quinta-feira, 10 de março de 2022

Novo centro para integrar adultos com autismo

Projeto da Casa de Saúde S. José, em Barcelos, custará 2,8 milhões mas depende do Plano de Resiliência.

João, de 21 anos, é autista. O jovem de Matosinhos ingressou no ensino superior, mas acabou por desistir por falta de integração. É para casos como este que a Casa de Saúde S. José, em Barcelos, vai criar o Centro de Integração e Neurodesenvolvimento, destinado a jovens adultos com perturbações do espectro de autismo.

O projeto, a ser implantado em terrenos junto à Casa de Saúde, foi apresentado ontem, inclui dois centros de Atividades e Capacitação para a Inclusão, seis Residências Autónomas e vai ter capacidade para 60 utentes. A obra irá custar 2,8 milhões de euros, prevê a criação de 53 postos de trabalho, mas está dependente do Plano de Recuperação e Resiliência PRR), cuja candidatura já foi apresentada.

Este novo centro vem suprimir a lacuna que existe em instituições especializadas nesta doença e dar continuidade a um trabalho que é feito desde a infância. "Nos últimos anos, a instituição tem sido contactada por um número significativo de famílias. As crianças atingem os 18 anos e não têm resposta capaz de satisfazer as necessidades do ponto de vista residencial como de ocupação e capacitação", refere ao JN Luís Daniel Fernandes, diretor da Casa de Saúde S. José.

Iolanda Pinheiro, mãe de João, congratula-se com esta nova unidade, salientando que "será benéfico" para manter estes jovens adultos "ocupados e ajudá-los a construir o próprio futuro".

Iolanda revela que está em casa desde novembro para poder cuidar do filho e que tem medo que todo o trabalho feito até hoje "vá por água abaixo se não houver continuidade".

"O João tem 21 anos e não há oferta para jovens como ele. Sente uma grande revolta por não conseguir socializar e nós pais sentimo-nos impotentes", salienta, emocionada.

O principal objetivo do Centro de Integração e Neurodesenvolvimento é conseguir dar a estes jovens adultos ferramentas que lhes permitam desenvolver a autonomia, combater a exclusão social e prepará-los para uma plena integração em ambiente de trabalho protegido complementando a intervenção junto das famílias com suporte e apoio.

Fonte: JN

quarta-feira, 9 de março de 2022

Recursos para avaliar as competências de língua materna de alunos migrantes

O projeto Recursos para avaliar as competências de língua materna de alunos migrantes (Resources for assessing the home language competences of migrant pupils – RECOLANG), desenvolvido por uma equipa composta por elementos de vários países, incluindo Portugal, visa recolher práticas de avaliação das competências linguísticas nas línguas maternas de alunos migrantes e analisá-las, com vista a definir critérios e a produzir materiais para uma avaliação formativa que reflita percursos e repertórios plurilingues. Será dada especial atenção à promoção da sinergia da aprendizagem de línguas e ao desenvolvimento da(s) língua(s) de escolarização. O objetivo geral é apoiar o reconhecimento social e institucional das línguas maternas e valorizar os repertórios plurilingues dos alunos.

A equipa RECOLANG está a realizar um inquérito europeu sobre o papel das línguas maternas na escola, em particular no âmbito de diferentes percursos escolares de adolescentes migrantes com idades entre os 11 e os 18 anos. Este inquérito centra-se nas práticas de avaliação das competências da língua materna e no seu papel nos diferentes sistemas educativos europeus.

Para informações adicionais sobre o projeto e o inquérito, consulte aqui.

Fonte: DGE

terça-feira, 8 de março de 2022

Exames no 9.º ano de volta, mas sem impacto nas notas. No secundário só há provas específicas

Governo está a ouvir parceiros e deverá aprovar diploma esta semana. Provas finais do 3.º ciclo funcionarão como provas de aferição, permitindo avaliar os impactos da pandemia nas aprendizagens. Acesso ao ensino superior mantém moldes dos dois últimos anos.

Os estudantes do 9.º ano vão voltar a fazer provas finais de ciclo neste ano lectivo, tal como acontecia antes da pandemia. Os resultados não vão, porém, contar para as suas notas. O Governo entende que retomar a realização dessa avaliação a nível nacional será importante para aferir os impactos da pandemia nas aprendizagens. No ensino secundário vão manter-se as regras dos dois últimos anos. Ou seja, só será necessário realizar os exames às disciplinas específicas para acesso ao ensino superior. (...)

Fonte: Público

segunda-feira, 7 de março de 2022

Apresentação do 5º. Relatório Trienal do Programa de Vigilância Nacional da Paralisia Cerebral

No dia 21 de março de 2022, segunda-feira, das 15:00 às 18:00 horas, no Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian, será apresentado o 5º. relatório trienal do “Programa Vigilância Nacional da Paralisia Cerebral em Portugal - PVNPC”.

O tema principal deste Relatório é a Evolução dos Fatores Associados ao Risco de Paralisia Cerebral em Portugal no século XXI, com base nos dados das crianças com Paralisia Cerebral nascidas entre 2001 e 2012.

O consórcio “Programa Vigilância Nacional da Paralisia Cerebral em Portugal” é constituído pela Federação das Associações Portuguesas de Paralisia Cerebral, pelas Sociedades Portuguesas de Pediatria, de Neuropediatria, e de Medicina Física e de Reabilitação, pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge e pelo Centro de Reabilitação de Paralisia Cerebral Calouste Gulbenkian da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

A participação é gratuita e aberta a todos os/as interessados/as, e poderá ser presencial (no Auditório) ou via web (através da plataforma interativa disponibilizada pela Federação das Associações Portuguesas de Paralisia Cerebral - FAPPC).



Fonte: INR

domingo, 6 de março de 2022

Os elementos-chave da gestão da turma

A turma é um universo de singularidades, incertezas, complexidade. A turma é um universo de pessoas diferentes que reclamam respostas específicas, adequadas e justas. A turma é um desafio de exigência, de atenção, de alerta permanente. Esgotante. Entusiasmante, também poderá ser.
Gerir a turma é passar de um ajuntamento de alunos a um grupo, a uma equipa que tem um objetivo comum (aprender o máximo possível) e cujos elementos se compreendem, aceitam e entreajudam.
Gerir uma turma é gerar comportamentos disciplinados, convergentes, sintonizados com o propósito da aprendizagem. E saber lidar com os conflitos, o alheamento, o tédio, o ruído sistemático, no fundo da sala.
Gerir uma turma é nunca desistir de acreditar na perfetibilidade do ser humano, é fazer descobrir o sentido da aprendizagem.
Gerir uma turma é colocar os alunos em atividades de reflexão, produção, participação pois a aprendizagem requer não apenas a presença mas também a implicação.
Gerir uma turma é redefinir, sempre que necessário, o contrato pedagógico estabelecido, é ajustar metas e métodos, é diversificar procedimentos e atividades em função das necessidades individuais.
Gerir uma turma é saber utilizar os saberes ensinados, é tornar “empregáveis” esses saberes, é criar situações de tensão e distensão.
Gerir uma turma é sair da sala de aula, é atribuir tarefas e responsabilidades que podem ser realizadas em qualquer espaço da escola.
Gerir uma turma é confiar, libertar, desafiar e responsabilizar, diversificar tarefas e projetos. E até permitir que algum aluno possa brevemente respirar fora da asfixia da rotina.
Gerir uma turma é usar de firmeza e de leveza, é personalizar a relação, é elevar expectativas, é mostrar que se gosta do ofício. Poucas atividades sociais requererão tão elevadas competências e tanto desgaste profissional.
Pena que o repouso dos gabinetes não saibam e não sintam esta complexidade extrema.

José Matias Alves
(JMA, CE,2005, adaptado em 2022)


sábado, 5 de março de 2022

A importância de estimular a autonomia nos mais pequeninos

Nos primeiros anos de vida, os mais pequeninos desenvolvem-se e crescem de uma forma incrível e visível aos nossos olhos. Não tão visível é o que cresce e se desenvolve nos seus cérebros enquanto absorvem tudo o que se passa à sua volta como verdadeiras esponjas.

No entanto, algumas das capacidades que observamos em crianças mais velhas, ou até mesmo em nós adultos, irão levar o seu tempo a desenvolver-se nomeadamente a sua autonomia e independência.

Desenvolver a autonomia traz inúmeros benefícios para as crianças. Uma delas é fomentar a autoconfiança, a autoestima para desenvolver a confiança necessária para enfrentar e superar os desafios da vida e tornar-se adultos independentes no futuro.

O que significa “autonomia” nos mais pequeninos?

Na primeira infância, autonomia significa a capacidade de uma criança agir por vontade própria e realizar tarefas de forma independente, sem a ajuda de um adulto.
Benefícios da autonomia

Naturalmente, como pais, temos o desejo de superproteger nossos filhos, pois não desejamos que eles passem por nenhuma dor. Daí que, no nosso dia-a-dia, acabamos por apressar os pequeninos, também porque na correria do dia a dia, é muito mais fácil fazermos as coisas por eles: apertar os sapatos ou vestir o casaco são alguns exemplos.

No entanto, é importante termos alguma consciência dos aspetos negativos desta superproteção, porque com a melhor das intenções podemos prejudicar sua confiança e transformá-los em crianças inseguras e tímidas e influenciar a personalidade dos nossos filhos à medida que se desenvolvem e se tornam adultos.

Existem formas que conseguimos desacelerar esta necessidade que temos de os manter dependentes e ajudá-los a desenvolver independência e confiança, dando um empurrãozinho na sua autoestima. Estas competências vão levá-los bem mais longe do que ser os melhores da turma ou tirar as melhores notas!

Como incentivar a autonomia?

Quando as crianças aprendem a ser autónomas, elas naturalmente vão tornar-se adultos independentes através das novas competências que adquirem durante a infância.

Precisamos de ter tempo e paciência para ajudar os mais pequeninos a serem capazes de desenvolver esta competência tão importante para a vida. Isso significa que, às vezes, é importante aguardar que o bebé, em tentativa-erro, aperte o casaco ou os cordões enquanto pensa secretamente para si “Eu já tinha apertado e já tínhamos saído de casa”.

Aproveite este tempo de espera porque ele pode tornar-se também num momento de conexão se a criança perceber que está ali para ajudar e guiar e não para fazer as coisas por ela. Outra forma de desenvolver esta autonomia é por exemplo avisar que eles precisam de fazer algo, assoar o nariz é um exemplo, em vez de ir logo limpar o nariz sem que eles sequer parem a brincadeira e por isso mesmo não adquiram consciência do nariz sujo e da necessidade de o limpar.

Os mais pequeninos não têm o mesmo nível de atenção e foco que os adultos e por isso podem não reparar que têm um pingo no nariz. Ao invés de pegarmos logo no lenço e limparmos, podemos sugerir que à criança que pegue num lenço e limpe.

Quando nos habituamos a fazer as coisas pelos nossos filhos eles podem ficar muito frustrados e, como consequência, podem nem sequer querer tentar fazer por si próprios.

À medida que a criança cresce, você pode reconhecer os seus esforços em casa por meio de exemplos muito simples, como calçar os sapatos, comer e vestir-se de forma independente.

Abaixo estão algumas formas e exemplos para orientá-los no desenvolvimento da autonomia à medida que crescem desde bebés. É importante estimular a autonomia dos mais pequenos e ajudá-los a serem capazes de:
  • Assoar o nariz, com um espelho por perto.
  • Vestir e despir. Há formas mais fáceis de ensinar a vestir o casaco do que a forma que fazemos diariamente. Podemos colocar o casaco no chão, os meninos põem os dois braços e passam por cima da cabeça, o que encaixa perfeitamente.
  • Dar ou ir buscar a fralda.
  • Buscar água quando têm sede, pelo que a mesma deve estar acessível.
  • Escovar o cabelo e os dentes, sendo necessário garantir que ambas as escovas estão à mão.
  • Preparar pequenos snacks quando sentem fome.
  • Lavar as mãos sem ajuda, colocando uma toalha por perto e um degrau para facilitar a subida ao lavatório.
Ao incentivarmos os nossos filhos a cuidarem de si próprios estamos a desenvolver as suas capacidades cognitivas, sócio-emocionais e de autonomia. Para além disso, mostramos que confiamos neles e que as suas escolhas também importam, o que desenvolve a auto-estima.

Clementina Almeida

Fonte: Público

sexta-feira, 4 de março de 2022

Desenvolvimento linguístico e preparação para a leitura e a escrita

A aprendizagem da leitura/escrita implica a aprendizagem de um sistema de signos gráficos que representam a fala e o desenvolvimento de conhecimentos e habilidades que possibilitem a compreensão do que se lê e a capacidade de expressão através da escrita. Por isso, o sucesso nesta aprendizagem é influenciado pela condição em que cada criança se encontra quando inicia a escolaridade, em particular pelo seu desenvolvimento linguístico e pelo contacto prévio que teve com a escrita.

1. Desenvolvimento linguístico e preparação para a aprendizagem da leitura e escrita

Para a maioria das crianças, a aquisição da linguagem ocorre de forma “natural”, por imersão numa comunidade linguística, seguindo um padrão de desenvolvimento relativamente semelhante.

Começam por balbuciar, apontar e seguir atentamente o que veem e ouvem. Depois surgem as primeiras palavras, utilizadas na nomeação de pessoas e objetos que, a pouco e pouco, as crianças aprendem a juntar. Primeiro produzem frases simples, depois frases mais complexas que progressivamente se aproximam das da linguagem do adulto. A simplicidade está apenas nesta descrição sumária.

A aquisição da linguagem é complexa e morosa! Envolve o domínio (percetivo e articulatório) da fonologia da língua, a associação de significados/conceitos a palavras e implica o progressivo domínio de regras de combinação e alteração das próprias palavras para compreender e expressar significados relacionais mais complexos. São conhecimentos implícitos, isto é, não conscientes, extraídos da língua a que a criança está exposta, e de que a criança faz uso na interação linguística.

De um modo geral, no momento em que se inicia a aprendizagem da leitura e da escrita, a linguagem de base está adquirida. Mas já nesta altura as crianças possuem competências linguísticas muito diferentes. Diferem no conhecimento do léxico ou, utilizando uma expressão mais corrente mas com um significado mais restrito, no vocabulário que conhecem. Diferem no entendimento e na capacidade de elaboração de frases, na compreensão oral, na facilidade com que elaboram uma narrativa e na adequação do seu discurso ao interlocutor. Ou seja, o nível de proficiência alcançado em cada um dos domínios (fonologia, conhecimento lexical, conhecimento morfossintático e pragmático) – o desenvolvimento linguístico – é variável.

São inúmeras e complexas as razões para essas diferenças. Sabe-se, porém, que uma parte significativa desta variabilidade está relacionada com a riqueza da linguagem a que a criança está exposta, como explicado de forma clara neste vídeo.

Center on the Developing Child at Harvard University (2020, July).
Serve and return interaction shapes brain circuitry. http://developingchild.harvard.edu

Esta é a razão pela qual as crianças que vivem em contextos mais desfavorecidos tendem a ter competências linguísticas menos desenvolvidas e por, nestes contextos, se encontrar uma maior percentagem de crianças com atrasos ou dificuldades da linguagem. A riqueza da linguagem a que a criança está exposta é ainda a razão que explica o efeito de uma educação de infância de elevada qualidade. Ela é eficaz na promoção do desenvolvimento linguístico e é até capaz de anular ou esbater os atrasos linguísticos registados por algumas crianças, em particular, daquelas que vivem em contextos socioculturais mais adversos.

O contacto que as crianças têm com a linguagem escrita é também bastante diversificado. Encontram-se diferenças consideráveis entre as crianças em idade pré-escolar nos conhecimentos e competências que facilitam a aprendizagem do sistema de representação alfabético, entre os quais o conhecimento das letras e a habilidade para dirigir a atenção para a estrutura fonológica da fala.

2. A importância do desenvolvimento linguístico e da preparação para a aprendizagem da leitura e escrita

A relevância do desenvolvimento linguístico e do contacto prévio com a linguagem escrita compreende-se facilmente se tivermos presente o que hoje sabemos serem os principais mecanismos envolvidos na leitura e na escrita.

A leitura e a escrita envolvem essencialmente dois componentes:

a) o mapeamento/correspondência entre o que está escrito e a respetiva pronúncia (decodificação, na leitura; codificação, na escrita);
b) a compreensão e a expressão oral.

Daqui se depreende que o domínio dos “sons” da língua (quer a nível percetivo, quer a nível da produção, dicção), a noção de que a escrita “representa” a fala, a capacidade para dirigir a atenção para a estrutura fonológica da fala, o conhecimento das letras e do que elas representam são aspetos facilitadores da aprendizagem do código e dos mecanismos de decodificação, na leitura, e de codificação, na escrita (ver também Consciência fonológica, relação entre linguagem oral e escrita e Convenções do sistema de escrita, conhecimento das letras e grafia).

A partir do que foi dito, percebe-se também a importância dos principais elementos que contribuem para a compreensão e expressão orais, o conhecimento lexical e o conhecimento gramatical ou morfossintático (ver também Conhecimento lexical e Conhecimento morfológico e sintático).


O efeito das habilidades linguísticas na compreensão da leitura e na escrita pode ser pouco percetível nas etapas iniciais da aprendizagem, quando a atenção e o esforço mental ainda estão concentrados na identificação e escrita das palavras. No entanto, torna-se cada vez mais evidente à medida que estes processos se automatizam e o aluno fica liberto para dirigir a atenção para a extração de sentido ou do que pretende expressar.

As Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar, publicadas pelo Ministério da Educação de Portugal, refletem já o reconhecimento da relevância do desenvolvimento linguístico e do contacto com a escrita nos anos que antecedem a aprendizagem formal. Por isso lhe dedicam uma atenção especial e incitam à sua promoção.

3. A ciência mostra

Sobretudo nos anos que antecedem a escolaridade a variabilidade no desenvolvimento linguístico é acentuada e reflete o efeito de diferentes fatores.

Alguns atrasos têm uma componente hereditária, outros são explicados pelo que a criança consegue ouvir, isto é, por défices da capacidade auditiva (que podem ou não ter também uma componente hereditária), enquanto outros resultam maioritariamente de carências socioculturais que se refletem no input linguístico e nas vivências da criança. Por si só, nenhum destes fatores determina o desenvolvimento da linguagem ou permite prever eventuais dificuldades na aprendizagem da leitura e da escrita. Ou seja, nenhuma criança está, à partida, condenada!

O risco de dificuldades na aprendizagem da leitura e da escrita eleva-se quando diferentes adversidades se conjugam e a criança não tem acesso a educação de infância de qualidade ou a outras medidas de apoio que permitam contrariá-las. Por esta razão, é importante estimular e expor a criança o mais cedo possível a um ambiente linguístico rico, estar atento à evolução das suas competências linguísticas e, se necessário, desenvolver com ela um trabalho mais intensivo e sistemático.

Os estudos científicos nesta área mostram que a intervenção sistemática ao nível da linguagem – e que passa pelo ensino explícito de vocabulário, pela organização de narrativas (e.g., descrição de acontecimentos reais ou imaginários), pela audição da leitura de histórias… – tem, em geral, um efeito positivo considerável. Esta evolução é particularmente significativa quando “ouvir” e “falar” são trabalhados de forma integrada. Não basta à criança “ouvir”. A linguagem desenvolve-se sobretudo no contexto de interações verbais.

Para preparar a aprendizagem do código e dos mecanismos envolvidos na leitura e na escrita, têm de existir atividades em que pais e educadores se focam na linguagem escrita, na sua relação com a linguagem oral, e ensinam os conhecimentos e as habilidades necessários (consciência fonológica e conhecimento das letras).

A relação entre o desenvolvimento linguístico e os conhecimentos sobre o impresso e o sucesso na aprendizagem da leitura e da escrita é clara. As crianças que, em idade pré-escolar, têm um vocabulário mais desenvolvido, uma maior facilidade de compreensão da linguagem oral e que conseguem produzir frases mais elaboradas revelam, mais tarde, uma maior facilidade de compreensão da leitura. Estas crianças enfrentam de forma menos custosa os desafios colocados pela crescente complexidade dos textos com que serão confrontadas. Por seu turno, as crianças que possuem conhecimentos alargados sobre a escrita (e.g., sabem que as letras servem para representar os "sons" da fala, conhecem mais letras, ...) têm mais facilidade nas etapas iniciais da aprendizagem quer da leitura, quer da escrita.

quinta-feira, 3 de março de 2022

Estudante cria sistema que traduz língua gestual

A estudante Priyanjali Gupta, de Deli, na Índia, não tem uma grande história para contar sobre o que a levou a criar um modelo de inteligência artificial que traduz em tempo real língua gestual americana para inglês. Na verdade, foi simplesmente a mãe que lhe pediu para criar algo, já que está a estudar Ciências da Computação, no Vellore Institute of Technology.

“A minha mãe provocou-me e isso fez-me pensar no que é que poderia fazer com o meu conhecimento e habilidades. Um dia, surgiu-me a ideia de criar uma tecnologia inclusiva”, contou a jovem. Um ano de trabalho depois, neste mês de fevereiro, Grupta apresentou nas redes sociais a ferramenta de inteligência artificial, que recorre a uma tecnologia de deteção de objetos e a um modelo pré-treinado.

Através de uma webcam, o sistema traduz gestos da língua gestual para inglês no imediato, com grande precisão – como olá, amo-te, obrigado, por favor, sim e não. Mas a estudante quer desenvolvê-lo, num pequeno passo para a inclusão. A língua gestual americana é o terceiro idioma mais usado nos Estados Unidos, atrás do inglês e do espanhol.

quarta-feira, 2 de março de 2022

Que (novo) rumo na educação – três inquietações para três compromissos prioritários

O novo Governo, a sair das recentes eleições, salvo melhor opinião, deve encontrar, quanto antes, o momento certo para a assunção de três compromissos estruturantes e prioritários inadiáveis no âmbito da Educação, como resposta a três inquietações prementes.

Vejamos quais são.

Sabemos que a Escola tem prestado cada vez mais um serviço de elevada qualidade, alicerçada em valores como o compromisso, a confiança, a inclusão, a equidade, a iniciativa e a inovação.

A Escola sabe e reconhece que existe para que todos aprendam. Os projetos educativos das escolas, nestes últimos anos, têm configurado essa clara intencionalidade.

A Escola está mais humanista, tolerante, solidária. Faz da ética, da responsabilidade, da cidadania e da solidariedade cada vez mais o objeto e o sentido da sua ação.

Todavia, a Escola sabe que quer, e pode, fazer (ainda) mais e melhor.

Um dos seus desafios atuais e próximos aponta para a importância da consolidação de mudanças dinâmicas que continuem a incorporar valor aos processos que existem na organização escolar (quer no domínio pedagógico, quer no organizacional) e que se traduzam não só na melhoria dos resultados da aprendizagem dos alunos, mas também na satisfação dos agentes educativos.

A Educação precisa de investimento para que a escola seja ainda mais inclusiva e transformadora.

É uma questão de vontade política.

O investimento em Educação tem de ser uma prioridade política.

Esta deve ser a primeira inquietação do novo Governo e o seu primeiro compromisso.

Há duas questões incontornáveis que exigem visão, planeamento e ação estratégica imediatas.

Estamos a falar do envelhecimento da classe docente e da falta gritante de docentes no nosso sistema educativo e, ainda, dos impactos negativos da pandemia ao nível de competências irremediavelmente perdidas nos alunos.

É, pois, de todo urgente atrair e formar os jovens para a formação profissional na docência e, ainda, manter no sistema educativo os professores.


Esta será uma das mais importantes profissões para o futuro do país.

Assim, o primeiro impulso vertical a ser dado deve ser ao nível da formação inicial, da valorização e dignificação da carreira docente e da melhoria das condições do trabalho letivo.

Entre outros, elencamos alguns dos principais compromissos a assumir:

O modelo atual da avaliação do desempenho docente e os seus efeitos têm de ser alterados. Não promove o desenvolvimento profissional nem a valorização e progressão justa e equitativa na carreira.

Também o atual regime de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos públicos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário carece de alteração. Entre várias alterações, situamos duas - a direção da escola ser eleita pelos seus pares (sufrágio direto por todo o pessoal docente e não docente, representantes dos pais e, no caso do ensino secundário, representantes dos alunos); ao Conselho Pedagógico defendemos o regresso das associações de pais e encarregados de educação, dos alunos no ensino secundário, do pessoal não docente.

Os professores precisam de mais tempo para a organização, preparação e planificação do trabalho pedagógico e para o trabalho colaborativo (articulação horizontal e articulação vertical) e muito menos burocracia, a qual limita e esvazia a ação educativa e promove a degradação da qualidade de vida profissional e pessoal. Mais e melhores aprendizagens requerem indubitavelmente a urgência desta medida.

A segunda inquietação, para o segundo compromisso prioritário, tem a ver com o bem-comum dos Alunos, em particular, do Ensino Secundário. O novo Governo tem de criar um outro modelo de acesso ao Ensino Superior. É demais conhecida e pública tal necessidade.

A terceira inquietação prende-se com a autonomia das escolas, a territorialização das políticas educativas públicas e a descentralização de competências para os níveis local e regional da administração.

Só com mais autonomia real e vinculante as escolas poderão reconfigurar a sua gramática de outros modos, por forma a garantir ainda maior inclusão, mais sucesso escolar e melhor formação integral do aluno.

É preciso também dar continuidade à implementação e valorização de uma cultura de avaliação formativa, como prática avaliativa dominante, que privilegie a qualidade da aprendizagem em detrimento da simples classificação e promova um feedback de qualidade (mais contínuo e sistemático).

Para melhor consolidação de boas políticas educativas é ainda indispensável escutar mais a VOZ do terreno, das escolas e dos professores, pois melhor do que ninguém sabem o que é efetivamente necessário e exequível ser mudado, a bem do serviço público de educação.

Por último, a Administração Educativa precisa de mudar. Deve orientar os seus recursos para o essencial e ser muito mais próxima, leve e ágil, não centralizadora e burocrática. É ainda de todo fundamental a criação de departamentos no seio da Administração Educativa que pensem e concetualizem Educação e que operacionalizem microrredes regionais com e entre as escolas para debate, reflexão e partilha do pensamento crítico que sustente melhores políticas educativas.

Fernando Elias

Fonte: Público por indicação de Livresco

terça-feira, 1 de março de 2022

Paralisia cerebral: Punk as you are

Os 5ª Punkada não são uma banda qualquer. São um maravilhoso feitiço que nos chega de Coimbra. Esta banda é composta por músicos de imenso talento, que formam um só organismo, que comunica através da música, por todos os poros. Dos 5ª Punkada, quatro são utentes da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra. Eis os blues da sua vida.

É tão simples quanto isto: em palco, a vida é como devia. Não é preto, não é branco, não é verso, não é reverso, não é inverso, não é regra, nem sequer contra-regra, não é parâmetro, nem deixa de ser, não obedece a enquadramentos, classificações, estereótipos, conceitos e preconceitos, nem tem de obedecer. É. O palco, assim como a música, têm uma natureza transpositora, maravilhosamente multidimensional. O ser é a sua estética, a sua linguagem. Se a alma existe, é neste sítio que se encontra.

Sexta-feira 11, Teatro Académico de Gil Vicente, Coimbra, lá para a noitinha. Uma névoa de gelo seco flutuava, com os instrumentos no seu respirar antropomórfico e os microfones a exercer o efeito de sombras chinesas. À distância, pareciam trepadeiras no branco do cenário, que tinha uma mão feita de duas, amarradas pelas artérias de um corpo unificado, como uma tatuagem de henna, com estas palavras de Fausto Sousa, que é o letrista, vocalista, sound beam e, em múltiplos aspectos, a essência dos 5ª Punkada, que não são apenas uma banda, mas um organismo que se expressa das profundezas, exactamente como acontece com as palavras e com o seu portador: “Quem atado/ como eu a ti/ tu és metade de tudo/ que há em mim/ tu és metade de mim/ eu sou metade de ti.”

Não vale a pena extrair às palavras um significado, pois este deixa de ser pessoal sempre que se torna transmissível. Os 5ª Punkada já existem desde 1993, a sua formação já se alterou algumas vezes, por questões que estão guardadas na tristeza. O palco é a sua natureza. Em palco, eles reexistem todas as vezes. Exercem o imenso poder de poder, exercendo-o com a pureza rara que só a liberdade tem. É isso, mas não é só isso que os torna extraordinários. O que os torna extraordinários é o seu talento para serem punks nos blues da sua vida. (Continua)

Fonte: Público por indicação de Livresco