À medida que as crianças crescem rodeadas por ecrãs e aplicações, a linha entre diversão e risco digital torna-se cada vez mais ténue. Teresa Zagallo, Diretora de Cibersegurança da KPMG Portugal, acredita que o verdadeiro desafio não é ensinar a usar tecnologia, mas sim ensinar a viver com ela.
Em entrevista à Executive Digest, Teresa Zagallo analisa a importância da literacia digital, o papel das empresas tecnológicas, o crescimento da Inteligência Artificial e detalha como o Cyber Day da KPMG procura capacitar crianças, jovens e professores para navegar com segurança no mundo digital.
Estamos a educar crianças para usar tecnologia ou para viver com tecnologia? Qual é a diferença?
Durante muitos anos, o foco esteve sobretudo em ensinar as crianças a usar tecnologia, ferramentas, dispositivos e aplicações. Hoje, esse paradigma é insuficiente. Vivemos num contexto em que a tecnologia está integrada em quase todas as dimensões da nossa vida, pelo que o verdadeiro desafio é educá-las para viver com a tecnologia. A diferença entre estes paradigmas está na intenção, uma vez que usar tecnologia é algo meramente operacional, e viver com tecnologia implica desenvolver pensamento crítico, consciência dos riscos, responsabilidade digital, empatia e capacidade de decisão informada. É esta segunda abordagem que visa preparar crianças e jovens para um mundo digital complexo e em constante mudança.
A rapidez da evolução tecnológica está a criar uma geração mais informada ou apenas mais exposta?
A tecnologia tem o potencial de criar uma geração mais informada, mas sem literacia digital adequada, está sobretudo a criar uma geração mais exposta. O acesso à informação não equivale à sua compreensão, nem à capacidade de distinguir conteúdos fidedignos de desinformação. As crianças e jovens estão hoje mais vulneráveis a riscos como fraude, cyberbullying, exposição excessiva, manipulação de informação e dependência digital, precisamente porque a velocidade da inovação não tem sido acompanhada por uma educação proporcional em segurança e responsabilidade digital.
A literacia digital deveria ser tratada como disciplina autónoma nas escolas?
Idealmente, a literacia digital deveria ser encarada como uma competência transversal, integrada ao longo de todo o percurso escolar. Embora estes conteúdos já estejam hoje presentes no currículo de várias disciplinas e anos de escolaridade, acabam muitas vezes por ser abordados de forma pontual, sem estrutura, pouco aprofundada e sem uma visão verdadeiramente integrada.
Dada a complexidade e a relevância crescente do mundo digital, faz sentido que exista tempo e espaço dedicados a estes temas, garantindo consistência, continuidade e adequação às diferentes idades. Mais do que criar uma disciplina isolada, é essencial assegurar que a literacia digital – incluindo a cibersegurança, a ética digital, o pensamento crítico, a privacidade e a cidadania digital – seja trabalhada de forma estruturada, progressiva e transversal em todo o percurso educativo.
Até que ponto as empresas tecnológicas têm responsabilidade direta na educação digital das crianças?
As empresas tecnológicas têm uma responsabilidade clara e crescente. Não apenas no desenho de produtos mais seguros e transparentes, mas também no apoio ativo à educação digital das comunidades onde operam. Essa responsabilidade não substitui a da escola ou da família, mas deve ser complementar, através de iniciativas de sensibilização, conteúdos educativos acessíveis e colaboração com entidades públicas e privadas para promover ambientes digitais mais seguros.
A inteligência artificial nas mãos de jovens é mais uma oportunidade ou um risco mal compreendido?
A inteligência artificial é, acima de tudo, uma oportunidade, mas que pode tornar-se um risco quando é usada sem enquadramento, espírito crítico ou compreensão dos seus limites. Para os jovens, a IA pode potenciar a criatividade, a aprendizagem e a inclusão. No entanto, sem literacia adequada, existe o risco de dependência, perda de pensamento crítico, uso acrítico da informação e violação de privacidade. O foco deve estar em ensinar como usar IA de forma ética, responsável e consciente.
As profissões do futuro exigirão mais competências técnicas ou mais pensamento crítico e ética digital?
As profissões do futuro exigirão ambos, mas o pensamento crítico, a ética digital e a capacidade de adaptação serão diferenciadores essenciais. As competências técnicas evoluem rapidamente; a capacidade de questionar, interpretar, tomar decisões informadas e agir de forma ética é o que permitirá acompanhar essa evolução. Formar jovens apenas em tecnologia, sem valores e consciência digital, é insuficiente para responder aos desafios futuros.
Em que consiste o Cyber Day da KPMG?
A iniciativa KPMG Global Cyber Day é um programa anual concebido para apoiar as comunidades, educando os jovens sobre a importância da cibersegurança e dos riscos na internet. Inclui apresentações presenciais adaptadas a diferentes faixas etárias, abordando temas como o uso das redes sociais, proteção da identidade online, cyberbullying, jogos online e ciberameaças. O programa foi desenvolvido para crianças e jovens dos 6 aos 16 anos, bem como para professores e pais, reconhecendo o papel fundamental que todos desempenham na educação digital.
Que lacunas mais urgentes em literacia digital identificam hoje nas crianças e jovens portugueses?
Destacam-se lacunas ao nível da proteção da identidade digital, privacidade, reconhecimento de riscos online, pensamento crítico sobre conteúdos e comportamento responsável nas redes sociais. Existe também uma perceção limitada das consequências reais das ações no mundo digital, bem como uma normalização de práticas inseguras que exigem intervenção precoce e contínua.
Que metas concretas gostariam de atingir em termos de impacto real nas escolas?
As metas que definimos vão além de números ou quotas anuais. O foco está no impacto real e sustentável nas comunidades escolares. Esta iniciativa enquadra-se no compromisso global da KPMG 10by30, cujo objetivo é contribuir para a capacitação económica de 10 milhões de jovens desfavorecidos até 2030.
No âmbito do Cyber Day, o contributo passa por capacitar crianças e jovens do ponto de vista do risco digital, dotando-os de conhecimento e ferramentas que lhes permitam navegar no mundo digital de forma mais segura, informada e responsável. Mais do que definir metas quantitativas, o nosso compromisso é chegar progressivamente a mais escolas, crianças e jovens, como temos vindo a fazer ao longo dos últimos anos, assegurando que este conhecimento essencial é acessível a todos. Paralelamente, procuramos envolver professores e pais, de forma a prolongar estas conversas para além da sala de aula e reforçar a mudança de comportamentos no dia a dia.
O que mais a preocupa quando pensa no ambiente digital onde crescerão as próximas gerações?
A maior preocupação é que as próximas gerações cresçam num ambiente digital altamente sofisticado, mas sem as ferramentas e o apoio necessários para o compreender e questionar. Sem literacia digital sólida, o risco não é apenas técnico, mas social: perda de autonomia, normalização de comportamentos abusivos e dificuldade em distinguir o que é seguro, ético e verdadeiro. É por isso essencial agir hoje, de forma estruturada e colaborativa.
Fonte: Executive Digest por indicação de Livresco
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