terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Catherine L’Ecuyer: “A melhor preparação para o mundo digital é o mundo real"

Afinal, estamos a matar a infância?
Não estamos a matá-la, mas estamos a queimar ou adiantar etapas imprescindíveis. Queremos que as crianças aprendam muitas coisas antes de tempo, quando não poderiam aprendê-las. Quando transformamos a brincadeira numa etapa de educação formal, estamos a matar a capacidade que a criança tem de descobrir o mundo.

Porque é que a curiosidade é tão importante?
As crianças nascem com o desejo de conhecer, e isso é que é o motor de toda a aprendizagem. O que acontece é que a curiosidade nasce espontaneamente. Se forçamos a aprendizagem, se levamos a criança pela mão, essa curiosidade deixa de vir de dentro e desaparece e a criança não aprende, porque o desejo de aprender não nasceu dela, foi-lhe imposto.

Destruir a curiosidade é fatal para a aprendizagem?
Sim, mas não o fazemos por mal, porque os pais querem o melhor para os filhos. O que acontece é que temos muitos ‘neuro-mitos’, ou seja, pensamos que quanto mais estímulos, mais esperta vai ser a criança, e não é assim. Em vez de encher a criança de ipads e e brinquedos educativos, os pais têm de escolher brinquedos que precisem de ‘ser brincados’, não que puxem pela criança. A criança é que tem de brincar com eles. Então, quanto menos botões e pilhas, melhor. E há mil exemplos de brinquedos destes, como Legos ou bicicletas.

Se damos tudo às crianças, não nos arriscamos a criar filhos ‘aborrecidos’, que já não ‘vibram’ com nada?
Totalmente. Esse aborrecimento é a consequência da sobre-estimulação. Quando estão sobre-estimuladas, as crianças perdem o interesse em aprender, porque passam a depender dos estímulos. Quando estão sobre estimulados e regressam ao mundo real - a casa, a escola, o parque – tudo aí lhes parece lento e monótono. Portanto, o importante é voltar a ligá-los à realidade. Em vez da palavra ‘estimular’, prefiro a expressão ‘criar um ambiente’ em redor da criança, onde ela é que descobre a realidade. Quer dizer, pode haver um ‘maestro’ que esteja presente, que planeie esse ambiente, que brinque com a criança, mas não são precisas luzes nem programas nem filmes nem ipads.

Queremos que as crianças tenham todas essas coisas, mas a verdade é que não podemos prever o futuro…
Claro que não. Por exemplo, estamos a educar as crianças com tablets, mas o mais provável é que quando sejam adultos, os tablets já não existam. Então, estamos preocupados com equipamentos digitais que já não serão pertinentes no momento em que entrarem no mundo laborar. Além disso, não há nenhum estudo que ligue as competências tecnológicas das crianças com o seu êxito académico ou profissional.

As crianças não aprendem com dvs?
Não, porque uma criança pequena não tem pensamento abstracto. Um adulto pode aprender com um dvd. Uma criança pequena aprende com a realidade, com o toque, com o cheiro, com a voz, com a presença das pessoas. E com o silêncio, que é tão necessário à construção da sua interioridade. E um écran não lhe dá nada disto.

Então qual deve ser o papel das novas tecnologias na vida dos mais pequenos?
Educativo é que não. Se usarmos um tablet para ver um filme de vez em quando, tudo bem. Aliás, eu não sou contra o seu uso. O que quero é que se conheçam os estudos e o que dizem sobre cada idade. O que a Associação Americana de Pediatria recomenda é que as crianças até 2 anos não tenham acesso a absolutamente nenhum écran. E mais tarde, também não há nenhum estudo que relacione o seu uso com o sucesso escolar, ou outro.

Mas tentar controlar o uso de tablets e afins não é uma batalha perdida?
A expressão ‘batalha perdida’ é o princípio de todos os desastres educativos (risos). Não podemos desistir, porque somos os principais cuidadores. O que acontece é que temos de dar alternativas e não controlar. Se damos a escolher entre ir à pesca com o pai ou passar o dia inteiro sozinho agarrado a uma consola, que acha que a criança prefere?

Bem, alguns preferem de certeza ficar na consola…
Os mais crescidos, sim. Por isso é que eu digo que não devemos perder o comboio enquanto são pequeninos. Mas como o cérebro é plástico, podemos sempre fazer marcha-atrás e há sempre oportunidade para mudar.

Também há pais que vão no sentido oposto e proíbem tudo…
Acho melhor que uma criança pequena não tenha écran nenhum do que termos de transformar-nos em polícias digitais e passar o dia a dizer ‘não’. E note: não se vai passar absolutamente nada se negar um tablet ao seu filho. Não vai ficar para trás, não vai ficar traumatizado, não vai ser ostracizado, não lhe vai acontecer nada de mal. O pior que pode acontecer: uma grande birra. É uma escravatura ter tantos écrans em casa, portanto simplifiquemos a educação. Os écrans são bons: mas tudo tem o seu tempo. E a melhor preparação para o mundo digital é o mundo real. Primeiro temos de educar a criança para o mundo real: sensatez, força interior, consciência de si próprio, auto-controle, tudo isto são qualidades que a criança tem de ter antes de ter um tablet, antes de entrar no mundo digital.

Se não fiz isto e o meu filho cresceu, é possível voltar atrás?
Sempre. Mas eu não gosto de dar conselhos, e cada pai e mãe fará o que achar melhor segundo a informação que tem. O que eu ensino é o que dizem os estudos. Mas não pode ser nem a indústria nem a escola nem a criança a mandar em casa. Quem manda em casa são os pais, e a sua sensibilidade em relação ao conhecimento que têm dos seus filhos.

Se quero ter uma criança esperta, que devo fazer?
Espertas já elas nascem. Não estrague isso. Mas se quer ter uma criança amorfa, então basta entupi-la de estímulos. Achamos que é essa a chave do êxito mas é o contrário: vamos adormecê-los. Resultado: criamos adolescentes cínicos, que já não se encantam com nada, que já viram tudo, que desprezam tudo. Uma criança pequena olha para a mãe e encanta-se porque pensa: ‘Que sorte que tenho porque tu existes’. Eles vêem o mundo com encantamento. E todos nós podemos fazer isso, encantar-nos com a realidade e com os seus mistérios e a sua beleza. Porque sem encantamento não há interesse, e sem interesse não há aprendizagem. Se queremos que as crianças sejam atentas, vamos rodeá-las de coisas belas, de coisas que fazem sentido.

Tem 4 filhos. Qual foi a parte mais difícil da ‘profissão’ de mãe?
Aprender a ser mãe, mesmo. Ou seja: dar-me conta da beleza e da importância da maternidade. Há tantas tarefas esgotantes a cumprir dia após dia que às vezes nos esquecemos da grandeza que é ter tanta influência na alma de outro ser humano. Ultrapassar o óbvio foi difícil, passar do como e do quê, para o porquê e para quê. Não percam a oportunidade maravilhosa de se encantarem com as crianças.

Que nos ensinam elas?
Ensinam-nos a ver tudo como se fosse a primeira vez. E são agradecidas por tudo.

CATHERINE L'ECUYER

Canadiana mas a viver em Espanha há 13 anos, é mãe de 4 filhos, investigadora de novas formas de aprender, e colabora com o grupo de investigação Mente-Cérebro da Universidade de Navarra. O seu blog (apegoasombro) tem meio milhão de seguidores. É autora do livro ‘Educar na Curiosidade ‘ (Planeta) e dá palestras por esse mundo fora, onde defende que estamos a destruir a capacidade de aprendizagem das crianças de tanto querermos que aprendam.

Fonte: Activa por indicação de Livresco

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

“O ensino não se pode limitar à transmissão de conhecimento”

Andreas Schleicher, responsável pela maior avaliação internacional na área da Educação, veio a Portugal discutir com seis ex-ministros da Educação a melhoria dos resultados dos alunos portugueses nos testes do Programme for International Student Assessment (PISA), que avaliam a literacia matemática, científica e de leitura demonstrada aos 15 anos. O convite partiu da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Portugal é um dos países que tem melhorado no PISA, mas não é o único. Há fatores em comum que explicam a evolução de outros tão diferentes como Colômbia, Singapura ou a região de Macau?
Obviamente que não podemos fazer copy paste de um país para outro. Mas os dados do PISA indicam características comuns aos sistemas com desempenho educativo mais elevado. Todos atribuem grande importância à formação e seleção dos professores, privilegiam a qualidade do corpo docente ao tamanho das turmas, substituíram o controlo burocrático e a prestação de contas pela profissionalização da organização do trabalho. Encorajaram os professores a inovar na pedagogia, a melhorar os seus desempenhos e os dos colegas, a procurar desenvolvimento profissional. Também tentaram assegurar um alto nível de qualidade no sistema, para que todos os alunos possam beneficiar da excelência no ensino.

No caso de Portugal, o que é que salientaria?
O investimento na profissionalização dos professores, a que juntaria o progresso notável conseguido na última década em construir uma rede de escolas mais coerente e colaborativa. Isto implicou decisões difíceis, como reformular uma rede dispersa de pequenas escolas rurais. Mas, por mais difícil que tenha sido para pais e professores, parece ter trazido vantagens para o ensino dos alunos.

O facto é que os países do Sudeste Asiático têm consolidado o seu domínio nestes rankings educativos. É cultural?
É difícil dizer se a cultura é algo de herdado do passado ou criado pelo que fazemos. Seja como for, os líderes destes países convenceram os seus cidadãos a fazer escolhas que valorizam a educação. Na China, os pais investem os seus últimos recursos na educação dos filhos, para que tenham um futuro melhor. E há a convicção de que cada criança pode ser bem-sucedida, já que alcançar os objetivos resulta do trabalho e não das condições que se herdaram. Mas também tem a ver com políticas e práticas. Quando visitei Xangai, em 2013, vi que os professores estavam a usar uma plataforma digital para partilhar as aulas. E que a sua reputação aumentava quanto mais as aulas fossem ‘descarregadas’ e comentadas. No final do ano, o diretor da escola pergunta-lhes se ensinaram bem os alunos e também qual o seu contributo para melhorar o sistema. Ao estimular este crowdsourcing (recolha em massa através de ferramentas digitais) de práticas educativas, Xangai criou uma comunidade gigante de professores que permite a partilha de práticas criativas, alimentada pelo desejo das pessoas de contribuir e serem reconhecidas por isso.

Porque é que o PISA ganhou tanta projeção internacional? 
O mundo está a mudar demasiado rapidamente para que possamos aprender apenas com o passado. Olhar para os outros, tal como permitem os testes do PISA, dá-nos uma perspetiva da margem de melhoria e do que os líderes mundiais nesta área estão a conseguir fazer.

Houve professores que criticaram o PISA por estar a formatar os sistemas no mesmo sentido: mais testes, enfoque no que pode ser medido, desprezo pelas áreas morais, artísticas...
Não é verdade que os países estejam a apostar em mais testes. O objetivo é que os dados recolhidos pelo PISA sejam usados de forma construtiva e produtiva para melhorar os sistemas. Até entre os académicos encontraremos sempre alguém que criticará a faca porque nos podemos cortar com ela.

E para onde é que os sistemas devem ir?
A reprodução de conteúdos e matérias está a perder importância. Aquilo que é fácil de ensinar é também fácil de transmitir através da programação e da automação. O ensino não se pode limitar à transmissão do conhecimento académico. Tem de se focar nas competências do ser humano, que permitam à educação continuar à frente dos desenvolvimentos sociais e tecnológicos. Perseverança, resiliência, consciência, ética, coragem, liderança são características que devem ser trabalhadas na escola.

Fonte: Expresso por indicação de Livresco

Turmas com alunos de vários anos de escolaridades são uma "chaga social"

O presidente do Conselho Nacional de Educação disse hoje que as turmas mistas, com vários anos de escolaridade no 1.º ciclo do ensino básico, são atualmente um dos maiores problemas para o sucesso escolar, "uma chaga social".

Segundo David Justino, que hoje falava numa audição parlamentar sobre a redução do número de alunos por turma, existem atualmente 226 turmas mistas (com os quatro anos de escolaridade do 1.º ciclo do ensino básico na mesma sala) e ao todo 3 mil alunos a ter aulas nestas condições.

"Como é que um professor consegue gerir quatro anos de escolaridade na mesma sala? Há 50 anos até percebia", disse.

David Justino alertou ainda para o facto de existirem turmas mistas com anos não consecutivos ou seja onde a aprendizagem é feita com alunos do 1.º e do 3.º ano ou com alunos do 2.º e do 4.º ano, uma realidade que abrange 23 mil alunos.

"Aceito que possa haver situações excecionais de turmas com dois anos de escolaridade desde que sejam consecutivos", frisou adiantando que "nestas condições os efeitos deste tipo de organização vai repercutir-se em elevadas taxas de retenção".

Este é, para o presidente do Conselho Nacional de Educação, um dos maiores fatores de insucesso.

"Se por acaso os senhores deputados entenderem que há margem financeira para melhorar as condições de aprendizagem, então definam um plano que progressivamente diminua estas turmas mistas. Pode ter efeito na aprendizagem superior à simples redução do número de alunos por turma", salientou.

Fonte: Público

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Vendas de ritalina duplicaram em sete anos

As vendas do medicamento habitualmente utilizado para tratar perturbações de hiperatividade e défice de atenção (PHDA), o metilfenidato, cuja designação comercial é ritalina, duplicaram entre 2010 e 2016. Segundo o Jornal de Notícias deste domingo, em 2010 venderam-se 133 mil embalagens daquele que é conhecido como “comprimido da inteligência”, porque ajuda as crianças a concentrarem-se e a melhorarem os seus resultados escolares. Um número que mais que duplicou em 2016, quando as vendas rondaram as 270 mil embalagens.

Ainda assim, o diário, que cita dados fornecidos pela consultora QuintilesIMS e pelo Infarmed (a autoridade que regula e supervisiona o mercado dos medicamentos) nota que em 2016 houve uma descida de vendas face a 2015, quando o número de embalagens vendidas atingiu as 283 mil. No entanto, (...) também nota que surgiu no mercado uma nova molécula para tratar as mesmas perturbações, a atomoxetina, cujas vendas mais que duplicaram de quatro mil embalagens em 2015 para nove mil em 2016.

“São muitas as crianças medicadas porque foram consideradas desatentas e problemáticas. O que era exceção tornou-se habitual”, declarou o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas, Filinto Lima, considerando que se trata de “um exagero”.

“Só em casos extremos se deveria recorrer a fármacos”, disse (...) o bastonário da Ordem dos Psicológos, Francisco Miranda Rodrigues. O especialista defende que o efeito da medicação “não proporciona uma mudança de comportamento” e sustenta que a intervenção psicológica nas crianças poderia corrigir grande parte dos problemas.

O responsável pelo Programa Nacional para a Saúde Mental, Álvaro Carvalho, adiantou que o tema é motivo de preocupação e adiantou que há muitos pais que se queixam aos médicos que os filhos são hiperativos, instáveis ou irrequietos. Mas o psiquiatra frisou que “o sofrimento mental na criança é muito inespecífico” e que estas podem apresentar “os mesmos sintomas para uma grande variedade de situações”, pelo que não significa forçosamente que tenham PHDA.

O responsável pela consulta de hiperatividade no Centro de Desenvolvimento em Coimbra, José Boavida Fernandes, defende que o metilfenidato pode ser um protetor social da criança ao evitar outros comportamentos problemáticos. Se a perturbação existe e afeta a vida da criança por um longo período de tempo, o melhor é medicar, mas é preciso fazer um bom diagnóstico e evitar os “maus usos da medicação”, alerta.

O pediatra também assegura que “o metilfenidato tem um padrão de segurança e eficácia enorme” e que “não há um único estudo científico que alerte para efeitos negativos e já lá vão mais de 50 anos de uso”.

Fonte: Público

A Educação Inclusiva: Desafios


(clicar na imagem para acesso ao documento)

A Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC), com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG),  acaba de publicar o documento A Educação Inclusiva: Desafios, livro em formato digital, que divulga e partilha o conhecimento sistematizado sobre educação especial/educação inclusiva obtido a partir dos relatórios da escola resultantes da atividade inspetiva Educação Especial - Respostas Educativas e de trabalhos e investigação centrados nesta matéria e ainda na legislação publicada a nível nacional e internacional.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

O QUE É O SÍNDROME DE ASPERGER?


O psiquiatra Bernardo Barahona responde à pergunta, hoje, data em que se comemora-se o Dia Internacional do Asperger, uma perturbação muitas vezes confundida com o autismo.


A Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger (APSA) estima que, em 2016, existiam cerca de 40.000 pessoas com Síndrome de Asperger, número que pode ser maior tendo em conta os casos que ainda não foram diagnosticados. Bernardo Barahona Corrêa, 42 anos, psiquiatra, diretor científico do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil (CADin), investigador da Fundação Champalimaud e professor assistente da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa explica quais as principais manifestações deste síndrome e como é um desafio grande entrar na idade adulta.

Muita gente confunde Síndrome de Asperger e Autismo, não é?
O síndrome de Asperger é, na verdade, uma perturbação do espetro de autismo. O autismo caracteriza-se pela dificuldade na socialização, na comunicação verbal e não-verbal. Pode haver também algum atraso na linguagem e uma restrição no leque de interesses. Mas estas são as características do autismo em geral; no caso do síndrome de Asperger é diferente. Este síndrome tem algumas características particulares que passam por serem indivíduos com um bom nível intelectual – enquanto no autismo clássico existe um défice cognitivo -, muitas vezes são miúdos que desenvolvem precocemente uma linguagem quase de adultos e às vezes parecem mesmo «pequenos doutores».


O que os distingue então?
São crianças que se destacam, que sabem muito sobre determinados temas pouco comuns para a sua idade. Têm uma capacidade muito grande de memorização de temas altamente complexos. Aquilo que falha nas crianças e adultos com síndrome de Asperger é depois a parte da socialização, quer na capacidade de se relacionar e manter relações recíprocas durante um período de tempo, ou criar amizades como cada de nós cria, quer até por vezes alguma falha no desenvolvimento das competências sociais, como por exemplo, compreender os sentidos implícitos, as pequenas nuances, perceber as regras sociais que estão estabelecidas, compreender a linguagem corporal do outro. Organizam a sociedade que os rodeia de forma taxativa. Claro que isto tudo depois gera um desajeitamento social.


Em que idade começa a ser notória alguma perturbação?
Todas as perturbações relacionadas com autismo são perturbações de desenvolvimento, ou seja, estão presentes desde o nascimento. Enquanto o autismo nota-se nos primeiros meses de vida – há mães que me dizem «eu notei logo que o meu filho tinha qualquer coisa de diferente, não mamava, não se aninhava no colo» -, o síndrome de Asperger não é tão óbvio, muitas vezes só mais tarde é que se manifesta porque são crianças precoces ou brilhantes na linguagem ou começam a ter dificuldades de interação em casa ou na escola.


O Asperger pode então ser confundido com timidez?
Sim, facilmente. Às vezes, é difícil distinguir se um comportamento socialmente reservado se deve ao síndrome ou se é uma característica da personalidade da pessoa.


Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é meramente clínico, não há nenhum marcador biológico, ou seja, não há nenhum exame ou análise que se possa fazer. Faz-se uma história clínica detalhada para perceber o relacionamento do paciente com outras pessoas ou com o próprio médico. O fundamental é uma história de desenvolvimento bem feita e desde cedo. No caso deste síndrome, é típico surgir quando os miúdos vão para a escola. Ali pelos três, quatro anos quando acontecem as primeiras interações com os colegas, quando começam a ter de partilhar, é aí que se notam os primeiros problemas.


Depois do diagnóstico completo, qual é o próximo passo?
Essa é uma questão espinhosa, não há um tratamento biológico, não há remédios. É, portanto, um tratamento complexo e idealmente multidisciplinar e sempre talhado à medida das necessidades de cada caso. Há pessoas que vivem perfeitamente com o síndrome porque vivem num ambiente que os aceita bem ou tiveram uma família que lidou bem com a questão e outros que não tiveram a mesma sorte e sofreram bullying, uns dos problemas mais frequentes nas crianças com Asperger, sobretudo na adolescência.


Que acompanhamento é que deve ser feito?
No acompanhamento de Asperger, o papel do médico acaba por ser o menos importante. O médico pode ser um pediatra de desenvolvimento, um neuropediatra ou um pedopsiquiatra ou psiquiatra na idade adulta. Muito importante é o papel dos outros profissionais de saúde que fazem todo o trabalho de reabilitação e psicossocial com estas pessoas como, por exemplo, a psicoterapia virada para o controlo de ansiedade, intervenções para o treino de competências sociais, etc… Estão sempre a pensar na conquista da autonomia.


A entrada na idade adulta acaba por ser um desafio muito maior, não é?
Sem dúvida. A entrada na vida adulta é sempre difícil porque passam de ambientes protegidos como os colégios ou a família para a faculdade ou o mercado de trabalho, onde há uma necessidade de dominar as competências sociais e lidar com a imprevisibilidade. Regularmente, surgem casos que até aí não tinham sido diagnosticados.


É verdade que há uma propensão maior nos rapazes para este tipo de transtorno?
A literatura varia muito, mas sim, o síndrome de Asperger afeta entre 5 a 10 vezes mais rapazes do que raparigas. Terá naturalmente a ver com alguma questão biológica, podem ser fatores genéticos relacionados com o sexo masculino. Em geral, este género é mais frágil em termos de desenvolvimento neurológico.





II Seminário: «Educação Especial - Desafios do Século XXI» - Viseu

Vai decorrer, no Auditório Solar dos Peixotos (Assembleia Municipal), em Viseu, nos dias 11 e 18 de março de 2017, o II Seminário “Educação Especial – Desafios do Século XII”.

Tem como público-alvo docentes de todos os grupos disciplinares/ grupos de recrutamento, mas também psicólogos, terapeutas, profissionais de outras áreas, pais/encarregados de educação.

Foi solicitada pelo VisProf a acreditação deste Seminário ao CCPFC, correspondendo a 13 horas de formação.

Todos os interessados em frequentar esta formação deverão realizar a sua inscrição acedendo ao seguinte link: https://docs.google.com/forms/d/1l8Dsxqok_7X55E6rhE0DzTImjH59aYMG77MlqUsSjd4/edit?c=0&w=1

Os docentes interessados em frequentar a ação e obter acreditação deverão, ainda, entregar ou enviar a sua ficha de inscrição (do VisProf), devidamente preenchida e validada pela Direção do respetivo Agrupamento/Escola para o Agrupamento de Escolas Viseu Norte - Rua da Corga, n.o 1, Abraveses, 3519-001 Viseu, telefone 232 414 665.

Data limite de inscrição: 24 de fevereiro de 2017

Limite de inscrições: inscrições limitadas à capacidade da sala - 90 pessoas

Programa

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Matemático cria um método para que todos (mas mesmo todos) sejam bons nos números

O canadiano John Mighton é dramaturgo, autor e professor de matemática e tem lutado para que a disciplina dos números deixe de ser o bicho papão do ensino, conta a Quartz. Para tal, projetou um programa de ensino que testou alguns dos alunos com mais problemas a fazer cálculos matemáticos. Provou-se que, com este método, todas as crianças começaram a ter resultados positivos no domínio dos números e até a apreciar a matemática.

O seu projeto dá pelo nome de JUMP, (Junior Undiscovered Math Prodigies) e já está a ser utilizado por 15 mil crianças, em oito estados dos EUA, outras 150 mil no Canadá e cerca de 12 mil em Espanha. O próprio Departamento de Educação norte-americano considerou o projeto tão positivo que doou cerca de 2,75 milhões de dólares (cerca de 2,59 milhões de euros), em 2012, a dois cientistas cognitivos do Hospital ‘Sick Children’ e da Universidade de Toronto para que conduzissem um estudo de controlo em 1.100 crianças, em 40 salas de aula.

Os resultados finais destes testes irão sair ainda este ano, esperando que se confirme que os alunos que utilizaram o JUMP, em 18 salas de aulas, progrediram duas vezes mais rápido do que os alunos que receberam a educação padrão de matemática, noutras 11 salas de aula.

Como funciona o programa?

John Mighton identificou primeiro os dois grandes problemas na forma como se ensina a matemática:
  1. Sobrecarrega-se o cérebro das crianças, num movimento de alternância entre o concreto e o abstrato. Este movimento coloca demasiado stress na sua memória de trabalho;
  2. Há a tendência de se dividir as turmas consoante as suas habilidades. Isto cria hierarquias que desmotivam os alunos mais fracos e que também não beneficiam os melhores.
Segundo o professor, ao longo da última década, tanto os EUA como o Canadá adotaram uma abordagem onde os alunos têm que descobrir imensos conceitos por si próprios. Num artigo publicado na Scientific American, ele explica que na maioria das aulas expõem-se problemas matemáticos que não se baseiam numa regra geral, fórmula ou procedimento concreto (como encontrar o perímetro de um retângulo), mas sim em problemas complexos que têm como exemplos o mundo real e que, por sua vez, podem ser abordados de várias formas, tendo várias soluções (como por exemplo medir telhas de telhados).

Segundo o estudioso, este tipo de abordagem, ao qual deu o nome de ‘aprendizagem baseada em problemas’, faz como que os professores não tenham um papel de instruir diretamente os alunos, mas sim deixá-los tentar encontrar soluções, sozinhos, para problemas complexos e realistas que têm múltiplas abordagens e respostas, sendo que muitas crianças ainda não têm as ferramentas necessárias para descobrir quais as respostas. As crianças acabam, desde cedo, por ficar frustradas e acreditar que a matemática é mesmo um ‘bicho de sete cabeças’.

O principal problema neste tipo de métodos é que exigem que as crianças estejam constantemente com demasiada informação a acontecer ao mesmo tempo nos seus cérebros. Para um melhor êxito, o matemático defende que as crianças terão mais sucesso na matemática quando a mesma é dividida em vários componentes que são explicados cuidadosamente e só depois praticados, de uma forma contínua.

O matemático afirmou que alguns críticos iriam argumentar que todos os bons professores abordam os problemas matemáticos de várias formas mas, na verdade, muitos professores são também eles ansiosos quanto à matemática e acabam por passar essa ansiedade para os alunos. O mesmo acontece com os pais.

Nikki Aduba foi uma das pessoas que ajudou a implementar o método de Mighton nas escolas de um bairro Londrino, em Lambeth. Nikki afirmou que o matemático explicou todos os passos com tanta atenção e paciência que todos os alunos conseguiam acompanhar o seu raciocínio. Solomon, professora de matemática, foi a responsável por conduzir o projeto piloto JUMP. Foram os pequenos passos, diz, que tornaram a matemática acessível a todos os alunos, permitindo que todos eles tivessem sucesso, pela primeira vez, nos números, principalmente porque conseguiam entender todos os passos e, com isso, ficavam motivados. Com o passar do tempo, os alunos começaram a praticar mais e mais, sendo capazes de desenvolver habilidades que poderiam pensar que não tinham.

Para Mighton os pequenos passos é que fazem o sucesso e afirmou que não vai desistir até que todos pratiquem este método de ensino. Em analogia, o estudioso afirmou que a matemática “é como uma escada: se se perder um passo, é difícil de se continuar e há um conjunto de consequências”.

Quando se introduziu este método numa escola de Manhattan, no ano letivo de 2013/2014, nos alunos de 4º ano, verificou-se um aumento significativo nas notas dos alunos, em relação a toda a cidade de Nova Iorque. Agora, cada turma dessa escola está a utilizar este método como forma de ensino.

A principal novidade sobre o programa JUMP é que ele começa num passo pequeno e vai progredindo aos poucos, até chegar a um patamar mais sofisticado, num período de tempo relativamente curto. Assim, a confiança daquelas crianças que pensavam que ‘eu não consigo entender a matemática’, aumenta de tal forma que são capazes de ver que não só são capazes de fazer os exercícios como também de os entender.”

Fonte: Observador por indicação de Livresco

Exames podem detectar autismo em crianças antes de aparecimento de sintomas

Exames cerebrais de ressonância magnética podem detectar autismo antes que qualquer sintoma comece a surgir, afirmam pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos.

Atualmente, as crianças podem ser diagnosticadas a partir dos dois anos de idade, mas, em geral, isso costuma ocorrer mais tarde.

O estudo, publicado na revista "Nature", entretanto, mostra que as origens do autismo estão bem antes disso - no primeiro de ano de vida.

As descobertas do estudo podem levar a um diagnóstico precoce e até mesmo a terapias imediatas.

De acordo com o levantamento, uma em cada 100 pessoas tem autismo, condição que afeta o comportamento e interação social. A pesquisa analisou 148 crianças, incluindo aquelas com alto risco de autismo porque tinham irmãos mais velhos com o distúrbio. Todos foram submetidos a exames de ressonância magnética aos seis, 12 e 24 meses de vida.

O estudo revelou diferenças iniciais no córtex cerebral, a parte do cérebro responsável por funções de alto nível - como linguagem por exemplo - em crianças que depois viriam a ser diagnosticadas com autismo.

"Muito cedo, no primeiro ano de vida, vemos diferenças de área de superfície do cérebro que precedem os sintomas que as pessoas associam tradicionalmente com autismo", disse à BBC o médico Heather Hazlett, um dos pesquisadores da Universidade da Carolina Norte.

"Os exames indicam que essas diferenças do cérebro podem ocorrer em crianças com alto risco de autismo", afirma Hazlett. O estudo abre possibilidades para avanços na forma que a doença é tratado e diagnosticada.

Escaneamentos do cérebro de bebês, particularmente em famílias de alto risco, podem levar a um diagnóstico precoce. Acredita-se que, a longo prazo, possam surgir exames de DNA, aplicáveis a todas as crianças, capazes de identificar aquelas em que o risco de ter autismo é alto.

Com a doença diagnosticada cedo, é possível implantar antes terapias comportamentais - como treinar pais a interagir com o filho autista - em busca de resultados mais eficientes.

Intervenção precoce

Outro pesquisador do projeto, Joseph Piven, diz que agora pode ser possível identificar crianças propensas a ter autismo. "Isso nos permite intervir antes que apareçam os comportamentos da doença. Há amplo consenso de que há mais impacto antes que os sintomas tenham se consolidado. O resultado dessa pesquisa é muito promissor", afirmou.

Com a descoberta, os pesquisadores afirmam ser possível prever quais crianças desenvolverão autismo com 80% de precisão.

"É possível que a varredura feita através de ressonância magnética (MRI, sigla em inglês) possa ajudar as famílias que já têm uma criança autista para acessar o diagnóstico anterior de crianças subsequentes. Isso significaria que essas crianças poderiam receber o apoio certo tão cedo quanto possível", diz Carol Povey, diretora da Sociedade Nacional de Autistas da Grã-Bretanha.

A especialista afirma, no entanto, que o autismo pode se manifestar de diferentes maneiras e "nenhum teste único poderia ser capaz de identificar o potencial de autismo em todas as crianças".

Fonte: Globo por indicação de Livresco

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Parecer sobre estudantes com necessidades educativas especiais no Ensino Superior

O Conselho Nacional de Educação emitiu o Parecer n.º 1/2017 sobre Estudantes com necessidades educativas especiais no Ensino Superior.

No seguimento do enquadramento, O CNE enuncia um conjunto de aspetos que devem merecer especial atenção na elaboração das políticas de inclusão no ensino superior:

1 - Tornar o ensino superior acessível a todos e mais democrático é tarefa do Estado e da sociedade.

A concretização da Constituição e da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência exige medidas positivas do Estado, no sentido de criar condições, não apenas para o acesso, mas para a sua frequência em condições de efetiva igualdade no sucesso educativo.

Neste sentido, iniciativas inclusivas, facilitadoras do acesso e da frequência de todos os estudantes ao ensino superior, devem ser apoiadas.

2 - Por este motivo, a legislação a aprovar deve ser clara nos conceitos e finalidades, de tal modo que o seu âmbito de aplicação seja rigorosamente delimitado. Se nenhum dos estudantes com necessidades educativas especiais deve ser deixado fora do ensino superior, também é importante que não seja a própria legislação a criar um efeito discriminatório ou estigmatizante nos interessados.

3 - É importante que a aprovação de medidas legislativas nesta matéria seja precedida de estudos rigorosos, de modo a antecipar, em relação a cada instituição, estratégias adequadas de apoio aos estudantes, de um lado, e a medir, de outro, o possível impacto financeiro.

4 - Deve evitar-se a aprovação de legislação simbólica, criadora de expectativas não realizáveis. Pelo mesmo motivo, as instituições centrais dos Ministérios responsáveis pelo ensino secundário e pelo ensino superior devem articular-se para identificar a situação de cada estudante que esteja a frequentar o ensino superior e assim programar as medidas específicas que em cada instituição e curso do ensino superior possam vir a justificar-se.

5 - Em especial e tendo em vista o sucesso escolar dos estudantes com necessidades educativas especiais, é necessário prever e programar eventuais reforços orçamentais de que as instituições públicas de ensino superior venham a necessitar, quer em consequência de dispensa do pagamento de propinas, quer do planeamento de programas científicos e pedagógicos dirigidos a estes estudantes.

6 - Como sabemos, tais programas requerem meios humanos e tecnológicos não disponíveis na maior parte das instituições. Em causa não está apenas o acesso aos cursos, mas frequentemente a adaptação dos modelos de ensino, formação e investigação aos estudantes. Reconhecendo-se que as instituições não estão preparadas para desenhar e implementar programas criados especificamente para este tipo de estudantes, será importante prever, para além de eventuais apoios financeiros, aconselhamento e acompanhamento por parte de instituições e pessoas especializadas.

É assim vital um levantamento dos elementos fundamentais necessários para prever e programar ações concretas por parte das instituições.

7 - De outro lado e no que respeita aos próprios estudantes, o apoio poderá ser feito através da Ação Social Direta, tal como já previsto no Orçamento de Estado para 2017, eventualmente majorando-se os estudantes portadores de deficiência. Parece ser razoável a majoração do seu financiamento. Contudo, como o financiamento das instituições de ensino superior assenta numa base histórica, será necessário adequar o modelo de financiamento em vigor a estas situações.