Está quase na altura de o seu filho regressar à escola - mas e se ele não quiser? Se for esse o caso, pode ajudar saber que esta situação é mais comum do que imagina.
“Falo todos os dias com profissionais da educação e todos me dizem que este é um problema crescente”, afirma Jayne Demsky, fundadora e CEO da School Avoidance Alliance, uma organização sediada em Mahwah, Nova Jérsia, que ajuda famílias e escolas a lidar com este desafio. Demsky explica também que está a ver mais pais do que nunca a juntarem-se aos seus grupos de apoio online.
Também tenho ouvido falar deste problema com maior frequência nas minhas conversas com pais, educadores e alunos de todo o país sobre a forma de gerir o tempo que as crianças passam em frente aos ecrãs.
Não me surpreende que isto esteja a acontecer.
Durante o verão, as crianças passam mais tempo em frente aos ecrãs. Muitas aplicações foram concebidas para criar dependência. São extremamente estimulantes e bombardeiam as crianças com constantes descargas de dopamina sob a forma de “gostos” ou pontos em videojogos, normalmente em troca de muito pouco esforço. Não admira que seja tão difícil para os jovens acordarem cedo, vestirem-se e permanecerem atentos nas salas de aula, onde se espera que façam tarefas exigentes sem um fluxo constante de entretenimento ou recompensas.
Além disso, muitas escolas não estão a fazer o suficiente para apoiar o bem-estar dos alunos. Os pais queixam-se frequentemente de que os seus filhos passam demasiado tempo sentados na escola, apesar de os seres humanos precisarem de se movimentar ao longo do dia para serem saudáveis. Na escola, as crianças passam muitas vezes pouco tempo ao ar livre - outra necessidade essencial para a nossa saúde.
Muitas escolas também não dedicam tempo suficiente às brincadeiras, apesar de essa ser uma das principais formas de aprendizagem das crianças em idade do ensino básico. Para além disso, muitas escolas fazem com que os alunos passem muito tempo em frente aos ecrãs, embora olhar para eles durante longos períodos possa ser stressante e desgastante.
Muitas crianças percebem que esta situação não é a ideal. Na verdade, as crianças que evitam a escola são, muitas vezes, muito inteligentes, segundo Demsky.
O que deve fazer se o seu filho não quiser voltar à escola?
Gerir o tempo de ecrã em casa
Se um jovem passa grande parte do dia num dispositivo digital durante o verão, abdicar dele logo no primeiro dia de aulas será um enorme desafio. Em vez disso, comece a reduzir gradualmente o tempo de utilização dos ecrãs antes do regresso às aulas, oferecendo-lhe outras atividades divertidas e estabelecendo limites razoáveis.
Certifique-se também de que o seu filho se deita a uma hora adequada para preparar o organismo para voltar a acordar cedo para a escola e não permita que durma no mesmo quarto que o telemóvel.
As crianças que evitam a escola costumam ficar acordadas até tarde para depois dormirem durante o dia e escaparem ao sentimento de culpa por não irem à escola, explica Demsky. “A maioria das crianças não o faz de propósito”, afirma. “Acontece naturalmente.”
Eliminar a distração do telemóvel pode tornar muito mais fácil adormecer.
Ajude as crianças a criar laços fortes com os amigos e com os adultos da escola
“O envolvimento com os colegas, os professores e qualquer pessoa que trabalhe na escola é um dos fatores de proteção que ajudam as crianças a permanecer na escola”, afirma Demsky.
As crianças que não têm ligações com adultos na escola muitas vezes não são perturbadoras e, por isso, passam despercebidas, acrescenta.
Se acha que o seu filho pode estar a passar por esta situação, peça ao professor e ao psicólogo ou orientador escolar que se reúnam individualmente com ele para o conhecerem melhor.
Certifique-se também de que o seu filho participa em atividades extracurriculares e tem tempo livre não estruturado para estar com os amigos, pois ambos os aspetos fortalecem as relações com os colegas.
Como ajudá-los a manter essas ligações sem um smartphone? Experimente um telefone fixo, um smartwatch ou um chamado telemóvel básico, que permita fazer chamadas e enviar mensagens, mas não navegar na internet nem utilizar aplicações.
Não grite com o seu filho
Se o seu filho não quiser sair da cama de manhã para ir para a escola, “não grite com ele”, aconselha Demsky.
Algumas pessoas sugerem pôr música alta para o acordar. “Não”, responde Demsky. “Queremos que a criança saiba que compreendemos. Percebemos que isto é algo que ela não consegue controlar.”
Diga-lhe que está do lado dele e tente reforçar a sua confiança com frases como: “Vejo que estás ansioso neste momento. Compreendo. Sei que é difícil, mas também sei que tens capacidade para lidar com este sentimento e que vais conseguir ultrapassá-lo.”
Além disso, quando a escola começa a enviar avisos devido às faltas acumuladas, pressionar a criança apenas aumentará o seu stress. Em vez disso, marque uma reunião com os responsáveis da escola para explicar o problema e procurar soluções em conjunto.
“Como pai ou mãe, não pode deixar que o seu filho veja a sua ansiedade”, afirma Demsky. “Tem de transmitir calma.”
Procure apoio para o seu filho
Se o seu filho está a evitar a escola, procure ajuda de um profissional de saúde mental para perceber se sofre de depressão ou ansiedade, aconselha Demsky.
Outra possibilidade é que necessite de adaptações devido a uma dificuldade de aprendizagem. Se acha que pode ser esse o caso, apresente um pedido por escrito à escola para que seja avaliado, explicando as suas razões, recomenda.
Contacte também o psicólogo ou orientador escolar, que poderá prestar apoio.
Se o seu filho partilhar razões concretas para estar infeliz na escola, fale com o professor ou com o diretor para solicitar alterações. Pode também defender uma redução do tempo de utilização de ecrãs no seu agrupamento ou distrito escolar, algo que muito provavelmente melhorará a experiência das crianças na escola.
Muitas crianças não ficam entusiasmadas com o regresso às aulas. Para as fazer querer voltar, talvez seja necessário recuperar métodos mais tradicionais, como lápis, papel e brincadeiras. Entretanto, procure ouvir as suas preocupações, levá-las a sério e fazer tudo o que estiver ao seu alcance para as apoiar.
Fonte: CNN Portugal por indicação de Livresco
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