quinta-feira, 30 de abril de 2026

Mentalidade de crescimento e literacia matemática: Uma influência que depende mais das características do país do que do aluno

A mentalidade de crescimento, conceito desenvolvido por Carol S. Dweck e Dennis L. Eggett, é definida como a crença de que a inteligência e a capacidade intelectual não são características fixas e imutáveis e, pelo contrário, podem expandir-se e aumentar através do esforço e da prática. Vários estudos têm indicado que alunos com uma maior mentalidade de crescimento tendem a estar mais motivados e ter maior êxito escolar, e que a mentalidade de crescimento dos professores também parece levar a melhores resultados. No entanto, esta relação entre crenças sobre a maleabilidade da inteligência e o desempenho escolar é complexa e depende de vários fatores, como refere um estudo de David Yeager e Carol Dweck, de 2020.

Por exemplo, a relação positiva entre a mentalidade de crescimento e o êxito académico parece necessitar de uma sala de aula também alinhada com estes conceitos, com professores que têm esse tipo de mentalidade e um sistema de recompensas que promove o esforço e a estratégia como etapas de crescimento e oferece ajuda quando necessário. Contudo, mesmo nestas circunstâncias, fatores como o estatuto socioeconómico dos alunos ou o seu nível inicial de êxito escolar parecem influenciar o impacto da mentalidade de crescimento, como refere um estudo liderado por Victoria F. Sisk, de 2018.

É também importante salientar que vários investigadores, como numa investigação liderada por Alexander P. Burgoyne em 2020, têm criticado o conceito de mentalidade de crescimento, quer por os seus efeitos no êxito académico nem sempre serem replicados, quer por se revelarem pouco impactantes. De facto, a investigação aponta para efeitos muito heterogéneos da mentalidade de crescimento, sendo difícil prever exatamente sob que condições poderá levar a um melhor desempenho escolar.

Assim, e segundo o trabalho liderado por Victoria F. Sisk em 2018, o efeito das intervenções para o aumento da mentalidade de crescimento nas escolas é também demasiado heterogéneo para que se possa concluir que estas trazem benefícios generalizados. Importa também salientar que, muitas vezes, a mentalidade de crescimento tem sido confundida com a ideia de que aumentar o esforço é sempre suficiente para se atingir os objetivos, ignorando diferenças contextuais entre os alunos. Outra ideia errada sobre a mentalidade de crescimento é que esta significa que o esforço, mesmo que falhe, deve ser reconhecido tal como se reconhece o êxito. Pelo contrário, investigadores como Carol S. Dweck, em 2015, e Milad Memari, em 2024, têm vindo a alertar para esta «falsa» mentalidade de crescimento, que mascara problemas de aprendizagem em vez de ajudar a resolvê-los. Por exemplo, a crença de que todos os alunos têm as mesmas capacidades e de que, se todos se esforçarem de igual forma, podem atingir os mesmos objetivos mascara a necessidade de usar as estratégias de aprendizagem mais eficazes e oferecer apoio aos estudantes consoante as suas capacidades e o seu contexto.Precisamente para avaliar como o contexto dos alunos pode influenciar os efeitos da mentalidade de crescimento no seu desempenho escolar, os investigadores Pimmada Charoensilp, Hanjoe Kim e Suppanut Sriutaisuk, da Tailândia e da Coreia do Sul, examinaram se o estatuto socioeconómico influencia a relação entre a mentalidade de crescimento e a literacia matemática. No estudo, publicado na revista científica Plos One, usaram os resultados do PISA 2022 (Programme for International Student Assessment) para alunos de 15 anos em matemática, que incluem 507 588 alunos de 74 países. O PISA é uma avaliação de larga-escala do desempenho escolar, conduzida pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, que não só caracteriza os níveis de literacia dos alunos como também inclui variáveis como pensamento criativo, mentalidade de crescimento, autoeficácia e características sociodemográficas e da escola, entre outras.

Os resultados indicaram que, em 50 dos 74 países da amostra, alunos que tinham uma mentalidade de crescimento tendiam a ter melhores resultados em literacia matemática. Este foi o caso de países como Portugal ou os Estados Unidos. No entanto, em 5 países, incluindo a Polónia e as Filipinas, verificou-se a relação contrária; e em 19 países, como França, Itália, ou Grécia, a mentalidade de crescimento e a literacia matemática não estavam relacionadas. O estatuto socioeconómico dos alunos moderou a relação entre a mentalidade de crescimento e a literacia matemática em 33 países. No entanto, o efeito do estatuto socioeconómico não foi o mesmo nestas 33 nações. Em 7 delas, como a Croácia e a Sérvia, alunos de um estatuto mais elevado beneficiavam menos de uma mentalidade de crescimento do que os alunos de um estatuto mais baixo; mas, em 26 países, como a Malásia e o Qatar, eram os alunos de estatuto mais elevado que mais beneficiavam de uma mentalidade de crescimento. Em Portugal, assim como em mais 40 países, o impacto do estatuto socioeconómico na relação entre mentalidade de crescimento e literacia matemática não foi significativo.

Estes resultados apontam, mais uma vez, para uma grande heterogeneidade do efeito da mentalidade de crescimento no desempenho escolar, neste caso especificamente na literacia matemática. No entanto, mostram também que na maioria dos países o efeito é positivo ou nulo, o que poderá justificar um investimento na promoção de mentalidades de crescimento. Ainda assim, na maioria dos países em que o estatuto socioeconómico afetou a relação entre mentalidade de crescimento e literacia matemática, foram os alunos com estatuto mais elevado que mais beneficiaram por terem uma mentalidade de crescimento.

Tal efeito contradiz alguns estudos anteriores, feitos sobretudo com alunos estado-unidenses, mas é consistente com outras investigações que indicaram igual padrão de resultados nas mesmas áreas geográficas: Sudeste Asiático e América Latina. Nos países onde se verificou este efeito existem grandes desigualdades socioeconómicas, e os autores do artigo sugerem que, nestes casos, os alunos mais pobres não têm as oportunidades e o suporte necessários para que beneficiem de uma mentalidade de crescimento. Pelo contrário, em países mais desenvolvidos e com sistemas educativos que privilegiam a equidade, como a Alemanha e a Áustria, os alunos com um estatuto socioeconómico mais baixo foram os que mais beneficiaram de uma mentalidade de crescimento.

O estudo que analisamos neste texto dá um contributo importante para a compreensão da mentalidade de crescimento e de como as variáveis contextuais influenciam o impacto que esta pode ter na literacia matemática. Apesar de ter várias limitações, como, por exemplo, o facto de a mentalidade de crescimento ser medida apenas por um item, e de não permitir o estabelecimento de relações causais entre as variáveis estudadas, a investigação indica que as intervenções para o aumento da mentalidade de crescimento só serão bem-sucedidas se se garantir que todos os alunos têm acesso a oportunidades de aprendizagem semelhantes. Isto é, uma mentalidade de crescimento só resulta em maior êxito escolar num contexto em que se permite a maleabilidade da inteligência e das capacidades cognitivas.

Ludmila Nunes

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