O sistema educativo marroquino vive, há alguns anos, uma crise profunda, que se traduz num domínio fraco das matérias fundamentais numa grande proporção de alunos. Os dados de 2019 do Programa Nacional de Avaliação de Conhecimentos (na sigla francesa, PNEA) mostram que 70% dos alunos do 1.º ciclo não dominam os conhecimentos básicos, e os resultados internacionais do PISA 2018 situam Marrocos no 75.º lugar, num total de 79 países. Face a esta situação preocupante, o Ministério da Educação do País lançou a Feuille de route 2022‑2026, uma ambiciosa estratégia para transformar a escola pública. No centro desta reforma encontra-se o Programa das Escolas Pioneiras (PEP), aplicado, no ano letivo 2023/2024, em 626 escolas do 1.º ciclo com o objetivo de melhorar rapidamente a aprendizagem de 322 mil alunos.
O PEP baseia-se em duas abordagens pedagógicas complementares, ambas fundadas em dados comprovados. A primeira, Teaching at the Right Level (TaRL), visa preencher lacunas graves acumuladas, reagrupando os alunos, nas seis primeiras semanas do ano letivo, não de acordo com a idade, mas com o seu real grau de conhecimento. Esta medida de correção intensiva recorre a atividades estruturadas e motivadoras para reforçar conhecimentos básicos em Árabe, Francês e Matemática. A segunda abordagem, o ensino explícito, apoia-se em aulas com guião, que acompanham o professor na apresentação dos conceitos, na modelação de estratégias, na prática orientada e na resposta corretiva. Esta pedagogia estruturada procura garantir uma progressão clara e uma sólida compreensão dos novos conhecimentos. Todo este dispositivo parte da formação sucessiva de professores e de inspetores, acompanhada por peritos internacionais (Gauthier et Bissonnette, 2025).
Os resultados do PEP assentam em quatro avaliações independentes, realizadas ao longo do ano letivo 2023/2024. O estudo Sindi analisou o impacto da abordagem TaRL em 63 mil alunos, e o estudo quase experimental do J‑PAL comparou 138 escolas que aplicaram o PEP em estabelecimentos de controlo. O Observatório Nacional do Desenvolvimento Humano (ONDH) recolheu ainda, em paralelo, dados das perceções de professores, pais e alunos, e o Conselho Superior de Educação, Formação e Investigação Científica (CSEFRS) avaliou a conformidade da execução. A soma destas avaliações converge numa descoberta notável: o PEP produziu ganhos de aprendizagem de uma dimensão raras vezes vista em países de rendimento fraco a médio.
O referido estudo do J‑PAL revela um efeito com a dimensão global de 0,90 de desvio-padrão, o que significa que o aluno médio das escolas ao abrigo do PEP ultrapassa 82% dos alunos das escolas que não o aplicaram. O estudo Sindi mostra que o índice de proficiência quadruplicou depois da medida de correção intensiva TaRL, passando de 20% para 80%. Estes resultados superam os de programas internacionais de referência e beneficiam quer os alunos com dificuldades, quer os alunos mais avançados, o que mostra um impacto fortemente igualitário.
Os intervenientes no terreno expressam igualmente a adesão ao programa. De acordo com o ONDH, 85% dos professores dizem-se satisfeitos com as aulas sujeitas a guião, pois clarificam as expectativas e tornam a preparação dos cursos mais fácil, ainda que 60% salientem a maior carga de trabalho. Os alunos, em contrapartida, indicam maior participação, graças a atividades interativas e à clareza das explicações. O CSEFRS atribuiu uma classificação de conformidade de 79/100 na aplicação do programa, confirmando a adoção das práticas, apesar de ainda haver desafios em certas zonas rurais, nomeadamente em infraestruturas e material informático.
Vários fatores estratégicos explicam o êxito do PEP. Primeiro, o recurso a métodos pedagógicos validados pela ciência, tais como o ensino explícito e a abordagem TaRL. Depois, um modelo de formação sucessiva garante que as práticas são transmitidas de maneira uniforme, ao passo que os guiões das aulas reduziram a carga cognitiva dos professores e levaram-nos a aderir a eles. Por fim, o controlo feito através dos dados obtidos, graças sobretudo a uma plataforma denominada MASSAR , permitiu um acompanhamento rigoroso e rápidos ajustes. A MASSAR desempenha um papel essencial na otimização da administração escolar no ministério e na melhoria da experiência educativa quer nos professores, quer nos alunos.s fatores explicam o êxito do PEP: o recurso a métodos pedagógicos
Mesmo assim, a generalização do programa, até 2028, à totalidade do País levanta desafios maiores. A formação de um número crescente de professores arrisca-se a diminuir a qualidade da própria formação, se esta não for rigorosamente supervisionada. De facto, a formação universitária inicial continua a ser influenciada em grande medida por abordagens construtivistas, pouco compatíveis com o ensino explícito.
Note-se que, no sistema educativo marroquino, os alunos frequentam seis anos de ensino básico (école), três anos de ensino secundário inferior (collège) e três anos de ensino secundário superior (lycée).
O alargamento do modelo ao ensino secundário, no quadro das Escolas Pioneiras, suscita problemas associados, em alguns meios, à gestão dos comportamentos em sala de aula. Além disso, as incertezas quanto ao financiamento internacional e as tensões políticas, com o aproximar das eleições de 2026, podem fragilizar a longo prazo a reforma.
Para consolidar os ganhos conseguidos com o PEP, será essencial integrar o ensino explícito e a abordagem TaRL na formação inicial dos professores, garantir financiamento através de parcerias diversas, manter um acompanhamento rigoroso dos dados através da plataforma MASSAR e melhorar as infraestruturas digitais, sobretudo nas zonas rurais.
De facto, o Programa das Escolas Pioneiras mostra que uma abordagem estruturada com base em evidência científica pode transformar rapidamente as aprendizagens de um grande número de alunos, e constitui um modelo inspirador para outros sistemas educativos que enfrentem os mesmos desafios.
Clermont Gauthier e Steve Bissonnette
Fonte: Iniciativa Educação
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