quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Formação em Língua Gestual Portuguesa em Braga

Vai realizar-se, entre os dias 3 de março e 23 de abril, a ação de formação Língua Gestual Portuguesa - Módulo 1, promovida pelo Instituto Nacional para a Reabilitação e pela Universidade do Minho, no âmbito do Protocolo de Cooperação estabelecido para o efeito.

As inscrições são efetuadas através do preenchimento e submissão da ficha de inscrição até ao dia 28 de fevereiro. A formação decorrerá na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em Braga, tem como objetivo geral desenvolver competências de comunicação através do domínio da Língua Gestual Portuguesa e confere certificação acreditada pelo Instituto Nacional para a Reabilitação, I.P.

Para mais informações consulte os sites do Instituto Nacional para a Reabilitação e do Instituto de Ciências Sociais.

Fonte: INR

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Academia Virtual: refletir, questionar, aprender e ensinar

A Academia Virtual é uma plataforma de formação contínua e online. Com cursos disponíveis para professores, tenta responder às prioridades e necessidades de quem ensina e promover o seu desenvolvimento profissional para melhorar desempenhos e processos de ensino e de aprendizagem. Uma ferramenta que pretende, ao ajudar quem ensina, “promover o desenvolvimento das competências dos alunos” em vários ângulos, seja no fortalecimento da autonomia, na aquisição de métodos de estudo e no crescimento da criatividade, estimulando a aprendizagem e a busca de novos conhecimentos de quem aprende.

Sendo o papel dos pais e encarregados de educação fundamental no trajeto escolar, a plataforma tem também propostas formativas destinadas a esse público-alvo, com temas nas áreas da educação positiva e neurociência, educação para os media, entre outros. O objetivo é dar apoio nessa tão exigente missão parental. E não só. “Adicionalmente, a Academia apresentará ofertas formativas para todos os que sentem vontade de aprender mais e melhorar as suas competências pessoais e profissionais, de forma motivadora e efetiva”.

As formações são online, respeitando o ritmo individual, e os formandos têm oportunidade de interagir com profissionais e especialistas de várias áreas e partilhar experiências e dificuldades. “Acreditamos que a nossa capacidade de aprender é tão maior quanto o prazer que temos na experiência da aprendizagem, por isso, pretendemos promover cursos e experiências diversificadas, que não dependam do local onde se vive, de um horário rígido ou de acesso limitado”, lê-se no site da Academia Virtual, da Porto Editora, que atribui créditos a todos os professores que concluam com aproveitamento as formações acreditadas disponíveis, resultado de parcerias com entidades diversas, para efeitos de progressão na carreira.

A diferenciação pedagógica e a intervenção precoce são importantes no processo educativo. O intercâmbio de saberes e de experiências também. “O sucesso escolar traduz-se em aprendizagens efetivas e significativas, com conhecimentos consolidados que são mobilizados em situações concretas que potenciam o desenvolvimento de competências de nível elevado”.

Os cursos focam-se em vários temas. Currículos, novas tecnologias, educação para a cidadania e para os media, educação positiva. Tecnologias no 1.º Ciclo é um dos cursos e tem vários objetivos em mente, desde logo dar a conhecer diferentes ferramentas educativas digitais de suporte à aprendizagem, além de identificar as competências para o século XXI e perceber como se cruzam no processo de aprender. Rui Lima , professor e diretor pedagógico no Colégio Monte Flor, é o autor desta formação com sete módulos em 10 semanas. Dar a conhecer os princípios básicos da Gestão de Projetos e da Aprendizagem por Projetos (PBL) é também uma das componentes deste curso orientado por um professor que tem estado envolvido em projetos nacionais e internacionais relacionados com inovação tecnológica, utilização de tecnologias na educação e trabalho colaborativo, distinguido como “Microsoft Innovative Educator Expert” vários anos consecutivos.

Gestão flexível do currículo é outra das áreas de formação que se debruça sobre o assunto como um alicerce para o desenvolvimento de aprendizagens essenciais, não esquecendo o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória. Ariana Cosme , doutorada em Ciências da Educação, professora na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, consultora do Ministério da Educação para o Projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular, autora de diversos livros, é a autora deste curso que pretende diversificar e adequar práticas de avaliação das aprendizagens, bem como promover o trabalho sustentado em práticas colaborativas, nomeadamente através da constituição de equipas pedagógicas. São seis módulos em 10 semanas.

Os cursos direcionam-se também para a educação para a cidadania e para os media com formações específicas. No primeiro caso, o plano passa por refletir sobre o que se entende por cidadania e por educar para a cidadania no contexto do Projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular, discutir as recomendações da Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania, preparar uma estratégia de escola, entre outras tarefas. No segundo, pretende-se fomentar o sentido crítico na forma como se vê e se consome os media digitais, nomeadamente, compreender fenómenos como o das “fake news”. O primeiro é da autoria de Sofia Almeida Santos , doutorada e mestre em Ciências da Educação. O segundo de Luís Pereira , doutorado em Educação para os Media. Ambos têm sete módulos em 10 semanas.

Daniela Laranjeira , educadora social e life coach, e Juan Fernando Bou Pérez , psicólogo e coach, são responsáveis pelos cursos de Coaching Educativo e de Educação Positiva e Neurociência. Seis módulos e 10 semanas no primeiro curso para que professores desenvolvam competências, atitudes e capacidades que lhes permitam obter rendimento máximo do seu trabalho e gerir situações de conflito dentro e fora da aula. O segundo, também com seis módulos em 10 semanas, apresenta ferramentas de trabalho da Educação Positiva para utilizar nas aulas e propõe alterações metodológicas que levem a contextos de aprendizagem mais colaborativos. Uma forma de tirar partido da Neurociência aplicando-a à Educação.

Informações:

Fonte: Educare

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Dia do Síndrome de Asperger. "Se houvesse vontade política, podiam ser cidadãos fantásticos"

Em Portugal, há cerca de 40 mil pessoas com Síndrome de Asperger. Piedade Monteiro, presidente da Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger, diz que o apoio estatal melhorou, mas ainda há muito a fazer.

"Na escola, não há os apoios que devia haver, por falta de recursos humanos. Há falta de formação dos professores nesta área, o que impede um fluir de formação e de acompanhamento destas crianças e jovens", lembra Piedade Monteiro.

"Por outro lado, a nível financeiro, há uma grande precariedade, porque os apoios que as famílias têm que dar são caros. Uma criança ou jovem com esta perturbação não pode ter um acompanhamento de treino de competência funcional e social ou de terapia da fala ou de psicologia uma vez por semana ou de quinze em quinze dias... Tem que ser um acompanhamento constante, e isso não acontece no serviço público de saúde", alerta.

A Presidente da Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger não tem dúvidas de que o Estado só teria a ganhar se cumprisse a lei e prestasse o devido acompanhamento a quem sofre desta doença.

"Se houvesse vontade política de pôr em ação os meios que existem e o que a lei diz, não só a nível de segurança social, como a nível de saúde e educação. A minha grande pena é que o Serviço Nacional de Saúde não cubra devidamente estes assuntos, que na verdade só trariam benefícios para a sociedade", sublinha. "Os nossos filhos, sendo bem acompanhados e formados, conseguem ser cidadãos fantásticos, que não têm que viver do subsídio do Estado um dia mais tarde."

Greta Thunberg sofre desta perturbação neuro-comportamental e a ativista diz tratar-se de um superpoder. Para Piedade Monteiro, a jovem sueca não mudou em nada a forma como a maioria das pessoas olha para quem sofre do Síndrome de Asperger, porque a sua forma de falar não foi devidamente protegida.

"O comportamento dela não foi entendido como o de uma pessoa com esta disfunção e com estas características. Foi muito relevada a forma agressiva como falou e até despropositada na forma como se dirigiu às várias entidades onde falou e onde esteve. Não foi muito acompanhada. Mas foi o que ela é: uma rapariga com Síndrome de Asperger, determinada e que não foi encaminhada nem protegida de forma a não fazer vacilar as pessoas", repara Piedade Monteiro. "Será que isto é Síndrome de Asperger? Será que é arrogância? De facto, a Síndrome de Asperger tem estas características, mas isto poderia ter sido cuidado de outra forma."

Para assinalar o Dia Internacional do Síndrome de Asperger, a associação vai estar de portas abertas durante todo o dia, para receber aqueles que quiserem visitar o espaço e conversar com todos os que ali passam diariamente.

Fonte: TSF por indicação de Livresco

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Constituição do grupo de trabalho para o Sistema de Atribuição de Produtos de Apoio

O Despacho n.º 2244/2020, de 17 de fevereiro, procede à constituição do grupo de trabalho para o Sistema de Atribuição de Produtos de Apoio.

O grupo de trabalho tem os seguintes objetivos: 
a) Apresentar propostas de melhoria e simplificação dos circuitos e procedimentos de prescrição e de financiamento de produtos de apoio, no âmbito do Sistema de Atribuição de Produtos de Apoio (SAPA);
b) Avaliar o atual mecanismo legal de nomeação dos Centros Prescritores e a necessidade e impacto do alargamento da cobertura nacional da rede de Centros Prescritores de modo a responder com equidade às necessidades das pessoas com deficiência; 
c) Avaliar o atual modelo de financiamento dos produtos de apoio designadamente o que diz respeito à celeridade na atribuição dos apoios; 
d) Apresentar propostas conducentes à criação e funcionamento de bancos de produtos de apoio, promovendo a rentabilização de recursos e a existência de respostas mais rápidas, sem que isso provoque a perda de apoios devidos a cada requerente; 
e) Elencar as propostas de alteração tidas por convenientes ao atual Decreto-Lei n.º 93/2009, de 16 de abril; 
f) Definir, em articulação com as entidades de interligação do sistema informático que operam com cada uma das diferentes entidades financiadoras, os requisitos para o desenvolvimento de uma plataforma informática que confira celeridade e eficiência a todo o processo de prescrição e financiamento de produtos de apoio; 
g) Apresentar propostas de melhoria da comunicação com os cidadãos beneficiários do sistema, tornando-o mais transparente e compreensível para os seus efetivos destinatários; 
h) Elaborar um manual/guia de orientações, que se pretende venha a constituir um instrumento de trabalho orientador à intervenção técnica das equipas multidisciplinares dos centros prescritores e aos técnicos das entidades financiadoras; 
i) Definir um plano de formação para as diferentes entidades envolvidas no sistema, designadamente centros prescritores especializados e entidades financiadoras.

O perfil dos que não aprendem

O que distingue o desenvolvimento do atraso é a aprendizagem, esta é a ideia basilar do perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória.

Num momento em que o abandono escolar se aproxima da média Europeia, os esforços devem concentra-se em garantir que os alunos estão na escola e aprendem. Urge combater o insucesso. Em Portugal existem 15.000 jovens que frequentam o ensino obrigatório durante dez anos e não aprendem quase nada, obtendo nível “1” simultaneamente a Matemática e a Leitura nos testes PISA (dados utilizados nesta análise). O PISA mede de que forma é que os alunos prestes a entrar na vida adulta conseguem resolver problemas mobilizando os conhecimentos adquiridos ao longo do seu percurso escolar.


Cada aluno traz consigo a sua família na componente socioeconómica e cultural, mas também as opções educacionais do passado e as emoções; traz a sua própria identidade e valores construídos ao longo dos seus 15 anos de vida; e está inserido numa escola partilhada com professores e colegas.Embora o sucesso das aprendizagens esteja ligado ao estatuto socioeconómico e cultural das famílias (educação dos pais, qualidade do emprego, poder de compra, hábitos culturais), esta realidade pode atingir todas as classes sociais, incluindo 6% pertencente à classe social mais favorecida. Por outro lado, dentro da classe social mais desafortunada há 42% de alunos que atinge nível “3 “ou mais. Cada um destes alunos adquiriu competências para entrar no elevador social, tem capacidades que permitem manter as portas do futuro abertas.

Os alunos que não aprendem, comparados com a média nacional, apresentam desvantagens em todas as dimensões:



A família

  • Menor tempo de pré-escolar, com início um ano letivo mais tarde, aos 4,5 anos;
  • Menor apoio às aprendizagens informais por parte dos pais durante o primeiro ciclo;
  • Menor apoio emocional por parte dos pais no presente, embora preocupados com as aprendizagens dos filhos.

Os próprios
  • Declaram ter apoio personalizado e “feedback” por parte dos professores;
  • Admitem que são malcomportados;
  • Sabem que são pouco resilientes no estudo;
  • Sentem pouca pertença à escola;
  • Declaram ter sido vítimas de bullying;
  • Não gostam de ler, pudera, não aprenderam.

A escola
  • 50% dos alunos difíceis concentram-se em 14% das escolas;
  • 83% destes alunos já repetiram pelo menos um ano, as escolas sinalizam bem;
  • Turmas mais pequenas (23,6 vs. 25,6 alunos);
  • Os diretores acusam falta de materiais pedagógicos e de colaboradores e reconhecem que os professores são dedicados;
  • Os diretores consideram que estes alunos se portam bastante mal.

Os alunos que não aprendem necessitam de colo e atenção em casa. Necessitam de programas de sensibilização das famílias, porventura antes do início da escolaridade obrigatória. Necessitam de ir mais cedo para o jardim infantil. Necessitam de programas que reduzam a desvantagem dos agregados familiares. Necessitam que a comunidade esteja atenta ao bullying. Necessitam de modelos para se comportarem melhor. Necessitam de não ser segregados em escolas estigmatizadas. Necessitam de aprender a ler para poder criar o gosto pelas histórias e pela criatividade. Necessitam que não desistam deles.

Os professores tentam dar um contributo positivo para que estes alunos continuem. Sempre os professores como o melhor ativo do sistema de educação.

As políticas públicas para uma educação inclusiva devem ser planeadas e desenhadas à medida das necessidades de cada grupo. O contexto atual é favorável. A tutela acolhe com agrado medidas no âmbito da autonomia e flexibilidade curricular e do desenho de estratégias que visem o sucesso das aprendizagens.

A transformação de crianças em adultos aptos para o pleno uso das suas capacidades é um percurso que exige respostas adaptadas. Cada escola deve estudar o perfil dos seus alunos e pensar programas que possam mitigar as dificuldades identificadas. Não existe nenhuma solução que sirva toda a população.

Não basta chumbá-los. Uma sociedade desenvolvida não se resigna com o atraso de uma grande fatia dos seus jovens, ajuda-os a aprender. Mantenhamos em mente que a missão da escola, e da comunidade que a envolve, é garantir que todos aprendem.

Isabel Flores

Fonte: Público

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Um mundo lá fora

A Reportagem Especial "Um mundo lá fora" dá a conhecer o Rui Sousa, a Leonor Santiago, o Miguel Ribeiro e outros exemplos de coragem e determinação.

Em Portugal, tem vindo a aumentar o número de desempregados com deficiência registados no Instituto do Emprego e Formação profissional. Segundo os dados disponíveis, em 2019, existiam mais de 12 mil pessoas com deficiência registadas nos Serviços de Emprego.

Apesar de ainda haver um longo caminho para desbravar, o mercado laboral está mais recetivo às pessoas com deficiência, incluindo pessoas com dificuldades intelectuais e de desenvolvimento que estão a ter oportunidades de trabalho que antes não tinham.

A nova lei de quotas vem dar um empurrão. Entrou em vigor em janeiro de 2019 e obriga as empresas públicas e privadas, de média e grande dimensão, a contratar entre 1% a 2% de trabalhadores com incapacidade.

De acordo com o Observatório da Deficiência e dos Direitos Humanos, a legislação é necessária, mas tem de ser complementada com medidas que garantam a sua eficácia, não pode ser um instrumento isolado.

Independentemente das quotas, há empresas e organismos públicos que têm a porta aberta para receber estas pessoas.

Em pleno século XXI, estamos longe de ter uma situação ideal, mas há cada vez mais exemplos de inclusão e superação que merecem ser divulgados.

Fonte: SIC Notícias com vídeo

O triunfo dos ímpares

Há teses que, de forma recorrente, voltam à superfície por falta de melhores pensamentos. Acerca do evidente “mal-estar” ou “mau ambiente” que se vai espalhando por muitas salas de professores, reaparece a desnecessária e inútil teoria sobre uma guerra velhos/novos, em especial quando quase não há “novos” no corpo docente da generalidade das escolas. E porque alguns de meia-idade de hoje já estão mais velhos do que os “velhos” de outros tempos e há velhos que são tantas vezes bem mais jovens do que os mais novos. Há alguns anos levei à minha escola o mestre José Ruy (já na altura com mais de 80 anos) para fazer uma palestra sobre banda desenhada a alunos de 10-11 anos e, acreditem, não há idade limite para a capacidade comunicativa e pedagógica.

Outra tese sobre o evidente alastrar do desconforto entre os docentes, que tem algum fundamento mas que dificilmente se pode considerar como uma novidade, é que a avaliação do desempenho está a contaminar as relações no interior das escolas, agora que o descongelamento começou a revelar de forma mais clara as injustiças do “modelo” em vigor, nomeadamente do efeito perverso das quotas. Mas, como escrevi, desde 2008 se sabe que, mesmo com as sucessivas simplificações e adaptações, é um modelo de avaliação sem verdadeira capacidade para recompensar de forma justa o mérito, ficando muito vulnerável a políticas internas de distribuição de favores quanto às progressões.

Temos, nos tempos mais recentes, as questões relacionadas com a implementação das medidas de combate ao abandono e insucesso escolar e, em particular, da implementação de projectos apresentados como de “inovação pedagógica” e de “flexibilidade”. Estes planos têm produzido nos últimos anos mais uma onda de clivagens nas escolas, tendo testado a capacidade de muitos se adaptarem ao que se afirma como sendo as “pedagogias do século XXI” e os mais resistentes a aceitarem metodologias que, no fundo, se limitam a criar mais uma camada de registo burocrático e de reuniões para validarem práticas há muito conhecidas.

Assim como tem sido problemática a imposição da frequência de formações (para efeitos de progressão ou apenas de inculcação ideológica) que pouco ou nada trazem de novo para além de se apresentarem acções de propaganda política como se tratando de outra coisa. Mesmo em iniciativas de outro âmbito, ouvi nas últimas semanas pelo menos duas prelecções que pareciam decalcadas do mesmo molde que tem feito escola um pouco por todo o país e que só contribuem para azedar os espíritos, ao exigirem sempre mais aos docentes dando em troca umas palmadinhas nas costas ou uns títulos honoríficos para quem aceita replicar esse discurso nas escolas e fazer parte das equipas de “coordenação”. Porque a replicação do discurso oficial da “inovação” e da “diferenciação”, quando sustentada em práticas “clientelares” locais, tem criado divisões perfeitamente desnecessárias, pois em muitos casos apenas temos a opção por fazer marketing do que é rotina há décadas.

Acho que tudo o que fica escrito desajuda ao bem-estar docente, acrescendo ainda os reposicionamentos e ultrapassagens diversas que resultaram da desregulação dos concursos de docentes. Mas o que acaba por envolver todos estes factores que, por si só, seriam insuficientes para o tal “mau ambiente” é um modelo de gestão que deixa a maior parte dos professores excluídos dos processos de decisão, mesmo quando é feita uma encenação de “participação”.

Quando comecei a leccionar tive a sorte de não calhar em escolas “históricas”, em que certos “cadeirões” tinham titulares reservados e em que havia “professor@s” e os “outros”, leia-se, efectivos de velha cepa e contratados em trânsito. Onde mandavam pequenas cliques, mas que podiam ser substituídas, até porque existiam eleições a partir do 25 de Abril de 1974 para os órgãos de gestão e para as chamadas “lideranças intermédias”.

Custa-me perceber que, quando tanto se fala em “inclusão”, se cristalizam novos “cadeirões” e que se voltam a enquistar feudos e coutos pelas escolas, em que alguns decidem por todos e os mecanismos de “trabalho colaborativo” não passam de colocar correias de transmissão em engrenagens de sentido único. Fala-se muito em “cidadania” e de combate aos “populismos”, mas pratica-se muito pouco uma real responsabilização e muito menos a confiança. E quanto aos “cadeirões” há muitos que parecem tronos.

E, isso sim, envenena qualquer ambiente em que uns passaram a ser ímpares porque deixámos de ser pares.

Paulo Guinote

Fonte: Público

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Portaria de rácios vai mudar. Escolas com alunos com deficiência vão ter direito a mais auxiliares

As escolas que tenham alunos com necessidades educativas especiais vão ter direito a ter mais funcionários. Esta é uma das mudanças na portaria de rácios, o diploma que define quantos assistentes operacionais tem cada escola, avançou o Ministério da Educação ao Observador. Mexer na fórmula que define quantos funcionários tem cada estabelecimento de ensino é um pedido antigo dos diretores e que atualmente leva em conta o número de alunos, a existência de pavilhões gimnodesportivos e a oferta educativa, entre outros.

Também a bolsa de recrutamento — que permite substituir funcionários ao fim de 12 dias de ausência sem necessidade de abrir concurso — irá sofrer alterações para melhorar o seu funcionamento, garantiu o ministério ao Observador. Inicialmente, esta bolsa de recrutamento só podia ser usada ao fim de 30 dias de ausência, tendo sido reduzido o prazo para 12 dias. O Ministério da Educação não esclareceu se as alterações passam por diminuir ainda mais o número de dias, tornando a substituição de funcionários mais célere, ou se irá abranger mais situações para além das baixas médicas, licenças de parentalidade, entre outras.

Em dezembro, o ministro da Educação já tinha anunciado que a portaria iria ser alterada, sem adiantar pormenores e, em janeiro, durante a discussão do Orçamento do Estado — onde a medida já estava consagrada — foram aprovadas propostas de alteração do Bloco de Esquerda, PAN e Iniciativa Liberal sobre esta matéria. A novidade que saiu da discussão foi o governo passar a ter um prazo para a revisão da portaria estar pronta: junho de 2020. Com este limite temporal é garantido que quaisquer alterações à lei só irão ter influência no funcionamento das escolas no próximo ano letivo de 2020/21.

O Observador questionou o Ministério da Educação sobre que alterações estão a ser ponderadas e a resposta foi que qualquer alteração terá especial enfoque nos alunos com necessidades educativas especiais. Na fórmula atual, estes estudantes equivalem a 1,5 alunos e o número de estudantes é um dos fatores que determina o número de auxiliares em cada escola. Filinto Lima, presidente da ANDAEP, associação que representa os diretores de escolas públicas, por várias vezes defendeu que o peso destes alunos deveria ser superior.

O que o gabinete de Tiago Brandão Rodrigues não esclareceu é quanto mais vão pesar estes alunos na fórmula de cálculo ou que outras mudanças poderão vir a ser feitas. “A revisão irá considerar a adequação às características dos estabelecimentos escolares e das respetivas comunidades educativas, com especial enfoque nas necessidades de acompanhamento dos alunos abrangidos por medidas no âmbito da Educação Inclusiva”, esclarece o ministério na sua resposta, referindo que esta é uma das marcas do OE 2020 para a área da Educação. (...)

Fonte: Observador

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Estaremos a “erradicar” as pessoas com síndrome de Down?

Quando chega o resultado de um exame pré-natal que confirma que um bebé irá nascer com um cromossoma a mais, "a primeira questão que vem da parte de um médico é 'quando é que é para agendar a interrupção da gravidez?'", diz a fotógrafa Marinka Masséus. Países como a Dinamarca ou a Islândia "gabam-se de 'quotas de erradicação quase perfeitas'". Será que tal significa que, no Ocidente, "não tardará até que não existam mais pessoas com síndrome de Down"? É "trágico", considera a holandesa, autora do projecto Chosen [Not] to Be. Há uma linha ténue que separa aquilo que é considerado, ou não, eugenia?

A fotógrafa nunca tinha conhecido alguém com síndrome de Down, ou trissomia 21, antes de iniciar esta série fotográfica. E percebeu que sabia muito pouco sobre estas pessoas. "Toda a informação que tinha chegou de forma indirecta, periférica, ao longo da minha vida", refere em declarações ao P3. "E se isto era verdade para mim, podia ser para mais pessoas." Por esse motivo, e porque foi convidada a integrar o Radical Beauty Project, juntando-se assim a fotógrafos de todo o mundo que retrataram modelos com síndrome de Down para um futuro livro, Marinka Masséus decidiu debruçar-se sobre o tema. E aquilo que descobriu foi surpreendente. Existe, na sua opinião, uma clara discrepância entre aquilo que a sociedade conhece acerca destas pessoas e as suas verdadeiras capacidades. Foi, também, a necessidade de abordar "as barreiras que essas pessoas encontram, a recusa da sociedade em reconhecer as suas capacidades e a invisibilidade de que são vítimas" que levou a holandesa a desenvolver este projecto.

A discrepância acima descrita "é relevante a muitos níveis", explica. Porque são o estigma e a desinformação — e não a presença do cromossoma — o que mais incomodam as pessoas com síndrome de Down e as suas famílias. "É a forma como são tratadas e as oportunidades escolares e profissionais" que ditam o mal-estar em sociedade, concluiu. "Os pais que conheci falam com ternura acerca dos seus filhos e declaram que os desafios que enfrentam não estão relacionados com síndrome de Down, mas com a resposta da sociedade", explica a fotógrafa. Eles acusam "as escolas de se recusarem a matricular as crianças", acusam "familiares, médicos e pessoas desconhecidas de tecerem comentários negativos" acerca dos seus filhos. "Existem obstáculos constantes que impedem as crianças de cumprirem o seu potencial."

Marinka Masséus é disso testemunha. Quando fotografou Juliette, Margot, Emma, Eveline e Tessel para o projecto, sentiu-se tocada "pelas personalidades vincadas, pela honestidade e dedicação, pela vontade de vencer, pelo profissionalismo e pela capacidade de dar amor na sua forma mais pura". As meninas e mulheres que captou sentem uma necessidade constante de provarem que são aptas, que estão sempre à altura dos desafios que lhes são colocados. Marinka acredita que este é um sentimento transversal entre as pessoas deste grande grupo. "Eles querem que o mundo as veja", refere, porque a sociedade tem tendência a acreditar que todas as pessoas com trissomia 21 partilham os mesmos traços de personalidade e comportamentos. A esse propósito, Marinka Masséus cita uma actriz com síndrome de Down, Sara Gordy: "'Quando conheces uma pessoa com síndrome de Down, é exactamente isso que acontece: conheceste uma pessoa com síndrome de Down. Todos somos indivíduos."

"Deve ser esgotante e frustrante ser constantemente subestimado", comenta a holandesa. As suas retratadas, sublinha, têm vidas muito activas. "A sua expressão criativa é uma parte importante das suas vidas e foi com muito entusiasmo que me contaram episódios das suas actividades — dança, natação, teatro, escrita, cozinha, etc. A maioria vive de forma independente em comunidades de pessoas com síndrome de Down. Têm empregos de que gostam."

Nos Países Baixos, foi recentemente lançado um livro chamado Zwartboek, em que os pais de crianças com síndrome de Down contam as suas experiências. "Esse livro foi oferecido ao governo holandês para ser catalisador de mudança", explica Masséus. "Lê-lo partiu-me o coração. Existe tanta desinformação." A holandesa deixa, em suma, um desafio e uma pergunta: "Em algum momento, vamos ter de começar a questionar-nos acerca de temas difíceis, como diversidade, inclusão, 'perfeição', etc. Afinal, que tipo de sociedade desejamos criar?"

O projecto de Marinka Masséus estará em exposição no festival Circulation(s) - European Young Photography Festival, em Paris, entre 14 de Março e 10 de Maio. Durante as próximas semanas, o P3 apresenta alguns dos projectos que fazem parte da 10.ª edição do festival.

Fonte: Público

O livro, o digital e a diferenciação pedagógica

No passado dia 1 de fevereiro, no Centro de Congressos de Lisboa, decorreu o primeiro Fórum Educação e Mudança (FEM), um encontro que centralizou a análise, o debate e as reflexões em torno das ferramentas tecnológicas e das competências digitais, enquanto fatores de mudança para uma educação de melhor qualidade.

Perante uma plateia de professores, diretores de escolas, autarcas, vereadores, associações de pais, empresários, técnicos municipais, entre outros, o senhor secretário de Estado da Educação, João Costa, encerrou o evento, com um discurso que reconheço bem mais moderado quanto à mudança e ao ritmo a que a mesma deve ocorrer nas escolas.

Dei comigo a pensar que talvez tenha verificado que a sede de mudança rápida leva a que tudo fique na mesma. O sucesso das políticas educativas depende da capacidade de envolver e de mobilizar os seus agentes, que não estão na 5 de Outubro, mas na sala de aula. Está o ministério a revelar bons indicadores de desempenho a este nível? A julgar pela falta de vocações que grassa no país, o envelhecimento da classe docente, os pedidos de reforma antecipada, as manifestações, as greves, o desânimo, a itinerância e a vida em suspenso de milhares de professores todos os anos, as agressões físicas e verbais, os bloqueios à entrada na carreira... a resposta parece clara. Os discursos são bonitos, inflamados e recolhem aplausos, mas, como eu costumo ensinar aos meus alunos, há que atentar nas diferenças entre o que é dito e o que realmente é feito, bem como na validade e na fundamentação dos argumentos aventados para sustentar uma determinada linha de ação.

E é aqui que se percebe que a desmaterialização dos manuais escolares tem feito emergir argumentos vazios e infundados, como o senhor secretário de Estado dizer que a diferenciação pedagógica não é compatível com o manual escolar mas com os recursos digitais.

E por que razões este argumento não faz sentido? Primeiro, porque a diferenciação pedagógica nada tem a ver com o tipo de suporte dos recursos, mas com as estratégias didáticas definidas pelos professores em função dos seus alunos. Segundo, porque revela um total desconhecimento do que é um livro escolar, enquanto projeto pedagógico que abre ao professor um manancial diversificado de caminhos metodológicos para o trabalho com os seus alunos, contribuindo para otimizar as suas opções. Os livros escolares são concebidos e criados por professores e não é por acaso que tal sucede. Se na minha sala de aula tenho necessidade de atender às especificidades dos meus alunos, obviamente que essa experiência é uma mais-valia aquando da criação de materiais pedagógicos. Por isso é que a criação de um projeto pedagógico é um trabalho demorado e complexo. Há muito que se abandonou a premissa “one fits all” e a aposta do livro escolar é na variedade:
  1. Diferentes tipos de fontes de informação para análise – mapas, documentos escritos, gráficos, pinturas, fotografias, caricaturas, textos literários, notícias, ilustrações;
  2. Questões de exploração das fontes variadas e com diferentes graus de complexidade, pois há alunos que precisam de atividades mais simples para sentirem que são capazes e, a partir daí, avançarem na conquista de outros patamares de dificuldade, assim como há aqueles que podem logo ser direcionados para as questões mais complexas;
  3. Diferentes propostas de trabalho, que promovem a pesquisa, a cooperação entre pares e de grupos de trabalho, a construção de recursos, a imaginação, o role-play, o pensamento crítico, a comunicação;
  4. Fichas de trabalho prático com exercícios que desenvolvem diferentes competências;
  5. Atividades de interdisciplinaridade e metacognição, que podem ser o arranque para um projeto no âmbito dos Domínios de Autonomia Curricular;
  6. Recursos digitais em contexto, a que professores e alunos podem aceder e explorar.
Para além de tudo isto, os livros escolares agregam um conjunto de materiais suplementares para o professor usar com os alunos com necessidades adicionais de suporte, sobretudo quando há falta de técnicos especializados para que se faça a escola inclusiva, bem como materiais para alunos com maior facilidade de aprendizagem e que precisam de desafios constantes para se manterem ativos e motivados. Tudo isto existe, em suporte papel e no suporte digital. Por conseguinte, a diabolização de um e o endeusamento do outro não fazem qualquer sentido, quando se percebe que é da sua articulação e complementaridade que se consegue o melhor.

Felizmente, os professores sabem isso e não vale a pena dizer-se que as tecnologias é que são o arauto da pedagogia diferenciada. De uma forma natural, e na medida do exequível, a diferenciação pedagógica faz-se, já que se impôs como resposta à massificação da escola e ao propósito de levar todos os alunos à aquisição e ao desenvolvimento de uma base comum de conhecimentos e de competências. Diferenciar não é individualizar. É ter em consideração o indivíduo, mas com o objetivo de o acompanhar no contexto de um coletivo, porque há um “direito à diferença”, mas também há um “direito à semelhança” (Meirieu, 2012), sendo as duas faces do que todos pretendemos, a inclusão e o sucesso dos alunos.

Os resultados que temos alcançado no PISA e noutros barómetros são um sinal de que a escola trabalha bem, os professores, apesar de todos os obstáculos, trabalham bem. Será que se pode fazer melhor? Claro que sim, desde que haja da parte dos decisores um planeamento estratégico e um maior investimento nos recursos humanos e nos recursos materiais, de forma a promover a equidade e a diminuir as assimetrias sociais, que se espelham na escola. Urge recentrar os discursos e os atos no valor acrescentado dos professores, uma espécie em vias de extinção mas que faz toda a diferença.

Elisabete Jesus

Fonte: Público