segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Casa onde não há inclusão…

Não é novo – parece até bastante velho – falar-se das carências que existem nas escolas portuguesas para que se possa cumprir o desiderato expresso na nossa legislação de criar uma escola inclusiva. Abreviando razões, diríamos que a escola inclusiva é a que consegue educar todos, com todos, isto é, em que através de uma pedagogia diferenciada se consegue pôr em prática uma educação diferenciada e interativa. Sem diferenciação não será obviamente possível desenvolver a inclusão, dadas as eloquentes e tão manifestas diferenças entre os alunos; mas esta diferenciação não é feita criando “lugares à parte”, mas incentivando ambientes em que os alunos cooperam, aprendem juntos, aprendem uns dos outros.

Enquanto os alunos da “Educação Especial” estavam na escola, mas, muitas vezes, “longe da vista e longe do coração”, a premência destas carências era menos notada… era qualquer coisa que se passava “lá”, “lá” na Educação Especial, e dizia respeito aos professores de Educação Especial. Mas agora, a partir da publicação do dec. lei 54/2018, ficou claro que o problema não é “lá”: é “cá”. É “cá” é em toda a escola e diz respeito a todos os professores.

A implicação de toda a escola num processo que muitos de nós fomos habituados a ver como sendo “exterior” e “circunscrito” origina naturalmente dúvidas e resistências. É desnecessário enumerar as razões de “falta de formação”, “de excesso de trabalho”, “de ter mais 27 alunos na turma”, etc., etc., que são invocadas para este “transbordamento” da Educação Especial para uma Educação Inclusiva. Existe até uma questão concreta sobre a organização das escolas que parece muito sintomática da forma como se aborda esta mudança de uma escola com Educação Especial para uma escola inclusiva. Como é sabido, usamos uma pirâmide de medidas de apoio ao aluno que tem na base as medidas universais, no seu meio as medidas seletivas e no seu vértice as medidas adicionais. As medidas universais são aquelas que, em caso de alguma dificuldade identificada no aluno, mobilizam os recursos e as competências existentes na escola para as procurar resolver. 

Recentemente visitei uma escola que, ao fazer a sua apresentação sobre a sua organização de apoio aos alunos, indicou que havia em todo o Agrupamento 98 alunos apoiados. Destes, 92% eram alunos com medidas universais, e a restante percentagem destinava-se às outras medidas. Noutra escola – curiosamente no mesmo concelho –,​ quando perguntei quantos alunos usufruíam de medidas universais, a professora olhou-me e disse: “Se as medidas são universais são para todos, logo os beneficiários são todos os alunos.” Não deixa de ser interessante pensar como a forma como se olham as medidas universais pode constituir um excelente indicador de como a escola trabalha em inclusão.

As dificuldades em desenvolver a inclusão desembocam – talvez na maioria dos casos – na questão dos recursos. Ouve-se frequentemente que não se faz inclusão, porque faltam recursos. Gostaria de tratar, ainda que sucintamente, este assunto. E em três pontos:

Antes de mais, para assumir que há efetivamente uma falta de recursos: i) conhecemos casos em que os professores de Educação Especial estão sobrecarregados com um número excessivo de casos que não lhes permite um bom acompanhamento de cada um deles, ii) por outro lado, a esperança que os Centros de Recursos para a Inclusão (CRI) pudessem prover os recursos essenciais está completamente abalada. Os CRI recebem há muitos anos o mesmo financiamento, quando o número de casos que precisam de apoio terapêutico-educativo tem aumentado. Trata-se na maioria dos casos de apoios que são reconhecidos pelos CRI e pelas escolas como insuficientes. E isto há muitos anos. A nossa educação fez um percurso notável durante o período após a Revolução de 25 de Abril de 1974, mas, mesmo assim, não foi capaz de se libertar de uma herança de desinvestimento de muitas dezenas de anos. Faltam recursos? Faltam sim, e muitos.

Em segundo lugar, precisamos de saber para que precisamos dos recursos. Precisamos de recursos para a inclusão. Vale a pena fazer passar por esta pergunta os recursos que se pedem. Por vezes, os recursos serviriam para que o aluno estivesse mais tempo fora da sala de aula, ou fora das atividades escolares ou até fora da escola. Não são esses certamente os recursos que precisamos: precisamos de recursos que ajudem a escola, os professores, os técnicos a melhorar a inclusão de cada criança: a sua inclusão na classe, na escola, na comunidade. Precisamos de recursos que se articulem com o trabalho pedagógico para o qualificar, para contribuir para ele ser mais diferenciado, flexível e logo mais adequado a educar todos e… com todos

Por fim, convido os meus leitores a uma viagem pela “imaginação pedagógica”. Imaginem que teríamos um governo que, afinal, achasse que “isto” da inclusão era um grande equívoco. Esse Governo conseguia encontrar verbas para construir grandes escolas especiais, por exemplo, em cada concelho. Todos os recursos que possuíamos iriam para essas escolas, professores, psicólogos, terapeutas, médicos, enfim, todas as pessoas que sabíamos ser as mais competentes. Já imaginaram? Talvez neste caso não se falasse de falta de recursos… estas escolas, sendo em número inferior, teriam talvez muito mais meios. Mas há uma questão fundamental: estas escolas especiais que acabamos de imaginar tinham uma falta imperdoável, uma falta tão grave que as inviabilizariam como estruturas credíveis. Faltar-lhes-ia a vivência, a experiência da inclusão. Por isso é que talvez seja preferível lidar com a falta de recursos nos 811 agrupamentos que procuram este valor precioso da inclusão do que criar escolas em que tudo pareceria ser abundante e só faltaria o essencial.

Na verdade, a inclusão é um recurso. É certamente “o” recurso sem o qual todos os outros recursos perdem significado. Em Portugal entendemos isso. E continuaremos a lutar para que o apoio inclusivo seja cada vez melhor, com mais vontades, com mais formação, com mais recursos e com mais utopia.

David Rodrigues

Presidente da Pró-Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial; Conselheiro Nacional de Educação

Fonte: Público

domingo, 17 de novembro de 2019

Peça teatral em Braga para ajudar jovens e adultos autistas

A escola Palco de Estrelas associou-se à cooperativa de Braga "Supera-te", dedicada a jovens e adultos portadores de autismo, e vai levar a palco, esta sexta-feira, pelas 21 horas, a peça "O Mi do Gato Amarelo", que retrata a problemática.

"Com a dinamização deste evento, pretendemos demonstrar que o mundo do teatro pode estar ao serviço do autismo e ser usado como um mecanismo para a promoção e o desenvolvimento de competências sociais, cognitivas e comportamentais", explica Helena Barbosa e Sofia Cerqueira, presidente e secretária do Conselho de Administração, respetivamente.

As responsáveis acrescentam que o espetáculo da Palco de Estrelas - com quem efetivaram uma parceria para mais atividades - quer, também, mostrar "a alarmante realidade do aumento exponencial das Perturbações do Espectro do Autismo".

A performance, na Rua de Santa Margarida, em Braga, será realizada pelos alunos da turma de Teatro, sob orientação do professor Cláudio Silva. A entrada é gratuita, mas requer inscrição online, que pode ser feita através do site da "Supera-te".

O espetáculo será seguido de uma tertúlia acerca do autismo e de um lanche-convívio.

A "Supera-te" nasceu no ano passado para "oferecer aos jovens e adultos portadores de autismo um conjunto de procedimentos interventivos, bem como as condições necessárias ao seu desenvolvimento holístico com base numa inclusão social harmoniosa", explica Sofia Cerqueira.

Recentemente, a cooperativa avançou para um contrato definitivo de arrendamento de um espaço que viabilizará a implementação das respostas sociais, mas são necessárias obras.

"Apresenta grandes danos ao nível da estrutura física. Atualmente, o nosso propósito primordial passa por angariar fundos para levar a cabo uma intervenção de requalificação do espaço, bem como a aquisição de mobiliário adequado para a nossa atividade, pelo que temos em vista uma série de eventos", esclarece a responsável (...).

Fonte: JN por indicação de Livresco

sábado, 16 de novembro de 2019

Com apenas 9 anos, Laurent está prestes a terminar a licenciatura de engenharia electrónica

Quem olha para Laurent Simons sem conhecer a sua história vê apenas uma criança de nove anos igual a tantas outras: o menino belga gosta de brincar com o cão e de jogar no telemóvel. O que o torna diferente, excecional até, é o facto de, no próximo mês de dezembro, Laurent concluir uma licenciatura em engenharia eletrónica na Universidade Tecnológica de Eindhoven. Não só termina o primeiro ciclo da universidade com a mesma idade em que a esmagadora maioria das crianças está a acabar a primária, como conquista um diploma particularmente difícil, até para os seus colegas adultos.

Descrito pelos docentes e funcionários da universidade holandesa como “simplesmente extraordinário”, o rapaz será a pessoa mais nova do mundo a graduar-se naquele curso. A etapa seguinte, conta Alexander Simons, o pai de Laurent, à CNN, poderá passar por um doutoramento na mesma área, mas uma formação em medicina também está em cima da mesa. 

Ao canal norte-americano, os pais de Laurent, ambos médicos, dizem que especialistas que estudaram o seu filho afirmam “que ele é como uma esponja” capaz de absorver qualquer informação, mas não conseguem explicar exatamente como é que consegue aprender tão rapidamente.

“É o aluno mais rápido que já tivemos aqui. E não é apenas hiperinteligente, também é um miúdo muito compreensivo”, refere Sjoerd Hulshof, director do curso, à CNN.

O seu curto mas sensacional percurso académico não tem passado despercebido e o jovem já foi contactado por várias universidades prestigiadas em todo o mundo para prosseguir os seus estudos. No entanto, os pais fazem questão de sublinhar que Laurent é uma criança normal e que não gostam que “não faça o que gosta”. De resto, e terminado o curso em dezembro, Laurent e os pais vão de férias para o Japão.

Fonte: Público

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

MOOC Tecnologias para a Inclusão e Acessibilidade

Tecnologias para a Inclusão e Acessibilidade é o tema do MOOC (Massive Open Online Course), desenvolvido pela Direção-Geral da Educação, com início a 13 de janeiro e término a 1 de março de 2020.

O curso pretende promover a utilização de tecnologias educativas e de acessibilidade junto dos professores e da comunidade educativa em geral. 

O curso decorrerá ao longo de janeiro e fevereiro de 2020, correspondendo a 30 horas de trabalho.

O MOOC Tecnologias para a Inclusão e Acessibilidade está estruturado em cinco módulos nucleares e incide nas seguintes temáticas: Desenho Universal para a Aprendizagem - Acessibilidade Digital - Tecnologias e Produtos de Apoio – Software e Recursos Livres – Tecnologias Móveis e APPs.

Ao longo do curso, os participantes terão oportunidade de analisar a abordagem do Desenho Universal para a Aprendizagem, experimentar ferramentas TIC livres, produzir recursos educativos, partilhar ideias e atividades com os seus pares.

A conceção do curso foi orientada para os professores em geral, encontrando-se aberto à comunidade educativa.

Esta formação não está acreditada pelo Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua de Professores, sendo que a sua conclusão permite a obtenção de um Certificado de Conclusão do Curso.

Veja o vídeo de apresentação do MOOC Tecnologias para a Inclusão e Acessibilidade.

Inscrições: até dia 17 de janeiro 2020 faça a sua inscrição neste link

Contacto para dúvidas – mooc-tia@min-educ.pt.

Fonte: DGE

Chumbar ou não chumbar? O que pensam pais, professores e especialistas

A taxa de retenções em Portugal nunca foi tão baixa, sendo superior no ensino secundário, em que atingiu um valor de 13,6% em 2017-2018, quando no ano letivo 2008-2009 se situava nos 18,7%. No ensino básico, passou de 7,6% para 5%. Mas o país ainda continua a integrar a lista daqueles que reúnem os piores resultados. Atualmente, quase 35% dos alunos com 15 anos contam com pelo menos um "chumbo" no seu currículo.

Por isso, "é preciso trabalhar para a redução das retenções", alerta o secretário-geral da Federação Nacional de Educação (FNE). Mas "não o devamos fazer administrativamente". Uma discussão à qual o ministro da Educação já respondeu, garantindo que a ideia não passa pela "eliminação administrativa" de "chumbos". Em entrevista à agência Lusa, esta quinta-feira, Tiago Brandão Rodrigues alerta que aquilo a que a tutela se propõe é passar a acompanhar mais de perto os alunos que têm dificuldades, de forma a acabar com os "chumbos".

João Dias da Silva lembra que a FNE "tem aprovado os documentos do Conselho Nacional de Educação (CNE) que se debruçam sobre esta matéria". Contudo, "no contexto em que estamos, uma medida isolada que visa determinar que não há retenções até ao 9.º ano de escolaridade parece-nos precipitada e inconsistente". Ecritica o facto de o ministério não ter contado com mais parceiros para anunciar esta medida. "Uma decisão destas não deve ser tomada de cima para baixo, sem o envolvimento de professores e encarregados de educação".

Esta interpretação restritiva do programa do governo já conduziu "a uma grande instabilidade nas escolas", alerta o dirigente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), Filinto Lima. "Acho que o governo não quis dizer isto, porque não pode valer tudo para chegarmos a uma taxa de retenção zero. Mas o ministério tem de concretizar, porque isto está a gerar uma grande instabilidade nas escolas. Os professores estão a interpretar o programa de uma forma restritiva", conta.

Chumbar "pode ser benéfico"

Durante o debate quinzenal no Parlamento, a propósito deste tema, o primeiro-ministro foi respondendo às críticas da oposição a partir de teses mencionadas em relatórios, que apontam a retenção como uma medida negativa no percurso escolar do aluno. Na mão, segurou o estudo Será a repetição de ano benéfica para os alunos, da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), assinado por três especialistas. Entre eles, Luís Catela Nunes, professor da Nova School of Business and Economics (Nova SBE).

"As retenções multiplicam as retenções", argumentava António Costa. E o relatório também não vê com bons olhos os chumbos, pelo menos no 1.º ciclo, segundo a amostra analisada no documento. "O estudo pretendia analisar se era benéfico chumbar alunos até ao 4.º ano", explica Luís Catela Nunes. "A conclusão a que chegamos é que os benefícios existiam, mas eram marginais. Por isso, estariam a chumbar-se alunos de mais em Portugal."

Mas alerta que pode ser perigoso concluir imediatamente o mesmo relativamente aos restantes anos de escolaridade. "Há o risco de o aluno ir progredindo ao longo do 1.º e 2.º ciclo sem qualquer feedback, para ele, para a escola e para os pais. Sem ninguém ter noção se estão atrasados, tornando muito difícil recuperá-los quando chegam ao 9.º ano, senão impossível", aponta o especialista em economia da educação.

O primeiro passo desta discussão, diz, é "fazer desta política uma política bem fundamentada". "O que me preocupa numa política destas é ser algo que terá um impacto muito grande na forma de ensino e não haver, do ponto de vista da fundamentação, algo que diga - além da questão monetária - quais as vantagens ou desvantagens. Uma política tem de ser muito bem fundamentada, nas várias dimensões. E seria importante ter esta análise, sobretudo feita para Portugal, porque há outros estudos referentes a outros países que indicam que reprovar um aluno, em geral, não é a melhor forma de o apoiar, em termos pedagógicos. Mas em Portugal pode não ser. São decisões que afetam profundamente o sistema educativo, como há alguns anos quando se decidiu não fazer exames nacionais no 4.º e 6.º ano", lembra.

O docente acredita que é preciso olhar para esta problemática, que tem colocado Portugal no topo da lista onde estão outros países com maior quantidade de chumbos por alunos, como o Brasil, França e Luxemburgo. "É preciso preparar os professores e pensar em formas alternativas para levar os alunos ao sucesso", mas Portugal tem outros desafios demográficos. "Há cada vez menos alunos e cada vez entram menos professores nas escolas", sendo que os que já lá estão integram uma classe envelhecida. "Até que ponto é que eles são capazes ou pensarem em formas alternativas para levar os alunos ao sucesso?", lança.

O debate "deve ser outro"

Assim como a grande franja da audiência deste debate, também os pais têm mostrado estar "cheios de dúvidas" para as quais "ainda não têm resposta", conta o dirigente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) (...). Mas Jorge Ascenção acredita que se tem olhado para a discussão do ângulo errado: "Isto não está a ser levado a fundo."

Segundo o representante dos pais, "há muita hipocrisia neste debate". "Porque toda a gente diz que a educação é um direito, mas depois acham natural que todos aqueles que têm mais dificuldades financeiras e menos capacidades de aprendizagem não tenham direito às condições para aprender. Há muitas fragilidades no ensino que as famílias só conseguem colmatar com recurso a explicações, por exemplo. Estamos a discutir retenções quando o problema é mais profundo", alerta.

Para mudar as estatísticas, é preciso repensar o sistema educativo, diz. "Se calhar, temos de começar a perceber por que é os alunos chegam ao 5.º ano sem as bases. É porque passaram sem aprender? É. Então, mas porque é que não aprenderam? A questão deve ser: como é que nós fazemos com que a escola cumpra a sua missão, que é ajudar todas as crianças a aprender?", remata.

Jorge Ascenção espera que o novo plano do governo não seja "uma medida economicista". Pois seria "o mesmo que comprar um produto barato que avaria dez vezes mais do que um produto mais caro mas que nunca avaria". Ainda que a despesa possa parecer maior à partida, "economicamente pode sair mais vantajosa, porque fica muito caro ao país ter muitos cidadãos pouco capacitados".

Fonte: DN

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Sociedade inclusiva ou exclusiva?

Nasci cega, feliz ou infelizmente. Não penso muito nisso. Limito-me a aceitar que é assim e não sei viver de outra forma.

Perguntam-me muitas vezes se gostava de ver e eu respondo que sim, claro, mas que não é uma prioridade. E as pessoas ficam a pensar que eu sou mal-agradecida. Mas não. Eu vivo bem assim. Talvez porque não conheça outra realidade, é verdade. Da mesma forma que muitos de vós não gostaríeis de experimentar serem cegos, nem que fosse por um curtíssimo período. Não há realidades melhores ou piores. Há realidades com características diferentes e cabe-nos a nós aceitá-las e adaptá-las ao nosso estilo de vida, aos nossos gostos e hobbies.

Se calhar, pensam que estou a tentar pintar de cor-de-rosa isto da cegueira, mas eu acredito genuinamente que qualquer pessoa, devidamente orientada e apoiada, pode ser feliz com a sua realidade. Uma pessoa de cadeira de rodas não é menos feliz por não conseguir correr uma maratona porque se calhar consegue ser campeã de boccia. Um surdo não é menos feliz por não poder relaxar com uma música ao fim do dia porque pode sentar-se e relaxar a olhar para o mar e a natureza. Um cego não é menos feliz por não poder apreciar as ondas do mar e a natureza porque pode apreciar uma boa música.

Cabe ao indivíduo conseguir realizar-se e à sociedade proporcionar, não as mesmas oportunidades, mas oportunidades singulares e únicas para todos, de acordo com as características de cada um, assegurando, claro, os direitos fundamentais.

Só assim, a meu ver, se poderá falar de inclusão. Uma sociedade inclusiva não faz dos deficientes heróis. Não torna algo banal em algo extraordinário; não se louva aquilo que é (ou devia ser) natural. Numa sociedade inclusiva, um paraplégico não tem que calcular, milímetro a milímetro, os seus dias, de modo a perceber exatamente que locais é que vão estar adaptados à sua deslocação. Não se priva alunos de ter acesso aos materiais de que necessitam a tempo útil (posso dizer que, em 12 anos de escolaridade obrigatória, não houve um ano em que tivesse os manuais todos — e isto é o básico).

Pode-se legislar muita coisa. Podem-se criar decretos-lei sobre a educação inclusiva, com palavras caras que nenhum leigo compreende, mas que, bem espremidos, dizem aquilo que todos já sabem mas pouco fazem por mudar. Podem fazer-se mil conferências, dez mil palestras. Se ajuda? Talvez. Mas o principal, criar uma sociedade verdadeiramente inclusiva, em que estas questões sejam um não-assunto, quase ninguém faz. Envolvam os deficientes. Perguntem-lhes o que precisam, o que está bem, o que não está. E, acima de tudo, façam-no para mudar, não para ficarem com o rótulo e andar a exibi-lo.

Indubitavelmente, estamos melhor que há 50 anos, quando os deficientes nem à escola iam. E, evidentemente, isso é bom. Mas daí a chamarem-lhe sociedade inclusiva? É um pouco irreal, no mínimo. No máximo, é ridículo.

Maria Sá

Com 17 anos, vive em Viana do Castelo. Está no 12.º ano na área de Ciências Socioeconómicas. Adora ler e recentemente descobriu a escrita.

Fonte: Público

Não haverá “eliminação administrativa” de chumbos, mas mais trabalho com alunos

O ministro da Educação defende que o plano de redução de retenções dos alunos não significa a “eliminação administrativa” dos “chumbos”, mas um trabalho de acompanhamento mais próximo dos estudantes que revelam mais dificuldades. “O que nos propomos não é uma eliminação administrativa das retenções”, explicou Tiago Brandão Rodrigues, em entrevista (...) sobre as medidas previstas no Programa do Governo.

As taxas de retenção — quase 35% dos alunos com 15 anos contam com pelo menos um “chumbo” no seu currículo — fazem com que Portugal seja “um dos grandes totalistas em percentagem de retenções” da Europa. Tiago Brandão Rodrigues considera que “as retenções nunca levam esses alunos a bom porto”. “Muito provavelmente levam ao abandono escolar ou uma nova repetição de ano.”

É entre as famílias com menos recursos e menos qualificações académicas que se encontram mais problemas de insucesso escolar. Por isso, será dada prioridade às escolas de “meios sociais e economicamente marginalizados ou mais complexos”.

Às escolas e aos professores caberá a tarefa de fazer o que reconhece ser mais difícil: “Trazer esses alunos para dentro da escola para que nenhum possa ficar para trás”. O método passa por intensificar medidas iniciadas na anterior legislatura, como o Plano Nacional de Promoção do Sucesso Escolar, para permitir às escolas encontrar soluções adaptadas a cada um dos alunos.

No anterior mandato, o Governo criou o “apoio tutorial específico”, em que um pequeno grupo de dez alunos com um historial de “chumbos” é acompanhado por um professor. Este projeto prevê também a intervenção dos psicólogos escolares e o envolvimento dos encarregados de educação.

Quanto a novidades para os próximos quatro anos, o ministro admite que o novo plano de combate ao insucesso ainda está numa fase muito inicial e, por isso, estão todas as opções em cima da mesa: as escolas vão poder intensificar ou ajustar os métodos já existentes, mas também poderão avançar com novos projectos.

Tiago Brandão Rodrigues reconhece que será preciso chamar mais professores, tal como aconteceu no passado com o lançamento do Plano Nacional de Promoção do Sucesso Escolar, “que implicou o apoio tutorial específico e custou algumas dezenas de milhões de euros na contratação de novos docentes”. “Temos de encontrar medidas que possam coadjuvar o trabalho dos professores e, sempre que necessário, que possam robustecer o corpo docente, mas, acima de tudo, também (queremos) poder estabilizar esse corpo docente”, garantiu.

Diretores vão poder decidir tamanho das turmas — e algumas podem aumentar

Os diretores escolares vão ter liberdade para criar turmas de diferentes dimensões, podendo haver agrupamentos com turmas pequenas e outras com uma “dimensão ligeiramente superior ao que já acontece” nas escolas, acrescenta Tiago Brandão Rodrigues. As medidas que pretendem dar a autonomia às escolas para desenhar turmas de diferentes dimensões ainda estão a ser delineadas. 

A medida consta do Programa do Governo e, para já, é certo que “as escolas terão um determinado número de alunos e capacidade para constituir um determinado número de turmas”, segundo Tiago Brandão Rodrigues. Pela primeira vez, salientou, os diretores “terão capacidade para flexibilizar a constituição de turmas”, podendo surgir algumas com uma “dimensão ligeiramente superior ao que já acontece nas escolas”. E, nesses casos, caberá aos diretores escolares explicar aos pais desses alunos as razões que os levaram a tomar tal decisão.

Tiago Brandão Rodrigues sublinhou que estas mudanças terão sempre de ser sustentadas em projetos pedagógicos. O ministro acredita que a medida trará benefícios para todos: “Os diretores, dentro da sua autonomia, sabem melhor do que ninguém o que é que serve cada uma das suas turmas em termos de dimensão”, acrescentou. Assim, as direções das escolas, conselhos pedagógicos e conselho de turma terão como tarefa definir o “número ótimo” de cada turma tendo em conta o seu projeto pedagógico. No entanto, sublinha que existem constrangimentos, tais como o número de professores e a dimensão dos estabelecimentos escolares.

Esta liberdade é uma reivindicação antiga de directores e professores, que sempre defenderam que as turmas “não têm de ser todas iguais” nem devem ser “feitas a régua e esquadro”, recordou o ministro.

Fonte: Público

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Alunos com gaguez podem ser dispensados dos exames orais

Os alunos com gaguez podem ser dispensados da realização das provas orais, que desde há dois anos passaram a integrar a avaliação externa em línguas estrangeiras tanto nos exames do ensino secundário, como nas provas de aferição do 2.º e 3.º ciclos, nos quais em 2020 a disciplina de Inglês fará parte...

Fonte: Público

Num ateliê em Coimbra, pessoas com deficiência descobrem o seu traço e o seu corpo

No ateliê da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra (APCC), pessoas com deficiência trabalham o corpo. Enquanto desenham, fala-se de autorrepresentação, ganha-se amor-próprio e descobre-se que "cada um tem o seu traço, cada um tem o seu corpo".

Mário não fala, não ouve e não domina a linguagem gestual. Está sentado na sua cadeira de rodas, a terminar um desenho no ateliê, numa manhã soalheira de outono. Como não consegue esticar os braços, vai arrastando a cartolina para pintar no sítio onde quer, em riscos carregados, de lápis de cor, que agarra nos nós dos dedos.

Com auxílio de perguntas escritas num papel, Mário Carvalho diz ‘sim’ com a cabeça. Diz que gosta de pintar - que é a coisa que mais gosta -, para logo de seguida voltar ao desenho de traço expressivo e forte, por onde fica compenetrado.

"A condição motora dele dá-lhe um traço distinto", diz à agência Lusa a professora de expressão plástica da APCC, Suzete Azevedo, que já no dia anterior tinha atirado para outra turma, enquanto revia algumas das obras, um lamento, em jeito de brincadeira: "Andei tantos anos a estudar para isso e alguns de vocês já o têm [o traço distinto]".

O projeto chama-se "CRU - O Corpo (Im)Perfeito", começou em dezembro de 2018 e culmina com a apresentação pública dos trabalhos, com uma exposição que começa no Porto, no Artbeat, em 25 de novembro (onde fica um mês) e que depois segue em itinerância para Coimbra e Lisboa, onde, para além dos desenhos, haverá também legendas em jeito de pequenos poemas, a acompanhar algumas das obras, por parte de uma das alunas do grupo, Regina Graça.

Fonte: Sapo24 por indicação de Livresco

terça-feira, 12 de novembro de 2019

“Jornadas Inclusivas de Viseu” com Minigolfe pela primeira vez

3ª edição das “Jornadas Inclusivas de Viseu” acontecem de 2 a 3 de dezembro no Pavilhão Desportivo do Instituto Politécnico de Viseu (IPV).

Esta é uma organização conjunta da Associação Invictus Viseu e a Escola Superior de Educação de Viseu.

Para esta edição, a novidade será a presença do Minigolfe, através de parceria estabelecida com a Lusogolfe, Clube Minigolfe da Costa Nova e Minigolfe.pt.

Segundo a organização são esperados cerca de 200 participantes ao longo dos dois dias.

As “Jornadas Inclusivas de Viseu” tratam-se de um evento desportivo inclusivo de cariz prático, dirigido aos utentes das várias instituições de apoio às pessoas com deficiência e aos agrupamentos-escola do concelho de Viseu, bem como aos alunos da Licenciatura em Desporto e Atividade Física do IPV – Escola Superior de Educação de Viseu.

Pela primeira vez será dinamizada e divulgada a modalidade de Minigolfe, tendo como público-alvo utentes das instituições de apoio à pessoa com deficiência do concelho de Viseu e alunos com necessidades educativas dos agrupamentos-escolas do concelho de Viseu.

“Uma atividade diferenciadora e inclusiva, por ser transversal a todas as idades e funcionalidades”, diz Nicole Monteiro, diretora da Invictus Viseu.

“Enquanto modalidade desportiva inclusiva, enquadra-se na tipologia e objetivos centrais das Jornadas Inclusivas de Viseu, ou seja: promover a inclusão direta e inversa entre pessoas com e sem deficiência que irão participar ativamente nas atividades desportivas possíveis de experienciar na iniciativa”.

Trata-se ainda de uma “atividade promotora de benefícios biopsicossociais, ao nível de coordenação motora, divertimento, socialização e privilegiar uma competição saudável entre pares”, conclui a Diretora Técnica.

Fonte: Minigolfe por indicação de Livresco