sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Como quebrar o ciclo da ansiedade perante os testes? Com mais testes e melhor regulação das emoções

Um estudo recente de um grupo de investigadores ingleses e australianos, David W. Putwain, Laura J. Nicholson e Reinhard Pekrun, examinou as relações entre os níveis de ansiedade face aos testes, as estratégias de regulação emocional e de gestão dessa ansiedade, e o desempenho escolar. Neste estudo, publicado no Journal of Educational Psychology, os investigadores mediram estratégias de regulação emocional, ansiedade em relação aos testes e desempenho escolar em 533 alunos nos últimos anos do ensino secundário, durante dois anos e meio.

Numa primeira fase, os investigadores começaram por recolher as notas que os alunos tinham obtido a Inglês e Matemática; seis meses depois, pediram aos alunos que reportassem os seus níveis de ansiedade em relação aos testes e recolheram informação sociodemográfica; passados seis meses, tornaram a registar as notas; seis meses mais tarde, pediram aos alunos que reportassem de novo os seus níveis de ansiedade face aos testes e as estratégias de regulação emocional que utilizavam para lidar com a ansiedade; e, depois de mais seis meses, tornaram a registar as notas obtidas pelos alunos.

Tabela 1. Diferentes estratégias de regulação emocional


Através de modelos estatísticos, os investigadores verificaram que alunos com avaliação mais fraca reportavam maior ansiedade, o que piorava subsequentemente o seu desempenho, revelando um ciclo associativo entre maior ansiedade e pior desempenho. Os alunos que reportaram mais ansiedade perante os testes também reportaram maior uso de duas estratégias de regulação emocional não-adaptativas: catastrofização e ruminação. O uso destas estratégias aumentou a ansiedade perante os testes seguintes. Pelo contrário, os alunos que recorriam à estratégia adaptativa de colocar em perspetiva tendiam a reportar menos ansiedade.

Menos ansiedade relativamente aos testes apareceu associada ao uso posterior de outras estratégias adaptativas, como a reavaliação positiva e o redireccionamento para o planeamento, enquanto maior ansiedade apareceu associada ao subsequente uso de outras estratégias como aceitação, autoculpabilização e culpabilização dos outros.

Estes resultados mostram que, apesar de alguma investigação mais antiga sugerir que alguma ansiedade pode ter efeitos positivos no desempenho, alunos que ultrapassam um certo nível de ansiedade em relação aos testes escolares tendem a ter um desempenho pior. Esta associação tem sido bastante descrita na investigação em sala de aula. Por seu turno, o pior desempenho dos alunos mais ansiosos aumenta ainda mais a sua ansiedade.

O que podem os educadores fazer para quebrar este ciclo? Este estudo dá-nos algumas pistas. Os alunos mais ansiosos tendem a lidar com a sua ansiedade e o seu mau desempenho de duas maneiras que perpetuam duplamente a sua ansiedade e os seus pensamentos negativos: pensam repetidamente nos seus sentimentos negativos e na situação que gera ansiedade e preveem consequências catastróficas da situação. Pelo contrário, os alunos menos ansiosos tendem a lidar com a ansiedade e com o desempenho mais fraco de uma forma que reduz o seu impacto emocional, porque relativizam a importância da situação.

Os educadores podem então tentar incutir nos alunos o uso de estratégias de regulação emocional que se foquem na relativização da importância dos testes e do desempenho num teste específico. Ensinar os alunos a reconhecer que estratégias tendem a usar e explicar quais funcionam melhor é uma possibilidade. Mais eficaz ainda poderá ser enfatizar que os testes não são o único fator que determina a nota e habituar os alunos ao ambiente de teste, utilizando testes que não contam para a nota final (ou que contam muito pouco), para que os alunos aprendam a relativizar a sua importância e a do seu desempenho. Se os alunos treinarem o uso de estratégias adaptativas em ambiente de teste poderão reduzir a sua ansiedade em futuros testes, mesmo quando estes testes têm mais impacto na sua avaliação final.

Um estudo de 2014 tinha já apontado para o efeito benéfico de aumentar o número de testes para reduzir a ansiedade a eles associada. Num questionário a 1408 alunos do segundo ciclo do ensino básico, os investigadores tinham verificado que 72% dos alunos referiram que uma intervenção com a prática de recuperação em aula os tinha feito sentir menos ansiosos quando tinham de fazer testes. Assim, utilizar a prática de recuperação nos testes formativos durante as aulas não só fomenta a aprendizagem, como também pode reduzir a ansiedade durante os exames.

Se à prática de recuperação se juntar o treino de estratégias adaptativas, como colocar o teste em perspetiva, relativizar a sua importância e redirecionar para o planeamento, pensando em passos concretos para lidar com os testes no futuro, recorrer aos testes em aula melhora o desempenho escolar (que, como vimos, reduz a ansiedade) e os alunos aprendem a gerir a sua ansiedade com efeitos benéficos no seu desempenho escolar.

Ludmila Nunes

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