quinta-feira, 7 de março de 2019

APSA cria rede de empresas que integram pessoas com Síndrome de Asperger

A Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger (APSA) realizou no dia 28 de fevereiro, pelas 17h, um evento que visou consolidar a parceria com as empresas, através da criação de uma rede de empresas recetivas, assinalando o momento com a inauguração de um painel produzido com o nome de cada uma.

Empresa Recetiva é uma marca registada da APSA que engloba todas aquelas que integram ou integraram os Jovens/Adultos com esta Síndrome.

O evento contou com a presença da Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes, bem como de representantes do INR e do IEFP, e das empresas recetivas: Accenture, Câmara Municipal de Oeiras, Ciência Viva, Hípica de Oeiras, Hospital da Luz, Fujitsu, Jerónimo Martins, Junta de Freguesia de Benfica, Quinta d'Avó, Recolte, REN - Redes Energéticas Nacionais, Santander, Sigmetum e a Sonae Sierra. Estas empresas proporcionam, ou já proporcionaram, experiências em contexto de trabalho a cerca de 35 jovens/adultos com Síndrome de Asperger e que frequentam o Programa Empregabilidade da Casa Grande em Lisboa.

Fonte: INR

quarta-feira, 6 de março de 2019

Concurso de educadores de infância e de professores dos ensinos básico e secundário para o ano escolar de 2019-2020

Foi publicado o Aviso n.º 3570-A/2019, de 6 de fevereiro, sobre o concurso de educadores de infância e de professores dos ensinos básico e secundário para o ano escolar de 2019-2020, nos termos do previsto e regulado pelo Decreto-Lei n.º 132/2012, de 27 de junho, na última redação que lhe foi conferida pelo Decreto-Lei n.º 28/2017, de 15 de março, com a alteração prevista no artigo 315.º da Lei n.º 114/2017, de 29 de dezembro.

Declara-se, assim, aberto o concurso externo destinado a educadores de infância e a professores dos ensinos básico e secundário, com vista ao preenchimento de vagas existentes nos quadros de zona pedagógica do Ministério da Educação e os concursos de mobilidade interna, de contratação inicial e de reserva de recrutamento, para suprimento das necessidades temporárias, estruturadas em horários, completos ou incompletos.

O prazo para apresentação da candidatura é de sete dias úteis, tendo início no 1.º dia útil após a publicação do presente aviso.

As aplicações informáticas destinadas aos candidatos, referentes a cada fase concursal, encerram às 18.00 horas de Portugal continental do último dia do prazo fixado para o efeito.

A habilitação profissional para a Educação Especial é conferida por uma qualificação profissional para a docência acrescida de uma formação especializada acreditada pelo Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua nas áreas e domínios constantes na Portaria n.º 212/2009, de 23 de fevereiro, ou de um dos cursos identificados na mesma portaria.

O tempo de serviço dos candidatos à Educação Especial é contado nos termos do n.º 4 do artigo 11.º do Decreto-Lei n.º 132/2012, de 27 de junho, na redação em vigor.

“A primeira ideia errada é dizer que hoje a Finlândia está a fazer o que é certo na Educação”

É especialista em quase tudo o que importa em Educação, como o currículo e a avaliação. Sobre o resto, como a aprendizagem ou a formação de professores, poderá não ser especialista, mas é uma voz sempre ouvida quando fala no seu país de origem, o Reino Unido. Tim Oates é professor em Cambridge, num departamento onde não se ensina: o Cambridge Assessment é a maior agência dedicada à pesquisa sobre avaliação na Europa. É ali que o britânico se encontra desde 2006 e é por isso mesmo que não há estudo internacional, como o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), o TIMMS (que avalia o desempenho a matemática e ciências) ou o PIRLS (que avalia a literacia) que não lhe tenha passado pelas mãos — ou porque para eles contribuiu, ou porque os estudou a fundo.

Pela mão de Michael Gove, ministro da Educação entre 2010 e 2014, quando o Partido Conservador de David Cameron se encontrava no poder, foi-lhe pedido que revisse o currículo nacional britânico. Assim o fez e a equipa liderada por Oates foi responsável pelas alterações de fundo feitas em 2011 ao currículo e à própria estrutura dos ciclos de ensino.

Por ter esse conhecimento de fundo dos estudos internacionais, é crítico daquilo a que chama o conto de fadas finlandês. O problema, conta, é que, quando a Finlândia chegou ao topo do PISA, em 2000, todo o mundo olhou para o país, mas para a linha temporal errada. Foi o trabalho desenvolvido nos anos 1960, 70 e 80 que conseguiu tornar os estudantes nórdicos nos melhores da Europa. Mas é para 2000, quando o sistema educativo já estava em declínio, e para os erros da Finlândia que todos têm andado a olhar. “Absolutamente errado”, diz, com um irrepreensível sotaque britânico.

Tim Oates passou por Lisboa no final de janeiro para participar numa conferência no Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade (ISEG) com economistas da educação e, no seguimento desse debate, deu uma entrevista telefónica ao Observador.

Sobre Portugal também tem algumas ideias: aplaude a iniciativa de tentar que exista uma escola sem retenção (o projeto piloto de inovação pedagógico), acredita que a flexibilidade curricular tem riscos e defende que devemos aprender com os sistemas educativos que têm alto desempenho: coerência curricular, bons professores e bons materiais educativos nas salas de aula, certificados pelos governos.

Há vários anos que analisa os resultados do PISA e de outros relatórios internacionais. Chegou a alguma conclusão que o tenha surpreendido de forma particular?
Há algumas coisas que, embora não nos tenham surpreendido a nós, investigadores, de certeza que surpreenderam outras pessoas. Uma das mais importantes foi sobre a Finlândia. Toda a gente se interessou sobre o caso da Finlândia quando o país chegou ao topo do PISA, em 2000. E, na altura, nós ficámos preocupados com isso. E sabe porquê? Porque conhecíamos a história da Finlândia, sabíamos o que tinha sido feito para chegar àquele ponto do sistema educativo. Mas a verdade é que, de 2000 para cá, os resultados finlandeses nas diferentes provas internacionais têm estado a cair e de forma significativa.
A Finlândia tem hoje um problema de género, há uma diferença grande entre rapazes e raparigas, e a nova abordagem educativa — que toda a gente diz ser tão boa — está a levar ao aumento da diferença entre crianças de níveis socioeconómicos diferentes, segundo investigadores da Universidade de Helsínquia. Portanto, hoje, a Finlândia tem um problema de género e um problema social.

E esse problema começou em 2000?
Não. Em 2000, as crianças que conseguiram os bons resultados no PISA tinham 15 anos. Ou seja, é preciso olhar para trás. E mesmo nessa altura, apesar dos bons resultados, já o sistema tinha problemas. Se olharmos para a trajetória de melhoria entre os estudantes finlandeses, ela acontece entre 1960 e 1990.

Então o que está a dizer é que, no caso da Finlândia, temos estado a olhar para a linha temporal errada quando procuramos soluções mágicas?
Absolutamente. É completamente errado olhar para o sistema educativo dos anos 2000. Quando olhamos para o que a Finlândia fez na década de 1960, 70 e 80, percebemos que era completamente diferente do que estava a fazer em 2000. O que se estava a passar com o sistema educativo nesse início de milénio, e até já no final dos anos 1990, está diretamente ligado ao declínio finlandês a que estamos agora a começar a assistir. Mas é para o ano 2000 que toda a gente olha quando vai à procura da história de fadas finlandesa. É um erro absolutamente terrível.

Isso quer dizer que, na sua opinião, temos todos andado a olhar para o pior e não para o melhor do sistema educativo finlandês?
Sim, claro. Isto não é apenas o meu ponto de vista. É também o ponto de vista de um investigador chamado Gabriel Heller Sahlgren, que escreveu um livro ótimo intitulado “Real finnish lessons” (tradução livre: “As verdadeiras lições finlandesas”). E é também o ponto de vista de muitos historiadores de educação dentro da própria Finlândia. Não sou só eu que o digo.

Se nos focarmos na linha temporal certa, como defende, qual é, então, a grande diferença entre o que se passava na Finlândia na década de 1970 e nos anos 2000?
Sabemos algumas coisas pelo trabalho de Bill Schmidt e é aqui que os grandes inquéritos internacionais como o TIMMS, o PIRLS e o PISA, em que ele trabalhou, são valiosos. E Bill Schmidt diz-nos que a coerência de currículo é extremamente importante [William Schmidt é um estatístico e professor norte-americano na Universidade de Michigan que investiga os currículos das escolas e as desigualdades sociais entre alunos]. O material que se usa na sala de aula, como os manuais escolares, a avaliação, o currículo, a experiência e os métodos usados pelo professor, tem de ser todo coerente. Tudo tem de se alinhar. Não se deve puxar professores em direções diferentes. E hoje sabemos que esta é uma característica dos sistemas educativos com alto desempenho. Quando o Bill deu uma palestra aqui em Cambridge, enfatizou três coisas como sendo as que verdadeiramente influenciam os sistemas de alto desempenho: o rigor — ser claro sobre aquilo que queremos que os alunos aprendam —, o foco e a coerência. É isto que todos os sistemas com boas performances têm em comum. Rigor significa que há bons padrões de ensino e que as crianças são avaliadas para termos a certeza de que os alcançaram.
No seu artigo de 2002, um dos melhores trabalhos que já foi feito sobre o que os bons sistemas possuem, ele aponta para o currículo coerente. E era isso que o sistema finlandês possuía nos anos 1980 e 90: tinha excelentes manuais escolares, tinha professores bem treinados e um currículo coerente.

O que é que se passa agora na Finlândia para o sistema educativo estar a falhar?
Na altura, as escolas não eram muito autónomas, havia um currículo nacional e o Estado garantia que os manuais escolares eram consistentes. Tanto eu como o Bill acreditamos que isso foi muito importante durante esses anos. Se falar com qualquer educador finlandês, vai ouvir a mesma resposta: as forças do sistema finlandês são a formação dos professores e recursos escolares de alta qualidade. Entretanto, as escolas finlandesas tornaram-se mais autónomas, embora não tanto quanto as pessoas pensam, até porque continua a haver muita avaliação interna, e houve algumas mudanças na sociedade. Alguns dos problemas que aconteceram na Finlândia não foram percebidos por quem estava a olhar de fora: a partir de 2000, fecharam algumas pequenas escolas rurais e houve muita competição entre escolas. Isto gerou tensão nas zonas urbanas e uma grande variação de qualidade entre escolas e dentro delas, o que levou a estes problemas estruturais.

E acha que hoje temos um sistema educativo em declínio na Finlândia?
Sim. Não estou a atacar o sistema finlandês, estou só a tentar que a imagem seja muito clara.

Quando fala do conto de fadas finlandês, diz que temos muitas ideias erradas sobre o que lá se passa. Quais são as principais?
A primeira ideia errada que temos é a de que o que se está a fazer agora é certo. Não fazemos ideia se o que a Finlândia está a fazer agora é correto. Não sabemos se vai travar o declínio. O que sabemos é que o sistema educativo está, de facto, em declínio e é preciso fazer alguma coisa. Francamente, eu faria o que eles fizeram no passado e não o que estão a fazer agora. Sabemos que o que a Finlândia fez no passado funcionou. E o que fizeram no passado é o que Xangai e Singapura fazem agora. E esses países continuam a melhorar.

Quando falamos de desempenho a Matemática, os países asiáticos aparecem sempre em lugares cimeiros. No entanto, nunca levantaram o mesmo zumbido que a Finlândia. A que se deve esta diferença? Questões culturais?
Se alguém aparece no topo do PISA, como aconteceu com a Finlândia em 2000, toda a gente vai olhar para esse país. Em Inglaterra, olhamos para Singapura e para Xangai. Temos usado os resultados do PISA para identificar a natureza do alto desempenho em Xangai e imediatamente demos início a um processo de troca de professores. Os de Xangai vêm a Inglaterra e aprendemos com eles. Os nossos vão até lá e nós aprendemos com isso. Também passámos em revista os manuais escolares de Xangai e de Singapura e introduzimos novos manuais em Inglaterra.

E essa aprendizagem com os sistemas de Xangai e de Singapura está a funcionar? 
Sim. Houve uma avaliação recente e ela é muito clara: mostra que a intervenção não está a funcionar em todas as escolas, mas não funciona nas escolas que não estão a fazê-lo como deviam. Nas escolas que estão a implementar as novas abordagens com fidelidade, os padrões estão a elevar-se e de forma significativa.

Então o que podemos aprender com os métodos asiáticos?
Podemos aprender muito, apesar de haver variações culturais entre Portugal e Xangai ou entre Inglaterra e Hong Kong. Claro que há diferenças culturais. A atitude dos pais é diferente, a história de como as crianças se comportam na escola é diferente. Mas quando se olha para a pedagogia, para a forma como as perguntas são feitas na sala de aula, a forma como é despendido muito mais tempo em determinadas ideias para ter certeza que todas as crianças as percebem, a forma com as tarefas são cuidadosamente estruturadas e muito focadas na ideia matemática concreta, a maneira como as tarefas vão variando e como os livros de fichas são usados para encorajar as crianças a pensar a matemática fora da sala de aulas… Tudo isso pode ser usado em Portugal ou em Inglaterra. E sabemos que esse tipo de abordagem ajuda todas as crianças a melhorarem as suas capacidades matemáticas.

Acha que as escolas estão a falhar ao não garantirem que todas as crianças aprendem?
O que sabemos sobre Xangai é que o sistema é muito dirigido aos professores, mas é da melhor forma que pode ser: é muito interativo, os professores fazem muitas perguntas a todas as crianças em todas as aulas. Se uma criança em particular, num grupo de 30, não tiver percebido o que devia naquela lição, o professor vai saber disso e vai dar apoio imediato àquela criança. Existirá uma intervenção direta e vão ser criadas atividades adicionais para que ela nunca fique para trás. Devíamos estar a fazer isso em todos os países e em todas as lições, todas as aulas, seja na matemática ou na língua materna. É uma questão de treino de professores. A avaliação bem pensada também tem de fazer parte do processo de aprendizagem.

Está na altura de mudarmos a forma como avaliamos os alunos? Estamos apenas a focar-nos nas notas?
Devíamos usar muito mais avaliação no dia a dia, não para dar notas aos alunos, mas para perceber se eles perceberam as ideias e dominaram o conhecimento.

Está a falar de avaliação diária na sala de aula?
Sim. Boas perguntas que estimulem o conhecimento, que estimulem a aprendizagem, que estimulem o raciocínio e que permitam perceber se uma criança entendeu aquela matéria.

O que é uma boa pergunta?
Se pegarmos em algo como ciência: eu tenho um copo de água, há um cubo de gelo na água, irá o nível da água levantar se o cubo derreter completamente? Esta é uma ótima pergunta. Em matemática, deve variar-se os problemas. Se o objetivo é perceber se o aluno sabe dividir algo em metade e depois num quarto, é preciso apresentar-lhe essa ideia numa variedade de formas. Faz-se a pergunta sobre diferentes formas geométricas, sobre diferentes objetos, faz-se com volume, com área, com números… Só assim se desenvolve um verdadeiro entendimento matemático. Isso é o que as perguntas devem ser.

Com boas perguntas, as crianças estão ao mesmo tempo a aprender a raciocinar e não apenas a memorizar?
Sim. Mas repare: nós também queremos que elas memorizem e que se lembrem das coisas. Na Estónia, onde se diz que existe um currículo baseado em competências, é esperado que as crianças memorizem as tabelas da multiplicação, tal como em Xangai, e elas memorizam-nas antes ainda de as entenderem. Porque é necessário tê-las memorizadas para fazer trabalho que ajuda a perceber a multiplicação.

O anterior diretor do IAVE, a instituição que cria e avalia os exames e provas nacionais, defendeu, numa entrevista (...), que dois alunos com a mesma avaliação numérica não aprenderam exatamente a mesma coisa. Concorda?
Sim, claro. Sempre que se resume o conhecimento de uma criança numa nota, seja em que sistema de educação for, estamos a perder informação. E essa afirmação está certa. Pessoas que têm exatamente a mesma nota, na maioria dos sistemas de avaliação, podem chegar a essa nota fazendo coisas completamente diferentes. De qualquer forma, não é desse tipo de avaliação que estou a falar. Estou a falar do tipo de avaliação usada para garantir que todas as crianças percebem todas as ideias chave. Só assim iremos conseguir melhores resultados e maior equidade.

Em Portugal está a decorrer um projeto piloto onde algumas escolas estão a tentar que não haja retenção dos alunos. A alternativa a chumbar é aprender. O que acha deste tipo de experiência?
Em Xangai, as crianças não são colocadas em grupos diferentes consoante as suas aprendizagens e origem. E atingem resultados maravilhosos quando se tenta garantir que todas as crianças aprendem, seja qual for a sua origem social. Este tipo de experiência em Portugal deveria ser apoiada, parece-me bastante positiva. Mas tem de se ter certeza de que estamos a falar de alta conquista e alta equidade na educação e conhecimento, e não um a sacrificar-se em prol do outro.

Outra das novidades em Portugal foi a flexibilidade curricular, que, depois do projeto piloto, foi generalizada a todas as escolas do país no atual ano letivo. As escolas ganham alguma autonomia na forma como gerem o currículo e os métodos de ensino. Na sua opinião, esta opção tem riscos?
Essa foi uma recomendação feita há uns anos, de que as escolas deveriam ter uma liberdade de 25% nos currículos. Apesar disso, acho que há alguns riscos. E um dos riscos é a interpretação que fazemos dela, porque precisamos de ter um currículo principal, o de core, onde está a matemática, as ciências, a literacia, e temos de nos assegurar que o resto do currículo, em áreas como história, geografia, é dado a todas as crianças. Se introduzirmos alguma liberdade nas escolas, temos de garantir que esse quota do conhecimento principal não se perde. Todas as crianças devem ter acesso a ele. Mas, voltando atrás… Posso falar um bocadinho sobre retenção?

Claro que sim. 
A investigação sobre retenção é muito variada e eu sei que, obviamente, em Portugal, há níveis de retenção muito elevados, sei que subiu quando o governo anterior introduziu os testes formais, e depois, imediatamente a seguir, caiu. Isso foi uma coisa boa. O que fez é que obrigou o sistema inteiro a ajustar-se a padrões mais altos e mostra que o sistema português é capaz de se ajustar a padrões elevados para todas as crianças. Mas um dos aspetos-chave é que Portugal tem de olhar para as suas estatísticas sobre retenção, para examinar quem está a ficar retido e porquê.

Não há grandes dúvidas. O padrão é sempre o mesmo e atinge essencialmente as crianças de classes sociais mais baixas.
Exato. Para além disso, aquelas que começaram a escola obrigatória muito cedo também são mais vulneráveis à retenção. Por isso, penso que em Portugal precisam de examinar o padrão da retenção e estudar que estratégias e intervenções podem ser usadas para travá-la. Acho que isso poderia melhorar a qualidade de educação para todas as crianças.

Tem alguns conselhos para o Governo português nesta matéria?
Não, até haver investigação feita sobre o tipo de criança que está a ficar retida. O que aconteceu com o último governo mostra-nos que podem realmente elevar os padrões para todas as crianças.

Também tivemos uma boa evolução no PISA. A que se deveu, na sua opinião?
Acho que a introdução das provas nacionais levantou as expectativas dos professores e esses testes mais formais permitiram aos professores saber que crianças percebiam e não percebiam a matéria. Isso foi importante. A introdução de bons manuais escolares também foi importante e sei que foi dada alguma atenção à qualidade do material pelo anterior governo. Há evidências internacionais que mostram que isso foi muito importante.

Os manuais escolares são fundamentais para termos bons resultados?
Sim. A qualidade dos professores, a qualidade dos materiais, a coerência entre o currículo e os materiais usados na sala de aula e a prática educativa. Portugal deu passos muito bons.

Ainda há coisas que Portugal esteja a fazer mal ou em que possa melhorar na Educação?
Enfatizava estas coisas: relaxar o currículo nacional e relaxar a avaliação nunca são boas ideias.

No Reino Unido, depois das mudanças operadas no currículo nacional, os críticos diziam que ele se tinha tornado muito limitado. Aqui, os professores queixam-se de que o currículo é um monstro. Não há um equilíbrio entre os dois? 
Sim, existe um lugar a meio caminho. A sobrecarga do currículo deve ser evitada porque isso significa que as escolas, e os professores individualmente, têm de fazer as suas próprias escolhas sobre o que é importante. Nós já sabemos que isso abre diferenças entre escolas e dentro das próprias escolas. A sobrecarga de currículo é um problema real e deve ser evitada. Em segundo lugar, há críticos em Inglaterra que dizem que limitamos demais o currículo. Mas precisávamos de fazê-lo. O que estava a acontecer era termos crianças a passar para o equivalente ao vosso 2.º ciclo sem serem capazes de ler. Quando nos focámos na importância de ler, a nossa posição internacional melhorou de forma dramática. Num período de tempo muito curto, passámos de 12.º para 8.º no PIRLS. Foi muito bom. O que eu digo é: não há nada tão limitado como não ser capaz de ler. Podemos ler sobre o céu, a ciência ou sobre os nossos amigos. Se não souberes ler… isso é limitador. Foi correto limitarmos o currículo para ter certeza de que todas as crianças sabiam ler.

Acha então que é melhor escolher um currículo com menos matéria, mas maior profundidade?
Absolutamente. E é isso que encontramos em Xangai e Singapura: menos matéria, mas mais aprofundada, as crianças a precisarem de mais tempo para aprender, os professores a saberem qual é o foco do currículo e a garantirem que todas as crianças sabem tudo.

Na sua opinião, qual é o currículo essencial que nenhuma criança deve falhar?
Nos primeiros anos, é essencial saber ler e escrever, porque não é uma coisa natural. É importante ter discussões ricas em todas as matérias para desenvolver a oralidade e a habilidade para trabalhar com outras crianças. É essencial saber conceitos científicos fundamentais, que são importantes para perceber outros conceitos de história ou de geografia, por exemplo. Literacia, matemática, ciência e, claro, cultura. Literatura, história e geografia, educação física. As crianças têm de ser ativas pela sua saúde, a atual e a futura. Devem saber organizar-se e trabalhar de forma colaborativa com os outros. Sabemos que as boas escolas têm isso presente em tudo o que as crianças fazem.

Ter esse currículo bem fundamentado desde cedo faz diferença no percurso académico futuro dos jovens?
As pessoas, hoje em dia, fazem muito esta distinção entre conhecimento e competências. É uma falsa distinção. E porque algumas pessoas enfatizaram a parte das competências, negligenciaram o conhecimento. O que sabemos define-nos. Sabemos isso quando as pessoas começam a perder a memória — nesse momento, deixam de ser eles próprios. Tu és o que tu sabes. E o conhecimento é fundamental para o desempenho. Toda esta discussão entre uma coisa e outra é absurda.

Ou seja, sem conhecimento não conseguimos adquirir as competências?
Precisamente. O conhecimento é essencial. E se nos lembramos das coisas, se temos a matéria na nossa memória de longa duração, então conseguimos desempenhar tarefas complexas.

Olhando para o outro verso da moeda: há lições a aprender com os países que se saem mal nos estudos internacionais? 
Há muitas variações nos motivos que levam diferentes sistemas a passarem por problemas, mas todos tendem a ter algumas coisas em comum: pouca coerência, falta de currículo nacional, incoerência entre o currículo e os materiais escolares, professores mal formados e com pouca qualidade e salas de aulas com muitos, muitos alunos. Quando o número de alunos por sala se eleva, torna-se problemático. Há muitos estudos que nos mostram que nos países em desenvolvimento, que agora conseguem que as crianças vão à escola — e, há 10 anos, nem isso conseguiam —, o que acontece na sala de aulas simplesmente não tem qualidade. E é por isso que as crianças não estão a fazer progressos nos anos iniciais.

Fonte: Observador

terça-feira, 5 de março de 2019

Candidaturas PO ISE | Qualificação de Pessoas com Deficiência e / ou incapacidade

As candidaturas PO ISE - Programa Operacional Inclusão Social e Emprego, encontram-se abertas até as 18:00 horas do dia 28 de março de 2019.
Nos termos do artigo 152.º do Regulamento Específico do PO ISE, constituem objetivos da presente tipologia de operações:
a) Promover ações que possibilitem a aquisição e o desenvolvimento de competências profissionais, tendo em vista potenciar a empregabilidade das pessoas com deficiência e / ou incapacidade, orientadas para o exercício de uma atividade no mercado de trabalho;
b) Dotar as pessoas com deficiência e incapacidade dos conhecimentos e competências necessárias à obtenção de uma qualificação, que lhes permita exercer uma atividade profissional no mercado de trabalho, manter o emprego e progredir profissionalmente de forma sustentada.
Fonte: INR

segunda-feira, 4 de março de 2019

São Brás quer ter Espaço Terapêutico para a Intervenção Infantil

A Câmara de São Brás de Alportel e a Administração Regional de Saúde (ARS)do Algarve ponderam criar, em parceria, um Espaço Terapêutico para a Intervenção Infantil no Centro de Saúde deste concelho.

A ideia é criar uma nova valência que permita «apoiar as crianças do concelho que carecem de serviços de intervenção precoce, nomeadamente ao nível da terapia da e da terapia ocupacional ou com necessidade de acompanhamento ao nível da saúde mental», segundo a autarquia.

Esta nova resposta na área das terapias infantis viria «complementar o trabalho já desenvolvido e abriria portas a novos serviços».

A possibilidade de criação deste espaço Terapêutico foi analisada durante uma visita de Paulo Morgado, presidente da ARS Algarve, às obras em curso no Centro de Saúde de São Brás, que resultam, também elas, de uma parceria entre a autarquia e a ARS e nas quais a Câmara investiu 25 mil euros.

«Para breve, aguarda-se o início das obras de preparação do novo gabinete de saúde oral do Centro de Saúde, com financiamento já assegurado pelo município, em resultado do Protocolo de Saúde Oral firmado no final do ano de 2018, entre o município, a ARS Algarve e o Ministério da Saúde», acrescentou a Câmara de São Brás de Alportel.

Fonte: Sul Informação por indicação de Livresco

domingo, 3 de março de 2019

Hiperatividade e défice de atenção: adultos com a cabeça a mil

Podem ser impulsivos, impacientes, esquecidos, sentirem dificuldade em gerir tarefas. Já na infância, Natacha, Ana Lúcia e André davam sinais de estarem sempre na lua, mas o diagnóstico de hiperatividade e défice de atenção só chegou bem mais tarde.

Certo dia, Natacha Amourous perdeu o telemóvel em casa e quando deu por falta do equipamento começou a procurar, com a ajuda dos filhos, Catarina e Martim, e do marido, Rui Miguel. Estava no frigorífico e não sabe explicar o aparecimento em tão improvável sítio.

Todavia, o diagnóstico que esta mulher de 46 anos, de São Domingos de Rana, recebeu há seis anos de um neurologista dá a resposta, aliás, baseada numa suspeita antiga: integra os 2,5 a 3% da população adulta com perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA), que é mais frequente na infância, afetando entre 5 a 7% crianças em idade escolar, segundo estudos epidemiológicos internacionais.

“A PHDA é uma perturbação neuropsiquiátrica, pois manifesta-se com sintomas cognitivos, emocionais e comportamentais. É originada por alterações do funcionamento do cérebro, que ocorrem durante o desenvolvimento do sistema nervoso”, explica Joaquim Cerejeira, diretor clínico da Unidade Psiquiátrica Privada de Coimbra e professor auxiliar de Psiquiatria da Universidade da Beira Interior.

Já na meninice Natacha “andava com a cabeça a mil” e resistia às regras. “Se a professora perguntava o resultado de 2×2, respondia 5 de propósito, só para contrariar”, confessa. À mãe, Francelina Pina Marques, foi recomendado levar a filha mais velha de três a um psicólogo. Assim foi, fez exames e “não acusou nada de especial”.

Em adulta teve vários empregos e abriu um infantário, que encerrou há sete anos para se dedicar aos filhos, Martim de 13 anos e Catarina de 11. “O Martim também é hiperativo e exige cuidados especiais”, diz Natacha, que no dia-a-dia exclui “tarefas que exijam muito esforço” e admite ser desarrumada preferindo “aproveitar os dias e deixar para amanhã o que pode fazer hoje”.

Mariana Rigueiro Neves é psicóloga clínica, pertence ao Núcleo do Défice de Atenção e Hiperatividade, Perturbações do Comportamento e Humor do PIN – Progresso Infantil, em Lisboa, e atesta que o diagnóstico de PHDA pode ser difícil de concretizar nos adultos. “Por vezes encontramos outras perturbações mentais instaladas, que podem dificultar a identificação. Se precisarmos aceder a informação válida sobre a infância e adolescência pode ser outro problema, uma vez que para muitos desses adultos é difícil ter memórias realistas e alguns não têm já a quem recorrer para as validar.”

Subdiagnosticada nos adultos, porque até há pouco tempo era considerada exclusiva das crianças, a PHDA é uma única perturbação que tem dois domínios principais: défice de atenção e hiperatividade motora e impulsividade. “Tipicamente a intensidade dos sintomas diminui com a idade, embora de forma diferenciada. A hiperatividade motora reduz enquanto o défice de atenção tende a persistir”, sustenta Joaquim Cerejeira, garantindo que começa sempre na infância. Por norma, a perturbação é diagnosticada ao surgirem alterações comportamentais em idade escolar. Contudo, em alguns casos, os sintomas mais graves apenas aparecem na vida adulta.

Quando em 2002 André Carvalho deixou Mangualde, onde nasceu há 34 anos, para estudar Engenharia Eletrotécnica na Universidade de Coimbra, estava longe de imaginar que hoje ainda não teria o curso concluído.

“A minha vida mudou em 2010/2011, depois de ter começado a trabalhar com o Dr. José Boavida, um pediatra de Coimbra que me diagnosticou PHDA. Coincidiu com uma altura em que pensei deixar de estudar, mas, como nesse ano fiz muitas disciplinas, continuei a insistir e a tomar decisões impulsivas”, conta André, que ao assistir a um simpósio, em 2013, percebeu que tinha de fazer escolhas. Um ano depois entrou no MBA e, em 2015, criou uma empresa de consultadoria.

Ana Lúcia Ventura, de 48 anos, vive em Condeixa-a-Nova e é auxiliar de idosos de profissão. Filha de emigrantes portugueses em França, por lá nasceu e refere ter tido um percurso escolar normal, embora andasse “sempre na lua”. Lembra que “era um inferno” quando a professora a “mandava ao quadro” e ficava sentada no fundo da sala para não dar nas vistas.

Aos 25 anos veio para Portugal e constatou que “era diferente na maneira de ser, parecia que estava fora da caixa”. Contudo, a suspeita de PHDA só veio com o diagnóstico de Duarte, atualmente com 17 anos. Esta mãe recorda que o filho entrou no jardim-de-infância aos três anos, pouco depois de nascer a irmã, Lúcia.

“Na escola primária tinha uma escrita horrível e o professor dizia que era muito calado e que estava sempre na lua, mas como entrou para a escola ainda com cinco anos pensei que tinha dificuldade na adaptação”, recorda. Mais tarde, levou Duarte a uma consulta de psicologia para fazer testes, tendo sido diagnosticada PHDA e disgrafia. Ana Lúcia lembra que um dia o primogénito mencionou as parecenças entre ambos, recuou no tempo e encontrou várias, como “o medo de ir à escola porque havia matérias que não gostava e as atividades que começava e nunca acabava”.

De acordo com Mariana Rigueiro Neves, os comportamentos visíveis de PHDA nos adultos tornam a vida mais difícil a nível profissional, pessoal, académico e social. Podem ser sinais indicadores “a dificuldade mais abrangente em planear, organizar e cumprir as tarefas no dia-a-dia, a distração fácil, muitos esquecimentos, dificuldade em gerir o tempo e em cumprir prazos”, enumera, acrescentando que as pessoas “podem sentir-se inquietas, ter dificuldade em esperar pela vez, interromper os outros constantemente e agir impulsivamente sem pensar nas consequências”.

Porque acredita na causa e quer ajudar pessoas com PHDA, André é voluntário na Sociedade Portuguesa de Défice de Atenção (SPDA). “O meu sintoma mais prevalente é o défice de atenção, mas também sou impulsivo. Fazia imensas compras pela Internet de mochilas que não precisava, de livros que nunca acabava de ler e de muitas outras coisas que não faziam falta nenhuma”, desabafa. Assegura que agora consegue obter maior concentração e controlar os impulsos, graças à medicação.

Ana Lúcia Ventura aprendeu igualmente a lidar com a PHDA. “Ando sempre com relógio, caneta e bloco de notas. É assim que consigo superar a falta de concentração e ter a agenda sempre em dia.”

Natacha Amourous, que já pensou comprar um caderno para lá apontar tudo, encontra no crochê uma forma de relaxar. “É uma das raras tarefas a que me dedico com paciência”, sublinha com uma calma que não deixa adivinhar que está “com a cabeça a mil”.

Empresário português com paralisia cerebral cria jogo para a Playstation

Bruno Osório tem paralisia cerebral, desloca-se numa cadeira de rodas e, na adolescência, uma frase de José Mourinho mudou-lhe a vida, sendo hoje, com 30 anos, gestor de duas startup, numa das quais desenvolve um videojogo para a Playstation.

Aos 30 anos, o jovem empresário diz "não ter tempo" para lamentos e valoriza "cada segundo" da sua existência, materializando uma instrução paternal que lhe garantiu que "poderia ser aquilo que quisesse".

Em entrevista (...), no Porto, falou de uma adolescência "com muitas incertezas" até que um dia, aos 14 anos, ouviu José Mourinho, na sua apresentação como treinador do FC Porto, a afirmar: "tenho a certeza que no próximo ano nós vamos ser campeões nacionais".

"Comecei então a pensar: se ele chega aqui e está a prometer com tanta certeza que vai conseguir uma coisa que ainda está para acontecer, então também consigo", descreveu, explicando depois que passou a "estruturar o pensamento" de "eu não consigo" para o "eu vou conseguir".

Mudado o "paradigma mental", Bruno Osório passou a ver o seu mundo com outros olhos, interpretando que a "cadeira de rodas não seria um facto que retirava coisas, mas que poderia acrescentar algo". A questão era "perceber como o seria capaz de fazer", precisou.

Numa entrevista intervalada com muitos sorrisos, fruto de quem se sente muito bem com a vida, o jovem empresário avançou até à faculdade onde se formou em engenharia informática, cimentando um percurso onde se viu a criar as "próprias empresas".

Hoje detém duas empresas, a Foxtech, criada em 2016, e "focada em tecnologia", e a Adamastor Studio, criada em 2018, de "produção de videojogos e conteúdos digitais", dando "emprego a 12 colaboradores".

O videojogo que está a desenvolver para a plataforma de jogos Playstation, o VRock, de "ritmos musicais", comprou-o a um amigo, após perceber que aquele entretenimento "tem muitas variantes" e também "muito público para explorar".

Seguiu-se o acordo com a PlayStation, que "fechou um negócio de exclusividade" com Bruno Osório "a troco de 100 mil euros em campanhas de publicidade", sendo que a consola da Sony vai ser a única a vender o videojogo.

"Está a ser feito praticamente de novo, quis dar-lhe o meu cunho pessoal", disse de um negócio que considera ter sido "um marco", porque o projetado "está a ser conseguido" e foi acrescido de "um contrato de investimento de um grupo de business angels (investidores)".

Projetando para o primeiro semestre de 2019 a conclusão do videojogo, são muito maiores os objetivos que tem por realizar, assumindo querer ser "um dos ícones do empreendedorismo português", ao mesmo tempo que garante que "vai ser a bandeira de que tudo é possível executar independentemente das limitações".

Também atleta de alto rendimento de boccia, Bruno Osório representa a Associação do Porto de Paralisia Cerebral (APPC), instituição com quem diz ter "uma relação umbilical" e aponta à participação nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, em 2020.

"Tudo o que projetei aos 14 anos ou está cumprido ou estou na carreira para o cumprir e a vertente empresarial é uma delas. Não tenho tempo nem paciência [para lamentar]. Não faz parte do meu ADN. Gosto de ser como sou e de ser quem sou", anotou. Para Bruno Osório "é preciso que as pessoas com deficiência queiram assumir um percurso, uma maneira de estar na vida".

"Tudo aquilo que possamos fazer para melhorar a nossa condição deve ser feito, mas deve partir do nosso íntimo. Em Portugal as pessoas devem sair de casa, devem-se mostrar, não devem ter medo de mostrar quem são e pensar que a deficiência, em vez de fechar abre muitas portas", sustentou.

O empresário sonha no "prazo de três a cinco anos vender as duas empresas" que detém para tornar-se "investidor", "viver uma temporada nos Estados Unidos", e a nível pessoal "constituir família" a par da missão de "através da política dar mais voz ao cidadão com deficiência".

Fonte: Público por indicação de Livresco

sábado, 2 de março de 2019

Que Inclusão queremos?

O grande desígnio aglutinador da retórica deste governo na Educação, mais do que a “flexibilidade” ou até o “sucesso”, centra-se num conceito peculiar de “inclusão”. A “flexibilidade” é, neste contexto, uma ferramenta para a “Inclusão”, a qual se torna o factor central da métrica do “sucesso”. Gostaria de deixar claro que a “inclusão” é um fim nobre, meritório em si mesmo e que nada me move contra tal desígnio. O que me deixa preocupado são os meios que têm sido mobilizados, como se tal fim justificasse de tudo um pouco, ao ponto de a “inclusão” ser feita com procedimentos e mecanismos que acabam por produzir fenómenos de exclusão. 

Por definição, qualquer conceito racional e razoável de “inclusão” deve orientar-se pelo princípio de procurar incluir todos e não apenas alguns, ou subordinando todos a uma das suas partes, em especial quando estamos a falar de uma Escola Pública universal e obrigatória. Até porque incluir “todos” não pode significar incluir “tudo”. 

Sim, claro, há a quem por preconceito social, forma de estar na vida ou por opção cultural, o ideal e a prática de uma Escola Pública para todos cause aversão. Posso discordar, após quase cinco décadas enquanto aluno, professor e encarregado de educação na Escola Pública, mas tenho de aceitar esse tipo de atitude, em especial se não vier acoplada com um pedido de cheque-ensino.

Só que, como ia escrevendo acima, a Escola Pública para “todos” não deve, nem pode, aceitar “tudo”, nomeadamente ao nível dos procedimentos e imposições de modelos únicos, da gestão à pedagogia, assentes de forma paradoxal numa lógica relativista quanto ao valor do Conhecimento. Há uma enorme diferença entre a “plasticidade” e a amplitude de soluções e propostas a acolher na Escola Pública, para que exista lugar para todos, e a aceitação de um relativismo cultural e ético como padrão de comportamento em nome de “boas intenções” ou de concepções ultrapassadas de um “século XXI” em que há muito vivemos. Porque isso acaba por provocar uma inevitável “repulsão” em quem encara a Escola Pública como referencial para a formação das “novas gerações” e não apenas como um albergue onde tudo vale o mesmo.

Passo a exemplificar um pouco do que não pode ser justificado com qualquer conceito de “inclusão” por mais pergaminhos que exibam os seus promotores, só faltando mesmo citarem a Magna Carta.

A “inclusão” e a “tolerância” não podem, desde logo, pactuar ou condescender com comportamentos que transformem os espaços escolares e as salas de aula espaços inseguros para alunos e docentes, seja do ponto de vista físico, seja moral. A relativização ou contextualização de comportamentos que agora se dizem “disruptivos” não pode atingir níveis que de tanto compreenderem os agressores, esqueçam as vítimas.

A necessária renovação curricular não pode passar por práticas de desvalorização do capital cultural ou conhecimento científico em favor de “saberes fazer” de duvidosa vantagem num presente que já é de híper-especialização e em que a flexibilidade apenas parece ser uma vantagem para quem vive da precarização da mão-de-obra. O novo lumpen terciarizado é intermutável mas um neurocirurgião nunca poderá ser trocado por um engenheiro informático.

A pedagogia para ser “autónoma” e “flexível” não pode ser de sentido único. Não pode enquistar-se nas crenças, quase ao nível da Fé que implica a aceitação sem crítica, deste ou aquele nicho académico ou grupo de interesses. Muito menos a profissionalidade dos docentes deve ser desqualificada, desvalorizando os seus saberes ou burocratizando de tal forma o seu exercício que se torna mais importante representar o acto pedagógico do que a sua efectiva prática.

Paulo Guinote

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Fonte: Educare

Seis meses de vigência do decreto-lei n.º 54/2018

Estamos com 6 meses de vigência do decreto-lei 54/2018 nas nossas escolas. Foram seis meses extremamente intensos e a primeira conclusão a tirar – ainda antes de qualquer outra – é que este não é um tema que deixe as escolas, os professores, os encarregados de educação indiferentes. Esta legislação originou um intenso e riquíssimo debate sobre onde estamos e para onde queremos ir em termos do reforço de uma Educação Inclusiva. 

Existe uma enorme ânsia de conhecer de forma holística e fundamentada qual o impacto que esta legislação teve nas nossas escolas. E aqui levanta-se uma primeira questão: será que estes 6 meses são suficientes para fazer uma avaliação objetiva e credível sobre esta matéria? Lembramos que vários partidos políticos apresentaram já propostas para a modificação do texto legal. Reafirmamos aqui a posição da Pró-Inclusão (que pode ser consultada no nosso site) considerando que uma alteração do texto legal feita a meio do ano letivo seria extemporânea e facilmente nos poderia conduzir a erros na avaliação. Por várias razões: antes de mais porque alterar o objeto de avaliação podia ferir a objetividade da avaliação porque não se saberia que esta avaliação era sobre a lei que saiu ou sobre as modificações que, entretanto, lhe foram feitas. 

Outra questão que se levanta é o quão dependente esta avaliação está de fatores alheios à legislação, isto é, do próprio “objeto” avaliado. E aqui encontramos uma enorme diversidade de situações que espelham formas muito diferentes – e por vezes quase antagónicas – como esta legislação foi recebida e implementada nas escolas. Darei dois exemplos: existem escolas em que as equipas multidisciplinares fizeram as avaliações dos alunos ainda antes de dezembro de 2018; outras há que estão ainda em processo de avaliação. Há dias (segunda quinzena de fevereiro) disseram-me que há escolas cujas EMAEI estão ainda a “trabalhar nos documentos”. Um outro exemplo é o das escolas que integraram a lei de forma tão afirmativa que fazem formação para outras escolas que se dizem “perdidas” e “confusas”. Estes exemplos mostram-nos que a semente da legislação caiu – usando a parábola bíblica - em terras muito diferentes. 

Um terceiro e último aspeto é o que se prende com a acalmia depois da tempestade. Depois de se terem confrontado com uma legislação que não esperavam, as escolas estão a procurar implementar medidas que efetivamente possam considerar que é a escola no seu todo que se deve mobilizar para educar todos os seus alunos. Dificuldades? Claro que as há. Muitas vezes temos ouvido que os recursos são mais escassos do que seria desejável, que a formação de professores deveria ser mais intensa, que se esbarra em atitudes que são ainda do tempo da “Educação Especial”. 

A nossa associação está atenta a todos estes movimentos e anseios. Iremos em breve divulgar um inquérito às condições de implementação do “54”. Esperamos uma entusiástica adesão. 

E não se esqueçam que 4, 5 e 6 de julho teremos no Porto o nosso Congresso Internacional. Até lá vamos persistindo na ideia que nos juntou. A ideia é:” até poderia haver uma escola que não fosse inclusiva mas… não seria a mesma coisa…”. 

David Rodrigues 

Presidente da Pró-Inclusão

Fonte: Editorial da Newsletter n.º 121_fev2019 da Pró-Inclusão

sexta-feira, 1 de março de 2019

Candidaturas ao Programa Nacional de Desporto para Todos

As candidaturas ao Programa Nacional de Desporto para Todos (PNDpT) estão abertas até 15 de março.
Podem candidatar-se as entidades públicas ou privadas, sem fins lucrativos, que tenham no seu objeto o desenvolvimento da prática desportiva. O PNDpT apoia a promoção das atividades físicas e desportivas desenvolvida por federações desportivas, clubes, associações, coletividades, entre outras organizações que apoiem o desporto de base em Portugal.
O objetivo deste Programa é tornar a população portuguesa mais ativa, com estilos de vida mais saudáveis e com melhor qualidade de vida.
Trata-se duma medida, de âmbito estrutural, que visa apoiar programas desportivos que promovam a generalização da prática desportiva, de âmbito informal, recreativa ou competitiva (não federada), entendida como uma atividade determinante na formação e desenvolvimento integral dos cidadãos e da sociedade em geral.
Fonte: INR