sexta-feira, 7 de junho de 2019

Singapura acaba com rankings escolares já no próximo ano letivo

Singapura vai abolir os rankings escolares no próximo ano letivo. Os alunos deixarão também de saber em que lugar ficaram na avaliação. A medida histórica é ainda mais surpreendente tendo em conta que o sistema de educação do país é considerado um exemplo para o resto do mundo.

A medida tem como objetivo combater o elevado stresse que os pais colocam nos filhos desde o primeiro ano - aos fins de semana as crianças têm aulas de enriquecimento curricular para conseguirem ficar nos primeiros lugares da classe. Segundo o Ministro da Educação Ong Ye Kung, com a eliminação de notas pretende-se mostrar aos estudantes que "aprender não é uma competição", conta a imprensa internacional.

Os melhores alunos de Singapura nas áreas de Matemática, Ciência e Leitura, vão continuar a ter avaliações, mas estas irão limitar-se a "observações mínimas e máximas". Não haverá registo de notas nem comparação com outros colegas, e o Ministério da Educação vai também abolir o termo "aprovado" e "reprovado" nos resultados finais.

Os alunos do Ensino Básico também vão deixar de fazer testes. O ministério explicou que os professores poderão acompanhar o progresso dos alunos através de debates, trabalhos de casa e questionários.

Segundo o ministro da Educação, a caderneta escolar vai conter informações que irão permitir aos alunos julgarem o seu desempenho académico e avaliarem os seus pontos fortes e fracos.

Singapura ocupa o primeiro lugar no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), principal referência internacional de qualidade da educação, aplicado a estudantes de 15 anos de 70 países.

Fonte: DN

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Declaração sobre Educação e Cidadania

No âmbito da Conferência Internacional intitulada «Educação, Cidadania, Mundo. Que escola para que sociedade?», dirigentes e técnicos de serviços públicos e da sociedade civil, alunos e professores, refletiram sobre o papel da escola pública na construção da sociedade democrática, num contexto global em mudança e com crescente interdependência.

Observando a centralidade conferida à Educação para Cidadania, no quadro do Estado Democrático, em Portugal, consagrada na Constituição de 1976 e na Lei de Bases do Sistema Educativo de 1986 e tendo presente a relevante experiência portuguesa neste domínio e o seu quadro de referência, Perfil do aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória, em articulação com outras medidas e instrumentos de politica educativa, designadamente a Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania, a Autonomia e Flexibilidade Curricular, a Educação Inclusiva e as Aprendizagens Essenciais, resultou daquela conferência uma Declaração sobre Educação e Cidadania que pode ser consultada em língua portuguesa, espanhola e inglesa.

Fonte: DGE

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Alunos de Línguas e Humanidades são os mais avessos a ir para a universidade

Entre os alunos dos cursos científico-humanísticos do ensino secundário, os que escolhem a opção de Línguas e Humanidades são os que mais optam por não prosseguir estudos no superior. Foi o que aconteceu com 30% dos estudantes de Línguas e Humanidades que concluíram o ensino secundário em 2016/2017, uma proporção que duplica a registada pelos seus colegas das áreas de Ciências.

Estes são alguns dos dados revelados num novo estudo da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), que se propôs detetar qual a percentagem de alunos que, um ano depois de terem concluído o ensino secundário, estavam a estudar numa instituição do ensino superior. Para esse efeito, a DGEEC acompanhou o percurso individual dos alunos que concluíram o ensino secundário em 2016/2017 para determinar se estes estavam ou não inscritos no ensino superior no ano lectivo seguinte (2017/2018).

Do conjunto dos alunos dos cursos científico-humanísticos, que ainda representam mais de metade dos estudantes do secundário, 20% não tinham seguido para o ensino superior, uma proporção que se tem mantido estável nos últimos anos.

Desagregando pelo tipo de opção seguida, constata-se que os alunos dos cursos de Ciências e Tecnologias e Ciências Socioeconómicas são os que menos desistem de seguir para o superior logo após concluírem o secundário. Os que não prosseguiram estudos representam respetivamente 14% e 15% dos alunos destas áreas. Com os alunos de Artes Visuais tal acontece com 27% dos estudantes, uma proporção que sobe para 30% na opção de Línguas e Humanidades, que é a segunda em número de estudantes.


Para o presidente da Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior João Guerreiro, esta é uma situação que ainda não se encontra convenientemente estudada, o que o obrigou aliás a procurar informação junto de vários outros especialistas para poder avançar com hipóteses de explicação (...). “Normalmente os alunos que vão para Línguas e Humanidades já acabam o 9.º ano com notas mais baixas dos que aqueles que seguem para outras áreas. E quando acabam o secundário não continuam estudos porque não é isso que pretendem, não estão vocacionados para seguir esse caminho”, adianta João Guerreiro.

Uma situação bem diferente é a dos alunos de Artes Visuais, embora também 27% não prossigam estudos para o ensino superior. “São alunos particularmente bons, que as universidades estão desejosas de receber, mas que têm o mesmo bloqueio de acesso ao superior que é colocado aos estudantes dos cursos profissionais”, alerta. Mais concretamente, para concorrerem ao ensino superior são obrigados a fazer exames a disciplinas que não constam dos planos de estudos em vigor para estas formações.

Essa é uma das razões que justifica o facto de 82% dos alunos que concluíram o ensino profissional em 2016/2017 não se encontrarem no superior um ano depois. 



Entre os alunos que em 2016/2017 concluíram o ensino secundário em cursos profissionais, 12% estavam no ano seguinte inscritos nos novos cursos Técnicos Superiores Profissionais (Tesp). Estes cursos, que arrancaram em 2014/2015, são ministrados nos institutos politécnicos, tendo uma duração de dois anos. Não conferem um grau académico.

A existência ou não desta oferta é uma das razões que explica a desproporção que se faz sentir a nível regional no que respeita aos alunos que vieram do profissional e estão a estudar numa instituição do ensino superior. No distrito de Bragança são 42%, enquanto que em Lisboa e no Porto não vão além dos 14%.

Fonte: Público

terça-feira, 4 de junho de 2019

Escolas preparam alunos para um “mundo que já não existe”

O futuro das crianças que se iniciam agora na escola é uma incógnita mas, mesmo assim, continuam a ser ensinadas através de “um programa curricular pensado há muitos anos”, criticou Rod Allen, mentor e co-autor de uma profunda reforma curricular no Canadá, que esta terça-feira esteve no Encontro Nacional de Autonomia e Flexibilidade Curricular, a decorrer na Figueira da Foz.

A mudança no Canadá surgiu quando se aperceberam que estavam “a preparar os alunos para um mundo que já não existia”, recordou o ex-vice-ministro adjunto da província canadiana da Colúmbia Britânica.

“Hoje, se queremos saber alguma coisa temos os telemóveis que sabem muito mais do que nós”, ironizou, explicando que do outro lado do Atlântico decidiram mudar o enfoque: “Já não é importante o que sabemos, mas sim o que fazemos com o que sabemos”.

Deixou de fazer sentido a ideia de que a escola servia para debitar informação que era memorizada até ao dia do exame e rapidamente esquecida para decorar outra matéria. O foco transferiu-se do “saber” para o “perceber”.

“Não estamos formatados para aprender em fábricas”, defendeu Rod Allen, explicando que quando um professor ensina apontando para a média da sala de aula acaba por “perder metade da turma”.

A diversidade de estudantes obriga a um ensino que permita aos alunos “explorar paixões e vontades” numa escola onde a relação entre professores e estudantes mudou, afirmou.

“Temos professores excelentes que fazem magia na sala de aula”, disse o especialista, explicando que na sua província já não há hierarquia entre docentes e alunos: “São todos iguais, são todos aprendizes, só que uns são mais velhos do que outros”.

Para o sucesso do novo programa, envolveram os alunos e deixaram que participassem na sua própria aprendizagem, à semelhança do que aconteceu este ano em Portugal.

A escola passou a preocupar-se em ensinar a trabalhar em equipa, dar ferramentas para que os alunos tivessem capacidade de resistência ou conseguirem resolver um problema, exemplificou Rod Allen.

A aparência da escola também mudou. Houve quem tirasse as secretárias das salas de aula, quem permitisse aos alunos aprender em todos os espaços da escola ou optasse por sair para fora dos muros do recinto escolar para aprender.

“Pode parecer o caos, mas é desafiante”, explicou, acrescentando que também os manuais escolares deixaram de ser a peça chave da sala de aula.

A ideia é “alterar as escolas para que deixem de ser fábricas, mas sim sítios de aprendizagem”, lembrou o especialista que acredita que “todos os alunos podem aprender” e “ninguém é deixado para trás”.

Esta ideia também foi defendida pela secretária de estado adjunta e da Educação, Alexandra Leitão, que hoje apontou o programa de autonomia e flexibilidade curricular como uma das medidas do Governo que veio permitir uma “escola mais inclusiva”, mas também “mais exigente”.

O programa de flexibilidade garante que a “escola não deixa ninguém para trás”, acrescentou Alexandra Leitão, sublinhando a confiança nas escolas e a “capacidade e motivação dos professores” que tornaram realidade o primeiro ano de aplicação do programa de autonomia e flexibilidade curricular em todas as escolas.

Quando o novo programa curricular foi posto em prática no Canadá “houve muita gente preocupada”, mas “os resultados dos alunos melhoraram”, garantiu Rod Allen.

Por cá, também há quem se mostre receoso em relação às aprendizagens, mas o grupo de alunos que hoje esteve na conferência na Figueira da Foz garante que aprende mais agora e diz preferir esta “nova escola”, com mais liberdade, mas também mais responsabilidade.

Fonte: Observador

Atualização do regime de constituição de grupos e turmas

O Despacho Normativo n.º 16/2019, de 4 de junho, vem introduzir alterações ao Despacho Normativo n.º 10-A/2018, de 19 de junho, sobre o o regime de constituição de grupos e turmas e o período de funcionamento dos estabelecimentos de educação e ensino no âmbito da escolaridade obrigatória.

Assim, destacam-se as seguintes alterações:

- Nos cursos científico-humanísticos e nos cursos do ensino artístico especializado, nas áreas das artes visuais e dos audiovisuais, no nível secundário de educação, no 10.º ano de escolaridade, o número mínimo para abertura de uma turma é de 24 alunos e o de uma disciplina de opção é de 20 alunos, sendo o número máximo de 28 alunos.

- Nos cursos científico-humanísticos e nos cursos do ensino artístico especializado, nas áreas das artes visuais e dos audiovisuais, no nível secundário de educação, nos 11.º e 12.º anos de escolaridade, o número mínimo para abertura de uma turma é de 26 alunos e o de uma disciplina de opção é de 20 alunos, sendo o número máximo de 30 alunos.

- Nos cursos profissionais, as turmas do 1.º ano do ciclo de formação são constituídas por um número mínimo de 22 alunos e um máximo de 28 alunos.

- Nos cursos científico-humanísticos, as turmas são constituídas por um máximo de 24 alunos, sempre que no relatório técnico-pedagógico seja identificada como medida de acesso à aprendizagem e à inclusão a necessidade de a turma que o aluno frequenta ser reduzida, não podendo esta incluir mais de dois alunos nestas condições.

- Para efeitos da redução prevista acima, devem as escolas, no âmbito da sua autonomia, ter em consideração critérios de continuidade pedagógica, a necessidade de promoção da equidade e do sucesso escolar, bem como as condições das infraestruturas escolares, assegurando condições de acompanhamento adequado aos alunos cujo relatório técnico-pedagógico identifique como medida de acesso à aprendizagem e à inclusão a necessidade de a turma que o aluno frequenta ser reduzida.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Queda no número de alunos já chegou ao ensino secundário

A queda do número de alunos já chegou ao ensino secundário, que nos últimos anos tinha de conseguido escapar a este fenómeno devido ao aumento da escolaridade obrigatória, que passou de nove para 12 anos. Os dados preliminares relativos a 2017/2018 divulgados nesta segunda-feira pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) dão conta de uma redução de cerca de sete mil alunos por comparação ao ano letivo anterior.

O número total de alunos jovens inscritos em escolas do continente passou de 338.898 em 2016/2017 para 332.283 em 2017/2018. No conjunto do ensino básico e secundário as escolas perderam num ano 32.288 alunos.

De acordo com os dados da DGEEC a queda mais acentuada registou-se na educação pré-escolar (três aos cinco anos) que passou de 240.896 inscritos para 226.944. No ensino básico (1.º ao 9.º ano), o número de estudantes desceu de 916.420 para 904.699. Neste nível de ensino o 3.º ciclo é o que perde mais estudantes (menos 4670).

A queda no número de alunos tem vindo a registar-se desde o ano lectivo 2007/2008 devido à queda da natalidade em Portugal. E só não foi ainda maior por causa do alargamento da escolaridade obrigatória até aos 18 anos, que se tornou efectivo a partir de 2012/2013. Mas esta almofada já desapareceu. E no próximo ano letivo o fenómeno deverá começar a atingir o ensino superior.

O problema da baixa natalidade agudizou-se ainda mais nos anos da troika, o que também se está agora a fazer sentir nas escolas. Neste ano letivo que está agora a acabar houve uma diminuição de cerca de cinco mil alunos no 1.º ciclo, segundo dados também provisórios da DGEEC.

A previsão deste organismo é de que até 2020/2021 as escolas públicas venham a perder 109 mil estudantes por comparação ao que tinham há cinco anos atrás. Entre 2016/2017 e 2017/2018 o ensino público perdeu 15.573 alunos e o privado registou menos 1675 inscritos.

Fonte: Público

domingo, 2 de junho de 2019

Ensino Doméstico em Portugal (e noutros países), para quê, para quem e porquê, já agora?

Há pouco tempo foi publicado na Visão mais um artigo sobre o Ensino Doméstico em Portugal. Com exceção de dois ou três artigos recentes, ambos escritos por jornalistas, Ana Kotowicz e António Moura dos Santos, a maioria da escrita sobre este tema tende a ser superficial e pouco informada, o que é pena, sobretudo porque quem escreve se apresenta como especialista no tema. Seja o que for que depois concluíram para si, quando o fizeram no espaço público, a Ana e o António, fizeram-no na sequência de uma visita de longa estadia, um Erasmus, investigação etnográfica. Qualquer que seja o desenho de investigação, é importante que se considere que o assunto é muito complexo e que as variáveis são muitas. Se a análise se assume como científica, porém, então é preciso não esquecer que a ciência é um processo que, ao contrário da ideologia, se distingue pela flexibilidade intelectual (que parece faltar nas abordagens especialistas em Portugal), pela a aceitação graciosa, agradecida, embora por vezes relutante, da necessidade de mudar a mentalidade, à medida que nossa compreensão do mundo evolui (porque o mundo, evolui, é certo). A maioria das pessoas não são revolucionárias, nem cientistas. Mas qualquer um que aspire a estar bem informado deve compreender não apenas as descobertas cientificas mais importantes, mas também a sua natureza provisória, e a necessidade de evitar a rigidificação das categorias: saber quando é tempo de abandonar um paradigma e substitui-lo por um novo. Mais, o cientista tem de ver esta transição como progresso, em vez de sinal de fraqueza, o que é mais difícil do que se pode imaginar. Um bom paradigma é uma coisa muito difícil de se perder (Barash, 2015, Paradigms Lost).

É natural que uma forma de educar que pode ser tão diferente do que tem sido a educação (e continuará a ser) da maioria das pessoas possa intrigar. A educação de uma pessoa, enquanto objeto de estudo, não pode ser tratada como um fenómeno linear e causal. Envolve questões ideológicas e económicas e de contexto. E não podemos considerar que determinados métodos e hábitos da escolarização sejam naturais e necessários, só porque em tempos funcionaram bem.

Termino esta primeira parte, trazendo à luz A questão que continuamos a tratar como se fosse uma espécie de alergia. Incomoda às vezes. É sazonal. Todos passam por isso, e ninguém se magoa (supostamente). A escola NÃO é, per se, o melhor contexto de sociabilização. Para algumas pessoas é ou foi. Para outras não é, não foi, nunca será. Quanto maior, mais povoada, de pessoas e conteúdos, menos cumpre essa sua possível função. Outra vez a história da massificação. Há muitos miúdos que não se adaptam. Cada vez mais. Há muitos que não aprendem. Aprender não é uma coisa que se faça à pressa, na confusão indistinta das paisagens sonoras de uma mega-escola.

Respiguemos algumas observações do artigo, na expectativa de que tragam outra possibilidade de entendimento. A intenção não é provocar ou fazer juízos de valor, mas antes trazer outros elementos para um debate saudável. Para que como investigadores, cultos e adultos, possamos analisar graciosa e agradecidamente esta possibilidade maravilhosa: observar a mudança de uma sociedade, dos seus paradigmas que em tempos ocuparam lugares meritórios de ribalta.

1. O 25 de Abril, a alfabetização e a escolaridade obrigatória. Em 45 anos, felizmente, muitas coisas mudaram. A escola pública continua a ser uma conquista extraordinária. E terá sempre o seu lugar. O Ensino Doméstico (ED), tal como o Individual, sempre o foram no âmbito da escola pública. Há países que distinguem educação obrigatória de escolaridade obrigatória. No meu entendimento, uma distinção que é preferível, embora compreenda que dar o livre arbítrio, mesmo, implique que exista (talvez) essa maturidade global para poder escolher. Assim, parece que no caso dos portugueses, isso seria um perigo. Ainda há 45 anos a taxa de analfabetismo era de quase 26%. Acrescentar apenas que a existência de mais opções não significa a negação ou rejeição das opções que já existem.

2. “…a escola é por excelência um espaço de sociabilização e de aprendizagem de competências e valores sociais no âmbito da cidadania ativa.” “Por excelência”, não é. Porque não o é, em si. Dentro da mesma sala de aula, diferentes crianças e jovens têm experiências muito diferentes. Para a maioria é assim assim; e a sociabilização com ou sem contexto escolar, não produz grande impacto nas competências sociais e cidadania ativa destas crianças. Para outras, fará toda a diferença. É escola-casa, lugar de referência para uma existência minimamente saudável, possibilidade para o desenvolvimento de melhores relações com pares e adultos. O código-postal, juntamente com o genético, continuam a ser fatores muito influentes na previsão do futuro de uma pessoa, de acordo com um estudo publicado já este ano pela Harvard Medical School. Com exceção desses casos, para os quais a escola se constitui como lugar quase absoluto de desenvolvimento (mas também para estes) a escola não é muitas vezes pêra-doce. Os miúdos pobres, sem indicadores externos de valor (que possam demonstrar aos seus pares), das aldeias, feios, de minorias linguísticas, à partida com menos skills, incapazes de se ajustarem às expectativas desta sociedade sem tempo, esses ganham menos do que seria necessário.

A aprendizagem social, requer modelos sociais eficazes, capazes. Isso implica a existência de outros mais velhos e habilidosos, disponíveis para observar e regular, ajudando a criança na transição da hetero para a autorregulação. Isto é dificilmente conseguido com os rácios adulto-criança das escolas tradicionais. A começar logo no pré-escolar (ou antes disso). Estou a escrever um artigo que compara a concordância dos educadores e de crianças em idade pré-escolar sobre quem são os seus amigos. Os nossos resultados, como noutros estudos, mostram que é baixa a concordância, menor ainda para as crianças com desenvolvimento atípico, mas que melhora um pouco nas salas onde há menos crianças.

Considerar que a escola, porque está cheia de possibilidades de sociabilização, de pessoas com quem interagir e desenvolver relações é por si só suficiente para que isso aconteça, não só não é sempre verdade, como é perigoso. Para os miúdos a quem esse contexto não serve, que preferem interações em grupos menores, diádicas, ou com pessoas mais velhas, assumir que deviam estar bem adaptados e equipados com competências sociais porque ali estão, pode ser um grande problema. São a fruta-feia. (Que, já sabemos, é tão ou mais saborosa). Só que uma pêra feia não se chateia com isso, já uma criança…

3. “…a legislação nacional permite que as famílias, por razões de natureza estritamente pessoal ou de mobilidade profissional, assumam uma maior responsabilidade na educação dos seus educandos/as, optando por um processo educativo fora do contexto escolar, designado por ensino individual e ensino doméstico.” Ainda bem. Porque estas famílias, em regra, não fazem estas escolhas de ânimo leve. Desengane-se que pensa que é simples, fácil e possível de manter se não estiverem asseguradas, pelos menos, as questões da sociabilização.

4. A portaria e o protocolo escola-família. Da minha experiência com as famílias, não há oposição ao protocolo. Há oposição, sim, ao facto de mais do que seria de esperar, não existir um verdadeiro acordo entre partes, mas antes uma proposta da escola, unilateral, que pressupõe a subordinação da família, e não a sua participação cooperante. A correr bem, há famílias que muito agradecem por finalmente existir uma base comum que facilite procedimentos claros. É positivo que se queira comunicar com estes alunos. Que afinal fazem parte da escola onde é realizada a sua matrícula. O protocolo, por si, no entanto, não garante condições de aprendizagem. Porque a aprendizagem não se desenvolve apenas por critérios desta natureza. As crianças não aprendem só porque são expostas a conteúdos e a professores. É por isso que muitas crianças na escola, apesar dos recursos e especialistas, continuam a não aprender. Supor que um protocolo serve para isso, é arriscado. Era bom que se tivesse o mesmo cuidado com as crianças que estão nas escolas todos os dias.

5. As habilitações. Os estudos disponíveis sobre este assunto (norte-americanos, como habitual) indicam que os alunos em ED obtêm resultados nas provas equivalentes aos exames nacionais em Portugal (osGrade Point Average, ou GPA), superiores aos dos seus pares em “regime” presencial. Neste estudo, de 2016, discute-se que embora os pais não tenham formação académica, são capazes de proporcionar aos seus filhos um ambiente educativo de qualidade, caracterizado pela consistência e resposta eficaz e eficiente às necessidades e interesses, um ambiente feliz onde os estudantes são valorizados e respeitados. Assim, isto também serve para pensar paradigmas.

6. “… os conhecimentos e a formação necessária”. Se por conhecimentos e formação necessária se remete para o Perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória, estamos todos mais ou menos de acordo. Se o foco for “programas”, não. Uma das razões que leva as famílias a optar pelo ED é a liberdade pedagógica, metodológica e conceptual. E para algumas, não só é irrelevante que uma criança não aprenda alguns conteúdos, como é pouco natural que o faça. Tão cedo. Veja-se a Matemática. Atualmente as crianças do 2º ano (1º ciclo) são introduzidas às frações. Contudo, as operações formais, a possibilidade para pensar em abstrato, manipulando condições mentalmente, não surge no desenvolvimento antes dos 12 anos, aproximadamente. Isto é preocupante. Não são claras as respostas às questões: Porquê? Com que objetivo? A que custo? Parecem pouco científicas, e muito mais ideológicas e políticas as razões. Não era isto que se queria evitar no ED? E se for no contexto da sala de aula, já pode ser? Os centros de explicações agradecem, bem como as editoras e ainda as farmacêuticas que se ocupam de suplementar os cérebros em desenvolvimento, aquietá-los, ou animá-los, no caso das dificuldades serem tantas, que depois o corpo as denuncia no formato depressão infantil, ansiedade e outras que antes, como a diabetes e a obesidade (esta última a afetar já 30.7 % das crianças Portuguesas), eram problemas dos velhos.

A constatação destes problemas é cada vez mais difícil de ignorar. O relatório Improving the Quality of Childhood in Europe (2016) refere: embora a saúde física das crianças e adolescentes na Europa tenha vindo a melhorar continuamente, a probabilidade de que venham a ter problemas de saúde mental, incluíndo sociais, emocionais e comportamentais, tem aumentado (com certeza, não pelos números do ED, embora fosse interessante estudar como é que estes miúdos se vão saindo). (…) Os problemas mentais nas crianças e adolescente cobrem uma grande diversidade de desordens, incluindo depressivas, ansiedade, disruptivas, e alimentares. Numa meta-análise recente, incluindo 33 estudos, a prevalência foi em média 17.6 %. Isto sim, é um problema. Em Portugal, o número de alunos em ED aumentou, mas nem chega a 0.5 % da população estudantil, longe disso, 0.02 %. Nem nos países onde as percentagens são maiores, vão além dos 3 %. Assim, numa análise mais objetiva, não me parece que este seja território para alarme.

Ainda assim, porque é da divergência que nascem novas possibilidades, pode ser interessante saber como funciona o ED e de que modo é que um contexto social mais pequeno, como menos possibilidades para interagir e relacionar-se, se traduz em competências. E saber também, na realidade, com quantas crianças é que uma criança consegue de facto interagir e desenvolver relações de qualidade. Quer no contexto da escola, quer fora dela. Eu apostaria que os números seriam mais próximos do que se imagina.

7. “Devíamos refletir se a lei não deveria ser mais restritiva na permissão, uma vez que a escola e o contacto com o meio escolar, com outras crianças, com a formação em grupo, tendo em conta a experiência da dinâmica social do espaço escolar, são aprendizagens e experiências muitíssimo importantes no desenvolvimento das crianças.” No geral, esta necessidade parece assegurada. Devíamos sim refletir porque continuamos coletivamente a desvalorizar o direito da criança em participar ativamente nas escolhas sobre o que faz e aprende no seu dia-a-dia durante 12 importantíssimos anos da sua vida. Devíamos refletir porque é que em Portugal não há nenhuma escola really democrática. Até aos 6 anos, os pais ainda encontram abordagens “integrais”, depois já não, perde-se a fibra… Devíamos refletir porque é que noutras áreas as novas tecnologias modificaram e continuam a modificar as possibilidades e os procedimentos, e na escola isso não acontece. O livro até pode ser tablet, mas o processo quase nada se alterou. Devíamos refletir sobre a classificação, corrida às notas, ratings e rankings que pervertem tudo o que seja aprendizagem da boa. Sobre os dias inteirinhos que as crianças passam nas escolas desde muito, muito cedo, tempo esse onde não existe nem brincar nem vida em família. A família, para se manter, precisa de estar. Fins-de-dia e de semana não chegam. Só parece que sim. Devíamos refletir sobre muitas, muitas coisas. Não se trata, porém, de um assunto legal, senão moral e social.

8. “O interesse superior da criança deve ser o princípio diretivo de quem tem a responsabilidade da sua educação e orientação, responsabilidade essa que cabe, em primeiro lugar, aos seus pais.” Exatamente. E caso não se observe que sejam incapazes para tal, o pressuposto, ou principio, é o de que são capazes. Inocente até prova em contrário, certo?

9. “As famílias não podem, alegando a liberdade de escolha, por em causa o superior interesse dos seus filhos e filhas, porque as crianças não são propriedade das famílias.” Seria preciso determinar e verificar em que medida a liberdade e a escolha colocam em causa o superior interesse da criança. Por exemplo, para mim, que não se dê outra opção às famílias que não passe maioritariamente pela creche, põe em causa o superior interesse do bebé. O estabelecimento de uma vinculação segura carece de continuidade e recorrência (e muito colo) da pessoa a quem o bebé se vai vincular. Há estudos que indicam efeitos negativos na qualidade da vinculação, em crianças que passam apenas, em creche, 10 horas por semana (aproximadamente 2 horas por dia). Isso merece reflexão. Assim, o mesmo juízo funciona para os dois lados. Relativamente à propriedade, pode ser, mas também não são (as crianças) propriedade do estado. Pelo menos, de acordo com a nossa Lei.

10. “Todas as crianças que têm condições de frequentar uma escola devem frequentá-la e a lei devia, no meu entender, ir mais longe nesta demanda. Há situações para as quais estas modalidades consagradas na legislação são desejáveis e devem ser implementadas. (…) contudo esta modalidade ser possível apenas e somente porque a família assim o entende como melhor, parece-me no limite daquilo que são os direitos das crianças.” Seria preciso determinar, para cada criança, se a escola que temos lhe serve melhor que outras opções. As condições devem ir além das doenças graves, raras e condicionantes que são “puramente” do domínio da saúde. E é isso que acontece. E ainda bem. Não há nem “apenas” nem “somente”. Quem pensa que escolhe o ED ou o EI e ganha com isso (o quê exatamente?) depressa reconsidere. E se é para levar mesmo a sério os Direitos da Criança, então é preciso trazer aqui os princípios 6º e 7º da Declaração dos Direitos da Criança (ou direitozinhos?). A criança precisa de amor e compreensão para o pleno e harmonioso desenvolvimento da sua personalidade. Na medida do possível, deverá crescer com os cuidados e sob a responsabilidade dos seus pais e, em qualquer caso, num ambiente de afeto e segurança moral e material; salvo em circunstâncias excepcionais, a criança de tenra idade não deve ser separada da sua mãe (que interessante). (…) o interesse superior da criança deve ser o princípio diretivo de quem tem a responsabilidade da sua educação e orientação, responsabilidade essa que cabe, em primeiro lugar, aos seus pais. A criança deve ter plena oportunidade para brincar e para se dedicar a atividades recreativas, que devem ser orientadas para os mesmos objetivos da educação. Assim de impulso, diria que há por aqui muitos movimentos funâmbulos, no limbo criança enquanto um sujeito de direitos. Infância titubeante.

11. “Sabemos que ao longo dos anos esta possibilidade, muito em particular a do ensino doméstico (…) levava a que fosse utilizada por razões culturais, levando ao isolamento de crianças e à interdição de contacto com um contexto social mais alargado e nalguns casos à inibição de uma aprendizagem curricular regular e efetiva.” Sabemos? Quais são as referências bibliográficas, onde estão os dados? Porque uma ou outra situação, em ciência chamam-se anedóticas e não podem ser base dedutiva, nem Legal.

12. (e final) “O ensino e a educação para todos e todas, universal e tendencialmente gratuito, obrigatório até ao 12º ano, são conquistas de abril, conquistas de uma sociedade desenvolvida. Sim, a educação, sim, para todos. Mas hoje em dia, assumir que há só uma educação, é o mesmo assumir que a única forma de garantir proteína e cálcio na alimentação continua a ser através do consumo de produtos de origem animal. Não serve a este paradigma, não serve a este tempo social, histórico, cultural. Não serve à manutenção deste planeta, se é para manter, o planeta. “É dever do Estado pugnar para que, em nenhuma circunstância, sem razões objetivas que impossibilitem as crianças de frequentar uma escola, alegando por exemplo a liberdade de escolha das famílias, as impeçam de ter um percurso educativo e de aquisição de competências pessoais e sociais.” Mais uma vez, a maioria das famílias, ao fazer esta escolha, fá-lo por considerar que a educação que pode oferecer aos seus filhos é melhor permitindo-lhes crescer de forma mais significativa. Determinar, à partida, que a escola é sempre a melhor opção parece também fundamentalista. Não se trata de impedir, mas de promover aquilo que a escola, para muitas famílias, ou faz mal, ou não faz de todo, porque é outra a sua natureza.

E é sobre essa natureza que agora reflito e com ela encerro esta espécie de carta, contra-argumento (que no imaginário me transporta ao tempo em que se trocavam cartas sobre ideias e se admiravam e respeitavam as diferenças, à volta de um café ou num passeio pelo campo).

Hipótese c: Slow living, slow learning

Há por aí famílias, muitas nos números que ampliam as estatísticas do ED, que acreditam (isto é ideológico, sim) que a adoção de um modo de vida vagaroso, ao estilo clássico alentejano adaptado à educação, é eficaz na redução da pobreza de tempo. Um problema dos dias de hoje muito complicado de resolver. Este princípio, valoriza uma educação humanista por oposição à “comercial” e de consumo.

De acordo com Petrini (2007), no seu Slow Food Nation (obviamente com aplicação para além da alimentação), o assunto não é tanto o da velocidade, mas o da diferença entre atenção e distração; a lentidão não é uma questão de duração, mas uma capacidade para distinguir e avaliar, com propensão para ativar o prazer, o conhecimento e a qualidade.

Noutro, que refere o primeiro, The slow professor can dish out a more nutritious education, Seeber & Berg (2017) referem que o que está em causa é proteger o trabalho que é mesmo importante. Nomeadamente, a vida intelectual e pedagógica, criando condições para pensar e mudar a nossa conceção de tempo. A natureza do processo ensino-aprendizagem, é dissolvida através do aumento da “carga de trabalho”, da “causalisação” desse trabalho (i.e., mais o tempo trabalhar = melhores resultados), da expansão das tecnologias, do modelo de consumo da educação. A educação é cada vez mais um negócio. Ensinar e aprender são cada vez mais estandardizados, salientando-se a transferência de competências e de tempo para aplicar essas competências. Ambos são avaliados de forma quantitativa em vez de qualitativa. 

E continuam… A vida contemporânea (Ocidental, sobretudo) caracteriza-se por “distração e fragmentação”. Ao minuto. Nessa corrida, é quase impossível que se aprenda bem, o que quer que seja; que se sociabilize bem, que se interaja bem, que se comunique e discuta bem.

A liberdade para optar por outra educação, sem outras razões clínicas, pode ter por base esta grande motivação ideológica que é também empiricamente sustentada. O que apela a este movimento, com repercussões para além da educação é a sua natureza critica relativamente à cultura contemporânea, em direção a outros valores, por exemplo, o prazer e a co(n)vivência. E a família. E a relação. E a infância.

As famílias querem estar em família. Em comunidade. Querem viver mais demoradamente, com mais significado, e menos lixo. Dos vários tipos de lixo, desde o plástico ao que não se vê, mas que se acumula nos gestos e na arrogância.

Naturalmente que quantos mais se insurgem mais evidentes são as implicações políticas.

Por fim, como referem Seeber & Berg (2017), as duas mulheres, só por curiosidade, não se trata de diminuir os standards. Pelo contrário, trata-se de reduzir as distrações, o ruído, para que nos consigamos focar, concentrar, encantar, demorar. Ouvir. Ao nível da sala de aula, referem, é preciso que os estudantes possam corresponder aos desafios, que se possa promover o prazer pela aprendizagem. Trata-se de (…) resistir à pressão para reduzir o pensamento ao imperativo da utilidade imediata (os testes), preservando a ideia da aprendizagem como uma questão de resposta aberta.

Era mais ou menos isso que tinha para dizer. Talvez mais. Mas agora, 3614 palavras depois, parece-me que já temos palavras e pensamentos suficientes para ficarmos algum tempo em silêncio. A pensar, e a imaginar.

Va-ga-ro-sa-men-te. E, claro, sem respostas simplistas, ou demagógicas.

Inês Peceguina

Fonte: Observador

“O meu trabalho não é reparador, é promotor de projetos e com isso do sucesso escolar”: Fátima Matos, assistente social

Estamos perto da mesquita de Lisboa, no Bairro Azul, na escola sede do agrupamento Marquesa de Alorna, distinguida como TEIP, a sigla por que ficaram conhecidos 137 agrupamentos localizados em territórios económica e socialmente desfavorecidos, marcados pela pobreza e exclusão social, onde a violência, indisciplina, abandono e insucesso escolar mais se manifestam. Criados há dez anos, este tipo de escolas foi servido dos habituais serviços de psicologia e orientação, com esse reforço que é ter uma equipa multidisciplinar em que também cabe o assistente social. E, olhando para o percurso da assistente social à nossa frente, os meninos que aquela escola serve não podiam ter tido melhor sorte.

“O que eu faço é muito mais do que um trabalho reparador. O meu trabalho é sobretudo promotor de projetos, que ajudem a prevenir o insucesso escolar e os comportamentos de risco”, explica a mulher à nossa frente, adiantando que é adepta das metodologias ativas, por oposição ao método mais conservador baseado na mera transmissão de conhecimento. “É preciso ocupá-los, pô-los a mexerem-se. É óbvio que há alunos que funcionam bem em modelos expositivos, mas muitos outros não. Sobretudo depois do almoço, é tão contraproducente...”

Fátima Matos, 49 anos, sabe bem do que fala - ela que cresceu numa aldeia pequenina junto a Aveiro, onde as meninas só saíam de casa se fizessem parte de organizações comunitárias e afins. E então inscreveu-se em tudo o que havia ali à mão, sempre movida pelos direitos humanos. No fim do Secundário, ainda hesitou em seguir o curso de direito, até que se cruzou com o de serviço social.

Até chegarmos aqui, àquela sala na escola sede do agrupamento Marquesa de Alorna, foi um longo e variado percurso. Primeiro, esteve integrada no Programa Especial de Realojamento, dando apoio às novas políticas de educação e intervenção prioritária, ajudando a deitar abaixo bairros de barracas como o do Fim do Mundo, em Cascais, e da Pedreira dos Húngaros, em Oeiras.

Seguiu-se uma experiência de intervenção de rua com toxicodependentes e depois desse mundo dos consumos aditivos, a educação e formação, desenhando uma resposta educativa para combater o trabalho infantil.

“Vivia-se num absoluto contrassenso: havia imensas crianças a trabalhar ao mesmo tempo que sobravam adultos sem emprego”, recorda, a propósito de uma época em que ainda reinava esse pensamento do “se não serve para a escola então vai trabalhar...”

Eis que, no fim desses programas, acabou por se candidatar ao trabalho numa escola. E esta é a altura por excelência para preparar o início do ano letivo. É quando começam a propor projetos aos parceiros da comunidade. “Todas as escolas têm muito mais recursos do que imaginam. Por exemplo, aqui ao lado está a mesquita, há bancos e universidades, a fundação Gulbenkian, o IPO, uma avenida cheia de hotéis, o El Corte Inglès...”, revelando ainda que, ao abrigo da responsabilidade social, a generosidade das empresas pode ser muito, muito surpreendente.

Ao mesmo tempo, cada diretor de turma deve, ao abrigo da nova legislação, promover um projeto por turma, para desenvolver ao longo do ano letivo seguinte. É por isso que há quem tome conta das plantações na horta comunitária, quem tenha aderido ao ateliê de cerâmica ou de construção naval – entre uma série de outros que incluem momentos musicais, cozinha ou a criação de percursos pedestres para conhecer Lisboa. Ou ainda, um ateliê de costura, como havemos de confirmar, no corredor do andar de cima.

“Muitos ainda são ateliês de tempos livres, mas o grande desafio é que sejam integrados no currículo, ao abrigo da flexibilidade curricular”, continua a assistente social, a assinalar por vezes o ócio também se revela criativo, mas se mantivermos as pessoas em atividades que gostam – e aqui acrescente-se que não falamos apenas dos alunos – isso torna-as mais felizes e obviamente faz diferença. “É uma oportunidade para fazer intervenção social sem ser pela negativa.”

Ao mesmo tempo, toda esta proximidade permite ter um olhar mais atento aos meninos que lhe passam pela frente – e intervir, sempre que, por exemplo, um aluno vem para a escola com a mesma roupa durante uma semana ou quinze dias, como já aconteceu. Os maiores problemas, esses, são fáceis de enumerar: absentismo, insucesso escolar e negligência familiar, muitas vezes, demasiadas, ligados entre si.

“Chegámos a ter um adolescente que tomava conta da mãe, alcoólica. Começou a baixar as notas, aparecia sempre muito cansado, porque dormia pouco, até que percebemos que era ele que fazia tudo em casa. Outro fazia parte de uma família que tinha sido realojada, mas não tinha qualquer eletrodoméstico em casa. Imagine-se, era uma mãe com quatro crianças. Lá interviemos de forma a angariar, dentro da comunidade, o mínimo para os ajudar.”

Claro que nem todas as histórias dramáticas de uma escola que acolhe meninos de alguns dos bairros mais vulneráveis da cidade têm um final feliz, mas nada disso demove esta assistente social. “Acho sempre que é possível envolver as pessoas para elas mudarem a sua vida e fazerem melhor. É por isso que uma das nossas metas é não só definir as suas fragilidades, para saber que ajuda precisam, mas também as capacidades que têm e podem desenvolver para melhorarem a sua situação.”

Outra vez, em conversa com a mãe de um aluno que estava desempregada, Fátima insistiu para ela lhe apontar uma coisa que soubesse fazer bem. “Uma coisa, diga-me uma coisa que saiba fazer bem.” A mulher respondeu: “Rissóis.” E durante um tempo, até arranjar novamente trabalho a tempo inteiro, fez rissóis para vender informalmente e isso ajudou-a a passar melhor um momento menos bom na sua vida. “E nós não fizemos nada. Apenas reforçámos uma competência positiva que ela tinha,” remata, orgulhosa, a insistir que não tem nenhuma varinha de condão - apenas faz também parte das suas funções identificar encarregados de educação que estejam desempregados e promover a sua empregabilidade.

“Porque é que isto também é função do assistente social numa escola? Porque ao criar condições de estabilidade de uma família, estou a ajudar a criar bem-estar e isso melhora a sua vida e a dos filhos, nossos alunos.”

Fonte: Visão

sábado, 1 de junho de 2019

O teatro como forma de inclusão da pessoa com deficiência

O grupo de teatro Recriarte, da CERCI S. João da Madeira levou ao palco dos Paços da Cultura um espetáculo inspirado em “exercícios e jogos dramáticos realizados pelos seus membros, num processo de construção artística conjunto e colaborativo”.
Com o título «Desenredar as emoções», a peça foi representada no dia 21 de maio, tendo por tema o “combate à discriminação e a promoção da inclusão social da pessoa com deficiência intelectual através da arte”.
Na plateia estiveram alunos do 11.º ano dos agrupamentos de escolas Oliveira Júnior e Dr. Serafim Leite, que, no final, tiveram a oportunidade de trocar impressões com os atores do grupo Recriarte.
O espetáculo decorreu no âmbito do projeto internacional YARD – Educação Contra a Discriminação, do qual o Município de S. João da Madeira faz parte, tendo contado com a presença da vereadora Irene Guimarães.
De acordo com os responsáveis do Recriarte, “a oportunidade de ver a pessoa com deficiência intelectual revelar-se em palco, antes de mais e antes de tudo, como pessoa” contribui para promover “uma sociedade mais inclusiva e mais capaz de compreender, acolher, aceitar e até interessar-se pela diversidade”.

Fonte: O Regional por indicação de Livresco

O que fazer para evitar a inflação das notas

A Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC) voltou a analisar discrepâncias entre notas internas e externas e no seu último relatório, de 2018, “Avaliação das Aprendizagens dos Alunos do Ensino Secundário: Indicador das Notas Internas em Doze Escolas” sublinha alguns avanços. Nas escolas intervencionadas, sete estabelecimentos de ensino particular e cooperativo e cinco públicos que ministravam o Ensino Secundário, as recomendações feitas foram, em regra, acolhidas, e os procedimentos melhoraram. Em todas as 12 escolas, o indicador do alinhamento das notas internas melhorou em, pelo menos, uma ou várias disciplinas. As disciplinas de Matemática A, Português, Biologia/Geologia e Física e Química A melhoraram neste parâmetro, respetivamente em 66,6%, 83,3%, 58,3% e 41,6%. 

Em 10 escolas, 83,3% do total, o valor do indicador do alinhamento das notas internas (não desagregado) decresceu, e 71,4% desses estabelecimentos de ensino não estatais melhoraram o valor médio do indicador de alinhamento (não desagregado) das notas internas em 2018, comparativamente a 2017. Além disso, das 25 escolas do grupo das mais desalinhadas para cima em 2014, 72% melhoraram o valor do indicador das notas internas. 

As discrepâncias entre as classificações internas e externas e a sua persistência no tempo têm sido alvo de análise e discussão, até porque poderá colocar em causa a qualidade do serviço educativo e a sua equidade. Em março de 2017, o Conselho Nacional da Educação alertava precisamente para a verificação das classificações internas do Ensino Secundário que apresentassem “desalinhamentos excessivos e persistentes”. 

“Avaliar os alunos é um processo inerente ao próprio processo de ensino e da aprendizagem. É um processo difícil e complexo onde intervêm múltiplas variáveis. No atual contexto normativo vigente e no respeito pela sua autonomia, as escolas podem adotar processos avaliativos que respondam às suas prioridades educativas. Estes processos deverão ser rigorosos e credíveis. Rigor não significa inflexibilidade ou intolerância, mas respeito por certos princípios que devem nortear a ação educativa, nomeadamente o processo de avaliação dos alunos”, lê-se no relatório.

A IGEC avisa que os critérios e subcritérios de avaliação “são omissos e permitem interpretações erróneas relativas à operacionalização do processo avaliativo dos alunos” e, além disso, são frequentemente valorados com a classificação máxima. E aponta exemplos como “o critério/subcritério da oralidade (em Português), o da prática e ou experimental nas disciplinas de Física e Química A e de Biologia e Geologia e ainda o relativo às atitudes ou da componente socioafetiva”. Há, aliás, registos de ponderações que variam entre 5 e 15% no domínio social e afetivo, ou de atitudes, em diferentes disciplinas e entre escolas. 

Definir critérios, fazer diagnósticos rigorosos 

No início de cada ano letivo, as escolas deveriam definir os critérios e subcritérios de avaliação e respetiva ponderação para haver referenciais comuns a todos os departamentos curriculares e disciplinas. E esses critérios devem ter em conta o perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória, as aprendizagens essenciais, os documentos curriculares. Esta é uma das recomendações feitas no relatório da IGEC, que realça a importância de assegurar que a progressão do aluno seja uma variável a ter em consideração no processo de avaliação sumativa formal. 

Para expurgar qualquer fator de inflação - e para respeitar os princípios da legalidade, da igualdade, da boa-fé, da imparcialidade e da justiça -, os critérios de avaliação e respetivas ponderações, aprovados no início de cada ano letivo, devem ser aplicados nos conselhos pedagógicos das escolas. A IGEC recomenda ainda que é necessário “assegurar que os critérios de avaliação traduzam a importância relativa que cada um dos domínios e temas assume nas aprendizagens essenciais, nomeadamente no que respeita à valorização da competência da oralidade e à dimensão prática e ou experimental das aprendizagens a desenvolver”. 

Analisar e refletir dados dos processos de avaliação interna e externa, fazer diagnósticos rigorosos sobre as causas que incrementam a diferença entre as classificações, reajustar práticas pedagógicas, planificar tarefas de aprendizagem, diversificar técnicas e instrumentos de avaliação de forma a avaliar diversos níveis de exigência conceptual e evitar a prevalência dos que envolvem a simples memorização e compreensão, são outras recomendações feitas. 

Planos didácticos, partilhar boas práticas

Há situações que merecem ser analisadas a fundo. Outro conselho passa por “incorporar as diferentes modalidades de avaliação nas dinâmicas de aprendizagem, dando ênfase à avaliação formativa, contínua e diversificada como uma estratégia essencial da melhoria das aprendizagens e sucesso escolar”. Definir planos didáticos e investir em estratégias de diferenciação pedagógica e de superação de eventuais dificuldades dos alunos, de facilitação da sua integração escolar e de apoio à orientação escolar e vocacional, são outros conselhos deixados às escolas que, além disso, não devem colocar pais e encarregados de educação à margem do processo de avaliação das aprendizagens. A partilha de informações, entre os diversos atores da comunidade educativa, é um fator que não deve ser descurado.

As escolas devem partilhar boas práticas relacionadas com o processo de avaliação das aprendizagens, organizar ações de formação e sensibilização, e preservar os elementos de avaliação que suportaram a tomada de decisões de avaliação em sede de conselho de turma. Nas 12 escolas intervencionadas, foram tomadas medidas depois do envio das recomendações. Vários procedimentos foram ajustados e as discrepâncias diminuíram. O reforço da carga horária nas disciplinas com mais insucesso e o aumento da partilha de informação nos conselhos de turma tiveram resultados. 

Outras sugestões foram bem recebidas e houve escolas que elaboraram, em departamento curricular, e aprovaram, em conselho pedagógico, os critérios de avaliação da dimensão prática e experimental com o peso de 30% na classificação final de cada período. A valorização da oralidade na disciplina de Português com o peso de 20%, tal como a diversificação dos instrumentos de avaliação, e a reformulação das planificações para uma maior diversificação de métodos e práticas pedagógicas, também não passaram ao lado dos estabelecimentos de ensino seguidos pela IGEC. 

No âmbito de várias atividades inspetivas realizadas, há cenários que prevalecem. “Consolida-se a ideia que as escolas manifestam dificuldades no desenvolvimento de processos de recolha, análise e interpretação de informação pertinente da realidade escolar, com vista a debelar fragilidades, corrigir erros e mudar de trajetória, ou seja, caminhar no sentido da melhoria do serviço prestado”, adianta a IGEC. “Globalmente, o investimento na avaliação diagnóstica, no âmbito do processo de ensino e da aprendizagem, é uma área que carece de maior desenvolvimento”, conclui.

Fonte: Educare