quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Operacionalização do currículo específico individual (CEI)

No "Espaço de Debate" do blog têm sido colocadas algumas questões e considerações sobre a elaboração e o funcionamento dos horários dos alunos e dos currículos específicos individuais (CEI) que frequentam os 2º e 3º ciclos do ensino básico, designadamente a mancha horária e a carga letiva, bem como as áreas curriculares disciplinares e não disciplinares que devem frequentar. 
O CEI prevê a substituição de competências definidas para cada nível de educação e ensino, com alterações significativas ao currículo comum, em função do nível de funcionalidade de cada criança ou jovem. Ou seja, deve ter-se em conta as características e as necessidades individuais de cada aluno, atendendo à máxima "cada caso é um caso". A legislação não prevê a aplicação de um modelo único, mas, pelo contrário, define que o CEI deve ser flexível e adaptado ao nível de funcionalidade das crianças e dos jovens.
Pela experiência e pelas reações dos colegas, parece-me que não há diferenças substanciais quanto à definição dos CEI e à sua implementação. No entanto, muitas dúvidas vão surgindo, com predominância para o saber se os processos e as práticas implementadas em cada agrupamento são as corretas. Uma das formas de tirar dúvidas e contribuir para a reflexão consiste na partilha de experiências. Nesse sentido, publico a experiência divulgada pela colega Rita Rodrigues no "espaço de debate".


Colegas, se ajudar, poderei dar o exemplo de como funcionamos no nosso agrupamento ao nível da EB2,3 e dos alunos com CEI (currículo específico individual). Temos uma UAE (unidade de apoio especializado) para alunos com Multideficiência que funciona das 8,00 às 16,00h, dois dias por semana, e das 08,00 às 13,20h nos restantes três dias, com os dois docentes e uma assistente operacional.
Temos 14 alunos com CEI e dois docentes de EE (educação especial) que estão com estes alunos e são também responsáveis por mais 3 ou 4 alunos sem CEI. Apesar de nem todos os alunos com CEI serem alunos com Multideficiência, acabam todos por beneficiar da Unidade pois é o espaço disponível onde se concentram os recursos humanos e materiais.
Relativamente à gestão dos horários destes alunos, tentamos que tenham o mesmo número de tempos letivos que a turma, pois nem sempre se consegue que tenham a mesma mancha horária. Eles frequentam as disciplinas de caráter mais prático com a turma, como a Música, a Educação Física, a EVT, a Formação Cívica, etc… e os restantes tempos são acompanhados pelos DEE (docentes de educação especial) na Unidade ou têm natação, terapias, etc…
Por exemplo, a turma, à segunda-feira de manhã, tem Português, Educação Física e Matemática. Nos primeiro e último tempos, os alunos estão na UAE, a desenvolver atividades e aprendizagens mais funcionais, ou a ter alguma terapia, e, no segundo tempo, estão com a turma. Mas, por exemplo, se na terça-feira o horário da turma só começa às 10.00h e na parte da tarde as únicas duas disciplinas que a turma tem são Ciências Físico-Químicas e Matemática, então, neste dia, o aluno entra mais cedo de que a turma, por exemplo, às 08,00h, permanecendo com atividades na UAE, compensando as horas em que não estará à tarde. Desta forma conseguimos gerir melhor os horários dos docentes e da própria UAE.

No fundo, no agrupamento em que me encontro, os processos são genericamente idênticos ao relatados pela Rita Rodrigues, com a diferença de não existir UAE e termos criado três áreas disciplinares, que não fazem parte do currículo comum, desenvolvidas pelos professores de educação especial, coadjuvados, pontualmente, por outros colegas: linguagem e comunicação; matemática para a vida; desenvolvimento pessoal e social. Convém referir que, em função do nível de funcionalidade, nem todos os alunos com CEI desenvolvem estas três áreas.
Esta realidade tem sido circunscrita ao ensino básico, embora já haja alunos com CEI a frequentar o ensino secundário.. No entanto, a partir do próximo ano letivo, todos os alunos atualmente a frequentar o ensino básico vão ter se permanecer na escola até à conclusão do ensino secundário ou atingirem a idade de dezoito anos.
Novos desafios se afiguram, mas prevejo que os procedimentos serão genericamente os  já aplicados no ensino básico, com os necessários ajustamentos.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Curso de Formação em Boccia

Decorrerá, no próximo dia 03 de fevereiro, o Curso de Formação em Boccia no âmbito do Programa do Desporto Escolar.


Esta iniciativa, promovida pela Direção Regional de Educação do Centro, em colaboração com o Gabinete Coordenador do Desporto Escolar e com a Associação de Paralisia Cerebral de Viseu, destina-se não só aos professores com Grupos/Equipa de Boccia, mas também a todos aqueles que no contexto escolar estão ligados às atividades destinadas aos alunos com necessidades educativas especiais.

Dirigida prioritariamente para Professores/Responsáveis com (1) experiência profissional de intervenção prática, e/ou (2) com formação básica/inicial, e/ou (3) com Grupos/Equipa de Boccia de Desporto Escolar com o objetivo de aperfeiçoamento no ensino/treino na modalidade de Boccia para alunos com deficiência/Incapacidade, alunos com necessidades educativas especiais (NEE) e alunos sem NEE e/ou deficiência/incapacidade.

A Formação visa, também, dotar os profissionais de competências e de instrumentos com vista a participação em eventos desportivos no ano letivo 2011-2012, nomeadamente, no âmbito do Desporto Escolar (Local, Regional e Nacional).

As inscrição deverão ser enviadas até 27 de janeiro, através de E-mail, para: jorge.vilela@dgidc.min-edu.pt.
Dados a enviar: Nome, Habilitações, Profissão, Entidade, Telemóvel.

Normas reguladoras dos Produtos de Apoio - 2011

Competindo ao Diretor do INR, I.P. aprovar e publicar as normas reguladoras do Despacho Conjunto n.º 17059/2011 dos Secretários de Estado do Emprego, Adjunto do Ministro da Saúde, e da Solidariedade e da Segurança Social, informa-se que seguiu para publicação oficial, o despacho em anexo, após audição do IEFP, I.P., da DGS e do ISS, I.P.
In: INR

O 'designer' que trouxe mais cores à vida dos daltónicos


Miguel Neiva criou um sistema universal de identificação de cores que permite aos daltónicos superar as dificuldades do dia a dia.
São essencialmente homens. Veem a cores, mas com as suas cores. Têm dificuldades em conjugar roupa e até uma partida de Uno pode ser um problema. A disfunção que têm é conhecida por daltonismo e, apesar de não ter cura, os daltónicos podem agora respirar de alívio. Em causa está uma invenção portuguesa que atribui um símbolo a cada uma das cores primárias, e as restantes são etiquetadas com símbolos que resultam da mistura dos símbolos primários.
A empresa responsável por esta inovação é a Coloradd e os resultados foram já aplicados em alguns dos piores quebra-cabeças para daltónicos. O sistema de triagem do Hospital de São João que é feito por cores, as linhas do metro do Porto ou até mesmo os lápis de cor da Viarco são alguns desses exemplos de aplicação do sistema universal de identificação de cores.
Para Miguel Neiva, designer e criador deste novo código, o sucesso da ideia está para além do esperado. "Como designer, procurei apenas um tema para a tese de mestrado que pudesse contribuir para o conceito de design inclusivo e por isso lembrei-me destas pessoas que são discriminadas diariamente por algo que não é visível a olho nu e de que não têm culpa", adverte.
A ideia é simples: cada uma das cores primárias - amarelo, vermelho e azul - tem um símbolo próprio. As imagens que identificam as restantes cores provêm da junção dos símbolos das cores primárias que lhes dão origem. Na prática, o verde é identificado por uma imagem que corresponde à junção do símbolo do amarelo com o do azul.
Ainda que em muitos casos os daltónicos não sintam grande discriminação, este designer diz ter conhecimento de histórias terríveis a esse nível.
"Não podemos esquecer que este problema, que atinge cerca de 10% da população masculina, significa em alguns casos muita violência psicológica", diz, adiantando que quem vê um cego mal vestido atribui o episódio ao seu problema visual mas quem vê um daltónico mal vestido justifica-o com "o mau gosto daquela pessoa".
"Num dos muitos depoimentos que recebi, um padre contou-me que só passou a ter paz quando começou a usar a batina, porque assim deixou de correr o risco de andar mal vestido e de ser gozado pelos outros", revelou o criador deste código universal.
Esta disfunção, vulgarmente conhecida por daltonismo - alusão a John Dalton, o ciêntista que estudou o porquê de confundir as cores -, por motivos genéticos, raramente atinge mulheres. Estima-se que só 2% do total de daltónicos sejam mulheres.
Apesar da pouca expressão percentual, existem no mundo inteiro milhões de daltónicos que poderão ser beneficiados com este código. Para o autor deste sistema o exemplo mais flagrante é o mercado de roupa no Brasil, onde todos os anos saem dos bolsos de daltónicos cerca de 13 milhares de milhões de reais, mais de cinco mil milhões de euros.
É por isso que Miguel Neiva ganhou o reconhecimento da comunidade científica, que até hoje havia sido incapaz de arranjar uma solução para quem confunde as cores.
O estudo durou cerca de oito anos e houve desde o início uma grande preocupação com a universalidade do código.
Por oposição a sistemas como o braille, este novo código será igual em todos os países. "Há já interesse de alguns grupos em que este código de cores seja utilizado pelos cegos visto que, em braille, as cores se escrevem de forma diferente de país para país. O objetivo do também sócio maioritário da Coloradd é que cada peça de roupa, cada sinal de trânsito, cada lápis de cor seja acompanhado deste código. A partir daí, basta que os daltónicos conheçam os símbolos para que possam começar a ver as tonalidades que deveriam ver no dia a dia, mas que, dado o seu problema, lhes passam ao lado.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Um neurónio equivale a um minicomputador




A partir dos 30 anos, já é possível observar a perda gradual e irremediável de neurónios. A boa notícia é que uma única destas células do sistema nervoso "é capaz de distinguir diferentes sequências de informação, ou seja, tem a capacidade de assegurar funções de outros neurónios", segundo revelou ao jornal «Ciência Hoje», Tiago Branco, investigador português naUniversity College London (UCL), no Reino Unido.

Tiago Branco é pós-doutorado na UCL e foi recentemente distinguido com oPrémio Eppendorf e Ciência para a Neurobiologia 2011 (Eppendorf and Science Prize for Neurobiology), em Washington, pela publicação do trabalho «A linguagem dos dendritos» na «Science».

Nos últimos três anos, o cientista tem "tentado perceber como funciona um neurónio". Sabemos que o cérebro é constituído por milhares deles que processam a informação vinda do exterior, mas a grande questão é: Afinal, como é realizado o processamento desses dados?

Antes de conhecer como funcionam em conjunto, é importante perceber como um único neurónio age, sozinho. E foi nesse contexto que a equipa de trabalho do investigador luso chegou à conclusão que só uma destas células especializadas é capaz de distinguir diferentes sequências de informação.


“Nestes últimos três, quatro anos, temos medido as respostas de neurónios em cérebros de ratos e descobrimos que apresentam diversos níveis de informação, estimulando as sinapses [ligações entre neurónios, pontos de entrada de informação] com um laser – o que permite testar diversos padrões de sequências, de forma a perceber o é que faz com diferentes tipos de informação apresentada”, continuou.

A descoberta a realçar é que “um único neurónio é capaz de distinguir diferentes sequências de informação, independentemente do número de sinapses” – o que revela uma importante operação no cérebro, já que os dados que chegam estão em sequência. “E um neurónio só consegue fazer essa operação”, ou seja, “é capaz de funcionar como um minicomputador”, enfatizou.

Para o investigador da UCL, “um neurónio é uma entidade poderosa que opera situações mais complexas e, dependendo dos parâmetros de informação recebida, consegue tratá-la de diferentes formas, tal como uma máquina de calcular que tem a capacidade de multiplicar e dividir, entre outras”. E o passo que se segue é“demonstrar como é estas propriedades são exploradas pelo cérebro”.

Perda de neurónios

Vamos perdendo neurónios e as ligações entre eles entram em declínio, ou seja, com a idade as sinapses deixam de funcionar com a mesma intensidade e estes não dão lugar a novas células. Existe uma zona no hipocampo que promove a formação de neurónios na vida adulta, mas a quantidade que lá é formada não é suficiente para substituir aqueles que se vão perdendo.

Segundo Tiago Branco, treinar e aprender continuamente, promove o desempenho e a estimulação de novas sinapses e, até certo ponto, é capaz de combater essa perda, mas depois torna-se irreversível – aos 70 anos, o volume do cérebro é significativamente menor. “Ainda não estão claros quais os mecanismos em que se baseia a memória. Aliás ainda não sabemos em que zona do cérebro é que ela é guardada”, queixou-se.
O investigador assegura que a perda é natural e não necessariamente um processo patológico; defende mesmo que “existem vários exemplos de doentes que perderam quase metade do cérebro e funcionaram perfeitamente até ao resto da sua vida”. Uns neurónios “são capazes de tomar conta das funções de outros", assinalou também.


As células do sistema nervoso não são esféricas, assemelham-se a uma árvore, com ramificações e um só neurónio pode processar a mesma informação de forma completamente diferente dependendo por onde esta chega, por que ramificação é recebida.

Controlar a agressividade

Recorrendo à investigação em ciência básica com modelos animais, tentar responder a perguntas como “de que forma é que o cérebro processa a informação?”, foi o ponto de partido do trabalho de Tiago. Agora, o objectivo seguinte é saber quais os passos, no cérebro, que levam a determinados comportamentos, nomeadamente a agressividade.

“O que muda no cérebro para isso acontecer e por que acontece com algumas pessoas e outras não, qual a base neurológica?” Descobrir a resposta a esta questão poderia ajudar a controlar a agressividade em questões psiquiátricas, de forma mecanística. O grande problema na neurociência é “não se conhecer exactamente como é que o cérebro funciona e, quando conseguirmos, teremos poder de intervenção a vários níveis”, concluiu.

Este projecto move-o de tal forma que quando surgiu a oportunidade de integrar o programa na UCL, não pensou duas vezes e fez a transição em dois dias: “Estava no último ano da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (2002), e tive de decidir se ficava dois anos ‘em residência’ ou seguia para um doutoramento. Tendo em conta o meu interesse na investigação, o meu orientador aconselhou-me a concorrer a estes programas britânicos. Decidi candidatar-me à UCL. Foi tudo muito rápido: terminei medicina numa sexta feira e comecei na UCL na segunda feira seguinte (…)”, sublinhara Tiago Branco em entrevista à «Nature», uma escolha da revista em jeito de homenagem pelo trabalho realizado.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Ser feliz e professor de educação especial

Não deixa de ser curioso que, num estudo realizado pela Universidade de Chicago, sobre a relação da felicidade e a profissão, surja, em quinta posição, ser professor de educação especial, desde que não haja preocupação com o dinheiro (ver imagem, retirada de Blog de ArLindo).
Não consultei o artigo, ainda, mas despertou-me a curiosidade!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Prevalência da Dislexia entre Crianças do 1º Ciclo do Ensino Básico Falantes do Português Europeu

O objetivo deste estudo foi determinar a prevalência da dislexia entre as crianças portuguesas do 1º Ciclo do Ensino Básico. 
Foram avaliadas 1460 crianças dos 2.º, 3.º e 4.º anos de escolaridade relativamente ao nível de leitura e, de acordo com os critérios estabelecidos, 155 dessas crianças foram também avaliadas relativamente às capacidades cognitivas gerais e à consciência fonológica. 
As crianças foram testadas coletivamente nos testes de rastreio e individualmente nos outros testes. 
Por se tratar do primeiro estudo desta natureza realizado em Portugal, foram adoptados critérios muito conservadores para classificar uma criança como tendo dislexia. 
Os resultados revelam uma percentagem de 5,4 % de crianças com dislexia, valor que se enquadra nos intervalos de prevalência recentemente divulgados noutros países.

Acesso ao estudo aqui.
(Texto adaptado ao português pós acordo ortográfico)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Indisciplina na sala de aula: o respeito começa na infância



A indisciplina na sala de aula não é um assunto fácil de abordar. Há casos que ultrapassaram os muros das escolas, tornados públicos e comentados até à exaustão. A comunidade escolar sabe que o tema é delicado. Há mais casos ou menos tolerância para a má educação dentro das escolas? Como lidar com o assunto? O que fazer para que as faltas de respeito não se tornem numa rotina? Os exemplos são importantes, as relações interpessoais devem merecer toda a atenção e o desenvolvimento de competências de autocontrolo e autorregulação na infância pode fazer toda a diferença.

Para Maria José Araújo, docente e investigadora da Escola Superior de Educação do Porto, é preciso alguma atenção a abordar ao tema da indisciplina em contexto escolar. "Temos de ter cuidado para não remeter a discussão desta problemática para o contexto da escola pública e, nesta, para o Ensino Básico, achando que a escola pública é o 'armazém' de todas as desgraças socais". Na sua opinião, os casos mais difíceis de resolução não se podem generalizar sob pena de se ser injusto com alunos e professores. "Frequentemente a dificuldade de discutir a questão da disciplina e/ou falta dela na escola é porque se misturam coisas de âmbitos muito diferentes. Misturam-se aspetos legais, sociais, morais, éticos, etc.", aponta. 

A escola, pública ou privada, é o local onde crianças e jovens passam grande parte do seu tempo e é olhada como uma instituição que deve promover a participação e a justiça. E há uma pergunta que, segundo a investigadora, deve ser feita. "A questão que se coloca e como é que os estudantes podem participar ativamente nos processos que lhe dizem respeito?" "Se os alunos não se sentem parte da escola não a respeitam e compete aos professores mostrar o que é o respeito. "Que esforço temos nós, professores, de fazer para ajudar os estudantes a compreender que a escola é, também, deles? Esta é uma questão central." 

A docente lembra que há estudos interessantes à volta do tema, que há resultados que nunca chegam a ser analisados nas escolas, quando a comunidade educativa deveria estar atenta para discutir questões que lhe dizem diretamente respeito. "Os assuntos de interesse para a escola têm de ser discutidos internamente com todos: professores, diretores, funcionários e estudantes." Por outro lado, Maria José Araújo defende que a intervenção dos pais é fundamental. "Não enquanto 'proprietários' dos filhos, mas enquanto cidadãos empenhados, a todos os níveis da vida social, que respeitam os direitos dos seus filhos que estão legitimamente inquietos com o seu presente e também com o futuro imprevisível que os espera." "É este o esforço que todos temos de fazer." 

Criar cumplicidades
O esforço deve começar bem cedo. A psicóloga Paula Monteiro tem visitado vários infantários para conversas com pais sobre o processo de educação dos filhos. A realidade tem-lhe mostrado situações complexas. "Muitas vezes, os pais não estão preparados para lidar com os filhos quando chegam a casa." Falta de tempo, trabalho na cabeça, paciência esgotada, mil e uma coisas para tratar. Mas a disciplina começa em casa e na primeira infância. 

"Há crianças que não têm competências desenvolvidas de autocontrolo, de autorregulação, de socialização, e isso só se consegue através da disciplina", afirma Paula Monteiro. "É necessário adotar algumas estratégias que permitam desenvolver as competências de autocontrolo", refere. Há pequenos gestos no dia a dia que ajudam nesse caminho. Nas conversas que vai mantendo nas palestras que dá nos infantários, a psicóloga tem vindo a chamar a atenção para a importância de desligar a televisão na hora das refeições e sentarem-se todos à mesa. Planificar atividades em conjunto, esperar pela sua vez para falar, estabelecer uma hora de ir para a cama, retirar a televisão dos quartos, preparar a mochila na véspera, escolher a roupa que se vai usar no dia seguinte, são alguns dos exemplos que costuma abordar. "É importante otimizar o tempo que se passa com os filhos, criando laços, criando cumplicidades", diz. E isso, assegura, aumenta o sentido de responsabilidade dos mais pequenos. 

Margarida Gaspar de Matos, psicóloga e investigadora da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa, aborda o assunto da indisciplina, em primeiro lugar, pelo lado das relações interpessoais. Os exemplos são muito importantes. "Quando os adultos estabelecem uma cultura onde o mais forte é o mais grosseiro e o mais rude, e onde o que grita mais alto é o que aparenta mais poder... enquanto modelos destes cenários abundarem em circuitos públicos, entre adultos, aí começa a ser difícil convencer os jovens a fazer de outro modo", observa. 

Tentar copiar o que se vê é uma prática comum e, segundo a investigadora, as relações interpessoais estão a ser modeladas por "exemplos pouco corteses", como telenovelas, séries televisivas, videojogos, relações entre políticos. "E este modelo social é passado aos jovens que o adotam como um modo de relação." Uma realidade que poderia ser repensada. "Esta descortesia e desrespeito pela afabilidade nas relações interpessoais não é apanágio da juventude: os jovens espreitam-na em casa, entre professores, na televisão, na rua, nas lojas e apreendem o 'estilo', depois, muitas vezes, quando o usam não tomam a devida distância face aos contextos", acrescenta. 

Segundo Margarida Gaspar de Matos, as pessoas estão mais exigentes nas situações de indisciplina e de bullying nas escolas, mas só ficam assustadas porque, na sua opinião, nem sempre o mediatismo dado aos casos tem sido a estratégia mais adequada para lidar com essas questões. Agressões a professores, indisciplina, má educação na sala de aula são fenómenos diferentes entre si e diferentes do bullying. "A indisciplina está muito associada, por um lado, ao insucesso escolar, ao desinteresse pela escola e à falta de expectativas de futuro e face ao papel da escola e da aprendizagem/escolaridade nesse futuro", refere. A "tremenda desvalorização do papel do professor" é também um aspeto a ter em conta. 

A legislação existe, o problema tem sido a sua concretização. "Em várias questões educativas, as coisas são implementadas sem haver um estudo de necessidade e de viabilidade; as coisas mudam sem serem avaliadas e sem terem tido tempo de dar frutos, e professores e alunos andam confusos com tanta entropia." E a confusão desmotiva. "Uns professores desmotivam, outros adoecem, outros nem ligam, outros afligem-se de mais. E os alunos, uns lá se vão aguentando, mas muitos não desenvolvem as suas qualidades pessoais e académicas, outros entram em trajetórias alternativas, desviantes e antiescola ou, pelo menos, antiaulas". Em seu entender, faz falta uma cultura de coesão social e de equidade na diferença e uma competência de regulação das relações interpessoais com normas de cortesia. "Se os adultos fizerem isso, as crianças vão aprender mais depressa do que se forem violentamente admoestadas", comenta. 

Manuela Sousa é professora do 1.º ciclo e, nos seus anos de serviço, não tem tido casos graves de indisciplina. "Mas há alunos com falta de regras básicas de educação que depois se refletem na aprendizagem", conta. O que se passa em casa tem muita influência, muito peso nesta matéria. E há casos em que os pais e encarregados de educação, quando são chamados às escolas, não aceitam o que lhes é dito. "Os encarregados de educação não aceitam que os filhos tenham dificuldades de aprendizagem. E, por vezes, os alunos têm comportamentos que sabem que serão protegidos pelos pais", revela. 

O que fazer? Restabelecer a autoridade do professor é, na sua opinião, um passo importante para que os casos de indisciplina dentro da sala de aula não aumentem. "Não podemos castigar os alunos. Não podemos pôr um aluno fora da sala. É antipedagógico fazer a mesma coisa mais do que duas vezes", comenta. Além de relembrar que a figura do professor tem autoridade, Manuela Sousa sugere a realização de campanhas de sensibilização junto de pais e encarregados de educação, que envolvam professores e psicólogos, no sentido de explicar como se educa um filho.

Sara R. Oliveira
In: Educare

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Sou uma mãe preocupada...

"Sou uma mãe preocupada. A minha filha foi adotada há cerca de três anos e meio, tendo ela na época 4 anos e meio. Tinha vários problemas, ao nível da fala, da audição e da visão. Tem sido acompanhada na Faculdade de Psicologia do Porto.
Aquando da sua entrada na pré-escola, começou a notar-se muitas dificuldades ao nível da aprendizagem. Contudo não seria de esperar outra coisa, dadas as circunstâncias de vida da minha filha. 
A pedopsiquiatra receitou-lhe ritalina e, segundo a professora, o seu comportamento melhorou. Feito um teste cognitivo pela psicóloga, os resultados, segundo a sua opinião, não são alarmantes tendo a menina um atraso de oito meses comparado com crianças portuguesas padrão e da mesma idade - 7, 8 anos. Contudo no mundo da psiquiatria infantil os resultados obtidos pela minha filha são avaliados como tendo mesmo um atraso mental ligeiro.
Perante esta situação, o que me aconselha para poder continuar a ajudar a minha filha, porque de facto a nível escolar a situação é complicada. Mais se complica porque os professores também não estão preparados para esta situação. Agradecia uma resposta."


Situações como esta que aqui é relatada fazem parte do dia a dia de quem trabalha em contexto escolar. Esta mãe poderia ser uma, entre muitas, das que se vão cruzando comigo no exercício da minha prática profissional. Quem não vive na primeira pessoa o drama de um filho que não aprende, provavelmente terá dificuldade em perceber a angústia e o desespero que acompanha os pais, quando tal acontece. Num mundo em que o saber é tão importante e tão valorizado, a dificuldade em gerir "o não aprende" é ainda mais difícil e dolorosa.

No caso desta mãe, até já existia a expectativa de que as dificuldades na escola poderiam e certamente iriam surgir, mas muitos pais são apanhados de surpresa, pois há muitas crianças que apresentam capacidades cognitivas médias e, por motivos vários, não conseguem aprender. Nestas circunstâncias, o que acontece frequentemente é que as crianças são acusadas injustamente de preguiçosas e desinteressadas, quando a raiz do problema tem contornos bem diferentes.

Depois destas considerações iniciais, falta a resposta à pergunta: então o que fazer? Parece-me que, com esta criança, já muito foi feito e que houve uma grande preocupação no sentido de perceber o que a limita na sua capacidade de acesso ao saber. Qualquer diagnóstico só faz sentido se, na sua sequência, forem tomadas medidas muito concretas. Neste caso sublinharia essencialmente três estratégias que me parecem muito importantes.

Crianças com este tipo de perfil precisam de um apoio muito especializado. As escolas frequentemente têm bons técnicos, mas estes não chegam para "as encomendas". Quando os pais têm possibilidade de recorrer ao apoio externo, então sugiro que o façam. Qual deverá ser o perfil deste técnico? Uma pessoa muito experiente, que tenha trabalhado ou trabalhe com crianças com necessidades educativas especiais. O investimento neste tipo de apoio deve ser o mais precoce possível, pois esperar que o tempo resolva o problema é uma péssima opção.

Para quem não aprende, a escola vai-se tornando um fardo muito pesado, que vai progressivamente esmagando a autoestima. Com a autoestima "de rastos" e sem perspetiva de melhores dias, o desânimo e o desinvestimento são quase certos. Os que não desistem acabam por sofrer mais, pois o confronto com as dificuldades diárias torna-se mais doloroso. Face ao exposto é importante tentar ajudar as crianças a encontrar áreas fortes. Quando o insucesso académico é contrabalançado com uma área em que se tenha algum brilho, torna-se menos arrasador o não conseguir aprender. Acompanhei um aluno com muitas dificuldades cognitivas que conseguia gerir melhor o facto de ser mau aluno, porque era excelente na equitação.

Para terminar, a escola e os professores têm também um papel decisivo, pois uma criança com o perfil que aqui é traçado precisa obrigatoriamente de um currículo adaptado e de medidas muito concretas que sejam potenciadoras de sucesso. Nunca desistindo delas, é importante que os professores estabeleçam metas ajustadas às suas potencialidades!

Espero ter ajudado!

Adriana Campos
In: Educare

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Transplante dá visão a bebé britânica cega


Uma bebé britânica que nasceu cega consegue agora ver graças a um transplante de córnea, que a transformou na mais jovem paciente a ser sujeita a este tipo de intervenção no Reino Unido, conta o Daily Mail.
 
Eva Joyce, de quatro meses de idade, veio ao mundo com Síndrome de Peter, um problema congénito que torna a córnea nublada e que impossibilita a visão. 
 
"Quando a Eva nasceu apercebemo-nos de que havia algo de errado com os olhos dela. Disseram-nos que provavelmente não haveria nada a fazer. Ficámos devastados, pensámos que ela nunca conseguiria ver", admite a mãe, Harriet Joyce.
 
Porém, especialistas do Hospital Pediátrico de Birmingham apontaram uma eventual solução: um transplante de córnea. Eva foi, então, submetida a duas cirurgias com a duração de três horas que permitiram remover as áreas nubladas de cada um dos olhos e substituí-las por córneas saudáveis de um dador. 
 
A primeira intervenção cirúrgica aconteceu quando a bebé tinha apenas duas semanas e meia de vida, seguindo-se-lhe uma segunda cirurgia às quatro semanas, ambas bem-sucedidas.
 
Manoj Parulekar, um dos oftalmologistas envolvidos nos transplantes, mostrou-se muito satisfeito com os resultados das intervenções e disse ao Daily Mail que a equipa está "desejosa de a ver crescer e fazer tudo o que os seus amigos e a sua irmã mais velha conseguem fazer".
 
Devido à idade, Eva terá que continuar a tomar fármacos com o objetivo de evitar a rejeição dos novos órgãos e será acompanhada até aos 16 anos, mas, embora curta, a sua vida já começou a mudar para melhor e a menina até pôde passar o Natal em casa com a família.
 
"Sentimo-nos muito sortudos por alguém ter tomado, provavelmente em condições extremamente tristes, a decisão de doar órgãos para ajudar pessoas como a Eva", concluiu Harriet Joyce.