Uma análise dos resultados ingleses no Progress in International Reading Literacy Study (PIRLS), exame de leitura feito a nível mundial a alunos de 10 anos, mostra que o segundo fator que mais explica os resultados é o número de livros que um aluno tem em casa. Contudo, este indicador diz-nos pouco por si só: pode simplesmente indicar que as famílias com mais livros em casa são também as que conseguem dar mais apoio aos filhos ou que dispõem de mais recursos económicos. Por isso, temos de ir mais longe para encontrar uma relação causa-efeito entre o acesso a livros e a proficiência em leitura.
Encontramos dois bons exemplos de estudos que exploram esta relação de forma causal, em particular através do acesso a bibliotecas públicas, lugares onde famílias e jovens podem chegar facilmente a novos livros.
O primeiro usou dados representativos de mais de 15 mil agregados familiares com resultados de proficiência em leitura das crianças. A par disso, mediu-se de que forma a exposição a bibliotecas alterava as escolhas de tempo livre das famílias, nomeadamente entre leitura e televisão, numa amostra mais pequena, de cerca de 8000 agregados. Para identificar o impacto de frequentar uma biblioteca, usou-se a distância de cada agregado à biblioteca mais próxima. Ou seja, as famílias semelhantes podem estar mais ou menos expostas à oferta de livros tão-só porque a oferta de bibliotecas públicas é geograficamente diversa, e é essa diversidade que permite identificar causalmente os seus impactos.
O estudo concluiu que a frequência de uma biblioteca aumenta o tempo de leitura de cada criança em cerca de 11 a 27 minutos, e reduz ainda o tempo de televisão entre 14 minutos e uma hora. Por sua vez, nas crianças em idade escolar, o uso de uma biblioteca pública reduz de 10 a 16 pontos percentuais a probabilidade de problemas comportamentais.
Havendo uma rede de bibliotecas, fará diferença investir nela?
Outro estudo recorreu a dados do investimento feito por todas as bibliotecas dos Estados Unidos, cobrindo cerca de 24 mil bibliotecas ou pequenos pontos de leitura. O foco foram os investimentos de maior dimensão na infraestrutura. Para os identificar, o estudo comparou os distritos em que esse investimento ultrapassou os 200 dólares por aluno com aqueles em que ficou abaixo desse limiar.
Comparando alunos de distritos escolares onde houve este investimento com outros onde não houve, verifica-se que, cinco a sete anos depois, os resultados em leitura melhoram ligeiramente. O efeito não se estende a Matemática, e é maior nos distritos mais pequenos.
Até agora, focámo-nos sobretudo em bibliotecas públicas, ou seja, em edifícios próprios disponíveis para todo o público. E que podemos dizer das bibliotecas escolares?
Portugal fez um longo caminho nos últimos anos na democratização do acesso ao livro, desde as bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, cujas carrinhas levavam livros a muitos dos recantos mais distantes do país, até ao investimento substancial na Rede de Bibliotecas Escolares (RBE).
Um trabalho recente mostra que, entre 1996 e 2018, mais de 500 bibliotecas foram integradas na RBE. Usando o crescimento faseado da rede nas escolas do 1.º ciclo, cuja taxa de cobertura passou de 32% em 2008 para 65% em 2018, o trabalho analisa os impactos nos exames e provas de aferição à saída do 4.º ano. Conclui-se que a criação de uma biblioteca na escola aumenta ligeiramente a probabilidade de obter uma nota superior a 4 na prova de Português do 4.º ano. Observou-se impacto maior na probabilidade de obter uma nota positiva entre os alunos com acesso à ação social escolar, ou seja, os de condições socioeconómicas mais frágeis.
Os resultados de 2025 do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) trouxeram sinais de alarme. Quase um em cada três alunos portugueses de 15 anos tem graves dificuldades de leitura. O maior acesso ao livro é um caminho relevante na reversão destes resultados, mas, para impulsionar a leitura, é preciso que os alunos leiam bem e com segurança. Para isso, são essenciais outras políticas complementares de apoio individualizado aos alunos que desde cedo revelam dificuldades de leitura.
Pedro Freitas
Fonte: Iniciativa Educação
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