Milhares de crianças sobredotadas passam despercebidas nas escolas portuguesas, muitas vezes rotuladas como “bons alunos” ou confundidas com casos de desmotivação e indisciplina. Fomos ao Colégio Paulo VI, em Gondomar, conhecer famílias e jovens acompanhados pela Associação Nacional de Estudo e Intervenção na Sobredotação.
No Colégio Paulo VI, em Gondomar, as aulas são diferentes aos sábados de manhã. Jovens de perfis distintos, distribuídos por salas consoante a idade, reúnem-se para atividades que fogem ao currículo escolar tradicional. Têm uma característica em comum: a sobredotação.
Os jovens da ANEIS, Associação Nacional de Estudo e Intervenção na Sobredotação, regressam ao ambiente escolar ao fim de semana para terem aulas diferentes, marcadas pelo estímulo intelectual e por uma forte interação entre alunos e professores.
Na sala 59, o professor André Matias conduz uma reflexão em torno do medo, a partir de poemas de Luís de Camões. Nesta manhã de sábado, a sala de aula transforma-se num espaço de partilha, onde as ideias circulam livremente e dão lugar a debates ricos e construtivos.
Sobredotação em Portugal: uma realidade invisível
Psicólogos e associações dedicadas aos sobredotados, como a APCS, Associação Portuguesa das Crianças Sobredotadas, estimam que entre 3% a 5% das crianças e jovens portugueses sejam sobredotados, o que corresponde a dezenas de milhares de alunos em idade escolar.
Um sobredotado é alguém que revela um elevado potencial numa ou em várias áreas, como a intelectual, artística, criativa, social ou motora. Para que esse potencial se desenvolva plenamente, é fundamental a existência de apoio adequado, tanto ao nível escolar como emocional.
A sobredotação está associada a um Quociente de Inteligência (QI) pelo menos dois desvios-padrão acima da média. No entanto, a maioria dos casos nunca chega a ser formalmente identificada. A falta de mecanismos sistemáticos nas escolas e de formação específica faz com que muitos destes jovens cresçam sem acompanhamento adequado, frequentemente rotulados apenas como “bons alunos” ou, noutros casos, como jovens desmotivados e desinteressados.
Desde que se lembra, Manuel, de 18 anos, percebeu que era diferente das outras crianças. Aprendia mais depressa, era mais atento e perspicaz e entediava-se facilmente com os métodos de ensino e os interesses comuns da escola primária. Na sala de aula, era “o inteligente da turma”, aquele a quem os colegas pediam ajuda e que os professores reconheciam como estando sempre um passo à frente.
Aos oito anos, essa diferença ganhou um nome. Manuel foi identificado como uma criança sobredotada por um dos membros fundadores da ANEIS.
Fundada em 1998, a iniciativa nasceu como resposta às famílias e aos jovens sobredotados que se sentiam isolados, incompreendidos e sem apoio adequado do sistema educativo português. Para Manuel, foi também o local onde, pela primeira vez, encontrou outros jovens “como ele”.
A psicóloga clínica Stephanie Silva, da ANEIS, recorda o caso de Manuel: “Quando ele entrou aqui era bastante antissocial, não falava com ninguém, não conseguia ter uma conversa normal”, diz ao JPN. Apesar das elevadas capacidades cognitivas, passava grande parte do tempo isolado, tanto na escola como nos momentos de lazer. “Era daquelas crianças que estavam sempre sozinhas, sentadas nas escadas, sempre com livros”, recorda a psicóloga.
Desde muito cedo, revelava interesses altamente especializados, sobretudo na área da história, e um planeamento do futuro pouco comum para a idade. “Ele trazia um caderno já com tudo planeado: as universidades onde queria estudar, o preço das propinas, das rendas, estava tudo escrito”, conta. A integração na ANEIS marcou um ponto de viragem. “Aqui eles fazem-no sair da zona de conforto”, sublinha, destacando a importância do contacto com pares semelhantes para o desenvolvimento social e emocional do jovem.
ANEIS, “o balão de oxigénio”
A associação acompanha crianças e jovens, em várias dimensões do desenvolvimento – desde o nível intelectual e académico à dimensão social, emocional, artística, motora e mecânica. O objetivo é oferecer respostas ajustadas às necessidades específicas destes jovens, promovendo a sua inclusão escolar e social e valorizando as suas capacidades, sempre com base no conhecimento científico e nas melhores práticas educativas.
“Nós desenvolvemos um conjunto de respostas educativas para estas crianças e jovens. No fundo, estes programas são importantes, porque a escola ainda não consegue responder às necessidades, às características individuais e singulares destas crianças e jovens e, portanto, os programas de enriquecimento revelam-se de importância maior”, explica Alberto Rocha, um dos fundadores e atual presidente da ANEIS.
A ANEIS é a única Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) de utilidade pública em Portugal especializada em sobredotação. Atualmente, apoia cerca de 600 jovens em todo o país, com idades compreendidas entre os três e os 19 anos. Destes, aproximadamente, cem são acompanhados na área do Porto.
A grande diversidade etária obriga a uma abordagem adaptada a cada fase do desenvolvimento, de forma a respeitar o ritmo e interesses de cada uma. O grupo dos “precoces” engloba as crianças mais novas, com idades entre os três e os seis anos; o grupo dos “iniciados”, crianças entre os sete e os dez anos; os “intermédios”, dos onze aos dezasseis e os “avançados”, onde estão inseridos os mais velhos.
Alberto Rocha sublinha que os jovens acompanhados podem apresentar dupla excecionalidade, combinando sobredotação com dislexia ou perturbações do espectro do autismo, por exemplo: “Eles também podem ter uma dupla excepcionalidade, que é ter uma disortografia ou autismo e ter sobredotação. Muitos autistas de alto funcionamento são muito capazes, muito inteligentes. Alguns deles estão aqui no programa.”
O diretor ressalta que, além das necessidades cognitivas, muitos destes jovens enfrentam desafios sociais e emocionais: preferem conversar com adultos ou pares mais velhos, interessam-se por temas complexos e sentem-se isolados em contextos em que não são compreendidos.
“Para muitos deles, o balão de oxigénio é o sábado de manhã aqui”, afirma.
Dificuldades no diagnóstico
Antes de chegarem à associação, muitas crianças enfrentam outro obstáculo: os diagnósticos incorretos. Segundo Alberto, algumas chegam à associação medicadas no seguimento de diagnósticos de hiperatividade e défice de atenção. “Isto quer dizer que existem falsos diagnósticos e que estamos a prejudicar as crianças ao medicá-las”, alerta.
Alberto Rocha, que também é psicólogo, revela que, em muitos casos, a mudança de contexto é decisiva. Quando passam a integrar projetos desafiantes, que exigem pensamento crítico, criatividade e envolvimento ativo, os comportamentos que motivaram a medicação prévia, desaparecem ou diminuem significativamente.
Outro ponto destacado é o desperdício de talentos quando jovens concretizam o seu potencial académico fora de Portugal, não regressam:
"Dos mais velhos, não está cá nenhum, em Portugal. Estão na Nova Zelândia, no Canadá, na Finlândia… e provavelmente já não regressam. Será que nós não precisamos deste potencial para nos ajudar a sair da cauda da Europa? Estamos a desperdiçar talento enquanto outros países aproveitam os nossos jovens”, reflete o presidente da ANEIS.
O desconhecimento em torno da sobredotação continua a ser um dos maiores entraves ao seu reconhecimento: “Continua a haver um certo desconhecimento sobre o que é sobredotação e, se calhar, até um estigma. Nós só conseguimos mudar isso na base da formação, porque se nós não esclarecermos, se as pessoas não estiverem informadas, é muito difícil elas mudarem esses estereótipos ou esses mitos”, clarifica o psicólogo.
Entre os estigmas, está a ideia de que um jovem sobredotado é sempre o melhor da turma, mas não é assim: “Não têm de ser os melhores da turma. Nós temos alunos em situação de underachievemnt (baixo rendimento) e que têm um alto potencial, mas a escola não tem currículos que os satisfaçam e eles nivelam-se e vêm por aí abaixo”.
Para o psicólogo, a solução passa por uma reflexão profunda sobre o modelo educativo português. Apesar das transformações sociais e tecnológicas das últimas décadas, o ensino mantém-se praticamente inalterado. O presidente da associação fala da escola como “transmissiva”, centrada na memorização de conteúdos e pouco orientada para o desenvolvimento de competências. Para alunos sobredotados, este modelo é particularmente limitador.
No plano legislativo, Alberto Rocha defende que Portugal dispõe já de um enquadramento suficientemente abrangente para responder a estas necessidades. O problema reside na forma como as leias são aplicadas. O decreto-lei para a inclusão permite uma grande margem de atuação, mas a falta de orientações concretas faz com que poucas escolas avancem. Esta desigualdade traduz-se em oportunidades distintas para alunos com perfis semelhantes.
Para Alberto Rocha, o início da solução passa pela formação de professores, tanto ao nível do ensino superior como ao longo da carreira. Sem esse investimento, torna-se difícil identificar, compreender e apoiar estes alunos dentro da sala de aula. A ANEIS tem procurado colmatar esta lacuna através de ações de sensibilização, formação em escolas e criação de ferramentas de apoio pedagógico.
A ANEIS assume também um papel ativo na investigação científica, desenvolvendo estudos nas áreas da sobredotação, da criatividade, da motivação e da excelência humana. O objetivo é compreender melhor estes perfis e melhorar continuamente as práticas educativas.
A técnica da “camuflagem”
Margarida tem oito anos e já sabia o abecedário completo quando tinha apenas dois. Durante a entrevista com o JPN, mostrou resistência em responder às perguntas. Consciente de que estava a ser gravada, limitou-se a acenar com a cabeça, ao invés de verbalizar as respostas. Quando a psicóloga reformulava as questões, Margarida respondia com frases curtas: “sim”, “não” ou “não sei”.
À pergunta sobre o que gostaria de fazer no futuro, Margarida respondeu “cabeleireira”. Quando questionada sobre a razão, disse “para pentear cabelos”, acompanhando a frase com um sorriso que encerrava qualquer tentativa de aprofundamento. A entrevista avançou sem grandes desenvolvimentos, marcada por silêncios e respostas calculadas.
A postura de Margarida revelou mais do que as suas respostas verbais – manteve sempre o controlo da interação e limitou a partilha. Só mais tarde, com o enquadramento da psicóloga, esta atitude ganharia sentido.
“Ela adaptou-se muito ao vosso discurso e à vossa posição”, explica a psicóloga Stephanie Silva, que acrescenta ainda que este comportamento é comum nos sobredotados: “Acontece muito em contexto de aula, é uma forma de eles se camuflarem”.
Quando finalmente surge um diagnóstico
Stephanie Silva é responsável pelo despiste e avaliação de crianças sobredotadas na associação, realizando também acompanhamento clínico, quando solicitado pelas famílias. Segundo explica, o processo de despiste decorre em cinco sessões e procura avaliar capacidades cognitivas, bem como compreender o percurso da criança, os sinais que apresenta e a forma como se posiciona perante o mundo.
A primeira sessão envolve os pais e destina-se a recolher informação sobre o desenvolvimento da criança e esclarecer dúvidas. As seguintes são realizadas apenas com a criança e incluem provas de avaliação cognitiva, num processo bastante “longo e complexo”: “Eu peço sempre que seja [realizado] entre as 09h00, até às quatro, cinco da tarde – quando a criança ainda está desperta, porque se for feito à noite, eles começam a esfregar os olhos e estão cansados”, explica a psicóloga. Numa fase posterior, são ainda avaliadas a criatividade e a motivação.
O processo termina com a entrega e explicação do relatório final aos pais. A reação das famílias ao diagnóstico é, na maioria dos casos, de aceitação e alívio. Muitos pais chegam exaustos à procura de soluções para responder às exigências intelectuais dos filhos.
"Temos crianças de quatro, cinco anos, que pedem aos pais para explicarem a teoria da relatividade. Que pais é que sabem isso?”, conta a psicóloga.
Quando se confirma a sobredotação, recomenda que o relatório seja entregue à escola e, sempre que necessário, que sejam ativadas medidas de inclusão para adaptar o contexto escolar à criança.
Apesar da existência de um processo formal de despiste, a experiência de Stephanie permite-lhe identificar sinais de sobredotação no primeiro contacto. A postura corporal, a forma de falar, o olhar e o tipo de discurso são características típicas de crianças sobredotadas, facilmente reconhecíveis por profissionais experientes. Entre os traços mais comuns destacam-se um forte sentido de justiça, um espírito crítico apurado e interesses muito específicos. Nos mais novos, surgem frequentemente temas como astronomia, paleontologia ou história; na adolescência, tendem a diversificar-se, passando pelas artes, matemática, engenharia ou línguas.
No entanto, nem todos os profissionais da psicologia estão aptos para fazer esta avaliação, resultando, muitas vezes, em falsos diagnósticos. Foi o que aconteceu com Guilherme e Sebastião, filhos de Cátia Rodrigues. Guilherme, atualmente com 13 anos, foi diagnosticado aos nove, enquanto Sebastião, de sete anos, foi aos quatro.
“O primeiro contacto que tivemos foi com o pedopsiquiatra. Ao fim de 10 minutos, veio com um pseudo diagnóstico de hiperatividade e défice de atenção, com prescrição de medicação”, conta a mãe que, enquanto profissional de saúde, recusou aceitar um diagnóstico feito sem uma avaliação adequada, baseada em critérios clínicos rigorosos. Insistiu numa análise mais profunda, que revelou a sobredotação de Guilherme.
Cátia admite que a sua ideia de sobredotação foi totalmente desconstruída: “Para mim, para ser um aluno sobredotado, tinha que ser capaz de resolver problemas de física quântica”.
Aquando da confirmação do diagnóstico, a psicóloga responsável alertou que essa informação poderia “ser muito bem ou muito mal recebida” no contexto escolar. Várias instituições demonstraram resistência em adaptar respostas educativas às necessidades de Guilherme:
"Portas fechadas atrás de portas fechadas. Várias vezes disseram que não tinham recursos para assegurar os cuidados a crianças com dificuldades, muito menos a crianças que estavam noutro espectro. Todas as ferramentas que dávamos eram sempre encaradas como obstáculos”, conta a mãe.
Essa falta de preparação refletiu-se na autoestima de Guilherme. “Estava com uma autoestima muito baixa, porque não conseguia fazer as coisas como lhe eram pedidas. Não conseguia apresentar o raciocínio de um problema, nem explicar as coisas como era suposto os outros meninos explicarem”, descreve a mãe.
Para muitas crianças sobredotadas, frustração, perfeccionismo e ansiedade são sentimentos frequentes, explica a psicóloga Stephanie Silva, podendo levar à desmotivação escolar e ao isolamento. Ela ilustra com um exemplo vivido na ANEIS:
"Tenho, por exemplo, um menino que tirou 98% num teste e começou a bater em si próprio. Eles colocam objetivos muito rígidos na cabeça: se o professor diz que é para 100, então tem de ser 100. Estudam para isso. O mais irónico é que, quando lhes fazemos perguntas mesmo muito complicadas, eles sabem responder.
Segundo Stephanie, este perfeccionismo extremo está muitas vezes acompanhado de ansiedade, porque a escola tende a valorizar o resultado em vez do processo de aprendizagem, transformando erros em experiências de falha pessoal, e não em oportunidades de desenvolvimento.
Para estes alunos, compreender regras passa também por entender a sua razão de ser. “Questionar não é afrontar”, sublinha Cátia Rodrigues. Ainda assim, este comportamento é frequentemente interpretado como desafio à autoridade: “Cheguei a ouvir que éramos pais a criar crianças confrontacionais.” Dá como exemplo o filho mais novo que, desde muito cedo, respondia a um “porque não” com a exigência de uma explicação. Para ele, não se tratava de desobediência, mas de uma necessidade genuína de compreender. Esta situação levava a elevados níveis de frustração.
O próprio Guilherme relata as dificuldades em sala de aula. “Comecei a perceber que eu terminava as tarefas muito rápido. É muito chato, porque acabo as tarefas e não tenho nada para fazer. Uma coisa que a minha professora faz é pôr-me ao pé de alguém para ajudar”, conta.
Com a escola sem conteúdos específicos para estimular crianças com sobredotação e o tempo em casa insuficiente, a família recorreu à ANEIS, que se tornou “uma tábua de salvação”. Com atividades inovadoras e acompanhamento permanente, Guilherme recuperou a autoestima e passou a sentir-se integrado: “Sente-se mais incluído e, mesmo em termos de autoestima, está bastante melhor. Tem interesse e motivação em vir para cá”, conclui.
Algum tempo depois, Cátia levou o filho mais novo, Sebastião, a atividades da ANEIS, por conveniência, já que moravam longe e não era viável deixá-lo sozinho em casa. Numa sessão de escrita criativa, ele foi colocado numa sala com outras crianças com sobredotação. Nesse contexto, pela interação com os colegas e pela adaptação ao grupo, surgiram as primeiras indicações de que Sebastião também poderia ser sobredotado, o que foi confirmado em avaliação formal.
A mãe recorda que houve alguma dúvida: “Se tem um irmão sobredotado, é normal que seja inteligente não?” Ainda assim, os sinais eram claros: “Notamos uma capacidade de retenção muito elevada e desenvolvimento linguístico avançado. Desde cedo construía frases completas e compreendia conceitos complexos”, explica Cátia. A experiência com Guilherme ajudou a família a acompanhar Sebastião com mais atenção e a evitar erros anteriores.
Apesar do seu potencial, Sebastião tem interesses típicos da sua idade, contou que gosta de jogar futebol, Roblox, Fortnite e ver televisão, especialmente o desenho Bluey. Nas atividades da ANEIS, diverte-se muito a criar bonecos e construções em plasticina, fruto da sua imaginação: “Fazemos coisas que não existem no mundo”, diz.
Na escola, enfrenta os desafios comuns à maioria das crianças. Sobre aprender mais rápido que os colegas, explicou: “Acho que é melhor, porque quando chegamos a algo que eu já sei, a professora pergunta-me e depois aprendemos juntos.” Para ele, a facilidade na aprendizagem não é só vantagem pessoal, mas sobretudo uma oportunidade de ajudar os amigos.
A forma positiva como Sebastião descreve o ambiente em sala de aula, deve-se, em grande parte, à abordagem dos professores, sendo por isso importante que estes sejam informados do que o ensino a estudantes sobredotados implica. É precisamente esta perspetiva que o professor André Matias defende e tenta aplicar no seu trabalho educativo.
Um sistema criado para o aluno médio
André Matias leciona na Escola Secundária Eça de Queirós, na Póvoa de Varzim, e é colaborador da ANEIS. O contacto com a sobredotação começou quando foi convidado a dar uma aula sobre mitologia na associação. Ali, descobriu uma área da pedagogia que até então conhecia pelos estereótipos.
“De repente, encontrei um filão que desconhecia completamente”, conta. Após uma pós-graduação em Educação Especial, regressou à ANEIS com a convicção de que podia contribuir para um campo ainda pouco valorizado, sobretudo na área das humanidades.
Na associação, desenvolve um projeto que procura contrariar a ideia de que os alunos sobredotados se destacam apenas nas ciências exatas. Através da literatura, da filosofia e da história, tenta oferecer novas ferramentas cognitivas e sociais a jovens cuja curiosidade raramente cabe nos limites da escola tradicional.
A transposição desse trabalho para o ensino público revela-se difícil. “É complexo”, admite. Na ANEIS, os alunos partilham características semelhantes; na escola pública, o espectro vai das dificuldades de aprendizagem à sobredotação: “Aquilo que conseguimos fazer na associação é muito difícil de replicar numa turma de 28 alunos”, observa. Ainda assim, tenta aplicar algumas metodologias, mesmo que com menor alcance.
Para o professor, o problema começa no modelo educativo, pensado para “trabalhar para um aluno médio que não existe”. A consequência é um sistema que falha tanto com os alunos que precisam de mais apoio como com os que necessitam de mais desafio.
A identificação da sobredotação é outro ponto onde André aponta fragilidades: as escolas concentram-se nos alunos com dificuldades e, mesmo aí, a resposta é insuficiente. “Os sobredotados sofrem de um grande handicap: como sabem muito, parte-se do princípio de que não têm problema nenhum.” Mas saber mais não significa estar melhor integrado. Pelo contrário, muitos enfrentam isolamento, incompreensão e até bullying.
Os interesses não são comuns, os pares não compreendem, e isso cria distância.”, conta o professor.
Antes de chegarem à associação, alguns jovens vivenciavam sentimentos negativos, incluindo pensamentos de automutilação ou suicídio. Stephanie Silva, psicóloga da ANEIS, recorda casos em que isso se manifestava, por exemplo, através da escrita: “Ele escrevia poemas em que descrevia os seus pensamentos – a maneira como já tinha pensado em se suicidar e como isso poderia acontecer.”
É nesse contexto que espaços como a ANEIS ganham importância. “Ali”, diz André, “os jovens encontram pares com experiências semelhantes e deixam de se sentir estranhos”. A associação acaba por desempenhar um papel que, na sua opinião, deveria caber ao próprio Ministério da Educação: dar resposta concreta às necessidades destes alunos e apoiar também as famílias, muitas vezes exaustas perante a falta de respostas institucionais.
Nas salas da ANEIS, o desafio não é dar mais exercícios, mas estimular a curiosidade. No seu projeto “Pela mão da literatura vejo o mundo”, André Matias transforma textos em pontos de partida para reflexões sociais, históricas e culturais, complementadas com visitas de estudo e trabalho de campo. Cada aula exige horas de preparação. “São alunos para quem a resposta nunca chega. Querem sempre saber porquê.”
Para o professor, a formação dos docentes é urgente: “Ainda há muito estigma. Muitos pensam que um aluno sobredotado não tem problemas.” Uma ideia que considera fruto da ignorância: “Os estigmas são sempre isso.” Pode ser controverso, mas o professor defende a criação de escolas especializadas para sobredotados, à semelhança do que acontece com o desporto de alto rendimento, embora reconheça o risco de criar bolhas sociais.
Sobredotação à luz da neurociência
O papel do professor e das escolas revela-se importante para o desenvolvimento cognitivo destes jovens e pode ser determinante para o seu percurso. O mesmo confirma o neurocientista Miguel Castelo Branco. Em declarações à SIC Notícias, o cientista aponta que nascer com determinadas capacidades não é, por si só, garantia de um percurso extraordinário. “Nós podemos nascer com um dom, mas se não o cultivarmos ele vai-se esbatendo”, afirma, chamando a atenção para o papel decisivo do ambiente que rodeia o indivíduo.
Segundo Miguel Castelo Branco, a inteligência não pode ser reduzida a um único fator nem a uma métrica isolada. “A inteligência vem de um cocktail de condições, genéticas mas também do ambiente”, explica, defendendo que testes como o do QI têm limites claros. “O QI não vai prever o desempenho, o grau de sucesso que a pessoa vai ter na sociedade.” Pessoas com elevado potencial intelectual podem nunca concretizá-lo se não tiverem acesso a estímulos adequados, apoio educativo ou condições sociais favoráveis, enquanto outras conseguem desenvolver plenamente as suas capacidades quando encontram o contexto certo.
Apesar dos avanços da neurociência nas últimas décadas, o investigador reconhece que ainda existem muitas perguntas sem resposta. Em particular, não é ainda possível identificar concretamente o que distingue, a nível físico ou cerebral, uma pessoa sobredotada. Não há um padrão anatómico, estrutural ou funcional inequívoco no cérebro que explique porque alguns indivíduos apresentam capacidades excecionais.
A perspetiva apresentada pelo neurocientista é coerente com a abordagem adotada em documentos educativos oficiais, como o Guia para Professores e Educadores – Altas Capacidades e Sobredotação, da Direção-Geral da Educação, que descreve a sobredotação como um fenómeno multifatorial e dependente do contexto e não como uma “marca” visível no cérebro.
Esta incerteza científica confirma que o desenvolvimento do talento depende da interação contínua entre predisposição individual e contexto. O neurocientista defende que compreender o funcionamento do cérebro humano implica aceitar essa complexidade e reconhecer que o potencial intelectual não se esgota nem se define exclusivamente por características físicas observáveis.
Um potencial ainda por reconhecer
A sobredotação continua a ser, em Portugal, uma realidade amplamente invisível. A identificação formal e o acompanhamento especializado permanecem limitados, dependendo frequentemente da iniciativa de famílias, associações ou de profissionais isolados, mais do que de respostas estruturadas do sistema educativo. O enquadramento legal português prevê a possibilidade de respostas diferenciadas para alunos com altas capacidades, mas a aplicação prática é desigual. Muitas escolas não dispõem de currículos ou estratégias adaptadas, e a formação específica de professores sobre sobredotação é insuficiente, o que resulta em diagnósticos tardios ou incorretos, bem como em respostas educativas inadequadas.
Espaços como a ANEIS mostram que, quando os contextos educativos se ajustam às necessidades do aluno, o potencial das crianças e jovens sobredotados pode desenvolver-se de forma equilibrada, abrangendo dimensões intelectuais, sociais e emocionais. Nessas situações, observa-se aumento da motivação, melhor integração social e maior bem-estar emocional, contrastando com experiências em escolas tradicionais, onde interesses específicos podem ser incompreendidos e o rendimento escolar não refletir o verdadeiro potencial do aluno.
Guias oficiais da DGE destacam que a sobredotação é um fenómeno multifatorial e dependente do contexto, envolvendo capacidades cognitivas, criativas e motivacionais, e que nem sempre se traduz em notas elevadas ou desempenho académico superior. A identificação e acompanhamento adequados requerem observação sistemática, avaliação especializada e estratégias pedagógicas adaptadas, de forma a oferecer oportunidades para o desenvolvimento pleno das capacidades dos alunos.
O desafio central permanece na necessidade de formação docente continuada, sensibilização das escolas e disponibilização de recursos específicos, permitindo que o sistema educativo português responda de forma consistente às necessidades destes alunos e evite que o talento se perca por falta de apoio adequado.
Fonte: JPN por indicação de Livresco
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