quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A austeridade da integração no mercado de trabalho

Segue um texto, recebido por correio eletrónico, de um pai cujo filho, com Epilepsia (crises tipo ausência), está desempregado, apesar da formação que possui. O desabafo expõe as fragilidades do sistema e os dramas vividos na primeira pessoa.

O meu filho, tem 28 anos, é Mestre em Gestão de Recursos Humanos (2011) e Licenciado em Economia (2009), pela Universidade Técnica de Lisboa-ISEG. É também associado da Associação Portuguesa de Epilepsia (EPI), que está a tentar ajudá-lo através do Gabinete Pró-Emprego. Encontra-se também inscrito no IEFP, desde 2009, ano em que acabou a licenciatura.
A vida do meu filho tem sido uma decepção enorme. Envio de muitos currículos e entrevistas sem êxito, e quando existe entrevista a resposta é invariavelmente sempre a mesma: “as provas foram boas, mas não foi o escolhido”. Na verdade, nunca lhe dizem o porquê “da não selecção”, se não esteve à altura do exigido, se outros candidatos eram mais apelativos, ou se a epilepsia foi determinante para não o seleccionarem, apesar de saber que não é nenhum factor de bloqueio, de aplicação prática das suas competências humanas e profissionais.
Por seriedade, não pode esconder que tem epilepsia. Está controlada apesar das vulnerabilidades decorrentes.
Repare que, para tantos jovens de hoje, existe cada vez mais um adiamento prolongado na integração e participação na vida activa. Estudaram, desenvolveram aptidões intelectuais e cívicas em instituições de ensino consensualmente credíveis. Por isso, sentem que o desemprego a que estão obrigados é uma provação e isso desvirtua-os como pessoas. Na verdade, a imagem criada de uma juventude sem responsabilidades, sem laços de compromisso e sem solidariedade, é intolerável, levando a que os jovens vivam cada vez mais um adiamento angustiante e restrito, no acesso ao mercado de trabalho.
(...) todos somos feitos de histórias. Histórias boas, difíceis, engraçadas, tristes, diferentes histórias. No entanto, a história do meu filho já não depende só da sua vontade, das suas competências académicas, das qualidades pessoais, ou da determinação que é necessário ter para enfrentar sozinho estes complicados tempos, e se a vida está complicada para os jovens, imagine para quem tem alguma incapacidade por pequena que ela seja.

1 comentário:

Mary Brown disse...

Deste texto sobressai a angustia de um pai que não consegue ver o seu filho conseguir o lugar no mercado de trabalho pelo qual lutou durante muitos anos. É impossível que uma pessoa que anda há 5 anos à procura de trabalho mantenha a esperança e até os conhecimentos que adquiriu no curso. O tempo desanima e com o desânimo acabamos por perder o incentivo e com este vai-se diluindo a auto-estima. Pena que o país não se aperceba dos problemas que estão hoje a ser criados e que acabarão por estoirar no futuro. Este pai diz que o filho, por seriedade, não esconde que tem epilepsia mas, eu acho, que este pormenor não devia ser referido porque não interfere na produção. Penso que este pormenor pertence à vida privada e num mundo onde as oportunidades são escassas, onde o jogo de interesses vale mais que as capacidades, onde a cunha dá cartas ao mérito não dizer que se tem epilepsia é falta de seriedade? Pelo que li, apesar da descrença do pai no futuro, este filho tem o seu apoio, que será uma grande ajuda para enfrentar a desilusão que a espera cria. Que podemos esperar de um país que maltrata os seus velhos e desaproveita a juventude? Espero que este jovem consiga, o mais depressa possível, encontrar o emprego que necessita porque neste caso tempo é saúde mental que temos que manter para viver felizes. Os meus cumprimentos aos dois.