terça-feira, 2 de junho de 2020

Pandemia "é oportunidade" para retirar peso aos testes escritos na avaliação

Nunca um ano letivo terminou desta forma, por isso, a comunidade educativa não estava preparada para o que viria: parte dos últimos dois períodos letivos do ano lecionada através de um computador, um tablet ou fichas de trabalho enviadas por correio. Com a distância, seguiram-se as dúvidas relativamente à forma de avaliar os alunos - com recursos e contextos tão diversos. A grande maioria dos docentes trocou os testes por apresentações, pela valorização da assiduidade e do esforço demonstrado. Diretores e professores consideram que este é apenas um passo no caminho certo, aquele que já deveria ser o da educação, e que as escolas devem aproveitar esta oportunidade para mudar o paradigma.

"Toda a gente dá valor" a um teste escrito, "professores, pais e alunos". "Até dá a ideia de que se não houvesse testes escritos o aluno não poderia ser avaliado, e pode", diz o dirigente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP).

A discussão adensa-se com o anúncio da possibilidade de um próximo ano letivo híbrido (com ensino presencial e à distância), por força da ausência de uma vacina que trave a atual pandemia de covid-19. Pode este critério de avaliação prevalecer com a mesma ponderação? Filinto Lima diz que "há outros critérios que devem ter maior ponderação, como a apresentação oral de trabalhos".

Esta "é uma oportunidade para todos nós refletirmos e valorizarmos a escola", acrescenta Paula Carqueja, presidente da Associação Nacional de Professores (ANP), sem dúvidas de que "o sistema avaliativo deve mudar". "Será muito mais importante termos uma avaliação permanente dos nossos alunos do que estar a julgá-los por um teste. Porque quando há um teste, estão vários fatores associados a todo o momento e à resposta, o que prejudica toda a avaliação e aprendizagem que um aluno tem vindo a fazer. Há uma desmotivação geral quando um aluno teve um trabalho excelente - no qual se esforçou, para investigar e ser criativo, tudo o que se pede agora [no mercado de trabalho] - e depois falha num teste de memorização, de atenção", explica.

O trabalho de um professor deve passar por "privilegiar a proximidade com o aluno, a aprendizagem contínua", a única forma de "perceber se há dificuldade na aquisição de conhecimentos" e de "valorizar a sua participação ativa", diz a dirigente da ANP. "Assim, estaríamos a dizer ao aluno: 'tu és sempre importante'" e não apenas a considerá-lo no derradeiro momento de expor os seus conhecimentos num teste comum. "Devíamos desconstruir completamente o sistema."

E Filinto Lima acredita mesmo que isso está, agora, mais perto de mudar. Todos os anos, "por volta de julho", chega às escolas "um documento que se chama Organização do Ano Letivo (OAL), que prepara o ano letivo seguinte" e que "tem sido mantido nestes últimos anos. "Mas acho que, este ano, este documento deve ser alterado", em grande parte porque deverá "prever a eventualidade do ensino híbrido", diz o presidente da ANDAEP.

Um cenário que, aliás, fez saber o ministro da Educação, numa entrevista à rádio Renascença e ao jornal Público. "Temos que nos preparar para em setembro - ou não em setembro, mas se calhar em outubro, ou novembro - termos o que os ingleses designam por be learning, uma conjugação entre ensino à distância e ensino presencial", anunciou.

E os exames? "Sim, devem continuar a existir", não hesita em dizer a representante de professores Paula Carqueja. Ao contrário dos testes escritos realizados durante o ano letivo, "o exame não funciona como uma percentagem superior" a todos os restantes critérios envolvidos na avaliação final de um aluno, "é simplesmente mais uma prova". E "continua a ser um instrumento de equidade nacional".

No entanto, é apologista de que a realização dos exames nacionais deva prosseguir "nos moldes em que ocorreram neste ano", em que os estudantes fazem apenas os exames que necessitam para concorrer aos seus cursos na faculdade.

Fonte: DN por indicação de Livresco

segunda-feira, 1 de junho de 2020

"Há crianças que viram pela primeira vez um computador em casa"

As crianças foram muito prejudicadas pela pandemia. O alerta é da diretora executiva da Unicef Portugal, que está a monitorizar de que forma a Covid-19 condicionou o bem-estar das crianças.

O abuso sexual, a violência doméstica, a situação de pobreza são algumas das preocupações da Unicef nesta altura de pandemia.

A educação também é uma questão de extrema importância para esta agência humanitária. A diretora executiva da Unicef Portugal admite que as desigualdades já existentes entre crianças foram acentuadas pelo ensino em casa.

"Há crianças que viram pela primeira vez em casa, nestes últimos dois meses, um computador. Este período acentuou diferenças mas, para algumas, criou oportunidades que temos de reforçar e não podemos fazer com que elas parem", afirma Beatriz Imperatori.

A diretora executiva da Unicef Portugal defende que o período de férias que se aproxima deve ser usado para restruturar o modelo escolar. Um modelo onde as crianças são ouvidas.

"Neste momento em que estamos a preparar o regresso às aulas, é preciso ouvir diretamente as crianças. O que sentiram no confinamento, o que pensam da escola, o que acharam da experiência de ter aulas por computador. É um desafio que deixamos ao sr. ministro da Educação: aproveite o verão para ouvir as crianças."

Além da educação, a Unicef está também a avaliar no seu sistema de monitorização que arrancou a 20 de março, a proteção e o risco, bem como o efeito económico da pandemia.

O novo coronavírus deixou a economia nos cuidados intensivos, criando ou aumentando, por consequência, a dificuldade financeira das famílias. Beatriz Imperatori garante que toda esta situação tem impacto nos miúdos porque "as crianças preocupam-se se o pai ou a mãe está desempregado ou em lay-off, que é algo que não entendem, mas sabem que não é coisa boa".

"Há ainda o efeito prático: temos uma quantidade enorme de famílias que recorre à emergência alimentar. O que quer dizer que estas famílias não têm dinheiro para ir às compras, por isso as refeições vão ser menos e a alimentação mais pobre", sublinha a diretora executiva da Unicef Portugal.

Fonte: TSF por indicação de Livresco

Crianças começaram a ler mais durante confinamento

As crianças portuguesas começaram a ler mais durante o período de confinamento. É este a conclusão de um estudo promovido pela Leya Educação e pelo Clube de Leytura (de subscrição de livros infantis) junto de 2.483 encarregados de educação com o objetivo de perceber de que modo é que a pandemia da Covid-19 alterou os hábitos de leitura dos mais jovens e se os livros desempenharam um papel importante no contexto do confinamento.

Dos 2.483 inquéritos realizados através do Google Formulários, 92,6% referem-se a crianças com mais de 6 anos e 7,4% a crianças dos 0 aos 6 anos. Do total, 2.084 questionários foram respondidos por pais cujos filhos são autónomos na leitura (84%) e 397 por encarregados de educação cujos filhos não o são (16%). No estudo incluem-se representados todos os distritos e regiões autónomas do país, mas a maioria das famílias inquiridas reside nos distritos de Lisboa, Porto e Setúbal.

Relativamente aos pais cujos os filhos já leem sozinhos, mais de metade (61%) admitiu que a leitura se tornou mais frequente desde o início do confinamento, no mês de março, apesar de 37,6% das crianças terem já o hábito de ler pelo menos duas a três vezes por semana. A grande maioria (80,6%) disse ainda que considera que a leitura ajudou os mais pequenos a esquecerem-se da pandemia. Os livros de aventura foram os preferidos (33,3%), seguidos de livros com atividades (28,1%) e fantasia (19%).

Entre os pais cujos filhos não são autónomos na leitura, 59% afirmaram que leem agora mais regularmente do que antes da confinamento, embora a grande maioria já o fizesse antes do surgimento da pandemia (83,9%). Mais de metade (55%) admitiu que isso se deve ao facto de agora terem mais disponibilidade para acompanharem os mais novos na leitura. Os livros de fantasia (27,7%) foram os mais populares entre estes encarregados de educação, seguidos dos livros com atividades (23%) e de aventura e suspense (11,6%).

Fonte: Observador por indicação de Livresco

domingo, 31 de maio de 2020

Estudo em casa, crianças invisíveis

O estudo em casa mantém-se e, longe da escola, muitas crianças e jovens tornaram-se invisíveis. Confinados em casa, tantas vezes no seio de famílias negligentes ou maltratantes, podem experienciar situações de risco ou perigo que permanecem, desta forma, camufladas. Podem também ser vítimas de ciberbullying ou assédio sexual online, realidades frequentemente ocultas mesmo dos olhos de quem vive diariamente com estas crianças.

Neste contexto, as crianças e jovens têm também menos possibilidade em pedir ajuda, tendo em conta que as figuras de confiança a quem recorrem são, muitas vezes, os profissionais da área da educação.

Perante isto, a que sinais de alerta devem os educadores de infância e professores estar atentos? Como detetar eventuais sinais de risco ou perigo quando as crianças estão atrás de um écran, sem possibilidade de interação presencial?

Em primeiro lugar, é fundamental sensibilizar as crianças e os jovens, mas também as suas famílias, para a importância de comunicar através das plataformas digitais com a câmara ligada, e não apenas o microfone. Sabemos que muitas crianças e jovens resistem em ligar a câmara, o que lhes permite estar mais a vontade, de pijama ou até deitados na cama enquanto assistem às aulas. Mas sabemos também que, não raras vezes, são os pais que não querem as câmaras ligadas, alegando o direito à privacidade familiar. Naturalmente que é importante preservar a intimidade da família. No entanto, é este modelo de escola que temos actualmente, e ao qual temos de nos adaptar. Escolha-se uma divisão da casa mais recatada, por exemplo, de modo a que atrás da criança seja visível apenas uma parede. É muito importante que o contacto visual e face-a-face, ainda que à distância, seja mantido entre crianças e professores. Estes últimos devem, pois, insistir para que os alunos participem nas aulas com as câmaras ligadas, e não apenas os microfones.

E a que sinais de alerta devem os professores estar atentos?

Embora não exista uma receita que possa aplicar-se a todas as situações, tendo em conta que diferentes crianças podem dar sinais muito distintos, é possível, ainda assim, sistematizar alguns indicadores que devem funcionar como um sinal de alerta.

Com as crianças em idade pré-escolar, as aulas síncronas são menos frequentes. No entanto, acabam por ser momentos de excelência para observar a interação entre pais e filhos, uma vez que, em razão da idade, estas crianças estão habitualmente acompanhadas nestes momentos. É importante observar a forma como comunicam, verbal e não verbalmente, bem como as emoções que são expressas. Parecem confortáveis na interação? Observa-se sincronia e sensibilidade parental face à criança?

Independentemente da idade da criança, existem outros indicadores a ter em atenção. A nível físico, parece bem cuidada do ponto de vista da higiene pessoal e alimentação? Evidencia alguma marca física visível? Mostra-se cansada, apática, sonolenta ou adoentada? Queixa-se de forma recorrente de dores de cabeça ou de outra parte do corpo?

Do ponto de vista comportamental, mostra-se mais agitada ou mesmo agressiva? Exibe um comportamento desafiador, mente (por exemplo, em relação às tarefas escolares) ou parece mais desatenta do que o habitual? Isola-se e resiste em participar nas actividades de grupo? O seu rendimento escolar alterou-se de forma muito significativa?

A nível emocional, parece triste, preocupada, ansiosa, zangada ou com medo? Revela alterações de humor que não eram habituais? Mostra-se mais desmotivada do que anteriormente?

Importa ainda estar atento às dinâmicas familiares. A criança parece estar sozinha ou sem supervisão adequada à sua idade? Os pais ou encarregado de educação não respondem ou mostram um padrão de baixo envolvimento com o estudo da criança?

Face a algum destes indicadores, o professor deve tentar estabelecer um contacto individual com a criança ou jovem, no sentido de tentar perceber o que possa estar a acontecer. Pode não ser uma situação de risco ou perigo. Ou pode ser. E, nesse caso, tem de ser sinalizada às entidades competentes.

Lembremo-nos sempre... todos os olhos do mundo são sempre insuficientes para olhar por uma criança. (...)

Rute Agulhas

Fonte: DN por indicação de Livresco

sábado, 30 de maio de 2020

Esclerose Múltipla: uma vida com mais qualidade

João sentia a face dormente, deixava cair objectos, referia que os seus membros não seguiam as instruções que o cérebro lhes transmitia. Inicialmente pensou que estaria a envelhecer precocemente, mas as notícias que o seu médico trazia eram, talvez, menos animadoras: o diagnóstico era esclerose múltipla.

João sofre de uma doença que afecta cerca de 2,5 milhões de pessoas em todo o mundo, maioritariamente mulheres, frequentemente nas primeiras décadas da vida adulta. Ao longo dos anos tem-se notado um aumento do número de novos doentes com esclerose múltipla, contudo a contribuição da melhoria global do acesso aos cuidados de saúde, e o estabelecimento de critérios de diagnóstico mais precisos, serão, provavelmente, o contributo mais importante para este aumento, e não tanto um real acréscimo da sua incidência.

A esclerose múltipla é uma doença inflamatória que afecta o sistema nervoso central, caracterizada pela destruição maioritariamente episódica e progressiva da mielina, a bainha que envolve os axónios. Estes, por sua vez, são prolongamentos das células nervosas, os neurónios, que permitem a transmissão de informação para outros neurónios, músculos ou glândulas. A degradação da mielina limita, assim, o normal funcionamento dos neurónios, e os sintomas descritos pelos doentes dependem do local onde a destruição nervosa está a ocorrer em determinado momento, ou ocorreu no passado.

Quais são, então, os principais sintomas da esclerose múltipla? A perda de sensibilidade, parcial ou extensa, de um membro ou face é uma queixa frequentemente inicial, tal como é a perda súbita de visão, a fadiga e a dificuldade de concentração. Por se tratar de sintomas que se podem facilmente confundir com outras doenças, a avaliação por um médico neurologista e a confirmação do diagnóstico por métodos de imagem e, eventualmente, laboratoriais, é essencial.

A evolução da Imagem Médica, desde que Wilhelm Roentgen descobriu o Raio X no final do século XIX, passando por Lauterbur e Mansfield, que foram laureados com o Prémio Nobel da Medicina em 2003 pelo desenvolvimento da Ressonância Magnética, tem sido extraordinária. Porém, não estaremos a assistir, hoje, à maior revolução da imagem médica desde o seu início? De que modo esta transformação poderá beneficiar os doentes com esclerose múltipla?

O diagnóstico e acompanhamento de doentes com esclerose múltipla é feito por Ressonância Magnética, método que permite visualizar a localização cerebral (ou medular) dos focos de inflamação activa das células nervosas, ou as sequelas de episódios que tenham ocorrido no passado. Esta avaliação imagiológica tem sido feita pelos médicos neurorradiologistas de modo semiquantitativo, ou seja, identificando a estabilidade ou aumento do número de focos de inflamação, e a variação qualitativa do seu volume face a exames anteriores. A informação proveniente destes estudos de imagem tem sido essencial, em conjunto com a monitorização clínica, na adequação da terapêutica a instituir durante um surto (inflamação aguda), ou aquela que é modificadora da história natural da doença, ou seja, a medicação que tem a capacidade para alterar o ritmo de progressão da degeneração das células nervosas. A aplicação de algoritmos de Inteligência Artificial em estudos de Ressonância Magnética poderá, no entanto, revolucionar o paradigma actual.

Em Portugal, com recurso a Inteligência Artificial, é já possível fazer a uma avaliação imagiológica verdadeiramente quantitativa, com a determinação detalhada do número e volume dos focos de inflamação cerebral, e notar a progressão da doença ao longo do tempo com elevadíssima precisão, possivelmente antecipando mesmo os sintomas do doente. A detecção de pequenas variações de destruição cerebral, dificilmente anteriormente identificáveis pelo médico sem o auxílio de algoritmos automatizados, poderá permitir o ajuste precoce da terapêutica, e assim contribuir, de modo muito significativo, para a melhoria da monitorização dos doentes, e, desse modo, abrandar a evolução da doença.

Na vertente terapêutica tem-se notado o desenvolvimento de um número crescente de fármacos capazes de alterar a progressão da esclerose múltipla, com diferentes mecanismos de acção, eficácia, tolerabilidade e segurança. No futuro iremos, certamente, assistir ao desenvolvimento de medicamentos capazes de prevenir a neurodegeneração e promover a regeneração cerebral.

Os doentes com esclerose múltipla vão certamente beneficiar da inovação diagnóstica e terapêutica que se prevê. Na medicina o futuro aproxima-se rapidamente, renovando a esperança numa vida com menos incapacidade, mais completa e longa.

Em tempos de pandemia, importa realçar que as unidades de saúde já estão a repor a actividade clínica programada — consultas, exames e cirurgias — com a adopção das medidas necessárias para que todos os doentes tenham acesso a cuidados de saúde em tempo oportuno e em segurança.

Tiago Baptista

Neurorradiologista no Hospital CUF Infante Santo, em Lisboa

Fonte: Público

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Norma 02/JNE/2020 - Instruções para a realização, classificação, reapreciação e reclamação

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Deste documento, destaca-se que as provas e exames a nível de escola reservadas a situações em que são aplicadas medidas seletivas ou adicionais, à exceção das adaptações curriculares significativas, realizam-se nos dias e horas definidos previstos nos Anexos I, II e III do Decreto-Lei n.º 14-G/2020, de 13 de abril.

Quando aplicada a medida adaptações curriculares significativas (alínea b) do n.º 4 do artigo 10.º do Decreto-Lei n.º 54/2018, de 6 de julho, na sua redação atual), os alunos não realizam exames finais nacionais do ensino secundário nem provas de equivalência à frequência, pelo que não são registados nos programas ENEB ou ENES.

Crianças que vão mudar de ciclo devem poder despedir-se dos amigos e da escola? “É essencial”, dizem peritos

João, Henrique, Lia e Mafalda têm passado os dias em frente ao computador de onde agora lhes chega a voz da professora e dos colegas. O estudo passou a ser feito exclusivamente em casa. E as brincadeiras, que antes da pandemia aconteciam no recreio da escola, são agora feitas a quilómetros de distância e através de um ecrã. Além da idade, estas quatro crianças têm uma coisa em comum: terminam, no fim de Junho, o último ano do ensino primário em escolas e pontos diferentes do país. E, tal como a outros milhares de crianças, o novo coronavírus vai impedi-las de assinalar o fecho de um ciclo, porque quando transitarem para o 5.º ano podem não ficar na mesma escola, nem ter o mesmo professor, ou conviver com os mesmos colegas dos últimos quatro anos.

“O Henrique senta-se ao computador de manhã para ver quando alguém fica online. Volta e meia aparece um amigo e ficam ambos a jogar um jogo, ora aparece outro e ficam a fazer os trabalhos de casa juntos ou, quando é hora, vão todos para a aula”, descrever Inês Cortesão, a mãe, ao telefone (...). “De vez em quando pergunta-me se vai voltar à escola e a ver alguns dos amigos. Há a possibilidade de encontrar a grande maioria, mas nunca mais será naquele conforto da turma porque vão-se separar e a ligação da primária perde-se. É uma pena porque não fecham o ciclo de uma forma saudável, é online”.

Já Ana Moreira, mãe de João, que frequenta a escola primária do Agrupamento de Escolas dos Carvalhos, em Vila Nova de Gaia, diz que o filho vê os amigos todos os dias por videochamada, mas refere que “não é a mesma coisa”, até porque João diz ter saudades dos colegas e da professora. “Ele vai para uma escola nova e quer saber onde é e como será, faz muitas perguntas. Não temos abordado muito o assunto porque ainda faltam alguns meses e se falarmos de algo com muita antecedência ele fica ansioso”, explica Ana Moreira.

Os pais das crianças da turma de João têm tentado que a turma se reencontre. Ana afirma que a professora mencionou a possibilidade de um piquenique, por exemplo. “É uma turma pequena, com 16 alunos, e eles são muito unidos. A professora disse que fazia todo o gosto em que eles estivessem reunidos porque foram quatro anos juntos e eles sentem que falta ali qualquer coisa”, conta a encarregada de educação.

Também Henrique, que frequenta uma escola do concelho de Lisboa, tem tentado estar com uma parte dos colegas porque, segundo a mãe, ainda não é claro se existirão actividades nas férias. “Um grupo pequeno de mães tem tentado levar os miúdos a jardins várias vezes por semanas para que eles se vejam ao vivo e a cores, mas com todos os cuidados. A primeira vez que que se viram foi uma gritaria, foi uma coisa emocionante mesmo para nós”, diz a mãe, acrescentando que numa altura em que a tecnologia impera, tem sido cada vez mais importante realizar actividades ao ar livre.

Já a mãe de Mafalda, Idalina Abreu, diz que os meios digitais facilitam muito a comunicação, mas estar em casa desde Março não tem sido “fácil”. Mafalda, que frequenta o quarto ano no Externato Paraíso dos Pequeninos, pertencente ao grupo Escolaglobal, em Santa Maria da Feira, tem-se adaptado bem às aulas em casa, mas sente que o estudo presencial era “muito diferente”. “Ela está com alguma ansiedade, mas já lhe explicamos que em princípio este ano não regressará à escola. Até fez anos em Março e prometemos que se as coisas melhorassem fazíamos uma festa cá em casa com alguns amigos, para fechar o ciclo e celebrar”, conta a mãe. A criança de dez anos não vai mudar de grupo escolar, mas as aulas terão lugar noutro edifício e localidade e vai ter, de certeza, novos professores.

Para os especialistas, o fechar de ciclo é “essencial"

Apesar de, em muitos casos, as festas de final de ano serem algo simbólico, os especialistas ouvidos (...) defendem que é “essencial” e importante que as crianças sintam que vão fechar um ciclo no fim de Junho e que, dali a uns meses, vão iniciar um muito diferente, com outras disciplinas, mais professores e outras responsabilidades. Para tal, é importante que exista um “adeus” ou “até já” que é dito não só aos colegas, mas aos docentes e à própria escola, que pode nem ser a mesma no ano seguinte.

“Este é um tempo meio estranho e muito novo para todos, inclusivamente para os miúdos. Acho que as festas são uma coisa simbólica e os simbolismos têm importância. É uma maneira de fechar o ano e todas as escolas e creches têm uma celebração em que os alunos se preparam e se apresentam perante os pais com as coisas que fizeram no último período, e isso tem um carácter de transição, ajuda-os a terminar o ano ou o ciclo”, começa por dizer Nuno Reis, psicólogo clínico do Centro do Bebé, em Lisboa.

O especialista acredita ser possível existir um compromisso entre cumprir as regras de distanciamento e higiene a que a situação obriga e, por outro lado, permitir “alguma coisa mais do que uma festa através do ecrã”. Nuno Reis fala mesmo num regresso lento ao contacto social e a uma vida mais próxima daquilo que era a realidade antes da pandemia. “Se isso incluir fazer um ATL durante o mês de Junho ou uma festa de final de ano isso já é parte de um todo e fica a cargo dos pais e da escola”, refere.

Ana Vasconcelos, pedopsiquiatra, diz, por sua vez, que os pais têm de encontrar mecanismos para dotar os filhos de capacidades para ultrapassar uma situação que se poderá manter por vários meses e que isso tem de ser feito “com imaginação”. “Os miúdos, que são muitas vezes mais resilientes que os próprios adultos, podem com certeza adaptar-se a boas soluções que os pais arranjem”, refere a especialista. “Acho importante dizer aos pais que usem a experiência que tiveram na escola para fazer uma festa que fique na memória dos miúdos, mas tendo sempre em conta que estamos no meio de uma pandemia. Essa parte tem de ficar clara”, diz Ana Vasconcelos. E vai mais longe: "é uma boa altura para haver um diálogo entre os pais e os professores e os miúdos também ficam muito contentes se sentirem que são parte da solução”.

Há crianças que estão a lidar bem com a situação

Nuno Reis fala ainda do caso das crianças que estão confortáveis por estar em casa e que não pedem para se reencontrar com os colegas. É o caso de Lia, que também frequenta o Externato Paraíso dos Pequeninos e que se tem adaptado muito bem às aulas em casa. “Tem saudades da escola? Tem, mas se eu lhe disser que amanhã tem que voltar ela não ia querer, mesmo sendo uma criança que gosta muito de estudar e de aprender”, refere Marta Amorim, encarregada de educação.

O psicólogo clínico diz que, nestes casos, é preciso de ter respeito pela “individualidade das crianças” que não tiveram tempo de processar “tudo isto”.

Ainda assim, e apesar de se sentir bem em casa, Marta está certa de que se houvesse uma festa de final de ano, a filha ia querer participar, mas não é algo que mencione aos pais. “Quando lhe expliquei que pode não ter festa, achou tudo muito normal e reagiu muito bem à situação, uma perspectiva que pode ser diferente de outras crianças”, confessa a mãe. “Além disso, como ela vê os colegas todos os dias no ecrã não sente tanta falta e não chega a perguntar por eles”.

Nuno Reis menciona ainda que, tendo em conta o que se sabe sobre a transmissão do vírus entre crianças, se acontecerem, estas festas ou encontros não podem pôr em causa o cumprimento das regras, quer da parte dos pais, quer da parte das crianças.

Fonte: Público

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Relatório “Um roteiro para orientar a resposta educativa à Pandemia da COVID-19 de 2020”

A Organização de Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) divulga a versão em português do relatório “Um roteiro para orientar a resposta educativa à Pandemia da COVID-19 de 2020”, elaborado por Fernando M. Reimers, diretor da Global Education Innovation Initiative na Universidade de Harvard, e Andreas Schleicher, diretor do departamento de Educação e Competências da OCDE, publicado pela OEI em espanhol e português numa parceria com as aquelas duas instituições.

O relatório tem por objetivo apoiar a tomada de decisão na área educativa para desenvolver e implementar respostas eficazes ao encerramento de escolas devido à emergência de saúde.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Espaços, tempos, materiais. As novas rotinas das creches

As creches com apoio à família reabriram a 18 de maio ainda com poucas crianças. Os jardins de infância, o ensino pré-escolar e os ATL voltam a abrir as portas a 1 de junho. Depois das dúvidas, o Ministério da Educação anuncia que as crianças estão dispensadas de usar máscara. É necessário reforçar a lavagem e desinfeção das mãos, pessoas externas ao processo educativo só podem entrar no estabelecimento com máscara, as atividades ao ar livre devem ser privilegiadas. O distanciamento físico entre crianças deve ser maximizado quando estão em mesas, sem comprometer o normal funcionamento das atividades pedagógicas.

Antes da divulgação das novas regras de funcionamento dos espaços, a Associação de Profissionais de Educação de Infância (APEI) reuniu vários contributos de um conjunto alargado de profissionais de educação, desde educadores de infância a investigadores e outras pessoas especializadas. A associação elaborou e disponibilizou um documento para partilhar ideias com sugestões práticas de como organizar o ambiente educativo de forma a respeitar os princípios da pedagogia da infância, garantir direitos de crianças e adultos, tendo sempre presente o atual contexto de uma situação pandémica. Um momento de grande complexidade que exige profissionalismo e discernimento.

Novos desafios colocam-se no campo das relações e interações. A APEI alerta, nesse documento focado em assegurar a qualidade pedagógica nas creches, para a observação cuidadosa de bebés e crianças. “É um processo que deve manter a sua sistematicidade, com atenção a sinais e reações de desconforto físico ou emocional (tristeza, irritabilidade e retrocesso face a aquisições anteriores)”. O acolhimento e a despedida de cada criança, na creche ou no domicílio da ama, deve ser feito de forma serena de quem se despede (preferencialmente sempre o mesmo familiar) e de quem acolhe. Às equipas educativas pede-se assertividade, responsabilidade e resiliência.

Educadores e educadoras de infância devem, segundo a APEI, “desenvolver estratégias para que as crianças reconheçam que, por detrás da máscara, está alguém que conhecem e em quem confiam, aliviando o uso deste equipamento”. A interação de bebés e crianças com o mundo natural e cultural deve manter-se. O envolvimento em experiências culturais associadas à música, ao desenho, à pintura, às histórias, à dança, aos jogos, não pode ser descurado.

As circunstâncias são excecionais e os profissionais devem apoiar a criança no regresso à creche neste período de adaptação, partilhando memórias das famílias em tempo de quarentena, e devem criar instrumentos pedagógicos que facilitem o processo de planeamento. Por outro lado, os elementos da equipa educativa devem refletir e partilhar experiências e angústias, na perspetiva de encontrar estratégias e soluções para melhorar a vida na creche.

Por seu turno, as direções das creches têm o dever de “zelar pelo superior interesse das crianças, prestar apoio às famílias, acompanhar a equipa de forma regular e próxima nos seus dilemas profissionais e necessidades pessoais”. Além disso, esses responsáveis devem garantir os materiais necessários, acautelar o bem-estar psicológico da equipa educativa, providenciar formas de realizar saídas ao exterior, bem como “equilibrar a responsabilidade da continuidade institucional com os valores de compromisso cívico e apoio social”.

Ambiente tranquilo e flexível
Quanto à organização dos espaços, a APEI refere que as medidas de distanciamento físico “não poderão representar o confinamento nem o isolamento social das crianças”. “Nesta faixa etária, o bem-estar, o desenvolvimento e a aprendizagem estão dependentes das oportunidades criadas para o movimento livre e autónomo. A redução prevista do número de crianças por grupo e a expansão dos espaços da creche poderão constituir medidas de salvaguarda deste direito das crianças”, sustenta. “Um ambiente tranquilo, do ponto de vista visual e sonoro, organizado e flexível, confortável e esteticamente pensado são outros aspetos que contribuirão para a experiência positiva de crianças e adultos”.

Os materiais devem ser verificados, controlados e desinfetados várias vezes ao dia, deve haver também rotatividade de conjuntos de materiais e de brinquedos. Desaconselha-se a utilização de objetos em tecido, peluches e materiais de difícil lavagem. Os dispositivos não necessários às atividades devem ser retirados dos espaços.

A APEI sugere que se deve equacionar a melhor forma de organizar o grupo, em grandes ou pequenos grupos, ou individuais. “A organização da rotina diária deve ser cautelosamente pensada para que se possam cumprir as regras estabelecidas”. Os momentos de higiene, alimentação e sesta exigem especial atenção, e o planeamento destes momentos é fundamental para que a equipa educativa consiga encontrar estratégias que transmitam calma e segurança e que possam também ser momentos estimulantes em termos de relação e da aprendizagem.

“Não obstante a situação que vivemos, não deve ser excluída a possibilidade de saídas ao exterior da instituição. Existem espaços que podem ser utilizados, cumprindo as regras de segurança e saúde, quer para exercício ao ar livre, quer para explorações e aprendizagens diversificadas (por exemplo, hortas, jardins, matas, museus, bibliotecas, em tempo oportuno)”, lê-se no documento da APEI.

A primeira reação da associação à reabertura das creches foi dura e contundente, antes das orientações precisas da DGS, antes de algumas alterações entretanto anunciadas pela tutela. Nessa altura, a APEI estava bastante preocupada e referia, em comunicado, que as regras eram “profundamente perturbadoras”. Uma “violência contra as crianças”, escrevia.

“Manter uma distância física de dois metros entre cada criança e impedir que possam interagir entre si, evitar o toque em superfícies, dispor mesas em linha ou crianças colocadas de costas umas para as outras, evitar a partilha de brinquedos e outros objetos, ter adultos de referência (educadores e auxiliares), com os quais as crianças mantêm vínculos profundos, a usar máscaras, são medidas reveladoras de um desconhecimento sobre a realidade do trabalho educativo em creche e sobre o desenvolvimento das crianças com menos de três anos”, alertava nesse momento.

Luís Alberto Ribeiro, presidente da APEI, adianta que os aspetos mais preocupantes foram alterados. “As questões negativas acabaram por se esvaziar”, refere (...). “No dia 1 de junho, o mundo será outro. É preciso gerir duas questões. Ter algumas cautelas no distanciamento entre crianças - e as crianças precisam de afeto, de carinho, de colo. E a questão da saúde. Há várias complicações no trabalho com crianças tão novas”. De qualquer forma, as expetativas não são negativas.

Fonte: Educare

terça-feira, 26 de maio de 2020

Maioria dos professores dá aulas por videoconferência e admite trabalhar mais

Segundo os resultados preliminares de um inquérito da Universidade Nova de Lisboa, sobre o ensino à distância, os 2.647 professores inquiridos dizem trabalhar, em média, mais 11 horas por semana e 88% afirmam dar aulas através de videoconferência.

Entre aqueles que não optaram por esta ferramenta estão, sobretudo, educadores do pré-escolar (cerca de 44% de educadores) e do primeiro ciclo (cerca de 14%).

A adesão dos alunos tem sido positiva, segundo os docentes que responderam ao inquérito do Centro de Economia da Educação da Faculdade de Economia (Nova SBE) entre 05 e 19 de maio, e aqueles que utilizam as plataformas de videoconferência afirmam que 86% dos seus alunos assiste às aulas.

Por outro lado, os docentes avaliam em 4,5 (numa escala de 1-7) a capacidade de apreensão da matéria por parte dos alunos nestas aulas síncronas, em que a assiduidade e participação são dois dos critérios de avaliação adotados pela maioria dos professores (67,7% e 64,8%), além da recolha de trabalhos de casa (84,1%).

Durante o 3.º período, o acesso aos dispositivos tecnológicos que permitem acompanhar as aulas 'online' continua a ser uma dificuldade e, em média, os professores reportam que 15% dos seus alunos não têm acesso a computador com internet em casa.

Os autores do estudo notam, no entanto, que apesar deste valor ser mais baixo em relação ao reportado na primeira ronda do inquérito, no final de março, continua a registar-se "uma grande variabilidade nas respostas a esta questão, com uma percentagem significativa de professores a reportar um número elevado de alunos sem computador com acesso a Internet".

"Tal levanta a necessidade de se aferir quais os alunos que tiveram um acesso incompleto aos conteúdos curriculares durante este período, e que devem ser sinalizados no início do próximo ano letivo", continua o relatório.

Em 20 de abril, a RTP Memória lançou o espaço #EstudoEmCasa, com aulas através da televisão, que abrange aulas destinadas aos alunos entre o primeiro e o nono ano de escolaridade.

A transmissão televisiva de conteúdos educativos foi uma das propostas do Governo para mitigar as dificuldades de acesso ao ensino, em tempos de trabalho à distância, dos alunos mais carenciados, mas iniciativa foi bem recebida por muitos dos professores, que incluíram a ferramenta nas suas planificações para o 3.º período.

Estas aulas foram também analisadas no inquérito da Nova SBE e, segundo os resultados, cerca de 62% dos 2.647 professores inquiridos lecionam disciplinas com aulas no #EstudoEmCasa e a avaliação é tendencialmente positiva.

Em média, os professores avaliam em 5,2 (numa escala de 1-7) a qualidade das aulas da RTP Memória e, numa escala de 1-5, recomendam o visionamento aos alunos em 3,7.

Por outro lado, as respostas sobre a adesão dos alunos a estas aulas são bastante variáveis, o que, segundo o relatório, revela que os alunos estão a aderir de forma diferenciada.

Estes resultados traduzem as respostas de professores desde o Pré-Escolar ao Ensino Secundário, que desde 16 de março estão a trabalhar a partir de casa, depois de o Governo ter suspendido todas as atividades letivas presenciais, como forma de conter a propagação do novo coronavírus.

Os alunos do 11.º e 12.º regressaram entretanto às escolas, em 18 de maio, mas apenas para ter aulas das disciplinas sujeitas a exame nacional e o Pré-Escolar regressa em 01 de junho.

Portugal contabiliza 1.330 mortos associados à covid-19 em 30.788 casos confirmados de infeção, segundo o último boletim diário da Direção-Geral da Saúde (DGS) sobre a pandemia divulgado esta segunda-feira.

Fonte: DN