mundo que as rodeia” e atingir o mesmo nível de aproveitamento escolar “que as demais crianças”, refere Mariana Bártolo.

E a saúde mental?

Para além do percurso na medicina, Mariana é também uma defensora activa dos direitos da comunidade surda – especialmente no que toca a saúde mental. É vicepresidente da Federação Portuguesa das Associações de Surdos e esteve envolvida na criação do primeiro curso de saúde mental para surdos (https://www.publico.pt/2022/11/15/p3/noticia/associacao-lanca-curso-saude-mental-surdos-portugal-2027835).

“As pessoas surdas têm maior propensão para doenças mentais”, contextualiza. Isso explica-se por vários motivos: a maior tendência para o isolamento devido às barreiras na educação ou no trabalho, a privação da língua ou “o facto de crescerem num ambiente em que a família não comunica com elas (https://www.publico.pt/2017/11/14/p3/noticia/a-vida-normal-dos-cottim-uma-familia-com-a-voz-nas-maos-1833317) — no caso de famílias que não dominem a língua gestual”.

“As doenças mentais que afectam as pessoas surdas são muito pouco estudadas”, afirma. “Os profissionais da área não estão informados nem preparados para interagir fluentemente com um doente surdo” e uma falha na comunicação resulta, muitas vezes, “em diagnósticos equívocos”. Ela quer mudar isso.

Fonte: Público na versão de acesso livre

quinta-feira, 29 de junho de 2023

Os surdos também cantam. "Uma aventura" onde "podemos fazer tudo"

Um piano e algumas pautas de música repousam silenciosos, no auditório da Orquestra Metropolitana de Lisboa (OML).

A maioria das cadeiras está vazia. São mais os professores do que os alunos neste ateliê de formação musical para pessoas surdas. Na primeira sessão, com instrumentos musicais, ainda apareceram alguns surdos. Uma semana depois, Débora Pereira é a única inscrita. Surda, a trabalhar na área da contabilidade e com experiência no teatro, Débora confessa que costuma "cantar" em casa, em língua gestual portuguesa (LGP), "às escondidas" e encara o ateliê como "uma forma de me libertar e cantar um bocadinho, [porque] sou um bocadinho envergonhada". Débora comunica com gestos e só a percebemos com a ajuda de Sofia Figueiredo, intérprete de LGP que empresta a voz aos surdos desta sessão. Além da aluna Débora Pereira, apresentam-se António Cabral e Carlos Gonçalves, do coro Mãos que cantam. O grupo é composto por cinco surdos, dirigidos pelo cantor e professor da Universidade Católica, Sérgio Peixoto.

"Vivemos todos dentro da música, porque nós, ouvintes, ouvimos a música, mas eles vêem a música. A música para eles, é muito visual. A voz deles é o gesto", realça Sérgio Peixoto, descrevendo o método de trabalho. "O texto original é passado para gesto, para dar a noção da música, para sentir que há música no gesto." Do trabalho em conjunto, nasce a glosa que será interpretada pelo coro. Assim, canta-se não com a voz, mas com as mãos, o gesto, o corpo todo.

Surdo profundo, António Cabral conta que não consegue tocar instrumentos musicais. Através da vibração, consegue sentir alguma coisa, mas não o suficiente para tocar. Por isso, canta com os gestos e tem ensaiado todos os dias, com o desafio de gestuar as músicas da Jornada Mundial da Juventude. O coro "Mãos que cantam" vai interpretar em LGP todas as músicas do evento. O desafio entusiasma também Carlos Gonçalves, que assume ser muito expressivo. "Sou uma pessoa visual", descreve. Sempre gostou de fazer movimentos artísticos e quando foi convidado para integrar o coro, "não pensei muito", apesar de notar a estranheza da "minha própria família. As pessoas acham que os surdos não são capazes", constata, enquanto Sérgio Peixoto garante "podemos fazer tudo e mais alguma coisa na música".

Exemplo disso é o repertório das "Mãos que cantam". Já interpretaram "desde música medieval até Xutos & Pontapés, do século XII ao século XXI, Bach, Beatles, Jorge Palma", cabem todos neste universo.

Na sessão da OML, o director do coro convida Débora a gestuar o refrão da música "Trazes luar", cantada pelo barítono Manuel Rebelo. Primeiro em silêncio, apenas com as mãos e a expressão corporal, a aluna canta em LGP. "Anda comigo abraçar o mar, daquela praia que nos viu chegar, a este amor prometido, no primeiro olhar que eu aqui lancei e onde comprovei que é contigo que eu quero ficar." O objectivo é "dar espaço para que exprimam a vossa arte", destaca Sérgio, que aprendeu LGP quando decidiu formar o grupo Mãos que cantam.

"Muitas pessoas surdas e cegas, que querem ter educação musical, batem à porta dos conservatórios e não são respondidas", confirma Rui Campos Leitão, coordenador do projecto "Vem musicar connosco", da OML. Depois de quatro ateliers com pessoas surdas, cegas e com baixa visão, será feita uma reflexão para ajustar o projecto e dar início a aulas em Setembro, culminando com um concerto em Novembro, no teatro São Luiz, em Lisboa.

"A pretensão é constituir núcleos de alunos surdos e cegos", que irão subir ao palco para interpretar a Sinfonia n.º 29 de Mozart, dirigidos por um maestro cego; o terceiro concerto para piano de Beethoven, interpretado pelo pianista cego Jorge Gonçalves; uma obra original de Lino Guerreiro e a obra Va pensiero, da ópera Nabucco, de Verdi. "Não há um aluno igual ao outro, seja ele surdo, cego ou qualquer outro. Todos são diferentes", frisa Rui Campos Leitão. "Queremos integrar todos", mas "os jovens (surdos) não estão a aparecer". Por isso, o Vem musicar connosco terá de sofrer "ligeiras alterações" e ir ao encontro dos alunos surdos nas escolas. "É uma aventura, estamos a aprender todos os dias", afirma, em jeito de convite. "Estamos abertos a todos, disponíveis e com vontade de experimentar todas as faixas etárias. Portanto, sem medos. Venha musicar connosco."

O projecto foi um dos 30 seleccionados, entre 300 candidaturas, para financiamento da União Europeia. A participação é gratuita. Os surdos, cegos ou pessoas com baixa visão interessados devem inscrever-se no site da OML.

Fonte: TSF por indicação de Livresco

sábado, 24 de dezembro de 2022

Maria ensina na escola onde aprendeu que ser surda não a impede de nada

Os gorros natalícios com que os alunos cobriram a cabeça sobressaem no contraste com o fundo verde. Dinis opera a câmara, em frente da qual se põe Rafael. É o mais expressivo dos cinco rapazes desta turma da Escola João Araújo Correia, em Peso da Régua. Tem olhos muito claros e gestos muito vincados. Com as mãos, repete a frase: “Larga o jogo, vem aí o Ano Novo.”

A turma está a criar um material bilingue, em português e língua gestual portuguesa (LGP), sobre “isolamento social”, para ser divulgado na página da Internet onde este agrupamento reúne materiais didácticos para alunos surdos e ouvintes. “As mãos não são só para jogar, são para comunicar” é outra das mensagens do vídeo.

“Temos visto que os jovens estão muito focados nos jogos, especialmente depois da pandemia. A ideia foi falarmos um pouco disso e de como evitá-lo”, contextualiza Maria Oliveira. É a professora dos cinco rapazes que compõem esta turma. Alunos e docente são surdos e a LGP é a sua língua materna. A professora dá hoje aulas nas mesmas salas onde aprendeu.

O PÚBLICO conheceu Maria Oliveira em 2018. Foi um dos 44 alunos que responderam ao exame nacional de Português Língua Segunda (PL2), uma prova feita especificamente para alunos surdos, que nesse ano foi realizada pela primeira vez. Com as notas desse ano, entrou na licenciatura em Comunicação e Design Multimédia, do Politécnico de Coimbra, mas não gostou da experiência.

“Fiz uma pausa. Tive de pensar melhor e percebi que o queria mesmo era ser professora de LGP.” No ano seguinte, mudou de curso, e completou a licenciatura de ensino de Língua Gestual Portuguesa na Escola Superior de Educação de Coimbra. Agora, está a fazer o mestrado, que continua a ser a qualificação mínima obrigatória para entrar na carreira docente.

No entanto, no início deste ano, de modo a responder à escassez de docentes que tem afectado as escolas, o Ministério da Educação passou a permitir que pessoas que tivessem uma licenciatura no currículo fossem contratadas pelos agrupamentos, quando não houvesse um docente disponível. A Escola João de Araújo Correia abriu, logo em Setembro, um horário incompleto, de 11 horas lectivas, com essas condições, destinado à substituição de uma professora que está em licença de maternidade.

Maria Oliveira concorreu, “porque sim”. “Nunca pensei que iria entrar. Acabei agora o curso, há colegas com mais tempo de serviço, mas como tenho uma média da licenciatura de 18 valores, fui eu a escolhida.” Quando soube que ia ser professora na mesma escola onde foi aluna ficou “emocionada”.

“Mandaste-me uma mensagem”, acrescenta Joana Silva. É uma das intérpretes de LGP na escola de Peso da Régua. Conheceu Maria no 7.º ano e hoje acompanha as suas aulas. Trabalha naquela escola há dez anos e viveu de perto a melhoria das condições de trabalho com os alunos surdos. “Há uns anos, quando tudo corria bem, eu era colocada em Outubro”, recorda. Agora, pertence ao quadro da escola.

Faltam materiais

O agrupamento João Araújo Correia é a escola de referência para alunos surdos em todo o interior Norte. Alguns dos estudantes vêm diariamente de localidades como Tarouca, a 20 quilómetros, ou Chaves, que fica a quase 90. No entanto, não integra formalmente a rede de referência para a Educação Bilingue, criada pelo Ministério da Educação em 2008.

Esta rede foi criada pelo Decreto-lei n.º 3/2008, que mudou a forma como a escola encara os alunos com alguns tipos de deficiências, concentrando nestes estabelecimentos de ensino recursos humanos – como professores de LGP, intérpretes e terapeutas da fala – e físicos para dar respostas às necessidades educativas específicas. Há 17 escolas nessa lista que, na região norte, inclui apenas estabelecimentos de ensino localizados no Porto e em Braga.

Apesar da melhoria de condições, o trabalho dos professores de Língua Gestual ainda é “muito duro”. “O ministério não nos faculta materiais, somos nós que temos de os criar”, queixa-se Maria Oliveira. Quase todos os recursos que usa na sala de aula foram desenvolvidos por si ou enquanto professora ou enquanto aluna. “Há muitos materiais que fiz com a Filipa e o Diogo, que eram meus colegas, e que continuam aqui. Isso também me ajudou a tornar a profissional que sou hoje”, recorda com um sorriso.

Maria dá aulas de LGP e Cidadania a turmas do 7.º e 8.º anos e faz algumas horas da semana no pré-escolar no mesmo agrupamento. “Adoro”, atira, em referência ao trabalho com crianças. “Eu sei o quanto as crianças surdas sofrem por às vezes os pais não terem sensibilidade e acessibilidade atempadamente e é muito importante nós estarmos nessa fase com elas. Nós podemos fazer a diferença.”

556 surdos

A Direcção-Geral dos Estabelecimentos Escolares contabiliza 556 alunos surdos nas escolas nacionais. A grande maioria (428) são utilizadores de LGP. Há, no entanto, cada vez mais alunos que não optam por ter Língua Gestual, porque fizeram implantes cocleares que lhes permitem aprender em ambiente oralista. Nesses casos, beneficiam do apoio de terapeutas da fala e de professores de Educação Especial.

O Ministério da Educação está a preparar as aprendizagens essenciais para a LGP, disciplina curricular para os alunos surdos que a têm como a sua língua materna, e também para o Português Língua Segunda, o Português aprendido pelos alunos surdos. As duas disciplinas têm grupos de recrutamento de docentes próprios e são ministradas nas escolas de referência. (...)

Fonte: Excerto da reportagem do Público

sábado, 19 de novembro de 2022

Há mil milhões de jovens em risco de perda de audição. Conheça os sinais e como preveni-los

Pedir para baixar o volume não é só um pedido de pais e vizinhos descontentes com o barulho. Um novo estudo demonstrou que ter mais atenção no volume sonoro poderá proteger mais de mil milhões de pessoas em risco de perda auditiva.

De acordo com o estudo publicado na revista BMJ Global Health, quando se trata de telemóveis, música, filmes e espetáculos, é comum que adolescentes e jovens adultos ouçam tudo demasiado alto e durante demasiado tempo.

“Estimamos que 0,67 a 1,35 mil milhões de indivíduos com idades compreendidas entre os 12 e os 34 anos a nível mundial possam ter práticas auditivas pouco seguras”, e estão, portanto, em risco de perda de audição, disse Lauren Dillard, autora principal do estudo. Dillard é consultora da Organização Mundial da Saúde (OMS) e pós-doutorada na Universidade Médica da Carolina do Sul, nos Estados Unidos.

A exposição ao som a um volume demasiado elevado pode causar fadiga nas células sensoriais e estruturas do ouvido, explicou Dillard. Se isso se prolongar por muito tempo, elas podem ficar permanentemente danificadas, resultando em perda auditiva, zumbido ou ambos.

Os investigadores realizaram uma meta-análise de artigos científicos sobre práticas de escuta perigosas publicados entre 2000 e 2021 em três bases de dados.

De acordo com o estudo, estas práticas foram monitorizadas segundo a utilização de auscultadores, bem como a presença em locais de entretenimento, tais como concertos, bares e discotecas.

Os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos limitam os níveis de ruído seguros a cerca de 85 decibéis ao longo de 40 horas por semana. Ouvir algo durante apenas 2 horas e meia ao longo de um dia equivale a cerca de 92 decibéis, diz o estudo.

Quando se utiliza um smartphone carregado com ficheiros de áudio MP3, os ouvintes escolhem frequentemente volumes até 105 decibéis, e variam frequentemente entre 104 e 112 decibéis em locais de concertos.

Felizmente, as empresas e as respetivas políticas destes locais podem pôr em prática medidas para encorajar a segurança da audição e a protegê-la de danos com o passar do tempo, garantiu Dillard.

A análise do estudo foi rigorosa, e as provas demonstram que a perda auditiva deve ser uma prioridade de saúde pública, disse De Wet Swanepoel, professor de audiologia na Universidade de Pretória, na África do Sul. Swanepoel não participou no estudo.

“A música é uma dádiva para ser apreciada durante toda a vida”, observou Swanepoel, que também é editora-chefe do Jornal Internacional de Audiologia. “O que se pretende com este estudo é alertar as pessoas para que possam desfrutar da sua música mas em segurança.”

O que fazer com os seus aparelhos

Quer esteja a ouvir no seu próprio dispositivo ou num concerto, Dillard advertiu que o zumbido dos ouvidos é um sinal claro de que a música está demasiado alta.

No entanto, existem formas de prevenir os danos antes de se aperceber dos efeitos. Alguns dispositivos permitem que as pessoas monitorizem os seus níveis de volume nas definições do dispositivo, afirmou. Alguns até o alertam quando está a ouvir demasiado alto há demasiado tempo.

“Se o seu dispositivo diz que está a ouvir a níveis pouco seguros, reduza o volume e ouça música durante períodos de tempo mais curtos”, indicou Dillard.

Os especialistas não conseguem dizer de forma conclusiva quais são os auscultadores mais seguros, mas Dillard recomendou a utilização de auscultadores que reduzam o ruído de fundo, o que pode ajudar a manter o volume a níveis mais baixos, uma vez que não é necessário afogar o ruído à volta.

Mas nem sempre se tem o controlo do volume em espaços abertos. Se estiver num concerto ou num recinto, pode proteger a sua audição ficando mais afastado dos altifalantes e fazendo pausas do barulho, se possível, disse Dillard. E ajuda sempre usar alguma proteção auditiva, tal como tampões de espuma para os ouvidos, acrescentou.

“A audição é o sentido que nos liga às pessoas que amamos", lembrou Swanepoel. "Cuidar da nossa audição é a chave para manter relações saudáveis e uma boa saúde e bem-estar em geral. A sua prevenção em jovens adultos é fundamental para evitar um início precoce e uma perda auditiva acelerada relacionada com a idade.”

Fonte: CNN Portugal por indicação de Livresco

quarta-feira, 30 de março de 2022

Ensinar que na surdez cabem todos os sonhos do Mundo

Uma professora que ao fim de mais de 20 anos de ensino regular quis abraçar uma experiência tão exigente quanto singular, uma surda profunda que trocou a Biologia pela Educação para provar que não há barreiras intransponíveis, seis crianças que tentam constantemente ser maiores do que as dificuldades que se lhes colaram à pele. Desafios e conquistas de uma turma de surdos da Escola Básica Parque Silva Porto, em Lisboa.

David tem nove anos, cabelo ruço, olhos azuis penetrantes, gosta de Matemática, de pintar, de futebol, costuma jogar na escola, quando for grande gostava de fazer disso vida. Esconde timidamente as mãos nos bolsos, rodopia docemente os olhos antes de responder por gestos, meio a rir, meio introspetivo, como quem tem que pensar bem em cada resposta. Nasceu na Ucrânia, veio cedo para Portugal, é surdo. Mas é maior do que a surdez.

“Margarida, Margarida”, repete, para chamar a professora da sala e lhe pedir para ir à casa de banho. “O David já fala tudo, pode ter mais dificuldades em algumas coisas, mas já dá para perceber tudo o que quer dizer, tem tido uma evolução muito grande”, orgulha-se Margarida Gomes, professora titular do 3.º C, uma das cinco turmas de surdos da Escola Parque Silva Porto, em Benfica (Lisboa). “Aliás, o David é o meu intérprete, quando é preciso.”

Porque também para esta docente as aulas são um desafio constante, uma aprendizagem invariavelmente bidirecional. Depois de mais de 20 anos embrenhada no ensino regular, decidiu que queria ensinar uma turma de surdos. Mesmo que o conhecimento que tinha de Língua Gestual Portuguesa (LGP) fosse limitado: o alfabeto, meia dúzia de palavras, pouco mais. Mesmo assim achou que tinha de experimentar. “Pelo menos uma vez na vida.”

Mesmo sabendo de todas as dificuldades que vinham com a missão. “A principal, sobretudo no início, era não ter um conhecimento correto de LGP e ter de trabalhar com eles a oralidade, a leitura e a escrita.” Isso e o facto de os meninos que tem pela frente formarem um grupo exigente e heterogéneo.

Rafaela chegou no ano passado de São Tomé sem saber nada de LGP, Zara é paquistanesa, Gabriel veio de Cabo Verde com uma bagagem recheada de adversidades. A mãe nunca o foi realmente, ele tem um problema no crescimento, já teve até um AVC. E ainda há o Martim, o reguila muito bem-disposto que se apressa a contar (também por gestos) como adora aprender Português e Matemática. Ah, e escrever a data.

E o Afonso, oito aninhos, o mais novinho da sala, que diz que adora ir à escola por causa dos amigos e que quando for grande quer, imagine-se, estar ao telefone. Todos usam aparelho ou implante auditivo, o que lhes permite ouvir sons, mesmo que isso não garanta que os compreendam.

Para ajudar Margarida a responder da melhor forma às necessidades dos alunos, a turma é acompanhada também por uma professora de Educação Especial. E por uma docente de Língua Gestual Portuguesa. Débora está mesmo em frente ao grande quadro verde, de frente para as mesas justapostas em formato de U, de onde os pequenos a observam atentos. Estão todos a conversar sobre a história que leram no dia anterior, ela ali no meio, rosto muito expressivo e gestos amplos e pronunciados, eles mais circunspetos, sem nunca deixar de interagir.

“Incentivar à luta individual”

Débora Carmo tem 42 anos, é professora de Língua Gestual Portuguesa há uns 20 – “já perdi a conta”, diz, meio a brincar, com a ajuda da intérprete -, tem um horário de 25 horas, divididas entre duas turmas. É surda profunda, ouve apenas pequenos sons, como as buzinas dos outros carros quando vai na estrada. Não tem implante nem aparelho auditivo. “Por opção minha”, esclarece, antes de se lançar no exercício de explicar porque quis ser professora de LGP.

“Bem, se calhar não tenho uma razão específica”, começa por dizer. E detém-se um momento. “Podia ter seguido Biologia, podia ter ido para a área da investigação. Mas há uns 20 anos havia uma falta muito grande de professores de LGP, era uma necessidade premente e fui contactada por vários professores que me incentivaram a seguir esta via. Acabei por aceitar, muito por querer proporcionar uma vida melhor às crianças surdas, queria poder ser um modelo, mostrar-lhes que podem fazer o que quiserem. Foi no fundo a forma que arranjei de incentivar à luta individual.”

Aprender LGP, garante, não é difícil. “É uma língua muito visual, há uma captação imediata. Claro que há coisas mais difíceis, gestos em que se enganam, mas regra geral as crianças surdas conseguem fazer uma aquisição muito rápida, no espaço de meses.” Rafaela, a menina de 11 anos que veio de São Tomé, é um bom exemplo disso. Chegou a Portugal praticamente sem conhecimentos prévios de LGP e numa questão de meses aprendeu a língua. “Ainda faltam aquisições mais complexas, mas coisas básicas ela já sabe.”

No entanto, há barreiras que se continuam a erguer bem alto. “O grande desafio para mim são as crianças que vêm sem língua [sem conhecimentos de LGP]. O que acontece com as crianças ouvintes é que já nascem recetivas aos estímulos, têm um acesso à língua imediato e acaba por haver uma interiorização, uma aquisição de linguagem. O que acontece com as crianças surdas filhas de pais ouvintes é diferente. Porque muitas vezes os pais continuam a falar em língua portuguesa e os filhos são surdos e não ouvem. Isso cria uma grave barreira na comunicação.”

Por isso, a todos os pais com filhos surdos, deixa um apelo: “Os pais é que têm de se adaptar à criança. Os meninos surdos têm direito à sua língua. A grande luta dos professores de LGP é esta, a de sensibilizar os pais para esta mentalidade que tem de ser mudada”.

“Os professores saem arrasadinhos”

Aqui, na Escola Parque Silva Porto, parte integrante do Agrupamento de Escolas Quinta de Marrocos, um dos 17 agrupamentos de referência para educação bilingue no nosso país (e bilingue, porque se ensina tanto a Língua Gestual Portuguesa como o Português), a luta é uma espécie de missão diária.

Ao todo, a escola acolhe 71 alunos com necessidades educativas especiais, 47 deles surdos. Destes, 35 estão distribuídos por turmas bilingues (entre pré-escolar e 1.º Ciclo), outros 12 integrados nas turmas do ensino regular. Um desafio imenso, admite Isabel Neves, coordenadora deste estabelecimento escolar. “Na área da Educação nunca estamos habituados a nada, estamos sempre a habituar-nos. É muito duro, os professores saem daqui arrasadinhos, com tanta solicitação.”

A esta exigência constante juntou-se, durante a pandemia, uma dificuldade acrescida, tanto mais quanto falamos de grupos em que a leitura labial é fundamental para ajudar à compreensão de determinados sons: o uso das máscaras. “Se vieram dificultar? Muito”, esclarece Margarida, entre incontáveis solicitações dos pequenos.

“Sinto uma necessidade enorme de mostrar a boca, principalmente na parte de trabalhar com eles a oralidade. Estas [aponta para as máscaras transparentes doadas pela empresa Xula Mask] são melhores porque permitem uma maior visualização, mas não são perfeitas. Muitas vezes o que acabo por fazer é afastar-me e puxar a máscara um bocadinho para baixo. Porque se eles não desenvolverem a oralidade nunca conseguirão escrever como deve ser.”

Depois, claro, são as dificuldades inerentes ao trabalho com alunos surdos. “Há palavras que em LGP nem sequer usam. O ‘de’, o ‘para’, o ‘o’, o ‘a’. E temos de os pôr a escrever assim quando não estão minimamente habituados a isso. E na Matemática é complicado por causa da interpretação das perguntas e dos problemas. Não posso fazer como fazia nas turmas de alunos regulares, que leem e respondem sozinhos. Os conceitos de ‘quantos’, de ‘qual é a diferença’ são mais complicados para eles. Como é que se consegue? Com muito trabalho. Como eu costumo dizer: flete, insiste, flete, insiste.”

E a persistência vai dando frutos, numa luta diária que se transforma também numa aprendizagem recíproca. “Hoje já consigo comunicar muito mais em LGP. Ainda não consigo entender os intérpretes que aparecem na TV, mas já consigo comunicar com os meus meninos. Até ralhar. Antes dizia sempre: ‘Débora, ralha tu que ralhas mais rápido. Agora não”, atira, com humor. E os seus meninos, como lhes chama, também se fazem mais capazes a cada dia. “Desde logo nas atitudes, porque quando cá chegaram faziam o que queriam. Agora já aprenderam que há regras e as regras permitem trabalhar muito melhor.”

E dá o exemplo de David, o menino ruço de olhos azuis penetrantes, que hoje até já faz de intérprete, e que no primeiro dia “nem sequer respondia”. “Margarida, Margarida”, repete. Pequenos passos que fazem parte de uma caminhada maior. “Sobretudo tentamos mostrar que o Mundo não se divide entre surdos e ouvintes, que podem conseguir tudo o que quiserem, se se esforçarem.”

É essa a luta maior de Débora, surda profunda que há uns 20 anos, por vocação e altruísmo, preferiu fazer-se professora de LGP: “Não queria que as crianças surdas achassem que a vida delas ia ser limitada por serem surdas. Queria que os alunos olhassem para mim e pudessem ver que podem ter uma profissão boa, que podem ir à escola, que podem ir para a universidade. ” E então dedicou a vida a essa missão tão exigente, mas tão compensadora: ensinar que na surdez cabem todos os sonhos do Mundo.