quinta-feira, 25 de março de 2010

Professora diz que bullying existe em todas as escolas e atinge todas as classes sociais


O bullying é um fenómeno que existe em todas as escolas, em maior ou menor grau, atinge todas as camadas sociais e para o qual os professores não estão preparados, alerta a professora Alice Carrilho.

Depois de realizar um trabalho de mestrado sobre o tema, baseado na percepção dos docentes, esta professora de uma escola do concelho da Covilhã com 3.º Ciclo e secundário adverte, em entrevista à Lusa, que há ainda muito a fazer.

“Os professores não sabem como lidar com o problema. Quando ocorre, muitas vezes não sabem detectar se é bullying ou uma agressão ocasional”, relata.

Uma das maiores dificuldades decorre do facto de os casos serem camuflados. “É um acto de violência física ou psicológica que é escondido. Aos agressores não interessa que se saiba e o agredido tem medo de dizer que é alvo de bullying por receio de vir a sofrer consequências piores”, observa.

Por outro lado, refere, há “uma certa cultura” entre as crianças e os jovens de não denunciarem estas situações.

“Não sei se tem a ver com o nosso passado histórico, mas, para usar a linguagem deles, não gostam de ‘chibar os colegas, de ser bufos’”, assinala, referindo que as testemunhas também preferem não intervir com medo de serem o próximo alvo.

Há 22 anos no ensino, a professora defende que o mais importante é fazer um trabalho de prevenção: “Sobretudo falar do assunto, tratar o tema nas escolas”.

A medida, defende, pode ser aplicada aproveitando os tempos de Estudo Acompanhado, Formação Cívica e Área de Projecto para abordar o problema, promovendo também no 12.º ano um trabalho de investigação.

Alice Carrilho considera que o assunto deve ser mais divulgado. “Sente-se que é um bocadinho tema tabu em algumas escolas”, diz, sustentando que seria útil pôr os alunos a refletir e trabalhar sobre o tema.

“Eu própria já fiz isso. Gostei muito do trabalho e os alunos também e descobriram que há comportamentos que eles consideravam que não eram bullying e de facto são”, revela, indicando que é preciso “alertar consciências”.

Alice Carrilho constata que o fenómeno “não é muito valorizado”. “Alguns adultos acham que as crianças têm de crescer e de saber defender-se, uma espécie de prova de passagem para a vida adulta”, observa.

Segundo a professora, não se trata de um fenómeno recente, sempre existiu só que agora tem mais divulgação, porque “há pedopsiquiatras, há psicólogos, fala-se mais em direitos humanos e em direitos das crianças”.

Os professores, advoga, devem ter formação e o ideal será existir uma equipa multidisciplinar com psicólogos e pedopsiquiatras. “Eles, de certeza, nos seus gabinetes, atendem muitas crianças que são alvo de bullying porque é um fenómeno que deixa marcas psicológicas”.

Neste sentido, sugere um trabalho com o apoio de entidades exteriores à escola, que envolva médicos, professores, psicólogos, agentes da PSP e outras instituições.

A professora defende que deve dar-se mais visibilidade ao tema, “sobretudo não ter medo de falar dele”.

“É importante falar do assunto e fazer com que as testemunhas não sejam passivas e comecem a ter um papel activo na resolução deste problema”, frisa.

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