segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Só 1% dos sites das escolas públicas cumprem regras de acessibilidade

Uma análise da Universidade Portucalense confirmou que apenas 0,53% de 954 sites de escolas portuguesas segue têm boas ou excelentes práticas de acessibilidade.

A legislação já tem 15 anos – mas tarda em impor-se nas escolas públicas portuguesas. Pelo menos, é essa a conclusão a que chegou um estudo de investigadores da Universidade Portucalense sobre a aplicação de requisitos e mecanismos de acessibilidade que facilitam o uso da Internet por pessoas com necessidades especiais. De acordo com os investigadores da Universidade Portucalense apenas 1% dos 954 sites de escolas públicas analisados respeita as regras da acessibilidade.

O comunicado da Universidade Portucalense refere ainda que «os resultados apurados são pouco encorajadores já que, para além do número de escolas que apresentam o símbolo de acessibilidade ser residual (1%), apenas 0,53% são classificadas de muito boa ou excelente prática».

Além das boas práticas da acessibilidade, a equipa liderada pelo investigador Victor Henriques analisou os conteúdos de 305 escolas da Direção Regional de Educação do Norte (DREN). Esta vertente de estudo teve por base a avaliação de acordo com 174 critérios relacionados com a identificação e a descrição da escola, corpos diretivos, cursos e currículos de estudo, quadro docente, atividades extracurriculares, pesquisas, blogues, entre outros itens em análise.

«Mais de 48% dos sites das escolas não apresentam a sua oferta formativa e mais de 57% não mostra o seu plano de estudos», refere em comunicado Victor Henriques, apontando uma das conclusões obtidas durante à análise dos conteúdos publicados pelos vários sites das escolas públicas do Norte do País.

Além da publicação das datas de atualização do site e do contacto do administrador, Victor Henriques faz uma recomendação diretamente para o Ministério da Educação: «Relativamente ao URL, não existe nenhuma recomendação ou orientação do Ministério da Educação, permitindo que cada escola tenha a autonomia de escolher o seu domínio, no entanto, recomenda-se a escolha do domínio EDU.pt, uma vez que é o que corresponde aos sítios web educacionais portugueses. No estudo foi possível observar que apenas 11,48% das escolas da DREN utilizam este domínio».
 
Fonte: Exame Informática por indicação de Livresco

GÉNERO, EDUCAÇÃO E CIDADANIA: conhecimento, emancipação e igualdade em contexto escolar

A Universidade Aberta promove o curso de formação online GÉNERO, EDUCAÇÃO E CIDADANIA: conhecimento, emancipação e igualdade em contexto escolar, acreditada pela CCPFC.
As inscrições decorrem até dia 13 de janeiro de 2015.


CCPFC/ACC-75135/13 - Para efeitos previstos no artigo 5º do regime Jurídico da Formação Contínua de Professores a presente ação releva para efeitos de progressão em carreira de Educadores de Infância, Professores dos 1º e 2º Ciclo do Ensino Básico e Professores de Educação Especial . No n.º 3 do artigo 14º, a presente ação não releva para progressão em carreira.
Para mais informações aqui.

Fonte: DGEstE

domingo, 4 de janeiro de 2015

A educação como direito e como prioridade

“A educação é uma das bênçãos da vida e uma das suas necessidades”. Estas palavras foram proferidas por Malala Yousufzai na cerimónia de entrega do prémio Nobel da Paz, que decorreu em Oslo no passado dia 10 de Dezembro, justamente o dia em que a humanidade celebrava o 66.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH, 1948).

Importa lembrar que a DUDH foi proclamada em pleno rescaldo do nazismo, constituindo, além do mais, uma extraordinária afirmação do poder regenerador e transformador da humanidade. Com efeito, numa altura em que a humanidade se encontrava fragilizada diante da constatação de “um mal humano extremo e absurdamente factual”, no dizer da filósofa Hannah Arendt, foi possível juntar representantes de povos de todo o mundo, separados por matrizes políticas, ideológicas e religiosas muito diversas, e produzir um consenso notável sobre os valores definidores da condição humana.

A partir daqui, cabe a cada indivíduo e cada órgão da sociedade defender e promover, em especial através do ensino e da educação, o respeito por esse ideal, assegurando a sua atualização permanente, a sua concretização universal e efetiva. A educação aparece assim, e desde logo, reconhecida como um direito humano per se, mas também como um meio fundamental de formação para os direitos humanos.

Tal como aconteceu com outros direitos, o direito à educação tem vindo a ser objeto de sucessivas interpretações, acompanhando a evolução do próprio conceito de educação, enquanto intervenção intencional nos processos de desenvolvimento dos indivíduos, das organizações e das comunidades. No entendimento da comunidade internacional contemporânea, a educação constitui um direito humano básico, potenciador do acesso a outros direitos, devendo, como tal, ser acessível a todas as pessoas, ao longo de toda a sua vida. Na escola ou fora da escola, a educação torna as pessoas mais sensíveis, mais ativas, mais resilientes, mais responsáveis e mais capazes de futuro, justificando-se, nessa medida, a inscrição prioritária da educação no seio das políticas públicas.

Por outro lado, para que a educação sirva a humanidade, é preciso que, seja em que contexto for, ela funcione, realmente, como um laboratório de humanidade e democracia. O que nos conduz para as questões relativas à qualidade ética da educação e ao respeito pelos direitos dos próprios educadores como parte integrante do direito à educação.

Na verdade, os educadores desempenham um papel crucial na formação de atitudes – positivas ou negativas – em relação à aprendizagem, à vida e ao futuro. Enquanto promotores privilegiados da condição humana e conforme surge reafirmado nos múltiplos compromissos internacionais sobre educação subsequentes à DUDH, os educadores deverão dispor dos meios de trabalho adequados e ser devidamente autorizados, reconhecidos e estimados pela sociedade. Voltando às palavras da jovem paquistanesa Malala Yousufzai, não podemos esquecer: "um livro, uma caneta, uma criança e um professor podem mudar o mundo”.

Isabel Baptista

Docente da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, no Porto.

Fonte: Público

Educar não é difícil. É ter momentos terríveis

Mário Cordeiro, pai de cinco, avô de cinco. Não lhe digam que é um pai-avô. Habitualmente fala de papas e birras. Desta vez falou da sua infância, de ver os agapantos com o pai. Na badana do livro mais recente, dizem que é o pediatra em quem os portugueses mais confiam. (...)

É um pediatra de referência, autor da bíblia O Livro da Criança, um autor prolixo. Só na segunda metade de 2014 publicou Educar com Amor e Diário do André. No primeiro, fala sobre a tarefa hercúlea que é educar meninos felizes e equilibrados e abre cada capítulo com uma citação de Saint-Exupéry. No segundo, num tom diarístico, olha para a vida e o íntimo de um jovem institucionalizado.

Parece dizer a cada resposta a celebérrima citação d’O Principezinho: o essencial é invisível aos olhos. Quer dizer, está sempre à procura do âmago que importa.

A entrevista começou com uma hora de atraso porque foi preciso acudir a meninos doentes. Passou-se na hora de almoço. Não houve almoço. Saímos juntos do consultório e já no passeio explicou-me da vantagem que é fazer vida a pé. Vive a dois passos do espaço onde trabalha, as crianças andam numa escola logo ali. Uma vida simples. Tem 59 anos.

Fala no seu livro Educar com Amor da importância de nos sentirmos queridos. A palavra “querido” é muitas vezes usada como se fosse uma coisa esvaziada de sentido, mas é fundamental na construção de quem somos e da nossa auto-estima.
O “meu querido”, quando dito com sinceridade, diz-se como se fosse um nome. Relacionado com o verbo, tem que ver com desejado. “Eu quero-te”. Essa sensação de ter sido querido ou de se ser querido — amado — é um dos fatores protetores maiores que a pessoa pode ter. Ter uma recordação, mesmo que no inconsciente, de uma infância em que alguém nos quis; descobrir ao longo da vida, em gestos, nos símbolos, que se foi querido (até por pessoas que já morreram, pais, avós); pensar que a nossa família, o nosso bairro, o nosso grupo de amigos não teria sido igual sem nós é muito importante.

Dê-me uma recordação sua assim, como quem dá um tesouro.
Vivíamos numa moradia no Restelo. Uma das coisas de que me lembro com mais gosto era sentir o carro do meu pai chegar. Às vezes, já estava escuro e eram dias chuvosos. Ele ia dar uma volta pelo jardim, apanhar uma rosa, podar umas coisas, tirar os caracóis dos agapantos, que comiam as folhas.

Esse passeio, fazia-o consigo?
Sim. Era um passeio muito pequeno, um bocadinho. Era uma maneira de ele sentir: “Cheguei a casa, estou a ver as minhas roseiras, as árvores de fruto.” Tínhamos uma cumplicidade silenciosa. Julgo que nem falávamos. Ou ele falava para explicar. Era um homem curioso, cientificamente, e muito vasto na sua cultura.

Que idade é que o seu pai tinha quando faziam esses passeios pelo jardim?
Ele tinha 43 quando eu nasci. Portanto, tinha quase 50 anos.
Aos cinco, seis anos não podia organizar a importância que esse gesto teria para si. Tinha apenas a sensação prazenteira. Há coisas que não têm de ser verbalizadas, que não são taxativas, mas que insidiosamente ficam lá. Hoje temos a ideia de que tudo tem de ser dito, quase formalizado. Outro aspecto: uma atenção exclusiva, que parece durar a vida toda, e que cabe em 15 minutos.
A minha costela epidemiologista não me deixa fazer comparações. Se hoje é melhor que antigamente. É comparar o incomparável. Estamos a falar de realidades diferentes. Mas há uma coisa que me preocupa na sociedade dita ocidental: a perda da intimidade. Não só a intimidade de um pequeno ecossistema familiar versus os sete mil milhões de habitantes do planeta. Revelar a intimidade ad nauseam, sem se saber muito bem porquê… É bom ter partes íntimas e apreciar os momentos pelos momentos.
Quando era esse quarto de hora: chegava o Outono, fazia-se uma queimada de folhas. Para um miúdo, é sempre deslumbrante ver folhas a arder. Esta faceta pirómana... Os cuidados a ter, ver de onde o vento vinha, perceber se é dia para fazer isso ou não. Essa percepção das coisas, esses momentos, eram preciosos.

Os passeios eram só consigo. Era um tempo só seu numa família numerosa. Oito filhos.
Tendo o meu pai uma vida tão sobrecarregada, não dava para estar uma hora com todos. Conseguia pequenos momentos, pequenos códigos, que uniam a família. Trabalhava no hospital de manhã, à tarde tinha consultório, vinha almoçar a casa. A minha mãe estava em casa. Fazíamos o possível, os meus irmãos e eu, para almoçar também em casa. A seguir ao almoço, escolhíamos um disco para ouvir. Discos de vinil, 33 rotações, os LP. Geralmente música clássica. Eu ou um dos meus irmãos é que éramos os eleitos para escolher o que íamos ouvir. Estas pequenas coisas (não ser ele a escolher) era um privilégio que ia dando. E transformava aquele bocadinho, que era muito pouco, em termos de tempo útil.

Como é que se consegue transformar uma coisa que parece banal (um almoço/um jantar em família), sobretudo na vida apressada que todos temos, num encontro mágico, pelo qual se anseia?
É o espírito com que se vive as coisas. Essa figura central, que era ele, e a minha mãe, também, não sendo muito expansivos nas suas manifestações afectivas… Eu fui muito mais físico com os meus filhos do que o meu pai ou a minha mãe foram comigo. Havia o desejo de que estivéssemos lá. Não havia um caráter obrigatório. Não era um amor obrigado.

Transparece no que diz uma ausência de ansiedade. No fundo, estou a falar das doenças de que as pessoas mais se queixam. O medo do abandono, a sensação de desamparo.
Eu tinha grandes ansiedades quando era criança e adolescente. Era de uma timidez — era e sou, quando se é, é-se a vida toda — exagerada. Ter sete irmãos mais velhos, e estamos a falar de seis irmãs, não é fácil. É-se passado a pente fino, a pente para piolhos. O meu irmão casou-se tinha eu nove anos. Fui tio aos dez anos.

O que é que era mais difícil, conquistar o seu espaço?
O modelo infantojuvenil da relação fraternal é de grande cumplicidade, mas também de muita picardia, de empurrões para ver quem chega à frente.

Digamos que é uma primeira grande amostra do que se passa cá fora.
É. Os irmãos muitas vezes não passam uns sem os outros mas, a propósito de coisas mínimas, explode uma litigância.

Essa litigância tem sempre por objeto a atenção dos pais?
Muitas vezes, sim.

Era um tímido exagerado — estava a dizer.
O meu pai também era extremamente tímido. E o meu avô materno também. (Era um homem fascinante, escrevi um livro sobre ele. Morreu tinha eu oito anos. Veio no início do século XX para Portugal, para a metrópole. Chamava-se Júlio Gonçalves.) O gosto pelo show off sempre me arrepiou um bocado. Serviu para cultivar uma vida interior maior. Estava com os amigos nas férias e no fim-de-semana, em casa, estava muito sozinho. Gostava muito de brincar, de ler. Os ecrãs eram mínimos. Só tive televisão quando o homem foi à lua. O meu pai nunca controlou o que eu estudava, mas eu sentia que ele queria que estudasse.

Esperava que reproduzisse o percurso dele e quem ele era?
De alguma forma. O meu pai veio da Índia com 14 anos num barco que levou não sei quantos meses a chegar. Veio pelo Cabo da Boa Esperança. Foi para casa de um tio jesuíta, o padre Valente Cordeiro, que era um homem genial do ponto de vista intelectual, mas de uma vivência espartana. O meu pai habituou-se a isso. Uma coisa que procurou transmitir: a noção de coerência, consistência, rigor. E gosto pelo trabalho.

A partir de coisas que disse, a casa, a forma de se tratarem, percebo que era um quadro burguês. Mas não havia espaço para o desperdício. Que relação tinham com o dinheiro?
Não. O meu pai era asceta. Tudo o que fosse para promover a pessoa intelectualmente, nunca regateou. Tudo o que fosse extra, dizia: “Façam pela vida.” Uma vez fui pintar paredes para a International House para ganhar uns dinheiros. Passava coisas à máquina.
Sou completamente desprendido em relação ao dinheiro. Sinto que sou uma pessoa afortunada relativamente à esmagadora maioria dos portugueses. Não vou agora armar-me em falso pobre, não vou ser hipócrita. Mas o dinheiro, para mim, serve para o nosso conforto. Não consigo compreender aquelas pessoas que quanto mais têm mais querem.

Aprendeu a ouvir outros muito diferentes de si. Estou a pensar especificamente no Diário do André, um livro que escreveu recentemente sobre um rapaz institucionalizado, filho de uma prostituta, com um quadro social e afetivo oposto àquele que teve. Essa aprendizagem, de foco e atenção ao outro, começou onde?
Creio que vem de ser muito tímido. Tive outra intercorrência: cresci muito tarde. Tinha a senha do talho mais atrasada.

Pareceu uma criança até que idade?
Quando entrei na universidade era minúsculo. Nem fazia a barba. Felizmente, para não me sentir completamente nas ruas da amargura, tinha o meu melhor amigo, Carlos Ruah. Ele também cresceu tarde. Fizemos o liceu todo juntos. Depois fomos para Medicina. Unha com carne. Depois, de repente, dei um salto.

O que é que o fez crescer?
É uma coisa que se chama atraso constitucional de maturação. É uma variante normal. Assim como há raparigas que no 4.º ano já têm o período (10%), há rapazes que crescem mais tarde. Dentro do crescer mais tarde, há uns que começam aos 12, 13 anos, e há outros que começam aos 16.

Entram razões emocionais nesse processo?
Não. Na Revolução Industrial, verificou-se que as crianças que trabalhavam nas minas e nas fábricas e as que iam à escola tinham diferentes tamanhos. Não tinha que ver com carências alimentares. Tinha que ver com carências afetivas e sobrecarga de trabalho. Veio descobrir-se que quando uma criança está afetivamente ou fisicamente esgotada há uma paragem da hormona do crescimento.
Neste caso, não era isso. Era uma variante normal.

Mas sofre-se muito, quando se é muito pequenino.
Sofre. Nos meus livros, procurei falar muito nisso, porque é uma história por que passei. Não era o medo de não crescer, sabia que seria pouco provável. Não era o Peter Pan. Era ver passar oportunidades. A vida na adolescência faz-se muito de acordo com dinâmicas de grupo, e as dinâmicas de grupo têm muito que ver com símbolos de pertença. Vai-se à discoteca, já se bebe cerveja. Namoricos. Eu era outsider. Tinha uma timidez enorme, não tinha cabedal.

Curioso, não usou a palavra “sexualidade” quando falou de adolescência. Disse “namoricos”.
Porque a palavra “sexualidade” decorre desde que nascemos até que morremos. A sexualidade não é apenas relações sexuais e não é só preservativos. É mais uma parte de relação afectiva.
Em determinada altura, dei o grito do Ipiranga. “Ou me deixo levar por isto e vou ser infeliz, ou tenho de dar a volta.” A maneira que arranjei, que tenho recomendado a muitos jovens que passam pelo mesmo, era imaginar que eu não era eu. Quando tinha de me expor, imaginava que estava a representar um papel. Depois, fui-me habituando à exposição e agora já me reconheço como eu.

Tendemos a reproduzir os que nos são próximos. Não é pediatra por acaso, pois não?
O meu avô era médico, o meu bisavô também. Tem sido por tradição, não por obrigação. Os meus quatro avós: três eram goeses. O meu pai foi um pediatra muito conhecido a nível internacional. Foi um dos fundadores da Unicef e da Pediatria Social. Começava a haver preocupações com o que estava para lá da doença. Prevenção, vacinas. Com o trabalhar de maneira pluridisciplinar, com psicólogos, antropólogos. E a visão da criança enquanto ser provido de direitos.
Foi graças a ele, e estamos a falar dos anos 1970, não é da Idade Média, que os pais puderam estar ao pé das crianças no hospital. Antes disso, os pais iam ter com as crianças das três às quatro da tarde, através de um vidro. Era a cultura do “asseticismo”. Podiam transmitir doenças, os pais. Os médicos, não, mas os pais, sim.

Como é que se chamava o seu pai?
Mário Cordeiro.

O retrato que dá do seu pai, a partir das coisas que diz, é de alguém próximo, sensível. Apesar da educação austera que recebeu.
Era extremamente sensível. Não tocava nenhum instrumento musical, mas era um melómano. Desde cedo, pôs-nos a todos a aprender piano. Tínhamos um piano em casa e era mais fácil arranjar uma professora que despachasse todos. Levava-nos a concertos. Lembro-me de passar tardes nos concursos Vianna da Motta a fruir música. Naquela altura, pediam-se autógrafos a todos os pianistas. Eram um troféu de caça.
É evidente que o meu pai preferia música clássica. Mas uma vez foi a Londres e trouxe o Hair. Outra vez, o Abbey Road dos Beatles. Lembro-me de chegar ao liceu com o álbum..., faz de conta que não mostro, mas a mostrar.

Já alguma vez foi a Abbey Road, em Londres, e atravessou a passadeira, em frente ao estúdio onde o disco foi gravado?
Não.

Não é muito longe da casa onde Freud morreu e onde viveu o último ano de vida.
E que visitei com a minha mulher há três anos. Se quisesse definir a sensação de paz e serenidade, foi a nossa visita à casa de Freud. Mas não era a paz de cemitério. Era a compreensão das pessoas, de poder perspetivar o que os outros são. A não emissão de juízos de valor, de rótulos.

Qual foi o objeto que mais o impressionou? O divã, a coleção de arqueologia, os livros?
O divã é o divã. Gostei muito da sala, do escritório. Gostei do tear da filha [Anna, que está no andar de cima]. A análise é uma arqueologia da mente. Mesmo que não se faça psicanálise, nem psicoterapia, o tentar descobrir dentro de nós a nossa arqueologia, escavar… Nomeadamente nos sonhos, nos atos falhados, nas nossas raízes. Sem perder a noção científica. Não é por acaso que Freud era neurologista e arqueólogo. Sem essas duas vertentes, não teria conseguido.

O que é que o seu gabinete de trabalho diz de si? O de Freud diz muito sobre ele.
Este gabinete não está totalmente feito à minha medida porque é partilhado. O que diz mais é a música (a primeira coisa que faço quando chego é pôr música). São os livros, os livros. Os brinquedos pacificam as crianças. E a mim também.

Gosta do Winnie The Pooh, especialmente? Tem aqui, sobre a secretária, uma imagem do ursinho.
É uma personagem simpática. Gosto do Burro porque tenho pena dele, por causa do seu sofrimento, da sua angústia. O Tigre, sendo um tigre, é frágil. O Piglet quer é amizade e brincadeira.

Estávamos a falar do seu pai, que trazia discos de Londres. É um pai muito diferente do pai que ele foi?
Os meus irmãos mais velhos referem que, em relação a eles, o meu pai era mais rígido, mais espartano. Em relação a mim, não me posso queixar. Talvez porque passaram 14 anos entre o nascimento do meu irmão mais velho e o meu. Nunca me tocou. Nunca me ralhou, nunca me lembro de me ter levantado a voz. Mas o olhar dizia tudo. Já sabia que o olhar era: “Não gostei.” Eu sentia: “Falhei.”

Teve cinco filhos com uma grande diferença de idade entre eles. O seu filho mais velho, teve-o com que idade?
Tive-o com 23. Hoje tem 35. Os mais novos, os gémeos, têm 11.
Recuso liminarmente quando algumas pessoas dizem: “Ai, agora és um pai-avô.” Eu sou avô, tenho cinco netos. E sou pai, tenho cinco filhos. Uma coisa é ser avô e a outra é ser pai. Não me vejo, em relação aos mais pequenos, a assumir-me menos como pai e mais como avô. Tenha a idade que tiver.

Ser avô passa por ser mais permissivo com os netos, não ter a mesma responsabilidade?
Exato. A responsabilidade educativa é dos pais. Também não defendo que os avós deixem fazer tudo e que aproveitem para minar o caminho dos pais. Devem ajudar os pais. E aquele mínimo de valores que os pais definem, os avós têm a obrigação de respeitar.
Mas pode-se ter uma relação mais despreocupada. Até no quotidiano. Com os meus netos, não tenho de me preocupar com o que comem ao pequeno-almoço, o que almoçaram ou se vão mais tarde para a cama. Com os meus filhos, tenho.

Afinal, foi um pai muito diferente do seu filho mais velho do que é agora, dos gémeos?
Não acho que tenha sido, na matriz. É evidente que os tempos são outros. Dou-lhe um exemplo: quando o Pedro e a Filipa chegaram à adolescência, apareceram os Game Boy. Quer eu quer a mãe dissemos: “Não há Game Boy para ninguém.” Fui muito impositivo: “Não quero.” Achei, e continuo a achar, que crianças e adolescentes são seres que têm cinco sentidos. Reduzir tudo a uma coisa meramente visual, é redutor da capacidade humana.
Eu gosto de livros. Gosto também do cheiro dos livros. E muitos livros numa sala produzem o cheiro de livros.

Os seus filhos mais pequenos não têm telemóvel, imagino.
Telemóvel têm, mas não fui eu que dei. Não têm iPad e não têm consolas. Não vejo interesse. E é viciante. Crianças e adolescentes são seres que têm de ser generalistas, plurissensoriais. Pôr a mão na massa. Numa altura em que o mundo é cada vez mais artificial, o contacto com a natureza é fundamental. Uma das coisas que estive a fazer com o meu filho Tomás, em Outubro, foi recolher folhas, espalmá-las naqueles livros pesadíssimos, fazer colagens. Para mim, é mais engraçado, para eles, é mais engraçado.

Ao perguntar se foi um pai muito diferente, também estou a perguntar se é um pai menos ansioso. Os pais, sobretudo em relação ao primeiro filho, têm a preocupação de fazer tudo bem. E ficam muito contristados quando alguma coisa corre mal. Li no seu livro que uma criança descarregou sobre a mãe: “A mãe é má, má e feia.” Eles nunca disseram: “O pai é mau e feio”?
É preciso saber interpretar porque é que dizem. Há duas maneiras de dizer: “O pai é mau” ou “a mãe é má”. Uma pode ser mesmo sentida, vem cá do fundo. É uma negação do vínculo que assusta. Outra pode ser mais no sentido: “Gostava tanto de fazer aquilo. Se não existisse essa tábua da lei (que o pai é), podia extravasar o meu impulso.” É a velha luta freudiana entre o id e o superego. O pai representa o superego, o obstáculo. O miúdo chateia-se por ter aquele gendarme interno. E é mais agradável projetá-lo em algo externo.
Esse jogo é muito interessante. Interessa-me cada vez mais perceber porque é que existem princípios éticos na humanidade, por que é que vingaram. É claro que há um sistema de controlo social, legislativo, jurídico. Mas esse apareceu para dar corpo institucional a um sentido ético.

Esse interesse, em si, está ligado a uma convicção religiosa?
Não. Fui educado na religião católica até aos 17, 18 anos. Nunca fui beato, mas era católico. A determinada altura comecei a pensar que não precisava de intermediário entre mim e Deus. Acredito num desígnio cósmico na humanidade, nos mistérios da natureza, no Big Bang. A religião, nomeadamente a católica, acaba por renegar em muita coisa os princípios anunciados por Cristo. Há muitos vendilhões do templo por aí. A exclusão das mulheres da vida da Igreja, o celibato dos padres: não tem nada que ver com Cristo, são coisas que aparecem já no século XIII.

Educar não parece muito difícil para si. Como as crianças se transformaram numa espécie de bem raro, também a educação ficou transformada numa coisa dificílima. As crianças deixaram de estar naturalmente ali, que era o que acontecia nas famílias numerosas não há muitos anos, para passarem a ser os pequenos ditadores, os reis da casa.
Criou-se esse mito da criança ditadora. Nem sempre é assim. Às vezes são os pais que se antecipam ao desejo da criança. Eles dão e a criança não recusa. Dão o chocolate antes de a criança pedir. Muitas vezes nem sequer expressou o desejo: já o teve.
A educação: não é ser uma coisa difícil, é ter momentos terríveis. Momentos de dúvida. Momentos em que nós, que não somos de plástico, não sabemos lidar com a situação, não sabemos compreender o outro, em que o outro não está em estado emocional para dialogar. Finalmente, em caso de conflito de interesses e impossibilidade de consenso, é preciso impor regras. É talvez a base da educação.

Mesmo que as crianças não entendam os motivos da proibição?
Muitas vezes vemos educar como sinónimo de proibir, limitar. Não é. Educar pode ser estimular e dar.

Pode esboçar alguns princípios básicos?
Primeira coisa, transformar conceitos abstratos, como respeito, amor, solidariedade, dignidade, rigor, que não se medem, não se pesam, em exemplos que mostram: “Ah, isto é respeito.” Cumprimentar o vizinho que vem no elevador, segurar a porta para o senhor que vai entrar, perguntar se quer ajuda para levar o saco. Perguntar se a sua mãe, que está doente, está melhor. Algumas pessoas dirão aos filhos: “Tens de respeitar a professora, o vizinho, a avó.” Mas depois não consubstanciam isto. Para crianças que aos seis, sete, oito estão na fase do concreto, que não têm ainda a fase simbólica completamente estabelecida, é difícil perceber.
A segunda coisa é ser-se muito coerente e avisar: se isto vier a acontecer, haverá aquela consequência. E explicar porquê. Outra é analisar os comportamentos e não a pessoa. É necessário que nós, enquanto pais, façamos o percurso de passar de vítimas com vontade de linchar o outro, e de humilhar, de descarregar tudo o que somos, para o estatuto de juiz que aprecia os factos. Se houve ou não houve dolo, se há atenuantes ou agravantes. Implica uma maturidade psicoafetiva muito grande. Caso contrário, estamos a dizer aos nossos filhos: “Não gostamos de ti.” Quando o que temos que dizer é: “Amo-te, mas não gostei nada do teu comportamento.”

Quando se fala de sanção, e se explica, está-se a introduzir a palavra justiça.
Sim. Que faz parte da ética, do conceito do bem e do mal. Mas qualquer justiça desproporcionada é má.

Temos uma expressão para isso em português: “Perdeu a razão pela maneira como falou/agiu.”
Não estou de acordo com esse adágio. Não se perde a razão. Pode-se é expressar mal a razão.

Surpreende-me que tenha tido vários casamentos.
Não gosto de falar muito do passado. Já fiz as pazes com a maior parte dele e aprendi com os erros e sucessos. Gosto de dizer que tenho um excelente casamento. O meu pai e a minha mãe viveram um amor muito romântico. Neste meu casamento, que é o terceiro, revejo muito a cumplicidade conjugal que o meu pai e a minha mãe viviam.
Há uma tendência, porque as personagens são as mesmas, para a relação conjugal e a relação parental se confundirem.

Que quer isso dizer, exatamente?
O homem e a mulher confundirem-se com o [papel de] pai e [de] mãe. Foi uma coisa que fui descobrindo. E isso inquina um bocado. Os filhos podem inquinar a relação homem-mulher. Requerem tanta coisa. Precisam de coisas, este lufa-lufa das escolas, mais as 500 atividades… A minha mulher e eu não temos problemas em dizer: “Ao sábado, meninos, não há atividades nenhumas.” Sábado é para acordar e ver onde nos leva o vento e o tempo. O que apetecer. Alguns pais sacrificam-se demasiado.

Teve coragem para ter a vida que queria ter, sem medo que isso pusesse em risco a estabilidade das crianças, a harmonia da vida familiar, os chavões aos quais estamos subordinados.
Não foi fácil. As relações devem durar aquilo que duram. Nem mais um minuto nem menos um minuto. Pode durar, foi o caso dos meus pais, até o meu pai morrer. E podem durar muito menos tempo. Disso sabem os intervenientes e mais ninguém. Fui aprendendo que não são os filhos que devem manter uma relação conjugal.

Muitas vezes, eles são usados e mencionados para justificar a manutenção de um casamento.
Cada vez mais reflito, com base na minha experiência, e não só, que isso não conduz a nada. Depois sobra uma coisa: a relação parental. O conflito conjugal pode estender-se à parte parental ou não, conforme o que sobrou da espuma dos dias e a personalidade das pessoas. Tudo seria bom se houvesse, como dizem as Miss Universo, paz e amor, mas a vida real infelizmente não é assim. Há jogos de interesses, pressões, e as crianças podem muitas vezes ser objeto de manipulação.

O melhor que se pode fazer a uma criança é dar-lhe um exemplo de uma vida feliz e escolhida?
É. É dar o exemplo de uma pessoa digna, solidária socialmente, um compromisso de existência em relação aos outros.

Retomo uma questão que vem de trás: podia não ser pediatra?
Podia. Sempre tive uma tendência natural para a Pediatria por lidar com crianças, por o meu pai lidar com crianças. As minhas irmãs mais velhas — uma é educadora, outra é assistente social —, no início de vida, resolveram fazer um infantário. Como tínhamos uma casa grande, o meu pai cedeu uma parte para fazer um infantário, no jardim. Eu adorava chegar do liceu e ir brincar com os miúdos. Foi sempre uma pulsão enorme.

Uma pulsão que o põe em contacto com a sua infância?
Não só. Serve-me para colmatar a angústia existencial. Sempre tive uma ideia completamente estúpida: no dia em que fiz dez anos — lembro-me disto como se fosse ontem — acordei e declarei, oficialmente, que morria aos 54 anos. E convenci-me disso. Não tinha nada factual, mas projetei a minha vida toda no sentido da existência de 54 anos. Não consigo conformar-me que vivamos tão pouco tempo face àquilo que temos para fazer.

Tem no armário em frente a si uma fotografia da sua mulher. Também é pediatra?
É jurista. Encontro na minha mulher o gosto por pequenas coisas, frugais.

Tem uma cara de miúda.
Realmente parece, mas faz 50 anos no fim da semana. É uma madrasta exemplar para os miúdos, e isso foi muito bom, também, para mim.

Qual é que é o cheiro da sua infância? Os bebés têm um cheiro especial. As nossas memórias têm um cheiro.
Há vários. A terra molhada. A relva acabada de cortar. O cheiro dos livros. O quarto da minha avó com o cheiro de alfazema. O chocolate quente da noite de Natal.

Fonte: Público

Colégios privados de ensino especial e Governo reúnem-se na segunda-feira para discutir dívidas

O secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário e a associação dos colégios privados reúnem-se na segunda-feira para “analisar a situação” que levou oito colégios particulares de ensino especial a decidir não abrir portas a 5 de janeiro.

O diretor executivo da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo (AEEP), Rodrigo Queiroz e Melo, adiantou que foi contactado (...) pelo secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário, Fernando Reis, para agendar uma reunião para a próxima segunda-feira, dia 5 de janeiro, pelas 10h30, nas instalações do Ministério da Educação na 5 de Outubro.

Em causa estão as dívidas do Ministério da Educação e Ciência (MEC) aos colégios privados de ensino especial que, de acordo com a AEEP, deixaram as instituições numa “situação financeira aflitiva”.

Sobre o assunto, o MEC disse apenas, até ao momento, que já foram regularizados os pagamentos em falta aos colégios privados, “restando apenas situações pontuais”.

De acordo com os números divulgados pela AEEP, o Ministério da Educação e Ciência (MEC) deve 1,2 milhões de euros a oito colégios privados de ensino especial, envolvendo mais de 250 trabalhadores e 700 alunos.

Quando na sexta-feira confirmou (...) que os colégios de ensino especial não abrem na próxima segunda-feira para retomar o ano letivo e dar início ao 2.º período, Rodrigo Queiroz e Melo referiu que os pagamentos estão pendentes de um visto do Tribunal de Contas, algo que a AEEP gostaria de discutir e rever com o Governo.

O diretor executivo da AEEP afirmou que o secretário de Estado mostrou “disponibilidade para perceber o que se passou e analisar a situação” na reunião de segunda-feira. (...)

Fonte: Público por indicação de Livresco

sábado, 3 de janeiro de 2015

Os professores e a sociedade do conhecimento

Temos vindo a afirmar que, pela primeira vez na história da educação ocidental, ocorre um momento único pela sua singularidade e muito preocupante pelas transformações que irá imprimir no trabalho dos docentes e na organização das escolas: - existem hoje poderosíssimos instrumentos de aprendizagem e de acesso ao saber (os PCs; os smartphones; as tablets; TVs interativas….) que os alunos já dominam melhor que a maioria dos professores e que manipulam com mais destreza que a generalidade dos pais.

O computador pessoal e o smartphone modificaram, rápida e radicalmente, os rituais de iniciação nos grupos de pares, a comunicação intra e intergrupal, os graus de socialização e de integração, já que criaram novos gestos, linguagens, códigos, símbolos, valores e um mundo infindável de engenhos periféricos.

Numa só geração desapareceram muitos dos artefactos que constituíam a memória e a referência do mundo dos adultos contemporâneos: - o vinil foi o primeiro; agora agonizam os CDs, as cassetes VHS e os DVDs de primeira geração; um aluno de 1º Ciclo não faz a mínima ideia do que era uma cassete áudio ou um rolo de fotografia a cores; um videogravador é um aparelho obsoleto e o arquivo de dados em disquetes, CDs e DVDs pertence a um passado quase pré-histórico; grande parte da informação disponível já não existe em suporte de papel, e pouco falta para que Pens Drives e Discos Externos possam ser dispensados. A informação vai parar a Clouds ("nuvens"), onde tudo pode ser armazenado para ficar disponível, em qualquer momento, e em qualquer parte do mudo onde haja acesso à internet.

Se tanto não bastasse, há nas escolas uma geração de professores e de educadores já nascidos na era digital, que trabalham lado a lado com outros docentes que, envergonhadamente, se sentem infoexcluídos, pois pertencem a uma outra geração que amadureceu, pessoal e profissionalmente, antes da era da internet, dos motores de busca, das bases de dados digitais, do matraquilho das mensagens por SMS ou da presença orwelliana do Messenger, do Facebook, do Twitter….

São professores e educadores que olham para as novas tecnologias da informação e da comunicação com a desconfiança dos traídos, pois sabem que é ali que está a fonte do mal que os levará à desatualização precoce e, logo, ao mal-estar profissional que acompanha o desgaste, a indisfarçável angústia e o stress.

É nossa profunda convicção de que aquilo que aqui descrevemos implica um perigosíssimo 'corte geracional' que tem que ser rapidamente atenuado e corrigido, se queremos eliminar a iliteracia digital e ter as nossas escolas a fazer parte da sociedade do conhecimento. Porém, a introdução, quase sempre inconsequente, das TIC nas escolas acentuou drasticamente esse corte geracional, já que os governos decidem sempre 'equipar' primeiro os alunos e as escolas, esquecendo-se de 'equipar' previamente os professores com formação específica.

Infelizmente, a educação padece sempre deste estigma: o calendário eleitoral da classe política funciona no curto prazo dos ciclos eleitorais de quatro anos, exigindo resultados rápidos, imediatos e mediáticos. Daí que o investimento em educação, sobretudo na formação dos seus atores, não lhe interesse, já que só permite medir os resultados a médio e a longo prazo, e muitas vezes em contra ciclo eleitoral…

Por tudo isso, os professores devem exigir imediata formação nas tecnologias da informação e da comunicação ou correm o perigo de se tornarem infoexcluídos e profissionalmente "desajeitados". Urge diminuir esse fosso digital, porquanto não há escola do futuro que consiga sobreviver sem incorporar essas novas tecnologias. Até porque a generalização cega das TIC, sem sentido e contexto pedagógico, pode provocar uma deriva na utilização destes instrumentos do saber, com desperdício do investimento realizado e com perigosas consequências para os aprendentes.

Hoje, não basta que o aluno só aprenda a ler e escrever textos na linguagem verbal. É necessário que ele aprenda a 'ler' e a 'escrever' noutros meios, como o são a rádio, a televisão, os programas de multimédia, os programas de computador, as páginas da Internet… Só assim conseguiremos erguer uma escola pública que seja exigente na valorização do conhecimento e promotora da autonomia pessoal. Uma escola pública que não desista de uma forte cultura de motivação e de realização de todos os membros da comunidade escolar. Uma escola pública que assuma os seus alunos como primeiro compromisso e os professores como seu principal valor. E que, em fim, se revele como um espaço de aprendizagem promotor do debate e da reflexão crítica, incentivando-se a participação cívica nesta aldeia global que é o mundo de hoje.

ruivo@rvj.pt

Educação Física nas escolas, o elo mais fraco

Revistas, jornais, livros, programas de televisão, em todo o lado a mesma mensagem: combater o sedentarismo é fundamental para a saúde, é importante deixar o sofá e praticar atividade física, fazer ginástica, jogar futebol, correr, ou, pelo menos, andar. Então, interrogam-se os professores de Educação Física (EF), se é uma opinião aparentemente tão consensual, porque é que assistimos a um desinvestimento cada vez maior nesta disciplina nas escolas?

Um desinvestimento que, diz Nuno Ferro, presidente da Sociedade Portuguesa de Educação Física (SPEF), “começou claramente na atual legislatura”. O “primeiro sinal”, explica, surgiu com o decreto-lei 139 de 2012, que reduz a carga horária da EF no 3.º ciclo (do 7.º ao 9.º anos, em que passou a fazer parte de uma área de Expressões e Tecnologias) e no secundário (do 9.º ao 12.º, em que passou de 180 minutos semanais para 150).

O “segundo sinal” foi o facto de, de acordo com o mesmo decreto-lei, a EF deixar de contar para a nota final do aluno e para a média de acesso ao ensino superior. “Os alunos que estão numa aula que conta para a avaliação têm uma postura completamente diferente da que têm se souberem que não vai contar para nada”, sublinha Nuno Ferro. “E não nos foi dado um único argumento que sustente esta medida. A única coisa que nos foi dita foi que se pretendia tirar de cima dos professores de EF essa responsabilidade. Mas o nosso trabalho como professores, seja de EF, de Português ou de Matemática, é assumir o que representamos na vida dos alunos e agirmos em conformidade com o que eles fazem nas nossas aulas.”

O responsável da SPEF acredita que por trás da medida está a ideia de que uma má nota a EF poderia baixar a média de um aluno excelente a todas as outras disciplinas e pôr em causa o seu acesso à universidade. Mas, afirma, trata-se de um argumento que “não é fundamentado”. E explica porquê: “Pedimos a várias escolas para fazerem o levantamento daquilo que eram os efeitos da nota de EF e verificámos que a percentagem de alunos prejudicados na sua média final por causa dela é de 2 a 2,5%. Sendo que a nota de EF beneficiava os alunos em cerca de 46% dos casos. Trata-se de um estudo feito em 2012 em escolas da região de Lisboa, às quais pedimos esses dados, que o Ministério da Educação não tem.”

Além disso, Nuno Ferro argumenta que “não é possível a um aluno de 19 e 20 noutras disciplinas ser fraco a EF se a tiver, como está previsto pela lei, desde o 1.º ao 12.º ano”. Isto porque “a exigência classificativa da EF não tem nada a ver com criar talentos desportivos”, explica. “O que nós queremos é criar nos alunos o desenvolvimento de uma capacidade de desempenho motora que lhes permita, de forma ecléctica, abarcar várias áreas, da desportiva às actividades de exploração da natureza, passando pelas rítmicas e expressivas.”

E o que é, afinal, valorizado por um professor de EF? “As mesmas características que fazem um bom aluno em qualquer disciplina: tem que ser um aluno que cumpra, que seja aplicado e que procure o seu desenvolvimento. Um aluno que só lá vai mostrar aquilo que já sabe não satisfaz as exigências da EF.” Ou seja, “aquela ideia de que um aluno que é muito bom no futebol no clube da terra só por isso vai ter boa nota não é verdade, porque ele tem que ser bom também a dançar, por exemplo.”

Trabalho de equipa

A EF pretende também desenvolver o trabalho em equipa. “O aluno que pensa que é tão bom que pode pegar na bola e fintar todos, está a ter um comportamento que não é valorizado. A finta é tão importante como a capacidade de cooperar com os outros, o ter espírito de equipa, ajudar o outro, e a até a capacidade de demonstrar dificuldades perante os outros.”

Um problema que começa a aparecer com mais frequência, continua Nuno Ferro, é os alunos chegarem ao 3.º ciclo ou ao secundário sem a tal formação básica que deviam ter tido desde o 1.º ano. “Um dos grandes males de que padece a nossa área prende-se com a forma como é dada a EF no 1.º ciclo, que ainda funciona muito na lógica de ser apenas um professor que leciona tudo. As áreas de expressão podiam ser dadas por um professor coadjuvante, mas em muitos casos nunca surgiram condições para que houvesse esses professores. É claramente uma área em défice, o que faz com que, por hipótese, possa haver miúdos entre os 6 e os 10 anos que não têm acesso a qualquer tipo de atividade física organizada, o que é um elemento muito negativo para todo o percurso deles.”

É muito importante começar cedo, insiste. “No fim do pré-escolar e início do 1.º ciclo os miúdos estão em idades críticas para alguns dos padrões motores fundamentais, que são a base para que possam ser pessoas fisicamente bem educadas. Começarmos esse processo de educação motora no 2.º ciclo é tarde. Apanhamos miúdos que já perderam muito do que eram as suas possibilidades, e vão estar sempre com algum atraso em relação aos que começaram no 1.º ciclo.”

Importância dos rankings

Claro que muito depende da autonomia das escolas e das opções que estas queiram fazer. Mas mesmo esta autonomia é de certa forma condicionada, afirma o responsável da SPEF. “Um diretor de uma escola é condicionado por rankings. Quanto melhor estiver no ranking mais créditos a escola recebe, e a subida no ranking é feita com base nos resultados a Matemática e Português. Se esse diretor der mais tempo a essas duas disciplinas, em princípio os alunos vão ter melhores resultados. E a que disciplinas é que ele pode ir tirar tempo? Às que a lei permite, ou seja à EF. Quando falamos de autonomia temos que perceber que essa autonomia está moldada por princípios que valorizam outras coisas.”

O que representa uma contradição, afirma também José Alves Diniz, presidente da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa: “Há vários estudos internacionais sobre as implicações que a atividade física tem para as disciplinas ditas cognitivas, nomeadamente a matemática e a língua materna, que associam claramente a prática de atividade física a melhores resultados nessas duas áreas”.

Um desenvolvimento motor mais débil tem consequências no cognitivo, sublinha. “Temos cada vez mais crianças e jovens que não conseguem fazer coisas simples do ponto de vista motor, como andar de bicicleta ou passar por equilíbrios instáveis, como um tronco de árvore, num percurso simples. Cada vez há menos atividade física espontânea. E os pais preferem tê-las ao pé deles no sofá a ver televisão ou a jogar computador e não percebem que isso representa um risco muito grande ou até superior ao de estarem a brincar num jardim e a subir a árvores.” (...)

Nuno Ferro explica também que “a EF como temos hoje nas escolas portuguesas é uma conquista do 25 de Abril” e lembra que só em 1993 é que apareceram pela primeira vez os programas nacionais de educação física, o que provocou uma enorme mudança positiva. 

Nos últimos anos tem-se notado uma pequena melhoria, com mais gente a dedicar-se à actividade física, mas, lamenta José Alves Diniz, não há incentivos para isso. “As políticas públicas que desvalorizam a presença da educação física nas escolas enviam precisamente uma imagem contrária”, diz, referindo vários estudos, nomeadamente nos Estados Unidos, que apontam no sentido oposto, ou seja, para que seja dada maior importância à atividade física, ligando-a a melhores resultados escolares. Um estudo recente, da Universidade de Toronto, no Canadá, conclui até que o desporto e a ginástica nas escolas contribui para reduzir os níveis de stress, ansiedade e depressão.

Escolher o que mais interessa

Nuno Ferro acrescenta que o Desporto Escolar, uma opção em que o aluno escolhe a modalidade de que mais gosta, não serve como substituição, porque “cumpre objetivos diferentes”. “Há muitas pessoas, mesmo na área do desporto, que acham que a formação dos alunos deve ser especializada desde cedo, mas nós defendemos que o que lhes deve ser dado é uma base alargada para que depois possam escolher a via que mais lhes interessa.”

Nuno Ferro diz ter recolhido dados sobre a prática do Desporto Escolar que lhe permitiram chegar à conclusão que este é praticado por apenas 14% dos alunos. “E o que acontece com os outros 86% se não houver uma disciplina de EF no currículo?”, interroga-se. “É por isso que dizemos que esse maior investimento que possa existir no Desporto Escolar nunca poderá substituir o resto.”

Ana Santos, presidente do Conselho Pedagógico da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, defende, por seu lado, que é “urgente” aumentar o número de horas de prática do Desporto Escolar, em que os miúdos se dedicam à modalidade que preferem. “O Desporto Escolar – de onde saem os campeões olímpicos do atletismo – devia assentar em projetos de regularidade e continuidade e não ser deixado ao sabor da mobilidade dos professores e respetivas apetências, com quadro competitivo na escola e interescolas em várias modalidades, assumido sem complexos. As modalidades de sucesso deviam ser uma das marcas de identidade de cada Agrupamento. A competição desportiva faz bem, contrariamente ao que se supõe - saber perder é muito importante e querer vencer, no interior de um quadro normativo, é superpedagógico.”

Por outro lado, é também muito crítica do facto de a avaliação a EF não contar para a média final. O problema, na opinião de Ana Santos, é que “grande parte das escolas faz adaptações ao programa de EF, não garantindo uniformidade na sua aplicação” nem nos critérios de avaliação, o que acaba por “colocar pais e encarregados de educação (maioritariamente dos bons alunos) contra a avaliação na disciplina”.

E conclui: “A avaliação na EF é, por todos os motivos, simbolicamente importante porque avalia competências do saber fazer diferentes das outras disciplinas. Não basta ‘marrar’ as componentes críticas do encestar uma bola ou marcar um golo há que vivê-las e senti-las com o corpo. Para além do mais, há um conjunto de valores ligados com o trabalho em equipa, respeito de regras, disciplina, e até mesmo de sacrifício, que são cruciais na educação dos jovens.”

Perante estes argumentos, o que têm sido as respostas dos responsáveis políticos aos protestos dos professores? “Concordância e silêncio”, responde Nuno Ferro. “Nunca nos foi dado um único argumento. Em última análise, o que dizem é que estas eram medidas inscritas no programa do Governo e que tinham que ser aplicadas. Não quero entrar por este debate, mas o que vemos é que tem sido atribuído cada vez mais tempo a disciplinas como o Português e a Matemática e os resultados dos alunos não são compatíveis com esse incremento, o que poderá indicar que mais tempo por si só não vai resolver o problema.”

Não se trata de desvalorizar os rankings, frisa. “Mas estes não podem ser o universo das preocupações. Há uma formação que passa pela educação física, visual, musical, áreas que deviam fazer parte do património formativo e que são cada vez mais retiradas porque, simplesmente, o tempo não chega para tudo.”

Fonte: Público

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Comemorações Dia Mundial do Braille 2015

No âmbito das Comemorações do Dia Mundial do Braille 2015, o Instituto Nacional para a Reabilitação, INR, I.P., e o Núcleo para o Braille e Meios Complementares de Leitura realizam um evento sob o tema “O Braille e os Seus Suportes Alternativos”, no próximo dia 6 de janeiro, terça-feira, às 15horas, no Auditório do INR, I.P.


Fonte: INR

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Medicalização da Educação

Eu, à semelhança de muitos portugueses, tenho excesso de peso.

Este excesso de peso afeta-me em variadas áreas da minha saúde, da minha funcionalidade e, helas, da minha estética. Tenho tentado perder peso mas… por cada meio quilo que perco, logo um quilo inteiro vem apressadamente colmatar a ausência do meio quilo perdido. E assim, os meus esforços não têm sido muito bem-sucedidos. Sou bombardeado com produtos para emagrecer: “perca três quilos numa semana sem dieta nem exercício”, “chega de excesso de peso: perca cinco quilos em duas semanas”. Confesso que são propostas sedutoras. E são sedutoras porque me prometem eliminar as consequências sem ter que intervir nas causas.

Vejamos: eu sei por que tenho excesso de peso: como demais e faço exercício de menos. Estou certo que se conseguisse alterar os meus hábitos de alimentação e de exercício perderia os tais quilos a mais. Mas… custa fazer isto, custa modificar as causas porque isso implica abandonar hábitos arraigados, comodistas e fáceis por outros que são novos, custosos e, portanto, mais difíceis. E assim, continuo com excesso de peso até que, um dia, talvez, em desespero de causa me vá render a uns comprimidos que me prometem que tudo na minha vida pode ficar igual – exceto o peso.

O que é que tem a ver o meu excesso de peso com a medicalização da Educação? Tudo. Temos assistido a um aumento exponencial de crianças cuja solução para melhorarem o seu aproveitamento escolar é tomarem remédios. Fala-se de psicostimulantes que ajudam a criança a concentrar a sua atenção no que é importante, em lugar de a dispersar por outros temas que não constam do programa escolar (o termo deficit de atenção está contaminado pelo julgamento do que é a “boa” e a “má” atenção).

Uma questão que permanece não respondida neste campo é: por que é que tantas crianças precisam, “de repente”, de ajuda química para melhorar o desempenho escolar? Podemos avançar algumas hipóteses:

a) porque a escola está mais exigente e implica uma atenção por mais tempo e mais focalizada que antes,

b) porque existe uma desarmonia entre a forma como se aprende na escola e fora dela (ref: tecnologias digitais, etc.),

c) porque as crianças são precocemente responsabilizadas pelo cumprimento de tarefas que não são capazes de realizar,

d) porque os conteúdos da escola parecem obsoletos e desmotivantes comparados com outros estímulos etc., etc., etc.

O certo é que, se o sintoma se manifesta na criança e na sua aprendizagem, a causa está fora dela: está, em última instância, no tipo de escola, de ensino, de conteúdos e de aprendizagem que lhe são propostos.

Vamos regressar ao meu excesso de peso. Atuar sobre as consequências sem alterar as causas. Mas se a causa não está na criança, porque é que vamos atuar quimicamente sobre ela? Porque é que a escola (e tudo o que lhe está inerente: métodos e ambientes de aprendizagem, conteúdos, etc.) não é capaz de se modificar para ir ao encontro da forma e do ritmo com que a criança aprende? A resposta é dura mas vale a pena ser considerada: porque a criança é o elo mais fraco. Ela sim, tem deficit de atenção, ela sim está desadaptada, ela sim tem que se modificar para se ajustar à forma como a educação se organiza. A Educação, ela sim, está, como sempre esteve, certa. Continua aqui a procura desta quimera: tentar mudar as consequências (a falta de atenção da criança) sem atuar sobre as causas (os conteúdos, as estratégias de ensino, as experiências de aprendizagem, a personalização de percursos, o apoio escolar, etc.).

Pois é, se não formos capazes de mudar hábitos alimentares e de exercício, e se a escola também não ousar mudar a forma como os alunos aprendem, das duas uma, ou nos tornamos uma comunidade químico-dependente (os pais medicados contra a obesidade e os filhos contra a hiperatividade); ou então convertemo-nos numa sociedade de gordos (felizmente que, devido ao deficit de atenção, ninguém dará importância a isso por muito tempo…).

David Rodrigues
Professor universitário e presidente da Pró-Inclusão - Associação Nacional de Docentes de Educação Especial.

Fonte: Público por indicação de Livresco

Eu não sou tolo, stora!

Chegou atrasado. Não bateu à porta, nem pediu desculpa pelo avançar da hora.

Sentou-se na carteira do fundo, local escolhido por ele mesmo. Cruzou os braços onde afundou a sua cabeça.

Não reagi. Continuei a aula como se nada tivesse acontecido. Percebi que o Antunes – assim se chama o meu aluno – precisava de tempo, de um tempo só seu. Dúvidas não tinha que algo tinha acontecido, algo que o deixara naquele estado. Já não era a primeira vez que o Antunes chegava assim à aula, todavia nunca expressou a razão daquele ensimesmamento.

Sentia-o agitado por dentro, desconfortável e por vezes irado, ainda que fosse uma ira interior que ele recusava verbalizar.

Como sempre, depois de lhe dar o “seu tempo” sentei-me na cadeira ao lado da dele. Como sempre ele recusava-se a falar. Passei-lhe a mão na cabeça onde lhe deixei um pequeno beijo, talvez maternal, como se lhe quisesse dizer: Eu estou aqui!
Contrariamente aos outros dias semelhantes a este, o Antunes levantou-se bruscamente dando um murro na mesa transbordando, finalmente, a acumulação de uma ira comprimida há já algum tempo.

- Eu não sou tolo, Stora! Eu não sou tolo!!!

Ficámos, eu e os outros alunos, atónitos a olhar para ele. Aquelas palavras, sobretudo aquela palavra “tolo” arrepiou-me.

- Antunes? Onde foste buscar essa ideia? Tolo? Claro que não és tolo!

- Estou farto Stora, estou farto que aqueles “gajos” do 8.º ano me chamem de tolo. Qualquer dia, “parto-os” todos!

- É verdade Stora! Eles andam sempre a chamar-nos nomes, a dizer que somos tolos, por andarmos na educação especial… – Responderam os outros quase em uníssono. 

Ao ouvir estas palavras arrepiei-me novamente. É claro que estes comentários não constituíam novidade para mim. Sabia e sei bem que sempre existiram, mas não será já tempo de acabar com eles?

- Calma meninos! Calma! É claro que vocês não são “tolos”, muito pelo contrário! Vocês são únicos! O facto de estarem na educação especial não faz de vós pessoas menores. Todos somos diferentes uns dos outros. Vocês conseguem fazer coisas que muitos alunos do 8.º ano não conseguem e vice-versa.

- E é mesmo verdade Stora! Aposto que eles não percebem nada de eletricidade e eu já ajudo o meu pai na oficina! – desabafa o Antunes.

- E eu Stora, ajudo a minha mãe no supermercado! – disse, a Mariana.

- E eu Stora, cuido dos animais na quinta da minha avó! – acrescenta o Lourenço. 

Ao ouvi-los senti-me tão orgulhosa... Os meus “meninos especiais” tinham tantas habilidades e… e o “Mundo” não o sabia! Mas precisava de saber! Foi então que “pus os pés a caminho”. Identifiquei os tais alunos do 8.º ano, chamei-os e falei com eles. Deixei falar o coração e pedi-lhes que fizessem o exercício de inversão: e se fossem eles no lugar dos meus alunos? E se fosse um irmão ou uma irmã? Seriam “tolos”?

Refletimos em conjunto! Posto isto, chamei os meus alunos e cada um deles falou das suas habilidades e competências. Enquanto falavam, sentia-lhes o orgulho e a elevação da sua autoestima e senti de igual forma a admiração, o respeito e o espanto dos alunos do 8.º ano enquanto ouviam os feitos dos meus “especiais”.

E com esta simples “atividade” onde comungamos todos os valores e o respeito pela singularidade de cada um, extinguiram-se os “tolos” na minha escola.

Manuela Cunha

Fonte: Educare por indicação de Livresco