domingo, 16 de junho de 2019

Alunos cegos fazem exames nacionais com 30 páginas em braille

Mais de 200 exames nacionais foram adaptados para os alunos cegos ou com baixa visão por uma equipa do Ministério da Educação que vê nestes estudantes os “heróis” das escolas portuguesas, ao conseguirem fazer provas com 30 páginas.

Um exame nacional de um aluno cego “pode ter 30 páginas em braille”, revelou (...) Filomena Pereira, responsável da Direção de Serviços de Educação Especial e Apoios Socioeducativos, um organismo do Ministério da Educação que desde os anos 80 transforma manuais escolares em livros acessíveis para os estudantes cegos do ensino obrigatório.

A poucos dias de começar mais uma época de exames nacionais, que este ano serão realizados por mais de 150 mil alunos do secundário, está tudo pronto para que também os cegos possam realizar as provas.

Este ano estavam inscritos no ensino básico e secundário 65 alunos cegos. Alguns destes irão agora realizar provas nacionais.

“É muito exigente para um cego fazer um exame nacional. Enquanto o seu colega precisa de ler cinco ou seis páginas, ele precisa de ler 30. Têm de ser heróis”, defendeu Filomena Pereira.

Estes alunos têm mais meia hora para concluir as provas, mas Filomena Pereira considerou que essa é uma falsa questão, porque os testes já têm uma duração bastante longa e torna-se difícil manter a concentração durante muito mais tempo.

As escolas pediram 154 enunciados de provas em formatos adaptados para os alunos do secundário. A maior parte destina-se a estudantes com baixa visão. Apenas 19 exames nacionais serão em braille.

Os números mostram que só um aluno irá realizar a prova de Alemão enquanto outro vai mostrar os seus conhecimentos a Matemática.

A prova de Biologia e Geologia, que dá acesso ao curso de Medicina, também foi adaptada pela equipa de transcritores para poder ser feita por um estudante cego.

História, Português, Filosofia e Geografia são outras das disciplinas cujos exames foram adaptados para braille.

Todas as provas são feitas pelo Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), que contou com a colaboração de alguns elementos da Direção de Serviços de Educação Especial e Apoios Socioeducativos.

A equipa que durante todo o ano está responsável pela adaptação dos manuais escolares pode dar sugestões de alterações dos exames, quando percebe que as perguntas não se adaptam aos alunos cegos.

“Com a nossa experiência damos algumas sugestões e ajudamos as equipas. Damos opiniões de como deveria ser adaptado o exame ou prova de aferição”, explicou Cristina Miguel, coordenadora da equipa que produz os manuais em formato adaptado.

Os exames têm de ser adaptados, mas tenta-se sempre “não modificar muito a prova original”, contou.

No entanto, exemplificou, quando é pedido ao aluno que faça um desenho não existe alternativa possível: “Esta questão não pode ser colocada” e a solução passa por arranjar uma pergunta que cumpra os mesmos objetivos, mas que esteja adaptada a um aluno cego, disse.

Além das provas adaptadas para braille, a equipa recebeu ainda 107 pedidos para fazer provas ampliadas para amblíopes. Em vez de folhas A4, estes alunos vão receber os exames do secundário em folhas A3.

Para estes alunos também foram pedidas provas para praticamente todas as disciplinas do secundário.

Estas provas ou exames podem ser realizados em salas à parte, caso seja necessário que um dos professores vigilantes auxilie o aluno no manuseamento das folhas de prova.

Existe outro grupo de alunos que irá fazer as provas em formato digital, utilizando para isso um computador. No total, foram pedidas 28 provas em formato digital.

Além do secundário, também existem alunos do ensino básico que vão fazer provas adaptadas a Matemática e Português. Foram pedidas pelas escolas 85 provas: 58 em formato ampliado e 27 em formato digital.

Filomena Pereira saudou o habitual sucesso académico que está associado a todos estes alunos, frisando que “normalmente são todos muito bons alunos”.

Em declarações (...), também o presidente da ACAPO, Tomé Coelho, lembrou que “há cada vez mais alunos no ensino superior e as instituições têm vindo a criar cada vez mais condições para estes jovens tenham sucesso”. (...)

Fonte: Observador

Ainda há manuais em braille a chegar às escolas a dias do fim das aulas

Ainda há alunos cegos no ensino obrigatório a receber manuais escolares em braille para usar este ano letivo apesar de as aulas estarem prestes a acabar. O Ministério da Educação tem um serviço onde 12 funcionários adaptam os manuais para que os alunos cegos possam acompanhar as aulas.

Este ano letivo, já foram transcritos para braille quase 400 livros para os 65 estudantes do ensino básico e secundário. No entanto, o trabalho continua.

Há livros que "ainda estão a chegar às escolas", conta Maria Fernanda, uma das funcionárias da reprografia, enquanto imprime as últimas páginas de um manual de Matemática do 5.º ano.

Entre milhares de folhas brancas escritas a braille, Maria Fernanda move-se com a urgência de quem sabe que o material tem de chegar aos destinatários.

"Realmente gostaríamos que os alunos tivessem todos os manuais no início do ano, mas sabemos que não é possível porque este é um processo muito complexo", reconhece Tomé Coelho, presidente da Associação dos Cegos e Ambliopes de Portugal (ACAPO) (...).

No início do mês, dois transcritores ainda estavam a adaptar os últimos volumes de História e Matemática do ensino básico. Numa sala ao lado, os revisores andavam à caça de gralhas nos livros de Filosofia e Espanhol e, uns pisos abaixo, os funcionários do serviço de reprodução também não tinham mãos a medir.

Os 17 funcionários da Direção de Serviços de Educação Especial e Apoios Socioeducativos estão sempre numa luta contra o tempo. É que a equipa só pode começar a trabalhar quando os professores escolhem os manuais do ano seguinte.

Quando a informação chega, a operação arranca. A lista de manuais divide-se entre os que, em tempos, já foram adaptados e os que terão de ser produzidos pela primeira vez.

Os livros que existem em arquivo chegam às escolas antes das aulas começarem. Sempre que possível, opta-se por reciclar e só quando estão em mau estado é que se imprimem de novo.

Quando a escolha dos professores recai em livros novos, inicia-se um processo moroso que acontece quase em simultâneo com o arranque das aulas.

Para reduzir o impacto de os manuais chegarem tarde, os capítulos vão sendo adaptados à medida que as matérias são ensinadas.

"As escolas enviam a planificação e nós vamos tentando saltar volumes e dar a parte que está a ser dada nas aulas para minimizar os estragos de o livro chegar atrasado, porque está a ser feito dentro do próprio ano letivo", explicou Cristina Miguel, coordenadora de produção dos manuais em formato adaptado.

Conforme o trabalho vai ficando pronto, os volumes vão sendo enviados para as escolas. "Os que já foram feitos noutros anos já estão todos nas escolinhas. Agora são os restos dos volumes que se estão a enviar", conta Maria Fernanda, enquanto a impressora imprime os últimos capítulos de um manual do 5.º ano que deu origem a 14 volumes braille.

A funcionária lembra que os alunos nunca poderiam levar o livro completo para as aulas, sob pena "de irem muito carregados para a escolinha". Na mochila também pesam as imagens dos manuais que ocupam ainda mais espaço quando passam de linhas a tinta para linhas a braille.

Dar relevo a figuras, gráficos e mapas é a tarefa mais difícil para os transcritores. Um gráfico pode demorar horas até ganhar a forma desejada.

Quando a imagem é muito complicada, os técnicos podem optar por descrever o que veem. No entanto, a solução não serve os alunos do 1.º ano que ainda não sabem ler. "Temos de fazer desenhos com as células braille", recorda Cristina Miguel.

O trabalho exige experiência, conhecimentos, mas também muita concentração. Mas, por vezes, alguns transcritores mudam de sala e em vez do silêncio ouvem-se gritos de emoção que são gravados para serem ouvidos pelos alunos.

Isto porque aquele serviço também tem como missão gravar para áudio os manuais. Fernanda Borges, que faz a adaptação de manuais para braille, é a melhor voz da equipa e por isso faz a locução dos manuais escolares e de alguns livros do Plano Nacional de Leitura. (...) explicou que adequa a forma de ler ao seu público-alvo: Os mais pequenos exigem maior cuidado com a pronúncia e os mais velhos "mais dinamismo e muita ação para os cativar". No final, o objetivo é só um: "Motivar para a leitura e para saber mais", resume Fernanda Borges.

O sentimento dos que diariamente trabalham naquele serviço discreto na Avenida 24 de Junho, em Lisboa, é condensado nas palavras de Fernanda Borges: "É muito gratificante saber que o nosso trabalho é utilizado e é mesmo necessário. Isso é muito bom".

Fonte: DN

sábado, 15 de junho de 2019

Diretiva Europeia da Acessibilidade

Em 07 de junho, foi publicada no Jornal Oficial da UE (JOUE) a Diretiva (UE) 2019/882 do Parlamento Europeu e do Conselho de 17 de abril de 2019 sobre os requisitos de acessibilidade a bens e serviços.

A presente diretiva visa contribuir para o bom funcionamento do mercado interno através da aproximação das disposições legislativas, regulamentares e administrativas dos Estados-Membros no que respeita aos requisitos em matéria de acessibilidade aplicáveis a certos produtos e serviços.

A presente diretiva aplica-se aos seguintes produtos colocados no mercado:

a) Equipamentos informáticos para uso geral dos consumidores e sistemas operativos para esses equipamentos informáticos;

b) Os seguintes terminais de autosserviço:

i) terminais de pagamento,

ii) Os seguintes terminais de autosserviço destinados à prestação de serviços abrangidos pela presente diretiva:

- caixas automáticos,

- máquinas de emissão de bilhetes,

- máquinas de registo automático,

- terminais de autosserviço interativos que prestam informações, excluindo as máquinas instaladas como parte integrante de veículos, aeronaves, navios ou material circulante;

c) Equipamentos terminais com capacidades informáticas interativas para uso dos consumidores, utilizados para serviços de comunicações eletrónicas; 

d) Equipamentos terminais com capacidades informáticas interativas para uso dos consumidores, utilizados para aceder a serviços de comunicação social audiovisual; e;

e) Leitores de livros eletrónicos.

Irão beneficiar da presente diretiva outras pessoas que têm limitações funcionais como as pessoas idosas, as mulheres grávidas ou as pessoas que viajam com bagagem.

Fonte: INR

sexta-feira, 14 de junho de 2019

“Um jovem com dislexia trabalha quatro vezes mais. A diferença é que o faz para um 10 em vez de um 18 ou 19”

Constança, 21 anos, sempre foi muito introvertida até entrar no 10.º ano. Por ser disléxica, eram raras as vezes em que falava com os colegas com medo de ser julgada e gozada. Bastava dizer uma coisa menos correta ou trocar uma palavra para ser imediatamente alvo de chacota. Tudo mudou quando, num trabalho da escola, Constança escreveu sobre um tema que lhe era próximo — a dislexia —, e no final mostrou um texto escrito por ela, pedindo aos colegas que lessem. Não conseguiram. “É assim que eu me sinto quando me metem um texto de português à frente”, recorda Mafalda Justino Alves, também disléxica e mãe de Constança.

“Foi a partir desse momento que deixou de ser vítima de bullying na escola, mas até isso acontecer diziam-lhe de tudo. Que era burra, que não percebia nada da matéria e que era por isso que precisava de ter sempre um professor a ler-lhe os textos nas aulas”, e lamenta que os professores não tenham sido capazes de explicar a situação de Constança aos colegas. “No que toca à divulgação e sensibilização da dislexia há ainda muito por fazer”, continua.

A história de Constança, que atualmente está a estudar biologia para tentar entrar no curso de veterinária na faculdade, não é rara no País. São muitos os casos de miúdos que ao longo do seu percurso escolar são consideradas menos inteligentes que os colegas por serem disléxicos. Mas esta é uma ideia que não corresponde à verdade, até porque grande parte destes jovens têm uma inteligência normal ou até mesmo acima da média. 

Segundo a Associação Internacional de Dislexia, esta é uma perturbação que afeta uma em cada dez pessoas a nível mundial, atingindo 48% dos alunos com necessidades educativas especiais.
O que é a dislexia?

“A dislexia é uma disfunção neurológica que se manifesta ao nível de aprendizagem”, diz Helena Serra, presidente da Dislex, a Associação Portuguesa da Dislexia — que estará presente na 88.ª edição da Feira do Livro em ações de sensibilização para pais, miúdos e professores, e despiste desta disfunção.

Um jovem disléxico é aquele que ao longo de todo o seu processo de aprendizagem, desde o infantário, aparenta ter o desenvolvimento cognitivo esperado para a sua idade. Mas que, ao chegar ao momento de aprendizagem de tudo o que envolva a sinalética, como as letras do alfabeto ou a numeração, em matemática, começa a demonstrar dificuldades em reter e usar corretamente esses sinais.

“Trata-se de uma criança inteligente que teria toda a capacidade para singrar na escola mas que, a certo ponto, começa a confundir conceitos geométricos, noções de espaço ou de direção, e a trocar letras. Ora porque são de sons equivalentes ou têm formas próximas”, continua Helena Serra.

“Na palavra ‘bode’ a criança pode ser ‘vode’. Da mesma maneira que pode olhar para a palavra ‘faca’ e ler ‘vaca’, quando o ‘f’ nada tem a ver com o ‘v’. Isto acontece porque não houve um processamento dessa competência fonológica e simultaneamente associativa de juntar as formas aos respetivos sons.”

Como consequência direta desta dificuldade, o aluno começa a trocar palavras e a dar erros grosseiros, originando um turbilhão de insucesso escolar que acaba por atingir a sua autoestima. Helena Serra reforça a necessidade de proteger estes miúdos que não podem ser penalizados ou castigados por uma dificuldade da qual eles não são responsáveis — precisamente porque se trata de uma falha no desenvolvimento de todas as competências que o ato de ler e escrever não prescinde.

Mais, a dislexia é, em 80% dos casos, transmitida geneticamente de pais para filhos. “Com base nos vários estudos científicos que têm sido realizados acerca do tema, só em 20% dos casos estudados é que se verificou uma dislexia adquirida.” Isto significa que qualquer pessoa se pode tornar num indivíduo disléxico através de um acidente que afete a capacidade do cérebro em processar a componente auditiva, visual e espacial, esclarece a diretora da associação.

Como é viver com dislexia?

Mafalda Justino Alves, 50 anos, é licenciada em Antropologia e descobriu que era disléxica aos 40. “Sempre dei imensos erros gramaticais ao longo de todo o meu percurso escolar, mas no meu tempo não se falava sobre dislexia e ninguém sabia o que isso era.” Além dos erros, Mafalda sempre teve dificuldades em distinguir a esquerda da direita e ainda hoje apresenta algumas dificuldades ao nível cognitivo, como a falta de noção de espaço — em que, por vezes, em vez de pousar um objeto na mesa, o pousa no chão.

“Só o facto de estarmos aqui a fazer esta entrevista na Feira do Livro, onde há tanto barulho, dificulta e muito aquilo que lhe quero dizer já que não me consigo concentrar a 100%”, revela.

Mafalda é mãe de Constança e ambas foram diagnosticadas com dislexia depois de Mafalda se aperceber que algo de errado se passava com a filha. Além dos erros gramaticais e de uma discalculia severa (a incapacidade de reter e aplicar conceitos aritméticos e matemáticos), Constança tinha ainda uma total falta de memória recente o que fazia com que se lembrasse de tudo o que tinha acontecido há cinco dias, mas fosse incapaz de recordar momentos muito recentes.

A Constança chegou a casa com a avaliação do teste de História, uma das disciplinas mais difíceis, e disse-me qualquer coisa como ‘o primeiro estalo está dado, venham os próximos’.

“Depois do diagnóstico eu tirei várias formações para trabalhar com ela em casa. Além de ser acompanhada por uma terapeuta, durante três horas semanais, tinha aulas extras de apoio na escola e depois disso ainda tinha uma hora de estudo comigo. A carga horária era brutal e foi um trabalho muito violento para nós”, continua.

Mafalda ficou conhecida quando, em 2012, interpôs um processo ao Ministério da Educação quando foi negada a leitura acompanhada a todas as crianças disléxicas nos exames do 9.º ano, e diz que recorreu da decisão por achar uma medida anticonstitucional que fora decidida um mês antes dos exames e, mais grave ainda, sem aviso prévio.

“Fiz aquilo para defender a minha filha em quem nunca ninguém acreditou e marcou-me muito quando, dois anos depois, a Constança chegou a casa com a avaliação do teste de História, uma das disciplinas mais difíceis e me disse qualquer coisa como ‘o primeiro estalo está dado, venham os próximos’. Tinha tido 86% [numa escala de 0 a 100%] e eu fiquei maravilhada como era fantástico uma miúda de 11 anos ter a perceção da luta que teve de ter para superar as suas dificuldades e conseguir estar em pé de igualdade com os restantes colegas.”

Constança diz que, atualmente, todas as ações de sensibilização ainda são poucas e recorda as alturas em que, na escola, era muitas vezes menosprezada pelos colegas que, por não perceberem que o se passava com ela, lhe faziam imensas perguntas — algumas até incomodativas.

“Todas as dificuldades que tive fizeram com que perdesse o gosto pela escola e a certa altura eu só gostava de ir por educação física ou pelas disciplinas de artes.”

Atualmente, Constança já terminou o 12.º ano num curso intensivo de Moda, e admite que escolheu a área de artes porque sempre se convenceu que o facto de ser disléxica impedia que pudesse vir a ser boa numa outra área diferente. “Aprender a viver sendo disléxica é diferente, e pode ser difícil quando não há apoios suficientes”, diz, referindo-se aos professores que deveriam ter uma formação específica para saber lidar com a disfunção e apoiar jovens que sofram de dislexia.

“Para nós, só o facto de termos apoio e sermos diferente dos nossos colegas é motivo suficiente para nos sentirmos pouco confortáveis”, confessa, lamentando que os métodos de ensino atuais não estejam preparados para lidar com estas dificuldades, o que torna todo o processo mais complicado.

Foi horrível e a professora chegava mesmo a comparar-me com outras pessoas que pudessem ter mais problemas do que eu, como se isso invalidasse as dificuldades por que estava a passar.”

Rita Pereira, 21 anos, que descobriu que era disléxica no 5.º ano de escolaridade, é da mesma opinião e chegou mesmo a ser vítima da falta de capacidade de alguns dos professores em saber lidar com as dificuldades pelas quais estava a passar. “Foi no 12.º ano que a minha diretora de turma não compreendia, nem quis compreender, o que era a dislexia”, revela, e diz que diariamente acordava cedo para ir às aulas de apoio da professora que, mais tarde, viria a dizer que a Rita nunca tinha frequentado.

No final do ano, terá perguntado à aluna qual a avaliação que ela achava merecer a Português e Rita respondeu que merecia apenas um três — numa escala de 0 a 20. “As minhas avaliações eram sempre muito baixas e andavam entre o 2 e o 4. A professora disse-me para não me preocupar que iria ponderar no assunto e eu pensei que, ao menos, me iria dar um 9,5 de avaliação para impedir que me candidatasse ao exame nacional como aluna externa.”

A verdade é que a professora não só não aumentou a avaliação de Rita como ainda se mostrou a favor da reprovação da aluna. “Foi horrível e a professora chegava mesmo a comparar-me com outras pessoas que pudessem ter mais problemas do que eu, como se isso invalidasse as dificuldades por que eu estava a passar.”

Tentei puxar por aí e descansá-la: se as mentes mais brilhantes do universo eram disléxicos e tinham conseguido deixar a sua marca no mundo, a Rita não seria diferente.”

Ainda assim, esse foi talvez o único caso em que Rita alguma vez se sentiu ostracizada. Além do apoio familiar que recebia, tinha um núcleo de amigos muito forte que a protegiam nos momentos mais duros e hoje não tem dúvidas que sem eles tudo seria muito mais difícil.

“Mesmo a nível de professores não me posso queixar porque, apesar da má experiência com a minha diretora de turma, tive muitos outros que se esforçavam realmente para me entender e ajudar”, e dá especial destaque à professora de Inglês que, nas avaliações da disciplina, dava a Rita os mesmos testes que fazia nas sessões de apoio.

“Confesso que não dava pelo facto de os testes serem iguais, mas como eram adaptados a mim e à minha dificuldade, eu conseguia ter notas positivas o suficiente para não chumbar.”

Carlos Pereira, 54 anos, é pai de Rita e trabalha na Câmara Municipal de Almada. À MAGG diz que um jovem com dislexia trabalha quatro vezes mais. A diferença é que o faz para um 10 em vez de um 18 ou 19.

“A vida da Rita tem sido muito isto. A minha filha está agora no 2.º ano da faculdade e há um mês que não sai do quarto. Tem uma força de vontade e uma capacidade de trabalho impressionante e, mesmo no secundário, quando os colegas saíam das aulas depois do almoço, a Rita ficava até às 17h na escola a ter aulas de apoio. Depois disso ainda tinha explicações e quando chegava a casa estudava até às 22h.”

Apesar de Rita estar agora a estudar Psicologia no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, admite que não foi fácil quando descobriu que era disléxica e achou que seria muito difícil dar um rumo à vida. “Foi um choque tremendo tanto para nós como para ela”, revela Carlos, que perante a reação da filha teve de encarar a situação de frente e arranjar a melhor forma de lidar com a situação.

Foi assim que, depois de chegarem do médico, Carlos (que se vê como um treinador ou “um Mourinho”) sentou-se ao computador e pesquisou o máximo que conseguiu sobre tudo o que havia a saber acerca da dislexia. Foi nesse momento que terá reparado que grandes mentes como Thomas Edison, Albert Einstein e Leonardo da Vinci também tinham sofrido de dislexia.

“Tentei puxar por aí e descansá-la: se as mentes mais brilhantes do universo eram disléxicos e tinham conseguido deixar a sua marca no mundo, a Rita não seria diferente e também ia conseguir superar as dificuldades que se pusessem no seu caminho”, e não esconde o orgulho na filha que hoje, apesar das dificuldades que sente —maioritariamente ao nível da escrita — está finalmente a seguir o seu percurso com sucesso.

Fonte: MAGG

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Qual a diferença entre lançar ou atirar a bola? Para o João, toda

João tem 12 anos e é autista. E para ele uma palavra faz toda a diferença.

Manda a bola, João.

E João não fazia nada.

Lança a bola, João.

E João continuava sem fazer nada.

João, 12 anos, pouco ou nada participava nas aulas de Educação Física. Não mandava ou lançava a bola por mais vezes que lhe pedissem. Um dia, a mãe de João, Helena Sabino, foi alertada pela professora de ensino especial para as dificuldades do filho. Helena conseguiu falar com a professora de Educação Física e rapidamente percebeu o problema: a linguagem. “Ele não sabe o que significa ‘mandar’ ou ’lançar’ mas sabe o que é ‘atirar’. Nesta dinâmica de jogar com a bola, aprendeu sempre a atirar a bola e bastava uma palavra para afetar o circuito de comunicação.”

Atira a bola, João.

E João atirou a bola. Desde então, não houve mais problemas nas aulas Educação Física. João está no 6.º ano e tem autismo.

“Isto é um exemplo concreto de que a participação estreita entre escola e família é fundamental para adequar o currículo às competências e dificuldades das crianças. Passar a informação permitiu ao professor moldar a forma como dava a aula ao João e melhorar a participação dele”, conta a mãe.

João não fala. Também não lê nem escreve. Não está totalmente integrado numa turma, vai apenas às aulas de educação física, às de música e às de educação visual e tecnológica. As restantes disciplinas e competências são desenvolvidas no centro de apoio à aprendizagem, acompanhado da professora de ensino especial e das terapeutas.

A intervenção dos pais na educação dos filhos com deficiência já estava prevista no decreto-lei 54/2018, que “estabelece os princípios e as normas que garantem a inclusão” de todos e de cada um dos alunos. Um ano após a sua entrada em vigor, o texto foi revisto e, entre outras alterações, o papel dos pais foi reforçado. “Acrescenta direitos como participar na elaboração do relatório pedagógico, participar nas equipas multidisciplinares, solicitar a revisão do apoio pedagógico”, sublinha Júlia Serpa Pimentel, presidente da Pais em Rede, associação de pais de filhos com deficiência, e professora do ISPA - Instituto Universitário. E isso é positivo, garante.

Até conversar com Helena Sabino, a professora de Educação Física não deixava João saltar no trampolim. Tinha medo que ele se magoasse. Mas João mexe-se bem, tem equilíbrio e adora saltar no trampolim e esticar-se no espaldar. Agora, João já faz isso tudo nas aulas.

“Isto da educação inclusiva é um grande desafio e exige uma construção conjunta entre a escola, a família e a comunidade”, diz Helena. E isto da educação inclusiva foi um conceito que só há cerca de um ano apareceu na legislação. “A antiga lei já tinha cristalizado, estava um pouco obsoleta para os miúdos que temos hoje. A escola inclusiva não são apenas crianças com deficiências, são uma série de coisas que necessitam de um olhar diferente (crianças com diabetes ou hiperatividade, por exemplo). A inclusão é a todos os níveis: multicultural, saúde…”

CAMINHO CERTO MAS SEM “AS MULETAS NECESSÁRIAS”

João é um das centenas de alunos que estavam integrados no ensino especial e que reaprenderam a viver a escola: neste último ano letivo, o sistema de ensino passou a considerar-se uma forma de educação inclusiva, em que as medidas de apoio são universais e podem ser introduzidas no vida escolar de qualquer menino ou menina. O critério deixa de ser simplesmente médico, há muito mais a ser considerado (dificuldades económicas ou até o historial familiar). Conceitos como educação especial ou necessidades educativas especiais desapareceram.

“Ao fim de um ano, ainda há muito caminho a fazer para que a escola seja inclusiva.” Júlia Serpa Pimentel, presidente da Pais em Rede e professora do ISPA - Instituto Universitário, acredita que “mudou o papel e mudou a legislação mas a cabeça das escolas não mudou”. “O problema está na aplicação da lei, nas condições reais das escolas para aplicarem a lei, na habilitação dos professores do ensino regular para perceberem que aquela lei também lhes diz respeito.”

O caso de João é um dos que “não sendo tudo perfeito, vai correndo bem”, assim diz a mãe. Mas nem todos são como o dele. A Pais em Rede assegura que desde o arranque das aulas recebeu entre dez a 15 queixas de pais. “Dizem-nos sobretudo que não têm apoio, não têm auxiliares, que a escola não quer a criança e que estão a fazer tudo para o tirarem de lá”, aponta Júlia Serpa Pimentel.

Até outubro chegaram nove queixas à Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE) - tal como o Expresso noticiou. Sem adiantar se foram apresentadas mais reclamações, o Ministério da Educação diz que todas queixas recebidas foram resolvidas e que entretanto chegaram “comunicações não relacionadas com a nova legislação mas, na sua maioria, com a necessidade de reforço de pessoal não docente que estava de baixa.”

Para a Pais em Rede, o Ministério tem “feito o que lhe competia”. No entanto, a mentalidade de mais de dez anos de uma legislação segregatória não muda em poucos meses, sobretudo quando a comunidade de professores está envelhecida. “A maior parte destas pessoas foi formada num tempo em que estes meninos nem iam à escola. Portanto, é muito difícil dizerem que têm de estar, a cabeça dos professores não muda pelo decreto. Todos apontam sempre a falta de recursos, diria antes que falta formação para responder adequadamente a esta lei”, considera Júlia Serpa Pimentel. “O caminho é certo mas ainda não há as muletas necessárias.”

ALUNOS COM NECESSIDADES ESPECIAIS NÃO DESAPARECERAM

À Pais em Rede chegaram relatos de professores que “ignoram por completo” nova legislação, casos de alunos que nunca haviam estado numa turma e que, devido ao desaparecimento das unidades de ensino estruturado e as unidades de apoio à multideficiência, foram incluídos nos grupos de alunos.

“Obviamente, as crianças que frequentavam essas unidades não desapareceram”, diz Júlia Serpa Pimentel, que felicita a iniciativa de acabar com a separação - o problema está na falta de uma resposta alternativa. “De repende, estes alunos estão numa turma. Como não havia resposta foram para as salas de aula, sem apoio, sem pessoal, sem professor de educação especial.”

O Ministério tutelado por Tiago Brandão Rodrigues destaca o “o envolvimento das escolas e professores num movimento de inclusão dos alunos”, embora admite em alguns casos a implementação da lei “necessitou de mais tempo”. “Portugal é um exemplo na integração de crianças e jovens com deficiência, mas tem ainda caminho a percorrer para que fatores como a pobreza deixem de ser um preditor de exclusão em contexto escolar.”

O próximo ano vai ser de “continuidade do trabalho iniciado”, sendo que os processos vão ser alvo de avaliação externa internacional.

Marta Gonçalves

Fonte: Expresso por indicação de Livresco

quarta-feira, 12 de junho de 2019

CRIADA ASSOCIAÇÃO PARA APOIAR PAIS DE PESSOAS COM HIPERATIVIDADE E DÉFICE DE ATENÇÃO

Os casos de perturbação, hiperatividade e défice de atenção têm vindo a aumentar nas crianças e jovens, em tempo de aulas. Para apoiar pais, professores e auxiliares, surgiu em Viseu, no passado mês de maio, a Associação Clube PHDA.

Em declarações (...), Rita Antunes, uma das mentoras da nova instituição, falou da problemática, que “atinge cinco a oito por cento de crianças e jovens em idade escolar”.

“Estima-se que cerca de 30 por cento desta mesma sintomatologia persista para a idade adulta. Não é algo que fique apenas e só na infância, mas que pode acompanhar ao longo da vida”, explicou acrescentando que a Associação Clube PHDA foca-se essencialmente nas questões em função da infância e da adolescência.

Rita Antunes apontou a falta de tempo das crianças como justificação para alguns comportamentos menos positivos.

“No nosso dia a dia, cada vez mais agitado, com horários cada vez mais apertados e com objetivos familiares e escolares cada vez mais exigentes, tem-se sobrado muito menos espaço e tempo para estas questões e esta pode ser um dos grandes motivos para esta maior preocupação e para mais queixas que têm vindo a surgir em torno do desafio das regras e do não cumprimento”, explicou.

“Realmente ao longo do dia a dia, a criança desde que se levanta até que se deita cumpre um horário muito rigoroso em função dos adultos que a acompanham, cujas exigências são também muito elevadas com eles mesmos e acaba por ser um conjunto de influências que vão ter um maior impacto negativo em termos de comportamento”, acrescentou.

Fonte: Jornal do Centro por indicação de Livresco

terça-feira, 11 de junho de 2019

Projeto Live_InclUA: Inclusão de Jovens com Dificuldades Intelectuais e de Desenvolvimento no Ensino Superior

Encontra-se a decorrer o desenvolvimento de uma iniciativa curricular inovadora na Universidade de Aveiro (UA) - Projeto Live_InclUA -, visando gerar indicadores relevantes para a conceção e implementação de um programa de educação e formação para o Ensino Superior, inovador, inclusivo e inspirador, interrelacionando as áreas dos vários departamentos da UA, para oferecer a jovens com Dificuldades Intelectuais e de Desenvolvimento (DID), oportunidades de desenvolver competências relevantes para uma vida independente e para a sua empregabilidade.

O projeto Live_InclUA envolve seis jovens com DID, nove docentes da UA e, ainda, uma tutora (investigadora doutoranda).
Com base no Planeamento Centrado na Pessoa, o projeto Live_InclUA enfoca dois modelos de inclusão de Jovens com Dificuldades Intelectuais e de Desenvolvimento no (DID) no Ensino Superior (ES), isto é, (i) o modelo completo de inclusão e (ii) o modelo de enriquecimento adaptado. 
Assim, no âmbito deste projeto encontram-se a decorrer dois tipos de participação programadas para o segundo semestre do ano letivo 2018/2019:
(i) participação integral em Unidades Curriculares (UC) da oferta educativa regular da Universidade de Aveiro (UA) de cursos de licenciatura; 
(ii) participação em UC projetadas especificamente para os jovens (ex. Estilos de Vida Saudáveis divulgada no link).
A investigação insere-se num estudo de doutoramento em curso, enquadrado no Programa Doutoral em Educação da UA, ramo Diversidade e Educação Especial, da doutoranda Marisa Maia Machado, sob orientação científica das Professoras Doutoras Paula Santos e Marilyn Espe-Sherwindt.

Para mais informações, consultar em 

Nota: Informação recebida da UA

segunda-feira, 10 de junho de 2019

A aferição inútil

Quando no Parlamento, logo no início do mandato do actual Governo, no que agora alguns considerariam uma inconstitucional ingerência nas competências do poder executivo, se legislou o fim das provas finais do Ensino Básico para os 4.º e 6.º anos, mesmo discordando claramente da medida e em especial da demagogia ligada à retórica do “fim do exame da 4.ª classe”, fiquei na expectativa do que poderia vir a seguir. E mantive essa expectativa quando foi anunciado que seria criado um sistema de provas de aferição para os três ciclos do Ensino Básico, com rotação das áreas disciplinares a aferir.

Quando surgiu a proposta de implementação, começaram as reservas: então era pedagogicamente desadequado fazer provas no 4.º ano com um peso de 30% na classificação final, mas já era apropriado submeter alunos do 2.º ano a uma bateria de provas em pleno decurso do ano lectivo? E a aplicação das provas agravou essas reservas. Desde 2017 que os alunos do 2.º ano são submetidos a provas de Português/Estudo do Meio, Matemática/Estudo do Meio, Expressões Artísticas e Expressões Físico-Motoras. Sim, o 3.º período transformou-se no período da aferição para os petizes do 2.º ano, provocando natural disrupção em todo o funcionamento das escolas do 1.º ciclo, devido à insistência em não estabelecer um período específico para todas estas provas, de modo a não mobilizar espaços, tempo e pessoal docente e não docente durante quase todo um período lectivo.

Mas também cedo se percebeu que, no caso do 2.º ano, o que estava mesmo em causa era demonstrar uma tese sobre o ensino praticado e as suas alegadas lacunas, muito sensíveis para um grupo específico de pressão com poder crescente no Ministério da Educação. E o que veio a seguir só reforçou essa percepção.

Porque ao longo do mandato que está a findar, após quatro anos de provas de aferição, com a sua aplicação aos 5.º e 8.º anos em sistema de rotação de disciplinas, se foi percebendo que uma das principais vantagens de um sistema deste tipo – a aferição ao longo dos ciclos do desempenho de coortes de alunos em determinadas áreas, por forma a detectar as que necessitam de maior intervenção e assim contribuir para uma melhoria das aprendizagens – não suscita qualquer preocupação em quem determina o calendário das provas e a sua distribuição ao longo dos anos.

Esqueçamos por agora o 2.º ano e concentremo-nos nas provas de 5.º e 8.º ano. Um sistema lógico seria o que examinasse o mesmo grupo de alunos nas mesmas áreas nesses anos, ou seja, as provas feitas em 2015/16 no 5.º ano (por manifesta comodidade foram as tradicionais de Português e Matemática) deveriam ser “repetidas” em 2018/19 no 8.º ano (acontece isso apenas em Português), se possível com uma estrutura de prova que permitisse a verificação dos progressos verificados ou não, em especial nas áreas verificadas como mais fracas. E assim sucessivamente. As áreas submetidas a provas de 5.º ano feitas em 2016/17 (História e Geografia de Portugal e Matemática/Ciências) devê-lo-iam ser de novo em 2019/20.

Mas não é nada disso que está a acontecer. Já em 2018/19, no 8.º ano existe uma prova de História/Geografia que não irá aferir qualquer coisa com continuidade, pois nem os alunos foram aferidos nestas áreas no 5.º ano (foram em Matemática, que este ano não tem prova), nem existirá qualquer outra aferição até finalizarem no 9.º ano o Ensino Básico. É uma prova perdida no tempo, no trajecto dos alunos, sem qualquer relevância em termos de aproveitamento da informação eventualmente colhida. Sendo que parte dos conteúdos dos 7.º e 8.º anos são coincidentes (pelo menos no caso da História, mas também em alguns da Geografia) com os do 5.º ano, aconselharia qualquer abordagem minimamente séria disto tudo que existisse uma coordenação na aplicação destas provas. E que o mesmo grupo de alunos aferidos no 5.º ano o voltasse a ser no 8º e assim sucessivamente nas diferentes áreas/disciplinas.

No 5.º ano, no presente ano lectivo voltam a ser feitas provas em áreas que já foram aferidas há dois anos mas, em contrapartida, continua, ao fim de quatro anos, a não ser feita qualquer aferição na disciplina de Inglês; e no 8.º ano, ao fim dos mesmos quatro anos não foi feita qualquer aferição nas Línguas Estrangeiras.

Desta forma, a aferição é algo desconexo, descontínuo, sem sequência e sem a possibilidade de gerar informação verdadeiramente relevante sobre a evolução das aprendizagens dos alunos, pois os relatórios que chegam às escolas de pouco ou nada servem, uma vez que, em regra, não é expectável que os alunos envolvidos voltem a ser aferidos. O que torna todo este aparato perfeitamente inútil, com um consumo de tempo e recursos sem qualquer verdadeira vantagem em termos de retorno para os alunos.

Paulo Guonote

Nota: O autor do texto escreve sem adesão ao acordo ortográfico.

Fonte: Público

sábado, 8 de junho de 2019

Viver com dislexia: o relato de uma jornalista da CNN

Robyn Curnow, recentemente diagnosticada com dislexia, que descreve como "uma forma alternativa de pensar", partilhou a sua experiência enquanto profissional

"Como duas faces de uma moeda, a dislexia é um dom e uma luta. Eu sei disso porque sou disléxica, tal como a minha filha mais nova também o é. É genético e extremamente comum. Estima-se que uma em cada cinco pessoas tem dislexia”, começa por explicar a jornalista e pivô.

"A dislexia é, simplificando, um modo de funcionamento diferente do cérebro. Não indica o nível de inteligência. Os cérebros disléxicos têm dificuldade em reconhecer como é que os sons, as palavras e as letras combinam foneticamente. É uma forma alternativa de pensar", acrescenta.

Enquanto aluna, não foi fácil adaptar-se a um sistema de ensino que não estava preparado para alunos com necessidades especiais. A jornalista conta como os testes de ortografia, técnicas de memorização baseadas na repetição, a leitura em voz alta na sala de aula e os testes de avaliação tradicionais, funcionam, como já sabemos, contra os disléxicos no contexto académico. No entanto, fora da sala de aula tradicional, muitos disléxicos prosperam. "Embora as mentes disléxicas processem a informação de forma diferente, isso também significa que estamos a cantar uma melodia diferente quando se trata de literacia, memória e concentração", diz.

Os seus primeiros anos na escola foram “uma luta”, como para qualquer disléxico, resume Robyn Curnow. Os pais e professores não estavam sensibilizados para este tipo de casos ou suficientemente informados para compreender que era um distúrbio comum. "Eles pensaram apenas que eu não era muito inteligente", explica.

“Eu era tão má a escrever que no segundo ano a minha professora criou um nível extra de fracasso num boletim de avaliação em particular. Ela achou que 'insuficiente' não captava bem o meu nível de capacidade. Então, criou uma categoria adicional, 'extremamente insuficiente', só para mim. Essa mesma professora ficou tão frustrada com a minha ausência de progresso nos problemas de matemática que me atirou com o livro a meio da aula”, recorda.

“A culpa das minhas dificuldades também foi atribuída a ser 'demasiado nova' para a minha turma, então repeti o segundo ano. Quando cheguei aos 10 anos de idade já tinha andado em 4 escolas diferentes porque os meus pais tentaram encontrar um ambiente de aprendizagem no qual eu encaixasse. Tu nunca esqueces aquela humilhação tão precoce de ser o último a acabar na sala de aula ou de ter um professor a atirar-te com um livro”.

Apesar de muitas crianças disléxicas ainda terem histórias semelhantes para contar, houve uma enorme evolução, entretanto. Só agora, já adulta, e depois de a sua filha mais nova ser diagnosticada, na sequência de um alerta de uma professora atenta, é que Robyn foi também diagnosticada com dislexia e percebeu a injustiça a que esteve sujeita durante todos estes anos.

No estado americano da Georgia, onde vive a jornalista, uma nova lei tornou obrigatório realizar o teste da dislexia a todas as crianças. Cada vez mais, os alunos recebem ajuda especializada na sala de aula desde cedo - enquanto as crianças ainda estão a aprender a ler, e não a ler para aprender.

No que toca ao sucesso profissional, como cada um pode escolher rumos diferentes para a sua carreira, é mais fácil para os disléxicos serem bem sucedidos, e o que não faltam são bons exemplos disso. A par disso, o conhecimento em relação a este distúrbio contribuiu para que se compreendessem as vantagens de pensar de forma diferente. Os disléxicos pensam frequentemente com base em imagens, razão pela qual são geralmente excelentes arquitetos, jardineiros, cozinheiros ou astrónomos. Paradoxalmente, os disléxicos lutam para escrever corretamente, mas são frequentemente excelentes autores, como é o caso de Roald Dahl e Agatha Christie. Têm uma imaginação fértil, são altamente criativos, ótimos a resolver problemas e possuem uma aptidão natural para comunicar, tudo isso qualidades importantes para os empregadores das mais diversas áreas.

"Felizmente, caí numa carreira que, penso eu, é um emprego de sonho disléxico. Nos noticiários televisivos, o nosso trabalho é pensar em imagens, porque a televisão é um meio visual. E como repórter de televisão, escreves guiões breves e curtos para as imagens. O público só ouve e vê a reportagem, por isso a ortografia e a gramática não são tão importantes como são para, por exemplo, um artigo de jornal", conta Robyn Curnow sobre o seu trabalho na CNN.

A jornalista deixa ainda um conselho para os outros pais: “Se o seu filho está constantemente a ser aconselhado a esforçar-se mais, a escrever melhor ou a deixar de ser preguiçoso, então talvez seja necessário levá-lo a fazer os teste para o distúrbio de aprendizagem mais comum do mundo.”

Fonte: Visão

Indisciplina nas aulas vende mais explicações

A indisciplina nas salas de aulas está a prejudicar o ensino e é um dos motivos pelos quais cada vez mais pais procuram explicadores para os filhos mais cedo, logo no 1.º Ciclo. A ansiedade e a pressão pelas boas notas justificam que já não se vendam apenas aulas particulares de Matemática, mas também para as línguas, as Ciências e, até, o Português.

É em plataformas online como o OLX que mais se anunciam e procuram explicadores. Com perto de dois mil anúncios na categoria "explicações e aulas particulares", no OLX os termos mais pesquisados nos últimos dois meses são "1.º Ciclo" e "preparação exame". Quanto a disciplinas, a Estatística vem antes da Contabilidade e só depois surgem Físico-Química, Francês, Biologia, Inglês e Português.

"A indisciplina leva os professores a perderem grande parte das aulas a falar de regras e não a dar matéria. As turmas com quase 30 alunos também não ajudam. O resultado é que, quem quiser que os filhos estejam preparados tem de procurar ajuda fora", analisa João Carlos Pereira, um dos líderes do Movimento Professores Precários. Para os profissionais deslocados de casa e com horários incompletos, explica, o rendimento das explicações acaba por ser "uma questão de sobrevivência" para muitos. E trabalho não tem faltado porque "os pais começam a procurar explicadores para os filhos mais cedo, ainda no Ensino Básico".

EXCESSO DE PRESSÃO

Rui Martins, presidente da Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação, acredita que aumentou "a pressão dos pais para os filhos terem boas notas" e Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, responsabiliza o sistema de ensino de estar "demasiado orientado para resultados quantitativos". Jorge Ascenção rejeita responsabilidade das famílias na "indisciplina, que sempre existiu" e prefere falar de "irreverência", com a qual "os professores não sabem lidar" numa altura em que "a escola mudou, tem de acomodar todos, os que querem lá estar e os que não querem".

ESCOLA-CASTIGO

A escolaridade obrigatória pode ser como uma pena para "os alunos desmotivados, que se transformam em indisciplinados", e um castigo para os colegas pressionados pelos pais para terem boas notas, admite Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas. Ainda assim, não será por falta de preparação dos professores que os alunos precisam de explicações. "Também há pais que querem ajudar os filhos mas não conseguem explicar a matéria da forma como hoje é lecionada", diz.

Para os professores que acompanham a matéria, refere João Carlos Pereira, as explicações são uma "oportunidade de conseguir suportar as despesas de deslocação, visto que, muitas vezes, com horários incompletos, mal conseguem pagar o alojamento e alimentação". Apesar do aumento da procura pelas famílias, também há mais oferta e os preços têm-se mantido estáveis.

LIGADOS À TECNOLOGIA

Os jovens licenciados também encontram oportunidades no setor. Pedro Melo e Inês Vilas-Boas, 29 e 26 anos, licenciados em Engenharia do Ambiente e em Engenharia Zootécnica, respetivamente, dão explicações online e não têm mãos a medir. "Começámos pelas explicações presenciais, mas como nos mudámos para o Porto, passámos a 100% online. Descobrimos que muitos dos nossos alunos estão mais atentos ao computador do que estavam connosco e alguns até melhoraram as notas", relata Pedro. De início, o projeto ExplicaMais só oferecia explicações de Matemática, hoje abrange todas as disciplinas do Ensino Básico (exceto Francês e Espanhol) e juntou Físico-Química às do Secundário. "Trabalhamos de segunda a sábado de manhã e, por vezes, aos domingos. A vantagem é que podemos fazer isto em qualquer parte do Mundo", resume Inês.

EXAMES

Maioria dos alunos quer prosseguir estudos superiores

Pouco mais de metade dos inscritos nos exames nacionais pretendem seguir estudos superiores (55% em 2018). Este ano, o total de inscritos deverá variar pouco em relação ao ano passado (cerca de 160 mil alunos), pelo que se mantém também a estrutura dos cursos de origem (a maioria provém de Ciências e Tecnologias) e dos exames a realizar. Português é a prova com mais inscritos (perto de 80 mil), seguindo-se Biologia e Geologia (48 mil) e Matemática A (48 mil). Filosofia será o primeiro exame da primeira fase, a 17 de junho.


22 euros: Aulas de música ainda são mais caras

No OLX, música, guitarra e piano são as disciplinas mais caras, seguidas de Direito (19€) e Contabilidade (16€). No ExplicaMais, os valores rondam 12€/hora (Ensino Básico) a 14€/hora (Ensino Secundário).

12 euros: Preço médio estável há vários anos

Quem está no setor garante que o preço não tem subido porque há cada vez mais explicadores: a partir de 5€/hora para o 1.º Ciclo e podendo passar dos 20€ por hora no Secundário.

Fonte: JN por indicação de Livresco