sábado, 18 de abril de 2009

Crianças indisciplinadas e mal comportadas na escola enchem consultórios de pedopsiquiatras

Por que é que crianças e adolescentes sem qualquer deficiência ou atraso e com um desenvolvimento aparentemente normal não aprendem na escola? O que explica o seu desinteresse e desmotivação? E o que leva, tantas deles, à indisciplina e ao mau comportamento? Antes de um problema, as dificuldades de aprendizagem constituem, sobretudo, um sintoma, defendem especialistas que debatem tema amanhã, em Lisboa.
À procura de respostas para estas questões que preocupam, cada vez mais, pais e educadores, dezenas de pedopsiquiatras, psicólogos e professores juntam-se na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação de Lisboa, num encontro promovido pelo Centro Doutor João dos Santos – Casa da Praia, com o tema “Dificuldades de comportamento e aprendizagem em meio escolar”.
É uma jornada de reflexão sobre os motivos que levam cada vez mais crianças e adolescentes aos consultórios dos psicólogos e dos pedopsiquiatras. O problema é o tema central do mais recente livro do pedopsiquiatra Pedro Strecht, “A Minha Escola Não É Esta, dificuldades de aprendizagem e comportamento em crianças e adolescentes” (Assírio &Alvim).
Nele, Strecht, que vai moderar um dos debates no encontro da Casa da Praia, analisa o problema dos “rapazes e raparigas que, mesmo possuindo as capacidades intelectuais e cognitivas suficientes para poderem progredir mais e melhor, não conseguem ir aquém de resultados muito pouco satisfatórios” em áreas fundamentais como as da aprendizagem da língua materna e da matemática, “mantendo ciclos de insucesso com início frequentemente precoce e sem saída objectiva ou em tempo útil.”
120 mil reprovações por ano
Segundo os dados citados neste livro, em Portugal reprovam, por ano, cerca de 120 mil alunos no ensino básico e 40 mil abandonam a escola antes da escolaridade obrigatória, num país em que o número de crianças em risco ultrapassa os 50 mil.
João Beirão, o médico que dirige a equipa de pedopsiquiatria da Estefânia, confirma o elevado número de pedidos de ajuda a crianças sinalizadas por problemas de mau comportamento, “falta de limites e ausência de regras” mas também com “dificuldade de concentração e de aprendizagem”.
O número de casos de crianças com dificuldades recebidas na Casa da Praia fundada pelo médico psicanalista João dos Santos, também tem aumentado todos os anos, segundo uma das suas dirigentes, a professora de ensino especial, Fernanda Ramos. Estes casos começam por ser detectados, muitas vezes, dentro das escolas, nos gabinetes de psicologia (quando existem) e são encaminhados para os serviços de pedopsiquiatria dos hospitais e para os consultórios dos psicólogos, onde, vulgarmente são o primeiro motivo de pedido de consultas.
Sintoma
Esta questão, vista frequentemente como um problema, deve, no entanto, ser entendida, sobretudo, como um sintoma, nota o médico pedopsiquiatra e psicanalista, Emílio Salgueiro autor da conferência de abertura do encontro de amanhã sobre “o significado emocional da agressividade e da violência em meio escolar”, um problema frequentemente associado às dificuldades na escola.
Abordando o conceito de “delinquência” e o percurso das crianças designadas como “problemáticas pela sociedade, Salgueiro analisa o sentido da violência na escola, frisando a necessidade do acolhimento e integração dessas crianças e jovens “à procura de laços”. Para Emílio Salgueiro, existem, hoje, várias formas de “delinquir” que são cada vez mais difíceis de distinguir de “modas” socialmente aceites.
A resposta a estes comportamentos consiste, antes de mais, em “ouvir” os jovens que transgridem, depois, “acolher a sua parte mais sofredora” e “responsabilizar a parte mais crescida”, considera Salgueiro, defendendo que “por vezes, uma separação, mais ou menos longa, entre os jovens e a família, é imperiosa”.
O impacto que esses comportamentos disciplinares têm na vida emocional dos professores e adultos, é tema a abordar pelo psiquiatra e professor Daniel Sampaio. Ele vai explicar como a indisciplina e o mau comportamento afecta a autoridade, o afecto e a auto estima dos adultos.
Os especialistas concordam que grande parte destes problemas, tanto de aprendizagem como de comportamento, são detectados precocemente ainda no jardim e infância. Sabem também que, ao contrário do que muitas vezes se quer fazer crer, este tipo de dificuldades não são características apenas das crianças de meios sociais desfavorecidos mas que também abrangem as das classes sociais médias/altas. E consideram, como referência, os estudos realizados no âmbito das neurociências que têm demonstrado como a experiências emocionais condicionam a capacidade de pensar.
Olhar para a criança como um todo
“É absolutamente indispensável olhar sempre para uma criança ou adolescente em meio escolar como um todo, nas suas múltiplas ligações entre desempenho cognitivo e emocional, tal e qual como na continuidade e inter relação entre a vida familiar, a escolar e a social em toda a perspectiva temporal de ligação entre passado, presente e futuro. Numa escola, não se aprende apenas, também se vive!”, diz Pedro Strecht no seu livro.
Um aluno em dificuldade escolar é “sempre alguém que luta activamente por uma coesão interna e por um esforço de ligação a quem o cerca”, nota, salientando que “a experiência do aprender liga-se sempre à experiência do interagir”. Por isso, explica, “é fundamental a mensagem implícita contida na relação de quem aprende com quem ensina”, defendendo que o desenvolvimento intelectual e afectivo são “indissociáveis”.
Para este pedopsiquiatra cada criança ou adolescente nunca deve ser vista individualmente, mas como “fruto de um mundo relacional onde se insere desde os primeiros tempos de vida, onde a família e o meio social envolvente são determinantes para a modelação e o desenvolvimento de determinado potencial inato”.
No entender de Maria do Céu Roldão, professora do ensino superior e investigadora, outra das intervenientes no encontro organizado pela Casa da Praia, esta questão não pode, “examinar-se apenas do lado de fora da escola”. Também esta, observa, “enquanto instituição curricular, se mantém organizada segundo a mesma gramática de trabalho que a moldou no século XIX - a unidade turma ou classe, a homogeneidade como pressuposto, a segmentação do trabalho docente em unidades individuais de saber”.
Como pode e deve, então, a escola “organizar o seu modo de trabalhar de modo a intervir na origem do problema e não apenas nos seus sintomas?” questiona, lançando um outro tema para a discussão.

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