terça-feira, 12 de agosto de 2008

Primeira escola para sobredotados gera dúvidas

A partir de Setembro, Portimão vai ter uma escola do 1.º ciclo onde as crianças podem aprender xadrez e filosofia e cada uma tem direito a um computador portátil. Esta é a primeira escola para sobredotados do País, que já tem inscritas 18 crianças e pretende arrancar com 36, apesar da demora no licenciamento do projecto por parte da Direcção Regional de Educação do Algarve (DREA). Os responsáveis defendem um ensino especializado para as crianças sobredotadas, mas alguns especialistas questionam o isolamento social a que estas podem estar sujeitas.
O projecto é da responsabilidade da Universidade da Criança e o objectivo é "estimular os alunos para que sejam melhores", explica o presidente da Associação Nacional de Pedagogia da Universidade da Criança (APUC), Ricardo Monteiro. Os programas curriculares estão de acordo com o plano nacional para o primeiro ciclo. Mas cada disciplina vai ter o seu professor, já que "somos apologistas do professor especialista", acrescenta. Os alunos vão ser integrados em dois grupos: o Projecto Leonardo Da Vinci e o Projecto Einstein. O primeiro destina-se às crianças com competências artísticas e o segundo às que têm especial aptidão para as áreas científicas. A maioria delas frequenta já a Universidade da Criança.
Além das disciplinas comuns, estas crianças com um elevado potencial vão aprender xadrez, para estimular a capacidade de concentração e aprenderem a respeitar o adversário, e filosofia, ou pelo menos, vão aprender a fazê-la estimulando a agilidade mental e o sistema emocional, adianta Ricardo Monteiro. Estes conteúdos são completados pelo estudo de duas línguas estrangeiras e de música.
Para que possam desenvolver as suas capacidades, as salas de aulas também se adaptam às suas necessidades. Tanto alunos como professores vão ter na sua mesa um computador portátil. As salas estão também equipadas com quadros interactivos, mesas e cadeiras que se comprimem permitindo libertar o espaço para outras actividades.
A escola não se destina apenas a pequenos génios, mas a todas as crianças que revelem uma especial aptidão. Cada aluno tem um programa diferente adaptado às suas características e é submetido a "uma aplicação de escalas de inteligência", frisa o dirigente da APUC. Esta formação custa entre 375 e 500 euros por mês.
Quanto às dificuldades em conseguir licenciamento a tempo por parte da DREA, Ricardo Monteiro, acredita que "existe uma certa recusa em aceitar a existência de escolas para crianças com talentos especiais". O DN tentou, sem êxito, obter uma reacção da DREA.
A ideia de juntar os sobredotados para terem um ensino especial também levanta algumas reservas. É o caso de Helena Serra, presidente da Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas (APCS), que afirma: "não temos nada contra o ensino enriquecido, mas tem que se garantir um contexto de socialização considerado normal". Para Helena Serra, mãe de um sobredotado, estes alunos devem ter um ensino adequado às suas capacidades, mas devem estar com outras crianças nas restantes actividades.
A professora lembra que em Portugal até existe legislação para atender às necessidades dos sobredotados, com a adopção do plano de desenvolvimento curricular. "O problema é que depois falta um conjunto de saberes no terreno e os professores não sabem lidar com estas crianças", critica a presidente da APCS. Existem, no País, entre 35 mil a 50 mil sobredotados, segundo as estimativas da Universidade da Criança.
COMENTÁRIO:
De facto, a legislação contempla a existência de mecanismos de acompanhamento de alunos sobredotados nas escolas regulares. No entanto, como muito bem refere Helena Serra, falta um conjunto de saberes e os docentes nem sempre sabem lidar com este tipo de alunos.
Mas, pergunto, porque não são criadas as condições para que a escola regular possa, de forma eficaz, responder a este tipo de alunos? Que acontece àqueles cujas famílias não podem pagar as "propinas" da escola para sobredotados?

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