Esta é a primeira vez que o Mateus passa uma semana longe dos pais. Veio da Madeira, vai entrar no 12.º ano e já não tem dúvidas sobre o futuro: quer candidatar-se a Medicina quando terminar o ensino secundário, mas não quer sair da ilha.
Estamos ambos em Sintra desde domingo. Ele é um dos alunos da Escola de Verão da Fundação Francisco Manuel dos Santos; eu sou a curadora científica do tema que atravessa esta edição, (Des)Informação e Democracia.
À volta do Mateus estão outros 58 estudantes, nascidos entre 2009 e 2010 e vindos de vários pontos do país. Não se conheciam antes de chegar aqui. Ainda assim, trocaram uma semana de férias pela oportunidade de discutir democracia, jornalismo, algoritmos, redes sociais e os desafios da informação numa era em que todos podemos publicar e comentar conteúdos à escala global.
O Mateus já disse aos pais que está a adorar a experiência: "A ligação que temos aqui com os monitores desta Escola era bom que a conseguíssemos ter com os nossos professores", diz. "Mais do que decorar matéria, é importante a relação que desenvolvemos com quem nos ensina. E, em vez de termos horários tão sobrecarregados, podíamos ter mais atividades alternativas. Sei que existem iniciativas na minha escola como a de literacia financeira com o Banco de Portugal, mas podia haver ainda mais experiências deste género, que enriquecem os jovens."
Já o Diogo, 16 anos, veio de Vila Real e partilha da mesma opinião. “Acho que se houvesse mais proximidade por parte dos professores e das direções, os alunos sentiam-se mais motivados”. E dá um exemplo concreto: “Ando na mesma escola desde o 7.º ano e só agora, no 11.º, é que um professor de História, que é novo e nem sequer é de Vila Real, nos mostrou uma biblioteca que existe lá desde o Estado Novo. Estou naquela escola há quatro anos e não conhecia estes livros. Fiquei fascinado.” Para o Diogo, a lição a tirar é clara: "Ter uma educação mais interativa e mais focada no aluno, e não apenas na matéria que tem de ser dada, seria muito mais benéfico."
A Luana também tem 16 anos, vive na ilha do Pico e traçou o plano de vir para o continente estudar Direito. Quer seguir os passos da irmã mais velha, que está a concluir um mestrado nesta área, mas a imaginação dela já corre adiante: vê-se em Bruxelas, no Parlamento Europeu, ou a trabalhar em Relações Internacionais. "Pensei que pudesse vir mais alguém dos Açores, mas só vim eu", conta. “De qualquer forma, estou a gostar muito de cá estar e sinto-me ligada sobretudo aos que são de zonas do interior.”
Os alunos desta edição da Escola de Verão da FFMS vieram de 41 concelhos diferentes, espalhados por 13 distritos do continente e pelas duas regiões autónomas. Quase dois terços não vivem em capitais de distrito e a maioria são raparigas: 42 jovens, contra 18 rapazes. Em cima da hora, houve apenas um aluno a desistir.
Quando pergunto à Luana o que já mudou desde que chegou a Sintra, a resposta surpreende-me: "Se calhar a perspetiva como olhamos para o jornalismo. Às vezes pensamos que os jornalistas estão sempre a incomodar os outros, estão sempre a meter-se, mas não é assim. Os jornalistas estão, na verdade, a fazer um favor à sociedade para nós compreendermos as coisas." Também o Diogo, de Vila Real, já me tinha dito "só agora é que percebi que o Jornalismo é mesmo um dos pilares da Democracia".
Esta iniciativa da FFMS ocupa dezenas de alunos com atividades, mas também lhes proporciona muitas horas de convívio. Em conversa uns com os outros, percebem que há muitas oportunidades e experiências que simplesmente não chegam à sua escola.
"A escola devia ser mais aberta a iniciativas. Dá trabalho? Dá, mas também leva o nome da escola mais longe", defende a Luana, que ainda ontem lembrou uma professora dos prazos para uma candidatura.
Quando lhe conto que escrevo esta newsletter com um chatbot, ela fala-me da proibição dos telemóveis na escola como algo que não a afetou particularmente.
"O meu algoritmo dá-me reels de política e pessoas com carreiras na área das relações internacionais, que é o que eu gosto. As pessoas mais velhas costumam dizer que somos todos farinha do mesmo saco, que só queremos saber do telemóvel e que o algoritmo só nos traz coisas inúteis. Mas isso não é verdade."
As generalizações nunca são verdade. E também é por isso que estar bem informado é tão importante: o conhecimento é poder.
É hora de almoço, estamos num parque no centro de Sintra a fazer um piquenique, com jogos de tabuleiro, cartas e uma guitarra que vão dar jeito depois da sobremesa. Sentadas lado a lado apanho a Sofia, de Leiria, a Diana, de Portimão, e a Matilde, do Montijo. Dizem-me que a coisa que salta mais à vista neste grupo de alunos é que são de partes diferentes do país, mas todos parecidos. A idade é a mesma, os interesses, as roupas e os hábitos digitais são semelhantes: Instagram, TikTok e Whatsapp.
No dia a dia, a Sofia gosta de chegar a casa e contar aos pais o que aprendeu na escola, mas também adora "experimentar coisas novas" e sente que a escola nem sempre tem essa abertura. A Diana acredita que a sua geração cresceu com horizontes mais largos do que as anteriores: "As pessoas mais velhas ainda estão um bocadinho com a mente fechada. Têm de ser mais mente aberta", atira.
Já a Matilde vive muito perto de Lisboa mas lamenta não ter mais projetos, mais visitas de estudo, mais trabalhos de grupo e menos dependência dos testes. Na sua opinião, os alunos aprendem melhor quando são convidados a descobrir e participar. "As visitas de estudo são uma coisa muito importante", diz. E remata: "Parece que não há tempo para nada na escola, nem tempo para dar toda a matéria".
JB: Woolf, agora que estamos em setembro e os alunos se preparam para o regresso às aulas, como são as melhores escolas do mundo? O que é que elas fazem? E a escola no futuro vai ser diferente?
As melhores escolas do mundo estão a repensar a forma como se aprende. Não são necessariamente as escolas com melhores instalações ou mais tecnologia, mas aquelas que conseguem preparar os alunos para um mundo que está em constante mudança.
Uma das grandes diferenças é que o aluno deixa de ser apenas alguém que recebe informação. Há mais projetos, investigação, resolução de problemas, trabalho em equipa e situações em que os alunos têm de criar, experimentar, errar e voltar a tentar.
Por exemplo, em vez de aprenderem apenas sobre alterações climáticas através de um manual, os alunos podem investigar um problema ambiental da sua cidade, analisar dados, falar com especialistas e desenvolver uma proposta para o resolver. Neste processo, acabam por utilizar conhecimentos de ciência, matemática, tecnologia, comunicação e até arte.
Outra característica importante é a autonomia. Os alunos têm mais oportunidades para escolher o que querem explorar, definir objetivos e perceber como aprendem melhor. A escola procura desenvolver não apenas conhecimento, mas também pensamento crítico, criatividade, capacidade de comunicação, colaboração e capacidade de aprender de forma autónoma.
O papel do professor também muda. Continua a ser fundamental para ensinar conhecimento e garantir bases sólidas, mas passa também a ser mentor, orientador e alguém que ajuda os alunos a pensar, fazer perguntas e melhorar o seu trabalho.
A avaliação é outra área que está a mudar. Em vez de depender exclusivamente de testes e memorização, algumas escolas dão mais importância a projetos, apresentações, portefólios e à capacidade de aplicar aquilo que se aprendeu a problemas novos.
E a escola do futuro será provavelmente diferente. A inteligência artificial poderá ajudar cada aluno a aprender ao seu ritmo, explicar conceitos de diferentes formas, propor exercícios e dar feedback. Isso pode libertar tempo dos professores para aquilo que é mais difícil de substituir: acompanhar pessoas, criar relações, orientar projetos, promover discussões e desenvolver competências sociais.
Mas há uma ideia importante: a escola do futuro não será simplesmente uma escola com mais tecnologia. Um tablet, um robô ou uma ferramenta de IA não tornam uma escola melhor por si só.
A verdadeira mudança será passar de uma escola centrada sobretudo em “ensinar matéria” para uma escola centrada em ensinar as pessoas a aprender, pensar, criar e resolver problemas.
E isso não significa deixar de ensinar conhecimento. Pelo contrário: para pensar criticamente, é preciso ter conhecimento. A grande questão será encontrar um novo equilíbrio entre conhecimento, competências, autonomia, tecnologia e relações humanas.
JB: Se calhar a Escola do Futuro até é parecida com esta Escola de Verão. Esta sexta-feira encerram as aulas sobre jornalismo, democracia, algoritmos, redes sociais, política, educação e futuro, mas ficam gravadas as questões e as opiniões levantadas por estes alunos.
Os adultos têm sempre interesse em discutir o que os jovens pensam, sentem ou querem, mas têm assim tanto interesse em ouvir os próprios?
Há quem procure fórmulas para envelhecer devagar, com cremes e vitaminas, mas apetece-me propor este método: conversar com pessoas de 15, 16 anos. Ouvi-las a sério. Sem paternalismo, sem condescendência.
Talvez seja esse o “comprimido” mais eficaz que existe para a longevidade. Não a do corpo, mas a da juventude interior, mental.
Joana Beleza
Fonte: Expresso por indicação de Livresco
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