segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Projetos-piloto de inovação pedagógica (PPIP) para flexibilização da oferta de cursos científico-humanísticos e de cursos profissionais do ensino secundário,

Despacho n.º 9128/2024, de 12 de agosto, vem autorizar a realização de projetos-piloto de inovação pedagógica (PPIP) para flexibilização da oferta de cursos científico-humanísticos e de cursos profissionais do ensino secundário, em regime de experiência pedagógica, durante três anos.
Os PPIP são concebidos por estabelecimentos de ensino público e privado mediante convite da Direção-Geral da Educação (DGE), iniciando-se a sua implementação no ano letivo de 2024-2025.
Atendendo à data da sua aplicação, ou os convites já foram concretizados e as escolas estão organizadas, ou vai ser impossível, no início de setembro, proceder atempadamente à elaboração dos documentos necessários, às auscultações dos diversos parceiros e aos procedimentos normativos.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Concurso externo para ocupação de postos de trabalho do mapa de pessoal da Casa Pia de Lisboa: Educação Especial

Pelo Aviso n.º 16954-A/2024/2, encontra-se aberto, nos termos aplicáveis do Decreto-Lei n.º 32-A/2023, de 8 de maio, concurso externo para integração no mapa de pessoal da Casa Pia de Lisboa, I. P., incluindo uma vaga para o Grupo de Recrutamento de Educação Especial - 910.

“Garantia de Serviços de Qualidade”

A European Platform for Rehabilitation (EPR), em parceria com a Fundação AFID Diferença e a APQ - Associação Portuguesa para a Qualidade, irá realizar um Evento Nacional de Sensibilização sobre a “Garantia de Serviços de Qualidade” para pessoas com deficiência.

Este evento é uma oportunidade única para se conectar com stakeholders europeus e nacionais, profissionais e prestadores de serviços dedicados a melhorar a qualidade dos serviços sociais.

Explore as melhores práticas dos membros da EPR e projetos inovadores portugueses.

Evento em inglês, com tradução simultânea para português!

Mais informações:Aqui

Fonte: INR

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Ecrãs e Tecnologias: recomendações Ordem dos Psicólogos Portugueses

A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) lançou, recentemente, um conjunto de recomendações para que a utilização dos ecrãs e das tecnologias digitais se processe de forma segura.

Salientando que os ecrãs fazem parte do nosso quotidiano e que o impacto do uso das tenologias na nossa vida depende, sobretudo, da forma como as utilizamos, a OPP divulga um conjunto de documentos destinado a diferentes públicos:


Recomendações do uso benéfico e seguro:

Em crianças e jovens (informação para pais, mães e cuidadores/as);

Fonte: DGE

terça-feira, 6 de agosto de 2024

Guião – Organização do Ano Letivo 2024/2025

Partilha-se o link de acesso ao Guião de Apoio à Organização do Ano Letivo 2024/2025 (OAL – 2024-2025) com vários exemplos de organização e funcionamento do ano letivo 2024/2025 (via blog De Ar Lindo).

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

“Os adolescentes são hoje tecnocratas de mochila”

O psicólogo clínico e psicanalista Eduardo Sá oferece aos escaparates um novo livro. Em "Adolescentes – Manual de Instruções" (edição Lua de Papel), o também docente universitário, endereça as suas palavras aos pais, sem subtrair ao horizonte narrativo os filhos. Porque estes, na vertigem destes anos, são “muito mais do que um corpo que se multiplica a uma velocidade vertiginosa”. Junto dos pais, o autor procura "ligar pontas soltas, lugares comuns e ideias feitas sobre a adolescência". Eduardo Sá tem sempre presente que "quanto melhor perceberem os ‘estranhos’ que têm em casa, melhor se ajustarão os pais a eles”. Conversámos com o autor.

A abrir o seu livro escreve que “os adolescentes estão a mudar. E nós estamos distraídos em relação a eles”. Esta sua afirmação leva-me a duas perguntas. Estão a mudar em que sentido? Quando se refere à distração, fala-nos de quem, dos pais, da escola, da sociedade em geral?

Primeiro, porque receio que quando se fala de adolescentes ou da perspetiva de os miúdos se tornarem adolescentes, os pais antecipem ou vivam esse período de uma forma um bocadinho assustada, às vezes de forma quase alarmada, como se os adolescentes fossem um produto razoavelmente explosivo, que não o são. São meninos pequenos, por vezes mais pequenos do que o que imaginamos, hoje com muito mais oportunidades de formação e muitos mais fontes informativas. São miúdos que andam muito menos distraídos em relação àquilo que se passa no mundo do que pode parecer. É uma vergonha para nós, adultos, que tenham sido os adolescentes a trazer um slogan, ainda por cima tão inteligente, como “Não há planeta B”. Foram eles que puseram esta questão na agenda e os adultos e os partidos políticos foram atrás.

E, portanto, são miúdos sensatos. São miúdos gratos e capazes de reconhecer e de admirar os adultos que eles respeitam. A relação que têm com alguns professores e mesmo a relação que mantêm com os pais é de admiração. E, repare, não estou aqui a pôr pó-de-arroz. Claro que de vez em quando pisam o risco e desafiam os pais. Porque, às vezes, é muito difícil ter um pai e uma mãe que parecem acertar em tudo e os miúdos olham para eles e pensam: ‘assim nunca mais lá chego’. É difícil este percurso, mas, de facto, eles são miúdos muito, muito atentos.

Por outro lado, não nos damos conta de como lidamos com eles, como se os adolescentes fossem invariavelmente alheados. Porque são as redes sociais, porque são as causas da adolescência, enfim, as particularidades típicas da adolescência. Criamos uma ideia ao redor dos adolescentes que não corresponde à verdade e com uma agravante.

Que agravante?

Passamos a vida a falar de como comprometemos o planeta, das crises económicas, das crises da habitação, das crises da democracia. Quando falamos do futuro próximo só nos referimos a crises. Não nos damos conta de como estamos a dizer “sim, acreditem no futuro, mas o futuro é uma porcaria”. Considero notável como, apesar de tudo, os adolescentes não baixam os braços. Tinham todos os motivos para dizer: “Para quê andar a ‘matar-me’ a estudar?” E eles são muito determinados, sim. São leais na forma como lidam connosco.

Chega a escrever que “a adolescência parece estar em vias de extinção”. Está?

Porque os adolescentes são hoje tecnocratas de mochila. Sabe, temos esta mania um bocado tola que eles têm de crescer muito depressa. E, neste momento, a agenda de um adolescente é a de um tecnocrata. Eles trabalham assustadoramente, 12 horas por dia, às vezes mais. Acho que não estamos a medir as consequências, porque eles precisam de tempo para brincar quando são crianças. Não lhes damos tempo para serem adolescentes, para estarem uns com os outros e aprenderem naquela escola da vida. Esta é absolutamente indispensável. Às vezes estamos a dizer-lhes, “olha, espatifa a adolescência não há problema nenhum. O importante é entrares na universidade”. Como se a vida acabasse aos 18 anos. Sim, e isto é uma grande pressão. Como se, no fundo, a adolescência estivesse à beira de extinção.

Será que esta urgência que colocamos sobre os adolescentes também se prende com o desejo de os pais se concretizarem nos filhos? De quererem transferir para os filhos aquilo que não alcançaram?

Muitas vezes. Repare, não acho que seja só por si mau, pois acontece com todos. Julgo até que os pais o fazem por bondade. Ou seja, os pais, ao fim de alguns quilómetros de rodagem, têm a noção das tolices que cometeram e das escolhas erradas que não fizeram e que fizeram. Daí, percebo que os pais digam assim: “quero proteger o meu filho das escolhas que fiz ou da forma como negligenciei a escola”. Consigo perceber tudo isso. Qual é o risco? É que às vezes os pais baralham na adolescência dos filhos as suas próprias adolescências. Às vezes, quando os pais fizeram muitas asneiras enquanto eram adolescentes, acham que a adolescência é sinónimo de asneira e são muito restritivos. Por vezes, quando os pais não tiveram adolescências precipitam os filhos para adolescências precoces. É importante que os pais tenham noção de como misturam, porque às vezes criam nós quando, na realidade, queriam criar só avenidas largas.

Traz para este seu livro uma ideia que já partilhara anteriormente. Os pais na ânsia de acompanharem a adolescência dos filhos, resvalam para o campo dos melhores amigos. Isto pode inverter os papéis dentro da família, esbater a autoridade dos pais ou, como escreve, "inabilita-os como pais"?

Sim. Os pais tem de perceber que não se podem encolher perante determinadas coisas. Dou-lhe um exemplo: para efeitos daquilo que são as regras jurídicas, os miúdos são adultos aos 18 anos. Mas, às vezes, para efeitos das redes sociais, os pais quase presumem que os adolescentes são maiores aos 12 anos e que eles é que têm de fazer as escolhas e ter clarividência nos seus atos, quando são muito pequeninos, para todos os efeitos. Às vezes, os pais são muito sensíveis aos argumentos demagógicos dos filhos. E quando os filhos querem ser demagogos, ‘valha-me Deus’ dão cinco a zero a qualquer partido populista [risos]. Os miúdos chegam com o argumento de que os amigos saem até às 3h00. E os pais, a certa altura, percebem que é um exagero quando se tem 13 ou 14 anos de idade. Mas, em muitos momentos ‘vão na onda’ e de uma forma perigosa. Mesmo que os filhos tenham um metro e oitenta e até tenham boas notas, os pais têm de perceber que são uma entidade reguladora em relação a muitos aspetos. Contudo, os pais com medo que os adolescentes lhes fujam das mãos, vão sendo uns pais bonzinhos. Tenho sempre a ideia de que os pais bonzinhos são inimigos dos bons pais e, portanto, tendem a ser tão bonzinhos que se comportam como cúmplices ou como amigos dos filhos. Mas, esquecem que ser pai ou mãe é muito mais importante do que ser o melhor amigo do filho.

A nossa sociedade convive mal com a palavra autoridade?

Porque, se calhar, crescemos com escolas um bocadinho autoritárias e crescemos com pais que, apesar de serem excelentes pessoas, nalguns momentos até foram um bocadinho autoritários. Portanto, os pais hoje confundem autoridade com autoritarismo. É uma coisa trágica. Convictamente, a mãe ou o pai dizem um "não" ao filho para, depois, os levar a um quase pedido de desculpa. É uma coisa inquietante. Perco a conta aos pais que me perguntam se os filhos ficam traumatizados pelo facto de lhes dizerem que não. E quando lhes digo que ficam muito mais traumatizados quando os pais não dizem que não, estes pais ficam quase atónitos. Porque, quando os pais desistem de ter uma opinião sobre o que é correto, mesmo que não seja decalcado para a opinião dos filhos, estes sentem-se desamparados. Pais sem uma opinião convicta, são pais que desamparam. Mesmo que isso lhes traga a ideia de que são os melhores amigos dos filhos.

Escreve que entre a crise da adolescência e o medo dos pais diante dela, receia mais o medo dos pais. Porquê?

Muito mais. Por vezes chamo-lhes os pais 5G. São excelentes pessoas, mas consomem muito mais redes sociais e de uma forma muito mais perigosa do que os filhos. As redes sociais são um caldo de cultura, onde há pessoas que dão palpites, opiniões, às vezes das formas mais insensatas. Há pais que me dizem: “Olhe, em relação a este problema eu já tentei tudo”. São os tutoriais, são os influenciadores, são os livros de autoajuda. E, de repente, os pais, nesta espécie de floresta de opiniões, esquecem-se que têm um sexto sentido apuradíssimo. Perante este tipo de informações contraditórias, o sexto sentido parece constipar-se de uma forma grave e os pais ficam sem saber o que fazer. Daí, os pais andarem muito perdidos. E quanto mais os pais andam perdidos, mais os adolescentes se sentem desamparados com tudo o que isso implica.

É lícito afirmarmos que o adolescente, na sua ansiedade de afirmação de construção do seu eu, é um ser solitário, desamparado?

Às vezes é. Há uma questão que me parece particularmente importante. Aquilo que as mães têm vindo a fazer em relação à leitura é uma revolução verdadeiramente inacreditável. Porque, hoje, percebemos que as mães, independentemente do meio socioeconómico de onde provêm, fazem questão de ler uma história todas as noites antes de as crianças adormecerem. Sem se darem conta, isso dá aos filhos uma fluência verbal absolutamente inacreditável. Quando as crianças entram na escola têm um vocabulário de uma riqueza incrível. Essas crianças mais fluentes no português são crianças com mais saúde mental. Ponto. De uma maneira hábil as editoras resgataram os livros dos Cinco, dos Sete, entre outros, e arranjaram versões adequadas a miúdos de sete e oito anos. Hoje, estes miúdos leem velozmente, de uma forma que os pais não leram, o que é uma coisa incrível. As redes sociais são um atentado à saúde mental dos adolescentes em muitos momentos. Mas, por exemplo, a maneira como os adolescentes consomem hoje livros por influência das redes sociais é incrível e, portanto, eles leem muito mais do que leram os seus pais e os professores. Daí têm uma riqueza de vocabulário incrível. E esta riqueza de vocabulário torna-os potencialmente mais saudáveis. Mas não basta a palavra lida, tem de se transformar em palavra falada. E, muitas vezes, as famílias não dão espaço aos adolescentes para falarem como eles precisam. E, portanto, quando nós, às vezes, diabolizamos as redes sociais ou as más influências, temos de perceber que essa influência só ganha escala quando os pais não dão espaço aos adolescentes para falarem. E, claro que os pais, à boleia do seu sexto sentido, também sejam capazes de dizer o que acham. É evidente que isto traz mais conflito. Mas, caramba, precisamos do conflito para pensar.

Nunca vi um adolescente trocar aquilo que é dito numa rede social por aquilo que os pais dizem com sensatez. De facto, e para ir ao encontro da sua pergunta, os adolescentes estão, muitas vezes, demasiado sozinhos. Porque não há espaço para conversar. Como é que se pode admitir que uma família com a mãe, o pai e o adolescente, cheguem a um restaurante e a primeira coisa que fazem seja pegar nos telemóveis? Tecnicamente estão a conviver. Na realidade, estão ali a respirar o mesmo ar.

Aliás, recorre a um neologismo, o dos smartphonianos. Os smartphones estão a mudar a adolescência?

Hoje, os pais quando têm filhos adolescentes ficam muito sem jeito, porque os filhos adolescentes saem muito menos do que os pais saíam. Os pais, se pudessem, não paravam em casa. Os filhos comunicam através das redes sociais. Compreensivelmente, com a pandemia os pais deram livre-trânsito para que isso fosse assim. Às vezes, os filhos levantam-se clicam no grupo do WhatsApp de que fazem parte e só o desligam quando vão dormir. Tecnicamente convivem. Isto introduziu diferenças profundas. Conheço namorados que discutem através das SMS. É uma coisa absolutamente incrível. Temos de ter noção que isto trouxe muitas alterações de comportamento, mas estas alterações não podem impedir os pais de definir regras claras. Quando definem regras, têm de perceber que, em vez de darem bons conselhos, têm de dar bons exemplos. E nem sempre os pais ajudam.

Esta relação digital, tal como pormenoriza no seu livro, traz profundas alterações na forma como os adolescentes vivem a sexualidade, o amor...

Todavia, é muito importante que os pais se dêem conta, com orgulho, de que o índice de gravidez, na adolescência, não é o que era há uma geração. A sexualidade não é, seguramente, a mesma nos grandes centros urbanos, mas também fora destes. Em Portugal há, de facto, muitas diferenças. E algumas muito melhores, sem dúvida. Agora, sempre com a ideia de que nós, as pessoas crescidas, não podemos prescindir de sermos entidades reguladoras. E quando falo de pessoas crescidas, falo também do Estado. Por exemplo, quando se fala de redes sociais, há países europeus, como por exemplo a Inglaterra, que revelam preocupação. Não se trata de censura, antes preocupação em relação a alguns conteúdos que são gravíssimos. Um Estado de Direito não se pode inibir de ter uma opinião e de ter regulação.

Na escola é a mesma coisa. Os professores são importantes não porque ministram todas as alíneas dos programas. São importantes porque são exemplos preciosíssimos. Levam experiências identificatórias em relação aos adolescentes, dão-lhes exemplos de pessoas, promovem o contraditório. Se calhar temos de estar mais atentos em relação ao nosso papel. Os adolescentes hoje são muito bonitos e são-no porque nós trabalhámos para eles.

Aliás, em determinado momento escreve que os professores gostam de adolescentes que lhes deem luta. Porquê?

É verdade. São aqueles miúdos um bocadinho desafiadores que lidam com o professor numa atmosfera de o levar a demonstrar que sabe mandar. E passam a respeitar ainda mais o professor. Isto, quando um professor é capaz de lidar com os alunos de uma forma leal, franca, frontal. Agora, quando os professores lidam com os adolescentes como se estivessem a querer domesticar miúdos de 12 ou 13 anos, aí ‘está o caldo entornado’, porque os adolescentes percebem que aquele professor, um bocadinho autoritário, é uma pessoa muito insegura. Quando é assim, os miúdos pensam: “vamos lá esticá-lo mais um bocadinho”. E isso dá mau resultado.

A escola é chata para os adolescentes porque não os percebe? É uma ideia que leva para o seu livro...

Tantas vezes. Percebe que os adolescentes são às vezes um bocadinho batoteiros no argumento: “Para que serve esta disciplina?” Quando eles põem as coisas assim, eles precisam de perceber a utilidade da matemática ou da física. Que alguém lhes diga: “isso serve para fazeres isto”. Um estudo de mestrado engraçadíssimo debruçou-se sobre o tempo que os professores davam aos alunos entre a pergunta e a resposta. E o tempo era ínfimo. Ou seja, os professores não punham a turma a pensar com eles. Às vezes as escolas ainda estão vocacionadas para as respostas na ponta da língua, aquelas que os professores querem ouvir. Isto não é escola. Quando neste estudo fizeram a pergunta ao contrário, ou seja, qual era a pergunta mais frequente que os alunos punham aos professores esta era: “posso ir à casa de banho?” [risos]. Quando os alunos podem, realmente, pôr perguntas revelam grande maturidade.

Hoje, encontramos novas formas de bullying. É, sobretudo, mais insinuado, mais próximo dos movimentos de exclusão dum grupo. Refere que a este propósito a escola é, “muitas vezes, encolhida e medricas”. Porquê? Porque finge atuar?

É distraída o que é mais grave. É muito curioso ver como o bullying está a mudar profundamente. Antes, era protagonizado por um adolescente, regra geral do sexo masculino, com perturbações familiares, às vezes com grandes carências socioecónomicas. O bullying traduzia-se na grande equimose que um dos nossos filhos exibia ao chegar a casa. Hoje, o bullying é praticado por um grupo de dois ou três indivíduos, com um líder e dois escudeiros que gozam, humilham, manipulam o grupo no sentido de excluir um miúdo, ou porque é dócil, ou porque é inseguro, ou porque tem muito boas notas, mas não tem competências sociais. E isto pode prolongar-se por muitos meses. Os miúdos não apresentam sinais exteriores, mas alteram o comportamento, ficam de lágrima fácil, respondem mal. Às vezes este bullying vai do espaço das escolas para as redes sociais. São, literalmente, casos de polícia protagonizados por miúdos de 13 ou 14 anos, por vezes com boas notas. A escolas olham para isto e não lhes passa pela cabeça que é bullying. Reagem e dizem que não, que é impossível. A grande diferença é que os bullies são muitas vezes grupos de raparigas com atitudes feias. Por vezes, os procuradores da república olham para os casos e dizem que é “impossível, não há crianças más”. Sim, concordo, mas às vezes aquele furor da adolescência resvala para uma maldade que não podemos ignorar. Mesmo estas crianças que protagonizam a maldade precisam de ser ajudadas. E, às vezes, não chega a mãe da vítima ligar à mãe de quem vitimiza, porque a mãe desta vai achar que é impossível. O bullying mudou muito e as escolas são muito batoteiras a lidar com isto. Porque, muitas vezes, as crianças vítimas continuam a ter bons resultados escolares.

Estamos a vender aos nossos adolescentes a ideia de que a felicidade é mais um presente e menos uma conquista?

Vivemos num mundo um bocadinho esquisito, porque parece que estar triste significa estar-se deprimido ou que ao se viver um conflito, tal significa ser-se frágil e não é nada disso. Os pais têm de saber dizer aos filhos que as pessoas saudáveis falham, engasgam-se, às vezes têm dias não, às vezes ficam à beira de um ataque de nervos, mas que o grande objetivo da vida não é entrar para a universidade, ou ter sempre grandes notas e ter a ousadia de querer ser feliz e isso dá trabalho. Como pais, temos a ideia de que quanto mais facilitarmos a vida aos nossos filhos, mais felizes ficarão e mais depressa. A função essencial dos nossos filhos é porem-nos os problemas e é assim que aprendemos a ser melhores pais, a responder de forma mais simples, por ensaio/erro. Por vezes, confundimos a felicidade com o sucesso dos nossos filhos e, às vezes, confundimos o sucesso com o ganharem muito dinheiro.

Há famílias que educam os adolescentes para a depressão?

Sim, e sabe quais são? Aquelas que não lhes dão a oportunidade de estarem tristes mais vezes. Basta, por vezes, deixá-los serem tristonhos, lamuriarem-se. Quantas vezes, assim que os nossos filhos vivem uma atmosfera de tristeza, lhes dizemos de imediato: “não fiques assim”. Porque eles às vezes só precisam de colo. O colo é preciso, mas para isso nós temos de escutar.

Fonte: Sapo por indicação de Livresco

sábado, 3 de agosto de 2024

Pedidos de subsídio de educação especial caem 6% no último ano letivo

No último ano letivo, a Segurança Social recebeu 31.413 pedidos para o subsídio de educação especial, menos 6% face aos 33.364 recebidos no ano letivo anterior, de acordo com os dados fornecidos (...) pelo Instituto da Segurança Social. Foi a primeira queda no espaço de quatro anos. Por cada 100 pedidos houve 73 aprovados.

Este subsídio consiste numa prestação paga mensalmente e destinada a crianças e jovens com deficiência e com idade inferior a 24 anos, tendo em vista assegurar uma compensação pelos encargos resultantes de formas específicas de apoio a estes cidadãos, nomeadamente para frequentarem o ensino especial ou serem acompanhados por terapeutas.

O número de pedidos de subsídio de educação especial tem aumentado em termos absolutos nos últimos anos. Nos últimos quatro anos, o número de pedidos recebidos pela Segurança Social cresceu a um ritmo médio de 4,56% por ano. Porém, no último ano letivo (2023/2024) registou-se uma queda de cerca de 6%.

No ano letivo 2019/2020, tinham sido submetidos à Segurança Social 26.279 pedidos, dos quais 21.731 foram pagos, segundo os dados fornecidos pelo Instituto da Segurança Social (...), que resulta numa taxa de indeferimentos foi de 17,3%. Já no ano letivo seguinte (2020/2021), o número de pedidos cresceu para perto de 30 mil, tendo sido deferidos 24.157 pedidos. Ou seja, cerca de 19,4% foram inferidos. Por sua vez, nos dois anos letivos seguintes, a taxa de deferimentos aumentou para cerca de 26%.

Em 2023/2024, a Segurança Social revela que recebeu 31.413 pedidos para o subsídio de educação especial, dos quais 22.984 pedidos foram pagos, de acordo com os dados provisórios até 29 de julho fornecidos pelo instituto ao ECO.

Contas feitas, por cada 100 pedidos submetidos no último ano letivo, 73 foram aprovados. Mas, “estão, ainda, a aguardar decisão 1.570 processos, o que poderá vir a colocar o número de deferimentos na ordem dos 24.000 e a taxa de deferimento nos 76%, sendo assim superior aos anos letivos transatos de 2021/2022 e 2022/2023″, adianta o Instituto da Segurança Social, em resposta (...).



(...) o instituto explica ainda que a tramitação do subsídio de educação especial “envolve uma equipa multidisciplinar (que inclui as equipas locais de intervenção do Sistema Nacional de Intervenção Precoce na Infância e a Direção Geral dos Estabelecimentos Escolares)”, pelo que, “por vezes, a análise e decisão dos processos é complexa e mais demorada”.

Nesse sentido, e no que diz respeito ao tempo médio de pagamento, a Segurança Social adianta que a métrica “não está parametrizada por ano letivo, mas sim por ano” e que “em 2024 o tempo médio de deferimento é de 91 dias, quando em 2022 era de 103 dias”.

Entre os principais motivos de indeferimento consta o facto de o requerimento “não estar devidamente instruído”, a “deficiência ser considerada não permanente”, “a Deliberação da equipa multidisciplinar ser desfavorável”, a criança/jovem falar à avaliação médico pedagógica da equipa multidisciplinar ” sem apresentar justificação ou sem justificação aceitável”, a criança/jovem já se encontrar a receber apoio do estabelecimento de ensino ou receber o subsídio assistência 3.ª pessoa” (prestação não acumulável com este subsídio), elenca o instituto.

Fonte: ECO por indicação de Livresco

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Organização e funcionamento dos jardins de infância da rede nacional e desenvolvimento do currículo na educação pré-escolar

A Direção-Geral da Educação, em articulação com a Inspeção-Geral da Educação e Ciência, elaborou o Oficio-Circular n.º 32985/2024/DGE-DSDC-DEPEB sobre a organização e funcionamento dos jardins de infância da rede nacional e desenvolvimento do currículo na educação pré-escolar.

Tendo em vista a aprendizagem, o desenvolvimento e o bem-estarde todas as crianças que frequentam a educação pré-escolar, a Direção-Geral da Educação, no âmbito das suas competências, elaborou e divulga o Oficio-circular n.º 32985/2024/DGE-DSDC-DEPEB, de 30 de julho. Este Ofício-Circular, informa e clarifica as questões relativas à organização e funcionamento dos jardins de infância, ao desenvolvimento do currículo e à continuidade educativa e transições nesta importante etapa educativa.

Fonte: DGE por indicação de Livresco

terça-feira, 30 de julho de 2024

Miguel Neiva, criador do colorADD: “Uma criança daltónica é, em muitos casos, vítima de bullying. Até por parte do professor”

O colorADD, um sistema de identificação de cores para daltónicos nasceu em Portugal pela mão do designer gráfico português, Miguel Neiva. “Surgiu por ignorância”, confessa, dizendo que todos os anos quando ia ao oftalmologista perguntava se estava a ficar daltónico. “Nunca me disseram que, se não nasci daltónico, nunca o seria.”

Além disso, sempre acreditou que o design tinha a competência e a nobre missão de poder fazer o mundo melhor. “Se alguma vez imaginei o impacto que isto teria — a criação de cinco símbolos e como os que relacionei, não de todo!”, admite, dizendo que a sociedade teve um importante papel também ao ajudar a passar a palavra.

A sua missão é tentar levar o código a oito mil milhões de pessoas porque não sendo uma doença visível, não se sabe onde estão. Para Miguel Neiva somos condescendentes com aquilo que vemos, com o que não vemos, o juízo de valor é muito depreciativo.

Já estão em 2000 escolas e trabalharam diretamente com mais de 50 mil crianças. E, apesar do direito ao código passar por um licenciamento, este é gratuito para a educação. “A educação é um pilar de desenvolvimento. São as crianças que vão fazer o mundo melhor amanhã, por isso a cor tem de chegar a todos.”

Em 2014, Miguel Neiva criou a ColorADD Social, uma associação que tem auxiliado a comunidade educativa, com programas nas escolas que ajudam a entender esta limitação e quais os constrangimentos de um daltónico no dia-a-dia. Inclusivamente possibilitam aos alunos experienciar a visão daltónica através de uns óculos.

Colocar-se no lugar do outro é fundamental para se perceber o seu problema, além de se aprender a viver com a diferença. “Uma criança daltónica é, em muitos casos, vítima de bullying. Até por parte do professor. Não por este querer, mas por não entender porque é que ele pega no lápis vermelho para pintar uma árvore, ou porque não entende um mapa”, exemplifica. Miguel Neiva diz que estes “doentes” não se queixam, principalmente os do sexo masculino — onde a doença é mais incidente, por isso quem com eles convive muitas vezes nem se apercebe que são portadores de daltonismo.

Este é um projeto de inovação social. “A área social tem de fazer parte da economia e acredito que é possível fazer o bem e ganhar dinheiro. Se a sociedade tomar consciência disso não tenho dúvida de que teremos os melhores do mundo a trabalhar do lado do bem.” No entanto, o empreendedor social adverte que não se pode querer que estes negócios se desenvolvam à velocidade de uma start up tecnológica. "Estamos a falar de um setor que tem de desmontar alguns paradigmas culturais, como a sustentabilidade e a independência dos projetos.”

Para Miguel Neiva é fundamental a profissionalização no setor social. “As coisas não podem ser feitas apenas com a emoção e paixão do indivíduo. Temos de encarar tudo isto com profissionalismo”.

O criador do colorADD chegou, em 2015, a recusar investimento de capitais de risco “por não saber o que fazer com aquele dinheiro”. Em 2021, no momento certo, quando se sentiram "preparados” tiveram apoio de fundos para iniciar o processo de internacionalização. Um percurso feito de sucesso, mas quando lhe perguntamos o que ainda falta fazer, Miguel Neiva, responde rápido: “Falta fazer tudo o que falta fazer. É um desafio interessante!”

Oiça aqui o podcast Ser ou Não Ser

Fonte: SIC Notícias por indicação de Livresco

domingo, 28 de julho de 2024

Palavras com significado: A influência da consciência morfológica na compreensão da leitura

Introdução

A consciência morfológica, definida como a consciência da estrutura morfémica das palavras e a capacidade de manipular e reflectir sobre essa estrutura, desempenha um papel fundamental na aprendizagem da leitura. De acordo com a literatura, a consciência morfológica inclui, especificamente, a percepção de quatro aspectos fundamentais:
  1. a forma falada e escrita dos morfemas;
  2. o significado que os afixos adicionam à palavra-base (como saber que o prefixo «re» dá à palavra-base o significado de repetição, como em reencontro, recomeço e recandidatura);
  3. a forma como os afixos impressos se relacionam com a palavra-base (saber que sufixos como «-íssimo», «-ar» e «-ção» alteram a estrutura da palavra-base, como em bonito → bonitíssimo; conceitos → conceituar; instruir → instrução);
  4. a relação entre a palavra-base e as respectivas formas inflectidas ou derivadas (saber que diversas palavras se encontram relacionadas porque compartilham a mesma base, como no exemplo de viver: vida, vivência, vivido, reviver e sobreviver).

Carlisle (2000) destaca três processos a partir dos quais as palavras podem ser formadas: 
  1. composição, que envolve a combinação de dois ou mais morfemas para criar uma palavra que mantém a classe gramatical, mas altera o significado (para + quedas = paraquedas; gira + sol = girassol);
  2. flexão, que envolve a adição de afixos para indicar informações gramaticais sem alterar a categoria gramatical da palavra-base [como em livro (singular) e livros (plural); amar (infinitivo) e amando (gerúndio); cantar (infinitivo) e cantou (pretérito perfeito)];
  3. derivação, que envolve a adição de afixos para alterar o significado e a categoria gramatical da palavra-base [como em doce (adjectivo) e adoçar (verbo); cultura (substantivo) e cultural (adjectivo); feliz (adjectivo) e felicidade (substantivo)].
De acordo com diversos estudos, a consciência morfológica está relacionada com a compreensão da leitura dos alunos com idades entre os 5 e os 14 anos (Deacon & Kirby, 2004; Levesque et al., 2021; Nagy et al., 2006).

Segundo a literatura, a consciência morfológica apoia a compreensão da leitura de diversas formas. Por exemplo, uma vez que os morfemas inflexionais marcam as relações sintáticas entre as palavras de uma frase, isto é, a função que as palavras desempenham numa frase em relação umas às outras, os alunos com consciência morfológica flexional terão maior êxito na compreensão da leitura de frases (e.g., Manolitsis et al., 2017). No entanto, embora os processos de formação de palavras (i.e. composição, flexão e derivação) possam apresentar padrões de desenvolvimento diferentes, poucos estudos têm analisado a relação entre esses processos e a compreensão da leitura. Além disso, a maioria dos estudos que analisaram a relação entre a consciência morfológica e a compreensão da leitura centrou-se nos processos de flexão e derivação, tendo poucos estudos considerado o processo de composição (Clark et al., 1986; James et al., 2020). Deacon e Kirby (2004) verificaram que a consciência da morfologia flexional aos 7 anos prediz a compreensão da leitura dos 8 aos 10 anos. Gilbert et al. (2014) e Kieffer e Box (2013) verificaram, por sua vez, que a consciência da morfologia derivacional prediz a compreensão da leitura dos 8 aos 12 anos.

Tal como a idade dos alunos e o tipo de palavras que lêem (nomeadamente palavras com origem composicional, flexional e/ou derivacional), as características dos testes que avaliam a consciência morfológica e a compreensão da leitura podem influenciar a relação entre estas habilidades. De acordo com a literatura, o formato de resposta pode influenciar o nível de dificuldade dos testes, assim como a força da relação entre a consciência morfológica e a compreensão da leitura (e.g., Apel et al., 2012; Keenan et al., 2008). Por exemplo, nos testes de consciência morfológica, as tarefas que exigem que os alunos gerem uma palavra-base e a respectiva forma derivada podem ser mais difíceis do que as tarefas que exigem que os alunos determinem a relação entre essas formas linguísticas (i.e. relação entre a palavra-base e a palavra derivada; Apel & Thomas-Tate, 2009). Por sua vez, nos testes de compreensão da leitura, as tarefas que utilizam formatos de resposta de preenchimento e correspondência de imagens estão mais relacionadas com a leitura do que com a compreensão auditiva (Keenan et al., 2008).

A modalidade de resposta pode, também, influenciar a relação entre a consciência morfológica e a compreensão da leitura. Embora a influência desta característica tenha sido pouco estudada, Stark (2011) verificou que as respostas escritas dependem de dois aspectos fundamentais, relacionados com a compreensão: vocabulário e conhecimento ortográfico. Estudos recentes têm apontado a necessidade de se considerar, ainda, dois outros aspectos, a saber:
  1. a apresentação da tarefa, já que ouvir a pronúncia da palavra pode apoiar a sua decomposição através da associação com a prosódia lexical, isto é, a pronúncia pode apoiar o reconhecimento dos morfemas da palavra, assim como as respectivas representações lexicais (e.g., Carlisle, 2003; Chan et al., 2020). Por exemplo, Carlisle (2000) verificou uma relação mais forte entre a consciência morfológica e a compreensão da leitura, avaliadas a partir de estímulos auditivos, do que Stark (2011), que avaliou ambas as competências a partir de estímulos na forma escrita;
  2. o tipo de processamento exigido pelas tarefas de compreensão, uma vez que, em comparação com as informações apresentadas de forma explícita, os leitores diferem consideravelmente na capacidade de responder a perguntas que exigem o estabelecimento de inferências (Cain & Oakhill, 1999).
O estudo de Liu e colaboradores (2024)

Liu et al. (2024) analisaram, a partir de uma revisão sistemática e meta-análise da literatura científica, a influência da consciência morfológica na compreensão da leitura de crianças e adolescentes que aprendem a ler inglês como primeira língua. Os investigadores analisaram, também, a influência da idade dos alunos, do tipo de palavras (especificamente, palavras com origem composicional, flexional e derivacional) e das características dos testes de consciência morfológica e de compreensão da leitura na relação entre ambas as habilidades (i.e., consciência morfológica e compreensão da leitura).

Principais resultados

Liu et al. (2024) analisaram os resultados de 44 estudos que incluíram 126 correlações entre a consciência morfológica e a compreensão da leitura e nos quais participaram 13.790 alunos com idades entre os 6 e os 16 anos. Os investigadores verificaram que:
  1. Existe uma relação significativa entre a consciência morfológica e a compreensão da leitura. Especificamente, os alunos com melhores resultados nos testes de consciência morfológica foram os que alcançaram resultados mais elevados nos testes de compreensão da leitura. À semelhança de estudos anteriores (James et al., 2020; Levesque et al., 2019; Tong et al., 2014), este resultado destaca a importância da consciência morfológica na compreensão da leitura;
  2. A relação entre a consciência morfológica e a compreensão da leitura não aumenta com a idade dos alunos. Embora este resultado não esteja em conformidade com estudos anteriores (Carlisle, 2000; Deacon & Kirby, 2004), permite concluir que a consciência morfológica tem um papel importante na compreensão em todas as fases da aprendizagem da leitura;
  3. O tipo de palavras influencia significativamente a relação entre a consciência morfológica e a compreensão da leitura. Ainda assim, os resultados mostraram que essa influência só se manifesta quando a consciência morfológica é avaliada através de testes que englobam palavras tanto de origem derivacional quanto flexional, em vez de apenas palavras derivacionais. Segundo Liu et al. (2024), este resultado pode dever-se ao facto de que poucos estudos incluíram medidas exclusivas de consciência morfológica flexional, o que impossibilitou a análise da sua influência específica. Por esta razão, este resultado deve ser interpretado com cuidado;
  4. As características dos testes de consciência morfológica não exercem um efeito significativo na relação entre esta habilidade e a compreensão da leitura. No entanto, em conformidade com estudos anteriores (Carlisle, 2000; Stark, 2011), os resultados mostraram que a influência destes testes é mais elevada quando os estímulos são apresentados por meio auditivo (ao invés de visualmente) e requerem respostas orais (em vez de respostas escritas). Os resultados mostraram, ainda, que a influência dos testes de consciência morfológica é maior quando utilizam um formato de resposta de escolha múltipla em vez de respostas que requeiram produção de palavras. De acordo com a literatura, tarefas de produção que exigem que os alunos gerem uma palavra-base e uma forma derivada podem ser mais complexas do que as tarefas que exigem reflectir acerca da relação entre ambas as formas linguísticas, uma vez que as primeiras são mais dependentes das habilidades de ortografia e da leitura de palavras do que as tarefas de reflexão (Apel et al., 2012; Apel & Thomas-Tate, 2009; Carlisle, 2000). Os resultados mostraram, ainda, que os testes que avaliam a consciência das unidades morfémicas das palavras têm uma influência maior na compreensão da leitura do que os que avaliam a consciência dos significados dos afixos, assim como das alterações que estes provocam nas palavras-base;
  5. As características dos testes de compreensão da leitura também não exercem um efeito significativo na relação entre a consciência morfológica e a compreensão. Este resultado permite concluir, assim, que a natureza da avaliação da compreensão da leitura tem pouco impacto na sua relação com a consciência morfológica.
Conclusão

No essencial, Liu et al. (2024) verificaram que a consciência morfológica desempenha um papel fundamental na compreensão da leitura, independentemente da idade dos alunos e dos testes que as avaliam. Os resultados do presente estudo destacam, assim, a importância de integrar o ensino da morfologia na aprendizagem da leitura desde os primeiros anos de escolaridade até aos anos mais avançados.

Célia Oliveira e Soraia Araújo