quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A perversão da liberdade

O debate em torno das funções do Estado na sociedade está há algum tempo inquinado e enviesado, pois uma fação aguerridamente militante optou de forma consciente por não querer ter em atenção qualquer argumentação contrária e por levar a sua agenda adiante, sejam quais forem as consequências, mesmo que se lhe sejam apontados erros de conceção, de metodologia ou se apresentem exemplos concretos do falhanço de experiências semelhantes. Foi assim que se passou a submeter uma lógica relacionada com a defesa do interesse público (noção que até pode ser menos fluida e relativa do que alguns pretendem), que funcionava como referencial para o avanço do progresso em aspetos decisivos da vida social, económica e política, da maioria da população, a uma outra lógica, construída a partir de interesses de fação, destinada a servir esses mesmos interesses, alegadamente por obedecer a princípios mais eficazes de gestão financeira e defender uma alegada “liberdade” dos cidadãos para escolherem o que acham melhor para si.

Esta retórica demagógica baseia-se em pressupostos falsos, defende práticas de governação que desvirtuam qualquer noção de interesse público e, mais grave, limitam dramaticamente a liberdade de todos aqueles cidadãos que, num modelo competição e vitória dos mais fortes, se encontram numa situação de maior vulnerabilidade. O que antes era um ideal que polarizava a ação dos poderes públicos – do Estado, se preferirmos essa formulação – tornou-se, no discurso de uma fação que equivocamente se afirma como “liberal”, um alegado obstáculo ao progresso da sociedade. O principal argumento adiantado é que um papel interventivo do Estado na sociedade, no sentido de fazer progredir os direitos laborais e sociais dos cidadãos e de facultar serviços públicos, numa lógica de universalidade e livre acesso, é algo que não tem racionalidade económica. O princípio usado para dar legitimidade teórica a esta posição, é que essa intervenção do Estado limita a “liberdade de escolha” dos cidadãos.

As áreas da intervenção pública em que a investida se fez sentir com maior intensidade na última década foram a Saúde e a Educação, com ataques sucessivos à existência de um sistema de saúde e uma rede pública de ensino, de acesso gratuito e universal. Esses ataques visaram aqueles que ao longo dos últimos séculos foram os maiores pilares da ação do Estado em defesa dos direitos de cidadania das populações, assegurando-lhes o acesso a serviços (públicos) que de outra forma a lógica privada do lucro nunca lhes garantiria.

No caso da Educação, esta fação decidiu identificar a defesa de uma rede de ensino pública universal, alargada a todo o território, com a defesa de interesses “corporativos” dos professores como se esse sistema não tivesse surgido, desde o século XIX, exatamente como uma das formas mais eficazes do Estado “liberal” (e burguês) assegurar a inclusão das populações, na sua pluralidade regional, cultural ou social, numa lógica “nacional” de integração, coesão e solidariedade.

Nas sociedades liberais ocidentais, um sistema universal de ensino surgiu como imperativo necessário para a coesão social e nacional, tanto quando foi criado a partir das comunidades locais, como quando se disseminou a partir de iniciativa do poder político central. Em qualquer dos casos, a lógica foi sempre a da universalidade do acesso e da gratuitidade do serviço. As escolas “públicas” não nasceram por pressão “corporativa” dos professores mas como condição necessária para o progresso da sociedade no seu todo. Assim como os hospitais e centros de saúde públicos não são uma criação “corporativa” de enfermeiros e médicos.

Mas mais grave do que ignorar a origem e lógica da existência de um serviço público de qualidade na Educação é considerar que ele limita a “liberdade” dos cidadãos. Muito pelo contrário, só a sua existência permite essa mesma “liberdade”. Sem uma rede pública de escolas com uma lógica nacional e de coesão e coerência territorial, sem cedências a particularismos locais ou a interesses de grupos de pressão, com acesso gratuito e universal, não existe “liberdade” para todos aqueles que não têm meios para ir em busca, algures, de serviços privados que praticam a seletividade no acesso, seja através de mecanismos exclusivos do ponto de vista religioso ou cultural, seja através de patamares de exigência financeira.

Fechar escolas do 1º ciclo aos milhares pelo interior do país ou concentrar a gestão das escolas de todos os ciclos de escolaridade em cada vez menos unidade com projetos distintos, é um ataque objetivo à pluralidade de respostas da rede pública de ensino e uma limitação do acesso dos cidadãos a um serviço público de qualidade e proximidade.

Se este modelo é caro?

Tudo depende do que entendamos ser o interesse de todos nós, enquanto sociedade, por oposição aos interesses particulares de grupos que defendem a “liberdade” numa lógica de a perverter por completo, pois a torna acessível apenas a uma minoria de privilegiados. E depende ainda das prioridades estabelecidas para a aplicação dos dinheiros públicos.

Que “liberdade” existe para quem deixa de ter uma escola do 1º ciclo na sua freguesia e que, em muitos casos, precisa de deslocar os seus filhos dezenas de quilómetros para frequentar uma escola integrada numa “unidade orgânica” de gestão que apaga qualquer possibilidade de diferenciação pedagógica? Que “liberdade” existe num país que, em nome do combate ao centralismo, promove centralidades locais e regionais que potenciam o total despovoamento do seu interior rural?

É “livre” a família que é obrigada a mudar de residência para conseguir ter um médico ou uma escola para os seus filhos? É “livre” quem não tem alternativas e sabe que a lógica da “racionalidade financeira” leva ao agravamento das clivagens sociais e económicas?

Ser “livre” é ter condições para escolher, com informação adequada e alternativas para colocar em prática a liberdade.

Não é isso que se pretende ao eliminarem-se serviços públicos universais e gratuitos ou ao limitar-se dramaticamente a sua capacidade de responder às necessidades da maioria dos cidadãos.

Paulo Guinote

Professor, autor do blogue A Educação do meu Umbigo

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

CGTP acusa Governo de "ofensiva sem precedentes" contra professores

O secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, acusou esta quarta-feira o Governo de promover "uma ofensiva sem precedentes" contra os professores e a qualidade do ensino, com políticas que "põem em causa o futuro" do país.

Arménio Carlos responsabilizou o executivo de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas por "uma política que visa a descredibilização do ensino público e virar a opinião pública contra os seus profissionais". (...)

"Os próximos tempos são de desafio e de protesto, mas também são de proposta", disse, advertindo que a confederação e os seus sindicatos "estão sintonizados com a opção" da Constituição da República "em relação às funções sociais do Estado" e mobilizam-se em defesa da escola pública, do Serviço Nacional de Saúde e de "uma Segurança Social universal e solidária".

Admitindo que "o momento é difícil", Arménio Carlos sublinhou, no entanto, que "não é impossível" aos trabalhadores da Administração Pública e do setor privado organizarem-se e defenderem os seus direitos.

In: CM por indicação de Livresco

Ensino privado perdeu 92 mil alunos em cinco anos

O Diário de Notícias conta que entre 2009 e 2013, os colégios privados ficaram sem 92.257 alunos, o que representa uma quebra de 30%.
Por ano, a média de fecho ronda os 30 a 40 colégios, tendo afetado sobretudo pequenas escolas em Cascais e no Porto.
A Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular explica que o fim do programa Novas Oportunidades levou vários colégios à falência. O ensino recorrente mostra-se, por isso, como o mais afetado.

Notícia baseada no Negócios online por indicação de Livresco

EPIS promove 4.ª edição de bolsas sociais

A iniciativa começou há quatro anos. As bolsas sociais EPIS têm premiado os estabelecimentos de ensino mais empenhados na promoção da inclusão social de jovens em risco de insucesso ou de abandono. Para o ano letivo de 2014/2015 o programa alcançou um recorde de donativos de entidades privadas. Dos mecenas fazem parte bancos, seguradoras, empresas e fundações privadas. 
Assim, contam-se 16 bolsas monetárias de 400 euros a ser distribuídas ao longo de três anos. Vão premiar instituições socias com projetos de apoio a jovens carenciados ou em risco de abandono escolar. Mas também escolas do ensino secundário e profissional que se destaquem pelas boas práticas de inclusão. Apesar de estas candidaturas serem apresentadas em nome da instituição ou do estabelecimento de ensino, “as bolsas atribuídas deverão ser canalizadas para os alunos, num processo descentralizado e autónomo, da responsabilidade do diretor da instituição, com supervisão final da EPIS”, lê-se no regulamento da iniciativa.
Numa outra categoria, a EPIS vai atribuir duas bolsas de mérito, também no valor de 800 euros cada e duração de três anos, a alunos que tenham terminado o 12.º ano com sucesso e continuem os seus estudos no ensino superior. Em parceria com a associação Paredes Pela Inclusão Social, uma outra bolsa, de 400 euros e duração de três anos, vai premiar um aluno deste concelho que tenha concluído o 9.º ano com sucesso em 2013/2014 e esteja a frequentar o 10.º ano de escolaridade no presente ano letivo. Na mesma linha, existem ainda duas bolsas de 400 euros para apoiar durante três anos dois alunos de origem africana, que tenham participado no programa da EPIS “Mediadores para o sucesso escolar”. 
As candidaturas às bolsas devem ser formalizadas pela instituição, escola ou pelo aluno. Para isso é preciso preencher todos os campos da ficha de candidatura que está nas últimas páginas do regulamento disponível para descarregamento em formato PDF através do site da EPIS [http://www.epis.pt]. Depois é preciso enviar a candidatura por correio postal registado para Associação EPIS, Avenida Visconde Valmor, 66, 6.º, 1050-242 Lisboa. 

Mas atenção, no envelope da candidatura não podem constar quaisquer outros documentos, apenas a ficha. Exceto no caso da candidatura ao prémio a atribuir a alunos africanos onde é exigido o comprovativo da respetiva nacionalidade. O envio dever ser feito pelo correio com aviso de receção até à data limite de 12 de setembro de 2014. A mesma data serve como prazo para enviar a nota de confirmação do envio postal para o correio eletrónico bolsasepis2014@epis.pt.

A avaliar as candidaturas estará um júri constituído por membros da Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares e representantes da EPIS, de onde se destacam José Manuel Canavarro, presidente do conselho científico da EPIS entre 2006 e 2013, e Diogo Simões Pereira, atual diretor-geral. Durante o processo de avaliação, os membros do júri poderão visitar as escolas ou convocar as suas direções para uma discussão presencial na sede da associação de empresários. 

Uma vez decididos os premiados não há possibilidade de recurso. Os critérios que ditam a seleção dos alunos têm em conta o mérito académico, através da média final das notas obtidas após os exames nacionais, e as características socioeconómicas do agregado familiar. Aos candidatos aos prémios atribuídos pelo concelho de Paredes, aos alunos africanos e aos do ensino superior será pedida uma carta de recomendação do diretor da escola ou de turma argumentando sobre o seu potencial académico. A missiva não pode ultrapassar os mil caracteres. Dependendo da bolsa a que se candidatam os alunos, poderão ter de escrever um ensaio sobre quais as suas ambições ou vocações. 

Fundada em 2006 por um grupo de empresários e gestores, a EPIS tem como objetivo combater a exclusão social e promover o sucesso escolar. Além da atribuição de bolsas de mérito, a associação é responsável pela realização de vários estudos e inquéritos nacionais na área do ensino. Recentemente, publicou o “Atlas da Educação” que faz um retrato estatístico detalhado do potencial de sucesso e insucesso nas escolas portuguesas.

In: Educare por indicação de Livresco

terça-feira, 2 de setembro de 2014

MEC prepara lançamento da disciplina de Inglês no 1.º ciclo para 2015

Pelo menos duas horas de Inglês por semana destinadas a todos os alunos a partir do 3.º ano do 1.º ciclo que, no 4.º ano, serão avaliados de forma quantitativa, numa escala de 1 a 5 valores, tal como já acontece a Matemática e Português. Esta é, no essencial, a proposta do Ministério da Educação e Ciência (MEC) para o ano letivo 2015/2016, que agrada à Federação Nacional de Educação (FNE), mas preocupa a Federação Nacional de Professores (Fenprof) que, antes de mais, gostaria de ver debatidas as vantagens e desvantagens do fim do regime de monodocência no 1.º ciclo.

De acordo com a proposta apresentada nesta terça-feira aos sindicatos, poderão vir a integrar o novo grupo de recrutamento de professores para lecionarem a disciplina docentes titulares do grau de mestre em Ensino de Inglês no Ensino Básico que, no âmbito dessa formação, tenham prática de ensino supervisionada de Inglês no 1.º ciclo do ensino básico; e ainda professores do 1.º ciclo e docentes de Inglês do 2.º do 3.º ciclos e do secundário "que detenham ou venham a obter formação certificada no domínio do ensino daquela língua e nível de ensino". (...)

Começar as aulas cedo não é bom para a saúde dos adolescentes

Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer? Os pediatras americanos defendem que, no caso dos adolescentes, a máxima não é exequível e mais vale ajustar os horários das escolas. É contra a natureza dos miúdos deitarem-se muito cedo e é também por isso que a maioria não dorme o tempo que devia.

A mensagem surge numa orientação emitida pela Academia Americana de Pediatria a semana passada. Recomenda que os jovens sejam sensibilizados para a necessidade de dormir, mas também que se ajustem os horários, para as aulas não começarem antes das 8h30. Parece tratar-se de uma medida eficaz para combater a epidemia de privação do sono que dizem ter-se tornado um problema de saúde pública.

Segundo a orientação, durante a puberdade o relógio biológico altera-se e o sono começa a chegar até duas horas mais tarde, o que significa que para a maioria será difícil deitarem-se antes das 23h.

Nos Estados Unidos, 40% das escolas começam as aulas antes das 8h, daí o alerta reforçado dos pediatras, que vêem nestes factores biológicos uma das razões de a maioria dos adolescentes não fazerem as 8,5 a 9,5 horas de sono recomendadas. Dão exemplos de escolas que adiaram o início das aulas com bons resultados. No caso de 18 mil alunos do secundário de Minneapolis, atrasar a entrada das 7h15 para as 8h40 traduziu-se em média em mais uma hora de sono. Já comparando as noites de 9 mil alunos do Colorado, do Wyoming e do Minnesota, concluiu-se que, entre os que entravam às 8h55, 66% dormiam mais de oito horas. Algo só conseguido por 33% dos que entravam às 7h30. (...)

Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção em Adultos

Na idade escolar muitas crianças são referidas por pais ou professores, como tendo comportamentos de hiperatividade e/ou de défice de atenção que prejudicam o rendimento escolar, a interação social com colegas e professores e a vida familiar. Algumas dessas crianças cumprem critérios de diagnóstico de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA).

Nestes casos, a introdução de terapêutica ajustada e a utilização de estratégias comportamentais específicas levam, com frequência, a melhorias importantes, traduzidas na recuperação do rendimento académico e num melhor ajustamento social. O que acontece a essas crianças e adolescentes quando atingem a idade adulta? A realização de estudos epidemiológicos em populações de adultos e o acompanhamento de crianças com PHDA através da vida adulta apontam claramente para o facto de a PHDA não desaparecer a partir de certa idade. Até 70% das crianças diagnosticadas, continuam a ter sintomas ao longo de toda a vida, justificando uma intervenção médica e/ou psicológica. Sabendo que cerca de 5% das crianças em idade escolar têm PHDA, a prevalência estimada nos adultos andará perto dos 3%. Aqui se incluem os adultos que tendo sido crianças com PHDA não foram, no seu tempo, diagnosticados.

A PHDA é caracterizada por um conjunto de sinais e sintomas de desatenção, impulsividade e agitação motora claramente exagerados atendendo à idade e à circunstância social. Sendo que se manifesta desde a infância, o diagnóstico não pode ser feito tendo somente em consideração os comportamentos e as queixas actuais mas toda a história de vida da pessoa. A forma como a PHDA se apresenta nos adultos é necessariamente diferente da forma como se manifesta nas crianças. O crescimento, a vivência e, consequentemente, o “amadurecimento” da personalidade, contribuem para que algumas das manifestações mais exuberantes, como a extrema irrequietude ou agitação, sejam raras no adulto. A dificuldade em manter a atenção focada, alternando com situações de atenção exagerada e desadequada, a dificuldade em organizar as tarefas e as atividades, com tendência para se “arrastar nas coisas”, o falar demasiado interrompendo ou antecipando os outros, o tamborilar constante de dedos, a dificuldade em manter-se sossegado ou o mexer-se constantemente na cadeira são, entre outros, sinais comuns nas pessoas com PHDA.

As mudanças de humor, as práticas de risco, o insucesso académico, a mudança repetida de emprego, as mudanças de objetivos, os projetos que se iniciam com entusiasmo e se largam de seguida, o desencontro dos ritmos de sono e vigília, a dificuldade em estabelecer prioridades e em gerir o tempo, são sinais que surgem também associados à PHDA.

No caso de suspeita deverá ser consultado um médico ou psicólogo com experiência nesta perturbação. Só eles poderão fazer o diagnóstico.

É importante diagnosticar e tratar a PHDA. O tratamento adequado não só diminui os sintomas da perturbação, como restitui à pessoa a possibilidade de usar as capacidades que realmente tem.

Carlos Nunes Filipe

Psiquiatra. Professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa onde é regente da Disciplina de Fundamentos de Neurociências; Diretor Científico do CADIn (Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil) em Cascais

Professores desempregados e escolas com horários vazios

Cerca de seis mil docentes inscreveram-se ontem nos centros de emprego, onde criticaram o atraso do ministério e dizem sentir-se "humilhados". Nas escolas, diretores desesperam com milhares de horários por preencher.

Milhares de professores ficaram ontem desempregados, o que os levou em massa aos centros de emprego. Enquanto isso, nas escolas, os diretores esperam que as colocações de contratados não se atrasem muito e que estes estejam nas salas de aula a 15 de setembro - o último dia para o arranque das aulas. Do lado do Ministério da Educação e Ciência (MEC) continua o mistério em relação à data em que estas colocações serão reveladas.

In: DN por indicação de Livresco

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Ahhh… a sexualidade das pessoas com deficiência…

Sempre me intrigou o exacerbado interesse que existe sobre a sexualidade das pessoas com deficiência (PCD). Digo exacerbado e explico porquê. Recentemente numa inquirição sobre quais os temas de formação permanente que eram preferidos por educadoras de infância (surgiu o “inevitável “ tema da “sexualidade e deficiência”). Este interesse é obviamente legítimo e racional e vou tentar explicar porque é que o é, na minha perspetiva, é claro.

O ponto de partida é que se deve passar algo de estranho com a sexualidade das Pessoas com Deficiência (PCD). A sua sexualidade é vista como um problema e até algo de patológico. Se o ponto de partida é este, os resultados só podem ser ainda piores. Se é um problema o melhor é não falar nisso. Existem investigações que recolheram opiniões de pais de PCD que dizem que não falam de sexualidade aos seus filhos para evitar que esse assunto ainda se agrave. A ideia é que tratar o assunto como se as PCD fossem assexuadas: o problema não existe. Mas, como sabemos ele existe e não adianta varrê-lo para debaixo do tapete. 

São conhecidas as dificuldades que as PCD têm de desenvolver uma sexualidade saudável e feliz. Descreveria três delas:

a) Antes de mais a diminuição de contatos sociais. As PCD têm por norma uma rede de contatos sociais muito mais restrita do que as pessoas sem deficiência. Este aspeto tem várias consequências: antes de mais reduz as oportunidades de informação. Na verdade, muita da informação que qualquer pessoa dispõe sobre sexualidade é transmitida entre pares, quer dizer que muita desta informação é transmitida e discutida em situações de interação e contactos interpessoais. Ora as PCD tendo redes sociais e de interação menos alargadas acabam por ter menos informação.

b) Para além da informação que é veiculada pelos contatos interpessoais, sabe-se que as PCD têm menos informação proveniente de outras fontes (família, professores, etc.) do que as pessoas sem deficiência. E doaremos um exemplo: em Portugal a educação sexual está regulamentada pelo dec-lei 60/2009 que indica que a educação sexual no meio escolar deve ser abrangente de todos os alunos. Mas os alunos que frequentam uma unidade (de multideficiência ou de ensino estruturado) têm um acesso mais restrito às salas de aula “regulares” onde é dada esta informação. Este é só um exemplo em que se verifica que há menos informação disponível.

c) A sexualidade das PCD é frequentemente entendida de uma forma “infantil”, isto é como sendo algo que apesar de real não poderá ser assumido plena e responsavelmente. A infantilização é uma forma de recusar que as PCD têm uma sexualidade e que não existe nada de especial nisso. Se se fizer regredir a sexualidade ao bebé, não se passa nada de especial…

O tema é extraordinariamente complexo e lato mas deixaria algumas sugestões de linhas de pensamento e de atuação:

1. A PCD tem uma sexualidade que tem de ser encarada e claramente assumida. Ignorar, desvalorizar, “desviar o assunto”, não é só uma inconsciência mas constitui também um atentado ao direito da pessoas levar uma vida com felicidade e qualidade.

2. A Inclusão continua a ser a grande alavanca. É através da inclusão que se podem potenciar as redes sociais que por sua vez favorecem o debate, a informação e a formulação das questões como sendo reais e suscetíveis de uma solução.

3. Precisamos de mais informação/formação para as famílias, para os professores, para os agentes comunitários e para as próprias pessoas com deficiência. Este trabalho com as pessoas que educam, ensinam e cuidam das crianças e jovens é essencial porque frequentemente a forma como estas pessoas vivem a sua própria sexualidade (os seus medos, tabus e fantasias) tornam-se “leis” que são transmitidas de forma inquestionável. Esta informação e formação é decisiva para que não se pense que o que temos que ensinar está dependente da racionalização das nossas próprias vivências saber a nossa sexualidade. 

Antes, como agora, é necessária mais ação para assegurar os direitos à sexualidade das PCD. E isso começa na escola.

David Rodrigues

Presidente da Pró-Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial e professor universitário

In: Revista Plural & Singular, p. 54.

Reposição do regime especial de aposentação para educadores de infância e professores do 1.º ciclo do ensino básico do ensino público

A Lei n.º 71/2014, de 1 de setembro, repõe o regime especial de aposentação para educadores de infância e professores do 1.º ciclo do ensino básico do ensino público em regime de monodocência que concluíram o curso do Magistério Primário e da Educação de Infância em 1975 e 1976.