sábado, 25 de abril de 2026

"Educação de surdos: inclusão que começa na língua"


Assinalado a 23 de abril, o Dia Nacional da Educação de Surdos traz para o centro do debate o modo como o sistema educativo responde à diversidade linguística desta população. Num artigo de Mara Moita, coordenadora do Mestrado em Língua Gestual Portuguesa e Educação de Surdos da Faculdade de Ciências da Saúde e Enfermagem da Universidade Católica Portuguesa, defende-se que a inclusão começa na língua e exige uma aplicação efetiva do modelo bilingue, ainda longe de estar plenamente concretizado.

Assinalar o Dia Nacional da Educação de Surdos é um convite a repensar, com compromisso, como o sistema educativo responde à diversidade linguística das pessoas surdas. Em Portugal, a educação de surdos está enquadrada num modelo bilingue que reconhece a Língua Gestual Portuguesa (LGP) como primeira língua e o português escrito como segunda (Decreto-Lei n.º 3/2008). No entanto, entre o princípio e a prática persistem desafios que importa tornar visíveis.

Uma educação verdadeiramente inclusiva começa pelo reconhecimento das necessidades comunicativas de cada aluno surdo. Não existe um perfil único. Existem níveis variados de proficiência em LGP e em português, diferentes experiências educativas e distintos graus de surdez. A população surda é, por isso, profundamente heterogénea. Inclui também crianças com implantes cocleares que, apesar de poderem beneficiar de acesso auditivo, continuam a apresentar necessidades específicas e dificuldades próprias no desenvolvimento linguístico oral e académico. Ignorar esta diversidade é comprometer o acesso ao currículo e, em última análise, o direito à aprendizagem.

Sabemos que quando a língua do aluno é integrada no processo de ensino-aprendizagem, cria-se um ambiente mais equitativo, onde o conhecimento pode ser construído com significado. Daqui decorre a necessidade urgente de desenvolver materiais didáticos bilingues, pensados de raiz para os nossos alunos surdos, e não meras adaptações tardias de conteúdos concebidos para ouvintes.

A LGP deve assumir-se plenamente como língua de trabalho em todas as disciplinas, e não apenas como recurso pontual. São vários os estudos científicos que nos demonstram que um bom conhecimento em língua gestual promove melhores resultados de literacia, através da transferência de vocabulário, compreensão de estruturas e capacidade narrativa. É, por isso, crucial a criação de manuais específicos para o ensino do português escrito como segunda língua, adequados às características sensoriais, linguísticas e cognitivas da população surda, cuja relação com a língua escrita se constrói a partir da perceção visual.

O avanço do conhecimento nas áreas da LGP e da educação de surdos é indispensável para criar e inovar metodologias, melhorar práticas e fundamentar políticas. A investigação assume, assim, um papel central. Neste domínio, destaca-se a importância dos ciclos de estudos avançados e da formação contínua que articulem competências linguísticas em LGP com estratégias didáticas inclusivas, qualificando os profissionais para uma atuação informada e sensível às especificidades dos alunos surdos e respondendo às exigências do ensino bilingue.

Celebrar a educação de surdos implica, assim, um compromisso coletivo: reconhecer a língua, respeitar a diversidade, formar profissionais e investir em conhecimento. Só assim a inclusão deixará de ser um ideal e passará a ser uma realidade vivida, dentro das nossas escolas.

Fonte: Sapo por indicação de Livresco

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