quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Como a Finlândia está a preparar as crianças para um mundo dominado pela IA

A desinformação já não é apenas um problema dos adultos. Com imagens, vídeos e notícias falsas geradas por Inteligência Artificial (IA) a circularem cada vez mais depressa, a Finlândia decidiu agir cedo. Muito cedo. De que forma o país está a preparar as crianças para um mundo dominado pela tecnologia?

Na Finlândia, desde o pré-escolar, as crianças aprendem a questionar o que veem e a distinguir factos de ficção.

Numa estratégia educativa que coloca o país na linha da frente do combate aos deepfakes e às fake news, os mais novos irão aprender, também, a reconhecer conteúdos criados por IA.

Em maio de 2025, circulou pela Internet uma fotografia, criada por IA, com Donald Trump na figura de Papa.

Literacia mediática: "de pequenino se torce o pepino"

Durante décadas, a Finlândia tem sido uma referência no ensino da literacia mediática. Agora, com a proliferação de deepfakes e conteúdos gerados por IA, o país nórdico passou a incluir a literacia em IA nos programas escolares, desde idades tão precoces quanto os três anos.

Na perspetiva do país, o combate à desinformação deverá começar logo no pré-escolar. Por isso, desde há vários anos que os seguintes tópicos são incluídos no currículo escolar:
  • Analisar conteúdos mediáticos;
  • Identificar fontes credíveis;
  • Reconhecer notícias falsas.
O objetivo é claro: formar cidadãos mais críticos, resilientes à propaganda e menos vulneráveis à manipulação da informação.


Desinformação como ameaça à democracia

Este esforço ganhou ainda mais relevância após o aumento das campanhas de desinformação na Europa, intensificadas depois da invasão da Ucrânia pela Rússia.

A adesão da Finlândia à NATO, em 2023, elevou ainda mais o nível de alerta, apesar de Moscovo negar interferências externas, conforme recordado.

Segundo Kiia Hakkala, especialista pedagógica da cidade de Helsínquia, a literacia mediática é, hoje, uma competência cívica essencial. Além da educação, está diretamente ligada à segurança nacional e à proteção da democracia.


Com a IA, distinguir factos de ficção tem de ser uma competência básica

Numa escola primária em Tapanila, nos arredores de Helsínquia, alunos do quarto ano já aprendem a distinguir factos de ficção. Entre manchetes, imagens e vídeos, os estudantes são incentivados a questionar, analisar e desconfiar.

De acordo com o professor Ville Vanhanen, os alunos já lidam com conceitos de desinformação há vários anos. Agora, contudo, o foco está em identificar sinais visuais e contextuais que possam indicar conteúdos gerados por IA, como imagens artificiais ou vídeos manipulados.


Newspaper Week

Neste cenário de literacia, os meios de comunicação social assumem, também, um papel ativo. Todos os anos é promovida a iniciativa Newspaper Week, que leva jornais e conteúdos noticiosos às escolas.

Em 2024, o diário Helsingin Sanomat lançou o ABC Book of Media Literacy, distribuído a todos os jovens de 15 anos que iniciam o ensino secundário.

Para Jussi Pullinen, editor executivo do jornal, é crucial que os media sejam vistos como fontes de informação verificadas, transparentes e fiáveis, especialmente num contexto de crescente desinformação online.

De facto, a literacia mediática faz parte do sistema educativo finlandês desde a década de 1990 e estende-se, também, aos adultos, com cursos específicos para grupos mais vulneráveis.

Por via destas estratégias, a Finlândia lidera consistentemente o European Media Literacy Index, elaborado entre 2017 e 2023.


O desafio da IA no mundo da informação

O ministro da Educação da Finlândia, Anders Adlercreutz, reconhece que poucos anteciparam um cenário tão complexo. A democracia e as instituições estão cada vez mais expostas a ataques de informação, muitas vezes difíceis de detetar.

Com a rápida evolução das ferramentas de IA, especialistas alertam que distinguir o que é real do que é falso vai tornar se cada vez mais desafiante.

Embora atualmente muitos conteúdos artificiais ainda apresentem falhas visíveis, esse cenário poderá mudar rapidamente.

Como refere Martha Turnbull, do European Centre of Excellence for Countering Hybrid Threats, o verdadeiro desafio surgirá quando a tecnologia atingir um nível de sofisticação muito superior.

Por isso, preparar as novas gerações para esse futuro é, para a Finlândia, uma prioridade absoluta.

Fonte: pplware por indicação de Livresco

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