quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Há uma pen que fotografa e lê textos. É uma ajuda para os alunos com dislexia

Quando em março de 2020 a professora Célia Sousa recebeu um contacto de uma empresa israelita para testar um novo equipamento no CRID - Centro de Recursos de Inclusão Digital "foi uma bela surpresa no meio da pandemia", que acabara de ser declarada. A OrCam acabara de lançar o MyEye Read, e procurava quem quisesse testar o dispositivo.

Quando as escolas reabriram, a empresa voltou a contactar o Instituto Politécnico de Leiria no sentido de perceber se haveria alunos que se adequassem ao perfil de embaixadores da marca.

Foi o caso de Joana Gonçalves, 22 anos, uma açoriana que frequenta a licenciatura em Comunicação e Media na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais (ESECS). A jovem reunia todos os requisitas: é disléxica, frequenta o ensino superior, e não tem reservas em lidar com os meios de comunicação, até porque é aí que imagina o seu futuro.

Natural da Ilha Terceira, escolheu Leiria para estudar porque sabia que "era uma cidade pequena, mas acessível", longe de imaginar que o IPL integrava um espaço como o CRID. Descobriu-se que era disléxica quando tinha 11 anos, chegada ao 5.º ano de escolaridade. "Sempre senti muitas dificuldades na escola, mas isso não era falado. Depois, acho que os meus pais -- até para me protegerem -- também não me contaram. Até que, no 7.º ano, um professor descaiu-se, e disse que eu tinha dislexia". Estava esclarecido o facto de no 5.º e 6.º andar todas as semanas ir ao psicólogo fazer testes e exercícios. Daí em diante seguiu-se sempre um percurso de repetição: "pode ser um problema da escola, pode ser até da minha região, a verdade é que todos os anos eu tinha que andar a começar do zero, o meu processo nunca tinha seguimento. E depois só começava no segundo período".

Determinada, Joana foi arranjando estratégias para contornar os obstáculos do sistema. De modo que, podendo usar o contingente dos Açores ou o da Deficiência no acesso à universidade, optou pelo segundo, na hora de escolher. Agora, acabou por ser ela a escolhida. No dia em que foi entrevistada pela agência de comunicação da empresa israelita que desenvolveu o produto, deixou a mesma impressão de sempre: "quero fazer alguma coisa pelas pessoas que têm dislexia. Um aparelho como este é raro. Nas escolas, muitos psicólogos não têm formação para lidar com as pessoas disléxicas. E é muito necessário", afirma ao DN. Foi por isso que aceitou ser embaixadora da marca. No dia (...) da entrevistou, Joana Gonçalves tinha em seu poder o equipamento há pouco mais de uma semana. Estava rendida. "Eu tenho muitas dificuldades na leitura silenciosa. E 90% do meu estudo é assim. Por isso, o dispositivo tira a fotografia ao texto e lê para mim, o que me faz perceber. É como se fosse uma pessoa a ler para nós".

O novo equipamento é pouco maior que uma pen. Apontado a um texto, por exemplo, "fotografa-o" e vai ajudar o aluno com dislexia a perceber melhor, nomeadamente a leitura silenciosa. "Permite fazer uma melhor leitura e uma autocorreção", sublinha Célia Sousa, que ao cabo de 20 anos no CRID lembra que um equipamento destes também pode ser usado "por pessoas que tenham baixa visão, e que, por exemplo, num supermercado, não consegue ler os rótulos dos produtos. Aponta o equipamento. Que fará a foto e a leitura. Uma grande vantagem que tem é que não armazena e por isso não terá a memória cheia". O mesmo se aplica até à população idosa, que tem um conjunto de medicamentos para tomar e que muitas vezes se pode baralhar.

Célia Sousa lembra que falamos de "um equipamento um pouco caro (rondará os 1.800 euros), mas tal como acontece com todos os equipamentos deste âmbito, são comparticipados pelo Estado desde que prescritos pelos médicos ou serviços educativos.

Célia Sousa é professora de educação especial e doutorada na área de comunicação não verbal. Já sabia da existência do equipamento, mas também sabia que "era um pouco dispendioso, e por isso não podíamos adquiri-lo naquele momento. De tudo o que já viu, ao longo de uma longa carreira, acredita que está perante um equipamento completamente inovador para os alunos com dislexia. Percebeu-o assim que tomou contacto com ele. "Pensávamos nos nossos alunos que têm dislexia -- como a Joana -- e que para eles seria uma mais valia". Ao todo, frequentam as várias escolas do IPL cerca de 100 alunos com essa característica. Além disso, o CRID recebe muitas crianças das escolas da região a quem dá apoio, sem contar com outras pessoas da comunidade. São cerca de uma centena, entre os dois e os 96 anos de idade.

10% das crianças com dislexia

A chegada do Orcam Read às mãos de Joana Gonçalves aconteceu poucos dias antes da comemoração de mais um Dia Mundial da Dislexia, que se assinalou a 10 de outubro. A propósito, a Associação Portuguesa de Dislexia -- DISLEX -- alerta para a incapacidade das escolas em identificar e acompanhar os alunos com esta característica. Segundo a Presidente da Assembleia Geral da DISLEX, Helena Serra, "o sistema está a falhar às crianças portuguesas".

Em Portugal, cerca de 10% das crianças têm perturbações da aprendizagem relacionadas com a dislexia. Esta é também uma condição que se verifica em 48% dos alunos com necessidades educativas especiais. "Perante estes números, é importante salientar que há ainda muitos casos por identificar. É aqui que o nosso sistema falha, porque este é um problema com origem na formação dos professores, que não prevê este tipo de formação específica de forma obrigatória. Deste modo, muitos casos acabam por ser detetados já numa fase tardia da vida da criança, o que se traduz posteriormente em insucesso escolar, em muita frustração ou até em problemas emocionais", acrescenta Helena Serra.

Fonte: DN

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Saúde mental dos jovens: um em cada sete apresenta distúrbio mental

O impacto da Covid-19 na saúde mental dos jovens já não é, infelizmente, novidade. O que pode ainda não saber é que um relatório da UNICEF coloca Portugal em segundo lugar de uma lista de 33 países onde as consequências desta situação estão cada vez mais presentes.

Um em cada sete jovens, com idades compreendidas entre os 10 e os 19 anos, têm um distúrbio mental, sendo que apenas 2% dos orçamentos públicos na área da saúde, estão destinados às despesas com a saúde mental. Esta realidade é de 2019, mas a pandemia deverá ter agravado a situação.

O relatório da UNICEF revela ainda que quase 46 mil adolescentes morrem de suicídio, todos os anos. A agência da ONU diz que esta é só a ponta do iceberg. Portugal faz parte da lista de 33 países analisados, em toda a Europa, no segundo lugar da lista, com 19,8% da estimativa de prevalência de distúrbio mental em rapazes e raparigas entre os 10 e os 19 anos. Em primeiro lugar surge Espanha, com 20,8%. Depois de Portugal surge a Irlanda (19,4%), Suíça (18,7%) e França (18,3%).

Antes da pandemia, já se contabilizavam cerca de nove milhões de adolescentes a viver com distúrbios mentais na Europa. Cerca de 55% dos problemas de saúde mental dos jovens, eram relativos a ansiedade e a depressão, de acordo com o relatório revelado na passada terça-feira.

Francisca Magano, diretora de Políticas de Infância e Juventude da UNICEF Portugal, disse ao Jornal de Notícias que o Plano de Recuperação e Resiliência da União Europeia deve ser claro no investimento nos mais novos, referindo que “não basta criar mais unidades de internamento”.

A responsável destaca também que as escolas devem ter um papel importante na promoção do bem-estar dos menores, afirmando que os agentes de saúde mental são todos os que lidam com crianças e jovens.

Além do impacto humano, e segundo refere o Jornal de Notícias, uma análise da London School of Economics avança que a contribuição perdida para as economias, devido a “perturbações mentais que levam à deficiência ou à morte entre os jovens” pode ascender a quase 335 mil milhões de euros.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Associação de Dislexia alerta para "incapacidade das escolas" em identificar casos

A Associação Portuguesa de Dislexia (DISLEX) alertou esta sexta-feira para a “incapacidade das escolas” em identificar e acompanhar alunos com o transtorno e defende a importância da formação de professores, para sinalizarem atempadamente o problema.

“O sistema está a falhar às crianças portuguesas”, considerou a presidente da assembleia-geral da DISLEX, Helena Serra, citada num comunicado divulgado pela associação a propósito do Dia Mundial da Dislexia que se assinala dia 10 de outubro.

Segundo a mesma nota, em Portugal cerca de 10% das crianças têm perturbações da aprendizagem relacionadas com a dislexia e esta condição verifica-se em 48% dos alunos com necessidades educativas especiais, acrescentando existirem muitas situações por identificar.

“Há ainda muitos casos por identificar. É aqui que o nosso sistema falha, porque este é um problema com origem na formação dos professores, que não prevê este tipo de formação específica de forma obrigatória”, acentuou Helena Serra.

Segundo a responsável, devido a essa lacuna, “muitos casos acabam por ser detetados já numa fase tardia da vida da criança, o que se traduz posteriormente em insucesso escolar, em muita frustração ou até em problemas emocionais“.

No comunicado divulgado esta sexta-feira, a DISLEX realçou existirem indicadores que, sendo do conhecimento dos professores, lhes permitem encaminhar as crianças precocemente para serem avaliada por especialistas.

“A formação dos professores é, assim, um fator essencial para garantir uma prevenção adequada da dislexia, a sua identificação atempada e um melhor acompanhamento das crianças com esta condição”, é referido na mesma nota.

De acordo com Helena Serra, dirigente da DISLEX, “só depois da identificação destes casos por parte dos profissionais de educação é que a psicologia pode intervir”.

Para contribuir para o aumento do conhecimento e da consciencialização acerca do tema, a DISLEX promove, nos dias 22 e 23 de outubro, o VII Congresso Internacional de Dislexia, em formato virtual.

A iniciativa, integrada no Dia Mundial da Dislexia destina-se a educadores de infância, professores do ensino básico, secundário, professores de educação especial, pais e encarregados de educação.

Fonte: Observador

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

“Repensar as TIC na educação - O professor como agente transformador” - eBook


Encontra-se disponível para consulta e download o eBook "Repensar as TIC na educação - O professor como agente transformador", da autoria de Carla Rodriguez, Elisabete Cruz, Sandra Fradão e com a coordenação de Fernando Albuquerque Costa, professor auxiliar no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa.

Esta obra, da editora Santilhana, tem como principais destinatários educadores e professores que, reconhecendo o potencial transformador que as Tecnologias de Informação e Comunicação podem trazer à aprendizagem, querem equacionar o seu uso nas práticas letivas de uma forma refletida e consistente, em alinhamento com o currículo.


Fonte: DGE

domingo, 10 de outubro de 2021

Make it count: contra a discriminação vale sempre a pena

Rhys Porter tem 13 anos e um diagnóstico de paralisia cerebral. Impossibilitado de andar, é na baliza dos Feltham Bees que Rhys esquece todas as suas limitações, defendendo ajoelhado o que muitos não defendem de pé, a pontos tais de uma destas defesas acabar partilhada no TikTok da equipa.

O que era para ser motivo de orgulho e celebração para um rapaz igual a tantos outros, com as mesmas alegrias, as mesmas paixões, os mesmos sonhos, revelou-se ser, na manhã seguinte, o rosto da desilusão e do desgosto através de um sem número de insultos e comentários online.

No fundo, a crueldade crua e injusta e o pior de que somos capazes quando gratuitamente se destroem os sonhos de uma criança, já de si consciente das suas limitações, mas que tanto faz.

E se calhar é por tanto fazer que a inveja e a ignorância aparecem de repente de mãos dadas para que Rhys não mais queira voltar ao futebol, para que Rhys não mais queira ver um relvado, para que Rhys nunca venha a ser o que sempre quis ser, o guarda-redes da selecção inglesa de futebol com paralisia cerebral. O objectivo foi, infelizmente, alcançado.

Sozinho no quarto, Rhys perdeu horas entre a tristeza e incredulidade, lendo e relendo comentários sem fim. E assim teria continuado caso a família de Rhys, e com a família a comunidade futebolística, não se tivesse mobilizado para o resgatar do bullying de que fora vítima, entre videochamadas com os jogadores de eleição e mensagens de apoio de clubes como o Arsenal.

Fazendo das fraquezas forças, Rhys meteu mãos à obra e aderiu à SCOPE, uma instituição de apoio social para pessoas portadoras de deficiência, através da qual partilha a experiência de que foi alvo. Com o lema “Make it count”, Rhys desafia o cidadão comum a praticar de desporto de modo a angariar fundos contra a discriminação, pela igualdade. Para que nunca mais ninguém tenha de passar pelo que Rhys passou.

Porque não é justo. Porque é elementar. Com o propósito inicial de angariar 100 libras (cerca de 118 euros) através de 20 defesas diárias, Rhys já conta em mais de 19 mil libras (22.400 euros), o contributo para esta campanha, a sua.

E se vos contar que graças à sua iniciativa, à sua força e alegria, Rhys já foi entrevistado pela BBC e pela Sky News, tendo sido igualmente notícia na ITV, na Sports Illustrated, no Sun, Daily Mail, Evening Standard entre outros, culminando num abraço conjunto dos jogadores da sua equipa do coração, o Fulham, depois de um golo que ficará para sempre nas redes?

Sim, é verdade, e temos de admiti-lo: Rhys não é um jovem como os outros, é muito, muito, mais. O seu exemplo é o triunfo da tolerância e do amor ao próximo, é dar a outra face e nunca desistir e a razão elementar da importância da educação.

Porque só pela educação é possível compreender. E só pela educação é possível ignorar, mas sem esquecer, o mal a que todos os dias estamos sujeitos da parte de quem se esconde por detrás das redes só porque, e ao que parece, somos diferentes. Obrigado, Rhys, vemo-nos no estádio quando a selecção de que já fazes parte entrar em campo.

João André Costa

Fonte: Público

Da depressão ao suicídio: a baça linha

“Isso vai passar”, “Estás apenas triste”, “Estás a exagerar tudo”, “Eu consegui passar por isso sem precisar de ajuda como tu”. Quantas vezes ouvimos frases destas de pessoas próximas de nós aquando de conversas sobre a depressão? Afirmações que têm um efeito de cólera em qualquer sujeito sensível a estes temas, quanto mais junto de quem os protagoniza.

Estas palavras, que muitas vezes ecoam, na prática, indiferença e indolência no tratamento deste assunto, constituem-se, a meu ver, em alguns eixos cruciais para a intensificação da dor de alguém que se encontra numa depressão. Em primeiro lugar, destacaria a imposição da efemeridade do sofrimento – basicamente, um incómodo leve, um pequeno momento de desânimo que é atribuído como diagnóstico societal para um problema que se afigura, obviamente, mais complexo e mais grave. Em segundo, com essa atitude de menorização da questão, a ideia de que tal aflição, tal desgaste quotidiano, não impedem a/o doente de realizar algumas tarefas (domésticas, académicas, laborais…), pelo que a desviância dos comportamentos e dos discursos acerca da angústia que é viver não parece ser assim tão preocupante. E, em terceiro, uma dimensão de comparação: mães ou pais, amigas/os e outros significativos que utilizam as suas experiências, alegadamente mais desafiantes, para afirmar que o fenómeno depressivo é de somenos, quase um luxo para uma pessoa que, novamente de forma alegada, não passou por tantos dissabores da existência.

Sabemos hoje que estas perspectivas e condutas estão incorrectas, mas continuamos, na mesma, a reproduzi-las. A fazer delas uma espécie de kit de ferramentas universal que nos desembaraça de qualquer situação onde temos, enfim, de nos dedicar ao outro e gastar o nosso tempo na sua maior felicidade (ou menor infelicidade).

Mas esta não é apenas a única jogada. Há uma segunda que talvez cause a uma pessoa com depressão tão ou maior penar: a fuga, imediata ou progressiva. A “fantasmarização” que se abate sobre a rede social de apoio do ser humano em dificuldade e necessidade. Do lado dos membros dessa rede, o tomar a mal que um/a amigo/a não responda a uma mensagem cuja essência da acção está rodeada de ansiedade, pânico e desconfiança, porque a depressão leva-nos a isso mesmo (no fundo, e paradoxalmente, uma falta de reciprocidade e de empatia que a/o impaciente demonstra e com a qual vem reforçar ainda mais esta não confiança). Em resumo: a saída da vida daquela pessoa que a deixa desamparada e sem forma de ter força para reagir, levantar a cabeça, descobrir o mundo, curar-se.
A depressão é tão forte quanto Sísifo e a sua rocha para quaisquer metáforas em que o esforço para melhorar é inglório. Quem é fatigado todos os dias por este mal sabe que, por detrás de inúmeros sorrisos pouco genuínos, um deles sai verdadeiro e parece uma subida numa montanha de descidas. Mas isso é apenas um outlier estatístico no abatimento e na irresolução que se vive a cada segundo. E quem sabe no que se pode transformar uma depressão? Num definhar por meses e anos? Num acorrentar-se face à inevitabilidade da morte? Ou seja, em possíveis perturbações mentais acumuladas e em ideações suicidas, tentativas de suicídio e suicídios consumados.

Trago estas reflexões para, principalmente, defender que a depressão, assim como qualquer obstáculo mais ou menos profundo das nossas vidas, não se combate ignorando-a ou mascarando-a de episódios pontuais e tidos por qualquer um/a. É por isso que a depressão e o suicídio se combatem com ajuda profissional e ajuda social, com especialistas e conhecimentos e com familiares e amigas/os que nos sejam presença constante.

O Dia Mundial da Saúde Mental assinala-se hoje, 10 de Outubro. Que seja um momento de consideração vigorosa destes fenómenos. Contudo, antes e depois destas datas há uma vida por viver e um trabalho constante por realizar.

Leonardo Ferreira

Fonte: Público

sábado, 9 de outubro de 2021

Excluir devagarinho

Começar esta reflexão afirmando que o importante na vida não é o ponto de partida nem o de chegada, mas a caminhada realizada, talvez não tenha sido a opção mais acertada. O escritor Álvaro Magalhães, no seu memorável poema “Limpa palavras”, diria a propósito destas palavras que “têm mesmo de ser lavadas, é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias e do mau uso”, dada a imensidão de vezes que já foram citadas. A verdade é que olhar para o resultado final, o término do percurso, sem atender à trajetória, é desprezar o mais importante. Há caminhos, caraterizados pela exclusão, que a história da humanidade já nos ensinou onde vão desaguar, embora talvez muitos o desconheçam ou já estejam esquecidos. Dois livros fabulosos, a “Conspiração contra a América” de Phillip Roth e a “A Sétima Porta” de Richard Zimmler, obrigam-nos a uma marcha longa e dolorosa com as suas personagens que, passo a passo, vão sendo mandadas para a borda, para o precipício. Mediante um processo lento e dissimulado, em que há legitimação de discursos e práticas discriminatórias, tudo vai acontecendo de uma forma progressiva e infinitamente penosa para quem é alvo direto de discriminação.

Associei a vida destas personagens que acompanhei através da leitura a um acontecimento verídico recente que me deixou a pensar no quanto é importante deixar de conjugar o verbo “excluir”, nomeadamente na primeira pessoa.

Num final de tarde, um homem de etnia cigana abordou-me no sentido de me pedir boleia para duas mulheres e várias crianças. Depreendi que uma delas seria sua companheira e que, eventualmente, alguns dos mais pequenos poderiam ser filhos. Sublinhou que apenas pedia a minha colaboração de “taxista” para os elementos do sexo feminino e para as crianças. Logo que aceitei o seu pedido, implorou-me também que carregasse uma infinidade de mercadoria, que rapidamente encheu a mala do carro. Para agradecer a minha colaboração, ofereceu-me três pares de meias, que acabei por aceitar, apesar de primeiramente lhe ter deixado claro que o meu “trabalho” não exigia trocas. Imaginava eu que moravam ali perto, pois já os tinha visto passar naquele lugar várias vezes, mas o percurso que tinham de realizar era afinal bem mais longo. De referir que o motivo da minha deslocação era, curiosamente, dar boleia a um familiar próximo, que também precisava de ir para casa. Com o banco traseiro cheio de gente desconhecida e com o olhar constrangido do elemento da minha família que transportava ao meu lado, sentia-me apreensiva e só pensava: “Que alhada!”.

Quando finalmente cheguei ao destino, depois de um desvio significativo da rota que tinha planeado, e os meus passageiros abandonaram o carro, sou confrontada com o comentário do meu familiar: “Ai! Agora não te esqueças de limpar o carro… Traziam máscara?”. Estava tão atarantada que nem sabia responder à questão levantada. Simplificar momentaneamente a vida de crianças e mulheres que, pelo menos na aparência, seriam frágeis e com baixos recursos económicos, justificaria tanta inquietude? Seria motivo para ter tornado este acontecimento secreto, até este momento de partilha, dado que se o revelasse a algumas pessoas próximas certamente me diriam: “Mas tu estás louca? Deste boleia a pessoas de etnia cigana!’”? Se aquela mulher e aquelas crianças não fossem de outra etnia, teria eu hesitado em responder afirmativamente à sua solicitação de boleia?

Ainda bem que aceitei o pedido e que acabei por ficar com as meias, pois sempre que as calço penso na injustiça gerada pela exclusão e na longa caminhada que muitos de nós ainda teremos de fazer para que a palavra “exclusão” fique gasta, esfarrapada e caia em desuso.

Adriana Campos

Fonte: Educare

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Programa “Detectives das Emoções” ajuda a combater ansiedade e depressão em crianças

Um estudo-piloto concluiu que o programa de intervenção psicológica vulgarmente conhecido como “Detectives das Emoções” é eficaz no combate à ansiedade e depressão em crianças dos 6 aos 13 anos, anunciou nesta sexta-feira a Universidade de Coimbra (UC).

A investigação foi realizada por uma equipa da UC, em colaboração com o Centro Hospitalar Tondela-Viseu e com agrupamentos de escolas de Coimbra, de Nelas e de Viseu.

Com o nome científico “Protocolo Unificado para o Tratamento Transdiagnóstico das Perturbações Emocionais em Crianças”, este programa foi originalmente desenvolvido nos EUA e destina-se a crianças dos 6 aos 13 anos, que apresentem problemas de ansiedade e/ou depressivos clinicamente significativos e respectivos pais, refere a UC, em comunicado de imprensa, indicando que o objectivo desta equipa de investigadores é “estudar e validar o programa para a população portuguesa”.

Financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, o projecto, conduzido por investigadores do Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitivo-Comportamental e da Unidade de Psicologia Clínica Cognitivo-Comportamental, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da UC, tem a colaboração da Universidade de Miami (EUA).

Na prática, o programa tem como objectivo ajudar as crianças a desenvolverem estratégias para melhor lidarem com as suas dificuldades e emoções difíceis, permitindo assim que progressivamente se sintam menos ansiosas e/ou deprimidas.

Os resultados preliminares do estudo-piloto, realizado ao longo do último ano com a participação de mais de 30 crianças e pais, explica Brígida Caiado, doutoranda na UC, sob coordenação das docentes Helena Moreira e Maria Cristina Canavarro, mostram uma “elevada satisfação das crianças e pais com a intervenção, um forte envolvimento destes nas sessões e com melhorias significativas ao nível dos sintomas de ansiedade e depressão das crianças”.

Observou-se, detalha, “uma redução de processos psicológicos inerentes à psicopatologia (por exemplo, evitamento; dificuldades na expressão emocional; intolerância às emoções negativas; sensibilidade à ansiedade; afecto negativo e erros cognitivos) e uma promoção de processos psicológicos subjacentes à saúde mental (mindfulness, flexibilidade cognitiva, etc.)”.

Os pais também consideram ter aprendido “estratégias úteis para lidar com as dificuldades dos seus filhos, considerando a intervenção uma mais-valia para os seus filhos e para si mesmos”.

Agora, a equipa está a desenvolver um estudo mais alargado para avaliar a eficácia desta intervenção através da comparação com um outro programa de intervenção psicoeducacional para a ansiedade/depressão ("ABC das Emoções").

Só “através da comparação destes dois grupos é possível avaliar a eficácia efectiva do programa “Detectives das Emoções: Protocolo Unificado para Crianças”, conclui, citada pela UC, Brígida Caiado.

Nesse sentido, encontram-se abertas inscrições para participação neste novo estudo, destinado a crianças dos 6 aos 13 anos com perturbação emocional, cuja participação, tal como para os pais, é gratuita.

Fonte: Público

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

À mesa com uma inspeção do Ministério do Educação. O relato de uma professora sobre as angústias da avaliação

A inspeção veio à minha escola – uma escola TEIP, ou seja, localizada num território educativo de intervenção prioritária – e, por ordem do senhor Diretor, fiz parte do grupo de professores a quem foi requerida uma entrevista de cerca de uma hora com duas excelentíssimas senhoras inspetoras do Ministério da Educação.

Hum, que medo! – sussurraram os colegas em geral. Primeiro, também eu senti a preocupação que tamanha responsabilidade implicaria mas depois, com regozijo e talvez alguma inconsciência, pensei: Se querem saber como conseguimos levar a bom porto a tarefa ingrata e tantas vezes inglória de ensinar e avaliar alunos para quem a escola é quase a última das suas prioridades, vou com todo o gosto… Sejam muito bem-vindas! Confesso que fiquei quase feliz. Afinal, havia quem quisesse saber de nós, professores diariamente no terreno, após dois anos infernais de pandemia…

Mas não era bem isso. A reunião visava sobretudo obter informações – factos e exemplos concretos – sobre o processo de avaliação dos nossos alunos, pelo que pretendiam ouvir alguns professores, escolhidos aleatoriamente (segundo me disseram), sobre avaliação. Sim, avaliação. O Projeto Maia – Monitorização, Acompanhamento e Investigação em Avaliação Pedagógica, teve o seu início em setembro de 2019 (embora tenha sido forçado a adaptar-se à situação pandémica) e está a retomar o seu caminho, recuperando assim o tempo entretanto perdido. Talvez por isso, agora estejamos a absorvê-lo, de forma concreta, em Setembro de 2021. Este projeto, pensado, concebido e desenvolvido com o pressuposto de que a melhoria das aprendizagens dos alunos está fortemente relacionada com as práticas pedagógicas das escolas e dos professores, particularmente com as suas práticas de ensino e de avaliação tem, assim, um propósito claro e louvável: contribuir para melhorar as nossas práticas de avaliação e de ensino, levando à melhoria das aprendizagens dos nossos alunos.

Ora, sendo a avaliação um dos processos mais complexos e exigentes da vida de um professor, enchi-me da coragem dos otimistas e preparei-me para responder a todas as questões que me quisessem colocar. E foram muitas… Tantas e em catadupa que, um professor menos experiente e com dificuldades de expressão oral, ter-se-ia provavelmente sentido intimidado. Eu apreciei a possibilidade de discutir com quem sabe de avaliação na teoria mas não faz ideia – ou não quer fazer – da dificuldades e das infinitas especificidades que um processo de avaliação bem feito implica quando tenho – devido aos meus anos de serviço –apenas cem alunos e uma disciplina em vez de, como muitos dos meus colegas, várias disciplinas, vários níveis, múltiplas turmas e muitos, muitos, tantos alunos. Seja como for, concordei plenamente com a necessidade de melhorar o processo avaliativo. Nesta hora inteira de reflexão profunda sobre a escola, os professores e esse bicho papão chamado avaliação, pude perceber que todos podemos fazer mais e melhor.

Esta entrevista pretendia analisar, através da perspetiva docente, a forma como este processo multidimensional que é a avaliação é aplicado na nossa escola. Deste modo, desde questões sobre o currículo, as práticas de ensino, de formação até aos métodos e instrumentos de avaliação, tudo esteve em cima da mesa: como avalio os alunos na disciplina de Português do Ensino Secundário, se e como distingo entre avaliação formativa e sumativa, que retorno dou aos alunos de forma a orientá-los nas suas aprendizagens, quais os instrumentos de avaliação utilizados, que uniformização de critérios de avaliação é possível encontrar entre os diferentes grupos disciplinares, se dentro do mesmo grupo os critérios, instrumentos e métodos de avaliação são os mesmos… Como faz isto, senhora professora e como faz aquilo, senhora professora, não acha que podem fazer melhor isto, senhora professora, e não acha que podem fazer melhor aquilo e o outro e mais aqueloutro? E por aí fora até à exaustão…

Sim, podemos, concordei. É possível sempre melhorar! Especialmente se nos for dado tempo de qualidade para uma reflexão madura e responsável sobre como melhorar as nossas práticas pedagógicas no domínio da avaliação das aprendizagens, se nos derem um número razoável de alunos e de níveis e de turmas e de anos, se perceberem de uma vez por todas que um profissional docente deve ser uma profissional reflexivo e não um fazedor de grelhas que, ajudarão certamente a essa reflexão, mas não são a sua essência. Como tem mostrado – e bem – a investigação científica nesta área, a avaliação pedagógica pode ser um importante fator de combate ao sucesso escolar, ao abandono e às desigualdades, crucial em qualquer instituição de ensino e ainda mais, posso afirmar, nas escolas localizadas em territórios educativos de intervenção prioritária.

Fui para casa, pus-me a pensar e saiu este texto. De facto, a reunião com as excelentíssimas senhoras inspetoras foi produtiva porque formativa. Logo, surtiu o efeito desejado: refletir sobre a avaliação para uma melhor concretização da mesma. Ficou a certeza de que urge melhorar os resultados dos alunos do secundário, especialmente quando neste ano letivo e no próximo não há a desculpa da obrigatoriedade do cumprimento exaustivo dos vastos programas, sendo a nossa prioridade as aprendizagens essenciais. Que melhor oportunidade do que estes dois anos para, na disciplina de Português e em todas as outras, trabalhar de forma interdisciplinar de uma vez por todas, uniformizar critérios de avaliação também entre grupos disciplinares – mantendo obviamente a especificidade de cada área – e definir o perfil exato do aluno que queremos à saída do secundário.

Das muitas questões que me foram colocadas, como faz para que um aluno saiba exatamente o que deve fazer para conseguir sucesso, não lhe parece que ainda há muitos professores que usam os dados recolhidos com a avaliação formativa para a transformação em classificação, e que formação tem em avaliação, senhora doutora?… talvez a que mais me angustiou foi a seguinte: Então se faz corretamente a avaliação formativa dos seus alunos, como explica ainda a existência de classificações negativas nas pautas? Pediram-me exemplos concretos de tudo o que afirmei, de todos os argumentos que defendi. Tinha vários, felizmente. O que mais parece ter chocado as minhas interlocutoras foi a minha tese de que a dificuldade dos alunos em reter informação, por mais simples que aparentemente seja e das mais variadas formas por que seja apresentada, é gritante. Exemplo? – pediram-me. Não será a senhora professora que não está a utilizar o método certo para que essa aprendizagem ocorra? Talvez, talvez, admiti… Mas então, ajudem-me, pedi. Ainda ontem introduzi Pessoa e o Modernismo numa turma de um curso profissional contextualizando-o numa época, num século, em décadas, em anos… Falei, escrevi no quadro, eles escreverem no caderno, viram e ouviram um vídeo e leram no powerpoint a época: séc. XX. Perguntei se sabiam a razão para o dia 5 de Outubro ser feriado nacional. Falei-lhes do rei de Espanha e do Presidente da República de Portugal. Remeti para a data de 1910… Sai da aula convicta de que nenhum daqueles alunos jamais trocaria o século de Pessoa como fazem habitualmente com o século de Camões. Pura ilusão. Na aula seguinte, ninguém se lembrava e, pior do que isso, houve quem avançasse com o século XVII, XVII ou XIX. Contei-lhes esta história e perguntei às senhoras inspetoras o que fariam, como fariam e pedi-lhes que me ensinassem. Não estamos aqui para ensinar, responderam. E tinham toda a razão.

Eis talvez chegada a hora de repudiar o limitativo meio envolvente da escola como desculpa. E, se por exemplo, nos domínio da leitura e da escrita, da educação literária e da gramática podemos ajudar a crescer, não poderemos, todos os professores de todos os grupos disciplinares, apostar no pleno sucesso dos nossos alunos, por exemplo, no domínio da oralidade e da competência para fazer apresentações orais de qualidade? Não pode haver valores negativos na oralidade da língua materna, certo? Mas também não deveríamos aceitar classificações de dez valores neste domínio… Passei o resto do dia e da noite perdida em pensamentos. É um facto que professores reflexivos precisam-se. Mas há momentos em que me sinto numa espiral da qual nunca conseguirei sair. E o que não consegui perguntar foi o que fazer às turmas anestesiadas, com níveis de desempenho e de expetativas tão baixas, especialmente após estes dois anos de pandemia?

Carmo Machado

Fonte: Visão

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Mathina, a jovem que ensina Matemática

Numa terra chamada Platónia há diferentes mundos onde convivem dragões, feiticeiros, piratas e criaturas desconhecidas. Lá vive Mathina, uma menina que quer trazer a magia da terra encantada para, com ela, todos aprenderem Matemática. É verdade: a fantasia e a ciência dos números juntaram-se e construíram uma experiência digital com muitos enigmas e entretenimento à mistura.

O projeto Mathina, homónimo da personagem principal, apresenta variadas ferramentas educativas digitais, tendo como principal objetivo divulgar a Matemática através de histórias e desafios. É um projeto Erasmus+, ou seja, desenvolvido em parceria por entidades de diversos países europeus, que pretende complementar a formação escolar dos alunos. “São conteúdos que fundem o ensino formal e não-formal da Matemática”, resume Ana Cristina Oliveira, coordenadora do projeto em Portugal.

Mathina, a personagem principal, e o irmão, Leo, aparecem em todas as histórias e são os guias para a viagem pela terra de Platónia. Existem quatro mundos diferentes, associados a quatro temáticas da disciplina: simetria (Feira da Simetria), geometria (Pássaros do Fogo), criptografia, ou seja, a codificação e descodificação de mensagens (Ilha do Corsário) e a lógica (Cidade Logi). Cada mundo tem histórias adaptadas a todas as idades, dos quatro aos 19 anos.

O Mathina, traduzido em quatro línguas, além de disponibilizar material formativo a pais e professores, consiste em conteúdos didáticos digitais, com diversas imagens, ilustrações, jogos e vídeos que procuram ensinar a Matemática “de uma forma menos convencional”, explica Ana Cristina Oliveira, da Atractor, associação portuguesa responsável pelo desenvolvimento do projeto, juntamente com quatro outras associações europeias.

O objetivo é os conteúdos serem utilizados tanto em casa como em ambiente de sala de aula. Apesar de não seguir o currículo escolar e de dar a conhecer “um lado diferente da matemática”, a coordenadora aponta três finalidades. “Para pais e filhos aprenderem juntos em complemento às tarefas escolares; para professores, como ferramenta didática que pode ser utilizada nas aulas; ou para jovens curiosos que queiram divertir-se e aprender de forma autónoma”, enumera.

Ana Cristina Oliveira salienta que “o projeto foi lançado há pouco tempo e, por isso, ainda está numa fase divulgação”. Mas, garante, o objetivo será continuar a produzir materiais complementares aos já existentes.

A Atractor é uma associação de divulgação da Matemática ligada à FCUP, à Universidade do Porto, à FCTUC, à Universidade de Aveiro, à Associação de Professores de Matemática e, ainda, à Sociedade Portuguesa de Matemática. É responsável por eventos, exposições e atividades diversas, tendo uma forte aposta na vertente virtual. “Queremos conseguir atrair as pessoas para a Matemática, não centrada só na escola, mas também fora dela”, afirma Ana Cristina Oliveira, focando a abordagem inovadora que todos os conteúdos produzidos procuram ter.

Fonte: Tag JN por indicação de Livresco