Quantas caixas consegue transportar?
No fim de 2024, Sarah Oberle deu uma palestra onde fez precisamente esta pergunta à audiência. Referia-se à quantidade de elementos que conseguimos manipular simultaneamente no nosso pensamento — mais precisamente, naquilo que os psicólogos designam como memória de trabalho. Gostei da metáfora e passei a utilizá-la. Não tenho dúvidas de que a pergunta contém uma rasteira, pois não permite uma resposta simples. A melhor resposta — como tantas outras no mundo da educação — é «depende do contexto». Depende de vários fatores que condicionam aquilo que conseguimos reter na memória de trabalho. Este artigo explora precisamente este assunto e pretende dar um novo enquadramento à memória de trabalho.
Tem muita força?
Da diferença entre o nível de força de cada pessoa decorre naturalmente a capacidade de cada uma transportar mais ou menos caixas. Eu não tenho muita força física, logo, se me derem muitas caixas para as mãos, dificilmente conseguirei segurá-las. O mesmo acontece com a memória de trabalho. Há diferenças entre as pessoas, dado que algumas têm à partida uma maior robustez de memória de trabalho do que outras. Isto permite-lhes reter mais informação simultaneamente, o que facilita o raciocínio e a resolução de problemas.
Qual o tamanho das caixas? O que têm lá dentro?
Estas questões fundamentais são aquelas que os professores conseguem de certa forma controlar. Imaginemos uma aula de Neurofisiologia em que o professor diz assim:
«No plano coronal, vejam como as fibras corticoespinhais — anteriores aos núcleos olivares em rápida divergência — divergem e decussam na região ventral, estabelecendo sinapses com interneurónios que se projetam através do funículo lateral.»
Para alguém sem qualquer conhecimento de neurofisiologia, isto é o equivalente a receber de repente trinta caixinhas de joias para segurar ao mesmo tempo: é uma grande quantidade de informação díspar que é muito difícil de gerir. Como não há grande conhecimento prévio, tentar recordar toda esta informação implica memorizar palavras soltas sem grande significado.
Esta é uma das principais razões pela qual o conhecimento prévio dos alunos é um fator crítico em qualquer contexto educativo.
Tenho um colega que prefere usar metáforas do mundo desportivo para explicar o seu ponto de vista. Eu não sei quase nada sobre desporto e dou por mim a pensar o que «ser mais defensiva nas reuniões de orientação» poderá querer dizer.
Um campeão de xadrez consegue ver a próxima jogada em vez de peças dispersas; o meu marido vê falhas de segurança quando entra num armazém; eu vejo ansiedade em relação aos testes, maus padrões de sono e hábitos de estudo quando converso com os alunos.
Tendo em conta o conhecimento prévio, conseguimos aproximar-nos dos alunos e ir ao encontro do que lhes é familiar, tanto na linguagem como nos conceitos. Se atentarmos nas fundações que trazem e construirmos o conhecimento a partir daí, será muito mais provável que nos entendam.
Os professores ajudam os alunos o estruturar o conhecimento não apenas para que o possam debitar num teste, mas porque o conhecimento estruturado altera a forma como entendemos o mundo. Tornamo-nos capazes de reter mais informação. Logo, podemos raciocinar e solucionar problemas tendo mais referências à nossa disposição.
É fundamental que consigamos reconhecer o ponto de partida dos alunos para evitar que tenham de memorizar pedaços de informação sem qualquer relação entre si. É possível dar-lhes a estrutura individualizada de que precisam para erigirem o seu saber. Isto leva-nos ao conceito de «reversão da perícia»: a noção de que os principiantes precisam de alguém que os ajude a clarificar as coisas, mas que a situação muda quando já não são novatos na matéria. Quem está a começar aprende melhor quando recebe esse ensino introdutório e uma explicação deliberada. Já os especialistas, uma vez tendo as bases, expandem melhor o seu conhecimento quando têm a oportunidade de raciocinar e de resolver problemas. Os métodos de ensino que têm por base a investigação funcionam melhor nestes casos.
Importa perceber que também os termos principiante e especialista têm um significado relativo neste contexto. A verdade é que tudo é relativo. No que diz respeito ao Roblox, sou uma mera principiante. O meu filho é quase um especialista. Quando jogamos os dois, preciso que ele me explique o que se passa e como se joga. Isto deixa-o muito frustrado, porque do que gosta é de jogar e progredir.
Enquanto educadores, o nosso papel é ajudar os nossos alunos a passar de principiantes a especialistas, erguendo o conhecimento a partir daquilo que eles já sabem e dominam — as bases onde o seu conhecimento está estruturado.
Isto não é fácil. É um dos maiores desafios da educação. Mas, se o conseguirmos fazer, temos a oportunidade de criar salas de aula mais equitativas, onde os alunos que receberam muitas caixinhas pequeninas não ficam para trás enquanto os outros seguem, confiantes, com dois ou três caixotes grandes nas mãos.
Será assim tão difícil?
Este texto é uma tradução e adaptação do artigo «The Box Metaphor for Working Memory», disponível aqui. Resulta de uma parceria editorial com as Learning Scientists.
Cindy Nebel
Fonte: Iniciativa Educação
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