sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

WEBINAR DAISY

O webinar da Direção-Geral da Educação sobre o Projeto Daisy 2012 - audiolivros para alunos com necessidades educativas especiais, vai para o ar no próximo dia 09.01.2013 às 15:00H e contará com a presença de Aquilino Rodrigues.

O webinar será transmitido em http://webinar.dge.mec.pt.
In: DGE

De quem são os resultados escolares?

A publicitação de resultados escolares, quer os obtidos por estudos internacionais quer os resultantes de provas nacionais, levanta sempre a questão das “causas” e dos “responsáveis” que justificam a melhoria ou a degradação dos indicadores revelados.

Os debates públicos que se lhes seguem raramente conseguem fugir ao “julgamento” dos culpados: ora são os professores, ora os políticos e as políticas, por vezes invocam-se as famílias, noutros casos o atraso do país, mas sempre num confronto de condenações, absolvições ou enaltecimentos.

O discurso da culpa ou da glória nunca é bom conselheiro. Por isso proponho ao leitor uma tentativa de análise desapaixonada.

Em primeiro lugar, os resultados escolares são dos alunos. Da sua maior ou menor preparação dependem os resultados. E quem os prepara? A família e a escola, privilegiadamente, não sendo de menosprezar o papel dos próximos, da comunidade onde se integra, mas também da organização do sistema de ensino e das políticas educativas.

De há muito que a análise sociológica evidenciou o papel da família na capacitação dos alunos, especialmente do seu nível cultural e educacional. Mais do que a riqueza ou o rendimento, é o nível de escolarização dos pais que mais influencia o desempenho dos alunos. Porém, a associação estatística entre as duas variáveis não pode ser entendida como relação determinística. A família faz a diferença, mas a escola continua a ser decisiva.

Em segundo lugar, os resultados são das escolas e dos professores desses alunos. Bons ambientes escolares e bons professores proporcionam boas aprendizagens e bons resultados. O inverso também é, infelizmente, verdade. O problema está em que é mais fácil identificar um bom ou um mau aluno do que uma boa ou uma má escola, um bom ou um mau professor.

A razão desta dificuldade tem em grande parte a ver com a forma como o discurso público trata essas duas realidades. No que diz respeito às escolas o debate continua polarizado entre o público e o privado, como se fosse o modelo de gestão ou o regime de propriedade que influenciam os resultados escolares. É o combate ideológico que prevalece e que ilude o fundamental: há boas e má escolas, independentemente de serem públicas ou privadas. Quanto aos professores, a conclusão é a mesma, ainda que o discurso público dominante se tenha habituado a tratar estes profissionais como um corpo homogéneo, insusceptível de qualquer distinção: ora heróis, ora vilões.

Restam as políticas e os políticos. Ninguém de bom senso poderá ignorar que há políticas que propiciam melhores condições de funcionamento do sistema educativo e das escolas, outras que poderão constituir factor de instabilidade, de falta de confiança, de desmotivação ou mesmo de descrédito. Só que as “boas políticas”, na maior parte dos casos, não produzem resultados imediatos, especialmente em educação, enquanto as “más políticas” tornam-se bem mais visíveis nos efeitos negativos que produzem. Por isso os políticos e as políticas são geralmente recordados pelo que produzem de “mal” e raramente destacados pelo que contribuem para a qualificação do sistema de ensino. As “boas políticas” tendem a ser reivindicadas na sua paternidade por todos, por mais estranhos que tenham sido à sua aplicação; as “más políticas” ninguém ousa lembrar da sua responsabilidade.

Vamos agora ao objecto final deste artigo. Foram divulgados recentemente dois estudos internacionais sobre os resultados dos alunos portugueses em Matemática e Ciências (TIMSS – Trends in International Mathematics and Science Study) e Leitura (PIRLS – Progress in International Reading Literacy Study), para um nível correspondente ao 4º ano de escolaridade. Quer no primeiro, quer no segundo estudo, a comparação com os resultados de 1995 são incontestáveis: os alunos portugueses foram os que mais progrediram no conjunto de um pouco mais de quatro dezenas de países.

Estes resultados vêm confirmar outros já registados pela OCDE (PISA –Programme for International Student Assessment) em 2009, tendo por objecto os alunos de 15 anos.

Nestes três estudos a melhoria registada pelos alunos portugueses nos últimos 15 anos é incontestável. Mas há uma outra conclusão a retirar: atendendo ao nível de escolarização média do país e do grupo etário correspondente à geração dos pais, os resultados obtidos são melhores do que seria estatisticamente expectável. Ou seja, a média dos resultados está acima do valor esperado, considerando as condições sociais e culturais das famílias em comparação com os restantes países. Como se explicam estes resultados?

Começando pelos alunos, poderemos dizer que o nível médio de escolarização dos pais aumentou de forma significativa nestes últimos 15 anos. Muito provavelmente esses alunos trabalham melhor e aprendem mais e melhor, não sendo garantido que trabalhem mais.

E os professores, serão melhores que os professores de há 15 anos? Nada nos permite responder sim ou não. Mas há algo que importa não esquecer: hoje a organização e a cultura escolares começam a ser diferentes das dominantes há 15 anos. Hoje as escolas portuguesas já não vivem só de boas intenções e de teorias românticas, olham para os resultados com outra atenção, estabelecem objectivos e metas de aprendizagem, adoptam estratégias de combate ao insucesso e abandono escolares, organizam os seus recursos para promover o sucesso e mobilizam os diferentes actores, especialmente o seu corpo docente, para ter resultados cada vez melhores. Em síntese e por analogia com o desporto, nas boas equipas até os jogadores mais fracos brilham mais intensamente.

David Justino 
Foi ministro da Educação


Nota: Foi mantida a grafia original.

Aluno do Instituto Politécnico de Portalegre cria programa de fisioterapia

Um computador, uma web câmara e círculos refletores é todo o equipamento necessário para fazer exercícios de fisioterapia em casa. O projeto chama-se Fisiosoft e foi criado por João Tavares, aluno da Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Portalegre.
O Fisiosoft é um sistema informático interativo de fisioterapia de baixo custo. A web câmara reconhece os marcadores circulares refletores que o doente coloca no seu corpo nas zonas que pretende trabalhar. Os marcadores têm um elástico que permite segurar em qualquer parte do corpo.
O software desenvolvido por João Tavares permite que o computador reconheça os marcadores refletores e assim surgem no ecrã círculos, que podem ter diversos tamanhos. O doente tem de conseguir fazer coincidir o marcador preso no seu corpo com o círculo do ecrã.
"Este software permite registar o tempo que o paciente demora a completar o exercício e aumentar o nível de dificuldade do mesmo mudando as dimensões do círculo de resposta que o sistema mostra quando está a reconhecer o marcador", explica João Oliveira, o professor que auxiliou João Tavares no desenvolvimento do projeto.
O Fisiosoft vai evitar deslocações morosas e, muitas vezes, dispendiosas aos hospitais. Numa primeira fase o doente necessita do apoio de um terapeuta para prescrever os exercícios, mas "a ideia é que possa fazer os exercícios nas juntas de freguesia, se os doentes não têm em casa computador, ou mesmo em casa com apoio de familiares", adianta João Oliveira.
O projeto já foi testado em quatro pessoas e distinguido com o prémio "Ser Capaz - Investigação e Tecnologia", no valor de cinco mil euros, atribuído pela Associação Salvador.
O passo seguinte é estabelecer parcerias que coloquem o Fisiosoft no mercado.

Exames de alunos cegos com formatos digitais

Os enunciados das provas finais e dos exames nacionais para alunos cegos e com baixa visão serão apresentados este ano num formato digital específico ou em documento com entrelinha 1,5, em formato PDF, anunciou o Ministério da Educação.
Estas duas soluções, a utilizar em alternativa, considerando o enquadramento específico das necessidades de cada aluno, constituem a resposta técnica que visa "contribuir para a melhoria das condições operacionais de realização de provas e de exames", anunciou o Ministério da Educação e Ciência (MEC).
Fica salvaguardada a possibilidade de este ano, com caráter transitório, os alunos que não reúnam condições para realizar as provas em formato DAISY (Digital Accessible Information System), poderem fazê-las transcritas em Braille.
Segundo o MEC, desde 2005 que são produzidos em Portugal manuais escolares e outros livros no sistema DAISY, um formato áudio-digital com funcionalidades acrescidas para pessoas cegas ou com baixa visão.
Estes livros caracterizam-se pela sincronização entre a informação áudio e a informação escrita que permite simultaneamente ler e ouvir ler, possibilitando manipular e ajustar a cada utilizador a velocidade de leitura áudio, o tamanho dos carateres e o contraste entre as cores do texto no ecrã.
De acordo com a descrição do MEC, é ainda possível localizar informação textual, colocar marcadores no texto e inserir comentários e notas pessoais, bem como "navegar ao longo dos documentos, por capítulo, subcapítulo e secções".
Para o MEC, trata-se de "uma interessante opção de acesso à leitura", no âmbito da realização de atividades em sala de aula, sendo tais potencialidades extensivas "a contextos de avaliação formal".
Para que o sistema funcione, foi concebido um plano nacional de acompanhamento às escolas, no âmbito do qual os profissionais que integram os centros de recursos TIC (Tecnologias da Informação e Comunicação) assumem a "primeira linha de apoio" aos docentes que trabalham diretamente com estes alunos, como os professores de educação especial e titulares de turma.
Os elementos daqueles centros de recursos (CRTIC) vão contactar já nos próximos dias as direções dos agrupamentos de escolas das respetivas áreas geográficas.
"Oportunamente será divulgado o elenco completo das adaptações a disponibilizar este ano letivo", afirma o MEC, segundo o qual a lista apresentará - à semelhança dos anos anteriores - "soluções destinadas a alunos daltónicos e com limitações motoras severas".
Os pedidos de provas adaptadas devem ser dirigidos ao Júri Nacional de Exames.
No caso específico dos ficheiros entrelinha 1,5 (PDF), a consulta e utilização para treino, como a ampliação/redução, deslocação horizontal e vertical no documento, poderá ser feita nos ficheiros das provas e exames de 2012, bem como nos ficheiros dos testes intermédios, disponíveis na página eletrónica da Direção-Geral da Educação.
O ministério diz, em comunicado, que norteia a aposta nestas plataformas pelo princípio de que nenhum aluno, por condições de deficiência ou incapacidade, deverá estar limitado no acesso à leitura e à informação escrita.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

IMPLEMENTAÇÃO DO SISTEMA DAISY – PLANO NACIONAL DE ACOMPANHAMENTO ÀS ESCOLAS

O Ministério da Educação e Ciência, norteando a sua ação pelo princípio de que nenhum aluno, por condições de deficiência ou incapacidade, deverá estar limitado no seu acesso à leitura e à informação escrita, tem vindo, no âmbito das suas responsabilidades, a apostar de forma clara no incentivo à produção de materiais de leitura em formatos acessíveis a alunos com necessidades educativas especiais.

Neste contexto, os enunciados das provas finais de ciclo e dos exames finais nacionais dirigidos a alunos cegos e com baixa visão serão, em 2013, apresentados em formato Daisy (Digital Accessible Information System), ou em documento com Entrelinha 1,5, em formato PDF.

Estas duas soluções, a utilizar em alternativa, considerando o enquadramento específico das necessidades de cada aluno, constituem a resposta técnica que visa contribuir para a melhoria das condições operacionais de realização de provas e de exames. Salvaguarda-se a possibilidade de, em 2013, e com carácter transitório, os alunos que não reúnam condições para realizar as provas em formato Daisy poderem realizar provas transcritas em Braille.

Desde 2005 são produzidos em Portugal manuais escolares e outros livros em formato Daisy (Digital Accessible Information System), formato áudio-digital com funcionalidades acrescidas para pessoas cegas ou com baixa visão. Esses livros são fruto de uma parceria estabelecida entre o Ministério da Educação e Ciência, a Fundação Vodafone e a Porto Editora.

Entre as principais características dos livros Daisy destacam-se: (i) a sincronização entre a informação áudio e a informação escrita que permite simultaneamente ler e ouvir ler; (ii) a possibilidade de manipular e ajustar a cada utilizador a velocidade de leitura áudio, o tamanho dos carateres e o contraste entre as cores do texto no ecrã; (iii) a possibilidade de localizar informação textual, de colocar marcadores no texto que permitem aceder diretamente aos mesmos, de inserir comentário e notas pessoais e de navegar ao longo dos documentos por capítulo, subcapítulo e secções.

Face a estas potencialidades, o formato Daisy apresenta-se como uma interessante opção de acesso à leitura no âmbito da realização de atividades na sala de aula, sendo tais potencialidades extensivas a contextos de avaliação formal.

Tendo como finalidade assegurar uma eficiente utilização do sistema Daisy por parte dos alunos cegos e com baixa visão, foi concebido um plano nacional de acompanhamento às escolas, no âmbito do qual os profissionais que integram os Centros de Recursos TIC para a Educação Especial (CRTIC) assumem a primeira linha de apoio aos docentes que trabalham diretamente com esses alunos, designadamente, aos professores de educação especial e professores titulares de turma. Nesse sentido, os elementos dos CRTIC irão, nos próximos dias, contactar a direção dos agrupamentos de escolas das suas áreas geográficas de intervenção. Oportunamente será divulgado o elenco completo das adaptações a disponibilizar este ano letivo, lista que apresentará, à semelhança dos anos anteriores, soluções destinadas a alunos daltónicos e a alunos com limitações motoras severas.

O processo de receção dos pedidos de provas adaptadas será assegurado, como habitualmente, pelo JNE e pela EMEC.

Regista-se, por fim, que no caso específico dos ficheiros Entrelinha 1,5 (PDF), a sua consulta e posterior utilização para treino, tirando partido de operações como a ampliação/redução, deslocação horizontal e vertical no documento, entre outras, poderá ser realizada nos ficheiros das provas finais e de exame de 2012, bem como nos ficheiros dos testes intermédios, disponíveis na página da DGE, em http://www.dge.mec.pt/educacaoespecial/index.php?s=directorio&pid=6.

Seminário: “Nós e os Laços” - Viseu

A Associação Nacional de Docentes de Educação Especial e a Universidade Católica Portuguesa - Viseu vão promover o seminário: “Nós e os Laços”.
O evento realiza-se no dia 9 de março de 2013, na Universidade Católica Portuguesa - Viseu.
Neste seminário contaremos com a presença, entre outros, do Prof. Doutor David Rodrigues, Prof. Doutor Afonso Baptista, Dr. Joaquim Colôa, Dr.ª Ana Rosa Trindade e Dr.ª Sofia Ferreira, que, nas conferências e diferentes mesas, abordarão as seguintes temáticas: “Temas e problemas da Educação Inclusiva” e “Transição para a Vida Pós Escolar: Que Realidade? Que Perspetivas?”.
Foi preocupação da Comissão Organizadora promover um evento que fosse ao encontro dos interesses e motivações de todos aqueles que, por uma razão ou outra, se encontram ligados à Educação Especial e Inclusiva, sejam docentes, famílias ou profissionais na área. 

O Preço das inscrições é o seguinte:
5 euros Sócios da PIN - ANDEE e 10 euros não sócios da PIN-ANDEE;
Data Limite de inscrição: 2 de março de 2013
Para se inscrever basta carregar neste link: Ficha de Inscrição
para mais informações consultar a página de congressos PIN-ANDEE ou a página da PIN-ANDEE.

Tertúlia: A educação é realmente esPecial?

A PsicoSoma irá desenvolver no próximo dia 11 de Janeiro 2013, na Albergaria José Alberto, em Viseu, a tertúlia “A educação é realmente esPecial?”, a partir das 20h15. 
 “A educação é realmente esPecial?” será um espaço de partilha de conhecimento e troca de experiências, sendo que a PsicoSoma visa promover a interação entre a comunidade e profissionais da área. 
Para dinamizar toda a conversa a PsicoSoma convidou profissionais ligados à educação especial, com visões e níveis de intervenção diferenciados. Assim, a tertúlia contará com Fátima Almeida, professora de Educação Especial, do Agrupamento de Escolas de Nelas, Célia Ribeiro, professora da Universidade Católica de Viseu, e ainda Ana Beja e Maria João Miranda, ambas professoras de Educação Especial e autoras da mais recente obra PsicoSoma “Programa de Treino e Competências Funcionais para alunos com necessidades educativas especiais”. 
Todos os interessados poderão marcar presença e assim partilhar experiências e verem elucidadas algumas dúvidas em torno da educação especial.
Recebido via correio eletrónico.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Estrutura orgânica da Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares

O Decreto-Lei n.º 266-F/2012, de 31 de dezembro, aprova a estrutura orgânica da Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE). Esta estrutura vem, supostamente, substituir as Direções Regionais de Educação.

No entanto, cumpre-se uma promessa eleitoral com a mudança de designação na medida em que passam (continuam) a existir cinco unidades orgânicas desconcentradas, de âmbito regional, com a designação de 
Direção de Serviços Região Norte, Direção de Serviços Região Centro, Direção de Serviços Região Lisboa e Vale do Tejo, Direção de Serviços Região Alentejo e Direção de Serviços Região Algarve, sediadas respetivamente, no Porto, Coimbra, Lisboa, Évora e Faro, dirigidas por delegados regionais de educação.

"Quando os rapazes e as raparigas não se encontram nos corredores da escola " - Práticas do modelo de ensino "diferenciado"



À entrada do Planalto, colégio exclusivamente masculino, está um aluno do 6.º ano sentado numa secretária, com a cabeça pousada no braço, de lápis na mão e com alguns livros à frente. Quando nos vê, levanta-se da cadeira e, do seu lugar, cumprimenta-nos com um "bom dia". Não está ali por acaso.
O diretor António Sarmento chega pouco depois e explica que se trata de uma tarefa que é atribuída diariamente a todos os alunos, com o objetivo de “incutir nos rapazes o sentido de poder e responsabilidade, através de simples tarefas, recados, ou simplesmente serem a cara do colégio”.
Nesta escola de Lisboa estudam só rapazes, do 5.º ao 12.º ano. O ensino diferenciado, em que rapazes e raparigas estão separados, funciona em quatro escolas, duas em Lisboa e duas no Porto, que pertencem à cooperativa Fomento, ligada à Opus Dei; e uma das suas responsáveis, Margarida Garcia dos Santos, foi recentemente eleita para dirigir a European Association Single Sex Education, ou seja, esta é uma experiência que acontece noutros países não só europeus.
Bruno Morais é aluno do 11.º, no Planalto, e até há três anos frequentava uma escola pública. “No inicio foi um choque”, confessa. “Estava habituado a partilhar a sala de aula com raparigas, o que me deixava mais distraído”, conta. Para o antigo estudante do sistema de ensino misto a experiência no colégio tem-se mostrado mais vantajosa. Bruno diz ter evoluído de um aluno mediano para um bom aluno, com objetivos ambiciosos. “Na minha antiga escola era muito mais cabeça no ar, não me interessava pelas aulas. Hoje quero ser médico”.
A mesma opinião partilha um colega mais velho. De ar descontraído e confiante, mãos nos bolsos e com expressividade e energia no rosto, Tomás de Lobão argumenta: “Nós vivemos numa sociedade em que a pressão dominante é formatarem-nos, [dizerem-nos] que somos todos iguais. Somos diferentes”. No 12.º ano e aluno do colégio desde o 5.º ano, Tomás diz sentir que se tira mais partido de um ensino que direciona as suas estratégias em função do género. “Os rapazes e raparigas têm estados de desenvolvimento e sensibilidades completamente diferentes”, argumenta. Questionado sobre a complementaridade que essa diferença poderá trazer à sua experiência académica e pessoal, Tomás responde saber que no futuro vai estar integrado num mercado misto, mas que nesta fase se sente “mais capaz” a trabalhar em grupos só de rapazes. 
Para o diretor do Colégio Planalto, o modelo de ensino em Portugal foi feito “por mulheres e para mulheres”. Por outro lado, sublinha o diretor, são lecionados por um maior número de professoras do que professores e por isso todo o contexto de sala de aula e avaliação reflete-se no geral sucesso das raparigas e no insucesso dos rapazes.
“A ideia é que perante a diferença de progressão de desenvolvimento de cada um, tem de ser diferente também a forma de chegar até eles. Na questão dos programas não podemos diferir muito. A forma de os pôr em prática, essa sim é muito diferente”, afirma António Sarmento.
Para as aulas dos rapazes, o diretor acredita que o segredo está no modo como são organizadas. Para cativar a atenção dos rapazes e rentabilizar o seu rendimento, as aulas devem ser preparadas com “quantidades, qualidades, responsabilidades e tempos específicos”. “Precisam de ser muito mais estimulados, de sentirem o desafio, de serem puxados por metas pequeninas”. Como? Através de revisões de matéria numa lógica de rápida pergunta-resposta, às vezes têm mesmo de se levantar da cadeira, ou passar uma bola entre os colegas, “coisas que para os rapazes são absolutamente fulcrais”, considera António Sarmento.
Já no que diz respeito às raparigas, a preocupação deve assentar na relação entre aluno e professor, uma vez que “não necessitam tanto desse ambiente de competição e de estímulo”. A diferença poderá estar no contacto visual com a turma a entrar, promover uma relação entre os colegas, quer seja no corredor ou no momento que antecede o inicio da aula, conversando sobre o dia ou aula anterior.

Casos europeus
Segundo dados do último relatório da European Association Single Sex Education (EASSE), de 2008, no top das 100 melhores escolas do Reino Unido, 81 funcionavam com o modelo de educação diferenciada. Na Nova Zelândia, há mais 75 escolas diferenciadas no setor público do que no setor privado. O mesmo acontece na África do Sul, Coreia do Sul e Japão.
Recentemente nomeada presidente da EASSE, Margarida Garcia dos Santos fala dos objetivos da associação em Portugal. Nas suas palavras o modelo “tem provas dadas e vale a pena conhecer” e por isso importa “divulgar o que se pensa só ter existido no passado e que deixou de existir”. Por outro lado, a organização pretende “fomentar estudos junto da comunidade científica, no sentido de que se conheçam melhor as vantagens deste modelo”.
A presidente da associação explica que este modelo “não tem nada a ver” com as opções que nos anos 1950 sustentavam escolas com ensino diferenciado, sublinhando que não se trata de continuar a fazer sentido mas de “voltar a fazer sentido”. O modelo tem inúmeras diferenças “na gestão do currículo, no espaço da escola e dentro da sala de aula”.
No contexto de sala de aula, destaca a falta de formação dos professores, que “dão aulas para uma massa não tendo em conta essas diferenças, acabando por penalizar ou os rapazes ou as raparigas, uma vez que não estão a aproveitar aquilo que são as suas diferentes formas de aprender e as formas de estar”. 
“Se as pessoas do marketing percebem perfeitamente como é que tem de alcançar o público feminino e como é que têm de atingir o público masculino, então faz todo o sentido que ao nível da aprendizagem, um professor, ainda que esteja numa escola mista, saiba como é que tem de atingir os resultados com os rapazes e como é tem de atingir os resultados com as raparigas”, exemplifica.
Apesar da separação entre géneros, a diretora assume-se consciente de que “tem de existir equilíbrio” e “promover os necessários antídotos”, para que não haja uma excessiva estereotipização. “Há um cuidado que é mais pertinente, mais pesado nos rapazes do que nas raparigas. Procura-se muito que haja atividades agregadas à arte, à parte do teatro, da cultura, para desanuviar essa componente mais masculina”, partilha. 
Para Margarida Garcia dos Santos, a necessidade não passa por criar mais escolas, mas criar experiências, nas próprias escolas mistas onde “em determinadas matérias, em determinados níveis escolares, se possam separar os rapazes das raparigas, aproveitando os ritmos de aprendizagem e melhorando o rendimento escolar”. 

No mundo das raparigas
O Colégio Mira Rio, também em Lisboa – os colégios pertencem a uma cooperativa de pais, a Fomento, com ligações à Opus Dei que tem igual oferta no Porto, os colégios dos Cedros e o Horizonte, para eles e para elas, respetivamente –, está dividido por duas vivendas, com um ambiente mais caseiro e familiar e com menos espaços para atividades físicas.
Aqui é mais difícil receber um "olá". Em vez disso, sorrisos tímidos e curiosos, distantes da descontração a que nos habituámos com os rapazes do Planalto. A mesma reação se repete no momento de falarem com o PÚBLICO. Ao contrário dos rapazes, que preferiram falar a sós, longe da presença dos colegas ou do diretor, as alunas pedem para falar em conjunto e permanecem na sala, a escutarem as respostas das colegas. Depois de, a algum custo, decidirem qual fala primeiro, todas elas são transversais numa resposta: sentem-se mais à vontade para colocar questões sem a presença de rapazes.
Ultrapassada a vergonha inicial, Maria Almeida, uma das estudantes do 12.º ano, fala das aulas de Inglês que frequenta, fora do colégio Mira Rio. À partilha da sala de aula com rapazes, antes prefere ter aulas só com raparigas. “O facto de sermos só raparigas e só termos professoras permite-nos ter uma forma de aprendizagem semelhante entre todas e que as próprias professoras percebam melhor como funcionamos”, defende. Maria diz-se ainda mais confiante, e afirma que a opção fornece mais ferramentas para conseguirem “ultrapassar as dificuldades” e tornarem-se “mais independentes”. 
“Hoje em dia a facilidade de relacionamento e interação é imensa, não é como na altura dos nossos trisavós e bisavós, e por isso há que aproveitar o ensino diferenciado para sedimentar valores de forma muito sólida”, defende a diretora do Colégio Mira Rio, Ana Teixeira Dias.
Questionados sobre o futuro deste modelo, se poderá crescer, a presidente da associação e os dois diretores dos colégios assumem algumas reservas, sobretudo devido à instabilidade económica que muitas famílias enfrentam. Estas escolas são privadas e, por isso, pagas. “Não me parece que seja por falta de provas que é claramente muito bom e um modelo a seguir. Mas adivinho que não seja um futuro muito imediato”, resume a diretora do Mira Rio.

Por Liliana Pascoal Borges


Nota: A propósito deste texto, vale a pena ler a crónica no blog Atenta Inquietude onde, de forma clara e fundamentada, se caracteriza este modelo de "ensino discriminado".

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

A educação especial e o Orçamento de Estado

No último dia do ano, foram publicados dois documentos estruturantes da vida nacional. 
A Lei n.º 66-A/2012, de 31 de dezembro, define as Grandes Opções do Plano para 2013, que integram as medidas de política e de investimentos que contribuem para a sua concretização.

No conjunto do extenso documento, verificamos apenas uma referência vaga à educação especial: "Garantir o acesso à educação especial e adequar a intervenção educativa e a resposta terapêutica às necessidades dos alunos e das suas famílias".
Relativamente ao Orçamento de Estado (Lei n.º 66-B/2012, de 31 de dezembro), não existe qualquer referência à educação especial.