sexta-feira, 29 de maio de 2026

Intervenção linguística em idade pré-escolar: Efeitos na linguagem e leitura quatro anos depois


Introdução

As intervenções linguísticas na infância apresentam um elevado potencial para melhorar a vida das crianças, gerando simultaneamente benefícios económicos e sociais para a sociedade (Heckman et al., 2013). A linguagem constitui um alvo central da intervenção precoce, uma vez que se trata de uma capacidade fundamental não só para o brincar e a interacção social, mas também, numa fase posterior, para o desenvolvimento da leitura e para o sucesso académico. As intervenções precoces na linguagem incidem geralmente sobre um conjunto alargado de habilidades, incluindo o vocabulário, a gramática e a narrativa (Rogde et al., 2019). Diversos estudos mostraram que estas habilidades podem ser significativamente melhoradas a curto prazo (e.g., Donolato et al., 2023; Rogde et al., 2019). Contudo, subsistem dúvidas quanto à manutenção desses efeitos a longo prazo e quanto às razões pelas quais as melhorias podem diminuir ou desaparecer ao longo do tempo (Bailey et al., 2017). Um dos principais argumentos a favor da possibilidade da persistência dos ganhos das intervenções linguísticas precoces prende-se com a plasticidade cerebral (e.g., Fox et al., 2010). Neste sentido, a estimulação precoce através de actividades educativas estruturadas poderá contribuir para a construção de uma base sólida para a aprendizagem da linguagem, potenciando o desenvolvimento de habilidades subsequentes.

Estudo de Hagen e colaboradores (2025)

O objectivo deste estudo foi avaliar se os efeitos de uma intervenção linguística realizada no pré-escolar se mantêm a longo prazo, especificamente até ao 4.º ano de escolaridade.

Foram colocadas as seguintes questões de investigação:
  1. Quais os efeitos a longo prazo da intervenção linguística em idade pré-escolar na linguagem expressiva, medida no 1.º e 4.º anos de escolaridade? Estes efeitos são moderados pelo sexo e/ou pelas diferenças nas habilidades linguísticas iniciais?
  2. Quais os efeitos da intervenção linguística em idade pré-escolar na compreensão da leitura no 4.º ano de escolaridade?
Participantes

Numa primeira fase, 860 crianças norueguesas, com idades entre os 4 e 5 anos, inscritas no ensino pré-escolar, foram avaliadas nas habilidades de vocabulário expressivo e de vocabulário receptivo. O vocabulário expressivo foi avaliado pelo subteste de Nomeação de Figuras da Escala de Inteligência de Wechsler — a terceira edição do Wechsler Preschool and Primary Scale of Intelligence. Já o vocabulário receptivo foi avaliado com base na Escala Britânica de Vocabulário por Imagens — a segunda edição do British Picture Vocabulary Scale. Foram seleccionadas para participar no estudo as crianças cujos resultados se encontravam abaixo do percentil 35 (N=301), por apresentarem capacidades linguísticas relativamente baixas, mas não clinicamente comprometidas. As crianças seleccionadas foram aleatoriamente distribuídas por dois grupos:
  • Grupo de intervenção: Programa de compreensão da linguagem (n=157);
  • Grupo de controlo: Ensino habitual (n=144).
Intervenção

As crianças do grupo de intervenção participaram num programa linguístico de 30 semanas (três sessões por semana, num total de 90 sessões), implementado por educadores de infância com formação específica.

A intervenção consistiu em dois componentes principais:

Avaliação dos efeitos da intervenção

Os grupos foram avaliados quanto às capacidades linguísticas e de leitura em dois momentos: sete meses após a intervenção (correspondendo ao ensino pré-escolar ou 1.º ano de escolaridade, consoante a idade de início da intervenção) e no 4.º ano de escolaridade.

Instrumentos de avaliação utilizados no pré-escolar e no 1.º ano de escolaridade:


Instrumentos utilizados no 4.º ano de escolaridade:

Resultados

Quais os efeitos a longo prazo da intervenção linguística em idade pré-escolar na linguagem expressiva, medida no 1.º e 4.º anos de escolaridade? Estes efeitos são moderados pelo sexo e/ou pelas diferenças nas competências linguísticas iniciais?

Os resultados do estudo indicam que a intervenção linguística realizada em idade pré-escolar teve efeitos positivos na linguagem expressiva no 1.º ano de escolaridade, cerca de sete meses após o término da intervenção. Esses efeitos foram particularmente evidentes nas crianças que apresentavam competências linguísticas iniciais mais baixas, sugerindo que a intervenção foi mais benéfica para os alunos em maior risco de dificuldades linguísticas. Não se observaram diferenças entre rapazes e raparigas, indicando que o sexo não moderou os efeitos da intervenção.

Já no 4.º ano de escolaridade, aproximadamente quatro anos após a intervenção, os efeitos na linguagem expressiva desapareceram completamente, não se verificando diferenças entre o grupo de intervenção e o grupo de controlo. Além disso, nessa fase, os efeitos também não foram moderados pelo sexo nem pelas capacidades linguísticas iniciais, o que indica um efeito de perda total dos ganhos ao longo do tempo.
Quais os efeitos da intervenção linguística em idade pré-escolar na compreensão da leitura no 4.º ano de escolaridade?

O estudo mostra que a intervenção linguística em idade pré-escolar não produziu efeitos significativos a longo prazo. As crianças que participaram na intervenção não apresentaram níveis de compreensão leitora superiores aos do grupo de controlo (ensino habitual no pré-escolar), mesmo quando se controlaram as capacidades linguísticas iniciais. Também não se verificou qualquer moderação dos resultados pelo sexo. Assim, apesar dos ganhos iniciais observados na linguagem expressiva, estes não se mantiveram ao longo do percurso escolar nem se traduziram em melhorias duradouras na compreensão da leitura, sugerindo a necessidade de apoio linguístico contínuo para que os efeitos sejam sustentados ao longo do tempo.

Conclusão e implicações educativas

Este estudo produziu resultados relevantes sobre a durabilidade dos efeitos de uma intervenção linguística precoce e relativamente intensiva.

A intervenção linguística no pré-escolar produziu benefícios a curto e médio prazo (até ao 1.º ano), sobretudo para crianças com maiores dificuldades iniciais, mas não produziu efeitos duradouros até ao 4.º ano de escolaridade. Apesar de a intervenção ter melhorado inicialmente a linguagem expressiva, esses ganhos não se mantiveram ao longo do tempo e não se traduziram em melhorias na compreensão da leitura no 4.º ano, sugerindo que intervenções linguísticas precoces, quando não são sustentadas ao longo da escolaridade, podem não produzir benefícios duradouros na leitura. Os resultados sublinham, assim, a necessidade de apoio linguístico contínuo, em vez de programas intensivos de curta duração, para que os efeitos sejam sustentados ao longo do tempo. Deste modo, as intervenções devem ser concebidas a partir de uma perspectiva longitudinal, incorporando mecanismos que permitam consolidar e expandir os ganhos iniciais ao longo do percurso escolar. O estudo reforça a ideia de que a intervenção precoce deve ser encarada não como uma solução única, mas como o ponto de partida para um apoio sustentado ao longo do percurso escolar.

Este texto é um resumo do artigo «Do the effects of a preschool language intervention last in the long run? A 4-year follow-up study», disponível aqui.

Célia Oliveira e Marta Pereira

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