sábado, 26 de maio de 2012

Missa às escuras em Coimbra para mostrar dificuldades dos invisuais



Uma missa às escuras vai ser celebrada domingo numa paróquia de Coimbra, com o objetivo de sensibilizar aqueles que veem para as dificuldades e potencialidades dos cegos e amblíopes.

A missa tem início às 21.15 horas, na Igreja de São João Baptista, zona da Portela, e será celebrada pelo padre Jorge Santos, que disse à Lusa que "tem andado a treinar" para ultrapassar as dificuldades impostas pela escuridão.

"A leitura do Evangelho neste domingo até a sei de cor, as outras leituras vão ser em braille (por invisuais)", afirmou o pároco, que admitiu poder valer-se, durante alguns passos da missa, de uma pequena vela.

Jorge Santos já aconselhou o coro e músicos que participarão na celebração a que "tentem treinar, para saber de cor" os cânticos e músicas.

Para que nenhuma luz entre no templo, "todos os vidros vão ser forrados de negro" e, mesmo assim, os fiéis convidados a vendar os olhos, para poderem melhor sentir na pele as limitações impostas pela escuridão, disse à Lusa Ana Eduarda Ribeiro, assistente social da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) em Coimbra, promotora da iniciativa.

O objetivo deste tipo de ações de sensibilização é também, disse a assistente social, "permitir perceber as potencialidades que existe na deficiência visual".

Vai ser uma experiência de "cerca de uma hora, quando os invisuais têm-na [a impossibilidade de verem] a toda a hora", afirmou Ana Eduarda Ribeiro, referindo que entre as maiores dificuldades relatadas no dia a dia pelos invisuais estão o facto de "as outras pessoas não se desviarem", para eles melhor circularem, e "obras mal sinalizadas e mal vedadas".

É a segunda vez que uma "missa às escuras" é celebrada naquela paróquia, embora agora se trate de uma missa à hora habitual - a última aos domingos -, sendo o resultado da coleta a favor da ACAPO.

A primeira "missa às escuras" foi celebrada há dois anos, numa colaboração da paróquia com a ACAPO Coimbra e, de acordo com o pároco e a assistente social, revelou-se "uma experiência muito interessante para todos".

Muitas das pessoas que assistiram à primeira missa "disseram ter ficado surpreendidas porque, de olhos vendados, estiveram mais atentas, não se distraíram com a pessoa do lado", referiu Ana Eduarda Ribeiro.

Ao padre Jorge Santos, os fiéis relataram ter vivenciado a missa "de uma forma mais profunda, com maior atenção, e que perceberam o que passam" os que não veem.

"Quando entraram na igreja e mesmo durante a comunhão tiveram de precisar sempre dos outros, foi uma experiência enriquecedora para todos, houve gente que se emocionou até às lágrimas", sublinhou o pároco.

À agência Lusa, o padre Jorge Santos disse que aprendeu com a primeira experiência "o sentido da comunhão, o quanto é difícil fazer a vida normal" na escuridão.

"Queremos também dizer (com a iniciativa) a todos os invisuais que a Igreja está com eles e não os esquece, que estejam abertos a outra luz, a de Cristo", declarou. 

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Querem desmantelar a escola pública?

As mais recentes medidas da tutela que visam o regresso a uma conceção conservadora do papel da escola e da função dos docentes (aumento do número de alunos por turma, segregação por níveis de aprendizagem, entre outros) colocam na ordem do dia, e uma vez mais, a defesa da escola pública.

Não estranha, que nesta escusada conjuntura de desalento e de fortes emoções, os profissionais do ensino com mais consciência social e cultural vejam os perigos que espreitam a escola democrática, erguida sobre a estrutura de ensino elitista que o Portugal do após Abril herdara da ditadura.

Convenhamos que o então ainda sonho de pensar uma escola que promovesse a igualdade de oportunidades e atenuasse as desigualdades sociais se viria a revelar como um dos grandes mitos educativos das últimas décadas do século XX.

Porém, tal não invalida que, mesmo os mais céticos, não reconheçam que as democracias europeias estão longe de poder inventar uma outra instituição capaz de corresponder, com tanta eficácia, às demandas sociais, quanto o faz ainda hoje a escola pública de massas.

Mesmo sabendo que fenómenos mais ou menos recentes, como o são o abandono e o insucesso escolar, a reprodução das desigualdades dentro da comunidade educativa, a incapacidade de manter currículos que valorizem para a vida, a erosão das competências profissionais dos docentes, acompanhada pela perda de estatuto remuneratório e social, são problemáticas que colocam em causa os pressupostos dessa mesma escola pública.

Hoje, a vida nas escolas é muito menos atraente para quem nelas estuda e trabalha e a desmotivação dos professores e dos educadores acentua-se com a degradação das suas condições de trabalho.

Todos sabemos, ou julgamos saber, como deve ser e o que deve ter uma escola pública que promova a aprendizagem efetiva dos seus aprendentes e o bem-estar e a profissionalidade dos seus formadores.

Todavia, há uma questão que introduz toda a entropia nestas instituições, e esta surge quando os governos se deitam a fazer contas sobre quanto custa garantir esses direitos. Sobretudo, quando os políticos sabem que todo o investimento em educação só produz efeitos a longo prazo.

Não queremos uma escola pública que seja de baixa qualidade. Por isso estamos com todos aqueles que afirmam ser urgente relançar a escola pública pela igualdade e pela democracia. Uma escola que seja exigente na valorização do conhecimento, e promotora da autonomia pessoal. Uma escola pública, laica e gratuita, que não desista de uma forte cultura de motivação e de realização de todos os membros da comunidade escolar. Uma escola pública que reconheça que os seus alunos são também o seu primeiro compromisso, que seja lugar de democracia, dentro e fora da sala de aula, que se revele enquanto espaço de aprendizagem, e que se envolva no debate, para refletir e participar no mundo de hoje.

Formar a geração de amanhã não é tarefa fácil. Mas será certamente inconclusiva se escrutinarmos a escola e o trabalho dos professores apenas segundo critérios meramente economicistas, baseados numa filosofia de desenvolvimento empresarial. A escola é muito mais que isso: é filha de um outro espaço social e de um outro tempo matricial. Logo, se o quisermos, neste assunto nada se deveria confundir, quando claramente estabelecidas as fronteiras sociais do quadro de competências e dos objetivos de missão de cada uma daquelas instituições.

Defender a escola pública, nesta conjuntura de inexplicável desvario, é muito urgente. Para tal, revela-se necessário que voltemos a exigir políticas públicas fortes, capazes de criar as condições para que a escolaridade obrigatória seja, de facto, universal e gratuita e se assuma, sem tibiezas, que o direito ao sucesso de todos é um direito fundador da democracia e do Estado português.

João Ruivo
ruivo@rvj

Nota: Por iniciativa própria, o texto foi adaptado segundo o acordo ortográfico.

Matrizes Curriculares dos Ensinos Básico e Secundário

O Ministério da Educação e Ciência apresenta agora as matrizes curriculares que entrarão em vigor no ano letivo de 2012-13. Após a apresentação da proposta da revisão da estrutura curricular, em dezembro de 2011, e a consulta pública que se lhe seguiu, foram anunciadas, em março de 2012, as principais decisões tomadas. Estas matrizes farão parte integrante do Decreto-Lei a publicar brevemente, que estabelece os princípios orientadores da organização e da gestão dos currículos, da avaliação dos conhecimentos e capacidades a adquirir e a desenvolver pelos alunos e do processo de desenvolvimento dos ensinos básico e secundário. 

In: DGE

SESSÃO SOFTWARE LIVRE INCLUSIVO

A Direção-Geral da Educação, através dos Serviços de Educação Especial, vai promover uma sessão pública sobre software livre inclusivo, no próximo dia 4 de Junho, entre as 10h00 e as 16h00, no Auditório da DGE (Avª 24, Julho 140).

A sessão será orientada por três professores brasileiros António Borges, Dolores Tomé e Fábio Bonvenuto e dirige-se a professores e profissionais que trabalham com alunos com cegueira e/ou com baixa visão.

Tem por objetivo fazer a demonstração de alguns produtos, entre os quais Braille Fácil, Dosvox e Musibraille e esclarecer questões sobre o seu funcionamento. 

Sessão Software Livre Inclusivo
Apresentadores: Dolores Tomé, António Borges e Fábio Bonvenuto
Data: 4 Junho 2012
Horário: 10h00-12h30 e 14h00-16h00 
Local: Auditório da DGE

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Família pede exame nacional ampliado para estudante com pouca visão

A ampliação dos testes para uma aluna com glaucoma tem sido recusada, mas Ministério da Educação garante que continua a analisar o caso.


A família de uma aluna da Escola Secundária de Valongo com glaucoma quer que esta estudante possa ver ampliados os seus testes de A4 para A3 nos exames nacionais à semelhança do que tem acontecido ao longo de todo o ano.

Em declarações, o pai desta aluna conta que o júri nacional de exames lhe disse que o «ideia seria arranjarem uma lupa para resolver o problema».

Nuno Teixeira disse que a sua filha que estuda no 11º ano e tem média de 16 valores reagiu com tristeza a esta decisão e questionou-se mesmo se valeria a pena continua a estudar.

A direção da escola de Valongo confirmou que este júri tem dito que há dois anos que as ampliações de exames são proibidas, passando a alternativa por ler a prova no ecrã de dois computadores com ampliação sendo as respostas escritas no papel.

Esta alternativa não agrada ao pai desta aluna, estudante que tem um problema semelhante ao já vivido pela presidente da Associação de Apoio à Informação a Cegos e Amblíopes.

Teresa Vaz, que tem uma alta miopia, contou que teve o mesmo problema há dois anos quando fez o exame de acesso à universidade, quando foi recusada a ampliação do teste e lhe foi dada uma versão digital do exame.

Também em declarações, a presidente da Associação de Apoio à Informação a Cegos e Amblíopes lembra que esta aluna está habituada a trabalhar com A3 e que «quando se depara com algo novo é uma dificuldade».

«Para quem tem limitações e não costuma utilizar, mesmo com aquele tempo de exame que nos dão a mais é muito cansativo, porque temos de estar muito atentas», lembrou.

Fonte do Ministério da Educação garantiu que o júri nacional de exames continua a analisar o caso desta aluna, posição diferente daquela que foi transmitida à família por telefone e aos professores.


Comentário:
À semelhança de outros casos tornados públicos, por vezes escuso-me a comentar, sobretudo por desconhecer todos os meandros da situação.
Neste caso em concreto, vou-me abster de alongar os comentários porque tenho a convicção de que o júri Nacional de Exames vai atender a solicitação da aluna! Caso contrário, constitui mais um passo atrás na política educativa e da educação inclusiva em Portugal. 


Governo reforçou poderes de diretores e professores

Mais poder para os diretores e um conselho pedagógico mais profissionalizado, ou seja, constituído só por professores, são as principais alterações ao diploma de autonomia das escolas. 

O conselho de ministros desta quinta-feira aprovou finalmente o diploma sobre autonomia e gestão das escolas. Em conferência de imprensa, o ministro da Educação e Ciência Nuno Crato diz que o texto foi feito de acordo com negociações com todos os parceiros, das autarquias aos sindicatos e representantes dos pais.

Há muito que as escolas esperavam por este diploma, de maneira a poder aplicar as principais alterações previstas na preparação do próximo ano letivo, que começa em setembro.

O diploma prevê que as escolas tenham autonomia para flexibilizar planos curriculares próprios, informa. "Maior autonomia" para os estabelecimentos de ensino, faz questão de sublinhar o governante.

Em breve, o ministério dará conta de mais pormenores sobre como é que se vai traduzir esta autonomia, mas Nuno Crato levanta o véu: as escolas poderão decidir os horários das disciplinas e organização dos tempos lectivos; bem como terão liberdade para definir créditos horários e gerir o tempo dos docentes.

Para tudo isso, haverá um reforço da figura do diretor de escola, acrescenta Nuno Crato. Os diretores serão eleitos pelo conselho geral – orgão da escola onde está representada toda a comunidade – o que lhes dará "maior legitimidade". Além disso, deverá ter formação em gestão escolar. "O que queremos é que, progressivamente, o corpo de diretores do país tenha maior formação específica em aspectos que têm a ver com gestão e não diretamente com a docência", explica o ministro. O diretor não tem de ser um professor do agrupamento, mas poderá ser escolhido fora da escola.

Também o conselho pedagógico terá um "caráter mais profissional", diz o governante. "O diretor em articulação com os professores são as peças fundamentais e estamos a reforçar o papel do professor no conselho pedagógico", sublinha.

Quanto ao conselho geral continuará a ter os diferentes intervenientes. Será aí que os pais e encarregados de educação estarão representados.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Criança de seis anos impedida de frequentar escola por ser hiperativa

Uma criança, de seis anos, foi hoje impedida pela direção escolar de frequentar o estabelecimento de ensino, em Viana do Castelo, por alegadamente estar "suspensa" devido ao comportamento hiperativo e nem a intervenção da PSP permitiu inverter a situação.

Durante cerca de uma hora, a criança e os avós, que assumiram a tutela desde o primeiro ano de vida do menor, estiveram à porta da Escola da Avenida, na cidade de Viana do Castelo, mas da parte da direção receberam apenas o pedido para terem "paciência" e que a criança estava "suspensa" devido ao seu comportamento.

"Ele é hiperativo, não para um segundo e isso é verdade. Não tem mais nada de especial e estava a ser acompanhado por uma especialista aqui na escola, porque em casa o comportamento é praticamente normal", explicou Vítor Araújo, o avô.

A situação e os alegados conflitos da criança na turma do primeiro ano que frequenta naquela escola são conhecidos desde setembro, nomeadamente com episódios de violência até sobre alguns colegas, professores e auxiliares, mas tudo se agudizou na semana passada.

"Numa destas crises, partiu uma janela e o Agrupamento de Escolas deu ordem que quando acontecesse alguma coisa do género tinha de ir para o hospital. Mas nós só fomos avisados quando ele já estava lá", acrescentou Ana Paula Silva, a encarregada de educação, que trabalha a poucos metros da escola.

A criança, que alegadamente reage mal quando contrariada, passou os dias de sexta, segunda e terça-feira sem ir à escola e fez, entretanto, nova troca de medicamentos "para tentar ajustar o comportamento", até que hoje se preparava para regressar.

"Aqui à porta disseram-me que ele está suspenso, não pode frequentar a escola e que para a semana haverá uma reunião entre todas as partes para decidir. Enquanto isso, esteve a ver os colegas a entrarem e ele sem o poder fazer. Isto é revoltante para qualquer pessoa", desabafou ainda.
(...)

TV Ensino: Um elo entre aprendizagem e audiovisual

É uma verdadeira "sala de aula" virtual em língua portuguesa. Aprender a fazer divisões, converter frações para números decimais ou calcular a área de um retângulo tornou-se mais fácil e mais divertido. Tudo porque um professor luso decidiu transpor as aulas para um espaço mais alargado e partilhar com alunos de todo o país e até de além-fronteiras os seus conhecimentos. Assim nasceu a TV Ensino, que oferece vídeos educativos à distância de um clique.

Depois de, em 2008, fundar o blog EnsinoBasico.Com - atualmente o blog mais visitado em Portugal na área da educação - David Azevedo sentiu a "necessidade de utilizar o audiovisual". Inspirado na iniciativa KhanAcademy, que disponibiliza milhares de vídeos sobre áreas tão díspares como a economia e a química, o docente de 31 anos criou, em 2010, um canal no Youtube.

Pediu autorização a Salman Khan, indiano mentor da KhanAcademy, para "recriar" a ideia e a resposta positiva foi quanto bastou para o fazer avançar. Atualmente, são 81 os vídeos oferecidos pelo canal da TV Ensino, que conta com quase 600 subscritores.

"Todos os vídeos são feitos de raiz, criados por mim. Não são traduções mas sim "recriações" dos originais da KhanAcademy", explica David em entrevista ao Boas Notícias. "Porém, ao contrário do Salman Khan, que dedica o seu tempo profissional ao projeto, eu sou professor a tempo inteiro, pelo que faço os vídeos nas horas livres", conta. 

Por agora, estes vídeos educativos são apenas sobre matemática - que David leciona - mas a ambição do mentor é alargar a oferta a outras disciplinas e a vários anos escolares. "A minha ideia é recriar um currículo completo em vídeo, desde a 1ª classe ao 9º ano", revela David, que aproveita para apelar "a mais interessados" que se juntem a ele para "facilitar" a tarefa.

Os vídeos são simples, mas são também diretos e apelativos: sobre um "quadro" negro, explicam-se, com uma "caneta" virtual e números coloridos, os procedimentos muitas vezes vistos como uma dor de cabeça pelos mais pequenos.
A ideia tem sido muito bem recebida não só pelos alunos e pais mas pelos próprios professores. Uma vez que se trata de uma plataforma online é difícil fazer uma estimativa, mas David adianta que "os vídeos são utilizados por vários professores em atividades em contexto de sala de aula", exemplificando com um agrupamento de escolas de Vila Nova de Gaia, onde os docentes têm adotado este auxiliar com sucesso. 

Além disso, o professor salienta que tem recebido "centenas de comentários amplamente positivos". Esta recetividade é, aliás, no seu entender, o mais gratificante. "A minha maior recompensa é saber que ajudei alguém a superar dificuldades na aprendizagem da matemática", confessa.

A TV Ensino é uma peça fundamental do EnsinoBasico.com, mas está longe de ser a única. O blog é um autêntico centro de recursos e atividades e conta, neste momento, com diversas outras valências como o Dúvida!, que responde a dezenas de perguntas por semana, e uma comunidade que partilha fichas gratuitamente, e o projeto continua a crescer.

"Estou a preparar uma plataforma de gestão de turmas e de testes online", desvenda David. Mas, e a longo-prazo, qual é o grande objetivo? O professor não hesita na resposta. "Gostava de dar a conhecer a TV Ensino aos falantes de português nos quatro cantos do mundo", conclui.

Clique AQUI para conhecer o blog EnsinoBasico.com e AQUI para aceder ao canal da TV Ensino.

A dislexia das crianças e a dislexia dos que mandam. Crónica de Santana Castilho

O júri nacional de exames (JNE) recusou que a uma aluna de 14 anos fosse lido o enunciado do exame a que se submetia, obrigatoriamente. A aluna é disléxica. A leitura era prática seguida há anos. Aparentemente, a questão resume-se a saber se a um aluno disléxico devem ou não ser lidos os enunciados dos exames. O JNE diz que não. 

Os especialistas dizem que sim, pelo menos em casos determinados, dependendo da dificuldade do aluno. No caso em apreço, a escola da aluna recomendou a leitura. A terapeuta que a assiste também, aliás secundada pela respectiva direcção regional. Alega o JNE que os alunos disléxicos têm uma tolerância de 30 minutos relativamente ao tempo de duração das provas e são classificados segundo regras concebidas para que as suas limitações não se reflictam no resultado final. O JNE invoca uma generalização de abusos quanto a condições especiais, que se tornaram regra para alunos disléxicos. Da literatura disponível sobre a matéria inferem-se factos, a saber: a dislexia é uma limitação do foro neurológico, com diferentes graus de gravidade; uma dislexia moderada pode dispensar a leitura do enunciado dos exames, mas uma dislexia severa não; assim, alguns disléxicos podem cognitivamente dominar um saber e prová-lo se interrogados oralmente, embora não consigam entender ou sequer ler a pergunta, se esta for formulada por escrito. Num exame de Matemática, por exemplo, mede-se um conhecimento específico que um aluno pode deter em grau máximo, apesar da sua dislexia severa. Mas não o conseguirá provar se as questões estiverem escritas. Num exame de Português, o mesmo aluno pode ter uma fina capacidade de interpretar um texto complexo que lhe seja lido. Mas não entenderá coisa alguma se for obrigado a lê-lo. Pode o Estado certificar proficiência em leitura a um aluno com uma dislexia severa? Não. Mas não pode deixar que a limitação do aluno se reflicta noutras áreas do conhecimento, somando à respeitável penalização da natureza humana com que aquele aluno nasceu, outra penalização, desta feita nada respeitável. Porque entre o tempo em que se fechavam em galinheiros crianças deficientes e hoje houve um percurso, embora a tónica esteja agora posta em retrocessos a que chamam progressos. Não é redundante, por isso, recordar a alguns disléxicos que mandam que estão para breve mais exames a que se submeterão mais alunos disléxicos, com níveis de conhecimento que nunca poderão demonstrar se os econometristas da moda persistirem em confundir velocidade com toucinho, uma recorrente dislexia política dos tempos que correm.

Santana Castilho
Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)
Parte da crónica publicada no jornal Público, mantendo a grafia anterior ao acordo ortográfico, retirada daqui.

terça-feira, 22 de maio de 2012

São alunos especiais. Não ouvem, não veem mas têm sucesso

São jovens de uma escola de afetos e exigências em Penafiel. Um caso de integração no sistema público de ensino onde a tempestade chegou este ano letivo.
Para ver a notícia, aqui.