quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Peça a peça a Lego quer os professores a ensinar sem chatear

Brinque! Um avião de papel é uma brincadeira de infância, mas também uma ótima lição de Matemática. A meia centena de adultos que, entre risadas vão moldando o papel, tomam contacto com a metodologia Learning Through Play (Aprender Através do Brincar) da Fundação LEGO, trazida para Portugal pela Fundação Santander. “A formação de professores foi uma prioridade, dado o seu papel central na introdução e aplicação destas práticas”, explica Inês Oom de Sousa, presidente da instituição, ao Jornal Económico (JE).

Portugal tem tradicionalmente um problema com a Matemática. Que alastra a outros campos qual mancha de óleo derramada em água limpa. A última fotografia tirada pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), datada de 2022, mostra uma queda no desempenho dos jovens de 15 anos em todas as matérias em avaliação no PISA (Programme for International Student Assessment): Matemática, Ciências e Leitura. Os jovens perderam em quatro anos o equivalente a um ano de conhecimentos. O mesmo se passa com a literacia financeira, um domínio opcional no qual Portugal também participa. Estes dados ainda não eram conhecidos quando Inês Oom de Sousa bateu à porta da Dinamarca, mas levou outros também poderosos. (...)

Fonte: Jornal Económico por indicação de Livresco

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Aprovado diploma que apoia mais alunos imigrantes e avalia leitura das crianças

O Governo aprovou um plano para melhorar as aprendizagens que prevê mais apoios a alunos estrangeiros, avalia os conhecimentos dos mais novos a leitura e recomenda que os telemóveis sejam proibidos ou de uso limitado nas escolas.

O plano “Aprender Mais Agora” foi aprovado na sexta-feira em Conselho de Ministros e prevê um conjunto de medidas que estão alinhadas com o plano “+ Aulas + Sucesso”, criado para reduzir o número de alunos sem aulas, e com o novo modelo de Avaliação Externa, em que passam a ser os alunos do 4.º e 6.º ano a realizar provas nacionais.

Tem havido uma tendência de agravamento dos resultados escolares desde 2018, evidenciada pelos resultados nos estudos internacionais, que a tutela acredita que conseguirá inverter com este novo plano.

Entre as medidas aprovadas, está a realização de um diagnóstico nacional da velocidade leitora dos alunos mais novos.

A prevenção do insucesso passará também por tutorias psicopedagógicas e pelo envolvimento de professores aposentados no apoio à aprendizagem, que terão um papel nas mentorias a jovens professores e apoio pedagógico acrescido.

O novo plano foca-se também nos alunos estrangeiros, que aumentaram 160% desde 2018, prevendo apoios como a aposta em tutorias e a revisão da disciplina de Português Língua Não Materna.

O Governo prevê contratar mediadores linguísticos e culturais e rever a disciplina de Português Língua Não Materna (PLNM), com a criação de um nível zero, para os alunos estrangeiros não oriundos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

O diploma aprovado em Conselho de Ministros traz também a recomendação sobre ‘smartphones’ divulgada no mês passado pelo ministro Fernando Alexandre, contou à Lusa o gabinete de imprensa do MECI.

O Governo recomenda às escolas a proibição do uso de telemóvel nos 1.º e 2.º ciclos e restrições no 3.º ciclo, medidas que são de adesão voluntária por parte das escolas.

No caso do 3.º ciclo, o MECI recomenda a implementação de medidas que restrinjam e desincentivem a utilização dos telemóveis, sendo que no ensino secundário os próprios alunos deverão estar envolvidos na definição de regras.

Nesta recomendação, também estão previstas exceções, por exemplo, para os alunos com muito baixo domínio da língua portuguesa, uma vez que os telemóveis podem servir como instrumento de tradução, ou para aqueles que “beneficiem comprovadamente de funcionalidades do ‘smartphone’ por razões de saúde”.

Outra das medidas previstas no plano é a de rever, a partir do próximo ano, os indicadores sobre abandono escolar precoce.

Fonte: As Beiras por indicação de Livresco

sábado, 5 de outubro de 2024

Dia Mundial do Professor: as histórias de quem faz a diferença na vida de um aluno

Os professores portugueses que têm como missão educar mais de um milhão de alunos. São vistos como uma classe envelhecida, desgastada e desmotivada, mas muitos continuam a trabalhar árdua e discretamente não apenas para ensinar mas também para tentar fazer a diferença, "nem que seja na vida de apenas um aluno".

"Podemos ter razões para não estar contentes, mas quando estamos perante uma turma, deixamos os problemas do lado de fora da porta", contou à Lusa Clara Ferreira, 51 anos, dos quais 30 a dar aulas.

Clara trocou uma carreira de Informática, em que "estaria a ganhar, pelo menos, três vezes mais", pelo ensino mas não se arrepende. Já teve alunos de todas as idades, desde crianças do 1.º ciclo, a adolescentes do secundário e classes de idosos. As turmas de que mais gosta são as de ensino profissional, onde conhece jovens muitas vezes estigmatizados.

Esta professora já conseguiu contrariar destinos de jovens em risco de abandono escolar e apagou rótulos de alunos vistos como "mal comportados" ou "menos capazes".

Foi o caso de João Rosado. Um aluno com dislexia e em risco de deixar de estudar que Clara percebeu ser apenas um menino "muito reservado" a precisar de um projeto que lhe mostrasse as suas capacidades.

A professora de Informática propôs-lhe que participasse num concurso nacional, a "Apps For Good", em que os alunos criam uma aplicação digital. João envolveu-se no projeto e imaginou, com uma colega, uma "app" para fomentar a leitura de livros pelas crianças, através da realidade virtual que iria animar as imagens dos livros e fazer jogos sobre os seus conteúdos.

O menino que tinha abandonado o curso de Economia, ganhou o primeiro prémio e percebeu a importância de aprender Inglês para que a aplicação chegasse mais longe, Português para conseguir comunicar melhor a sua ideia ou Matemática. Tornou-se um bom aluno e conseguiu estagiar na Mercedes-Benz. Hoje é "data engineer" na BI4All.

Foi também através deste programa que Clara conheceu melhor um aluno ucraniano transferido de outra escola. Chegou ao liceu de Santarém carregado com "dois dossiers" repletos de relatos de mau comportamento.

"Batia em toda a gente", recordou a professora, que iniciou com ele um projeto e rapidamente percebeu que ele não percebia a língua. Ajudou-o e ele aprendeu português, "tornou-se um exemplo de bom comportamento", conta a professora, que acredita que, muitas vezes, estes miúdos "preferem ser bons malandros a maus alunos".

Nídia Pereira tem hoje 28 anos e também foi aluna de Clara, a quem reconhece muitas qualidades: "Existem professores que acreditam em nós e que valorizam o nosso trabalho".

Nídia também esteve envolvida na criação de uma app e recorda o envolvimento da docente, que aproveitava as tardes livres para ajudar a equipa, mas também da professora Fátima Vasques, que deu explicações gratuitas e fora de horas a quem queria preparar-se para o exame nacional.

"Ela não era minha professora, mas disponibilizou-se para nos ajudar. Às vezes dava explicações na escola, outras na sua casa. Era onde calhasse e fez grande diferença", contou a aluna que teve 16 valores no exame e entrou na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa. Hoje é sénior designer numa empresa em Frankfurt.

As histórias de docentes que abdicaram do seu tempo para ajudar alunos são muitas.

Navroop Singh nasceu na Índia e chegou a Portugal em 2019. "Tive os melhores professores do mundo. Nunca pensei que fossem assim, achava que davam as aulas e iam-se embora", disse o adolescente.

Na lista dos que nunca irá esquecer estão a professora Silvina, de Português Língua Não Materna, e a de Programação, Elsa Ferreira.

A professora Silvina convidou-o para ajudar a criar uma aplicação, onde portugueses podem voluntariar-se para ajudar estrangeiros nas mais variadas tarefas, como tradução de documentos ou acompanhar ao médico.

"Durante o verão fazíamos chamadas por `teams´ e as professoras dedicaram-se muito tempo ao nosso projeto. Estávamos juntos das seis às oito da noite, três dias por semana", recordou Navroop, explicando que a Apps For Good também lhe permitiu conhecer empresários da Microsoft e da Galp, que lhe "deram sugestões de como fazer a apresentação às empresas".

A aplicação desenvolvida por uma equipa multicultural - além de Navroop, havia um aluno do Paquistão, do Bangladesh, da Venezuela e um português - ficou em 2.º lugar.

Numa década, só o programa Apps for Good envolveu mais de 28 mil alunos do 5.º ao 12.º anos e quase dois mil professores de 694 escolas.

Para o diretor do programa, João Baracho, o sucesso deste projeto educativo gratuito parte muito do empenho e dedicação dos professores.

Mas não existe apenas envolvimento em projetos extracurriculares. Navroop Singh contou à Lusa que continua a falar com ex-professores do 10.º ano através de um grupo de whastapp.

Nesse grupo está a professora Clara Ferreira que alerta para a quantidade de jovens que se sentem sozinhos. "Recebo muitas mensagens de alunos a quererem tirar duvidas, mas às vezes, só querem realmente ter com quem conversar. A vida das famílias é muito complicada e sem tempo para estar com os filhos", lamentou.

Também foi a professora que arranjou o primeiro estágio a Navroop Singh: um trabalho de verão a fazer gráficos no jornal local. A experiência foi essencial para avançar com o seu projeto, que hoje tem milhares de seguidores, contou o rapaz de 17 anos.

Clara explica que são estes percursos de sucesso que fazem com que nunca se tenha arrependido de ter abandonado a carreira de Informática. Aos 51 anos garante manter a mesma paixão pelo ensino e continua a ver os professores como alguém com "responsabilidade de conseguir mudar uma vida para sempre".

Uma classe envelhecida?

No ano letivo de 2022/2023, havia cerca de 140 mil educadores de infância e professores do ensino obrigatório, sendo a grande maioria mulheres. No pré-escolar, por exemplo, a percentagem de homens era de apenas 1% e no 1.º ciclo era de 22%, segundo o relatório “Portugal em Números 2024”, divulgado recentemente pela Direção-Geral de Estatísticas de Educação e Ciência (DGEEC).

O relatório mostra que o número de professores tem-se mantido estável na última década, com exceção do 2.º ciclo, que perdeu 3.895 docentes. No entanto, os professores estão cada vez mais velhos e, por isso, mais próximos da reforma.

Apenas no 1.º ciclo, a média de idades é 49 anos. Nos restantes níveis de ensino, a maioria já passou a barreira dos 50, sendo nas turmas do 5.º e 6.º anos que se encontram os mais velhos, com uma média de idades de 52 anos. Já os professores que dão aulas a alunos a partir do 7.º ano têm, em média, 51 anos.

Todos os anos, as queixas da falta de professores nas escolas trazem ao de cima os problemas de uma carreira, que os sindicatos dizem ser pouco atrativa, mas também o excesso de trabalho e de burocracia.

Os sindicatos queixam-se também que esta é uma classe pouco valorizada, com cada vez mais profissionais doentes e à beira do ‘burnout’.

O último relatório do Estado da Educação, do Conselho Nacional de Educação (CNE), revelava que quase 90% dos professores se queixava de stresse no trabalho e, por isso, os relatores defenderam a necessidade de "repensar um conjunto de medidas que garantam condições efetivas de bem-estar dos professores".

Nos últimos anos, diminuíram os casos de professores conhecidos por andar “com a casa às costas”, com a abertura de concursos destinados a garantir um vínculo estável, mas os sindicatos entendem que faltam muitas mais medidas para conseguir tornar a profissão mais atraente.

Além de uma carreira muito longa, em relação a outros países europeus, o relatório do CNE refere que existe uma diferença remuneratória "muito significativa" entre os escalões em início e final de carreira. Um problema que o atual ministro da Educação já mostrou abertura para tentar resolver, prometendo aumentos salariais para quem está nos primeiros escalões.

Nos últimos anos começou a notar-se um ligeiro aumento do número de diplomados em cursos que conferem habilitação para a docência, mas continua a não ser suficiente para responder às vagas dos que saem anualmente para a reforma.
O que acontece hoje em todo o país?

A Federação Nacional dos Professores (Fenprof) agendou uma concentração pelas 14h30 no Rossio, seguindo-se um desfile até ao Largo de Camões.

De acordo com a Fenprof, os professores e educadores manifestam-se “dada a importância do momento que se vive no país (Orçamento do Estado para 2025) e na Educação (processos de revisão/alteração em curso ou previstos)”.

“A Fenprof pretende que o Dia Mundial do Professor também seja um dia de (re)afirmação das posições e propostas dos docentes para os processos negociais que se preveem e, ainda, para o período de apresentação, debate e votação do Orçamento do Estado para 2025 [OE2025]”, lê-se em comunicado.

Para a força sindical, a manifestação será uma oportunidade para “reafirmar as posições dos docentes em relação a todos estes processos que deverão ser efetivamente negociais e dos quais deverá resultar a valorização da profissão docente e a valorização e democratização da vida das escolas”.

Lembrando o tema “Valorizar a voz docente”, determinado pela Internacional da Educação (IE), em conjunto com a UNESCO, a Fenprof considera que é uma “mensagem bem forte dirigida a governos que, promovendo ou não processos ditos negociais, acabam por decidir de acordo com os seus interesses e intenções, ignorando as propostas apresentadas pelas suas organizações sindicais”

Também a Federação Nacional da Educação (FNE) pretende “reforçar a mensagem da importância da valorização e reconhecimento, pela sociedade, do papel fundamental que os professores desempenham”.

A FNE, alertando para a falta de investimento, afirma “que cortar no orçamento para a educação não é o caminho adequado” e que o Dia Mundial do Professor “é mais uma oportunidade” para relembrar o Governo.

“É necessário, pelo contrário, investimento do Governo para se alcançar uma educação de qualidade”, sustenta.

Com várias ações previstas, desde o hasteamento da bandeira “Obrigado Professor” em escolas nacionais até à divulgação de informação nas redes sociais, a FNE destaca o envio de uma mensagem ao ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, com as “cinco prioridades consideradas como de mais urgente resolução”.

Além disso, prevê-se uma doação voluntária de sangue nos Açores e um concerto na Madeira, bem como uma concentração em Viana do Castelo, no âmbito do Dia Mundial do Professor.

O Sindicato dos Professores da Região Açores e a União de Sindicatos de Angra do Heroísmo também promovem “diversas atividades e almoço convívio”, no Monte Brasil, na ilha Terceira.

O Dia Mundial do Professor comemora-se todos anos no dia 5 de outubro, desde 1994, após ter sido adotada a recomendação da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), de 1966.

Instituído há 30 anos, o Dia Mundial do Professor homenageia todos os docentes e educadores que “contribuem para a educação da sociedade, escolhendo o ensino como forma de vida, dedicada diariamente a ensinar crianças, jovens e adultos”.

Fonte: Sapo 24 por indicação de Livresco

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Pedro Oliveira é o 1.º aluno cego a doutorar-se em Direito na Universidade de Coimbra – e quer “inspirar jovens com ou sem deficiência”

“Estava tranquilo”, conta ao Expresso, “antes e durante” a defesa da tese. Era quarta-feira, dia 2 de outubro. No Colégio da Trindade e ao lado de Java, a cadela-guia que, desde 2018, o acompanha, Pedro Amauri de Oliveira fazia história. Tornou-se o primeiro aluno cego a concluir com sucesso o curso de doutoramento na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra – e a imagem do aluno trajado na sala solene, com Java a dormitar ao seu lado tornou-se viral.

Poucos dias depois, a sensação é de “alívio” e “realização pessoal e profissional”. “Não foi uma jornada fácil”, diz. Os obstáculos a este objetivo que, conta, “parecia inalcançável a certo ponto” teimavam em surgir.

Natural de Curitiba, a capital do Estado do Paraná, nasceu e cresceu no Brasil e foi aí, do outro lado do oceano, que começou os seus estudos em Direito. Seria uma “reação alérgica a um medicamento” a colocar Portugal no seu rumo. Era 2010 e Pedro Amauri de Oliveira estava no fim do primeiro ano da Licenciatura em Direito, quando foi diagnosticado com síndrome de Stevens-Johnson, uma doença rara e grave. Em consequência, “veio a deficiência visual”.

Pedro Amauri de Oliveira deixou os estudos. “Era uma situação nova a que tinha de me adaptar”. Para além disto, a instituição em que estava inscrito “não oferecia nenhum apoio a estudantes com deficiência visual”. “Não podia continuar”, recorda.

Mas continuou: quatro anos depois, em 2014, voou para Portugal. A Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra oferecia um “serviço de conversão de livros em suporte físico para suporte digital” que lhe tornaria possível, com recurso a um “software de leitura de ecrã”, “ouvir a bibliografia”. Era algo essencial, principalmente “num curso que requer muita leitura”.

Foi na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra que se licenciou e tornou Mestre em Direito, com especialização em Ciências Jurídico-Empresariais. Entretanto, rumou a Utrecht, nos Países Baixos, e à Corunha, em Espanha, para realizar dois seminários de verão.

Logo aqui percebeu que era “muito curioso” e o interesse pela área da investigação foi crescendo. Prosseguir os estudos para um doutoramento era a opção natural. E, por isso, em 2018, imediatamente após a conclusão do mestrado, candidatou-se ao doutoramento na mesma instituição.

Para tema da tese, em Direito Público, escolheu a harmonização do Direito de Trabalho da União Europeia. E, a partir daí, os marcos foram-se sucedendo. Logo em 2019 foi o “primeiro candidato com deficiência visual a obter a bolsa de investigação da Fundação de Ciência e Tecnologia” e, em 2022, conseguiu obter a bolsa Fulbright que o levou até à Universidade de Columbia, em Nova Iorque, para realizar um estágio doutoral. Entretanto, assinou também, artigos e capítulos de livros, mantendo o Direito do Trabalho como principal foco de investigação e não esquecendo, em especial, o tema da proteção dos trabalhadores com deficiência.

Orientador elogia determinação

“Procurou aproveitar ao máximo as oportunidades que tinha”, afirma Jónatas Machado, diretor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e orientador da tese de Doutoramento de Pedro Amauri de Oliveira. “Nada o detinha, nada o perturbava”, “sempre deu mostras de grande foco, determinação, confiança e autonomia”, acrescenta.

Ainda assim, os seis anos que antecederam a defesa da tese não se passaram também sem algumas barreiras. O trabalho de conversão dos livros para suporte digital “demora algum tempo” e, por isso, Pedro Amauri de Oliveira “não tinha acesso imediato à bibliografia”, o que acabou por atrasar a investigação.

Também por isto, o culminar de anos de trabalho no momento que viveu no Colégio da Trindade “mostra que todos somos capazes de ir além, de contornar os obstáculos e alcançar objetivos e sonhos”. Isto, reforça, “se tivermos resiliência, determinação e, claro, as adaptações, apoios e ferramentas necessárias para conseguir desenvolver os estudos”.

O agora doutor foi já parabenizado nas redes sociais da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, que caracterizou o momento como um “marco histórico”. Nos comentários, são muitas as mensagens de felicitação e admiração.

“É sempre um motivo de grande júbilo e orgulho para todos nós quando qualquer um dos nossos estudantes conclui com sucesso as suas provas académicas”, refere Jónatas Machado, que salienta “no caso do Doutor Pedro Oliveira, essa alegria tem um sabor especial, porque, temos de reconhecer, o percurso dele foi mais difícil e trabalhoso”.

Para Pedro Amauri de Oliveira, ser o primeiro aluno cego a concluir o Curso de Doutoramento “é uma honra e responsabilidade”. Espera, com o feito, “poder inspirar muitas pessoas jovens, com ou sem deficiência”.

Pedro Amauri de Oliveira “sempre mostrou convicções fortes acerca da criação de um mundo mais justo e solidário, especialmente atento aos mais vulneráveis”, afirma Jónatas Machado. “Ao mesmo tempo”, acrescenta, “tinha a vontade férrea de usar a sua formação jurídica para promover as causas em que acredita e que, no fundo, também são as nossas”.

Com 34 anos, Pedro Amauri de Oliveira ambiciona “continuar a trabalhar na área de investigação”, que pensa ser “ainda um pouco negligenciada em Portugal, sobretudo no domínio jurídico”. Em particular, quer desenvolver estudos numa das áreas que mais o “preocupa e afeta”: “o direito das pessoas com deficiência”.

Fonte: Expresso

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Contar com os dedos ajuda a melhorar as competências matemáticas no jardim de infância?

 A contagem pelos dedos, um tema de debate entre os educadores do ensino pré-escolar, suscita opiniões divergentes. Alguns professores vêem-na como um sinal de que as crianças estão a ter dificuldades com a matemática, enquanto outros acreditam que reflete uma compreensão numérica avançada.

Um estudo recente publicado na revista Child Development por investigadores da Universidade de Lausanne, na Suíça, e das Editions Nathan, em Paris, analisou se o ensino de estratégias de contagem pelos dedos a crianças em idade pré-escolar poderia melhorar a sua capacidade de resolver problemas aritméticos.

Ilustração da demonstração da estratégia “TUDO” nos dedos durante o treino da Experiência 1, Experiência 2 e Experiência 3. a) Primeiro operando representado; b) Segundo operando representado; c) Todos os dedos contados novamente. (CRÉDITO: Desenvolvimento Infantil)

Os adultos tendem a evitar utilizar os dedos para cálculos básicos como 3+2, uma vez que tal pode ser associado a dificuldades matemáticas ou a deficiências cognitivas.

Em contrapartida, as crianças entre os quatro e os seis anos de idade que utilizam os dedos para tarefas semelhantes são frequentemente consideradas avançadas. Pensa-se que estas crianças atingiram um nível de abstração que lhes permite compreender o conceito de que as quantidades podem ser representadas de várias formas. No entanto, aos oito anos de idade, se as crianças continuarem a confiar na contagem com os dedos para problemas básicos, isso pode indicar que estão a ter dificuldades com a matemática.

Os professores das crianças voluntariaram-se para participar no estudo e registaram-se através de uma rede pedagógica digital, Lea.fr, onde acederam aos materiais necessários para a intervenção.

O estudo seguiu uma abordagem estruturada que incluiu um pré-teste para medir as competências aritméticas existentes das crianças, duas semanas de treino de contagem de dedos, um pós-teste imediatamente a seguir ao treino e um pós-teste diferido. Isto permitiu aos investigadores observar os efeitos da intervenção a curto e a longo prazo.

Os resultados do estudo foram significativos. As crianças que originalmente não usavam a contagem de dedos mostraram uma melhoria notável após o treino. As suas respostas corretas em aritmética passaram de 37% antes da intervenção para 77% após a mesma. Em contrapartida, o grupo de controlo, que não recebeu o treino, registou apenas um pequeno aumento, de 40% para 48%.

Números de crianças, percentagens (com DP) e intervalos de adições resolvidas corretamente, e percentagens (com DP) e intervalos de utilização dos dedos nas diferentes trajetórias entre o pré e o pós-teste imediato para os grupos de controlo e experimental na Experiência 1. FU, utilizadores dos dedos; NFU, não utilizadores dos dedos. (CRÉDITO: Desenvolvimento Infantil)

Estes resultados foram ainda validados pela repetição da experiência com um grupo de controlo ativo e não passivo. Este estudo é inovador na sua conclusão de que o desempenho aritmético das crianças pode ser significativamente melhorado se as ensinarmos a contar com os dedos.

Os investigadores sugerem que a incorporação da contagem com os dedos no ensino da matemática pode ajudar a colmatar o fosso em termos de capacidades matemáticas entre as crianças que utilizam naturalmente esta estratégia e as que não a utilizam. No entanto, uma questão que permanece é se as crianças que usam a contagem de dedos estão simplesmente a empregar um procedimento básico para resolver problemas de matemática ou se estão a desenvolver uma compreensão mais profunda dos conceitos numéricos. É necessária investigação futura para explorar melhor esta distinção.

Numa entrevista à Society for Research in Child Development (SRCD), a Dra. Catherine Thevenot, investigadora do Instituto de Psicologia da Universidade de Lausanne, partilhou as suas motivações para a realização deste estudo e as suas ideias sobre os resultados.


Percentagens de utilização do dedo no pré-teste e no pós-teste imediato em crianças do grupo experimental e do grupo de controlo em função do seu comportamento no pré-teste (utilizadoras ou não do dedo) na Experiência 1. (CRÉDITO: Desenvolvimento Infantil)

Quando lhe perguntaram o que a levou a interessar-se pelo estudo da contagem com os dedos em crianças pequenas, a Dra. Thevenot explicou: “A ideia teve origem em conversas com professores do ensino primário. Perguntavam-me frequentemente se deviam encorajar ou desencorajar as crianças a utilizar os dedos para resolver cálculos.

Surpreendentemente, a investigação existente não oferecia uma resposta clara, o que deixou os professores compreensivelmente frustrados com a minha resposta frequente de “não sei”. Esta pergunta recorrente, associada à falta de provas concretas, inspirou-me a investigar o assunto eu próprio. A melhor forma de dar uma resposta significativa era através de estudos experimentais - e foi exatamente isso que me propus fazer.”

Perguntaram também à Dra. Thevenot como é que as conclusões do estudo poderiam beneficiar os professores, os prestadores de cuidados e os profissionais. Ela respondeu: “Os nossos resultados são muito valiosos porque, pela primeira vez, fornecemos uma resposta concreta à questão de longa data sobre se os professores devem ensinar explicitamente as crianças a utilizar os dedos para resolver problemas de adição - especialmente aquelas que não o fazem naturalmente.


Números de não utilizadores dos dedos, percentagens (com DP) e intervalos de adições corretamente resolvidas e percentagens (com DP) e intervalos de utilização dos dedos nas diferentes trajetórias entre o pré-teste, o pós-teste imediato e o pós-teste tardio para o grupo experimental na Experiência 1. (CRÉDITO: Desenvolvimento Infantil)

A resposta é afirmativa. O nosso estudo demonstra que o treino de cálculo com os dedos é eficaz para mais de 75% dos alunos do jardim de infância. O próximo passo é explorar como podemos apoiar os restantes 25% de crianças que não responderam tão bem à intervenção”.

Refletindo sobre os resultados, a Dra. Thevenot admitiu que ficou surpreendida com o nível de melhoria observado nas crianças. “Sem dúvida. Quando vi os resultados pela primeira vez, fiquei espantada com a enorme melhoria do desempenho das crianças que inicialmente não utilizavam os dedos para resolver os problemas.

Antes da nossa intervenção, estas crianças só eram capazes de resolver cerca de um terço dos problemas de adição no pré-teste. No entanto, após a formação, estavam a resolver mais de três quartos dos problemas! A diferença foi notável, especialmente em comparação com os grupos de controlo, onde os ganhos foram insignificantes. A extensão desta melhoria excedeu verdadeiramente as minhas expectativas”.

Quanto ao futuro desta linha de investigação, o Dr. Thevenot explicou: “Uma questão importante agora é determinar se o que ensinámos às crianças vai além de um mero procedimento para resolver os problemas. Por outras palavras, queremos saber se a nossa intervenção levou a uma compreensão concetual mais profunda dos números, especificamente se as crianças compreendem melhor como manipular as quantidades representadas pelos seus dedos. De facto, já começámos a abordar esta questão e os resultados iniciais são muito promissores. No entanto, ainda precisamos de realizar experiências adicionais para confirmar que estas melhorias são, de facto, um resultado direto do nosso programa de formação.”

Tradução do Deepl Translate

Fonte: the brighter side por indicação de Livresco

sábado, 28 de setembro de 2024

Mais tempo de licença parental e pré-escolar a partir dos três anos

O Parlamento aprovou o alargamento da licença parental inicial e a universalidade da educação pré-escolar para as crianças a partir dos 3 anos, tendo, no entanto, rejeitado a maioria das iniciativas sobre estas matérias. (...)

Dos cinco projetos de lei sobre a matéria, foi aprovada apenas -- com os votos contra do PSD e do CDS-PP e sem abstenções -- a iniciativa que teve por base um projeto de cidadãos com mais de 23 mil subscritores e que propõe o aumento de 120 ou 150 dias para 180 ou 210 dias consecutivos a licença parental inicial a que mãe e pai trabalhadores têm direito.

O projeto de lei foi aprovado e vai agora ser discutido na especialidade, na Comissão de Trabalho, Segurança Social e Inclusão.

Entre os seis projetos de lei relativos a creches, os partidos rejeitaram quatro, tendo sido aprovado o projeto de lei do Livre que estabelece o dever de o Governo proceder ao levantamento e divulgação anual e atempada dos dados referentes a creches e a amas do Instituto de Segurança Social.

Este projeto de lei será discutido na especialidade, na Comissão de Trabalho, Segurança Social e Inclusão, e foi aprovado apesar dos votos contra do PSD e CDS-PP e a abstenção do Chega.

Dentro da mesma temática, foi também aprovado -- com os votos contra do PSD e do CDS-PP e a abstenção do Chega - o projeto de lei do PAN pela gratuitidade dos mecanismos de acompanhamento das atividades das crianças no âmbito da medida da gratuitidade das creches.

A iniciativa que teve mais votos contra foi o projeto de resolução do Chega, que recomendava ao Governo que alterasse as regras de inscrição nas creches e passasse a ser dada prioridade às crianças filhas de pais trabalhadores, e que uniu todos os partidos no mesmo sentido de voto.

Os projetos pela criação de uma rede pública de creches foram rejeitados, tendo ficado claro, no debate de quinta-feira, na sessão plenária, que esta é uma opção que divide esquerda e direita, com Bloco de Esquerda e Partido Comunista a favor, CDS-PP e Iniciativa Liberal a defenderem o direito das famílias à liberdade de escolha e o PSD a concordar que são precisas mais vagas, mas sem explicar como o vai fazer.

Por outro lado, os projetos de lei sobre o pré-escolar e a Lei de Bases do Sistema Educativo acabaram quase todos rejeitados.

Foi apenas aprovado um projeto de lei do Livre pela universalidade da educação pré-escolar para as crianças a partir de três anos de idade, que teve os votos contra do PSD e do CDS-PP, e que vai agora ser discutido na especialidade, na Comissão de Educação e Ciência.

O projeto de lei da Iniciativa Liberal, pela inclusão das crianças até aos três anos no sistema educativo acabou rejeitado com os votos contra do PSD, PS, Chega e CDS-PP, tal como o projeto de lei do Bloco de Esquerda pela inclusão das creches no sistema educativos.

O projeto de lei do Chega pela modificação do regime do horário flexível para facilitar a vida familiar e a vida profissional foi também rejeitado, com os votos contra do PSD, PS, IL e CDS-PP.

As duas iniciativas para alteração da Lei de Bases do Sistema Educativo, uma do Livre e outra do PAN, foram rejeitadas.

Sobre esta questão em concreto, o PSD já tinha defendido, no debate plenário de quinta-feira, que a revisão dessa legislação merece um debate mais aprofundado a atempado para não defraudar as expectativas das famílias.

Fonte: SIC Notícias por indicação de Livresco

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Associação portuguesa lança manual prático para utilização de videojogos nas escolas

A AEPDV – Associação de Empresas Produtoras e Distribuidoras de Videojogos – , acaba de lançar o manual prático “Games in Schools”, que pretende ser mais um recurso para professores que procuram utilizar videojogos como complemento ao ensino, desde os primeiros anos de escolaridade até ao secundário.

Este manual, lançado primeiramente pela Video Games Europe (VGE), Associação Europeia de Produtores de Videojogos, aborda temas-chave como o porquê de utilizar os videojogos para fins educativos, bem como cenários pedagógicos sobre quando e como utilizar os videojogos. Além disso, aborda outros temas tais como a utilização de videojogos na aprendizagem, baseada em projetos temáticos, e a utilização de jogos para desenvolver a literacia e habilitações holísticas, como competências cognitivas, sociais, emocionais e criativas. O manual também destaca a forma como os videojogos podem apoiar a educação inclusiva.

“A gamificação do ensino é uma metodologia pedagógica que insere os videojogos no plano de estudos das crianças e jovens. Esta prática torna as aulas especialmente interativas e dinâmicas, contribuindo para um ambiente educacional mais rico. Este manual, largamente fundamentado em diversos estudos, resume os benefícios dos videojogos na educação, elimina alguns mitos e traça possíveis planos de aulas” afirma Tiago Sousa, Diretor Geral da AEPDV, uma das 14 associações locais que são membros da VGE.

Este documento integra um projeto mais abrangente, resultado da parceria da VGE com 34 Ministérios da Educação, em toda a Europa, e que já está a treinar professores e educadores sobre como usar videojogos comerciais para aprimorar o ambiente de ensino. O projeto também apoia o desenvolvimento de competências digitais, impulsiona a alfabetização digital e ajuda a preencher a lacuna de habilidades digitais na Europa.

O manual contém mais de 30 páginas de exercícios práticos sugeridos, recorrendo a jogos conhecidos como Minecraft; The Sims; versões online de jogos como Soduku ou ainda através de videojogos concebidos especialmente para a área da educação.

Fonte: Notícias de Coimbra por indicação de Livresco

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Canários na mina: suicídio de pessoas autistas

Setembro é o mês da prevenção do suicídio e a campanha nacional está a terminar sem uma palavra sobre as pessoas autistas. Não se pode dizer que estejam ausentes da estratégia nacional para a prevenção do suicídio, pois esta não existe ainda. Mas estão ausentes dos recursos disponíveis para a comunidade, para jornalistas e para profissionais de saúde disponibilizados pelo SNS. Esta situação tem de mudar, e o risco mais elevado de suicídio nas pessoas autistas deve ser reconhecido, tal como é nas pessoas LGBTQIA+.

Estudos recentes revelam que o suicídio é a principal causa de morte prematura em autistas sem deficiência intelectual, apresentando um risco até sete vezes maior quando comparado com a população em geral. Estas informações encontram-se na página da Associação Voz do Autista (APVA), num dos escassos materiais traduzidos para português sobre bem-estar e prevenção de suicídio no autismo, elaborado pela Sociedade para a Investigação em Autismo da Australásia em conjunto com pessoas autistas e tendo em conta a sua experiência vivida. Cerca de metade das pessoas autistas farão pelo menos uma tentativa de suicídio durante a sua vida, e não são atualmente reconhecidas como um grupo prioritário para atividades e financiamento da prevenção de suicídio.

O espetro do autismo foi redefinido ao longo do tempo para incluir pessoas cujas deficiências são invisíveis. Cada vez mais pessoas autistas são diagnosticadas em adultas, frequentemente no decorrer da procura de apoio mental para lidarem com manifestações de sofrimento, como ansiedade, depressão ou pânico. A razão subjacente é que as pessoas autistas têm um sistema nervoso central atípico que pode aprisioná-las facilmente em reações de luta, fuga, congelamento ou submissão, não conseguindo relaxar. Além disso, o ambiente social para as pessoas autistas é mais perigoso, e sabe-se que estão expostas desproporcionalmente a violência como o bullying e outros abusos, em virtude de serem percebidas como diferentes.

Por esta razão, as pessoas autistas são o canário da mina: sofrem mais com a pressão que recai sobre todos nós, têm menos fatores protetores e estão mais expostas a agressões quotidianas.

É sabido que só é possível viver na sociedade atual escondendo constantemente os nossos medos e necessidades para criar uma projeção de sucesso e bem-estar que frequentemente não corresponde a como nos sentimos. Para as pessoas autistas, o mascaramento provoca danos graves na saúde mental, levando à exaustão e ao burnout autista, que é um fator de risco para o suicídio. Estes danos podem acontecer sob a máscara do “alto funcionamento”, em que as pessoas continuam a trabalhar desempenhando um papel até não poderem mais.

É o caso de muitos médicos autistas, cuja realidade é bem diferente da personagem de Good Doctor. Os médicos autistas podem ter capacidades excepcionais e grande empatia, mas ficam exaustos com a burocracia da cultura médica, as hierarquias rígidas e as dinâmicas sociais complexas, ao ponto de um em cada quatro terem tentado suicídio em algum momento das suas vidas, como revelado por um estudo publicado a 18 de julho de 2023 na Frontiers of Psychiatry. Outro estudo no mesmo ano revelou que os estagiários de medicina autistas lutam contra o bullying, isolamento, ansiedade e sentem-se vitimizados por um sistema de formação médica que alimenta a cultura tóxica de que se devem habituar a maus tratos.

A prevenção de suicídio das pessoas autistas passa por permitir o desmascaramento (https://www.publico.pt/2021/04/02/p3/noticia/ha-dificuldade-falar-autismo-continua[1]preferivel-escondelo-desconforto-compreender-1956903) e por criar espaços seguros de interação onde haja maior ressonância entre as pessoas e autenticidade nos relacionamentos. Nas palavras de Lisa Morgan, especialista na prevenção do suicídio: “Compreender o autismo e a cultura das pessoas autistas, para que as pessoas autistas não precisem mascarar ou camuflar o seu autismo, é a prevenção do suicídio”.

A resposta deve ser social e comunitária: as pessoas autistas devem ser identificadas nas políticas nacionais de suicídio como uma população de risco; os profissionais da linha de frente devem atualizar-se e ter um conhecimento sólido sobre os entendimentos mais recentes de autismo e da sobreposição de autismo e doença mental; é fundamental que as pessoas autistas sejam envolvidas na conceção e implementação de estratégias de saúde mental e prevenção do suicídio, pois as experiências autistas de saúde mental e suicídio, stress e crise são diferentes e precisam de abordagens diferenciadas para que os meios disponíveis possam ser mais eficazes.

Por exemplo, tentativas de suicídio podem ocorrer em crianças autistas muito novas, e recomenda-se que os esforços de consciencialização e prevenção comecem durante os anos escolares; muitas pessoas autistas têm dificuldades em falar e ligar para linhas de apoio, mas conseguem usar chats e meios de comunicação escritos; algumas pessoas têm formas de pensamento literais que importa ter em conta para encontrar as palavras que podem fazer a diferença. Mudar a comunicação sobre suicídio é necessário e a diferenciação da prevenção do suicídio para pessoas autistas pode salvar vidas.

A criação de espaços seguros para pessoas autistas tem sido uma das prioridades da APVA. A associação tem em funcionamento grupos de apoio e um programa piloto de mentoria de pares designado “Sou autista, e agora?”. O programa está a ser desenvolvido no âmbito do projeto AUTICORPOS 2.0 – melhorar a saúde mental e bem-estar das pessoas autistas, co-financiado pelo INR, I.P., que contempla a tradução de recursos sobre a resposta ao suicídio elaborados com a participação de pessoas autistas.

Na comunidade autista, lembramos todas as pessoas que perdemos por suicídio (https://www.publico.pt/2020/10/10/p3/noticia/jovens-falaram-tanto-saude-mental[1]suicidio-problema-nao-falar-saber-fala-1934640) e as pessoas que ficaram. Reconhecemos o sofrimento duradouro do suicídio e as experiências complexas de todas as pessoas que contemplaram o suicídio em algum momento das suas vidas. Sabemos que as pessoas com experiência vivida podem proporcionar esperança, resiliência e apoio às pessoas em risco.

O risco de suicídio pode ser reduzido com fatores protetores, como o apoio de pessoas significativas, mas é preciso saber como ajudar. A resposta comunitária é vital e pequenos atos genuínos de bem-querer podem fazer uma grande diferença.

Se o ambiente ficar melhor para os canários, melhora para toda a gente na mina.

Rita Serra

Investigadora do Centro de Estudos Sociais, membro da Associação Voz do Autista (APVA), autista e mãe, com uma família neurodivergente

Fonte: Público de acesso livre

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Concurso “Escola Alerta!” 2024/2025 (21.ª edição)

Está aberto o Concurso "Escola Alerta!" 2024/2025.

O Instituto Nacional para a Reabilitação tem o gosto de convidar todas as crianças da Educação Pré-Escolar e todos os alunos e todas as alunas dos ensinos Básico e Secundário a participar neste Concurso com ideias e projetos para mais e melhor inclusão na Escola e na Comunidade envolvente, de forma que ninguém fique para trás.

Neste ano de 2024, em que se completaram 50 anos da Democracia em Portugal, decorrente da Revolução de 25 de abril de 1974, foi publicado um novo Regulamento para o “Escola Alerta!”. As principais alterações dizem respeito ao alargamento dos destinatários do concurso às crianças da Educação Pré-Escolar e aos alunos e alunas do Ensino Secundário, bem como ao aumento do número de categorias, que passaram de duas para três.

A tua participação é imprescindível, se queres que a tua Escola não exclua ninguém e seja um lugar onde todos/as os/as colegas possam ter as mesmas oportunidades, numa Escola para Todos.

Partilha as tuas experiências. Contamos contigo. PARTICIPA.
Sabe mais...

O concurso "Escola Alerta!" está incluído, desde a sua origem, no projeto da Educação Inclusiva, através do qual se pretende que todos/as os/as estudantes desenvolvam e participem ativamente em projetos que promovam a construção de sociedades mais justas e inclusivas, no quadro da Democracia, do respeito pela diversidade e pela defesa dos direitos humanos.

Para saber mais sobre os objetivos deste projeto consulta:

O Júri Nacional da edição de 2024/2025 tem a seguinte composição:
- Miguel Ferro (INR, I.P. - Instituto Nacional para a Reabilitação / Presidente do Júri)
- Adalberto Fernandes (Personalidade de Reconhecido Mérito)
- António Dias (Conselho Nacional de Educação)
- Ana Paula Monteiro (Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares)
- Fernando Campilho (Federação Portuguesa de Autismo)
- Joaquim Brites (Associação Portuguesa de Neuromusculares)
- Margarida Loureiro (Pró - Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial)

Concorre...

Para concorreres entrega o teu projeto e Formulário de Candidatura ao Júri da Escola.

Se o teu trabalho for selecionado, a tua Escola deve submeter uma candidatura com o projeto e a Ficha de identificação da escola e trabalhos realizados ao INR, I.P.

As candidaturas podem ser entregues:

- Via correio eletrónico, para inr@inr.mtsss.pt;

- em mãos, entre as 9h00 e as 18h00, até ao dia 28 de fevereiro de 2025 ou

- via correio registado com carimbo, até à mesma data, para o seguinte endereço:

Concurso "Escola Alerta!" 2024/2025

Instituto Nacional para a Reabilitação, I.P.

Av. Conde de Valbom, 63

1069-178 Lisboa

Começa já a contribuir ativamente para a criação de uma sociedade em que todos tenham oportunidades iguais, propondo ações que promovam os direitos das pessoas com deficiência.

Concorre ao "Escola Alerta!" 2024/2025!

Resultados da edição anterior do «Concurso “Escola Alerta!”
Premiados no Concurso "Escola Alerta!" 2023/2024

Categoria 1 (1.º Ciclo do Ensino Básico)

1.º Prémio

Candidatura intitulada “Gestos de Liberdade”, da Escola Básica n. º1 de Vila de Frades, do Agrupamento de Escolas de Vidigueira concelho de Vidigueira, distrito de Beja.

2.º Prémio

Candidatura intitulada “Ver o mundo através dos meus olhos”, da Escola Básica do Parque, do Agrupamento de Escolas Serafim Leite concelho de São João da Madeira, distrito de Aveiro.

Categoria 2 (2.º e 3.º ciclos do Ensino Básico)

1.º Prémio


2.º Prémio

Candidatura intitulada “Colorir a Cegueira”, da Escola Básica João de Barros, do Agrupamento de Escolas Grão Vasco concelho de Viseu, distrito de Viseu.
Indicadores de participação no Concurso “Escola Alerta!” 2023/2024

Na 20ª edição do concurso “Escola Alerta!” foram recebidas 11 candidaturas (3 da Categoria 1 e 8 da Categoria 2), apresentadas por 10 escolas, distribuídas por 8 distritos e nas quais estiveram envolvidos 365 alunos e 67 professores.

Fonte: INR

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Proibir os telemóveis nas escolas ou educar os alunos para o seu uso?

À medida que as tecnologias digitais se tornaram parte integrante das nossas vidas, o vício dos telemóveis também se tornou um problema no mundo da Educação. No entanto, parece que uma “recomendação” de proibição do uso de telemóveis nas escolas portuguesas (a Direção Regional de Educação da Madeira já referiu que não seguirá essa recomendação) resolverá todos os seus problemas atuais.

Observamos que esta é uma recomendação popular na sociedade civil, depois das manchetes de que a Suécia, a Finlândia e a Espanha reduziram (sim, apenas reduziram e não na generalidade) o uso de telemóveis nas escolas. A razão por detrás destas restrições parece ser a descida nos resultados académicos do último relatório PISA (OCDE, PISA, 2022), nomeadamente na matemática e na leitura (também será interessante rever os indicadores e dimensões que estes instrumentos avaliam e como avaliam). Esta ideia também parece sair reforçada pelo recente estudo de Sara Abrahamsson do Norwegian Institute of Public Health. Este estudo, realizado na Noruega, deixa claro que usar telefones sem propósito na escola pode levar a problemas como notas mais baixas e mais stresse. Outros estudos internacionais encontram evidências que suportam e refutam a noção de que a proibição da utilização de telemóveis melhora o desempenho académico. No entanto, aqui a tónica deve ser o “sem propósito”, pois o mesmo estudo de Sara Abrahamsson também sublinha que quando a tecnologia é bem utilizada pode tornar a aprendizagem divertida e eficaz. Sim, o que realmente importa é a forma como a tecnologia é usada para a aprendizagem.

Num mundo cada vez mais digital, a capacidade de utilizar a tecnologia de forma eficaz é crucial. Uma proibição pode limitar as oportunidades de os estudantes desenvolverem algumas competências essenciais. Restringir completamente o uso de telemóveis pode limitar as oportunidades dos alunos para desenvolverem competências essenciais de literacia digital, necessárias para as futuras carreiras e para ser competente numa sociedade de século XXI.

Portugal celebra meio século de liberdade, desde o fim de uma ditadura que sufocou gerações, e que deixou marcas profundas nas nossas vidas e no nosso conceito de democracia. Uma democracia que se baseia em princípios de igualdade, de cidadania e de liberdade. Mas, curiosamente, neste mesmo ano simbólico, a grande questão que agita a sociedade não é tanto a liberdade, mas sim a proibição dos… telemóveis nas escolas.

Compreendemos que na base da decisão está o facto de que proibir é sempre mais fácil do que educar, ou seja, enfatiza-se o problema da tecnologia e não de quem e como a utiliza, tal como se as árvores fossem as responsáveis pelos incêndios nas florestas.

É importante não esquecer que a proibição dos telemóveis nas escolas também não resolverá o problema central. O verdadeiro desafio está na educação para o uso consciente da tecnologia e esse só acontece usando-a. Ensinar uma criança ou um jovem a usar o telemóvel de forma responsável é como ensiná-la a nadar, e não o conseguimos fazê-lo sem a colocar dentro de água com o natural acompanhamento.

Pensamos que também o problema está mal colocado. Cremos que o que acontece é o excesso e uso abusivo fora da sala de aula, nomeadamente nos espaços de recreio e, maioritariamente, fora do contexto escolas (em casa). Sobre o primeiro aspeto, o facto de quanto mais as crianças ficam viciadas nos telemóveis, menos participam no envolvimento social, isso acontece nos intervalos de aula. Então é preciso limitar o uso nos recreios e não na sala de aula. Seria bom que as escolas definissem momentos ou espaços de utilização dos telemóveis, regulassem os recreios com a oferta de outras atividades. A simples falta de outras atividades e de redes sociais das crianças pode inibir interações sociais confortáveis, o que pode aumentar o seu desejo de “fugir” para os telemóveis. Ainda assim, seria bom que se analisasse o porquê de uma criança se refugiar sozinha num telemóvel; ao invés de o culpabilizar, compreender a causa.

Há ainda a questão de os jovens de hoje não lerem (no papel), porque não se valorizam e contabilizam leituras intermodais. No entanto, refere a APEL - Associação Portuguesa de Editores e Livreiros que o mercado livreiro português em 2023, obteve um aumento de 7% nas vendas face ao ano anterior. A maior mudança registada foi "no perfil dos compradores, tendo em conta que a faixa etária dos 25 aos 34 anos passou a ser a que mais compra (76%) e que a faixa etária dos 15 aos 24 foi a que respondeu ter comprado mais livros do que em 2022, com 41% do total dos inquiridos".

Sobre o segundo aspeto, o controlo parental é um mecanismo utilizado pelos adultos para controlar o acesso que as crianças podem ter a diferentes conteúdos ou equipamentos, mas também uma forma de colocar um limite à quantidade infinita de conteúdos e exposição, e essa não acontece em casa, onde o abuso de ecrãs acontece maioritariamente. Se um aluno chega à escola cansado, mal dormido e sem foco de atenção, a culpa é do telemóvel na escola ou do tempo passado em casa em jogos ou redes sociais, sem qualquer tipo de controlo ou supervisão?

O mais intrigante, no entanto, é entender a libertação que esta proibição traz para algumas famílias. Há pais que, ao que parece, encaram a escola como o lugar onde todas as responsabilidades devem ser depositadas, esquecendo que são eles muitas vezes que permitem que os seus filhos usem o telemóvel à mesa ou que durmam com o telemóvel no quarto. No fundo, transferem para a escola a tarefa de disciplinar e estabelecer regras. Os pais deveriam preocupar-se em passar tempo de qualidade com os filhos, estabelecer horários e definir regras claras.

Proibir os telemóveis na escola não é solução. Os telemóveis podem fornecer recursos educativos valiosos. Uma proibição total limita o acesso a estes recursos. Os telemóveis podem ser utilizados para apoiar a inclusão de diversos grupos de crianças e jovens, incluindo melhorar a acessibilidade do conteúdo educativo e aumentar a personalização da aprendizagem, nomeadamente aqueles que, por razões económicas, nunca têm acesso a estes dispositivos em casa.

Claramente, este é o momento de repensar e equacionar o papel dos pais no processo de educação e a sua parentalidade nos dias de hoje, havendo uma desresponsabilização desse papel. Os conteúdos digitais e os próprios equipamentos digitais estão sem revisão, pelo que ainda mais se justifica esse controlo parental, para não ampliar o prejuízo das crianças e jovens.

Ao olharmos para esta esquizofrenia sobre os telemóveis nas escolas, torna-se claro que o problema não é o telemóvel em si. O problema está em como o usamos e, mais importante, em como ensinamos as crianças e os jovens a usá-lo. Se deixarmos de lado a proibição e começarmos a promover uma utilização responsável, estaremos a formar cidadãos mais conscientes, preparados para enfrentar um mundo onde a tecnologia é omnipresente.

Marco Bento e José Alberto Lencastre

Fonte: Público na versão de acesso livre