terça-feira, 11 de janeiro de 2022

NÃO HÁ ESCOLA CONTRA A ESCOLA

Para quem é a escola? É para os jovens, as crianças e os pais que todos os dias a procuram; para a população adulta que quer saber mais; para os desajustados que desejam ser reconvertidos; para os arrependidos que cobiçam reiniciar um novo ciclo da sua vida; para os que não tiveram oportunidade (porque a vida também sabe ser madrasta) e agora buscam o alimento do sucesso; para a sociedade e para o Estado que já não sabem (e não podem…) viver sem ela e é também para os professores e educadores que são a alma, o sal e o sangue de que se faz o dia-a-dia dessa grande construção colectiva.
A Escola é uma organização muito complexa… É paixão e movimento perpétuo. É atracção e remorso. É liberdade e prisão de sentimentos contraditórios. É mescla de angústias e espontâneas euforias. É confluência e rejeição. É orgulho e acanhamento. É todos e ninguém. É nome e chamamento. É hoje um dar e amanhã um rogar. É promoção e igualdade. É mérito e inveja. É jogo e trabalho. É esforço, suor e emancipação. É convicção e espontaneidade. É responsabilidade e comprometimento com todos os futuros. É passado e é presente. É a chave que abre todas as portas das oportunidades perdidas. É acolhimento, aconchego, colo e terapia. É a estrada do êxito, mas também um percurso inacabado, que nos obriga a voltar lá sempre, num fluxo de eterno retorno.
Porém, também acontece muitas vezes ser o pião das nicas, o bombo da festa, o bode expiatório, sempre e quando a certos dirigentes dá o jeito, ou lhes apetece.
Sobre a Escola há alguns responsáveis institucionais que aprenderam a mentir: sabem que ainda não foi inventada qualquer instituição que a possa substituir. Sabem ainda que os professores são os grandes construtores de todos os amanhãs. E, por isso, têm medo. Medo, porque a Escola é das poucas organizações que todos os políticos conhecem bem. Habituaram-se a observá-la por dentro, desde a mais tenra idade. E, por essa razão, sabem-lhe o poder e a fatalidade de não ser dispensável, silenciável, transferível, aposentável, exonerável ou extinguível.
Em relação à Escola e aos professores, a toda a hora o Estado, a sociedade e as famílias se descartam e para aí passam cada vez mais responsabilidades que não são capazes (ou por comodismo não querem…) assumir. Hoje, a Escola obriga-se a prevenir a toxicodependência, a educar para a cidadania, a formar para o empreendedorismo, a promover uma cultura ecológica e de defesa do meio ambiente, a motivar para a prevenção rodoviária, a transmitir princípios de educação sexual, a desenvolver hábitos alimentares saudáveis, a prevenir a Sida e outras doenças sexualmente transmissíveis, a utilizar as novas tecnologias da comunicação e da informação, a combater a violência, o racismo e o belicismo, a reconhecer as vantagens do multiculturalismo, a impregnar os jovens de valores socialmente relevantes, a prepará-los para enfrentarem com sucesso a globalização e a sociedade do conhecimento, e sabe-se lá mais o quê…
Acham pouco? Então tentem fazer mais e melhor… É que não há Escola contra a Escola. Não há progresso que se trilhe contra os profissionais da educação. Não há políticas educativas sérias a gosto de birras e conjunturas que alimentam os egos pessoais de alguns decisores institucionais. E não há medidas que tenham futuro se não galvanizarem na sua aplicação os principais agentes das mudanças educativas: os educadores e os professores.

João Ruivo

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

“Vou contar até 10”: estratégias de regulação emocional para lidar com as “birras”

Regular as emoções e manter o nosso comportamento organizado em situações emocionalmente desafiantes nem sempre é tarefa fácil, muito menos na infância! Nesta fase as crianças ainda estão a desenvolver a capacidade de regulação emocional, que não é autónoma, e a aprender junto dos adultos cuidadores estratégias para o fazerem de forma mais eficaz. Esta competência desempenha um papel crucial para um desenvolvimento socioemocional adequado. Contudo, ajudar as crianças a organizar as suas emoções quando experienciam “birras” pode ser muito desafiante para os pais, que relatam frequente e continuamente dificuldades em conter estas explosões emocionais e os comportamentos que lhes estão associados. Neste sentido, apresentam-se dez estratégias concretas para lidar com birras.

Valide o sentimento: a criança, quando chora por estar frustrada, não precisa de sentir mais nenhuma emoção negativa, ou seja, devemos evitar envergonhá-la ou causar medo. Em vez de dizer que “não existe um motivo para chorar”, poderá alterar o discurso para “Eu sei que te sentes chateado e não tem mal, todos nos sentimos assim por vezes”. Isto não significa que está a ceder à birra, mas sim que está a ensinar a aceitar e a lidar com aquilo que é, involuntariamente, sentido;

Evite dramatizar a situação: como dito anteriormente, importa validar as emoções, mas é importante que não coloque mais carga negativa na situação. Por exemplo, deverá reformular um discurso em que enfatize de forma negativa a situação (ex.: “O teu brinquedo partiu-se e isso é mesmo triste”) para, em alternativa, focar-se numa resposta mais empática à frustração sentida (“Sei como gostavas do teu brinquedo que se partiu”);

Permita que a criança viva a zanga, mas com segurança na relação: num momento de birra, torna-se difícil manter a calma para qualquer um dos envolvidos. No entanto, se o adulto também fizer birra (gritando, punindo ou ignorando), não haverá uma aprendizagem funcional, por parte da criança. Neste sentido, explique que não aprecia aquele comportamento, mas que está ali para a auxiliar. Seja um porto de abrigo em momentos de angústia. É importante que o seu filho não sinta que está sozinho em momentos difíceis, em que o comportamento se intensifica. Isso só iria aumentar a tensão e, em consequência, piorar a situação;

Explique que não compreende aquela linguagem: é importante demonstrar apoio, fornecendo alternativas à expressão da zanga e frustração. Uma estratégia funcional poderá passar por explicar ao seu filho que não o consegue compreender, enquanto o ouve a chorar — isto incentivará a criança a controlar-se progressivamente, de forma a conseguir expressar o que quer. Desta forma, é transmitida a mensagem de que apenas conseguirá obter o que pretende quando adotar um discurso funcional;

Adapte o seu tom de voz: enquanto o adulto tentar falar mais alto para se fazer ouvir, maior será o incentivo para o tom da conversa subir. Desta forma, adaptarmos o nosso tom de voz à criança e à situação desencadeará três funções: acalmar, fornecer um melhor modelo de regulação emocional e, por último, demonstrar à criança que não nos irá conseguir ouvir neste tom baixo, se insistir em perpetuar os gritos;

Converse sobre o assunto: quando o nível de maturidade da criança o permite, aconselha-se a questioná-la sobre que tipo de emoção está a sentir. Posteriormente, poderão pensar em conjunto sobre o que espoletou aquele momento e quais são as estratégias para o prevenir;

Pensem em conjunto nas várias soluções para o problema: este momento de aprendizagem mútua transmite a mensagem de que se preocupa com o problema que a criança tem em mãos e que a quer ajudar. Assim, o objetivo não é só que solucionem a situação, mas que se crie um momento para que a criança pense sobre o que aconteceu e sinta que, com auxílio, está a criar ferramentas para futuramente o enfrentar de forma autónoma e funcional.

Acalmar o corpo, para depois acalmar a mente: quando estamos nervosos, a frequência cardíaca aumenta e os músculos contraem-se. Assim, por exemplo, será vantajoso andar um pouco com a criança — isto libertará a tensão e permitirá relaxar o tónus muscular. Outras estratégias de respiração e relaxamento poderão funcionar, nomeadamente o conhecido exercício da “montanha da respiração”. Ressalva-se que só depois de acalmar a birra é que a criança vai ter condições para o executar;

Ensine a redirecionar as emoções negativas: outra solução eficaz poderá ser gritar para uma almofada ou apertar um peluche atribuído para o efeito — isto permitirá à criança compreender que pode sentir e expressar as suas emoções negativas, mas que não as pode redirecionar para qualquer pessoa, como os pais ou pares;

Reforce as atitudes adequadas: importar explicar que não apreciamos uma birra, mas também é importante que a criança tenha exemplos concretos do que gostamos e aceitamos. Por exemplo, num momento em que a criança consiga tolerar a frustração de forma organizada, será fundamental reforçar verbalmente essa atitude. Além do objetivo pretendido, esta ação também potenciará melhorias na autoestima.

Mas, mais importante do que cessar uma explosão emocional no momento, é primordial ensinar melhores formas de lidar com as emoções no futuro. Só assim, fruto de persistência, calma e amor, é que poderemos criar adultos responsivos e sensíveis às suas necessidades e às do outro.

Eva Pires

Fonte: Público por indicação de Livresco

sábado, 8 de janeiro de 2022

Ansiedade, depressão e até pensamentos suicidas. Como a saúde mental de toda uma geração está a ficar arruinada

São jovens, têm uma vida pela frente, mas vivem presos à ansiedade, ao stress, à pressão. A saúde mental dos adolescentes e jovens adultos vive a reboque da precariedade e da inexistência de um futuro promissor e a fatura já se começa a pagar: quase um quarto dos portugueses entre os 15 e os 34 anos já pensou ou tentou suicidar-se e 26% já tomou medicamentos para a ansiedade. Este tem de ser um tema de conversa em 2022, dizem os especialistas

“É a sensação de não conseguires mudar a tua realidade, não tens força, mas tens de continuar a viver”. Foi assim que Ana Patrícia Cardoso passou os seus primeiros anos de vida adulta, uma forma de estar que se arrastou e com ela levou o ânimo, o propósito, o bem-estar.

Um emprego precário, uma vida de excessos, relações amorosas sem futuro e amizades tóxicas foram a gota de água, o cocktail explosivo que levaram a produtora de conteúdos ao limite, já ele estimulado por uma ansiedade anteriormente diagnosticada e um alcoolismo que se fez sobressair nos momentos mais difíceis. “Quando se tem depressão ou burnout temos de nos agarrar a alguma coisa que faça parar de doer, que nos faça sair anestesiado e o álcool pode ajudar”, reconhece Ana Patrícia Cardoso de 34 anos.

A saúde mental tem vindo a ser tema de debate nos últimos anos - e figurou mesmo na mensagem de Natal de Marcelo Rebelo de Sousa -, uma conversa que acontece a dois ritmos e que é ainda muito sussurrada, embora as redes sociais tenham ajudado a trazer o tema para o leque de preocupações um pouco por todo o mundo.

Segundo os dados recentemente apresentados pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) no retrato Os jovens em Portugal, hoje: Quem são, que hábitos têm, o que pensam e o que sentem, coordenado por Laura Sagnier e Alex Morell, a saúde mental dos jovens portugueses precisa de mais atenção. Dizem os dados que 12% dos jovens entre os 15 e os 34 anos já auto-infligiram lesões corporais, 5% sofreram de transtornos alimentares e mais de metade está insatisfeito com o próprio corpo. Mas as questões da saúde mental não se ficam por aqui: 30% já tomaram medicamentos para o sono e 26% para a ansiedade e depressão.

A pressão é um dos fatores em jogo e aquele que, segundo os especialistas, mais peso tem desde cedo: pressão para ter boas notas, pressão para não desiludir os pais, pressão para arranjar um emprego, pressão para ser um adulto bem-sucedido.

“Ora, isto nem sempre acontece e gera uma enorme ansiedade, frustração e desânimo. Os nossos jovens têm de decidir qual o curso a seguir nos seus estudos quando têm apenas 15 anos e muitos deles não sabem que curso escolher e o que fazer. No entanto, para responder às expectativas familiares e sociais acabam num curso que não lhes diz nada; desistem e sentem-se desadaptados e vazios”, diz Maria Gouveia, psicoterapeuta individual e terapeuta familiar e de casal e também professora no ISPA-Instituto Universitário.

A precariedade laboral, que impede a progressão de carreira e qualquer aumento salarial, traz, a reboque, a dificuldade em sair de casa dos pais e até a de construir uma família. Esta realidade em que vivem muitos jovens portugueses é um dos principais aspetos destacados pelo estudo da FFMS e apontado pelos especialistas entrevistados pela CNN Portugal como gatilho para uma saúde mental mais frágil no começo da vida adulta.

“Passas os vintes em constante precariedade, a questionar o teu valor, com chefias que te fazem chegar ao limite físico e emocional. Somos uma geração que chega a um ponto em que, com esta idade, não está em segurança, sobretudo se estiveres sozinha. E isto é triste”, lamenta Ana Patrícia.

Mas o começo da vida laboral é apenas a ponta de um icebergue que vai crescendo submerso desde os tempos da escola. “A minha ansiedade tem a ver com a aprovação de terceiros e de não me sentir bem comigo própria, querer atingir a perfeição”, conta Maria do Carmo Candeias, de 25 anos. “Desde que tenho memória que tenho ansiedade bastante severa, principalmente relacionada com questões escolares, momentos de avaliação. Senti desde muito pequena a pressão de ser perfeita, o meu valor dependia da aprovação de terceiros”, lamenta.

“A pressão é uma questão muito pertinente e pré-pandemia. Os alunos andavam stressados com as notas, os nossos jovens eram dos que pensavam que trabalhavam para as notas, em vez de aprender”, colocando o resultado final como bitola do sucesso, afirma a professora Margarida Gaspar de Matos, psicóloga clínica e da saúde, especializada em jovens e catedrática na Universidade de Lisboa.

Para a especialista, responsável pela Task Force de Ciências Comportamentais aplicada ao contexto da pandemia de COVID-19, o sistema de ensino tem de mudar, uma vez que os alunos “não são ensinados a lidar com o fracasso e isso devia ser um papel da escola e da universidade”. Face ao insucesso, muitas vezes nas notas, “jovens ficam entre a fúria, o desespero e a depressão em vez de se sentirem estimulados”.

“Nós, enquanto sociedade, estamos a passar valores de que os jovens têm de ser os melhores e isto gera também um enorme stress e ansiedade”, lamenta Maria Gouveia, professora no ISPA-Instituto Universitário. Para a especialista, quando os jovens “não conseguem alcançar o que desejam interiorizam o sentimento de que isso acontece porque não merecem (não são merecedores de melhores resultados) e porque não têm valor enquanto pessoa”.

“Hoje há mais ansiedade em jovens porque o ambiente escolar é mais competitivo e as avaliações são standardizadas e limitativas, não avaliam determinados tipo de inteligência. As capacidades fora do que é avaliado não são tidas em conta”, lamenta Maria do Carmo Candeias, que está atualmente a fazer a sua segunda licenciatura.
A incompreensão que começa entre quem é mais próximo

Embora a ansiedade se tenha manifestado muito cedo, Maria do Carmo Candeias reconhece que a falta de informação por parte de quem a rodeava atrasou a resposta a um problema que viria a arrastar-se até aos dias de hoje.

“Os adultos à minha volta não estavam preparados para responder a isso, não tinham informação suficiente, não sabiam que o melhor era direcionar-me para terapia”, lamenta.

Mas se os adultos não compreendiam, as crianças muito menos. E Maria do Carmo sentiu na pele o estigma e até mesmo o gozo que ainda circula em torno da saúde mental. “No sétimo, oitavo ano eu era conhecida como ser a aluna nervosa, quase uma piada geral”, diz.

A psicoterapeuta e terapeuta familiar Maria Gouveia defende que é necessário um “investimento em campanhas e ações de prevenção relativamente aos comportamentos de risco”, seja nas escolas ou até mesmo junto das famílias, porque, continua, “os pais não conseguem identificar/descodificar as dificuldades/problemas dos seus filhos e os sinais de alarme (exemplos: a tristeza persistente, isolamento social, perturbações do sono e alimentares, baixo rendimento escolar abrupto, etc.). Ou ainda, quando os pais conseguem identificar os sinais de alarme, muitas vezes, também não sabem o que fazer com esse sinais, ou não os valorizam devidamente. A maioria das vezes os pais sentem-se muito sozinhos”.

Já no secundário, a ansiedade de Maria do Carmo continuou, sobretudo em momentos de pressão como os testes e exames. E, mais uma vez, ninguém à volta compreendia. “Nunca me direcionaram para serviços de psicologia, não me direcionaram para nada, os professores viam os sintomas de ansiedade e o máximo que me disseram foi para os meus pais me darem um calmante antes dos testes”, lembra.

Apesar de reconhecer que hoje o tema da saúde mental ganha um pouco mais de destaque, a estudante acredita que isso acontece apenas na esfera pública e raramente na privada, entre paredes e quando mais é necessário. “Tentava explicar o que estava na minha cabeça, que tipo de pensamentos tinha, que são pensamentos intrusivos, têm quase uma vontade própria e surgem sem querermos, e as pessoas à minha volta diziam ‘desculpa mas não consigo compreender’. Nada disto é fácil, envolve muita tentativa-erro”, desabafa a jovem natural de Elvas, mas agora a viver em Lisboa.

Também Ana Patrícia Cardoso sentiu o impacto da incompreensão, dos comentários que não resultaram em atos de ajuda. Quando percebeu que a depressão e o alcoolismo estavam a tomar as rédeas da sua vida, numa união mais poderosa do que com aquela que conseguiria lutar, a produtora de conteúdos voltou à terapia, uma casa que não lhe é estranha e que tem servido de amparo nos últimos anos. Corria o ano 2018 e o seu estado era já notório aos olhos dos outros: “as pessoas à minha volta comentavam, mas nunca no facto de eu estar doente. As pessoas não percebiam que era doença e que eu não estava a controlar a minha situação”, lamenta.

O problema que não é de hoje e que a pandemia agravou

O peso das doenças mentais é de 22,5% no total das patologias, relativamente aos anos vividos com incapacidade, adianta a Ordem dos Psicólogos Portugueses. O impacto da pandemia ainda está a ser estudado, mas os especialistas apontam para um aumento da frequência e gravidade dos problemas do foro mental.

“Há miúdos que tinham uma patologia mental que ficaram sem atendimento durante os confinamentos. Agora, há uma incidência de patologia mais pesada e sem atendimento devido. É uma situação muito desagradável”, lamenta a professora Margarida Gaspar de Matos, psicóloga clínica e de saúde. “Mesmo pessoas com grande capital interno de resiliência ficam verdadeiramente desgastadas”, continua.

E Maria do Carmo Candeias é um exemplo disso mesmo. “A pandemia, complicou bastante o TOC [transtorno obsessivo compulsivo] relacionado com a higiene”, lamenta, mas continua: “Era como se houvesse sinais de alarme a soar constantemente na minha cabeça, estava sempre em alerta, não havia um momento em que conseguia relaxar, não conseguia fazer a mais simples das ações de forma descontraída, tudo tinha um ritual”.

O transtorno obsessivo compulsivo de Maria do Carmo não apareceu apenas na pandemia, estava adormecido desde os tempos de secundário, em que episódios de acne e uma insatisfação constante com o seu rosto a faziam lavar a cara e as mãos vezes sem conta, numa ansiedade constante por limpeza.

“A ansiedade em várias faixas etárias tem crescido nestes últimos anos, sobretudo na pandemia. Há uma subida com algum impacto, alguns estudos estimam 20% de incremento de perturbações de ansiedade”, reconhece o psicólogo clínico e psicoterapeuta Nuno Mendes Duarte, também sócio-gerente e diretor clínico da Oficina de Psicologia, em Lisboa.

O impacto da covid-19 na saúde mental dos jovens é algo que a própria UNICEF diz que irá fazer-se sentir durante anos e a verdade é que o acesso a consultas de psicologia fora do âmbito privado continua a ser um dos principais calcanhares de Aquiles da saúde mental em Portugal.

“Há uma preocupação que tem vindo a ser veiculada pelos psicólogos que é a dificuldade de acesso a serviços de psicologia que não sejam no privado”, diz Nuno Mendes Duarte, apontando este como um dos entraves à procura de ajuda profissionalizada e atempada, dois fatores fundamentais para o correto diagnóstico e tratamento. “A resposta no SNS é manifestamente insuficiente”, frisa.

Para a professora Maria Gouveia, a solução passa pela aposta, seja na prevenção, como nas relações familiares, um pilar muitas vezes inexistente. “O serviço público de saúde mental tem de funcionar com o objetivo de resolver os problemas e não apenas de atenuar sintomas. A resolução dos problemas tem de ser feita através de mudanças políticas, económicas e sociais de modo a que seja possível a prevenção da doença mental”, diz, continuando: “é importante também referir que as famílias precisam de ter mais tempo de qualidade com os seus filhos para que possam desenvolver uma comunicação respeitosa e positiva, um clima de coesão e cooperação entre todos”.

Olhando para o impacto da pandemia, que ainda hoje se faz sentir aos mais variados níveis, a professora Margarida Gaspar de Matos reconhece ainda que “temos de aprender a lidar com a incerteza, mas com uma incerteza que tem de ser prudente”, uma espécie de “flexibilidade psicológica”, que é “como ter um conjunto de propostas que nos protejam do ponto de vista psicológico e físico” face ao que nos rodeia.

O estigma que ainda existe, até mesmo entre quem precisa de ajuda

“Muitas vezes, mesmo quando existe psicopatologia o pedido de ajuda a profissionais de saúde é tardio e o diagnóstico não é feito atempadamente”, diz Maria Gouveia, Psicoterapeuta individual e terapeuta familiar e de casal.

No caso de Maria do Carmo Candeias, foi a mãe quem deu o passo, mas já a jovem estava na faculdade. “No final do segundo ano já estava num estado muito mau e foi a minha mãe que finalmente me marcou uma consulta com uma psicóloga e comecei a ter psicoterapia, mas não comecei com medicação, tinha uma ideia errada de medicação, talvez baseada em preconceitos, também com medo que mudasse algo em mim, a minha personalidade, tinha uma aversão enorme à medicação”.

Essa aversão, reconhece, é um espelho da forma como a sociedade encara a saúde mental e as necessidades de tratamento, uma visão redutora que também tinham as pessoas que lhe eram próximas. “Há muito preconceito e estereótipo em relação a isso, vejo nas pessoas à minha volta, há muito tabu, sobretudo relacionado com o tomar medicamentos”, diz.

Mas foi a inclusão de medicação no seu estilo de vida, já com o devido acompanhamento, que devolveu algum ânimo e estabilidade a Maria do Carmo. “A minha qualidade de vida era de tal modo inexistente que pensei que tinha de tentar mais. Falei com o médico acerca das minhas preocupações, acerca dos medicamentos, um antidepressivo que se dá para TOC. Comecei a tomar os medicamentos e foi a junção da terapia e dos medicamentos que me fez melhorar e devolveu uma grande qualidade de vida”.

Para Ana Patrícia Cardoso é fundamental “falar abertamente” sobre saúde mental, adições, estilos de vida. “Sim, isto aconteceu comigo, mas sou uma pessoa normal, estou é doente. Lidei com muito julgamento, pessoas que diziam que não sabiam que eu estava assim, claro que não sabiam, porque não temos ferramentas para lidar”, reconhece a produtora de conteúdos.

“Devíamos fazer terapia como prevenção, há sempre algo para desabafar, construir e desconstruir”, diz, frisando que as conversas com os amigos são importantes, mas que esse não deve ser o caminho.

O tema da saúde mental deve ser levado mais a sério e a professora Maria Gouveia defende que tanto “a questão da saúde mental dos jovens, tal como muitos dos seus comportamentos de risco têm de ser considerados como questões de saúde pública”.

“Um estudo meu e de uma aluna minha de doutoramento, muito recente, mostra que os nossos jovens com comportamentos autolesivos (são comportamentos auto-dirigidos com o intuito de lesionar o próprio corpo e que têm sempre subjacente um enorme sofrimento psicológico) apresentam vários motivos para não pedir ajuda: vergonha, medo de não serem compreendidos, não querem desiludir ou sobrecarregar os pais, estigma social (receio de serem considerados loucos) e a ilusão de que vão conseguir resolver os seus problemas sozinhos”, explica, reconhecendo que “pedir ajuda a um profissional de saúde ainda, muitas vezes, é considerado como uma fraqueza”. E é este estigma que deve cair por terra, defende. “Pedir ajuda, quando ela é necessária, é um sinal de força e não de fraqueza. Esta crença também precisa de ser alterada”.
O tema tabu que merece atenção

Segundo os dados do retrato levado a cabo pela FFMS, um em cada quatro jovens portugueses (23%) já pensou ou tentou suicidar-se. Os números são vistos pelos especialistas como alarmantes.

Para Maria Gouveia, professora no ISPA-Instituto Universitário, “os dados são bastante preocupantes. (...) São jovens que estão num enorme sofrimento psicológico e que não podemos desvalorizar. Muitas das suas preocupações estão ligadas com a sua insatisfação com a vida e com um vazio existencial”.

E esse vazio é, muitas vezes, descrito como um poço sem fim por quem o sente, um buraco negro cuja luz não entra e cuja gravidade empurra com cada vez mais força para o fundo. “Ter uma depressão é uma tristeza muito grande da qual não se consegue sair. É como se carregasse sempre uma pessoa às costas, estás a levar-te em esforço, não sabes como fazê-lo sozinha. Sabotas-te, não tens os mecanismos para entender o que é bom e o que é mau, o que leva a relações muito tóxicas, é uma bola de neve tão grande que se prolonga no tempo. Continuas a acordar, tomar banho, trabalhar, conviver com as pessoas, pareces bem. Eu sugava a energia boa das pessoas e depois ia para casa e não tinha nada, a tua realidade é vazia”. Ana Patrícia tenta explicar por palavras o que sentiu durante anos e que, em 2019, culminou no episódio que mais a marcou, mas que a fez parar, pensar e mudar.

Naquela altura, reconhece, “o álcool era já uma bengala, bebia sozinha em casa, estava tão sozinha e depressiva”, mas houve uma noite em que a bebida não foi a única companhia. “Tomei 30 Xanax com uma garrafa de vinho e mandei um vídeo a quatro pessoas a dizer adeus. Não me lembro deste momento, mas imagino de onde veio, quando tentas acabar com a tua vida significa que não consegues mais estar na pele onde habitas, o que é horrível, o mundo tem tantas possibilidades, mas naquele momento não há e não tens forças, só queria deixar de sentir”, recorda.

“Acordei numa poça de chichi, com uma ferida na cabeça depois de desmaiar, e super fraca, mas sem saber o que se tinha passado. As pessoas que receberam os vídeos tinham acionado os meus pais. Tomei um banho e tive de ir para o hospital, onde passei a noite a levar soro. A realidade cai-te em cima quando passas a noite na urgência do Santa Maria com bêbedos e sem-abrigo porque te tentaste matar. Mas lá no fundo sabes que não és aquilo, mas tens empatia pela pessoa que o fez”, continua.

De acordo com os dados do estudo da FFMS, os jovens que tentaram acabar com a sua vida ou pensaram nisso são 29% das mulheres e 17% dos homens. Sendo que “a proporção dos jovens que tentaram acabar com a vida ou pensaram nisso dispara entre os jovens que reúnem as seguintes características: 1) não se sentem satisfeitos com algum dos dois progenitores ou com nenhum deles; 2) são homossexuais, bissexuais ou assexuais; 3) os seus valores e forma de ser pertencem a alguma das duas tipologias de inseguros (sejam «solitários» ou modernos)”, lê-se no estudo.

Para Maria do Carmo, tudo o que diz respeito à saúde mental envolve esforço e superação, por parte de quem está fragilizado, mas também de quem está por perto. É uma vida de altos e baixos, de aprendizagem e erros, um trabalho constante que é colocado à prova a cada sinal de insegurança, mas que, diz, com o devido acompanhamento consegue ser alcançado com sucesso, mesmo que esse sucesso tenha de voltar a ser conquistado no dia seguinte, e no próximo e no próximo.

“Consegui chegar à conclusão que o meu valor não depende daquela nota, eu não sou aquele 17 ou aquele 18, não é a aprovação que determina o meu valor”, reconhece agora Maria do Carmo Candeias, que fala abertamente de saúde mental nas redes sociais. “Não tenho vergonha de nada do que passei, tenho orgulho em tudo o que superei, porque foi difícil, mas tive uma grande recuperação e trabalhei muito nesse sentido. Estou orgulhosa no que ultrapasso todos os dias. Se não consigo, sei perdoar a mim própria”, garante.

“Estes três anos, faz em fevereiro, mudaram a minha vida”, diz Ana Patrícia Cardoso, que faz terapia e está “completamente sóbria”. Deixou as amizades tóxicas e o estilo de vida de excessos e mudou-se para o campo, onde trabalha remotamente, vive com sete cães - “um amor condicional que não implica jogo de cintura” - e onde conseguiu encontrar o seu propósito: o seu próprio bem-estar. “Eu sou o meu melhor projeto e a minha melhor amiga, sei mais e melhor do que há três anos”, conclui.

Fonte: CNN Portugal por indicação de Livresco

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

UNESCO recusa digitalização da escola

A Comissão Internacional da UNESCO produziu um relatório, com o contributo de cerca de um milhão de pessoas de todo o Mundo, em que toma posição contra a progressiva digitalização da escola. A proposta de novo contrato social para a educação, em 2050, será apresentada hoje, a partir das 15 horas, por António Sampaio da Nóvoa, durante um webinar, promovido pela Universidade da Madeira.

Membro da Comissão Internacional da UNESCO e chair da comissão de redação que elaborou o relatório, Sampaio da Nóvoa revela ao JN que o documento defende que se deve proteger as escolas, e não o ensino à distância, a partir de casa, para permitir "viver em comum a experiência educativa". Aponta ainda como ideias centrais, na definição de políticas educativas, o desenvolvimento de pedagogias de colaboração, como atos de encontro, e a transversalidade dos currículos, com base na cooperação como elemento central do conhecimento. O embaixador de Portugal na UNESCO explica que o documento também sublinha a importância de "o professor ser visto como uma profissão colaborativa, não de um modo forçado ou imposto, mas porque faz parte de uma nova realidade". Consciente de que a educação vai muito além da escola, defende ainda a construção de dinâmicas intergeracionais, tendo em conta o aumento da esperança de vida. "É muito importante uma mudança dos sistemas educativos do século XIX, que se mantêm até hoje".

Pobreza não é fatalidade

O relatório aponta para o futuro da educação em 2050, data que, além de representar um "número redondo", ultrapassa os objetivos do desenvolvimento sustentável definidos para 2030. "Queríamos ir além disso e projetar-nos no espaço de uma geração. Cada vez mais as gerações são de 30 anos, porque as pessoas têm os filhos mais tarde", justifica Sampaio da Nóvoa. Convicto de que a pobreza, o analfabetismo e a iliteracia não são fatalidades, acredita que, "no espaço de uma geração, conseguimos mudar a educação no Mundo".

Dirigido a professores, educadores, pais e alunos, o relatório "Reimaginar os nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação" toma posição contra o individualismo e defende a educação como um bem público e as dimensões da solidariedade e da partilha. Sampaio da Nóvoa refere que, ao contrário do que é habitual, o documento não resulta das reflexões de um conjunto de especialistas, mas de ideias e de experiências adotadas pelo Mundo, que podem ser partilhadas ou inspirar outras iniciativas.

"Houve cerca de um milhão de pessoas de todo o Mundo que contribuíram para o relatório, cuja matriz tem como eixo estruturante a cooperação, através de sites, de plataformas, de encontros e de comentários em intervenções", refere o investigador. Desde especialistas a professores, educadores, alunos e pais, que, ao longo de dois anos, contribuíram para que a educação seja encarada como um bem comum global.

Fonte: JN por indicação de Livresco

Regime de antecipação da idade de pensão de velhice por deficiência

A Lei n.º 5/2022, de 7 de janeiro, cria o regime de antecipação da idade de pensão de velhice por deficiência.

1 - É criado um regime de antecipação da idade de pensão de velhice por deficiência para as pessoas que reúnam, cumulativamente, as seguintes condições gerais de elegibilidade:

a) Idade igual ou superior a 60 anos;

b) Deficiência a que esteja associado um grau de incapacidade igual ou superior a 80 %;

c) Pelo menos 15 anos de carreira contributiva constituída com a situação de deficiência e grau de incapacidade igual ou superior a 80 %.

2 - Ao cálculo do montante de pensão atribuída não é aplicável o fator de sustentabilidade, nem a penalização por antecipação da idade normal de reforma.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Crianças que contactem com caso positivo na escola não ficam em isolamento

A diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, esclareceu na quarta-feira que crianças que tenham contacto com um caso positivo de covid-19 na escola não ficam em isolamento.

Graça Freitas disse que só são considerados contactos de alto risco as crianças que vivam na mesma casa de alguém com covid-19, pelo que ficam isoladas, já que não têm reforço da vacina, disse em declarações (...).

“Nós, por norma, vamos considerar as crianças apenas contacto de alto risco se forem coabitantes de um doente”, pelo que essa criança fica isolada, porque “é um contacto domiciliário e as crianças não têm reforço”, explicou a diretora-geral da Saúde.

Uma criança com um contacto com um caso positivo na escola não fica em isolamento, disse Graça Freitas à Lusa, acrescentando que o que se pede aos pais é que sejam reduzidos os contactos e convívios e que essas crianças, dependendo da idade, usem máscara.

As crianças que ficam na escola fazem um teste ao terceiro dia, adiantou.

O Presidente da associação nacional de diretores de agrupamentos de escolas públicas espera que as novas regras da DGS cheguem rapidamente às escolas, já que o recomeço das aulas está previsto para dia 10, caso não haja alteração decidida pelo Governo.
(...)

Fonte: RTP


quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Jovens com deficiência. "Só queria que me dessem uma oportunidade"

Lutam para levar uma vida o mais normal possível e agarram os sonhos com o coração. Mas o caminho a percorrer para uma maior (e melhor) inclusão no mercado de trabalho é longo, tem pedras e muitas curvas.

André Filipe, natural de Beja, tem 27 anos de idade e é técnico superior no departamento de contabilidade da EDIA (Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva). Mas há uma particularidade: tem paralisia cerebral – o que obrigou a percorrer um caminho de esforço e esperança. “No primeiro ciclo tive alguns professores de apoio, mantendo sempre um currículo completamente normal. Inicialmente não se acreditava que fosse possível eu escrever manualmente, mas tive uma professora com bastante experiência que acreditou sempre em mim e, com trabalho, foi possível fazer o meu percurso escrevendo apenas manualmente”, conta (...). Desde o 8º ano que passou a realizar as avaliações através do computador, com o intuito de preparar os exames nacionais do 9º ano, não apenas por demorar mais a escrever, mas também para não haver o risco de ser penalizado na correção do exame devido à caligrafia não ser “legível” e o corretor “não estar habituado” a situações como esta. Quando foi para o ensino secundário escolheu Ciências e Tecnologias, tendo sempre como apoio a escrita no computador e a tolerância de tempo nas provas de avaliação. Não há paragens, há trabalho. André Filipe teve sempre o objetivo de continuar a estudar: é licenciado e mestre em Gestão pelo Instituto Politécnico de Beja, depois de ter frequentado o curso de Engenharia Informática – que se revelou não ser “bem aquilo que pensava”. Nalgumas alturas era assolado por dúvidas sobre a sua força, mas foi sempre combatendo as inseguranças. “O meu objetivo foi sempre fazer o melhor possível com aquilo que tinha disponível. Sempre tive o propósito de que o meu percurso escolar e académico não se extinguisse em si mesmo, mas sim que fosse um instrumento para atingir uma carreira profissional”, afirma. As dificuldades que encontra no dia-a-dia são sobretudo físicas e “derivadas das barreiras arquitetónicas”, algo que em casa e no local de trabalho não se verifica. Defende por isso que se torne “os locais acessíveis a todos”.

É preciso saber adaptar André Filipe sublinha que existe ainda um longo caminho a percorrer no que diz respeito à inclusão. “Basta olhar para o número reduzido de pessoas com algum tipo de limitação inseridas no mercado de trabalho”. A solução não pode passar por olhar para todas as pessoas da mesma maneira – importa perceber as diferenças que existem de caso para caso para haver adaptação. “É preciso avaliar e reconhecer as capacidades de cada um para que estas possam ser aproveitadas da melhor forma possível. Cultivar uma cultura de mérito, ou seja, não empregar uma pessoa com deficiência a pensar apenas nos benefícios económicos que daí possam advir ou numa perspetiva de caridade, mas sim nas suas qualificações”, salienta. O jovem contabilista quer poder continuar a utilizar as suas capacidades da melhor forma possível e afirma que o mais importante “é nunca desistir”.

10 anos à procura de emprego Para José (nome fictício), diagnosticado com síndrome de Asperger, os tempos não têm sido fáceis, tão pouco felizes. Enquanto esteve no ensino obrigatório, e devido ao seu problema, tinha uma rotina de estudo diferente da dos colegas. “No ensino secundário tinha aulas de manhã e de tarde e não conseguia estar o tempo todo concentrado”, começa por explicar. Em vez de entrar às 8h00 da manhã, como os outros alunos, entrava mais tarde, às 10h00, e saía às 16h30. Também as disciplinas eram diferentes: enquanto uns tinham Matemática A, José tinha Matemática para a Vida. O mesmo acontecia em épocas de avaliação. “Eles faziam testes e eu fazia fichas interativas”. José conta que não deixavam os alunos de educação especial interagir com os demais alunos da turma – uma separação que não considera saudável. Os alunos de educação especial poderem conviver com os outros alunos foi uma “luta” que sempre abraçou. “Sentia-me um bocado deprimido. Sentia-me triste”, descreve. Acabou o ensino obrigatório em 2011 e não seguiu o ensino superior. Mas não deixou de querer saber mais, até porque tem uma paixão pela área de informática, tendo-se inscrito num curso com a duração de dois anos. Também tentou tirar um outro, de uma área diferente, e que tinha uma duração mais curta – apenas seis meses. Mas acabou por ser expulso. “A hora de almoço era de meia hora a 45 minutos. Eu demoro 45 minutos a uma hora a comer. E não havia refeitório. Tinha de ir comer ao restaurante. O tempo que passava desde pedir o almoço e efetivamente comer era de uma hora e pouco. E depois assinalavam-me faltas”, explicita. Passaram 10 anos desde que José acabou o ensino obrigatório, tendo passado todo esse período no desemprego devido às suas limitações. “Não tenho conseguido arranhar nada.” Uma outra dificuldade prende-se com os transportes, já que “na maioria das zonas de Lisboa” não consegue deslocar-se sozinho. Encontra-se a viver com os pais. E não pede muito para o futuro. “Queria que me dessem emprego. Se possível na área de informática.”

Quis jornalismo, agora é músico A experiência de Rúben Portinha, de 34 anos, no ensino especial foi bem diferente. “O ensino de educação especial foi uma experiência muito boa. Tive excelentes professoras que me ajudaram a ter as ferramentas necessárias. Conheci muitas pessoas que várias problemáticas diferentes e que tiveram uma experiência não tão boa, mas eu tive mesmo muita sorte”, conta (...).

Porém, quando se tratou de entrar no mundo do trabalho, a sorte já não bateu à porta. Porquê? Porque Rúben é cego. “Não tenho dúvidas nenhumas de que infelizmente o meu azar no mercado de trabalho está relacionado com a minha incapacidade”, declara. Rúben Portinha partilhou dois momentos para justificar a sua tese. E que fazem voltar ao tempo da faculdade. Sendo uma pessoa que sempre se interessou pelo mundo da comunicação, Ciências da Comunicação foi a licenciatura que escolheu. Quando chegou o momento de realizar o estágio curricular, apareceram os primeiros entraves: “Fui com um amigo a uma entrevista de emprego. A diretora de recursos humanos não sabia que eu era cego. Passaram-se algumas semanas e o meu amigo começou o estágio. Não me disseram nada. Falei com a mesma senhora e confrontei-a de que era pelo facto de ser cego, situação que a deixou muito ofendida. Passados uns dias comecei o estágio”, recorda.

O jornalismo era uma paixão. E os louros não se fizeram esperar: Rúben chegou a receber um grande prémio de jornalismo de rádio. Na altura, o órgão de comunicação social disse que ia estar atento ao seu trabalho para o caso de precisarem de alguém. “Acontece que nessa redação já entrou e saiu muita gente e nunca mais disseram nada”, conta. “Só queria que me dessem uma oportunidade. Mas as redações funcionam a contra-relógio e sei que o facto de ser mais demorado a escrever iria ser um problema.” O jornalismo ficou pelo caminho e sem data prevista de retorno. Mas com a morte de uma paixão, eis que nasceu outra. Rúben Portinha é músico. Toca em vários sítios, tem dois álbuns e também colabora com outros artistas. Vive com a namorada e pensa em ter pelo menos um filho no futuro.

Acreditar, lutar e vencer “Sou um lutador”. É assim que Daniel Colaço, de 23 anos de idade e natural do Barreiro, se define. É surdo. Também no seu caso o apoio da educação especial foi crucial no para estimular o desenvolvimento. “Deu-me apoio para a tradução de intérprete de Língua Gestual Portuguesa, com o objetivo de ser uma ponte de comunicação entre alunos surdos e professores”, disse (...). E mesmo que o mundo seja mais calado, “não ser capaz” nunca foi uma opção. “Sinto que tenho capacidade para poder fazer aquilo que quero”. Daniel Colaço sempre pensou em continuar a estudar e frequentar o ensino superior “para ser um bom profissional” das áreas que escolheu: a informática e as novas tecnologias. Mas admite que não tem sido fácil. “Lutei muito pelo caminho da minha vida até agora e nunca deixei de perder. Um surdo é capaz de ter a capacidade para chegar ao ensino superior. O meu sonho também passava por usar o traje académico e ter a vida de um universitário.” O jovem estudante da Escola Superior da Tecnologia do Barreiro mora com os colegas, mas aos fins-de-semana na altura das férias vai para Brinches, no concelho de Serpa, onde os pais vivem. Considera que hoje em dia o mercado de trabalho está mais atento à inclusão e por esse motivo mais acessível. Mas ainda existem barreiras. Diz ser necessária mais “divulgação e sensibilização para a inclusão” e mostrar exemplos concretos de pessoas com algum tipo de deficiência que chegaram ao ensino superior e conseguem ser independentes. Para uma maior integração, defende que a língua gestual seja ensinada em todas as escolas. “O objetivo é que no futuro os ouvintes possam comunicar com mais facilidade com as pessoas surdas”. Mas se a comunicação já é difícil, com a pandemia de covid-19 ficou ainda mais – uma vez que as máscaras se tornaram numa barreira impenetrável para Daniel Colaço, que assim não consegue ler os lábios das pessoas com quem interage.

O seu sonho, partilha, é receber o diploma de licenciatura, conseguir um bom emprego e construir uma família. E deixa um recado: “Todos os jovens e adultos são capazes de fazer a vida que sonham. Não podem desistir. Não podem achar que não são capazes. Cada pessoa tem um diferente caminho de vida. É preciso confiar e ter coragem”.

Fonte: Jornal I

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

O universo do ensino de jovens com deficiência

André sofre de paralisia cerebral e José tem síndrome de Asperger. Rúben é cego e Daniel surdo. Todos eles têm sonhos. Todos eles lutam para uma maior inclusão. Mas existem barreiras no mercado de trabalho.

Lutam para levar uma vida o mais normal possível e agarram os sonhos com o coração. Mas o caminho a percorrer para uma maior (e melhor) inclusão no mercado de trabalho é longo, tem pedras e muitas curvas.

André Filipe, natural de Beja, tem 27 anos de idade e é técnico superior no departamento de contabilidade da EDIA (Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva). Mas há uma particularidade: tem paralisia cerebral – o que obrigou a percorrer um caminho de esforço e esperança. “No primeiro ciclo tive alguns professores de apoio, mantendo sempre um currículo completamente normal. Inicialmente não se acreditava que fosse possível eu escrever manualmente, mas tive uma professora com bastante experiência que acreditou sempre em mim e, com trabalho, foi possível fazer o meu percurso escrevendo apenas manualmente”, conta (...).

Continuação da notícia, indicada por Livresco, em Jornal I.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Alteração ao regime de avaliação de incapacidade das pessoas com deficiência

O Decreto-Lei n.º 1/2022, de 3 de janeiro, altera o regime de avaliação de incapacidade das pessoas com deficiência.

O decreto-lei procede:
a) À quarta alteração ao Decreto-Lei n.º 202/96, de 23 de outubro, alterado pelos Decretos-Leis n.os Decreto-Lei n.º 174/97, de 19 de julho, e Decreto-Lei n.º 291/2009, de 12 de outubro, e pela Lei n.º 80/2021, de 29 de novembro, que estabelece o regime de avaliação de incapacidade das pessoas com deficiência para efeitos de acesso às medidas e benefícios previstos na lei;
b) À criação de um regime transitório e excecional de emissão do atestado médico de incapacidade multiúso, como medida extraordinária no âmbito da pandemia da doença COVID-19.

domingo, 2 de janeiro de 2022

Pedagogia Waldorf. Crescer sem pressa, tal como se é

A pedagogia Waldorf surgiu em 1919 na Alemanha. É um método alternativo com mais de 700 escolas em todo o mundo que valorizam os trabalhos manuais, o contacto com a natureza, as experiências sensoriais. Há mais exemplos que respeitam a individualidade de cada criança.

Os planos não são fechados, nem estanques, nem formatados. Estimula-se o ato de brincar, a livre descoberta, a imaginação. Nas salas de aula, é possível amassar pão, modelar a cera das abelhas, costurar tecidos coloridos, usar materiais naturais como conchas da praia, troncos de madeira, cortiça. Há todo um processo de desenvolvimento neste percurso formativo que reúne as vertentes científica, artística, estética.

A pedagogia Waldorf foi fundada há mais de um século, em 1919, em Estugarda, Alemanha, por Rudolf Steiner, filósofo, educador, artista. Um pensador que defendia que “o nosso mais elevado objetivo deve ser a promoção do desenvolvimento de seres humanos livres, aptos a dar por si próprios sentido e direção às suas vidas”. Tudo começou numa escola para os filhos dos operários da fábrica de cigarros Waldorf-Astória com ideais e métodos pouco comuns na época, ainda hoje considerados alternativos.

A criança é um ser único, as experiências sensoriais nos primeiros anos de vida são essenciais, não se contraria a vitalidade dos mais novos, a criatividade e a imaginação são importantes, respira-se natureza. Mais de 700 escolas espalhadas pelo mundo seguem este método pedagógico até à entrada no ensino universitário.

Os sentidos e a liberdade, a ligação constante ao meio natural, a alegria de viver e a curiosidade são pilares deste método que chegou ao nosso país em 1984. Nos primeiros anos de vida, é o desenvolvimento motor e sensorial da criança que importa, não tanto os aspetos intelectuais e cognitivos. Brincar, expressar, criar, descobrir, sem seguir planos traçados nas agendas feitas por adultos. O ambiente educativo é construído para crescer sem amarras e sem pressas.

Cada criança é um ser único, com a sua própria bagagem, que dá e recebe, que aprende e ensina nessa descoberta do mundo, num crescimento livre e em harmonia com a natureza. Com tempo e espaço para aprender. É um método que se preocupa com a alimentação e com o consumismo, que investe numa maior e permanente ligação à natureza.

Criatividade, responsabilidade, independência. Não há avaliação com números, há um relatório feito por todos os professores no final do ano, valoriza-se o empenho, destaca-se o esforço. Não há chumbos, há várias fases de desenvolvimento naturais e salutares, e espera-se entreajuda na turma. Aprendem-se duas línguas desde o primeiro ano, segue-se o currículo Waldorf com as disciplinas habituais do ensino convencional, há disciplinas individuais, os livros dos primeiros anos são feitos pelos alunos, os temas tornam-se mais complexos no secundário. A essência nunca se perde para desabrochar competências inatas únicas nessa caminhada da educação, da descoberta de cada um e do mundo.

A autoconsciência, a flexibilidade cognitiva, o espírito crítico, a capacidade para preservar a própria identidade. Todas estas componentes interessam no percurso desta pedagogia que cultiva competências para aprendizagens contínuas ao longo da vida. E os pais são sempre peças fundamentais neste caminho.

Forest Schools

Ensinar e aprender não são processos com um sentido único. Há mais métodos alternativos além da pedagogia Waldorf. Em meados do século passado, na Escandinávia, surgiu o conceito Forest School. São escolas na floresta e Portugal tem alguns exemplos. Aprender em contacto constante com a natureza, não em salas fechadas, valorizando-se o ambiente natural para que as crianças corram riscos, desenvolvam atitudes positivas para que, no futuro, sejam adultos confiantes, ativos, independentes.

Corre-se, brinca-se, sobe-se às árvores, escavam-se buracos na terra, enchem-se os pulmões de ar puro. Respeita-se a individualidade, exploram-se as componentes sociais, emocionais e físicas. As atividades são planeadas em conjunto com os mais pequenos num trajeto que coloca na linha da frente o pensamento criativo, as emoções, a comunicação, a resiliência.

Método Montessori

Itália foi o berço de outro modelo alternativo. O Método Montessori nasceu no início do século XX, depois de Maria Montessori, uma das primeiras mulheres a estudar Medicina em Itália, ter percebido que havia caminhos por desbravar. Dedicou-se à antropologia pedagógica, abriu uma escola nas redondezas de Roma adaptada às necessidades e curiosidades dos mais novos.

A criança é protagonista do seu caminho, escolhe os temas que lhe interessam, decide o tempo que quer dedicar a cada assunto, as vezes que quer repetir cada atividade. E assim aprende e entende como pode enfrentar dificuldades e gerir frustrações. Os adultos acompanham as aprendizagens e interferem o mínimo possível, observam, estão atentos, preparam os ambientes. A criança está sempre no centro da sua própria aprendizagem.

Sara R. Oliveira