sexta-feira, 8 de maio de 2026


Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos de um estudo da Edulog que acaba de revelar que no final do primeiro ano de escola, um quarto das crianças portuguesas não consegue ler mais de 21 palavras por minuto. As diferenças não começam na escola, começam muito antes, em casa. Olá, Eduardo. Quando falamos de desigualdade de origem, estamos a falar de que exatamente? De livros em casa, de tempo, da linguagem dos pais?

Olá, Judite. Estamos seguramente a falar disso tudo. Estamos a falar da qualidade da linguagem dos pais, estamos a falar da atenção que os pais dão à leitura e aos livros, por mais que deem cada vez uma atenção mais fina e mais acutilante. Ainda assim, como é óbvio, há muitas discrepâncias entre as diversas crianças no contato com a leitura e com os livros. Estamos a falar também da forma como em casa se acarinham os livros e eles existem e de certa forma se tropeça um bocadinho neles e aí as diferenças são, se calhar, ainda mais significativas.

Há uma coisa intrigante neste estudo.

De gratidão e de reconhecimento.

Peço desculpa, Eduardo, deixamos de o ouvir. Eu achei que tinha parado. Pode retomar.

Eu estava a lhe dizer que, de facto, há depois a particularidade também da maneira como se convive com os livros numa casa, o número de livros e a relação de cada um dos pais com eles, que são a melhor forma de dar coordenadas a uma criança pra que ela perceba que a leitura e os livros são objetos muito preciosos, que têm que ser tratados com seriedade e com carinho.

As diferenças, segundo este estudo, começam no pré-escolar, antes da criança aprender a ler. O que acontece nesta fase que já cria essa vantagem ou essa desvantagem?

Judite, a maneira como eles escutam histórias. O número de histórias contadas antes de entrar no primeiro ano do primeiro ciclo, faz muita diferença. Quando nós comparamos o primeiro ciclo das crianças portuguesas com alguns países escandinavos, a diferença é muito significativa e logo aí elas têm acesso a um número de vocábulos e a uma versatilidade dos vocábulos que as torna mais capazes de analisar aquilo que ouvem e aquilo que de alguma forma aprendem a ver nos livros. Por outro lado, é muito importante que nós possamos perceber que a educação visual e a educação musical são muito importantes pra leitura, porque é uma maneira de começar a conjugar um traço mais ou menos uniforme com o som que se adequa. E é aí que eu às vezes fico muito preocupado, porque há jardins de infância que querem pô-las muito rapidamente a ler, quando é muito mais bonito quando elas compreendem aquilo que estão a fazer, porque logo a seguir ultrapassam todas as crianças que, de certa forma, foram empurradas para uma compreensão muito precoce, muito apressada da leitura. Portanto, essas variantes ajudam-nas a criar os alicerces para que depois aprendam a ler com tudo o que isso implica. Que fique claro, leitura é o melhor amigo da saúde mental. Eu gostava que isso ficasse claro, e é pra todas as idades. E, portanto, quanto mais as crianças são capazes de ler, mais são capazes de expressar aquilo que sentem, mais são capazes de verbalizar em função das coisas que intuem. E, portanto, um instrumento que aparentemente parece tão escolar é muitíssimo mais vasto e abre-lhes horizontes que os ajuda a ser seguramente mais saudáveis.

Um pai com uma escolaridade menor que tente compensar isto, é muito difícil, é uma desvantagem que já percebemos que é difícil de reverter. E isto significa que o elevador social que é a escola está a ficar engasgado logo desde o início.

Muito constipado, Judite, porque o pai é um protagonista muito importante nas aprendizagens, mas a mãe consegue ser ainda mais por uma razão simples, porque as mães chamam a si, com a complacência dos pais, a relação com a escola. E, portanto, há uma correlação claramente mais positiva entre a escolaridade da mãe e a forma como ela lida, nomeadamente com os livros e com a leitura, e a relação que as crianças acabam por ter com o português à medida que vão aprendendo. E nessas circunstâncias, é como disse, nós falamos muito do elevador social e esquecemos que há muitas crianças que não têm a educação pré-escolar que deviam ter e não têm os recursos dentro de casa que fariam com que elas estivessem em pé de igualdade umas com as outras. E, portanto, elas começam já numa atmosfera de desigualdade, com tudo o que isso pode trazer de prejudicial à sua relação com a escola.

A escola aqui tem uma missão especialmente difícil, que é receber crianças com pontos de partida muito diferentes.

É o desafio de todos os professores.

Todos os dias.

Até porque ensinar as crianças e tentar pôr uma paridade possível nesta diversidade fantástica que é uma turma de meninos que estão a aprender, não é só uma questão de técnica, é de paixão e, sobretudo, uma arte, sem dúvida absolutamente nenhuma. E é aí que eu às vezes tenho medo que nós estejamos perigosamente de cronômetro a tentar perceber quantas palavras é que eles são capazes de dizer no minuto ou de ler, nomeadamente. E às vezes não perdemos tanto tempo a perceber o trabalho invisível que cada professor, nomeadamente no primeiro ano de escolaridade, acaba por ter, porque se tiver um trabalho árduo, mas que resgate estas crianças, nomeadamente para a leitura, nós estamos a fazer, aí sim, com que os professores, mais do que a escola, sejam quem mais democratiza o mundo e mais põe crianças muito diferentes, saudavelmente diferentes, a terem portas de entrada, elas mesmas distintas em relação ao conhecimento, mas a tentar uniformizá-los num corpo de conhecimentos que no final acabem por ser verdadeiramente fantasiosos para eles.

Tarefa bem difícil, Eduardo.

Muito difícil.

Hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema. Um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Outros para si e até amanhã, Zita.

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Fonte: Observador por indicação de Livresco

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