Hoje vamos ouvir falar muito de escolas, nomeadamente daquelas que se destacam pelos resultados nos exames e onde os alunos são dedicados e motivados. E isso é muito positivo. Os rankings permitem-nos conhecer as escolas com melhores resultados, mas deixam de fora uma parte muito importante da realidade educativa: não nos mostram as escolas que, embora sem meios, fazem um esforço colossal para melhorar o desempenho; nem nos revelam contextos marcados pela instabilidade do corpo docente, mas onde os alunos persistem na difícil tarefa de contrariar destinos que certos sítios parecem querer determinar.
Estes rankings ordenam as escolas com base em dados mensuráveis. Todavia, não nos mostram o caminho que os alunos percorrem até chegarem às notas que conseguem obter, nem o trabalho que os professores (muitas vezes em ambientes muito desfavoráveis) desenvolvem para atingirem determinados resultados. Também não medem o empenho de professores e de alunos, nem o envolvimento da comunidade educativa. Há escolas que se distinguem pelas notas. E isso devemos sempre aplaudir. Outras que se distinguem pelo que conseguem transformar. E isso deveria merecer grande destaque. Porque tem imenso valor. No entanto, estas últimas raramente conseguem chegar ao agendamento noticioso, porque não lideram listas de sucesso, nem estão em territórios com maior visibilidade.
Este ranking chega ao conhecimento público com um atraso muito significativo, uma vez que os dados são relativos ao ano letivo 2024/2025. Não se percebe tal desfasamento temporal. Mesmo assim, os números devem merecer várias reflexões. A que mais me interessa é aquela que procura compreender movimentos descendentes. Uma descida deveria merecer tanta atenção como uma subida, não para procurar culpados, mas para perceber o que mudou: saíram professores? Alterou-se o perfil das turmas? Faltam recursos?
Hoje também gostaria de ver jornalistas em escolas que não ocupam os primeiros lugares. Não para questionarem resultados, mas para conhecerem o que ali se faz, as dificuldades que enfrentam e as soluções que encontram. Podemos sempre medir o sucesso pela posição alcançada, mas também seria pertinente fazer essa avaliação pela distância percorrida. Pensemos num professor de uma escola de uma grande cidade, cujos alunos contam com explicadores para se prepararem para os exames e dispõem em casa de condições favoráveis ao estudo. Pensemos, por outro lado, num outro professor que trabalha com alunos de contextos desfavorecidos cujos pais acumulam trabalhos para pagar as despesas básicas, não dispondo de uma casa suficientemente espaçosa para haver um lugar específico para estudar. Os dois professores não podem ser comparáveis, mas os rankings que hoje são públicos colocam ambos na mesma pista de corrida.
Há escolas que se distinguem pelas notas. E isso devemos sempre aplaudir. Outras que se distinguem pelo que conseguem transformar. E isso deveria merecer grande destaque. Porque tem imenso valor.
Felisbela Lopes
Fonte: JN
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