Querida avó,
Falemos do Dia da Criança, que foi celebrado no início da semana. Existem duas espécies de miúdos: os de hoje e nós, sobreviventes dos anos 70 e 80.
Hoje uma criança cai da bicicleta e aparecem três psicólogos, um osteopata e um grupo de WhatsApp chamado “Pais unidos pela segurança das criaturas aventureiras”. Quando eu era criança, caíamos da bicicleta, olhávamos para os cotovelos e joelhos esfolados e ouvíamos dos pais:
- Consegues andar?
- Consigo!
- Então mexe-te!
Nós aprendíamos a ser crianças na rua. Hoje aprendem agarrados a um telemóvel. Nós tínhamos “tempo de antena”. Eles têm “tempo de ecrã”.
A rua era a nossa casa. Brincávamos com berlindes até perdermos as impressões digitais do polegar. E a comida?
As chuchas dos bebés eram enfiadas em açúcar. Comíamos Bombocas e Bollycaos como se não houvesse amanhã.
Davam-nos pirolitos (refrigerante gaseificado cuja garrafa de vidro continha um berlinde), imagina.
Hoje lê-se o rótulo: “Sem glúten? Sem lactose? Sem conservantes?”… sem interesse. Nós comíamos qualquer coisa e sobrevivemos.
A televisão basicamente dizia: «Boa noite portugueses. Vão dormir que não temos mais nada», e acabava a emissão.
Vimos os desgraçados do Bambi, da Heidi do Marco… e não ficámos traumatizados para sempre. Hoje os desenhos animados têm consultores emocionais.
Bebíamos água da mangueira. Andávamos em carros sem cinto. Brincávamos perto de obras.
Aprendíamos coisas importantes: a cair, a partilhar, a inventar brincadeiras, a fazer amigos sem Wi-Fi.
E talvez seja isso o mais bonito do Dia da Criança: lembrarmo-nos que ser criança não era ter tudo.
Era transformar nada… em uma tarde inteira de felicidade.
Hoje, quando vejo uma criança a reclamar porque o tablet está lento… apetece-me entregar-lhe um berlinde e dizer:
«Vai. Descobre a verdadeira tecnologia».
Bjs
Querido neto,
Já alguma vez ouviste falar da italiana, Maria Montessori (1870-1952)? Teve uma infância complicada, pois os pais sempre se opuseram a que ela estudasse. Para quê ir à escola? Ainda se fosse rapaz…
Mas ela, com a sua força e garra, conseguiu que a deixassem fazer o ensino secundário. E, apesar da grande resistência paterna, matriculou-se na Universidade de Medicina.
Muitas vezes, quando ia a entrar para as aulas, ouvia as pessoas cá fora a chamarem-lhe «desavergonhada» - por frequentar um curso em que só andavam homens.
Foi a terceira mulher italiana a formar-se em Medicina, o que não terá servido de muito na prática, porque as mulheres não podiam exercer o curso, dado que lhes era interdito olhar para corpos de homens nus.
Optou então por se dedicar ao ramo da psiquiatria, para observar de perto como eram tratadas as crianças pobres.
E o que viu aterrou-a. As crianças eram muito maltratadas. Decidiu que a sua vida se faria por aí. Leu muito, estudou muito e começou a tentar educá-las.
Cedo percebeu que com a força e a imposição de normas rígidas não se podem levar as crianças a aprender, mas sim pelo entusiasmo, pela autoconfiança, pela sua própria independência.
Punha em prática tudo o que aprendia e começou a fundar casas para essas crianças por todo o país. Casas onde ia continuamente, e onde dava conferências e promovia encontros com professores.
Com o rebentar da guerra, a sua vida fez-se a fugir de sítios onde o fascismo se instalava. Andou muito pela Índia e pela Holanda, país onde viria a falecer, com mais de 80 anos.
Só um apontamento um pouco estranho e que ela talvez não entendesse muito bem: as escolas que fundou e dirigiu eram todas vocacionadas para crianças pobres e desprotegidas - e atualmente são apenas frequentadas por crianças ricas e privilegiadas.
Também em Portugal existem algumas escolas e creches que seguem o Método Montessori. Focam-se na independência, no respeito pelo ritmo da criança e na aprendizagem prática.
Bjs
Fonte: Sol por indicação de Livresco
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