quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Abrandar o aumento da miopia em crianças

Projeto envolve 130 crianças e revelou que o recurso a umas lentes de contacto com um desenho especial pode ter 60% de eficácia, conseguindo que os olhos cresçam menos.

Estas lentes de contacto não travam por completo a miopia, nem tão pouco a conseguem curar fazendo com que regrida. Isso será para um futuro melhor que ainda está por vir. O que estas lentes serão capazes de fazer – e já não é pouco – é conseguir que a normal progressão da miopia aconteça bem mais devagar. São lentes de contacto “especiais” porque têm “um desenho diferente”, explica José González Méijome, diretor do Laboratório de Investigação em Optometria Clínica e Experimental (CEORLab) da Universidade do Minho, onde se realizam testes clínicos com um grupo de 25 crianças. 

As crianças que durante dois anos experimentaram estas lentes de contacto com um desenho especial progrediram de uma dioptria para “2,5 ou menos do que isso”. No mesmo período, o grupo de controlo que usou as lentes de contacto convencionais aumentou de uma dioptria para quatro. O projeto no CEORLab começou em 2012, quando as crianças tinham entre oito e dez anos, e os bons resultados obtidos fizeram com se decidisse prolongá-lo por mais dois anos. Nesta segunda fase, as 25 crianças envolvidas nos ensaios vão usar as lentes especiais e beneficiar do efeito de retenção observado na primeira fase do projecto

“O problema da miopia é que o olho cresce de mais. Se passar de uma bola redondinha a uma bola de râguebi que estica numa direção, a imagem vai ficando mais desfocada”, explica o investigador.

O tamanho do olho importa e uma diferença de meio milímetro pode parecer insignificante, mas não é. “Um milímetro de crescimento de olho pode significar três dioptrias ou mais nas suas lentes de contacto”, nota José González Méijome. A miopia moderada e alta inicia-se geralmente entre os cinco e os dez anos e progride de forma significativa até aos 16, altura em que tende a desacelerar. Assim, é sobretudo para crianças e jovens que a inovação pode ser eficaz.

“No grupo das crianças que usavam as lentes o olho cresceu menos 60 %”, explica o diretor do CEORLab, que exemplifica: “No grupo de controlo que usou lentes de contacto convencionais um olho com 20 milímetros cresceu, passados dois anos, para 21.” No grupo que usou estas lentes especiais passou para 20,4, acrescenta.

Mas afinal o que é que estas lentes têm de especial? “O seu desenho ótico, o modo como as dioptrias da lente são distribuídas à frente do olho”, responde o investigador. “Se uma criança tem duas dioptrias de miopia, a lente ‘normal’ tem a correção de duas dioptrias em toda a sua área de visão para proporcionar uma visão nítida”, explica José González Méijome. Nestas lentes, contrapõe, “o que se faz é uma manipulação ótica da distribuição da potência das dioptrias”.

As novas lentes de contacto hidrofílicas estão a ser testadas por 130 crianças em quatro centros de investigação em todo o mundo, incluindo o CEORLab em Portugal, num projeto associado a uma empresa multinacional norte-americana e já são comercializadas. O projeto de investigação em curso e que só terminará no final de 2018 serve para demonstrar a segurança e eficácia das lentes e, se necessário, corrigir o seu desenho.

Os alertas para o aumento da miopia na população mundial são conhecidos e há especialistas que defendem que a doença está a assumir “proporções epidémicas”. Um artigo na revista Nature, de março de 2015, referia que, até ao final desta década, cerca de 2500 milhões de pessoas de todo o mundo terão miopia – ou seja, mais de um terço da população mundial. Neste momento, na Europa e nos Estados Unidos, cerca de metade dos jovens têm este problema. É o dobro dos valores registados há 50 anos.

O que é que nos está a deixar míopes? Não há uma resposta simples. “Conseguimos identificar fatores que estarão a contribuir para isso, como hábitos de visão, a exigência educativa, a exposição a um trabalho visual a uma distância muito curta, a menor exposição à luz solar.” Depois há, claro, os factores genéticos que aumentam a probabilidade de ser míope.

Fonte: Público

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

PT lança projeto de atendimento presencial de clientes surdos

“Precisamos de ir a um serviço de atendimento e temos de escrever ou encontrar alguma forma de comunicação alternativa, mas isso não é satisfatório nem nos faz sentir independentes. A maior parte das vezes até temos de trazer uma pessoa para traduzir aquilo que queremos dizer”, contou Fábio Inácio, 26 anos, surdo desde que nasceu. Explicou tudo isto através da intérprete de língua gestual Sandra Faria, a propósito da apresentação nesta quarta-feira de um novo projeto da Fundação PT.

O novo serviço financiado pela Fundação PT foi apresentado no Fórum Picoas, em Lisboa. O objetivo é que clientes como Fábio possam dirigir-se a uma loja MEO e encontrar um funcionário que tenha ao peito um crachá que informa que sabe língua gestual (um nível básico) e com quem podem estabelecer um primeiro contacto.

Depois, o funcionário faz uma ligação a um serviço de vídeo-interpretação especializado. O cliente surdo expõe a sua questão que é logo traduzida para o profissional da MEO pelo intérprete que está do outro lado da linha. Em poucos minutos, é suposto que, a três, a questão esteja resolvida. Para já, será assim apenas em três lojas (duas em Lisboa e uma no Porto)

“Agora já não há barreiras à comunicação”, diz Fábio Inácio, que participou na demonstração desta quarta-feira. Segundo a Fundação PT, este é o primeiro serviço em Portugal onde o cliente surdo pode presencialmente resolver os problemas que tiver. Até aqui só era possível fazê-lo por telemóvel.

Nesta fase, o serviço estará disponível em Lisboa, no Fórum Picoas e na loja do Oriente, e no Porto, na loja da Boavista porque, como explicou o presidente executivo da PT, Paulo Neves, “estas são as lojas que têm mais afluência de clientes com surdez e estão localizadas no centro das cidades do Porto e de Lisboa”.

A secretária de Estado da Inclusão, Ana Sofia Antunes, que participou no lançamento, diz que há em Portugal 120 mil surdos. Em declarações (...), reforçou a importância de iniciativas destas: “O que é fundamental é permitir a estas pessoas que comuniquem mais para eliminar as barreiras do isolamento e da exclusão. É importante para o Governo e temos tentando potenciar a língua gestual, que é a língua mãe destas pessoas. Ao limitarmos que elas comuniquem na sua língua mãe estamos a exclui-las.”

Fonte: Público por indicação de Livresco

Debater a Escola Republicana

Frequentemente no debate político se fala em Portugal nos valores republicanos. A República instaurada há mais de um século continua a ser uma bandeira ideológica que guia os valores que têm vencimento na nossa organização política e social. Não é pois de estranhar que se fale também, e muito, nos valores da escola republicana e são estes os valores que gostaríamos brevemente de comentar.

A escola republicana tem como valor fundamental a separação entre o que é do domínio privado e o que deve ser do domínio público. Numa célebre carta que o ministro da Instrução Pública francês da altura, Jules Ferry (1832 – 1893) enviou aos professores franceses a 17 de novembro de 1883, esta separação é muito claramente estabelecida. De um lado os valores pessoais, as crenças de cada um, necessariamente livres e diversas; do outro, os conhecimentos escolares que devem ser comuns, indispensáveis e propriedade de todos.

A escola republicana institui-se assim como respeitando os valores culturais, religiosos, étnicos, vivenciais de cada um para considerar que todos os alunos devem aprender os valores republicanos, esses sim com uma abrangência universal e sendo propriedade de todos. Percebe-se melhor agora os acesos debates sobre a ostentação de símbolos religiosos nas escolas francesas: por exemplo, alunas muçulmanas impedidas de usar na escola vestes semelhantes às que usariam nos países de cultura dos seus pais. A escola republicana, procura a igualdade, a liberdade e a fraternidade não se imiscuindo nas crenças pessoais mas colocando-as fora da escola, à porta da escola. Se essas crenças entrarem na escola, elas certamente vão interferir com a construção de um conhecimento republicano que seja universal e “para todos”. Este conceito de escola republicana foi desenvolvido para impedir que o poder da Igreja se intrometesse na educação laica e cidadã. 

Já Voltaire, no seu famoso “Tratado sobre a Intolerância” publicado em 1763 tinha dito “Se quereis que nós toleremos a vossa doutrina, começai por não ser nem intolerantes, nem intoleráveis”. Ressalvado o tom paternalista desta frase, encontramos nela o cerne da Educação republicana: tolerar as crenças e universalizar o conhecimento laico.

Os debates contemporâneos sobre a Educação não passam ao lado da discussão destes princípios. Este debate está bem presente quando se fala no ensino religioso nas escolas e também da discussão dos valores pedagógicos atuais que defendem que as culturas dos alunos não devem ser ignoradas, mas sim levadas em conta para permitir um maior sucesso educativo. Por exemplo, está certo ou está errado que a escola se modifique para entender e acolher valores da comunidade cigana para educar os alunos desta comunidades que vão à escola pública? E de que forma é que estes valores podem ser reconhecidos e levados em conta? Criando escolas ou turmas especiais? Contemplando no currículo as formas particulares como a cultura cigana olha e atua no mundo?

Como se vê por este mero exemplo, o assunto não é fácil de resolver. Mas a sua não resolução levanta também questões. Se a escola se mantém firmemente fiel aos princípios de separação entre as culturas e o conhecimento republicano, é certo que muitos alunos (agora numa escola incomensuravelmente mais multicultural que no tempo de Jules Ferry) se sintam marginalizados e não identificados com ela; se a escola, por outro lado, se torna porosa e permeável às culturas dos alunos terá muita dificuldade em encontrar um conhecimento que possa ser aceite como um conhecimento comum e património de toda a comunidade republicana.

É o que habitualmente se designa em França por “socle commun” – a base comum - que contribuiria para que todos os cidadãos pudessem dispor de um conjunto de conhecimentos fundamentais sobre o mundo e que esses conhecimentos lhes permitissem ser membros ativos, críticos e participantes numa sociedade democrática.

O conceito de escola republicana mostrou-se de uma extraordinária importância sobretudo porque permitiu à escola libertar-se de tutelas privadas e totalizantes. Lembro a este propósito o número crescente e preocupante de alunos que em alguns países – nomeadamente nos Estados Unidos – são retirados desta escola republicana pelos pais para não aprenderem “disparates” como, por exemplo, que o mundo é fruto de uma evolução de milhões de anos.

Este património democrático da escola republicana tem que continuar a ser discutido, sobretudo para responder a casos limite que não eram previstos quando estas bases foram lançadas. Por exemplo: “Quem não adquire esta base comum, ainda assim é cidadão?” ou “O conhecimento pode ser visto presentemente como tão impermeável às culturas dos alunos?”

Questões importantes para nos colocarmos e para resolvermos. Mesmo Jules Ferry tinha consciência desta dificuldade ao dizer aos professores: “…o que vão propor à criança, não é a vossa sabedoria, é a sabedoria do género humano, é uma ideia universal que muitos séculos de civilização fizeram entrar no património da humanidade”.

David Rodrigues

Professor Universitário, Presidente da Pró-Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial.

Fonte: Público

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Adaptar as aulas aos alunos? Os professores portugueses são os melhores...

Não há nenhum outro país onde os professores tenham mais flexibilidade para adaptar os conteúdos das aulas de Ciências às necessidades dos seus alunos como em Portugal. É o que resulta das respostas dadas pelos estudantes aos questionários que acompanham os testes do PISA (Programme for International Student Assessment), o grande estudo internacional da OCDE que visa avaliar a literacia em Ciências, Leitura e Matemática dos jovens de 15 anos.

O relatório que acompanha o PISA, que é apresentado nesta terça-feira, sublinha esta abertura dos docentes e também o apoio que são capazes de dar aos estudantes com maiores dificuldades. Estas práticas são mais frequentes nas escolas privadas. Nas públicas, a falta de autonomia é apontada como um entrave.

O documento da OCDE apresenta Portugal como um país “que se destaca” e onde “os professores são mais propensos a adaptar o conteúdo e a estrutura da aula em função das necessidades, conhecimentos e capacidades de seus alunos”. A capacidade de adaptação dos docentes é aferida através de um conjunto de questões colocadas aos jovens que fizeram os testes estandardizados. Nos países avaliados, 15,8% declaram que os seus professores se prestam a moldar as aulas. Em Portugal esse número quase duplica: 28,6%.

Lidar com dificuldades

Os docentes nacionais também têm mais apetência para mudar a estrutura das lições quando a maioria dos estudantes tem dificuldades de entender a matéria (fazem-no em 27,2% dos casos, quando a média internacional é de 13,2%).

Os portugueses são igualmente os que mais ajuda garantem aos alunos com dificuldades de compreensão de uma matéria ou tarefa (34,6%). Portugal é também o quarto país com o mais alto índice de apoio dos professores nas aulas de Ciências (rácio positivo de 0,46 pontos), numa lista em que a média dos países da OCDE é negativa (-0,01).

Estes indicadores ajudam a perceber o resultado nacional na avaliação feita aos alunos no domínio das Ciências. O relatório sublinha uma correlação positiva entre a capacidade de adaptação do ensino por parte dos professores e o resultado conseguido pelos estudantes no teste internacional. Com 501 pontos, Portugal ficou acima da medida da OCDE. O que acontece pela primeira vez.

A flexibilidade dos docentes portugueses para adaptarem as aulas aos seus alunos garante mais oito pontos no resultado nacional, avaliam os especialistas da OCDE.

Apesar disso, o ensino nacional continua a ser marcadamente teórico. Só 8,9% dos alunos têm a possibilidade de passar tempo no laboratório ou a fazer trabalho prático em todas as aulas de Ciências, revela o mesmo estudo. A maioria (56,7%) fá-lo de forma esporádica.
Professores estão a faltar mais

Segundo o PISA a adaptação de conteúdos é mais frequente nas escolas privadas nacionais. Segundo os especialistas, isso pode estar relacionado com o facto de os professores das escolas públicas estarem mais limitados pelo “tamanho das turmas e o currículo oficial” do que os colegas que dão aulas nos colégios.

Os professores das escolas públicas também estão limitados pela falta de autonomia destes estabelecimentos de ensino. O relatório traça uma relação positiva entre a autonomia e a adaptação do conteúdo das aulas em termos internacionais. Em Portugal, esse indicador é marginalmente positivo (+0.001 pontos). Além disso, as escolas nacionais estão em 48.º lugar entre 69 sistemas de educação no índice de autonomia, alcançando 61,5 pontos (a média é de 71,3).

O relatório revela ainda um aumento do absentismo entre os professores em Portugal entre 2012, data do anterior PISA, e 2015. Os números baseiam-se em informações prestadas pelos diretores das escolas, segundo os quais o número de docentes que nunca falta às aulas diminuiu 24,9% em três anos, tendo aumentado 8,3% o número daqueles que faltam algumas vezes. Portugal é mesmo um dos países da OCDE onde este número mais aumentou, juntamente com Irlanda, Israel, Suíça e Turquia.

Fonte: Público

PISA 2015: alunos portugueses ficaram pela primeira vez acima da média da OCDE

É uma estreia de Portugal no megaestudo internacional que avalia a literacia dos alunos de 15 anos de idade em Ciências, Leitura e Matemática. Pela primeira vez os jovens portugueses ficaram à frente da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) nestes três domínios que são avaliados pelo PISA (Programme for International Student Assessment), um estudo que se iniciou em 2000 e que é feito de três em três anos.

A última edição realizou-se em 2015 e teve como enfoque principal a literacia científica, pelo que esta é a área para a qual há mais dados nos relatórios de desempenho. Participaram 500 mil alunos, dos quais 7325 portugueses. Os resultados são divulgados nesta terça-feira.

A Ciências e Leitura, com mais oito e cinco pontos respetivamente, Portugal obteve resultados “significativamente superiores” aos da média da OCDE, destaca o Instituto de Avaliação Educativa (Iave), responsável pela aplicação destes testes aos alunos portugueses. Já a Matemática, apesar de ter mais dois pontos do que a média, a diferença não é considerada “estatisticamente significativa”.

Nos testes do PISA não são avaliados conteúdos curriculares — aqueles que são lecionados em contexto de sala de aula. No estudo da OCDE o que se pretende saber é em que medida os alunos de 15 anos são capazes de mobilizar os seus conhecimentos, nas três dimensões avaliadas, na resolução dos problemas do dia-a-dia. Nas questões submetidas é tida também em conta a globalização da economia e os desafios que esta representa. “Apesar de serem oriundos de sistemas educativos diferentes, quando chegarem à idade adulta irão competir pela mesma oferta de emprego”, refere a OCDE. (...)

Fonte: Público

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

"Escolas e professores podem fazer a diferença e atenuar os efeitos da origem social"

Uma das características da realidade portuguesa, evidenciada nos estudos do aQeduto, é a forte correlação entre o contexto económicos e social dos alunos e as suas perspetivas de sucesso escolar. Como podemos contrariar esta aparente fatalidade?
Um pouco por todo lado existe uma forte correlação entre a origem social dos alunos e o seu desempenho escolar. O problema que se põe com maior acuidade em Portugal traduz-se no facto de as desigualdades sociais serem muito mais acentuadas entre nós, comparando com a maioria dos nossos parceiros europeus. Mas não há nenhum determinismo incontornável. Um dos estudos desenvolvidos pela equipa aQeduto permite concluir que as melhorias registadas desde o primeiro teste [PISA, 2000] até ao último, cujos resultados são conhecidos [2012], se devem em grande parte ao contributo dos alunos que frequentam escolas inseridas em contextos socialmente desfavorecidos. São as escolas e os professores que podem fazer a diferença e atenuar os efeitos da origem social. Costumo dizer que as melhores escolas são aquelas que através do seu trabalho conseguem contrariar o aparente determinismo que a origem social dos alunos parece operar.

Parece já evidente que a retenção não beneficia o aluno e penaliza o sistema como um todo. Essa ideia foi interiorizada pela sociedade e, em particular, pelos docentes?
Apenas foram dados os primeiros passos na identificação do problema e na mobilização da sociedade portuguesa para a sua superação. Não se alteram as maneiras de pensar e agir, diria até as culturas, de um momento para o outro e muito menos por via administrativa. Será um longo caminho a percorrer. Quando se diz que "só passa quem souber", esquecemo-nos de perguntar porque é que não sabe, porque é que não aprendeu. Este é o foco de que não nos devemos desviar. Não basta ensinar, é necessário fazer aprender e ainda que reconheça que há alunos que por diferentes razões não aprendem ou não querem aprender, estamos muito longe desse núcleo residual de casos. Este é um desafio que leva anos até conseguirmos confinar o insucesso escolar a esse núcleo residual. Para isso precisamos dos professores, dos encarregados de educação, das escolas, das comunidades locais, das políticas e de convergência de propósitos de forma a assegurar a estabilidade desta opção estratégica.

A aposta no pré-escolar fará também a diferença a montante?
Faz alguma diferença, não faz a diferença. É com bons olhos que identifico a convergência de posições sobre a universalização do pré-escolar. Mas será bom lembrar que não há soluções mágicas. O alargamento da frequência do pré--escolar é indispensável, mas não é suficiente. Temos de atuar de forma sistémica em vários domínios, na formação pedagógica, na motivação dos professores, na responsabilização dos pais, no aperfeiçoamento do curriculum e, a mais curto prazo, nos normativos que regulam as transições de ano, enfatizando a lógica avaliativa de ciclo em detrimento da sua anualização.

A qualificação dos adultos, promovendo o interesse destes pela educação e, por analogia, pela educação dos seus filhos, é também um aspeto determinante?
É mais um contributo, mas não é determinante. Como lhe disse, a ação tem de ser sistémica e organizada sobre vários planos. Não podemos andar feitos baratas tontas à procura do fator determinante. Repare que um dos fatores com peso explicativo positivo é a escolaridade dos pais, com particular incidência a escolaridade das mães, e essa não se muda de um momento para o outro de forma voluntarista. As dinâmicas sociais que sustentam as desigualdades escolares mudam muito lentamente. Há que potenciá-las, sem dúvida, mas não chega. Mas se valorizarmos a educação e a escola sabemos que esse esforço se traduzirá, mais cedo ou mais tarde, numa diminuição das desigualdades sociais e estas refletir-se-ão sobre as novas gerações. A concretização do princípio da educação e formação ao longo da vida, de que a educação de adultos é uma via, ajudar-nos-á a ter melhores pais e, a partir daí, melhores alunos.

O corpo docente das escolas públicas portuguesas é bastante envelhecido, em particular no 1.º ciclo. Isto pode ser um obstáculo à implementação de políticas inovadoras?
O envelhecimento do corpo docente não pode ser considerado um estigma ou um fator de bloqueio à inovação pedagógica. A experiência é uma vantagem. O problema deve ser formulado de forma diferente: até que ponto um maior desequilíbrio etário entre professores poderá dificultar o processo de indução profissional e cultural das novas gerações de professores? O desgaste de um profissional ao fim de 30 ou 35 anos de carreira é uma realidade: maior cansaço e desmotivação, menor sensibilidade para lidar com situações de indisciplina, menor propensão para interiorizar as sucessivas vagas de inovações e mudanças escolares, etc. Então porque é que não se aproveita essa experiência para a supervisão e formação dos novos professores? Porque não são mais utilizados em tarefas de gestão e avaliação? Porque é que através de soluções colaborativas e de coadjuvação não se tenta mobilizar esses professores para qualificar as aprendizagens? O única receio que tenho em relação à desejável renovação da classe docente prende-se com a falta de critério na sua profissionalização. Terem acabado com a profissionalização em exercício foi um erro que se traduziu numa porta aberta à incompetência de alguns.

Fonte: DN

domingo, 4 de dezembro de 2016

“Não é suficiente a inclusão, é preciso apostar na pessoa”

Aos 87 anos de idade, o professor doutor António Coimbra de Matos é um dos mais, senão o mais reconhecido pedopsiquiatra e psicanalista em Portugal. Uma experiência de décadas deste transmontano, que fez o curso superior no Porto, mas escolheu a “centralista” Lisboa para desenvolver as suas aptidões profissionais. É um homem que ensinou muita gente, que diz aprender mais com quem ensinou, o que aconteceu até há quatro anos, e de quem cuida do que realmente com outras pessoas.

Uma curta entrevista dada (...) na sequência da participação numa conferência sobre as pessoas com necessidades especiais, onde foi a ‘estrela’ entre os vários intervenientes e onde aproveitou para dar a conhecer a sua mais recente publicação, o livro “Nova Relação”.

Esteve nesta conferência a falar do “direito à identidade própria e ao relacionamento igualitário: ser único e reconhecido”. O que isso significa?
Abordei, fundamentalmente, a necessidade de se permitir o desenvolvimento da identidade própria do sujeito, a identidade que é mais genuína, mais autêntica. Bem como a necessidade de se reconhecer bem todas as pessoas, designadamente aquelas que têm dificuldades, que às vezes, muitas vezes, não são bem reconhecidos os seus talentos, que não visíveis e que é preciso uma luta para os ver. Compete ao professor, ao médico, ao assistente social, etc., ser capaz de descobrir esses talentos. Muitas vezes estas pessoas parecem muito aselhas em várias actividades, mas são excelentes na música, na motricidade fina, nos afectos...

Dada a sua experiência de décadas, como analisa a evolução da sociedade em relação à forma como são encaradas estas pessoas? 
Noto alguma evolução positiva. Mas, talvez, a dificuldade seja esta: fala-se muito em inclusão, mas a inclusão não chega. Não chega incluir na sociedade as pessoas com necessidades especiais. É preciso que nós, que não temos essas dificuldades, nos empenhemos, nos apliquemos. Não chega gostar do deficiente, é preciso apostar, implicar-se para que esse deficiente possa chegar a níveis de desenvolvimento maiores do que, à primeira vista, parece que chegará.

Para isso, naturalmente, é preciso amor, mesmo que não seja a de um familiar... 
É preciso amor, mas acima de tudo é preciso acreditar que é possível. Por isso é que digo que é preciso apostar. Porque se o técnico não acredita que um determinado deficiente que é, por exemplo, gago, cego, surdo, etc. vai aprender a tocar acordeão, não irá fazer o esforço suficiente para lhe ensinar essa arte. Ele tem de acreditar que é possível, e para isso tem de apostar nesse resultado. Há dias acabei uma conferência num congresso internacional, em que me perguntaram se eu gostava assim tanto dos meus pacientes? Respondi que não só gosto como aposto. Porque é preciso gostar, mas apostar em como sou capaz de fazer alguma coisa com este paciente. Porque, na verdade, quem corre por gosto não se cansa. É como um cirurgião que vai fazer uma operação, se não está convencido que vai salvar o doente, não se pode empenhar totalmente. Se estiver convencido que irá ter esse papel, fá-lo com mais empenho.

Em que nível está Portugal nesta matéria? 
Em termos globais não estamos mal, pois temos um dos melhores serviços europeus de Saúde, mas também de Educação (especial) não estamos mal. O problema é as coisas estarem centralizadas demais, ainda, em Lisboa. No último Governo muita coisa foi deitada abaixo, corremos o risco de perder essa qualidade. Agora estamos a procurar levantar, mas há dificuldades a vários níveis, como escolas fechadas, turmas com muitos alunos, hospitais sem condições para este serviço.

E na Madeira, qual o conhecimento que tem do trabalho feito? 
Suponho que a Madeira está melhor do que o Continente, uma vez que tendo um governo autónomo, tem uma certa independência, tem mais conhecimento do seu território, das suas dificuldades. No continente continuamos muito centralizados em Lisboa, nomeadamente no que toca à tomada de decisão.

Fonte: DNotícias por indicação de Livresco

Nota: Sublinhado no texto da autoria do editor do blog.

sábado, 3 de dezembro de 2016

ONU estabeleceu 17 objetivos para as pessoas com deficiência

Por iniciativa das Nações Unidas e desde 1998 que o dia internacional dos direitos das pessoas com deficiência é comemorado a 3 de Dezembro. A decisão desta comemoração vem na sequência do Programa de Ação Mundial para as Pessoas com Deficiência, lançado pela ONU em 1982 e que se propôs promover medidas eficazes para a prevenção da deficiência, a reabilitação e a realização dos objetivos de igualdade e participação plena das pessoas com deficiência na vida social e no desenvolvimento. No âmbito da prevenção, o Programa referia no seu art. 4.º : Muitas deficiências poderiam ser evitadas por meio da adopção de medidas contra a subnutrição, a contaminação ambiental, a falta de higiene, a insuficiente assistência pré e pós natal, as moléstias transmitidas pela água e os acidentes de todo o tipo. E no art. 5.º afirma a necessidade de empregar todos os esforços possíveis para impedir guerras que ocasionem devastação, catástrofes e pobreza, fome, sofrimento, enfermidades e deficiências para um grande número de pessoas; deve-se tomar medidas que permitam fortalecer a paz e a segurança internacionais.

Todos os anos, a ONU define um tema específico que pauta as atividades e eventos para o dia internacional dos direitos das pessoas com deficiência. Em 2015, o tema foi “inclusão importa”. Agora, neste ano, o tema é “Alcançar os 17 Objetivos para o Futuro que Queremos”, entre os quais destacamos os que mais diretamente afectam os direitos das pessoas com deficiência, incluindo a prevenção: acabar com a pobreza, acabar com a fome, assegurar uma vida saudável e promover o bem estar para todos, assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, alcançar a igualdade de género, assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos, promover o pleno emprego e trabalho decente para todos, reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles, promover sociedades pacíficas e inclusivas, proporcionar o acesso à justiça para todos.

Esta é, portanto, uma agenda que pugna por uma sociedade de direitos humanos para todos porque só nessa sociedade também poderão ser respeitados os direitos humanos das pessoas com deficiência e por isso é uma agenda com que a Associação Portuguesa de Deficientes (APD) se identifica plenamente. Por isso, a APD não pode ficar insensível à catástrofe humanitária que é provocada pela guerra e que se desenrola no Próximo e Médio Oriente, em África, no Mediterrâneo e na Europa.

A guerra desestrutura as sociedades, paralisa a economia, destrói as infra-estruturas, estilhaça o sistema social e político. Os países onde grassa a guerra tornam-se territórios sem lei, onde as populações ficam à mercê das arbitrariedades de grupos terroristas e redes de tráfico humano. Para fugir à morte, à fome, à degradação física e psicológica, ao caos social e à violência, centenas de milhar de pessoas procuram por todos os meios e percursos chegar à Europa, onde julgam poder encontrar paz, segurança e a possibilidade de reconstruírem as suas vidas. Muitos milhares perecem de forma atroz nesses percursos, outros são violentados e roubados e a maioria dos que consegue sobreviver fica confinada em campos de refugiados, em condições tão degradantes que nos fazem lembrar os campos de concentração.

Nesta dramática e desumana saga as primeiras e principais vítimas são os mais frágeis, os mais pobres, as mulheres, as crianças, as pessoas com deficiência. A guerra, as condições em que se processa a fuga e o confinamento dos refugiados faz aumentar o número de pessoas com deficiência, em resultado de brutais ferimentos, de choques traumáticos, de malnutrição, da falta de assistência médica aos doentes e, em particular, às mulheres grávidas e às crianças.

Por tudo isto, a APD considera que é urgente pôr fim à guerra e acolher condignamente os refugiados, pois só em paz e num ambiente propiciador da solidariedade humana será possível “Alcançar os 17 Objetivos para o Futuro que Queremos”.

Ana Sezudo

Presidente da Direcção Nacional da Associação Portuguesa de Deficientes

Fonte: Público por indicação de Livresco

Quotas de emprego no privado para pessoas com deficiência

A secretária de Estado da Inclusão quer criar quotas de emprego no setor privado para as pessoas com deficiência e exigir o cumprimento destas no setor público, para combater o problema que mais afeta esta população.

A secretária de Estado da Inclusão quer criar quotas de emprego no setor privado para as pessoas com deficiência e exigir o cumprimento destas no setor público, para combater o problema que mais afeta esta população.

Em entrevista (...), a propósito do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, que hoje se assinala, a secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes, falou dos problemas que afetam esta população e dos próximos passos do Governo nesta área.

Neste momento é fundamental focarmo-nos na temática da empregabilidade”, o “problema mais acentuado que temos”, mas também na inclusão pela educação, que teve uma “evolução muito positiva” nos últimos 20 anos, mas que precisa “permanentemente de melhorias”, disse Ana Sofia Antunes.

Na questão do emprego, além da regulamentação do código de trabalho na área da deficiência, da criação de quotas no setor privado e da exigência do seu cumprimento pelo setor público, a responsável pretende também promover “um programa alargado de empregabilidade para pessoas com deficiência”.

Citando as últimas estimativas do Eurostat, Ana Sofia Antunes considerou “bastante preocupante” a taxa de 16% de desemprego, até porque os valores reais poderiam ser muito superiores se englobassem as pessoas com “dificuldades mais severas”, que nem sequer “estão no âmbito do mercado de trabalho”.

Já quanto ao emprego, os números apontam que 44% estão a trabalhar, quando a taxa relativa às pessoas sem qualquer tipo de deficiência ronda os 70%.

“É uma diferença substancial” e “faz-nos pensar onde estão os restantes 56%” dos desempregados, questionou.

Contudo, estes dados, que são de 2014, já podem ter sofrido uma “evolução favorável”, como aconteceu com a taxa de desemprego no último ano.

Desde que assumiu a pasta, há um ano, Ana Sofia Antunes tem a porta do seu gabinete aberta para receber as pessoas, ouvir as suas preocupações e reclamações de situações, que procura ir resolvendo caso a caso.

As preocupações que lhe chegam em maior número prendem-se com as dificuldades em encontrar trabalho, situações de carência económica, alguns atrasos na obtenção de produtos de apoio e queixas de pais que discordam da forma como o filho está a ser acompanhado na escola.

Segundo a secretária de Estado, a falta de recursos económicos é um dos problemas que mais afeta esta população, sobretudo os que não têm rendimento de trabalho, que sobrevivem com o apoio do Estado, através das prestações sociais, como o subsídio mensal vitalício ou a pensão de invalidez.

“São valores baixos (…) e estas pessoas acabam por depender muito do apoio e da solidariedade das suas famílias e esta é uma das realidades que mais nos preocupa e que vamos procurar combater com a criação da nova prestação social para pessoas com deficiência”, sublinhou.

Fonte: Observador

Era uma vez... um livro para as crianças que não vêem

Associação Nacional de Intervenção Precoce lançou o primeiro livro multissensorial. A expectativa é que haja uma segunda edição, mas para isso é preciso financiamento.

O papel ganha vida e formas. A conversa sai das folhas para as mãos. É assim que o primeiro livro multissensorial consegue dar às crianças com deficiência visual que não saibam ler em braille a oportunidade de conhecer a história que nestas páginas é contada. Chama-se O que vês, o que vejo… e foi lançado no mês passado, pela Associação Nacional de Intervenção Precoce (ANIP). Foi produzido pela editora francesa Les Doigts Qui Rêvent, que trabalha na produção de livros táteis deste género. Este é o primeiro a chegar a Portugal.

O objetivo, explica Viviana Ferreira, psicóloga e diretora técnica na ANIP, é “que as crianças até aos 6 anos, que não sabem ler ainda em braille, tenham a oportunidade de, através das ilustrações táteis, dos bonecos com braços que saltam da folha e se mexem, de um sol que se empurra da esquerda para a direita e de um girassol que gira”, fazer “uma leitura da imagem, tendo em conta aquilo que o texto lhe propõe.”

Para já, porém, a ANIP só conseguiu imprimir 100 exemplares da obra. “A produção do livro andou entre os 90 e os 100 euros, porque foi feito com materiais especiais e à mão, o que encarece os custos”, explica a psicóloga. O próprio braille “é feito de um material diferente do dos livros normais, que abatem ao final de algum tempo. Este é feito com uma resina para nunca vai abater e ser mais suave ao toque”. Acima de tudo, reforça a psicóloga, que coordena o projeto, este livro tem uma grande componente de inclusão: “Queremos um livro que promova a partilha, o encontro de perspetivas da criança que veja e da criança com cegueira tal como o texto sugere.” Este livro retrata, assim, uma conversa entre duas crianças sobre um dia comum. Está lá o mar, em relevo, a lã de uma camisola, um coração, o pôr-do-sol e em tudo as crianças podem tocar.

Preço mais acessível 

Ao contrário do que acontece com as edições da Les Doigts Qui Rêvent, “onde os livros custam entre os 70 e 90 euros”, a ANIP quis fazer um preço mais baixo, porque “cá esses preços são incomportáveis para os pais, que já têm muitas despesas associadas à doença dos filhos”. Está à venda por 35 euros e já existem poucos disponíveis.

“A adesão positiva das pessoas ao livro dá-nos confiança para chegar a um financiador e dizer que há mais pessoas que o querem mas que já acabaram estes 100. Se houver financiamento seguramente que nos aventuremos numa segunda edição”, explica. (...)

“Não queríamos que fosse mais um recurso que só tivesse braille e umas ilustrações em relevo.” No entanto, o braille está presente porque “as crianças com cegueira devem ter contacto com o braille, não para o saber ler, mas para perceber que aquilo são letras que representam palavras e conceitos para depois mais tarde quando aprenderem o braille em contexto do primeiro ciclo entendam”, destacou Viviana Ferreira.

Percebendo a importância que as histórias têm na infância, esta oficina quis criar algo que fosse mais do que “um livro em branco, amontoado de folhas” para as crianças com deficiência visual. Pensemos nos contos infantis. O que é que vemos? Cor, muitos desenhos criados à medida da idade delas, pouco texto com palavras simples. Imaginemos agora uma criança com cegueira e que ainda não aprendeu a ler em braille. Como vai poder ler? Tem de ser a “tocar” a história que ela vai poder “ler”.

Fonte: Público