domingo, 30 de novembro de 2008

Governo admite negociar novo modelo de avaliação

O Ministério da Educação está disponível para começar a negociar um novo modelo de avaliação. Assim que os sindicatos o requeiram, mas sem pré-condições, frisou, ontem, o secretário de Estado adjunto, Jorge Pedreira.
Comentário:
O ME aceita negociar com os sindicaos mas sem pré-condições! É de registar esta aparente boavontade!
Mas, outra questão se coloca: estará o ME disponível para negociar sem querer impor o actual modelo?! Afinal, negociar sem pré-condições, deve aplicar-se a ambas as partes!!

sábado, 29 de novembro de 2008

Avaliação sempre. Avaliação nunca

A fazer fé nos jornais - e temos de ter fé em algo - perfilam-se duas formas de avaliação muito sérias. Na aparência, ambas estão na montra da casmurrice que tem sido o diálogo de surdos entre sindicatos e ministério da Educação. Mas a casmurrice não é, para aqui, avaliada. Ambas são estimáveis. Uma triunfará. Ou nenhuma.
O ministério começa a ceder qualquer coisita. Quer recuperar fôlego. Inspira borbulhidos. Expira minudências. Abandona o acessório. Conserva o essencial esburacado. Convicções fortes.
Os professores podem, agora, pedir para ser avaliados por um avaliador da mesma área disciplinar. Então o docente de Contabilidade já não é competente para avaliar o de Filosofia? Despreza-se assim a possibilidade de haver uma contabilidade filosófica? Ou Educação Física aferida por educador tecnológico? É pena.
Os professores são dispensados, este ano, da análise dos resultados escolares dos alunos na sua avaliação. Já vão poder chumbar à tripa-forra? E o sentimento de orfandade de não ter todos os alunos no ano seguinte? Acho mal. Docente órfão dos filhos-alunos, que são retidos, repetentes, renitentes, não é docente.
Também acho curta a passagem de três para duas aulas dos docentes a serem observadas. Por que não baixar este número astronómico? Uma aula observada já é exagero. Espera-se gesto de boa vontade para baixar para menos. Alguém gosta de ser observado? Eu, pelo menos, fico intimidado quando Maria me observa. É infeliz esta minha observação. A pessoa fica como que presa por um fio. Dental.
É certo que, quem quiser, dispensa-se do parâmetro anterior. Mas não pode ser avaliado com Muito Bom ou Excelente. Acho excelente. As Finanças agradecem. Eu também. Os meus impostos não têm de andar a promover suas excelências. Além disso, o avaliador que será depois avaliado, vai atribuir Excelente a sua excelência o subalterno, esgotando as quotas? E fica o avaliador, na sua quota-parte, sem quotas?
Da parte dos sindicatos a coisa é mais séria e pragmática. Os sindicatos exigem a suspensão da avaliação. Eu pessoalmente detesto suspensão. Fiquei traumatizado. Sou suspeito. Apanhei, aluno do Liceu de Portimão, muitos dias de suspensão. E, também por suspeição, apanhei suspensão.
Nogueira só fala em suspensão, suspensão. Alguém tem coragem de suspender Nogueira? Credo! Não defendo a suspensão, pelo pescoço, tal como o José Estalinho fazia aos opositores na União que foi soviética. Ou nos campos gelados de concentração na matéria dada. Nada disso. Recolocar aquele bigodinho numa sala de aula, suspenso no pasmo dos seus alunos, não estragava nada. Nem o bigode, nem as crenças, nem o soviete supremo intersindical.
Mas não se duvide que os sindicatos querem avaliação. Outra qualquer. Que tem de ser muito bem pensada. Com tempo. As calendas gregas podem ser o curto prazo para avaliar em tempo útil. A alternativa ao actual modelo da avaliação, segundo o homem da Plataforma (estou a vê-lo a ministrar aulas em cima da plataforma, do palanque), passa, este ano, por um "documento de auto-avaliação" do docente. Acho muito bom e muito original. Nunca visto em Portugal. É por defenderem auto-avaliação que os sindicatos fretam autocarros para Lisboa. Não se faz auto-avaliação a pé.
A auto-avaliação é um complexo exercício de auto-gratificação. Quem há-de gabar o noivo senão o noivo? A auto-avaliação agarra-se etimologicamente ao prefixo auto. O docente pode fazer copy/paste de um bom documento, descarregado da net, carrega no enter e é auto, automático. O conselho pedagógico assentirá. Docente automaticamente avaliado. Abalizado. Rápido. Barato. Dá a milhões. Não digo a milhões, mas a dezenas de milhar de docentes, a morte das sevícias de duas aulas observadas. Ou menos.
Todos querem avaliação. Os sindicatos mais. O Ministério menos. Os docentes assim-assim. Sim. Talvez. Não. Avaliação sempre. Avaliação nunca. Entendam-se. Avaliação é coisa séria. Não é para rir.
Expresso Online

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Propostas de alteração sobre a avaliação de desempenho

Segundo o projecto de decreto regulamentar divulgado pelo Ministério da Educação (ME), a avaliação da componente científico-pedagógica passa a ter carácter voluntário. Assim, a observação de pelo menos duas aulas só será obrigatória se o professor avaliado quiser aceder às duas classificações mais elevadas.
Por outro lado, deixa de ser considerado o parâmetro relativo aos resultados escolares dos alunos e à redução das taxas de abandono escolar.
Os professores, sempre que requeiram, poderão ser avaliados por professores da mesma área disciplinar, podendo neste caso estes docentes ser requisitados a outros estabelecimentos de ensino. O ME abriu a possibilidade do pagamento de horas extraordinárias para concretizar esta medida.
Em relação às fichas de avaliação e auto-avaliação, é apenas exigida a classificação e avaliação dos parâmetros, sendo dispensado o preenchimento dos itens e subparâmetros.
Outra das medidas de simplificação anunciadas prende-se com a dispensa, em caso de acordo, das reuniões entre avaliador e avaliado, designadamente para discutir os objectivos individuais e a atribuição da classificação final.

Centros sem formação há um ano só apoiam avaliação

O Estatuto da Carreira Docente determina que os 140 mil professores de escolas públicas terão de obter pelo menos 50 horas de formação, a cada dois anos, para evitarem penalizações na avaliação, mas os centros responsáveis não dão cursos há mais de um ano. Entretanto, têm estado apenas direccionados para o apoio à avaliação do desempenho.
No passado ano lectivo, o Ministério da Educação decidiu extinguir todos os 200 centros de formação de associações de escolas existentes e reduzir a rede através da fusão dos anteriores. Isto numa altura em que já estavam elaboradas as candidaturas ao apoio financeiro do Programa Operacional do Potencial Humano (POPH), que ficaram sem efeito com a reorganização da rede de centros, que deveriam ser homologados até Agosto. "Até ao momento, foram registados 92", informa Joaquim Raminhos, director do Centro de Formação de Escolas do Barreiro e Moita. "Com a reorganização, ainda não foi possível concorrer aos fundos do POPH. Há mais de um ano que não existem formações - isto apesar de o Ministério da Educação garantir que as acções de formação não pararam, inclusive através de serviços ministeriais - e antes de Janeiro não vai haver nada, o que gera o desespero em professores que vêem o tempo passar e têm a informação que precisam da formação para efeitos de avaliação."
Muitos professores decidiriam não esperar pela abertura dos novos centros, a que deve corresponder uma explosão na procura, e pagam as formações do próprio bolso. Nunca menos de 150 euros por curso de 25 horas. "Dinheiro pago por um serviço que o ministério é obrigado a fornecer", critica Luís Mateus, ex-representante dos centros da região de Lisboa e critico da reorganização do Governo, "que está a gerar dificuldades aos centros para conseguirem regressar à normalidade".
Em vez de formações, os centros estiveram no último ano a dar apoio à avaliação do desempenho, nomeadamente com acções de esclarecimento junto de conselhos executivos, avaliadores e professores avaliados. "Enquanto isso, não arrancaram os cursos para todos os grupos disciplinares existentes nas escolas, não só os tradicionais, como o Português ou a Matemática, como em novas áreas, como as tecnologias, que é uma das apostas do Governo." A este propósito, o coordenador do Plano Tecnológico da Educação (PTE), João Trocado da Mata, anunciou ontem que a formação e certificação de professores em competências de Tecnologias da Informação e Comunicação vai arrancar no primeiro trimestre de 2009.
Acções contabilizadas
Críticos do actual modelo de avaliação, os movimentos independentes de professores defendem o regresso ao regime anterior de progressão na carreira, em que o professor tinha de reunir créditos para passar de escalão. O que não seria praticável neste momento, em que os cursos de formação contínua estão parados. "Além disso, o Ministério da Educação informou que as formações realizadas antes de 2005/2006, ano em que as progressões foram congeladas, iriam ser contabilizadas na avaliação. Importa perceber o que aconteceria àqueles professores que não têm acções anteriores a 2005 e que não as conseguiram fazer nos últimos dois anos por falta de oferta", questiona Mário Machaqueiro, da Associação em Defesa do Ensino.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Regras em crise


É urgente que os pais compreendam que ao imporem disciplina desde cedo estão a promover o autocontrolo dos filhos e a ajudá-los a serem capazes de estabelecer os seus próprios limites.
"Já não sei mais o que fazer... dou-lhe tudo! Ele tem computador, telemóvel topo de gama, televisão no quarto e leitor de MP3"
A elevada frequência com que me tenho confrontado com afirmações semelhantes a esta, tem-me deixado verdadeiramente preocupada. Os pais que fazem afirmações deste tipo têm geralmente filhos problemáticos, sendo frequentemente chamados à escola porque estes não cumprem regras nem respeitam os adultos. Em termos educativos, entramos na onda do dar muito, mas exigir pouco. Muitos dos nossos alunos sabem que o mau comportamento não será penalizado, nem na escola, que infelizmente tem poucos meios para impor autoridade, nem em casa. Depois de dois ou três dias em que o castigo vigora, o coração do pai ou da mãe amolece e, portanto, rapidamente se reconquista tudo o que se perdeu na sequência dos maus comportamentos na escola. Como não há consistência em termos educativos, rapidamente a criança/o jovem volta a apresentar distúrbios de comportamento, porque afinal os castigos, se existirem, são de tão curta duração que a/o leva a aprender que "o crime verdadeiramente compensa". Não é difícil um jovem pensar "Para que é que vou mudar de atitude, se mesmo sendo arrogante e mal-educado poderei usufruir de telemóvel, televisão no quarto e de todas as outras mordomias que felizmente tenho sempre ao meu alcance?". O meu contacto frequente com alunos não me deixa qualquer dúvida relativamente à veracidade da teoria apresentada. Recentemente, devido ao comportamento disruptivo de um grupo de alunos que frequentam um CEF (Curso de Educação e Formação), dizia uma aluna: "Eu estou a esforçar-me por melhorar o meu comportamento, porque a minha mãe me tirou o telemóvel e as saídas com as minhas amigas. Só poderei voltar a ganhar isto, se o meu comportamento melhorar." Outro aluno, cujo pai fora também alertado para a importância de aplicar algumas penalizações em consequência do seu mau comportamento, dizia arrogantemente: "O meu pai não me tirou nada."
Quando estes jovens são encaminhados para o Serviço de Psicologia e Orientação, procuro que os pais compreendam que os filhos não sofrem de nenhum problema psicológico e o processo de mudança passa pelo estabelecimento de regras e limites por parte da família. Ora este processo esbarra de imediato com muitas dificuldades, pois o trabalho que os pais deveriam iniciar nos primeiros anos de vida começa apenas na adolescência, quando a omnipotência e tirania dos jovens já é reinante. Nos primeiros seis anos de vida, a interiorização das regras e a tomada de consciência dos limites são mais fáceis de integrar.
É de sublinhar que alguns destes pais nunca impuseram limites, por considerarem que os comportamentos disfuncionais dos filhos seriam o resultado deste ou daquele problema familiar e não o fruto da inexistência de autoridade; outros, porque dizer "não" e manter o "não" dá muito mais trabalho que dizer "sim". Contrariamente ao que estes pais supõem, no fundo, as crianças gostam de ouvir "não", uma vez que este significa que há alguém acima delas que as ajuda a resolver o que não conseguem resolver sozinhas, e que toma conta delas, protegendo-as contra eventuais riscos.
Usando as palavras do Dr. Daniel Sampaio: "É preciso afirmar, sem subterfúgios, que não se pode educar sem autoridade, quer no contexto da família quer no ambiente da escola. Há temas que não são negociáveis na interacção com os filhos: o respeito pelos mais velhos, a proibição da linguagem obscena, o cumprimento dos horários, a obrigatoriedade de trabalhar ou estudar, a manutenção dos limites da privacidade geracional, a necessidade de cumprir em conjunto os rituais familiares (festas significativas, datas de habitual festejo, férias da família), entre outros."*
É portanto urgente que os pais compreendam que ao imporem disciplina desde cedo estão a promover o autocontrolo dos filhos e a ajudá-los a serem capazes de estabelecer os seus próprios limites.
* Extraído de "Notícias Magazine".
Adriana Campos

Professores começam a ser formados no âmbito do Plano Tecnológico em 2009

A formação e certificação de professores em competências de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) vai arrancar no primeiro trimestre de 2009, disse hoje o coordenador do Plano Tecnológico da Educação (PTE).
"Estamos na fase de iniciar as acções de formação de formadores assegurada pelas instituições de ensino superior. A nossa expectativa é que no primeiro trimestre de 2009 comece a formação e certificação dos professores para que seja cumprida a meta prevista", disse João Trocado da Mata. O responsável realçou que o objectivo da medida, um dos eixos do PTE, é que mais de 90 por cento dos docentes consigam até 2010 aproveitar ao máximo as Tecnologias de Informação e Comunicação disponíveis nas salas de aula.
Segundo o documento "Competências TIC: Estudo de implementação", pedido pelo Ministério da Educação, o plano vai ser desenvolvido em três níveis de formação e avaliação de competências dos docentes, que dão origem a três tipos de certificados. O primeiro nível de formação dos docentes destina-se à aquisição de competências digitais, que "respeita, no essencial, à utilização instrumental das TIC e domínio de ferramentas de escrita e cálculo em formato digital".
No segundo nível, estará a aquisição de competências pedagógicas das TIC, que devem integrar plenamente os processos de aprendizagem, e o terceiro nível, de competências pedagógicas avançadas, pretende que sejam os próprios professores a criarem soluções de utilização da tecnologia e de conteúdos de forma inovadora nas aulas. "O que nós queremos é uma utilização mais avançada dos meios tecnológicos e que as TIC possam constituir um poderoso meio para melhorar o ensino e melhorar o desempenho escolar dos alunos", afirmou o coordenador do PTE, salientando que "há um conjunto de estudos que estabelecem uma correlação de uso de tecnologias no contexto de sala de aulas e o desempenho escolar dos alunos".
O estudo de implementação das competências TIC foi coordenado pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, em articulação com a Universidade de Évora e a Universidade do Minho. Além do eixo da formação e certificação de professores, o Plano Tecnológico da Educação tem uma componente de conteúdos para as escolas e um eixo tecnológico que inclui projectos para Internet em todas as salas de aulas a uma velocidade de acesso de pelo menos de 64 megabites, vídeovigilância nas escolas, concretizar o objectivo de ter uma rácio de um computador ligado à Internet por cada cinco alunos, um videoprojector por sala, um quadro interactivo para cada três salas de aulas e implementação do cartão electrónico do aluno.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

«Ministra informou-nos das medidas de simplificação»

O membro do Conselho das Escolas (CE) José Eduardo Lemos, presente na reunião, confirmou que no encontro, onde estiveram a ministra da Educação e o secretário de Estado Jorge Pedreira, não foi levantada a questão da suspensão do modelo de avaliação.
«A ministra informou-nos das medidas de simplificação que já tinha anunciado, aprofundando as explicações», disse à Lusa José Eduardo Lemos, autor de uma moção que pedia à ministra Maria de Lurdes Rodrigues a suspensão do processo de avaliação «até que seja substituído por um competente», aprovada por 30 dos 53 membros do Conselho na semana passada, antes de anunciadas as alterações para simplificar o processo.
«A deliberação tomada na semana passada, foi tomada na semana passada. Hoje não votámos nenhuma deliberação, nem nesse sentido, nem no sentido contrário. Não houve nenhuma proposta para retirar o pedido de suspensão nem para o manter porque não foi feita qualquer votação», explicou, acrescentando que não está agendada nova reunião do CE.
Segundo este membro do CE, a maioria dos conselheiros que intervieram no encontro de hoje com a ministra «não foi contra as medidas anunciadas», mas insistiu em que «nem todos falaram».
«Só sei dizer se é uma minoria, uma maioria larga ou uma maioria estreita se contar votos e não houve qualquer votação», reforçou.

Governo volta a mudar processo de avaliação

Avaliações parciais, possibilidade de recurso a docentes de outras escolas, instrumentos simplificados e melhoria das condições de trabalho dos avaliadores: o Conselho de Escolas, diz o Ministério, ficou "satisfeito".
A avaliação da componente científico-pedagógica na carreira dos professores vai ter carácter voluntário. É esta a principal novidade no bloco de medidas de "simplificação e desburocratização" que o Ministério da Educação deu ontem a conhecer, após reunião da ministra com a Conselho de Escolas. O texto, que inclui nove medidas, "de aplicação imediata", tem a forma de projecto de decreto regulamentar. Nas ruas, os protestos continuam e, ontem, no Norte do país, milhares de professores voltaram a criticar a política do Governo (ler páginas 4 e 5).
Abrindo a possibilidade de avaliação parcial aos docentes que assim o preferirem - sem a componente principal, a pedagógica -, o mecanismo voluntário é, no entanto, impeditivo de uma plena progressão na carreira. Ou seja: um professor que opte por ver avaliadas só as suas componentes organizacionais, está a limitar-se à classificação máxima de "Bom". Só aqueles que escolherem uma avaliação integral (pedagógica e organizacional) podem ascender aos patamares mais altos ("Muito Bom" e "Excelente").
As restantes medidas do projecto de decreto regulamentar confirmam, no essencial, os sete pontos aprovados na quinta-feira passada em Conselho de Ministros, reforçando, desde logo, que os professores possam ser avaliados por docentes da mesma área disciplinar - a novidade é que as escolas podem recorrer a professores de outros agrupamentos escolares. Para "promover a simplificação dos instrumentos de avaliação, o desempenho dos professores fica também, conforme fora já anunciado, desvinculado do progresso dos resultados escolares dos seus alunos . "Esta medida decorre da percepção das dificuldades de ordem burocrática que a sua utilização estava a introduzir nas escolas e da necessidade de maior consolidação técnica identificada pelo Conselho Científico da Avaliação de Professores", diz o texto de projecto de decreto regulamentar, a que o JN teve acesso.
"Os conselheiros mostraram muita vontade de trabalhar e isso deixa o Ministério muito satisfeito", revelou ao JN o secretário de Estado adjunto e da Educação, Jorge Pedreira. "Agora já há condições para concretizar a avaliação", disse.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Aldeias do Xisto eliminam barreiras

Xavier Costa Urbano era o mais entusiasta caminheiro do novo e único percurso pedestre do país pensado para pessoas deficientes. É em Gondramaz, no concelho de Miranda do Corvo, e prolonga-se por 900 metros em redor e dentro da aldeia.
Aos oito anos, Xavier Urbano, residente em Coimbra, passa fins-de-semana e férias em Gondramaz, aldeia que conhece mas pela qual só andava com a ajuda de familiares uma vez que se desloca numa cadeira de rodas eléctrica. As barreiras arquitectónicas da aldeia que faz parte da Rede das Aldeias do Xisto e num percurso em redor desta foram eliminadas e Xavier pode agora desfrutar da natureza autonomamente. O difícil, diz a família, é explicar-lhe que as crianças da sua idade não podem andar sozinhas.
O sorriso no rosto de Xavier definia o sentimento de todos quantos no passado sábado tiveram oportunidade de percorrer o primeiro caminho que irá ser homologado pela Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal como sendo uma Pequena Rota (PR) toda ela estruturada para indivíduos com mobilidade reduzida.
Pessoas em cadeira de rodas, que caminham com muletas ou bengalas, idosos e invisuais podem agora desfrutar de um caminho que desbrava uma frondosa mancha de castanheiros e carvalhos em plena Serra da Lousã.
José Moreira é um invisual residente na Lousã e que nunca tinha ouvido falar de Gondramaz, até ao dia em que o convidaram para ir ao local com outros deficientes de diferentes graus para que pudessem dar algumas sugestões para o caminho. "Está muito agradável e acessível", dizia José Moreia ao JN enquanto fazia o percurso acompanhado pelo seu cão guia. Os invisuais têm ao dispor informação num painel desenhado e escrito em braille e audio-guias para poderem obter informações sobre os locais por onde passam e da aldeia.
A PR para deficientes foi concebida pelo técnico de percursos pedestres António Queiroz, por convite da ADXTUR, empresa que gere a animação e promoção da Rede das Aldeias do Xisto, e da Câmara Municipal de Miranda do Corvo. O técnico disse que este é um projecto-piloto que servirá de motor de arranque para avançar com a criação de outros percursos noutras aldeias da rede. A Mata da Margaraça, perto da aldeia da Benfeita, no concelho de Arganil, é a que se segue.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Cegueira chegou-lhe aos 20 anos mas não o parou

José Manuel Bulhões é um lavrador natural e residente na Lomba da Maia, uma freguesia rural da costa Norte de São Miguel, nos Açores. Nascido com problemas acentuados de miopia, caminhou para a cegueira já depois de ter vinte anos devido a um deslocamento de retina. Hoje, o que consegue ver é apenas uma baça claridade no meio da escuridão: o suficiente, todavia, para puxar da coragem e ir todos os dias pela matina ao encontro das suas vacas.
Faça chuva ou faça sol, passem domingos, feriados ou dias de festa, a lida é todos os dias a mesma para si. Na exploração agrícola que possui nas imediações da Lomba da Maia, maneia doze cabeças de gado segundo os métodos tradicionais. Isto é, tudo à mão. "Não posso ter a minha exploração mecanizada devido à minha incapacidade", salienta.
José Manuel é portador de deficiência, mas nem por isso se dá por vencido perante as constantes adversidades que vão surgindo no dia-a-dia. Muito pelo contrário, a sua força de vontade e determinação, mas também afabilidade e humildade, prevalecem. Na verdade, consegue levar a sua vida por diante e minimizar os obstáculos que se lhe vão deparando, "sendo o mais organizado possível". Só na altura da mudança do gado para outra pastagem, aí, sim, pede ajuda. Em casa é ajudado pela irmã, que também está a ficar invisual, e sobretudo pela mãe.
Solteiro e com 52 anos, José Bulhões não cede, por um único momento, aos conselhos daqueles que dizem estar "acabado" para a lavoura e para se deixar ficar em casa. Este tipo de conversa, se bem que não seja proferida por malícia ou crueldade, gera em José Bulhões um misto de tristeza e frustração. "As dificuldades são sempre muitas para um invisual. Às vezes encontro dificuldades mesmo das pessoas. Porque às vezes não encaram um deficiente como alguém normal. Entendem, por vezes, que um deficiente deve ser alguém arrumado e não pensam que um deficiente é alguém igual aos outros. Simplesmente tem uma diferença. Mas deve fazer a sua vida normalmente." A explicação nem sempre passa para os que o rodeiam e quando as pessoas "dizem que devo largar a minha vida e ficar em casa, não aceito e entendo isso como um ataque pessoal. Ofendem-me até".