terça-feira, 21 de abril de 2026

Do "burrinho" autista ao jovem pintor: A infância e a adolescência foram difíceis para 'JP', que se refugiou no desenho

“Eu não acho que alguém com autismo não seja normal. Cada um tem a sua capacidade. Eu pinto e faço o que posso para ser bom”, conta João Pedro, de S. Pedro do Sul, mais conhecido como ‘JP’. Aos 24 anos é autónomo depois de um diagnóstico no espetro do autismo quando tinha apenas 5. Mas nem sempre foi assim.

Em adolescente sofreu de bullying. “Tentavam fazer pouco de mim, mas nunca liguei porque não me importo. Chamavam-me ‘burrinho’ e puxavam-me as calças para baixo”, desvaloriza agora. “Naquela altura, regiões como São Pedro do Sul ou Santa Cruz, não sabiam como lidar comigo e puseram-me numa sala à parte com alguns miúdos com problemas”, adianta referindo que diziam que “seria difícil interagir ou socializar”.

“Ele sempre teve dificuldades em lidar com contextos sociais diferentes, o olhar no olhos...”, esclarece Joana Proença, terapeuta do jovem. “Na escola não teve grande apoio e isso atrasou o processo”, adianta. Até ao secundário ‘JP’ nunca fez exames ou testes, mas já em criança pensava: “Mas é sempre isto? Não consigo fazer mais?”

Foi no desenho que encontrou refúgio. Mas foi preciso mudar de ares. No secundário foi para uma escola com artes, em Viseu, conta a responsável pela Associação Refúgio do Né, que o jovem ainda frequenta. “Ali fui tratado como um aluno comum. Tinha exames e testes. Se tirasse ‘nega’ estava lixado”, diz ‘JP’, entre risos, adiantando: Quando vi que tinha geometria pensei: ‘Em que buraco é que me meti?’ No exame nacional, à disciplina de desenho tirou 19 valores (em 20) e o curso de artes plásticas e multimédia foi concluído com sucesso.

Hoje, de ‘fato macaco’ sujo de tinta, com a música a tocar e de pincel na mão, expressa os seus sentimentos e até ganha dinheiro com a sua arte.

“Deixei o cabelo e a barba crescerem, quando o meu pai decidiu tirar a vida a ele próprio”, lamenta. “Ainda hoje penso que vou ouvi-lo a chegar com a sua moto”, completa. “É engraçado. Foi nessa altura, em que estava tão mal, que comecei a evoluir. Foi a forma de lidar com o luto. Talvez o deixe orgulhoso, onde quer que esteja”, diz, enquanto mostra a pintura que está a fazer no muro de um estaleiro.

‘JP’ vive com o irmão mais velho, mas é ele que tem a responsabilidade de tratar da casa. Ainda faz 10 quilómetros a pé, diariamente, para apanhar o autocarro até Viseu, mas já passou no exame escrito para tirar a carta e o exame de condução está para breve.

Fonte: CM

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